No noticiário, o ineditismo e a grandiosidade dos eventos iniciam ciclos de atenção que mobilizam o público em torno da pauta quente do momento. Passado algum tempo do despontar da novidade, a narrativa pode ganhar verniz de “mais do mesmo” e tornar o público menos engajado. Em tempos nos quais estamos superexepostos à informação, é fácil iniciar um novo ciclo ao tomarmos conhecimento sobre outro assunto mais recente e que também desperta nosso senso de urgência.
Tal processo pode ser perverso especialmente para o jornalismo ambiental porque dá a entender que os fenômenos são isolados – justamento o contrário do que o jornalismo ambiental defende. Se nos últimos meses o assunto predominante no noticiário nacional foi o excesso de água no Rio Grande do Sul, essa cobertura vai minguando aos poucos, mesmo que parte da população siga desassistida e que ainda haja disputa, por exemplo, sobre as medidas necessárias para a recuperação do estado.
Enquanto isso, emergem notícias sobre outro tópico preocupante: o combate aos incêndios no Pantanal, que tem sido pauta recorrente no Jornal Nacional, da TV Globo, nas últimas semanas. Assim como as enchentes no Rio Grande do Sul, o assunto não é necessariamente novo, tendo em vista que o bioma já havia sido gravemente atingido pelo fogo em 2020.
Mas, assim também como no caso gaúcho, o ciclo de atenção é despertado pelos tristes recordes associados à intervenção humana nos ambientes naturais. As queimadas de agora são ainda piores do que as de 2020, e ainda nem estamos no período mais crítico da estação seca, quando essas ocorrências são mais comuns no bioma.
Nesse contexto, é fundamental que jornalistas recorram à ciência para explicar a conexão entre esses fenômenos, que são cada vez mais intensos e frequentes devido às mudanças climáticas e à degradação dos biomas. Um levantamento da plataforma MapBiomas sobre a perda de mais de 30% da superfície de água no Brasil entre 1985 e 2023 foi fio condutor de um episódio do podcast O Assunto, do G1, em 8 de julho.
O programa menciona que o Pantanal foi o bioma mais afetado, com 61% da perda de água no país, o que contribui para a crise atual e para a descaracterização desta que se trata da maior planície alagável do planeta. Além disso, o coordenador técnico do MapBiomas, Marcos Rosa, ressalta que o bloqueio da umidade sobre o norte do Rio Grande do Sul, por conta de fatores como a mudança na temperatura do Oceano Atlântico, agravou tanto as chuvas no estado como a estiagem ao norte.
O podcast alerta, ainda, para o novo período de seca que se inicia na Amazônia, lembrando do paradoxo que existe em habitantes da maior bacia hidrográfica do mundo, a do rio Amazonas, sofrerem com a sede. Por fim, Rosa frisa a responsabilidade de representantes do agronegócio, setor que depende diretamente da boa gestão da água e que precisa recusar o negacionismo científico para se adequar às mudanças, cada vez mais aceleradas, das condições climáticas.
Este é um bom exemplo de como o jornalismo pode se aprofundar nos fenômenos cujos impactos já sentimos na pele. Além de ouvir a ciência para basear essa narrativa, jornalistas podem flexibilizar o ciclo de atenção, tecendo relações entre as transformações que vêm ocorrendo nos biomas brasileiros.
Para aprimorar a compreensão do público sobre de quem são as responsabilidades pelo cenário atual, o jornalismo pode apostar em mais investigações de fôlego sobre causas e consequências dessas crises. Desta forma, o assunto pode se manter no noticiário a partir de abordagens que se aprofundam no tema e, ao mesmo tempo, o situam em um cenário complexo de transformações ambientais.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.
Retomada da vida cotidiana com a descida das águas torna o desafio ainda maior / Foto: Isabelle Rieger/Sul21
Por Isabelle Rieger** e Ilza Maria Tourinho Girardi*
O desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024 mostrará seus efeitos a longo prazo. Passados dois meses do início, mais de 90% dos municípios revivem os impactos. Foram atingidos tanto o meio urbano, quanto rural e litoral. Inclusive na capital gaúcha, a inundação persiste em pontos como no bairro Guarujá, na Zona Sul de Porto Alegre. No centro e em bairros vizinhos, o alagamento foi controlado. Neste contexto, meios hegemônicos estão focando em notícias voltadas para a reconstrução do estado, ou seja, em um suposto jornalismo de soluções. Como se o enfrentamento da tragédia fosse igual para todos os moradores das áreas atingidas, independentemente de classe social, raça e gênero. Como se não houvesse responsabilidades também dos governos estadual e municipal a serem cobradas.
Zero Hora anunciou um compromisso que remete ao jornalismo de soluções:uma nova seção “com reportagens especiais sobre obras, projetos, mobilizações, bons exemplos, negociações, cobranças de promessas e tudo que diz respeito ao maior desafio já vivido pelos gaúchos”. No entanto, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) conceitua o jornalismo de soluções como “uma prática jornalística criteriosa como todo o jornalismo deve ser”. A questão é que o fio condutor da reportagem é uma solução. Ou seja, é a cobertura rigorosa e baseada nas evidências das respostas a problemas sociais.
Quando falamos de um evento com essa magnitude e complexidade, como foram as enchentes de maio nos municípios gaúchos, é difícil achar soluções rápidas e simples. A posterior tentativa de retomada da vida cotidiana com a descida das águas e o aparecimento da lama tornam o desafio ainda maior. Para que um evento climático extremo agravado por interferência humana não aconteça de novo, precisamos de uma mudança radical na forma de produção. Por isso, necessitamos de perspectivas como a do decrescimento e pós-extrativismo de Alberto Acosta e Ulrich Brand, que caminham para um cenário de justiça social e ambiental.
Na contramão desta ideia, a capa da Zero Hora do último final de semana chamava para a reportagem “Mesmo sem recorde, colheita de soja deve ajudar na retomada gaúcha”. Quando entramos no texto, descobrimos mais do mesmo: não há crítica nem aos agrotóxicos apesar da conhecida edição de 2024 do Atlas dos Agrotóxicos informar que: “a despeito dos ganhos econômicos, o uso destas substâncias tem ocasionado um severo impacto na saúde da população brasileira: entre 2010 e 2019, 56.870 pessoas foram intoxicadas com agrotóxicos no Brasil. Há, assim, uma média de 5687 casos por ano, ou 15 pessoas diariamente”. Um severo impacto não computado pela economia do agronegócio!
Ainda, para a soja avançar nessas áreas, significa que tem que haver supressão da vegetação nativa. Dados produzidos pelo MapBiomas mostram que, entre 1985 e 2022, o Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação nativa. Isso é o equivalente a 22% de toda cobertura vegetal original presente no Estado em 1985 formada por florestas, campos, áreas pantanosas e outras formas de vegetação nativa. Os dados mostram ainda que ao mesmo tempo em que isso acontecia, houve um aumento vertiginoso de lavouras de soja e da silvicultura.
Desta forma, a economia da qual a Zero Hora se refere é apenas material. Não se leva em conta os danos na saúde das pessoas afetadas na cadeia de produção de soja, assim como não são mencionados os impactos ambientais do plantio extrativista deste grão. Sendo esta uma das reportagens destacadas da edição de final de semana, parece que só há um caminho para a retomada na economia gaúcha e que ele passa, obrigatoriamente, pela soja. Esta apresentação em forma de solução é, na verdade, uma outra forma de semear monofuturos sem espaço para a pluralidade.
No entanto, enquanto repórteres, editores e comentaristas, devemos ao público uma prática engajada na proteção do meio ambiente e dos direitos humanos. Defendemos que isso faz parte dos pressupostos da área do Jornalismo Ambiental, que visa uma prática decolonial e respeitosa com todos os seres.
*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com.
**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com.
Centro Histórico de Porto Alegre 13 de maio de 2024 / Foto: Isabelle Rieger/Sul21
Por Cláudia Herte de Moraes* e Luana Novaes Scatigna**
Seguimos acompanhando a situação do Rio Grande do Sul, que sofre de forma dramática as consequências de vários eventos climáticos extremos nos últimos meses, que atingiram mais de 2 milhões de pessoas no estado. O maior destaque foi dado a partir da inundação da capital Porto Alegre, durante o mês de maio de 2024. Entendemos que a tragédia gaúcha é um fato propulsor de várias abordagens e temas no jornalismo. Por esse motivo, a ponto de completarmos 60 dias das chuvas intensas, nossa atenção se volta para a chamada fase da reconstrução. Diante do desafio de que outros eventos extremos devem ocorrer no futuro, os investimentos de agora devem ser focados na construção de resiliências, como apontaram diferentes especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato ainda em maio. A partir do mês de junho, a maior parte das reportagens pontua a necessidade de recolocar a vida no RS em algum cenário de “normalidade”.
Esta fase envolve inúmeras tarefas, especialmente advindas da intervenção dos poderes públicos, como pacotes de ajuda financeira e respostas governamentais. Diante disso, nos perguntamos de que forma os portais de notícias têm falado sobre esse processo? Para nossa análise crítica, selecionamos reportagens jornalísticas publicadas em portais brasileiros durante o mês de junho, excluindo-se artigos de opinião e publicações de portais de governos. Com a expressão “reconstrução da tragédia do RS” colocada na pesquisa avançada, filtradas pelo mês e por notícias mais relevantes do Google, foram analisadas quinze matérias de nove diferentes portais de notícias: Folha de São Paulo, Correio Braziliense, Terra Brasil, GZH, Correio do Povo, G1, O Globo, Sul 21 e CNN.
As enchentes recentes evidenciaram falhas no planejamento urbano do passado, que contribuíram para a vulnerabilidade do estado a eventos climáticos extremos. Os jornalistas precisam destacar os projetos sobre ocupação territorial e os fatos negligenciados no passado, para que haja uma mudança de paradigma na reconstrução do estado. Também é necessário que se trate de forma mais ampla os princípios de sustentabilidade e resiliência. Isso inclui a implementação de medidas de gestão de riscos, com sistema de alertas à população, a integração de soluções de infraestrutura verde e a promoção de práticas socioeconômicas a partir dos limites ambientais.
Pautas como o auxílio anunciado pelo governo federal na recuperação das áreas afetadas e a visita do presidente Lula foram recorrentes no período analisado. Em meio a essas discussões, questões ambientais foram pouco citadas. Com a leitura das matérias, ficou evidente que a grande maioria abordou predominantemente questões políticas e econômicas relacionadas à reconstrução, e apenas três citaram informações socioambientais.
As matérias encontradas com a temática ambiental abordaram propostas e preocupações pertinentes. Essas notícias destacaram um alerta vermelho para a reconstrução do estado, tendo em vista que algumas obras colocam em risco os meios de subsistência e a biodiversidade (Sul 21), incluindo a necessidade de incorporar medidas de resiliência climática (Correio do Povo). Também o tema da conservação ambiental e a importância de incluir ambientalistas no Conselho do Plano de Reconstrução do RS para sugerir uma série de ações relacionadas ao monitoramento, análise de risco e alerta, bem como medidas de adaptação e mitigação e resiliência climáticas (Sul 21).
Nesta fase de reconstrução, o jornalismo pode refletir melhor sobre diferentes projetos de desenvolvimento que estão sendo colocados ao público Os veículos podem desempenhar um papel essencial para uma mudança de paradigma, promovendo ações preventivas, como a necessária regeneração ambiental pós-desastre, que inclui a nossa própria relação com a natureza. No entanto, neste breve levantamento, percebemos que essa pauta de fundo não é tão tratada como deveria.
Aprimorar a educação ambiental é essencial para qualificar o debate público sobre a reconstrução, pois este deveria estar baseado em efetiva participação social. É preciso ouvir gestores, cientistas, comunidades e os ecossistemas visando a incorporação da dimensão ambiental na cobertura jornalística, para cumprir com a responsabilidade de informar e educar o público sobre os desafios socioambientais. Portanto, o jornalismo deve apostar neste diálogo construtivo sobre soluções alternativas e sustentáveis para nosso estado, o que pode nos dar alguma esperança de que isso não se repita no futuro.
* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br
**Estudante de Jornalismo na UFSM, voluntária de iniciação científica. E-mail: luana.novaes@acad.ufsm.br.
Simples alteração na legislação ambiental ganha pouco destaque na imprensa, mas tem grande potencial de agravar impactos ecológicos.
Diferente das grandes catástrofes ambientais, provocadas tanto por eventos climáticos extremos, acidentes ou crimes ecológicos que causam grandes danos, mortes e comoção social, pequenas alterações na legislação ambiental até surgem no radar das grandes redações, mas não ganham o destaque necessário em função dos impactos que promovem.
É o caso da Lei nº 14.876, de 31 de maio de 2024, que modifica a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938 de 1981) e exclui o cultivo de eucalipto, entre outras espécies de árvores plantadas para fins de corte, da lista de atividades consideradas potencialmente poluidoras e utilizadoras de recursos ambientais. A lei foi proposta pelo senador Álvaro Dias (Podemos), ex-governador do Paraná, e teve a sanção do presidente Lula. Com a medida, as empresas de silvicultura, que produzem monoculturas de eucalipto, pinus e outras espécies, não precisam mais de licenciamento ambiental, nem pagar a Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental (TCFA) ao Ibama. Na prática, a nova lei flexibiliza a legislação, enfraquece o sistema de fiscalização e desonera grandes empresas de celulose, inclusive multinacionais, como é o caso da chilena CMPC, com operação no Rio Grande do Sul, e gigantes do setor como Klabin, Suzano, Bracell, Arauco e Internacional Paper, com atuação no Mato Grosso do Sul, entre outras.
Um estudo da Universidade Federal de Lavras – Erosão hídrica pós-plantio em florestas de eucalipto na bacia do rio Paraná, no leste do Mato Grosso do Sul – aponta que a erosão hídrica, o desgaste provocado na superfície terrestre por ação das chuvas, interfere na cobertura do solo e influencia no escoamento das águas. Esse fator seria um gancho (termo jornalístico) perfeito para relacionar, por exemplo, com as situações que ampliaram os impactos das enchentes em comunidades do Rio Grande do Sul. A questão poderia ser relacionada com o corte de matas ciliares das margens do rio Taquari que tiraram as proteções do curso d’água e, respectivamente, das cidades atingidas pelo alagamento.
O tema da legislação da silvicultura é tão importante e está tão ligado às questões ecológicas e climáticas que a falta de debate – ou da promoção do amplo debate pela imprensa – gera um vácuo de informação perigoso, que só interessa às motivações políticas e econômicas do negócio.
Em setembro de 2023, o portal Sul 21, que tem dado grande atenção à pauta ambiental no Rio Grande do Sul, noticiou que “Sob crítica de ambientalistas, Consema aprova novo Zoneamento Ambiental da Silvicultura”. Na linha de apoio da manchete, o jornalista Luciano Velleda expõe que “Áreas de plantio poderão ser quatro vezes maior, com potencial de causar mais perda dos campos nativos do Pampa”. Naquele período, os gaúchos também enfrentavam problemas com as enchentes. Ao jornalismo do Sul 21, que tem ambientalistas entre suas fontes, não faltou faro para perceber que “Enquanto o governo estadual e a sociedade civil se mobilizam para socorrer a população das cidades do Vale do Taquari devastadas pela enchente que já matou 48 pessoas, enquanto especialistas e ambientalistas debatem as causas e consequências da mudança climática e como isso afeta o Rio Grande do Sul, o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) aprovou, na última quinta-feira (14), a atualização do Zoneamento Ambiental para a Atividade da Silvicultura (ZAS) no estado”. Essa “atualização” amplia a área infestada por pinus e eucaliptos de, aproximadamente, um milhão para mais de quatro milhões de hectares.
A aprovação pelo Consema é criticada porque o órgão, que deveria servir para aprovar políticas de proteção ambiental, está dominado por entidades do setor empresarial e tem maioria decisiva do governo gaúcho, que, por sua vez, nas gestões de Eduardo Leite (PSDB), e na anterior, de José Ivo Sartori (MDB), está à serviço do mesmo setor empresarial que domina o Conselho. As alterações do ZAS, que até então tinha redação dos técnicos ambientais da Fundação Estadual de Proteção Ambiental do RS (Fepam), foram feitas às pressas, nos mesmos moldes (modus operandi) do que foi executado na flexibilização do Código Estadual do Meio Ambiente pelo governo Leite em 2019, que alterou diversos dispositivos legais em apenas 75 dias, um contraste com a construção do Código original, que foi debatido com a sociedade durante nove anos e aprovado por unanimidade. Um tema dessa magnitude e proporção não deveria ser alterado apenas em gabinetes.
A reflexão que proponho aqui não está, necessariamente, ligada à existência ou à falta de inclusão das notícias nas páginas e telas da imprensa, mas sim à forma como os fatos ambientais são tratados por jornalistas e veículos.
Na linha oposta do exemplo que apresentei acima, do Sul 21, uma mídia não-hegemônica – nos termos propostos pela pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental e professora da Ufrgs Eloisa Loose Beling –, trago uma concepção de abordagem publicada pela jornalista Gisele Loeblein no jornal Zero Hora, um veículo hegemônico com relações comerciais com os setores do agronegócio e da silvicultura. A chamada da pequena matéria, pouco mais do que uma nota, que apresenta apenas um lado da questão, promete oferecer respostas para “O que muda com a lei que tirou as florestas plantadas da lista de atividades poluidoras”. Logo no primeiro parágrafo, a jornalista diz que “A implementação no Rio Grande do Sul da lei federal que exclui a silvicultura das atividades consideradas poluidoras precisa passar por análise do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema)”. Para o leitor que não conhece o contexto do Consema, como explicado acima, pode parecer que a lei só passará a integrar a regulamentação estadual após um órgão de proteção ambiental aprova-la. Isso seria o suficiente para tranquilizar esse leitor. Mas a matéria não para por aí, ela segue com a nota da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (faltou a palavra “Infraestrutura”, que passou a fazer parte do nome da Secretaria no governo Leite).
Percebe-se que a nota da Secretaria é a informação que abre a matéria, dizendo que precisa “passar pela análise do Consema”. As demais falas que integram a matéria são do presidente da Indústria Brasileira de Árvores, Paulo Hartung, que comemorou a medida e criticou os “entraves burocráticos” que “vinham ‘travando investimentos’”; e do representante da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Domingos Velho Lopes, que informa haver uma projeção de ampliação de 322 mil hectares de “floresta plantada” para o período 2020 a 2023.
Neste caso, não foram ouvidos ambientalistas, nem pesquisadores das universidades sobre o tema, um caso claro de desinformação proposital em um veículo da maior empresa jornalística do Rio Grande do Sul, o Grupo RBS, afiliado à Rede Globo.
Espero que, com a reflexão sobre esse tema – que pode parecer menor do que realmente é, daí o título “Pequenas notícias, grandes negócios”, inspirado no tradicional programa “Pequenas empresas, grandes negócios” –, tenhamos conseguido, mais do que apontar o dedo para um ou outro exemplo, colaborar com o processo de amadurecimento e evolução de um jornalismo consciente diante das pautas ambientais. Uma prática jornalística com visão abrangente sobre os reflexos e interconexões ecológicas, sociais e, inclusive, de relações geopolíticas relacionadas ao uso e exploração do ambiente natural para fins comerciais e de sobrevivência, é fundamental.
Temos o desafio de abordar temas complexos, muitas vezes vitais, e prepara-los para serem apresentados à sociedade com integridade, linguagem adequada e uso de recursos disponíveis para propiciar maior compreensão às pautas e exercer a confiabilidade inerente à nossa profissão, entregando informações fidedignas e importantes.
*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).
Imagem: As ruas de Porto Alegre em indesejada simbiose com o Guaíba / Isabelle Rieger / Sul21
Por Sérgio Pereira*
O Rio Grande do Sul busca se reerguer de sua maior tragédia ambiental. Até o momento, foram mais de 170 mortos, centenas de feridos e milhares de desabrigados. O cenário é de grande destruição, o que resultou na quase paralisação do estado desde o início de maio. O Aeroporto Internacional Salgado Filho segue fechado, a rodoviária de Porto Alegre e o trem metropolitano ficaram por dias inoperantes, hospitais e escolas foram inundados, como também diversos prédios públicos.
A imediata reação da sociedade diante desse quadro foi, inicialmente, priorizar a preservação da vida. Todos os esforços foram direcionados para resgates, atendimento médico, acolhimento e apoio às vítimas. “Não é hora de procurar culpados”, era o que diziam não apenas os supostos culpados, mas também representantes da imprensa hegemônica gaúcha.
O que não se observa na grande mídia é justamente uma discussão sobre as suas responsabilidades, principalmente no que se refere à omissão frente aos possíveis riscos ambientais. Ao silenciar, esse Jornalismo não só se prepara apenas para “cobrir catástrofes, mas ele próprio é cúmplice do desastre” (Loose, Camana e Belmonte, 2017, p. 12).
Após as chuvas de setembro e novembro de 2023, em menor volume que as da enchente de maio de 2024, mas também bastante intensas, fica a pergunta: porque o Jornalismo hegemônico gaúcho não se interessou em verificar as reais condições dos sistemas de proteção existentes em Porto Alegre (muro da Avenida Mauá, comportas, casas de bombas, diques)?
Loose, Camana e Belmonte elencam três razões para que os jornalistas não se sintam estimulados em cobrir riscos ambientais: “1) a incerteza científica por si só, típica dos riscos, não atrai os jornalistas, que buscam concretudes; 2) se não há uma medida do governo ou outra instituição em relação à prevenção, é muito provável que o risco seja ignorado e, portanto, não percebido – o que desencoraja o valor-notícia da estória; e 3) o risco refere-se a projeções e os jornalistas trabalham com acontecimentos – a manifestação do risco é um gatilho necessário para a produção jornalística” (2017, p. 4).
A realidade atual das redações é outro ingrediente a ser pesado nesta hora. Nos últimos anos, jornais gaúchos dispensaram diversos profissionais experientes com o objetivo de reduzir custos. As redações diminuíram de tamanho e no lugar dos “dinossauros” foram contratados jovens atualizados nas novas tecnologias e cada vez mais multitarefas, mas sem os “calos” fundamentais da profissão diante dos grandes desafios. Com isso, os veículos perderam um conhecimento valioso para oferecer aos seus leitores.
O fim da setorização nas editorias também colabora para esse distanciamento das chamadas pautas de alerta. Aquela figura do jornalista figura frequente nas repartições públicas, colecionador de fontes, conhecedor dos atalhos está praticamente extinta. Quantas pautas premiadas nasceram da informação de cocheira ou da mera observação do setorista nesse acompanhamento presencial!
O papel da imprensa na polêmica envolvendo a autorização para importação de arroz por parte do Governo Federal é outro ponto a analisar. Muitas foram as críticas em relação à medida. O que pouco se fala agora é que foi a imprensa que alertou, dias antes do anúncio, para a possibilidade de faltar o produto no mercado, o que resultou em uma corrida consumista ainda mais intensa.
No dia seguinte, GZH voltou a abordar o tema: “Por que a chuva intensa trará perdas importantes na produção do RS”. A declaração do presidente de entidade que representa os arrozeiros indicava para grandes danos ao setor: “É cedo para precisar as perdas, mas uma coisa é certa: o prejuízo não é pequeno, porque em muitas regiões passou de 300 milímetros a chuva”.
No dia 2 de maio, o Correio do Povo postou a reportagem “Chuvas isolam produtores rurais do RS”. No texto, o CP abordava também a questão do arroz, informando que lavouras estavam inundadas. O jornal se utiliza de uma nota oficial da entidade representativa dos orizicultores, que “colocou-se à disposição e reiterou seu ‘compromisso em garantir a segurança alimentar do povo brasileiro, apesar das incontáveis dificuldades e instabilidades enfrentadas pelos produtores rurais’”.
Cabe aqui lembrar o caso também da Jovem Pan News (JP), que no dia 7 de maio veiculou reportagem em seu canal de TV com o título “Produção de arroz do RS deve ter prejuízo de R$ 68 milhões”. A matéria especulava sobre a possibilidade de elevação nos preços do cereal nas gôndolas dos mercados e nos índices de inflação. A JP, porém, não escutou nenhum produtor ou entidade representativa da categoria, tendo como fonte principal uma consultoria privada.
Impossível relacionar aqui todos os veículos do país que divulgaram o sumiço de produtos nos comércios locais e também levantaram estimativas de prejuízos no setor rural após as chuvas de maio.
A decisão do governo de importar arroz, portanto, veio ao encontro do que relatava a imprensa em geral, em rápida ação justamente com o objetivo de repor estoques e evitar os preços abusivos. A divulgação dos dados sobre a cesta básica pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no início de junho comprova que o cereal foi o segundo produto que registrou a maior elevação de preço em maio, com 13,24% de aumento. E várias foram as notícias, em diversas partes do Brasil, de arroz com preços exorbitantes nas prateleiras dos mercados.
Uma autoanálise por parte do Jornalismo nesta hora seria importante até em nome de sua sobrevivência. A credibilidade se solidifica com os acertos, mas também na admissão do erro, do exagero, da abordagem equivocada. E neste momento, em que o Jornalismo encontra a concorrência das redes sociais, da superoferta de informações, dos “fatos alternativos”, conquistar a confiança do consumidor de notícias passou a ser ainda mais fundamental.
*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.
Referências
LOOSE, Eloisa Beling; CAMANA, Ângela; BELMONTE, Roberto Villar. A (não) cobertura dos riscos ambientais: debate sobre silenciamentos do jornalismo. Revista Famecos: mídia, cultura e tecnologia, v. 24, n. 3, p. 1-18, 2017.
O Rio Grande do Sul sofreu o maior desastre ambiental de sua história, e um dos maiores nacionais, num evento climático sem precedentes em território brasileiro. A cobertura da grande imprensa nacional foi intensa — ainda que incompleta — e veículos independentes tiveram importância de trazer à tona elementos políticos ofuscados do noticiário tradicional, como abordado na última coluna deste observatório. Quanto à cobertura internacional hegemônica, torna-se evidente o lugar secundário de crises climáticas quando ocorridas em países do sul global.
Não é como se o desastre tivesse sido pelas principais mídias ocidentais, mas a ocorrência de um evento de tal magnitude num país do norte global levaria a coberturas de seus semelhantes numa ordem de grandeza próxima, por exemplo, à destruição de New Orleans pelo furacão Katrina. Não foi o que se viu no caso gaúcho: há a publicação de matérias noticiando o desastre em seus primeiros dias, mas um esvaziamento do tema ao longo das semanas seguintes de maio e da intensificação do evento.
Começamos por uma pequena matéria da CNN, que comenta brevemente a influência do aquecimento global, logo antes de, surpreendentemente, citar apenas uma ajuda de Elon Musk frente à tragédia. A rede de notícias britânica BBC também publicou uma matéria bastante factual sobre o evento, ainda no início da tragédia, que também cita as mudanças climáticas. Já o New York Times publicou três matérias sobre o evento desde o seu início. A primeira é uma matéria curta, noticiando o início dos acontecimentos. Já a segunda (Imagens de uma cidade brasileira debaixo d’água) é uma boa reportagem, longa, contando a experiência de moradores atingidos e uma entrevista com Mercedes Bustamante, importante pesquisadora brasileira com experiência no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), apresentando algumas das causas climáticas do evento e a severidade da situação. Após esta matéria, publicada ainda no início do desastre, há uma lacuna de semanas sem noticiar o caso: o vácuo de notícias é interrompido por uma matéria que trata dos milhares de animais domésticos sem lar — e, desde então, mais nada se noticiou sobre o assunto. Dentre os principais veículos hegemônicos, quem fez uma matéria em tom de “balanço geral” do desastre, ainda que pequena e incompleta, foi a revista The Economist,enfatizando como as mudanças climáticas estão deixando eventos extremos mais frequentes na região gaúcha. Nos outros veículos tradicionais ocidentais, pouco se noticiou para além dos padrões verificados nas matérias citadas, com a quase totalidade das notícias ainda no início do desastre.
A análise da repercussão internacional ocidental de um evento gravíssimo como o ocorrido mostra um holofote para um país do sul global menor do que o esperado, ainda que as mudanças climáticas sejam, supostamente, pauta importante destes jornais. O ofuscamento de desastres nos países em desenvolvimento acaba por espelhar, ainda, a ausente ajuda dos países desenvolvidos aos efeitos da crise climática — o presidente Lula já havia cobrado as nações ricas neste sentido, em 2023, após enchentes na mesma região do Rio Grande do Sul. Concluímos que as injustiças climáticas são materiais e simbólicas: promovem perdas materiais e humanas proporcionalmente maiores para as populações mais vulneráveis, percorrendo os territórios em escala intraurbana, doméstica e internacional; mas tais desigualdades também atravessam os mecanismos simbólicos, nas redes de comunicação internacional, evidenciando territórios “mais importantes” do que outros.
*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.
Veículos independentes como o Sul 21, Brasil de Fato RS, Agência Pública e Intercept Brasil, entre outros, estão cumprindo um papel dos mais relevantes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul. Os quatro operam à margem da mídia hegemônica, que se refestela com recursos públicos e faz cada vez menos jornalismo. Os veículos citados trouxeram ao debate fatos ignorados, ocultados ou mal divulgados pela imprensa tradicional, mais preocupada em tentar blindar a incompetência de prefeitos e do governador do estado. Entre esses fatos estão aqueles caros ao jornalismo ambiental.
O Sul21, no dia 6 de maio, na reportagem intitulada “Tragédia histórica expõe o quanto governo Leite ignora alertas e atropela política ambiental”, assinada por Luciano Velleda, detalha as críticas de organizações não-governamentais ao governo do estado em relação às mudanças no Código Estadual do Meio Ambiente e à iniciativas como a construção de barragens em áreas de preservação da natureza.
O Brasil de Fato RS tem publicado várias reportagens a partir da periferia de Porto Alegre, ouvindo populações empobrecidas que perderam o pouco que tinham e enfrentarão dificuldades inimagináveis para recompor o cotidiano. Uma delas foi a reportagem intitulada “Em bairro ‘esquecido’ de Porto Alegre (RS), enchente faz emergir solidariedade”, assinada por Murilo Pajolla e publicada no dia 27 de maio.
Outra reportagem do Brasil de Fato RS, intitulada “Com 180 mil pessoas atingidas pela enchente, Canoas tem atendimento do CRAS interrompido” e assinada por Clara Aguiar em 21 de maio, repercutiu e serviu de base para denúncia junto ao Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (MPRS). A repórter, em sua conta na rede social Instagram (@clguiar), avalia a repercussão do relato sobre as dificuldades enfrentadas pelas famílias vítimas da enchente ao tentarem se cadastrar no CadÚnico em Canoas, município vizinho de Porto Alegre. O cadastramento é essencial para que pessoas atingidas possam ter acesso aos benefícios do governo estadual e federal. “O jornalismo de impacto desempenha um papel crucial especialmente nesse momento em que milhares de vítimas da enchente buscam auxílio e informações confiáveis”, comenta Clara Aguiar na postagem.
Com o título “O passo-a-passo da inoperância no RS, segundo um dos responsáveis por alertar as autoridades”, o Intercept Brasil divulgou reportagem assinada por Paulo Motoryn e Marcelo Soares no dia 15 de maio revelando grave conflito de interesses: uma das empresas responsáveis pela manutenção do sistema de contenção de inundações de Porto Alegre tem, entre seus sócios, um ex-funcionário da prefeitura que, por dois anos, foi o responsável por sua fiscalização.
No dia 22 de maio, a Agência Pública divulgou a reportagem intitulada “Militares e políticos sem experiência estão à frente da Defesa Civil em cidades do RS” , assinada por Rafael Oliveira, tendo, para isso, analisado o orçamento empenhado para a Defesa Civil por esses municípios e pelo estado nos últimos três anos. Os dados foram extraídos diretamente do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi), abastecido pelos próprios governos estaduais e municipais.
As reportagens mencionadas são exemplos do conjunto da cobertura dos quatro veículos, que disponibilizam, em suas páginas, outros textos tão significativos quanto os acima citados.
A designação de imprensa/jornalismo tradicional, também chamada de convencional, faz referência aos grupos e empresas controladoras do setor no Brasil. Sobre o jornalismo independente, há inúmeras pesquisas que investigam o tema, sendo uma delas o trabalho de M. Silva (2017), que mapeia 30 iniciativas criadas entre 2013 e 2015 no Brasil, por ela denominadas novas experiências de jornalismo. Segundo a autora, as expressões geralmente aplicadas a esse tipo de iniciativa – jornalismo independente, jornalismo alternativo, mídia radical, mídia contra-hegemônica – não dão conta de toda a variedade de propostas que compõem tais iniciativas.
Este artigo toma o papel da imprensa tradicional/hegemônica como o de manutenção da ordem social e, em contrapartida, o da imprensa independente/alternativa/contra-hegemônica como o de crítica a esta ordem para a construção de outro modo de organização social. Os quatro veículos citados, em maior ou menor grau, explicitam essa perspectiva, e de forma concreta trazem ao fazer e ao discurso jornalístico um conjunto de temas, pontos de vista e fontes invisibilizadas ou negligenciadas no debate público.
Nesta direção, prestam-se ao exercício do direito à fala e à escrita muitas vezes proscrita na imprensa tradicional. Idealizador da ideia do direito à cidade, Henri Lefebvre, em artigo no livro “Du Contrat de Citoyenneté”, publicado em 1990, lista o que nomeia como “Os novos direitos do cidadão”. Entre eles estão o direito à informação e o direito à expressão. Diz Lefebvre que um cidadão não deve nem pode ficar calado sobre o que o preocupa e que lhe diz respeito, mesmo que apenas indiretamente: “Isso é muito: todos os assuntos da sociedade preocupam todos os membros. Daí o direito de refletir, de falar, de escrever” (LEFEBVRE, 1990. p. 34).
É possível afirmar que no nascedouro da catástrofe que se abate sobre o Rio Grande do Sul estão também esses direitos sufocados ou mal-ouvidos pelas autoridades hoje apressadas em se livrar de sua cota de responsabilidade. Que bom termos veículos como os quatro citados, entre outros, para trazer à tona fatos que, para essas autoridades, deveriam estar convenientemente esquecidos. Sobrevivem a duras penas e fazem jornalismo à altura desses duros tempos.
Referências
LEFEBVRE, HENRI et LE GROUPE DE NAVARRENX . Du Contrat de Citoyenneté. Paris: Editions Syllepse et Editions Periscope, 1990.
SILVA, Mariana da Rosa. Tensões entre o alternativo e o convencional: organização e financiamento nas novas experiências de jornalismo no Brasil. Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Santa Catarina, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/185627. Acesso em: 28 maio. 2024.
* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente
Nesta segunda-feira, dia 20 de maio, o programa Roda Viva, da TV Cultura, foi transmitido do Theatro São Pedro, em Porto Alegre (RS). O entrevistado foi o governador Eduardo Leite (PSDB) e os entrevistadores um time de jornalistas gaúchos. Conforme a apresentadora Vera Magalhães, a transmissão do programa da capital gaúcha foi para que a bancada de jornalistas fosse formada por pessoas que estão à frente da cobertura jornalística da tragédia no Estado.
Preparando-se para as entrevistas, os jornalistas buscaram informações sobre as legislações ambientais aprovadas no Estado, as previsões de chuva divulgadas antecipadamente e as ações do Governo para evitar tantos danos. Elaboraram perguntas que buscavam identificar responsabilidades pelo acontecido, mostrando que não foi um acidente; e também relacionando as enchentes com as mudanças climáticas. A jornalista Kelly Matos destacou as enchentes, temporais e ciclones que aconteceram no Estado, do final do ano passado até início deste, e questionou o governador se o estado não poderia ter feito algo, se preparado melhor, para minimizar os efeitos. Os jornalistas também questionaram sobre as mudanças no novo Código Ambiental do RS, aprovado no início do governo de Eduardo Leite, destacando a proteção do Bioma Pampa e a dispensa de autorização ambiental para algumas ações.
O governador Eduardo Leite respondeu às questões trazendo muitos dados e contextualizando situações, dizendo não negar a ciência e os alertas, mas não conseguiu descrever o que efetivamente fez para prevenir tantos prejuízos sociais e econômicos. O foco principal da fala do governador foi mostrar como o Estado está empenhado em auxiliar as pessoas desabrigadas e que ficaram sem moradias e ações para a reconstrução do RS.Muitas perguntas, porém, ficaram sem respostas concretas, como também muitas outras perguntas poderiam ter sido feitas, no sentido de mostrar a responsabilidade do Governo Gaúcho diante do acontecido, como, por exemplo, sobre os investimentos no polo carbonífero de Candiota, tema já analisado neste observatório. O chargista Luciano Veronezi trouxe a crítica e o humor às respostas do governador.
Mas o papel de fiscalizador do poder público do jornalismo não se encerrou com a entrevista do programa Programa Roda Viva. No dia seguinte, 21 de maio, os jornalistas Amanda Ribeiro, Ethel Rudnitzki e Luiz Fernando Menezes, do site Aos Fatos publicaram “No Roda Viva, Eduardo Leite desinforma sobre responsabilidade do governo gaúcho e alertas pré-enchentes”. O site checou algumas informações e mostrou que diferente do que o governador disse os institutos meteorológicos haviam previstos altos volumes de chuvas, que tanto estados, como municípios são responsáveis por zelar pelos sistemas de prevenção de desastres, além de mostrar que o novo Código Florestal não define normas para a proteção do Bioma Pampa. Para produzir o material, o site acessou legislações, notas publicadas emitidas pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), da UFRGS, reportagens veiculadas na mídia nacional e regional, retomou previsões meteorológicas e entrevistou especialistas.
E os responsáveis já começam a ser apontados pela imprensa e outros setores da sociedade. A Folha de S. Paulo publicou também no dia 21, “Prefeitura de Porto Alegre foi alertada há seis anos sobre risco de falha no sistema contra enchente”. O texto relata que um parecer técnico elaborado por engenheiros municipais, em setembro de 2018, apontava falhas no sistema de bombeamento na região central de Porto Alegre. Em novembro do ano passado outro alerta foi encaminhado a prefeitura, mas até o início das chuvas as melhorias não haviam sido realizadas.
Da mesma forma, que o governador Eduardo Leite, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB) foge das suas responsabilidades, classificando como narrativas mentirosas, fake news ou a recortes parciais feitos pela imprensa, informações que estão chegando à sociedade. É importante destacar que há um esforço de apuração séria e responsável, como fez a Folha de S. Paulo e o site Aos Fatos, quando há checagem das informações dadas pelas autoridades e divulgadas nas redes sociais.
Ainda no dia 21, a Carta Capital publicou a notícia “Fachin manda Leite explicar mudança na legislação ambiental do RS” . O texto explica que o Ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, pede explicação na mudança da legislação ambiental do estado que deu aval à supressão de vegetação nativa em áreas de proteção permanente.
O assunto já havia sido destacado no dia 17 de maio, em texto da Folha de S. Paulo, que dizia que a troca de vegetação nativa por soja pode ter agravado as enchentes no Rio Grande do Sul. O texto informa que, entre 1985 e 2022, o Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação nativa, que corresponde a 22% da cobertura original vegetal existente no estado em 1985. Cientistas apontam que a vegetação diminui a velocidade à qual a enxurrada chega ao leito dos rios; aumenta a quantidade de água infiltrada no solo, o que diminui a quantidade de água disponível para inundações e protege o solo diminuindo a quantidade de sedimentos que assoreiam os rios da região.
No final da entrevista ao Roda Viva, o governador Eduardo Leite, destaca ter se perguntado “por que o Rio Grande do Sul?” Por mais valente e resiliente que seja o povo gaúcho, a resposta à questão está bem mais relacionada a aspectos de negligência com as prioridades ambientais, que começam a ter mais espaço na cobertura jornalística sobre a tragédia das cheias na região.
*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.
Eventos climáticos extremos estão acontecendo com cada vez mais frequência no Brasil e no mundo. A situação trágica que ocorre no Rio Grande do Sul trouxe para o vocabulário de jornalistas, autoridades e população expressões como crise climática, refugiados climáticos e ações de mitigação e adaptação.
A comoção do país ao assistir pela televisão e redes sociais um estado praticamente engolido pelas águas está promovendo uma importante reflexão, que vinha sendo adiada, apesar de reiterados alertas de cientistas e de ambientalistas.
Neste debate, o jornalismo tem uma importante função ao aprofundar o tema e não apenas cobrir as consequências. Nos últimos dias observa-se uma cobertura factual e com algumas análises sobre as políticas assumidas pelo Executivo e pelo Legislativo. Contudo, nota-se que as causas das enchentes no Rio Grande do Sul recém começaram a ser exploradas.
Especialistas em meio ambiente estão acostumados ao conceito de aquecimento global de origem humana. Sabe-se que o aumento dos gases do efeito estufa é resultado, majoritariamente, da queima de combustíveis fósseis e de emissões originárias do desmatamento. O aquecimento do planeta tem como consequência uma maior evaporação de água nos oceanos, o que cria os eventos meteorológicos extremos. Mas como esta questão está sendo apresentada pelo jornalismo?
Em uma breve análise do que está sendo publicado em veículos hegemônicos e não hegemônicos a respeito do RS nos últimos dias, verificamos que o portal Brasil de Fato, com a matériaO que o desmatamento da Amazônia tem a ver com as cheias no Rio Grande do Sul? foi um dos que conectou diretamente o desmatamento na Amazônia às enchentes no RS, apresentando três pesquisadores do tema como fontes, que explicam as consequências do desmatamento na Amazônia e o impacto no processo de regulação climática, provocando mudanças nos padrões de chuvas em regiões distantes.
Mesma iniciativa foi observada em veículos sediados na Amazônia, como Vocativo e Amazônia Real. Esse interesse sinaliza que os eventos do Rio Grande do Sul podem catalisar coberturas realizadas a milhares de quilômetros de distância, porém imprescindíveis para que o público desses veículos compreenda a complexidade da crise climática.
Já na cobertura da BBC Brasil, que também ouve especialistas, aborda as especificidades dos campos nativos que predominam no Rio Grande do Sul para avaliar as causas do imenso impacto sofrido pelo estado. Reportagem publicada em 15 de maio fala de como a destruição do bioma Pampa através do monocultivo de soja e da silvicultura também contribuiu para fragilizar a proteção do estado às fortes chuvas, já que a vegetação nativa contribuiria para a drenagem da água, por exemplo.
Com isso, também vemos que ainda há necessidade de o jornalismo expandir seu vocabulário sobre danos ambientais para além das ideias associadas à perda de biomas florestais, como “desmatamento”, já consolidadas em coberturas anteriores, e incluir a perspectiva mais ampla de perda de vegetação nativa. Ou seja, referir-se à supressão de todos os tipos de vegetação encontradas na megabiodiversidade brasileira. Isso permite que toda ameaça aos biomas – da Amazônia ao Pampa, que é campestre – possa ser compreendida como um evento com consequências diretas na vida das pessoas.
Nota-se que embora estes últimos textos alertem para os pontos nefastos do projeto de lei, a oportunidade de relacionar as consequências do afrouxamento da legislação de proteção ambiental à crise atual vivida no Sul do Brasil não foi aproveitada. É necessário que o jornalismo inclua em sua cobertura o gancho que vem da política para seguir acompanhando e comunicando ao público sobre os potenciais impactos dessas decisões nos biomas brasileiros e nas populações que os habitam.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: debora.gallas@gmail.com.
**Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.
Por Ada C. Machado da Silveira* e Mauricio de Souza Fanfa**
A cobertura noticiosa sobre os eventos extremos envolvendo o clima no Sul do Brasil no período de 30 de abril até o presente momento é expressiva. A emoção que acompanha os relatos considera as enchentes, responsáveis por desalojar milhares de pessoas, produzir mortes e desaparecimentos, além de abalar infraestruturas públicas (como prédios diversos, inclusive hospitais, pontes e estradas). Em meio a tudo, despontou o acontecimento da localização através de um sobrevoo de cobertura noticiosa, de um cavalo imobilizado sobre um telhado em meio à enchente que o rodeava por todos os lados.
Durante vários dias, observou-se a mobilização de agentes públicos e privados que foi deslocada para o acompanhamento da situação do cavalo, nomeado Caramelo, como uma testemunha do drama que perdura por semanas. Ela foi acompanhada pelo espanto geral em torno da contingência que fez com que um cavalo fora parar no telhado, dado que “cavalo não sobe escada”. Noticiaram o resgate o Correio Braziliense, o Correio do Povo, o g1, entre outros portais de notícias, como a CNN Brasil.
Em um mundo que pode dar adeus ao cavalo, tendo em vista a proliferação de meios de transporte abastecidos por derivados de petróleo, despontou a comoção midiática por um cavalo em meios às águas.
Como referente afetivo da liberdade, honra e galhardia, o cavalo possui a simpatia dos habitantes do Estado do Rio Grande do Sul, uma vez que está presente na iconografia e na memória popular. Caberia ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, manifestar o caráter emblemático da cena do cavalo Caramelo no telhado.
Sua resiliência, após dias ilhado e em pé, sem água ou comida, animou a resistência à intempérie. O diário Zero Hora de Porto Alegre registrou a manchete mencionando o caráter aguerrido e resiliente da população afetada.
O Portal g1 evidenciou a particular relação do Rio Grande do Sul e de seus habitantes com os cavalos. O jornal O Tempo igualmente dedicou-se a frisar o caráter emotivo do resgate de Caramelo. O cavalo Caramelo gerou a disputa de influencers, políticos e instituições.
Como relíquia afetada em meio a tragédia colossal, e que ainda segue em curso, não permitiu esquecer a perda de outros cavalos. O Portal do Holanda registrou a morte de um animal preso e submerso com água até o pescoço no mesmo município de Canoas.
Tais referências, uma com pequena repercussão, e a outra com impacto geral, remetem à condição popular desta espécie junto aos gaúchos. O IBGE registra em 2022 que há 492 mil cavalos vivendo no Rio Grande do Sul, fazendo do estado o terceiro com o maior número absoluto do Brasil.
O resgate de Caramelo surge como um lembrete de que um desastre atinge todos os seres que vivem no espaço, não apenas os humanos. Tal aspecto, no entanto, foi motivo para debates, como a posição sustentada por muitos de que haveria sensacionalismo na exploração da condição do cavalo, em detrimento da condição dos seres humanos. Esta foi a opinião expressa pelo líder do Partido Comunista Operário, Rui Costa Pimenta, no Canal 247.
Inicialmente o debate estabeleceu-se na definição de gênero do cavalo, se macho ou fêmea. Posteriormente, após o resgate pelo Corpo de Bombeiros e seus veterinários do Estado de São Paulo, houve a definição de ser um macho e, daí, o nome de Caramelo ficou estabelecido.
A propriedade do cavalo foi requisitada por muitos e, igualmente, várias celebridades dispuseram-se a adotá-lo. Foi o caso da revista Quem e do Portal Terra.
A circulação noticiosa envolvendo a presença do cavalo no telhado ganhou o mundo, registrando-se tanto na mídia corporativa como nas mídias sociais. Foi igualmente notável a repercussão na plataforma X (antigo Twitter), especialmente a presença de celebridades e figuras públicas como o presidente Lula, a primeira dama Janja e os youtubers e empresários Felipe Neto e Whindersson Nunes.
A lista com o número de tweets que podem ser filtrados da plataforma X é longa. Apresentamos a repercussão mais numerosa:
176 mil (meme brincando com como o programa Fantástico da Tv Globo mostraria o cavalo)
O vídeo mostrando Janja indo até Lula durante uma coletiva de imprensa para comunicá-lo sobre o resgate do cavalo recebeu 60 mil curtidas. Outro vídeo postado pela primeira-dama, comunicando em seu perfil o resgate do cavalo, recebeu 56 mil curtidas, agradecendo a Deus e aos voluntários envolvidos. Ele foi replicado pelo diário da capital nacional Correio Braziliense.
O Portal Poder 360 expressou seu desagrado à manifestação da primeira dama do Brasil. E foi repercutido pela revista Veja.
Outros tweets expressam a emoção com o resgate: “Tem gente achando ruim de ver essa operação pra salvar ele. Se você não fica feliz em ver um animal sendo salvo também, você não aprendeu nada nessa vida”, afirma Matheus, com 43 mil curtidas. “O cavalo Caramelo de Canoas é um guerreiro! Será patrimônio histórico brasileiro! Esse cavalo será o símbolo da determinação do estado do Rio Grande do Sul” expressa Camargo, recebendo 58 mil curtidas.
A repercussão internacional ganhou espaço entre a calamidade social e ambiental. O acontecimento igualmente convocou a mídia brasileira a reconhecer, como o Portal Terra ou o Portal g1. A Tv 247 dedicou-se a comentar o caso, assim como a CNN Brasil.
Até a Suécia, onde a mobilização climática conta com a figura de Greta Thunberg, dedicou-se a registrar, no diário de maior circulação, o Dagens Nyheter, o depoimento do coronel Claudio Goggia, da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, sobre o resgate de Caramelo.
A preocupação com os animais nos faz lembrar de nossa responsabilidade com tais formas de vida: ainda que precárias, as operações montadas têm condições de resgatá-los. Caramelo converteu-se, assim, em ícone da crise climática a partir do drama no Rio Grande do Sul.
* Professora titular da Universidade Federal de Santa Maria. Integra seu Programa de pós-graduação em Comunicação e colabora no Mestrado profissional em Comunicação e Indústria Criativa da Universidade Federal do Pampa. Pesquisadora do CNPq. Lidera o Grupo de pesquisa Comunicação, identidades e fronteiras. E-mail: ada.silveira@ufsm.br.
** Graduado em Comunicação Social – Produção Editorial, com mestrado e doutorado em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria. Realizou pós-doutorado na Sodertorn University, Suécia. E-mail: maufanfa@gmail.com.