A perspectiva não humana no jornalismo pode conscientizar sobre as questões ambientais?

Imagem: Alaor Filho / Fotos Públicas

Por Débora Gallas*

Após assistir ao filme Flow, vencedor do Oscar de melhor longa de animação nesta edição de 2025, me peguei pensando em como a arte é capaz de nos expor à alteridade e modificar nossas percepções – o que pode, em última instância, alterar nossa forma de agir sobre a realidade. A mais recente coluna de Giovana Girardi na Agência Pública fala exatamente sobre o poder do filme em nos colocar no lugar dos personagens e nos fazer refletir sobre a resiliência possível diante das mudanças climáticas.

Na obra, um grupo de animais de diferentes espécies, origens e temperamentos acaba no mesmo barco durante uma inundação repentina e precisa cooperar para sobreviver. Ao sair da sessão, ainda emocionada, fiquei pensando se seria possível o jornalismo nos aproximar das carências e urgências vividas, por humanos e não humanos, diante do agravamento dos efeitos das mudanças climáticas.

O apelo puramente emocional em uma cobertura a faz tender para o sensacionalismo – distanciando-a, portanto, do jornalismo, que é comprometido com os fatos. Mas é possível tornar essa cobertura mais empática e calorosa? Seguindo no tema do filme, lembrei, por exemplo, da matéria publicada em Mongabay em 24 de fevereiro sobre a estratégia desenvolvida pelas onças da Amazônia para sobreviver aos períodos de inundações – elas passam a viver nas copas das árvores.

O texto de Tiago da Mota e Silva detalha como o monitoramento dos animais é realizado por cientistas do Instituto Mamirauá, no Amazonas, e que o envolvimento dos especialistas com o território e seus seres é fundamental para as descobertas. Assim, as onças não são entendidas como meros objetos de pesquisa, mas como sujeitos que resistem e se reorganizam diante das adversidades ambientais – de forma semelhante aos personagens de Flow. E quando nos damos conta que as mudanças climáticas podem causar ainda mais alterações nas inundações e nos ciclos de chuva na região, passamos a nos preocupar com esses animais, cuja capacidade de adaptação será colocada ainda mais à prova.

O desafio da resiliência diante das mudanças climáticas e a busca por adaptação também estão na reportagem de Sônia Bridi sobre a morte dos corais no litoral do Nordeste exibida pelo Fantástico, da TV Globo, em 9 de março. Com dados do projeto Coral Vivo, a reportagem alerta que a onda de calor de 2024 gerou perdas sem precedentes nos recifes, como a morte de 95% dos corais vela e corais de fogo.

Os corais são animais que sustentam esses frágeis ecossistemas, caracterizados também pelas algas que se associam à sua estrutura e aos peixes que visitam as colônias em busca de alimento, por exemplo. A ameaça é ainda maior com o turismo predatório, como visto nas piscinas de Maragogi, em Alagoas. A reportagem finaliza mostrando o bom exemplo de respeito dos pescadores que promovem o turismo ecológico, mas aludindo à responsabilidade das pessoas humanas em duas frentes: freando o aquecimento do planeta e evitando atividades que impactam o local.

Nós que pesquisamos o jornalismo ambiental precisamos ressaltar, em várias ocasiões, que ele não se reduz a curiosidades da natureza idílica. Falamos isso para lembrar os interlocutores, que nós, seres humanos, também somos natureza e sofremos com nossas próprias ações para degradar os bens naturais. No entanto, chegamos em um ponto em que a ideia de outro humano enfrentando algum revés por conta das mudanças climáticas talvez não nos gere tanta comoção. Para algumas pessoas, pode parecer mais do mesmo. Diante dessa indiferença, abordar as consequências da crise climática pelo ponto de vista não humano poderia, talvez, gerar mais compaixão?

Claro, existe uma linha tênue entre essa abordagem e uma que desmobilize pelo pessimismo ao mostrar plantas e animais como vítimas indefesas e inevitáveis de tragédias como incêndios, secas e enchentes, por exemplo. Porém, através da informação jornalística contextualizada e devidamente apurada, as pessoas conseguem perceber conexões entre fenômenos naturais e acontecimentos sociais, além de entender seu papel e de outros seres na resolução dos problemas identificados. Foi o que engajou pessoas de todo o Brasil no resgate do cavalo Caramelo durante as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.

Assim, identificamos onças pintadas, corais, cavalos e outros animais como vulneráveis ao imprevisível, mas, também, como sujeitos resilientes – como nós humanos somos, afinal. Essa identificação, quando bem expressa pelo jornalismo, pode ajudar não somente a reconhecermos nossas limitações, mas também inspirar nossa organização coletiva para resistirmos e solucionarmos as questões ambientais emergentes.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação e vice-lider do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

Onde estão os vaga-lumes?Meio ambiente, nosso modus vivendi e realidades pouco abordadas pelo jornalismo

Fonte: Pixabay

*Por Ursula Schilling

Dia desses, assistindo, com minha filha de 2 anos e meio, a um canal infantil só sobre animais, apareceu, não me lembro em que contexto, o desenho de um vaga-lume. Minha pequena companheira fitou a tela admirada. Até aquele dia, não vira ou ouvira falar da criatura. Ao que ela me olhou, curiosa, tentei explicar: “é um vaga-lume, filha, um inseto que brilha no escuro… não se vê muitos por aí”.

Dei-me conta, então, de que eu mesma não os vejo desde a infância. Até os meus 10 anos de idade (isso faz bastante tempo), mais ou menos, ainda era comum assistir, nos fundos da minha casa, de onde se avistava um imenso terreno verde, ao espetáculo luminoso de centenas desses pequenos animais piscantes.

Mas onde estão, afinal, os vaga-lumes? Por que não ouço ninguém falar do seu sumiço? Segundo matéria publicada no site da revista Superinteressante, em fevereiro deste ano, esses insetos estão sob risco de extinção. Entre as causas apontadas: uso de agroquímicos, que podem exterminá-los do ambiente ainda em estágio larval; perda de habitat em função da ocupação humana e consequente destruição ambiental; poluição luminosa, visto que as luzes artificiais afetam o ritmo de diversos animais, inclusive o nosso.

Fonte: Captura de tela do site da revista Superinteressante

O desaparecimento de espécies, sejam elas grandes ou pequenas, não parece receber destaque das manchetes. E, se não está nos jornais, compreendidos aqui quaisquer canais de mídia, é como se não fizesse parte de nossa realidade, como se não nos afetasse ou fosse algo muito distante.

Há diversos autores e teorias que explicam porque isso ocorre. Ainda que não seja o único elemento a sere considerado na construção social da realidade, o jornalismo tem papel significativo nessa construção, seja ela objetiva ou subjetiva. O jornalista interpreta os acontecimentos na sua produção discursiva e, por meio das notícias, o indivíduo poderá interpretar o mundo que o cerca e será afetado em maior ou menor grau pelas notícias. É uma forma de conhecer e conhecer-se no mundo. Com isso, podemos ter a falsa impressão de que aquilo que não nos é contado (ou que não faz parte de nossa realidade imediata) não existe. E, se não existe, como refletir a respeito?

Em se tratando da pauta ambiental, sabemos que catástrofes como queimadas, eventos climáticos dramáticos e rompimento de barragens, por exemplo, ainda são grandes ganchos para a cobertura do tema. A importância de tais tópicos é inquestionável, mas e os reflexos do nosso dia a dia no meio ambiente? Aquilo que não é catastrófico no curto prazo ou não grita aos nossos olhos, mas que tem resultados igualmente desastrosos, merece e deve ser agendado jornalisticamente.

Precisamos exercer e demandar um jornalismo que questione nosso modus vivendi, que traga discussões incômodas mas necessárias. Do contrário, não são só os animais que desaparecerão. Não é um processo simples, são muitos vieses e caminhos possíveis.

Por ora, terei de mostrar as luzes de natal à minha filha e dizer: “assim brilham os vaga-lumes”, desejando que ela tenha a oportunidade de conhecê-los ao vivo, e não somente pela televisão.

*Jornalista, mãe, membro do Núcleo de Ecojornalistas do RS.