A reprodução midiática da violência de gênero sofrida por Marina Silva

Por Letícia Pasuch* e Eloisa Beling Loose**

Foto: Lula Marques / Agência Brasil

Na última semana, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, foi convidada para participar da Comissão de Infraestrutura do Senado em razão da criação de unidade de conservação da na Margem Equatorial, na Foz do Rio Amazonas, no Norte do Brasil. É nesta região que a Petrobras quer explorar petróleo. Marina defende que o Ibama faça um trabalho técnico seguindo as leis ambientais.

Ainda nessa reunião, foi debatido o asfaltamento da BR-319, estrada que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM). O tema é delicado no governo Lula há alguns anos. Enquanto parlamentares defendem que a rodovia possa diminuir o isolamento de estados como o Amazonas e Roraima do resto do país, defensores ambientais alertam que o asfaltamento seria vetor do desmatamento desenfreado na Amazônia.

Embora convidada para ser ouvida, a ministra foi alvo de ataques dos senadores Omar Aziz (PSD-AM), Marcos Rogério (PL-RO) e Plínio Valério (PSDB-AM). Enquanto Valério dizia que “mulher merece respeito, a ministra não” – o mesmo que, em março deste ano, já havia dito que queria enforcá-la –, Rogério acrescentava que a ministra deveria “se pôr no seu lugar”. Ela exigiu um pedido de desculpas para permanecer na audiência, mas não foi ouvida. Acabou deixando a reunião, sem ter apoio de nenhum político presente.

O episódio foi repercutido por diferentes veículos de imprensa, mas nem sempre evidenciando as causas estruturais que sustentam o repúdio à notória defensora da natureza. Este Observatório fez uma análise das notícias (excluindo, portanto, textos opinativos) entre os dias 27 de março e 3 de junho de 2025. Em grande parte dos veículos hegemônicos, não houve discussão acerca da intersecção entre a proteção ambiental e a violência política de gênero, que atravessam a situação.

O jornal O Globo ouviu o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que afirmou que, além de negar a possibilidade de pedir desculpas à ministra sob justificativa de que “não entra mais em casa”, afirma que o mundo está “chato” com a “cobrança de machismo”. O texto reproduziu as falas do parlamentar e as de Marina proferidas na audiência, mas ouviu apenas a versão de Valério na matéria. Apesar de usar o termo “ofendida” e “alvo de ataques”, outra notícia também se limitou a reproduzir os discursos no Congresso, sem um contexto maior sobre os motivos discutidos nas ofensas.

Já o Estadão publicou pelo menos 10 notícias sobre o acontecimento, além de outras três colunas de opinião. A única matéria que relaciona os ataques com a posição de liderança que Marina ocupa na área ambiental ouviu uma representante do clima do Reino Unido, que afirmou que Marina é respeitada mundialmente pela sua coragem e ressaltou a necessidade de haver mais mulheres na vida pública.

As demais notícias apenas repercutiram as falas e os posicionamentos de solidariedade de autoridades, mas sem, de fato, contextualizar os motivos dos ataques e sua relação com a violência política de gênero e a defesa do meio ambiente. Destaca-se que os textos relacionam o episódio como um “bate-boca”, com ressalvas para o uso da palavra “machismo”.

A Folha de S. Paulo seguiu na mesma linha. Foram identificadas seis colunas de opinião e oito notícias sobre o tema. A maioria dos textos encaixam-se no que chamamos de “jornalismo declaratório”, voltando-se mais para os benefícios econômicos, caso as propostas discutidas no Congresso sejam aprovadas, e menos para os impactos ambientais. Uma das matérias traz a informação de que o senador que hostilizou Marina assinou proposta que torna a matriz energética mais poluente e eleva a conta de luz dos brasileiros. Informa que ele assina propostas cujos conteúdos são inseridos sem relação com o tema principal, o que privilegia interesses de grupos parlamentares específicos – termo conhecido como “jabuti” no contexto político brasileiro. O texto evidencia o paradoxo entre a facilidade de assinar acordos de um lado, passando “boiadas” (termo popularizado pelo ex-ministro Salles), e os entraves relacionados à proteção do meio ambiente de outro. Quando o assunto é meio ambiente, enfrenta-se muita resistência dos atores que enxergam o tema apenas como entrave ao crescimento econômico; soma-se a isso a questão de gênero, que desafia a estrutura de poder estabelecida, dominada por homens. 

A BBC News produziu uma notícia que, além de contextualizar os motivos pelos quais a ministra foi ofendida, destacou que esse não foi o primeiro ataque do senador à Marina.  Aqui, há falas de outras ministras e da primeira-dama Janja da Silva, que se manifestaram em apoio à titular do ministério, salientando a gravidade do episódio de misoginia e “machismo” – palavra usada sem ressalvas no texto.

Por mais que algumas matérias tragam contextos relacionados aos impactos ambientais, pouco foi visto nos veículos hegemônicos a respeito das violências sofridas por Marina como algo a ser discutido, não apenas um episódio isolado. Uma exceção foi a reportagem da Agência Pública, publicada no dia seguinte, que apurou que ataques à Marina são reincidentes, mas não prioritários no Senado. A possibilidade de punição pela fala misógina proferida por Plínio Valério em março deste ano está parada na Comissão de Ética do Senado Federal, em exame técnico preliminar. O texto da Pública lembra que um pedido de abertura de processo disciplinar por quebra de decoro parlamentar foi feito logo após a fala, mas que não levou, até agora, a nenhuma punição ao senador. A matéria reforça a ideia de que a responsabilização por ações de combate a violência política de gênero seguem ineficientes, abrindo brechas para novos casos.

O Brasil de Fato, ao ouvir uma socioambientalista, ressaltou o padrão de perseguição que sofre quem defende a pauta ambiental, e que Marina Silva, uma mulher negra da Amazônia, devido à agenda que representa, é alvo de setores da extrema direita e da ala negacionista do Congresso.

A repercussão maior na produção de notícias ocorreu nos veículos mainstream, mas a maioria se limitou a reproduzir as falas dos parlamentares e a reação da ministra, pouco aprofundando as razões que a tornam alvo no contexto político de permissão para o avanço da agenda econômica neoliberal. Percebe-se que veículos especializados e independentes, ainda que tenham produzido menos notícias, trouxeram mais elementos sobre a relação da defesa ambiental e a posição de Marina como mulher negra da Amazônia, que reivindica outra política ambiental.

Além de expor a questão da violência política de gênero, é importante evidenciar a conexão da pauta ambiental com a desqualificação das mulheres em posição de liderança que defendem a preservação de seus territórios. Ativistas ambientais são perseguidos e assassinados, e, mesmo em espaços supostamente democráticos, defensores do bem comum sofrem violências rotineiramente. O fato da ministra ser mulher e amazônida traz aspectos que agudizam o quadro de intolerância dos setores mais conservadores da sociedade, que buscam manter tudo como está em prejuízo da maioria da população. 

*Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Observatório de Jornalismo Ambiental. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenadora do Observatório de Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br

À margem das notícias e da precaução

Informações subdimensionadas em notícias da imprensa sobre impactos ecológicos da exploração de petróleo prejudicam avaliação pública sobre prospecções na margem equatorial brasileira 

Imagem: Adema/Governo do Sergipe

Por Heverton Lacerda*

Desde 2002, a Petrobras vem tentando obter licença para explorar petróleo na margem equatorial, uma região marítima da costa brasileira que se estende do Amapá até o Rio Grande do Norte. Apesar de críticas e alertas sobre os riscos ecológicos que a exploração de petróleo representa para os ecossistemas marinhos, o processo de licenciamento e as pressões do setor econômico seguem avançando. Notícia da Agência Brasil publicada no dia 6 de abril anunciou que a empresa petrolífera concluiu a construção de uma unidade para atendimento e reabilitação de fauna no Amapá. Essa estrutura soma ao Centro de Despetrolização e Reabilitação da Fauna que a Petrobras já mantém no Pará, em Belém. Ainda que a matéria não apresente dados estatísticos sobre tragédias anteriores, de modo a exemplificar os riscos envolvidos, fica evidente que a operação exige equipamentos para mitigar futuras tragédias ambientais. “A construção do equipamento é uma das exigências para que a empresa possa fazer perfurações para verificar a existência de petróleo no bloco FZA-M-59, em águas profundas do Amapá, a cerca de 500 km da foz do Rio Amazonas”, informa a matéria da jornalista Tâmara Freire.

Raoni

No dia 4, durante encontro do presidente Lula com o cacique Raoni na Terra Indígena Capoto-Jarina, no Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso, a liderança indígena enfatizou que a preservação ambiental do local em prospecção para estudos e exploração é importante para manter “a Terra com menos poluição e menos aquecimento”. Na ocasião do encontro, Raoni foi agraciado com a Ordem Nacional do Mérito, no grau Grã-Cruz, a mais alta honraria oficial do Brasil. O fato repercutiu nacionalmente em veículos como Carta Capital, Valor Econômico, Correio Braziliense, Infomoney, O Globo, Poder 360, Brasil 247, O Tempo, entre outros. Além de Raoni fornecer um gancho (uma oportunidade) para explorar o debate sobre os riscos ecológicos, ampliando ainda para a questão climática, os textos publicados não abordam o tema.

Precaução

Uma pesquisa publicada no periódico internacional Marine Environmental Research e divulgada pelo portal Fauna News revela que os impactos de um derramamento de petróleo ocorrido em 2019 no Nordeste brasileiro seguiam presentes em 2023. Os problemas observados pela pesquisa apontam para a ingestão de oleo e aumento da mortalidade da fauna marinha, evidenciando alterações comportamentais e nas proporções de sexo e tamanho de algumas espécies, além de anormalidades em larvas e ovos e consequências para populações humanas litorâneas. Outro ponto da pesquisa destacado no portal está relacionado à  extensão das áreas atingidas de cada ecossistema na tragédia ambiental de 2019, o que ajuda a dar uma dimensão dos riscos envolvidos. Os dados indicam que foram impactados 4.929,74 km² de áreas de estuários, 489,83 km² de florestas de mangue, 324,77 km² de prados de ervas marinhas, 185,30 km² de praias, 63,64 km² de planícies de maré, 45,95 km² de corais de águas profundas e 9,69 km² de corais de águas rasas.

Ao nominar ecossistemas em risco e apresentar as dimensões de áreas atingidas por tragédias, a cobertura jornalística sobre a margem equatorial tem a oportunidade de enriquecer o debate público. Para isso, seria fundamental que as notícias apresentassem maior contexto, o que contribuiria para o cumprimento do papel educativo, um pressuposto essencial reconhecido pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (Ufrgs/CNPq).

Além de fornecer contexto e educar, a cobertura poderia incorporar o princípio da precaução, um pressuposto que, conforme (Girard et al., 2020, p. 281), integra os fundamentos do jornalismo ambiental. Ao adotar o princípio da precaução, as notícias sobre a margem equatorial poderiam auxiliar a sociedade a formar uma opinião mais informada e a pressionar o governo em prol de medidas de proteção ambiental, antes que novas tragédias aconteçam.

*Heverton Lacerda, jornalista, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e presidente da Associação Gaúcha de Proteção  ao Ambiente Natural (Agapan).

O desastre ecológico do Golfo do México em perspectiva: a tragédia nigeriana

Foto: George Esiri/Reuters

Marcos Palácios destacou, no blog do GJol, texto de John Vidal, o Editor de Ecologia do Guardian. Em meio ao desastre ecológico do Golfo do México, com o derramamento de petróleo que segue há semanas, tendo sido uma das principais pautas da imprensa mundial nesse período, Vidal pede que as cosias sejam colocadas em perspectiva. Nos chama para uma “espiadela” no que acontece na Nigéria, fornecedora de 40% do petróleo importado pelos Estados Unidos. Lá, diz ele, o desastre ecológico é permanente (e invisível para o mundo). Leia aqui.