Mapa mostra as áreas sob risco / Imagem: Plataforma PrevisIA
Por Heverton Lacerda*
No dia 9 de novembro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou os números do desmatamento na Amazônia entre agosto de 2022 e julho de 2023. No período, a área desmatada foi de 9.001 km², segundo o órgão do governo federal, com base no relatório anual do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes).
As manchetes da imprensa, em geral, destacaram da seguinte forma:
Ainda que seja possível perceber uma ampliação do nível de detalhes e aprofundamento nas matérias jornalísticas sobre meio ambiente nos últimos anos, o que já era de se esperar, em função da previsível e fartamente anunciada ampliação da crise climática no último meio século, os enfoques ainda carecem de contextualização. No caso específico dos números do desmatamento na Amazônia, a comparação está sendo feita e divulgada com os mesmos parâmetros percentuais que se mede, por exemplo, os índices da inflação ou do Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, o destaque está para a variação entre períodos, sejam eles mensais ou anuais, quando, na verdade, o que mais importa neste caso da supressão de área de floresta pelo desmatamento é o total e, ainda, o aumento contínuo, mês a mês, ano a ano.
Algumas matérias chegam a avançar, apresentando informações sobre a complexidade da questão, quando apontam, por exemplo, que a floresta tem perdido sua circunferência de proteção (zona de amortecimento) e que isso afeta mesmo o interior mais profundo da mata, ou ainda que a qualidade natural de alguns setores já não apresentam mais a mesma diversidade que protege o ecossistema.
O gráfico do Inpe apresentado na matéria do G1, com dados de 2001 a 2023, mostra que o recorde do desmatamento foi de 27,7 mil km² em 2004 (não consta no gráfico do G1, mas o Inpe informa que o maior desmatamento registrado desde a criação do sistema Deter foi em 1995, com 29 mil km² desmatados). O texto do G1 também ressalta que 2012 foi o ano que teve a menor área desmatada, 4,5 mil km². Em geral, as matérias também destacam os esforços dos governos para diminuir o desmatamento a partir de 2004, assim como a retomada da ampliação de áreas desmatadas no governo Jair Bolsonaro.
No entanto, um número importante e que não aparece é o resultado da soma do desmatamento, que, de 2001 até hoje, apresenta um total de 235.102 km² de área suprimida da Amazônia. Outros números ainda precisam entrar nessa contabilidade ambiental para que não se perca a dimensão total do que está acontecendo com a Amazônia. Em 2013, na ocasião do aniversário de 25 anos do Prodes, foi publicado no site do Inpe um número ainda mais impactante: a Amazônia, conforme dados de satélite, já havia perdido “752 mil km², cerca de 19% da floresta original”, na época.
Ou seja, as manchetes que se limitam a informar números parciais, ainda que estejam corretas, acabam por encobrir parte importante do problema, a sua dimensão total. É evidente que nem toda a informação cabe em uma manchete, mas quando nem o miolo do texto apresenta dados fundamentais, podemos estar com algum problema sério (e simples) para resolver. Duas sugestões de manchetes, para que encontrem variações criativas, são Desmatamento da Amazônia continua aumentando; Desmatamento cresce e atinge X% da floresta amazônica. A variação anual da taxa poderia ficar para a linha de apoio. São escolhas editoriais que podem auxiliar o leitor a ter uma compreensão mais apurada da gravidade o desmatamento na Amazônia.
*Jornalista, ativista ambiental, especialista em Ciências Humanas, mestrando no Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCPM/UFRGS) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).
Problemas ambientais urbanos são antigos e, em sua faceta moderna, estão presentes ao menos desde as primeiras revoluções industriais — ainda que não recebessem a alcunha “ambiental” no significado de hoje. Eles fazem parte, intrinsecamente, do imaginário da emergência das grandes cidades modernas europeias: fumaças das indústrias, rios poluídos, a falta de saneamento e as ruas entulhadas de lixo.
A eclosão de movimentos ambientalistas a partir da década de 1960, num primeiro momento, ainda parecia vir da terra “natural” — a questão dos pesticidas, por exemplo — e de uma ideia unificada do planeta, sob o medo da guerra nuclear. A razão talvez seja as próprias origens de um pensamento ambientalista: algo “romântico” ainda no século XIX, de valorização do natural em oposição ao urbano; e algo também “científico”, focado na conservação de florestas e proteção de parques naturais. De toda forma, apesar dessas origens, o fato é que os movimentos que se seguiram ao ambientalismo dos anos 1960 incluíram, nas décadas seguintes, as questões urbanas e a justiça social no seio do movimento. O ambientalismo migrava de um campo puramente “natural” e “científico” para abarcar também a arena política das grandes cidades.
A pauta ambiental urbana permeia, há décadas, o ambientalismo, as conferências internacionais e o próprio jornalismo. No entanto, ainda hoje é comum que as pessoas façam uma associação direta entre “temas ambientais” e “temas rurais”, como se distantes da cidade. Uma pequena análise da editoria de Meio Ambiente do portal G1 mostra que, das últimas 30 notícias (ao longo de todo o mês de outubro) nenhuma trouxe uma pauta ambiental urbana. A página é tomada por algumas notícias da maior importância: incêndios no pantanal, seca na Amazônia, garimpo ilegal, marco temporal, emissão de gás metano pela agropecuária etc. Outras são notícias mais soft, dificilmente enquadráveis como “jornalismo ambiental”, e sim como “notícias sobre (ou no) meio ambiente”: o prêmio de fotografia pela foto de um tigre; o resgate de uma loba-guará e a caça de um tatu-galinha pelo caseiro de uma fazenda.
A situação muda um pouco quando analisamos a Folha de SP. Lá a gente “lembra” que cidades também são afetadas, como na invasão de fumaça de incêndios florestais sobre a maior cidade boliviana; e na descoberta, por pescadores, de uma garrafa PET de 25 anos atrás em plena Baía de Guanabara. Obviamente, situações extremas como as inundações em cidades no Sul do país também costumam entrar na conta de notícias — mas persiste a escassez de matérias não impulsionadas por tragédias. A realidade urge que o jornalismo dito “ambiental” cruze, com mais frequência, as vielas e ladeiras das grandes cidades brasileiras, mostrando a face ambiental e cotidiana de nossos históricos — e desiguais — problemas urbanos.
*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.
A Comissão de Meio Ambiente do Senado aprovou no início de outubro, o projeto de lei (PL) 412 de 2022, que regulamenta o mercado de carbono no Brasil. Aprovado de forma terminativa, o PL já tramita na Câmara do Deputados.
O texto do PL institui um órgão regulador, denominado de Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), que será o responsável por determinar os setores da economia sujeitos a tetos de emissões e por conceder permissões de emissão às empresas. Cada uma dessas autorizações de emissão, chamadas de Cotas Brasileiras de Emissões (CBE), equivale a uma tonelada de CO2 ou o equivalente em outros gases de efeito estufa.
Ficam sujeitas ao SBCE empresas e pessoas físicas que emitirem acima de 10 mil toneladas de gás carbônico equivalente (tCO2e) por ano, que devem monitorar e informar suas emissões e remoções anuais de gases de efeito estufa. Quem emitir acima de 25 mil toneladas de CO2 ficará sujeito a regras mais rígidas, com previsão de sanções e multas para os casos do descumprimento de metas.
Resumidamente, no mercado de carbono, os setores regulados recebem permissões para emitir uma certa quantidade de gases poluentes. Quem emitir menos que a sua cota pode vender o seu saldo positivo para empresas que excederam os seus limites de poluição.
O valor de cada crédito de carbono depende do mercado onde ele é negociado. No mercado voluntário, o crédito tende a ser mais caro do que o do mercado regulado. Hoje, no Brasil, existe somente o mercado voluntário de carbono, no qual qualquer empresa, pessoa ou governo pode gerar ou comprar créditos de carbono, que são auditados por uma entidade independente, porém, não são contados nas metas de redução de emissões de países no Acordo de Paris. Ou seja, a demanda nos mercados voluntários de carbono não surge a partir de um teto regulatório, mas de empresas e indivíduos que desejam voluntariamente compensar ou neutralizar sua pegada de carbono, e de investidores que exigem que as empresas de seu portfólio se tornarem neutras ou zero carbono.
O mercado de carbono não é novidade. Fala-se nele desde o Protocolo de Quioto, em 1997. No Brasil, contudo é uma expressão que tem aparecido na mídia com mais frequência nos últimos anos, especialmente com o boom do ESG (Environmental, Social and Governance) e dos compromissos empresariais com a sustentabilidade.
A aprovação do PL foi noticiada em grandes veículos, que além de explicarem o conteúdo da proposta do legislativo, destacaram a ausência no texto da regulamentação ao agronegócio. A Frente Parlamentar Agropecuária negociou com a relatora do projeto, a senadora Leila Barros (PDT/DF), para que o agro ficasse de fora. A justificativa é que não existem formas precisas para medir a emissão de carbono de atividades do campo e que os principais mercados de carbono do mundo não incluem a agricultura e nem a pecuária.
Um estudo inédito do Observatório do Clima, lançado na terça-feira (24/10), estima que os sistemas alimentares responderam em 2021 por 73,7% (1,8 bilhão de toneladas) das 2,4 bilhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa lançadas pelo país na atmosfera. Conforme Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, “esse relatório deveria ser lido pelos representantes do agronegócio e pelo governo como um chamado à responsabilidade”.
Assim, voltando à repercussão do PL, os veículos de imprensa cumpriram o seu papel em noticiar o fato, explicar o contexto, como os sites do Globo Rural, da CNN Brasil, do Valor Econômico, do Estadão. Alguns destacaram a falta de inclusão do agro como JOTA e o Money Times. O site O Eco analisa, por meio da opinião de dois especialistas, como ficará a regulamentação sem o agro. O Capital Reset também propõe uma reflexão sobre o tema.
Apesar de ser um tema complexo e de relevância socioambiental para o Brasil, não são percebidas nestas coberturas nenhuma preocupação com os pressupostos do Jornalismo Ambiental. Nota-se que as notícias não propõem um questionamento sobre a real eficácia do mercado de carbono em tempos de emergência climática, ou se é uma solução eficaz para contribuir com a descarbonização do país. Este tipo de cobertura também não prioriza a aproximação com o leitor não especializado. Não há a intenção de engajar e envolver o público para uma tomada de posição ou para uma reflexão sobre o tema.
O assunto ainda é embrionário no Brasil, integra a agenda do atual Governo Federal e do mercado. Assim, mesmo que utópico, se faz necessário insistir para que a imprensa, de modo geral, amplie o olhar para a complexidade do tema e busque abarcar vozes, saberes e alternativas que expandam o debate vigente de forma mais crítica.
*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.
Ciclones, enchentes, calor recorde, seca… Relatar as causas e consequências desses eventos climáticos extremos na vida da população tem sido desafiador para jornalistas brasileiros. É possível observar que a sobreposição de emergências afeta diretamente a cobertura: a imprensa nacional não tem dado a merecida atenção às queimadas que assolam a região metropolitana de Manaus pelo menos desde setembro.
É verdade que o assunto esteve em pauta em grandes portais como Folha, Valor e g1 especialmente entre os dias 11 e 13 de outubro, período em que a qualidade do ar em Manaus se tornou uma das piores do mundo. A cobertura desses veículos inclui fontes da ciência para explicar como os efeitos do fenômeno El Niño e a degradação ambiental contribuem para que a cidade seja tomada por fumaça, vinda sobretudo de focos no município de Autazes e nas adjacências da BR-319, que liga Manaus e Porto Velho. Também são ouvidas fontes oficiais, que explicam onde estão os principais focos de queimadas e quais providências que estão sendo tomadas, como a prisão de suspeitos de atear fogo em áreas de floresta.
As matérias publicadas na última semana carecem, porém, de alguma apuração própria desses veículos no local dos fatos. Diante de outro gravíssimo acontecimento que atinge o estado – a seca histórica de rios amazônicos – e de pautas igualmente urgentes de outras editorias – como a guerra entre Israel e Hamas –, há o risco de as atenções se dividirem e o tema sumir do noticiário assim que a fumaça se dissipar e o problema parecer controlado. É interessante lembrar que, em agosto de 2019, bastou que uma nuvem cinza encobrisse o céu de São Paulo para que as queimadas na Amazônia tomassem o noticiário nacional e a ação apelidada de “dia do fogo”, apurada primeiramente pelo jornal paraense Folha do Progresso, ganhasse repercussão em todo o país.
Apesar do árduo trabalho dos veículos independentes na abordagem das causas e consequências, urge que, em um evento com essa gravidade, os gestores de veículos que se apresentam como nacionais – e possuem estrutura e financiamento condizentes com tal pretensão – mobilizem ampla base de correspondentes ou repórteres freelancers locais para reforçar a investigação jornalística. A sociedade precisa conhecer os CPFs e CNPJs envolvidos na destruição para lhes atribuir as devidas responsabilidades – e o jornalismo é essencial para que essas e outras informações de interesse público venham à tona. Afinal, como falar de solução para crise ambiental sem haver conhecimento sobre a origem dos problemas?
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Imagem: Satélite do Google Maps mostra situação da véspera na barragem. Acesso: 12 out. 2023, 15h.
Por Eliege Fante*
Poucos dias após o alívio com a decisão do STF, contrária à tese do marco temporal, os povos originários da Terra Indígena Ibirama – Laklãnõ sofrem com reveses dos governos e da grande imprensa.
A pressa é inimiga da apuração jornalística, ainda mais quando há um desequilíbrio no acesso às fontes oficiais. Relacionado à cobertura do fechamento das comportas da Barragem Norte, ocorrido sábado (07/10), no município de José Boiteaux (SC), situada no Território Indígena (T.I.) Xokleng, Guarani e Kaingang (Terra Indígena Ibirama – Laklãnõ), vimos, ouvimos e lemos repetições de discursos de fontes oficiais do governo de Santa Catarina, em espaço desproporcional e em detrimento de outras fontes desta pauta: as indígenas. Espalhar informações simplificadas e limitadas gera o risco de produzir desinformação e de colher comentários racistas contra os povos originários e de ódio de todos os lados.
“A diversidade de racionalidades é o maior patrimônio da espécie”, lemos neste texto do falecido geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves, cujo destaque incentiva a escuta plural de todas as partes envolvidas numa pauta. Neste sentido, traremos a seguir informações relevantes a serem consideradas na produção jornalística dada a complexidade do tema, e que mesmo disponíveis, não são trazidas ao grande público.
Sobre o racismo ambiental, diferentemente do que vem sendo noticiado, o governo de Santa Catarina não teria cumprido o acordo com os povos da Terra Indígena Ibirama – Laklãnõ. É o que consta na decisão judicial da manhã desta quinta-feira (12/10), a qual determina que União e Estado de Santa Catarina tem 24 horas para cumprir as “medidas mitigatórias acordadas e assentadas”, e que o estado catarinense deve “apresentar relatório técnico relativo à operação excepcional da barragem (com eventuais recomendações de novas intervenções – abertura/fechamento de comportas), considerando as previsões e ocorrências de novas precipitações na bacia coletora”. As referidas medidas constantes na decisão judicial publicada no final da noite de 07 de outubro, são sete: Desobstrução e melhoria das estradas; Equipe de atendimento de saúde em postos 24 horas; Três barcos para atendimento da comunidade; Ônibus para atendimento da comunidade até a cidade; Água potável na aldeia; Fornecimento de cestas básicas; Ficou acordado que após as comportas serem fechadas algumas casas ficarão submersas e por esse motivo deverão ser construídas novas casas para essas famílias, em local seguro e longe do nível do rio.
Sobre o racismo ambiental, a Barragem Norte é uma das três no estado utilizadas para conter cheias do Rio Itajaí-Açu, cuja capacidade de reserva de 355 milhões de metros cúbicos de água pode causar alagamentos e até inundação em uma área de aproximadamente 870 hectares do Território Indígena Laklãnõ Xokleng. É importante utilizar o conversor de Hectômetro para demonstrar o real volume de água. Estes fatos já foram registrados em cheias anteriores, daí o clamor dos indígenas (dias antes de 07/10) pelo não fechamento das duas comportas diante da grave ameaça de deixar embaixo d’água diversas aldeias do T.I. Essas e outras fundamentais informações constam no documentário de 2015 “Enchente – O outro lado da Barragem Norte”, de 37 minutos, que expõe as desumanas condições vivenciadas no território desde a construção da Barragem Norte. A internet e as redes sociais facilitam uma aproximação entre comunicadores e jornalistas indígenas, por isso é necessário buscar informações em perfis como o da Juventude Xokleng e da comunicadora Ingrid Satere Mawé.
Sobre o racismo ambiental, se o fechamento das comportas está relacionado com a manutenção da data da Oktoberfest em Blumenau (início em 11/10), este foi um debate adjacente aos impactos do evento climático extremo em Santa Catarina, mas presente nas redes sociais indígenas e de direitos humanos. O Cacique Alison Voia de Lima da Aldeia Sede da T.I. Laklãnõ Xokleng confirma (07/10/2023) o posicionamento da sua comunidade de não fechamento das comportas da barragem do território indígena. E contou o que ouviu durante a reunião com autoridades do estado de Santa Catarina: “Por causa dessas comportas que estão abertas a oktober vai ser suspendida por uma semana.”
O megaevento turístico iniciou em Blumenau, na véspera deste feriado de Dia das Crianças, apesar do alerta vigente da Defesa Civil de alto risco de “temporais localizados em todo o estado com possibilidade de chuvas fortes, descargas elétricas, ventos intensos e queda de granizo. Alagamentos, deslizamentos, enxurradas e inundações graduais, o risco permanece muito alto”. Mas, foi suspenso novamente, na manhã do feriado, devido aos riscos de alagamentos no município. O retorno da programação ficou para o final da tarde desta sexta-feira (13/10).
Sobre o racismo ambiental, o relato da indigenista Georgia Fontoura sobre a reunião realizada na tarde de sábado (07/10), na T.I. Laklãnõ Xokleng, aponta o descumprimento, pelo governo catarinense, do acordo feito através do secretário de infraestrutura do estado com as demais autoridades, “de enviar mantimentos, barco, remédios e atender as famílias isoladas e atingidas pela cheia do lago de contenção”, considerando a desativação desde 2014 e não execução do plano de contingência. Três dias depois, Georgia publicou informações mais completas no artigo “As chuvas e os bugreiros” com outros indigenistas na Revista Fórum. E, sobre a mesa de negociação de domingo (08/10), o deputado Marquito (Psol) relata o pedido ao governador de Santa Catarina para que mantivesse o acordo firmado com os indígenas através do secretário. “A motivação do governador de ter colocado as forças de segurança e ter fechado as comportas sem uma análise técnica e política foi um grande erro”, afirmou.
Enquanto isso, a preferência na cobertura de pautas que ligam indígenas à violência, como aponta oMinimanual Como cobrir temas indígenas, confirmou-se na cobertura do chamado “confronto” entre indígenas e polícia militar na noite de 07 de outubro para o fechamento das duas comportas. É urgente problematizar:
1 – “as consequências que poderá provocar na vida e no território desta população, cuja sobrevivência também passou a estar em risco. Questiona-se ainda o uso excessivo da força que resultou em indígenas feridos”, conformeNota da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC);
2 – as declarações da Defesa Civil estadual referente aos impactos negativos causados pela barragem no T.I. Laklãnõ Xokleng na palestra “de instrução e sensibilização sobre a presença indígena em Santa Catarina e Blumenau para policiais militares do 10º Batalhão da PM”;
3 – a condenação em 2017, segundoindigenistas, do estado de Santa Catarina, da União e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em “implementar ações compensatórias e de segurança relativas à Barragem Norte”, o que não teria sido cumprido;
4 – a recente decisão do Supremo Tribunal Federal de rejeitar a tese do marco temporal em processos demarcatórios, que é favorável ao povo da Terra Indígena Ibirama – Laklãnõ, após um dos maiores julgamentos da história do STF, foram onze sessões. O julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 1017365 está relacionado a um pedido do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina de reintegração de posse de uma área localizada em parte da Reserva Biológica do Sassafrás (SC). A tese da repercussão geral (Tema 1.031), a partir deste julgamento, será utilizada na resolução de ao menos 226 casos semelhantes.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, membra do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e assessora de comunicação da Rede Campos Sulinos.
Nasa capta imagem do El Niño / Imagem: Sentinel-6 Michael Freilich/Nasa
Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**
Em toda a sua extensão, o Brasil tem vivenciado uma série de ocorrências de eventos climáticos extremos. Enquanto o Rio Grande do Sul tenta se recuperar após a passagem de nove ciclones em apenas três meses, estados da Região Norte enfrentam uma das mais graves estiagens de sua história. Os rios da região amazônica estão se transformando em bancos de areia, minando as possibilidades de deslocamento das populações — não é possível ir à escola nem aos postos de saúde. No Rio Negro, as embarcações encalham, prejudicando o abastecimento de água potável e alimento para os ribeirinhos. O combustível também não chega para fins de iluminação. Em outros pontos, a baixa profundidade e o aquecimento das águas têm causado a mortandade de peixes e mamíferos aquáticos, como no Lago Tefé em que mais de 100 botos foram encontrados mortos. Soma-se a isso a facilidade de expansão dos focos de incêndio em razão das temperaturas, estiagem e descida do nível das águas dos rios.
Esse cenário observado nos últimos meses pode, em parte, ser atribuído à influência do El Niño, caracterizado pelo aumento de chuvas no sul e secas prolongadas no norte e nordeste, combinado com o aquecimento do Oceano Atlântico Norte. Os dois fenômenos inibem a formação de nuvens e chuvas no Norte do País, o que acentua as características típicas do chamado “verão amazônico”, que costuma ser mais seco. Entretanto, de acordo com especialistas, a intensificação desses fenômenos precisa ser vista a partir de um contexto mais amplo, de transformação do ambiente e alteração do que até então se conhecia sobre o clima.
Desde agosto — quando a seca no Amazonas ganhou repercussão nacional — o Portal g1 tem realizado a cobertura dos impactos no âmbito social, econômico e ambiental. No entanto, percebe-se que ao focalizar nos efeitos imediatos, o g1 acaba por não relacionar a situação com o desmatamento e com a crise do clima.
Foram analisadas 47 notícias publicadas no período de 1º de agosto a 3 de outubro de 2023. O filtro das matérias foi realizado no buscador disponível no site do g1, por meio das palavras-chave “seca”, “estiagem” e “Amazonas”.
Além disso, verificou-se que o enquadramento predominante é sobre os efeitos imediatos, sem trazer uma contextualização que relacionasse a degradação do bioma com o agravamento da estiagem. Quando há uma tentativa de explicação sobre as causas do problema, detém-se em mencionar a combinação de fatores naturais, construindo uma (falsa) ideia de inevitabilidade. Como ocorre nas matérias “Seca no Amazonas deixa cidade em emergência, afeta navegação e dificulta acesso a água potável”, que traz uma nota da Defesa Civil atribuindo a intensificação da seca e o aquecimento anormal nas águas somente ao fenômeno El Niño, e “O que é o fenômeno El Niño e como ele vai afetar o inverno”, que chega a afirmar em determinado trecho do texto que não há nenhuma relação entre El Niño e o aquecimento global, embora na sequência diga que as mudanças climáticas podem alterar fenômenos como esse. A afirmação é dúbia e gera desinformação. Especialistas já apontam o aquecimento global como um fator determinante da frequência e da intensidade do fenômeno. Tal abordagem invisibiliza o debate da responsabilidade da atuação humana no desequilíbrio climático.
A devastação da floresta é um propulsor da emergência climática, que tende a ser mais sentida justamente por aqueles que dependem diretamente da natureza para sua sobrevivência e não conseguem manter seus modos de vida. Com um tempo mais seco e escassez de água, os incêndios terão mais chance de se propagar e alimentar ainda mais o contexto de superaquecimento ou fervura climática. Uma crise humanitária, com aumento de doenças respiratórias decorrentes das queimadas, e falta de água e comida, está em curso. Mais de 170 mil pessoas já foram impactadas e outras ainda deverão ser atingidas, pois a previsão é de um processo longo e intenso.
O Jornalismo tende a reportar os desastres longos, como é o caso das secas, quando se evidenciam situações-limite em que a possibilidade de ação está na fase de resposta, dificultando a cobrança por ações de mitigação e prevenção a partir da invisibilidade, do apagamento da questão na agenda pública. Diante das manifestações frequentes da crise ambiental, cabe aos jornalistas incluírem o clima como valor-notícia não apenas na cobertura dos extremos, mas no rol das pautas cotidianas. Só assim poderemos conectar causas e consequências, e, tomara, agir sobre o planeta de forma mais responsável.
*Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.
**Jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.
A pergunta pode gerar choques, mas parece que alguns seres humanos só conseguem realmente crer que as mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano quando ciclones, vendavais e outros eventos climáticos batem às suas portas e causam prejuízos materiais, emocionais ou levam vidas. Isto é o que tem ocorrido no mês de setembro, no Rio Grande do Sul, e as notícias sobre o tema tomam contam das manchetes em rádios, jornais, canais televisivos e até na Internet, como aparece na imagem abaixo:
Imagem: Print da página inicial do buscador Bing.com
Uma dessas notícias é a publicada em 26 de setembro no Site G1 (Setembro é o mês mais chuvoso de Porto Alegre em 107 anos, aponta Inmet | Rio Grande do Sul ), que mostra que este mês já é o mais chuvoso em 107 anos em Porto Alegre, capital gaúcha. A fonte da informação é o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que aponta como maior índice desde 1916, quando a medição passou a ser registrada. Em 1941, a precipitação pluviométrica chegou a 405,5 mm e, em 2023, até o dia 26 de setembro, está em 413,8mm. As informações acabam deixando as pessoas apreensivas e o total de atingidos pelos desastres aumenta a cada dia.
O número de pessoas afetadas pelas enchentes tem se ampliado e uma das matérias que chama a atenção para isso é a publicada na Folha de São Paulo em 24 de setembro: Chuva: Registro de desastres foi recorde em 2022 no Brasil – 24/09/2023 – Ambiente – Folha (uol.com.br). Segundo dados da Defesa Civil Nacional, que dão origem a esse texto do jornal, as chuvas atingiram o maior índice em 2022, num período de dez anos. A matéria é muito bem elaborada e contém uma análise sobre o aumento de vítimas e a ligação com momentos em que ocorreram eventos extremos. Além disso, os jornalistas entrevistaram um professor da Universidade de São Paulo (USP), um meteorologista, o coordenador de articulação política da Frente Nacional dos Prefeitos eapresentaram dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), do Ministério da Ciência e Tecnologia, dentre outras fontes de informação. O texto é informativo, qualificado e um alerta que aponta, inclusive, que os dados de 2023 ainda não estão consolidados, mas que, pelo andar das coisas, é um ano em que alguns estados, especialmente o Rio Grande do Sul, vêm sendo destroçados pelo poder das chuvas intensas.
E não fomos avisados disto? Sim, fomos, pelos pesquisadores brasileiros e mundiais, pelos ambientalistas, há mais de 50 anos, e pela imprensa nas últimas décadas. Nesta matéria de março de 2023, de GZH (Qual a diferença entre El Niño e La Niña?), já haviam informações sobre as intercorrências causadas pelo La Niña e que o El Niño passaria a alterar os padrões climáticos neste ano, o que já havia sido anunciado em final de 2022 pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês).
Se, desde 2022, os anúncios foram feitos, de fato espera-se que não só os governos se preparem para a adaptação e mitigação da crise climática, mas também cada ser humano faça a sua parte. No momento atual, estamos vivenciando as mudanças climáticas, mas, na prática, nem criamos o diálogo e entendimento de que a Comunicação de Riscos é peça chave na gestão de risco em âmbito público, privado e governamental, e nem pensamos em estratégias para a adaptação e mitigação climáticas a curto, médio e longo prazo.
Há muito para fazer, mas o importante é arregaçar as mangas e começar a tratar e dialogar, de forma séria e centrada, sobre as mudanças climáticas, para dirimir as consequências avassaladoras para a vida na Terra.
*Jornalista, especialista em Marketing e mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Roca Sales depois da chuva / Imagem: Guilherme Hamm/Secom
Por Cláudia Herte de Moraes* e Taís Busanello**
A frequência de grandes ciclones tropicais aumentou nas últimas quatro décadas, segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) (2021). Estudos sobre eventos extremos concluíram que temos alta confiança de que “a mudança do clima causada pelo homem aumenta a precipitação intensa associada a ciclones tropicais”. Neste início de setembro, um ciclone extratropical foi a principal causa de inundações, chuvas intensas, granizo e vendavais que afetaram 98 municípios gaúchos, causando 47 mortes confirmadas em 12 de setembro (ainda há desaparecidos), cerca de 5 mil desabrigados e 20 mil desalojados. Considerada a maior tragédia natural em 40 anos, a destruição e a calamidade saltam aos olhos. Assim como a falta de prevenção.
No jornalismo gaúcho e nacional, vivemos o impacto da super notícia, em que há a proliferação de matérias sobre um fato, destacando especialmente o sofrimento humano e as perdas e danos relacionados. O valor-notícia desta tragédia coletiva exigiu uma ampla cobertura midiática para atender o interesse público. Contudo, exigiria também a apuração de informações em mais camadas para a mobilização do necessário debate público sobre os meios possíveis de tornar as cidades resilientes aos efeitos das mudanças climáticas.
Tendo isso em conta, ao analisar a cobertura da revista Veja sobre as cheias de 2010 no Sul e Sudeste, pesquisadoras afirmam que “a tarefa do jornalismo seria observar e atuar de forma ativa na crítica à realidade”, abordando desastres de grande magnitude com políticas recentes sobre a situação da habilitação das populações vulneráveis. (MORAES, GIRARDI, 2011, p.11).
Desta forma, o destaque deste comentário semanal está no papel do jornalista ambiental frente aos acontecimentos dramáticos no que concerne a explanação das problemáticas e questões ao poder público, considerando o dever jornalístico, principalmente em cobertura de eventos extremos, de ser “política, social e culturalmente engajado” (BUENO, 2007, p. 36).
Trazemos aqui o exemplo do jornalista André Trigueiro (Globo News), com 30 anos de experiência na cobertura de temas ambientais, incluindo os eventos climáticos extremos e os consequentes desastres enfrentados pela sociedade, crescentes em quantidade e potência destrutiva nas duas últimas décadas. É um dos raros profissionais preocupados com a cultura da prevenção, definitivamente esquecida por nossos governantes. No vídeo que viralizou após a reação do governador Eduardo Leite, de acusar o jornalista de ter falta de empatia, Trigueiro apenas exercia a função autorizada pela sociedade aos jornalistas: a de perguntar, inclusive as questões que não vão agradar o poder constituído. Porque é um dever ético do jornalismo checar as informações junto aos órgãos e fontes do poder público, a fim de que esclarecimentos sejam prestados, ainda mais importante considerando-se a perspectiva de prevenção e de redução de danos.
Os alertas sobre as previsões meteorológicas que subsidiam as ações de prevenção foram dadas, inclusive desmentindo outra fala infeliz do governador gaúcho. Tanto que, se houve alguma falta de prevenção governamental diante dos alertas de chuvas extremas no acontecimento do ciclone deste início de mês, o Ministério Público está apurando o papel dos órgãos públicos na fase anterior ao desastre.
A tragédia motiva a reflexão também sobre como os cidadãos devem atuar quanto aos riscos. Com estreia nesta semana, um novo programa do jornal Brasil de Fato RS vai discutir diretamente o tema: Mudanças climáticas e eventos extremos, estamos preparados?. Também é preciso reivindicar das autoridades públicas uma gestão de riscos, ações pré-desastres para além do socorro após o caos se instalar. Enfim, uma visão de médio e longo prazos. O artigo publicado no Brasil de Fato RS traz importante discussão: o que falta para a declaração de emergência climática no estado? Neste sentido, recomendamos acompanhar a audiência pública sobre mudança climática no RS, dia 18 de setembro, proposta pelo deputado estadual Matheus Gomes (PSol).
O jornalismo questiona, mobiliza, esclarece. Aos jornalistas, cabe o incentivo para cobrir os temas ambientais e dos riscos considerando o princípio da precaução, que converge numa perspectiva de prevenção. Por isso, o papel do jornalismo é fiscalizar o cumprimento das ações estabelecidas nos planos de adaptação e de mitigação às mudanças climáticas dos estados, dos municípios e do país como um todo. E mais: a sociedade carece da circulação de informações completas sobre as medidas para conter o aumento da temperatura global muito além da descarbonização dos setores econômico-produtivos maiores responsáveis pela emissão dos gases de efeito estufa. Dessa maneira, é preciso relacionar a cobertura dos desastres aos temas da mitigação e da adaptação como ações preventivas aos efeitos das mudanças climáticas. São necessárias respostas e soluções de e para toda a sociedade.
* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br
BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, p. 33-44, jan./jun. 2007. Editora UFPR.
MORAES, Cláudia Herte de; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. As Cheias de 2010 na Revista Veja: a Narração Jornalística Diante do “Inesperado”. Revista Ação Midiática – Estudos em Comunicação, Sociedade e Cultura Universidade Federal do Paraná Programa de Pós Graduação em Comunicação Vol 1. Nº 2. Ano 2011. Disponível em: < https://revistas.ufpr.br/acaomidiatica/rt/metadata/26422/17636 > Acesso em: 12 set. 2023
ONU tem reconhecido o direito das crianças a um mundo limpo e saudável / Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Por Sérgio Pereira*
Duas notícias recentes envolvendo decisões inéditas na área do direito ambiental tiveram discreta repercussão na imprensa hegemônica brasileira. O jornalismo, devemos lembrar sempre, é uma ferramenta fundamental para a construção de uma consciência cidadã.
No último dia 28, pela primeira vez, um comitê das Nações Unidas reconheceu que todas as crianças têm direito a um meio ambiente limpo e saudável. A decisão do Comitê para os Direitos da Criança da ONU foi fundamentada a partir da análise de um tratado internacional. “Os Estados têm que garantir um meio ambiente limpo, saudável e duradouro para respeitar, proteger e cumprir os direitos das crianças”, justificou o documento.
Poucos dias antes, ainda em agosto, a imprensa estadunidense tomou conhecimento da inédita sentença da juíza Kathy Seeley, do estado de Montana (EUA), que decidiu que “os jovens têm o direito constitucional a um ambiente saudável”. Na argumentação, ela concluiu que houve falha por parte do Estado ao não considerar as mudanças climáticas quando da avaliação de novos projetos.
Decisões judiciais semelhantes ocorreram recentemente também na Alemanha e na Colômbia. E em julho do ano passado, a ONU já havia aprovado uma resolução declarando que todas as pessoas no planeta têm direito a um meio ambiente saudável. Aos poucos, o mundo legal vai tomando consciência de que é preciso instituir garantias para que as próximas gerações tenham direito a um mundo melhor.
A imprensa nacional, no entanto, não encontrou relevância nesses fatos. Praticamente ignoradas nas versões impressas, essas notícias foram ofertadas ao leitor brasileiro apenas em pequenas doses, nas plataformas digitais.
No caso da primeira notícia citada, a versão on-line da Folha de S.Paulo e o UOL trouxeram a informação, mas fazem parte da exceção. “Todas as crianças têm direito a um meio ambiente limpo e saudável, diz ONU” foi o título do texto postado pelos dois portais. Contudo, essa notícia não chegou a ser selecionada para o jornal impresso do grupo, a Folha de S. Paulo.
A decisão da juíza Kathy Seeley ganhou um pouco mais de repercussão. Além da Folha de S. Paulo, o Estado de São Paulo, O Globo e Terra divulgaram a notícia. Entre os jornais gaúchos, Zero Hora ofereceu aos seus assinantes a notícia em GZH, mas os editores não reservaram espaço na versão impressa do jornal. Os sites e os impressos do Correio do Povo e do Jornal do Comércio também nada divulgaram.
Para o uruguaio Victor Bacchetta (2000, p.18), o Jornalismo Ambiental (JA) deve estimular a capacidade das pessoas “para participar e decidir sobre sua forma de vida na Terra, para assumir em definitivo sua cidadania planetária”. A defesa do cidadão e da cidadania são pressupostos enraizados não apenas no JA, mas em qualquer ramo do jornalismo. E a primeira medida desse propósito é elementar: fazer com que aquilo que é relevante chegue até o seu destinatário, o leitor.
*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.
Referências:
BACCHETTA, Victor L. El periodismo ambiental. In: BACCHETTA, Victor L. (coord.). Ciudadanía planetária: temas y desafios del periodismo ambiental. Paris, IFEJ-FES, 2000.
Temperaturas muito altas para o período, destacadas por vários veículos de imprensa brasileira nesta terça, 22 de agosto de 2023. Mas será que esses fatos são acompanhados pela preocupação com as mudanças climáticas? O mundo está cada vez mais quente, o que acelera a crise do clima e, por consequência, se amplifica o risco de eventos climáticos extremos, como as ondas de calor, incêndios naturais e enchentes.
Ao trazer a notícia de que nesta semana teremos uma intensa onda de calor, generalizada, no Brasil, matéria do G1 não fala diretamente da emergência climática, mas deixa linkada uma reportagem do início de agosto, que trata dos efeitos do aquecimento global, agora rebatizado como “era da fervura global”, pelo secretário-geral da ONU, António Guterres. Também fez ligação com o podcast “O Assunto”, que tratou dos “Recordes de calor e a ameaça à vida humana”, produzido por Natuza Nery.
O texto do UOL, ao final das informações sobre as altas temperaturas, traz um trecho associando a onda de calor e as mudanças climáticas: “Um novo estudo da Unicamp detalha os efeitos das mudanças climáticas em Campinas, cidade de 1,1 milhão de habitantes no interior do Estado. Entre 1989 e o ano passado, a média das temperaturas máximas locais subiu 1,2ºC. E se não frearmos as emissões de gases de efeito estufa, a alta não deve parar por aí.”
Já a Folha de SP é bastante direta em seu título: “Entenda por que mudanças climáticas causam tanto calor e incêndios na Europa” e subtítulo: “Sem redução de gases-estufa, ondas de calor e queimadas serão mais intensas e frequentes, alertam cientistas”.
Na cobertura do tema, as notícias de outros países também figuram nos portais. Como essa, da Agência Reuters publicada no UOL, que fala sobre como os incêndios se espalham na Europa diante da onda de calor, causando mortes e destruição na Grécia, Espanha, Itália e França. Não faz ligação com as mudanças climáticas.
Já no site da Época Negócios, a fonte ouvida MeteoSuisse estabelece a associação: “A mudança climática antropogênica fez com que a altitude da linha de zero grau aumentasse significativamente a cada estação”. Informa ainda que há “um impacto considerável nos habitats de humanos, animais e plantas. Recordes sucessivos para o indicador foram estabelecidos nos últimos 10 anos.”
Com esse rápido recorte do noticiário, podemos perceber que a gravidade dos problemas ambientais está batendo à porta e, com isso, a maior parte das notícias já traz a percepção de que os eventos extremos de calor fazem parte da ebulição global e da emergência climática. Mas ainda é necessário, ao discutir esse tema, trazer o debate sobre o que fazer para mitigar o aquecimento global, com a redução de emissão de gases de efeito estufa. Não há tempo para o conformismo, é preciso agir preventivamente.
As mudanças climáticas são tema frequente neste Observatório. Em julho, as ondas de calor já eram sentidas no Hemisfério Norte, e sobre isso escreveram Michel Misse Filho e de Débora Gallas. Confira ainda a análise do tema em 2022, feita por Carine Massierer.
* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.