Do que não podemos esquecer: o agravamento do descaso ambiental

Imagem: Captura da tela de notícia da Folha de S. Paulo

Por Eloisa Beling Loose*

Com a expansão do contágio da Covid-19, o aumento do número de mortes e os inúmeros efeitos sociais e econômicos derivados da maior crise sanitária da contemporaneidade, é esperado que a atenção da imprensa se volte, de maneira massiva, para o entendimento desse assunto. Contudo, recordemos que outras pautas continuam sendo relevantes e até urgentes, e não devem ser deixadas de lado. 

A necessária quarentena não pode ser cumprida por muitos e ainda há aqueles que percebem esse silenciamento do poder público sobre outros assuntos como oportunidade para lograr benefícios indevidos. E a emergência ambiental continua em curso. Mesmo que de forma não sistemática, é o que alguns veículos têm apontado nos últimos dias em relação à situação de intensificação de crimes ambientais nesse momento de suposto isolamento social e de sobreposição de crises.

O crescimento das queimadas nesse período já foi registrado em biomas brasileiros. De acordo com notícia da Folha de S. Paulo, a área queimada no Pantanal é a maior já registrada pelo Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em um início de ano – período que não corresponde à estação do fogo. Além de afetar a conservação da biodiversidade, a fumaça causa uma série de problemas respiratórios – o que amplia a procura por hospitais e a demanda por respiradores em pleno enfrentamento contra a Covid-19. 

Na Amazônia, as queimadas relacionam-se ainda com o desmatamento, grilagem e mineração de terras indígenas. O fotógrafo Sebastião Salgado lançou um manifesto de proteção aos povos indígenas divulgado por vários meios de comunicação, que chamou a atenção para o agravamento dos riscos relacionados à Covid-19 em terras que estão sendo invadidas e incendidas. Em matéria do El País, há um breve panorama sobre a ameaça da pandemia nas populações indígenas na região da fronteira tripartite, historicamente dizimadas por epidemias levadas pelos brancos, mas que sofrem ainda mais com o afrouxamento da vigilância e a falta de políticas públicas que pensem no seus modos de vida.

Em notícia produzida pelo Repórter Brasil e publicada no UOL, faz-se o alerta em relação à situação da população da região amazônica, na qual os efeitos das queimadas avulta a gravidade das internações de crianças nesse período de seca da floresta, que vai de maio a outubro. Segundo a Fiocruz, nesta época, o número de internações de crianças com doenças respiratórias dobra nas áreas mais afetadas pelo fogo; acrescenta-se isso à procura por leitos em razão do coronavírus e podemos ter uma combinação catastrófica. Ao final, informa-se que o governo federal decretou uma Garantia da Lei e da Ordem, de modo a mobilizar os militares para o combate ao desmatamento e focos de incêndio, a partir desta segunda-feira (11 de maio). Porém, o fechamento do texto retoma a ideia de que os grileiros, madeireiros e garimpeiros não fazem home office, sublinhando o quão negligente tem sido o governo em relação ao cuidado socioambiental.

As ações governamentais de resposta são lentas e tendem a minimizar o problema, como já ocorreu no ano passado. Também há pressão política, sobretudo da bancada ruralista, em aprovar a Medida Provisória 910/2019, que beneficia com anistia desmatadores e grileiros de terras públicas – o que seria um claro incentivo às queimadas, somado à redução de equipes de fiscalização na rua. É preciso que o jornalismo seja sentinela dos assuntos que impactam nossa sobrevivência no presente e futuro. A cobertura da pandemia de Covid-19 não pode encobrir ou servir de justificativa para minimizar os problemas ambientais que seguem assolando nossos ecossistemas.  

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

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