Quem tem medo do jornalismo engajado?

Fonte: Captura de Tela do site do projeto “De olho nos ruralistas”

Por Débora Gallas Steigleder*

“Faça textos imparciais e objetivos”, recomenda o Manual de Redação do jornal O Estado de São Paulo aos editores, repórteres e redatores da empresa. De fato, a precisão é um valor essencial à produção noticiosa. Um texto baseado em juízos de valor, além de não informar, pode confundir e desorientar. Não é jornalismo, portanto. Porém, proponho aqui entender a função do jornalismo para além de categorias que aparecem a ele associadas de forma recorrente, como “imparcialidade”, “objetividade” e “neutralidade”.
O engajamento não nega o ímpeto de perseguir a objetividade enquanto método de apuração e verificação dos fatos, mas rompe com a crença de que o jornalista consegue se despir de sua subjetividade no exercício da atividade. Por isso, costuma ficar de fora do rol dos ideais identificados com o jornalismo. Quando defendemos o engajamento como um elemento característico do jornalismo ambiental, entendemos que se trata de um caminho para garantir coerência com a pauta abordada.
As críticas ao engajamento envolvem o temor de que o jornalismo flerte com o ativismo e que isso levaria à perda de credibilidade. No entanto, o momento atual é de disputa pela sobrevivência. Para conectar o público a pautas de urgência como o caos climático e a conexão entre a devastação ambiental à propagação da pandemia do COVID-19, é necessário agregar às estratégias de sensibilização do público formatos que ultrapassem a impessoalidade associada ao jornalismo tradicional e ilustrem as conexões entre os fenômenos da realidade.
Iniciativas derivadas de posturas engajadas têm como aspectos positivos a transparência sobre a orientação político-ideológica e a independência em relação ao financiamento, já que um veículo com posicionamento crítico ao agronegócio não aceitará publicidade ou patrocínio desse setor, por exemplo. É o que propõe o projeto De Olho Nos Ruralistas ao repercutir o processo de devastação ambiental sob o governo de Jair Bolsonaro.

No dia 26 de maio, o texto de Alceu Luís Castilho informou detalhadamente as entidades responsáveis por veicular anúncio de apoio à gestão de Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente. A publicação retomou levantamento realizado pelo próprio portal em 2019 com a lista de empresas que financiam a Frente Parlamentar Agropecuária através de associações do agronegócio brasileiro. O assunto foi retomado por conta do discurso de Salles durante a reunião ministerial de 22 de abril, em que o ministro defendeu aproveitar o foco da cobertura jornalística da pandemia para “ir passando a boiada” e afrouxar ainda mais os regramentos das políticas públicas ambientais. Na mesma semana, também repercutindo a frase de Salles, Observatório do Clima, ClimaInfo e Greenpeace Brasil iniciaram uma campanha nas redes sociais intitulada #nomeaosbois, pela qual cobraram posicionamento público das empresas representadas pelas entidades que assinaram o manifesto em apoio ao ministro. Neste caso, o jornalismo engajado esteve em sintonia com outras estratégias de comunicação que buscaram dar visibilidade à pauta e mobilizar o debate público sobre as responsabilidades do governo e do setor privado na crise ambiental.
Esta ampliação do diálogo entre jornalismo e outros atores é um movimento muito importante no contexto atual de devastação dos biomas brasileiros que pode ser irreversível. Não temos mais tempo: o jornalismo precisa incorporar novos elementos de sensibilização do público para atentar à urgência do tema. Isto não significa renunciar aos seus princípios e valores ou às formas já consolidadas da atividade jornalística; significa, apenas, a ampliação de possibilidades nas coberturas. A pluralidade de olhares e abordagens será bem-vinda para uma mobilização social representativa.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

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