As marcas da pandemia na sociedade e no meio ambiente

Patrícia Kolling*

Fonte: Captura de tela da Folha de São Paulo

Na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente dezenas de lives debateram a questão ambiental. No Brasil, o Programa de Meio Ambiente, da Organização das Nações Unidas, promoveu os debates A Hora da Natureza, que no dia 04 de junho reuniu Sebastião Salgado e Rosyska Darcy. O projeto 342 Amazônia permitiu o encontro de André Trigueiro e Caetano Veloso falando sobre meio ambiente e promovendo o lançamento do playlist do projeto, com música gravadas no ano passado. No dia 5, uma mega live de cinco horas reuniu diferentes pessoas em torno do tema, desde artistas, cientistas, pesquisadores, lideranças e representantes indígenas. Os debates em plataformas digitais surpreendem pela diversidade humana, o que num evento presencial seria improvável, devido aos altos custos e logísticas de deslocamento. Além disso, por ser remota a participação de todos, sem dúvida, a poluição causada pelo deslocamento das pessoas em carros e aviões caiu a zero. E por estar disponível na internet, pode proporcionar o acesso a milhares de pessoas que não teriam condições de se deslocar a um evento presencial, promovendo a democratização da informação. Oxalá, que essa uma forma de encontro e comunicação perdure pós pandemia.

Mas semana do meio ambiente a temática ambiental não teve lá muito destaque na imprensa brasileira. A data coincidiu com uma semana de recorde nos números de mortos pela Covid19. Felizmente, entretanto, a pauta socioambiental tem ganhado espaço nos meios de comunicação nas últimas semanas, apesar da pandemia. Matérias sobre a situação do desmatamento, queimadas e garimpo na Amazônia têm tido repercussões em vários veículos. 

Um caso chama atenção por unir o tema preponderante no momento com a questão ambiental. Na Folha de S.Paulo, a repórter Ana Carolina Amaral destaca que, neste ano, o ar está mais limpo, as cidades com menos ruídos, é possível ver animais circulando mais próximos das ocupações humanas e as emissões  de gases-estufa foram reduzidas, apesar do desmatamento, as queimadas  e o garimpo ilegal na floresta Amazônica terem apresentados números elevados nos últimos meses (ver: Queda na poluição inspira busca de soluções sustentáveis pós pandemia). De acordo com a Global Carbon Project, as emissões de carbono devem cair entre 4 e 7% no mundo, principalmente devido à queda de 50% nas emissões de transportes superficiais ao redor do globo. Segundo a matéria, se a taxa for mantida anualmente, por meio de políticas de retomada econômica, o mundo poderia cumprir o acordo de Paris e evitar as graves consequências do aquecimento global. 

A pergunta que nos instiga neste momento é exatamente neste sentido: será que teremos condições, interesse e ações para manter reduzidos os níveis de poluição do ar, da água e poluição sonora, a partir do momento que os números de mortes e infectados pelo coronavírus diminuir, as pessoas começarem a sair do isolamento e as empresas retomarem produção e comercialização?

A repórter da Folha refere-se no texto ao manifesto “Queremos respirar um novo agora”, elaborado por 24 Organizações Não-Governamentais. O documento solicita ao poder público que na retomada econômica inclua condicionantes ambientais nos pacotes de ajuda ao setor privado.  Entre as medidas sugeridas estão a produção de veículos mais limpos, incentivo ao transporte individual ativo com o planejamento de vias urbanas para pedestres e ciclistas, frota de ônibus não poluentes e o combate ao desmatamento e as queimadas. Infelizmente, na China, onde a retomada econômica já está em curso, os índices de poluição também já retomaram os números anteriores ao período crítico da pandemia.

No debate A Hora da Natureza, o fotografo Sebastião Salgado e a escritora Rosyska Darcy defenderam mudanças mais profundas e individuais que a quarentena pode ser capaz de promover. Sebastião Salgado nos fez refletir sobre o que é essencial para sobrevivermos. Quando apenas os comércios essenciais estavam funcionando, continuamos vivendo muito bem, com o que já tínhamos a nosso dispor, argumentou. Fica a pergunta: o que é essencial para vivermos bem? Rosyska Darcy destacou a vida em comunidade, as relações com as pessoas e a vida rodeada de nossos afetos. “É preciso repensar o cotidiano. O que pra nós faz sentido? Esse algo novo que precisa ser construído é o bem estar das pessoas. Um viver menos submetido a ganancia. Um bem estar que vale a noção de sustentabilidade”, respondeu. 

Para ambos, mais do que ações grandiosas para se viver num mundo novo e melhor, a mudança está na vida comunitária e na solidariedade. “Fala-se em construir um mundo novo, diria que esse mundo mais justo e solidário, começa com mais intensidade agora no auge da pandemia. Se ele não começa agora, eu tenho sérias dúvidas que vingará amanhã. A solidariedade precisa ser exercida agora como virtude cívica e obrigação moral”, defendeu Rosyska.  Sebastião Salgado reforçou que isso requer a participação de todas as pessoas: “A necessidade de todos irmos para o debate. Todos irmos para a solidariedade. Todos exercermos respeito pelo outro”. A perspectiva reforça o trabalho comunitário e democrático: “O problema é pessoal, é autocritica, é necessário olhar para si. Só vamos construir com os outros… sozinhos não vamos conseguir”, concluiu o fotógrafo. 

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e  professora da UFMT

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