Imenso por sua importância, Ato pela Terra é diminuído pela imprensa

Imagem: Caetano canta no Ato pela Terra – Mídia NINJA

Por Sérgio Pereira*

Na quarta-feira passada, dia 9 de março, o Brasil promoveu um de seus maiores atos em defesa do meio ambiente. Talvez o maior já realizado no país com esse objetivo, ao lado da mobilização organizada pelos povos originários em Brasília no ano passado. O Ato pela Terra, liderado por Caetano Veloso, reuniu músicos, atores, atrizes, lideranças indígenas, centenas de entidades da sociedade civil e milhares de pessoas em frente ao Congresso Nacional.

A manifestação foi uma reação a projetos de lei que ameaçam o meio ambiente, o chamado “Pacote da Destruição” de Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Mais precisamente contra os PLs 2.633/2020, que permite a regularização fundiária de terras da União por autodeclaração, sem vistoria prévia do Incra; o 2.159/2021, que dispensa várias atividades e empreendimentos do licenciamento ambiental (esses dois primeiros em tramitação no Senado); o 490/2007, que proíbe a ampliação de áreas já demarcadas para os povos originários e fixa um marco temporal para as terras consideradas “tradicionalmente ocupadas por indígenas”; o 191/2020, que permite a mineração em reservas indígenas; (os dois últimos em tramitação na Câmara Federal) e o 6.299/2002, também chamado de “PL do Veneno” e que flexibiliza o controle e a aprovação de agrotóxicos no país, aprovado na semana passada pelos deputados federais.

Cantaram no palco montado em frente ao Congresso, além do próprio Caetano, talentos consagrados como Maria Gadú, Emicida, Seu Jorge, Nando Reis, Criolo, Daniela Mercury e Duda Beat. Mas também participaram artistas como Letícia Sabatella, Malu Mader, Lázaro Ramos, Alessandra Negrini, Elisa Lucinda, Mariana Ximenez, Leona Cavalli, Zezé Polessa, Christiane Torloni e Maria Ribeiro, entre outros. Mais de 200 entidades civis apoiaram o evento. No dia seguinte, as capas dos principais jornais não conseguiram refletir a grandeza da manifestação. O Estado de S.Paulo, Estado de Minas, O Tempo e Super Notícias ignoraram completamente o ato em suas primeiras páginas.

Imagem: reprodução das capas de O Estado de S.Paulo, Estado de Minas, O Tempo e Super Notícias

Apenas quatro grandes fizeram registro sem suas capas: O Globo, Folha de S.Paulo (com uma pequena chamada sem foto), Correio Braziliense e Jornal de Brasília, sendo os dois últimos publicações do Distrito Federal, com o fator local (proximidade) pesando com força na edição da primeira página. No caso do Jornal de Brasília, no entanto, a capa se limita a uma foto da cantora Daniela Mercury em uma coluna. O destaque positivo aqui fica por conta de O Globo, do Rio, que colocou a mobilização como segunda foto principal. Pena que o título “Caetano canta contra o garimpo em reservas” não dá a exata dimensão do protesto, como se fosse uma ação isolada do compositor baiano, e destacando apenas um dos projetos de lei.

Imagem: reprodução das capas de O Globo, Folha de S.Paulo, Correio Braziliense e Jornal de Brasília

Já os três principais jornais gaúchos praticamente ignoraram a manifestação em suas versões impressas, sem nenhuma chamada de capa. O Correio do Povo deu pouco mais de 500 caracteres na página 3, sem foto, no final da matéria com o título: “Câmara aprova urgência para projeto de mineração”. O texto não cita a participação de artistas e nem a multidão reunida em Brasília para acompanhar os shows. Na versão on-line, CP postou matéria mais completa da Agência France Presse com o título “Caetano Veloso lidera ato em Brasília contra pacote de ‘destruição’ ambiental”, ilustrada com uma foto de arquivo de Caetano, exatamente às 17 horas, quando o evento estava começando, e sem atualização posterior.

Zero Hora, por sua vez, também deu em sua versão impressa uma nota de aproximadamente 900 caracteres na coluna Política+ (página 10), com foto destacando o encontro dos artistas com o presidente do Senado. Com um título pouco informativo, “Ativismo ambiental”, ZH cita alguns dos artistas que participaram da mobilização, mas omite o público. GZH, no entanto, postou na noite do dia do evento o texto da Agência Estado intitulado “Em ato no Congresso, artistas cobram proteção ao ambiente e aos povos indígenas”. O texto não cita a grande concentração de pessoas e apenas menciona a participação de Caetano, Maria Gadú e Letícia Sabatella, sem relacionar outros artistas ou participantes. A postagem exibe duas fotos, uma de Caetano ao violão ao lado da atriz Letícia Sabatella e outra mostrando o palco e feita a partir do ponto de vista da plateia. O Jornal do Comércio também se limitou a registrar o Ato pela Terra em sua versão impressa com um texto de 900 caracteres na página 18, com uma foto de reunião com a ministra do Supremo Tribunal Federal Carmen Lúcia. No digital, o JC repetiu a mesma nota e foto às 3 horas do dia 10, com o mesmo título: “Artistas vão ao Supremo pedir prioridade a questões ambientais”. Nada sobre o ato e a presença de milhares de pessoas no evento.

Imagem: reprodução de páginas do CP, ZH e JC

Os jornais brasileiros, em sua maioria, tentaram minimizar a importância do ato, buscando desmerecer o seu mérito histórico. Nesse sentido, prestaram serviço aos políticos e demais interessados na aprovação do “Pacote da Destruição”, como o agronegócio e as mineradoras. Para esses, o silêncio e a omissão são importantes instrumentos para atingir seus objetivos.

Cabe lembrar que um jornal não pode se limitar a dar aos leitores apenas aquilo que eles anseiam. Precisa também apontar para aquilo que realmente importa, aquilo que lhes atinge direta ou indiretamente. Precisa alertar o leitor e lhe dar o direito de reação. Como nos adverte o professor estadunidense Davis Merritt, especialista em jornalismo cidadão: “Numa sociedade de indivíduos dispersos e abarrotados com informação descontextualizada, uma vida pública efectiva precisa de ter uma informação relevante que é partilhada por todos, e um lugar para discutir as suas implicações. Somente jornalistas livres e independentes podem – mas habitualmente não conseguem – providenciar essas coisas. Do mesmo modo, a vida pública efetiva requer a atenção e o envolvimento de cidadãos conscienciosos, que só eles podem providenciar. Por outro lado, se as pessoas não estão interessadas na vida pública, elas não têm qualquer necessidade dos jornalistas nem do jornalismo”. (MERRITT apud TRAQUINA, 2003, p.12)

*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente

  • Referência

TRAQUINA, Nelson. Jornalismo Cívico: reforma ou revolução? In: TRAQUINA, Nelson, MESQUITA, Mário (org): Jornalismo Cívico. Lisboa: Livros Horizonte, 2003.

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