A guerra, os fertilizantes e a (in)sustentabilidade do modelo agrícola brasileiro

Imagem: Captura de tela do site da Forbes

Por Ângela Camana*

Nesta semana, caso não se confirmem os avanços nas negociações entre Rússia e Ucrânia, a guerra no leste europeu completa um mês. Neste período de pautas sensíveis, a ausência de uma delas de faz sentir: diante de uma possível falta de fertilizantes sintéticos, o debate experimentado pouco explora a dependência brasileira deste tipo de produto. A cobertura do tema tem desperdiçado a ocasião para incluir em sua agenda uma crítica mais demorada ao modelo produtivo adotado pelo Brasil, que – para além da já evidente destruição ambiental – agora também dá claros sinais de sua insustentabilidade econômica. Esta ausência parece dar ainda mais munição para o lançamento de iniciativas como o Plano Nacional de Fertilizantes, que aposta na manutenção do modelo produtivo que dá sinais de colapso: para ampliar a produção brasileira do insumo, o governo federal dá aval para a expansão da mineração, inclusive em terras indígenas.

Tão logo o conflito no leste europeu foi deflagrado, a cobertura jornalística de todo o mundo voltou os olhos aos horrores humanitários imediatos: as pessoas deixando suas casas durante um rígido inverno, enfrentando a fome, o cansaço e as barreiras burocráticas nas fronteiras nacionais. Passado o impacto inicial, à crise humanitária foi acrescido um debate sobre os impactos econômicos globais e os principais veículos brasileiros passaram a especular os possíveis efeitos do confronto por aqui. Com as sanções à Rússia, o centro do noticiário, então, passou a ser tomado por uma hipotética “crise dos fertilizantes”, já que o Brasil é dependente dos fertilizantes químicos advindos do exterior: hoje o país importa mais de 70% do nitrogênio, mais de 50% do fósforo e mais de 90% do potássio, que juntos formam o “NPK”.

A pauta agro, que virou pop nos últimos anos pela sua participação nos números e projeções da economia nacional, agora ocupa o palco dos debates por sua fragilidade frente a um cenário de instabilidade. O debate público sugerido pela imprensa tem sido centrado em um modelo bastante específico: o agronegócio exportador, apresentado como o principal prejudicado nesta disputa por fertilizantes sintéticos. No Brasil, o jornalismo hegemônico tem produzido uma cobertura sobre o tema calcada no economicismo e na abstração, sem identificar que os efeitos de um possível desabastecimento de fertilizantes não se farão ver apenas na balança comercial, mas na vida de sujeitos de carne e osso.

A guerra do outro lado do oceano é em si mesma uma tragédia. Com raras exceções, como o excelente podcast Angu de Grilo, o jornalismo brasileiro perde a chance de descrever como o conflito entre Rússia e Ucrânia tem sido usado para autorizar decisões que sustentam o catastrófico modelo de desenvolvimento brasileiro. Perdemos todos nós.

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

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