O que (não) dizem as fontes oficiais sobre o desmatamento da Amazônia

Imagem: captura de tela do Jornal Nacional – Edição de 30 de novembro de 2022 disponível na plataforma Globoplay

Por Débora Gallas Steigleder*

Na última quarta-feira, dia 30 de novembro, foram divulgados os números do programa Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), referentes ao desmatamento da Amazônia entre agosto de 2021 e julho de 2022. O monitoramento é anual e realizado através de satélites. Apesar da diminuição em relação ao ano anterior, a supressão da vegetação nativa no maior bioma do país segue acima de 10 mil km², conforme destacou reportagem da Folha de S. Paulo, e o índice deste ano é o segundo pior em 14 anos, como lembrou William Bonner no Jornal Nacional. A matéria de Vladimir Netto explicouque os 11.568 km² devastados equivalem a duas vezes o território do Distrito Federal.

Além do desafio de contextualizar números para evidenciar ao público a grande dimensão dos impactos registrados, o jornalismo precisa explicar por que os índices de eliminação da floresta se mantêm altos, sobretudo no estado do Amazonas – onde o desmatamento cresceu desde 2021. Isto não foi difícil para Jornal Nacional, Folha de S. Paulo e outros veículos nacionais que repercutiram o tema, como g1. Afinal, desde o início da gestão de Jair Bolsonaro, o crescimento desses números foi uma constante.

As principais fontes consultadas para repercutir o tema são os próprios cientistas do INPE, responsável pelo levantamento, e especialistas da academia e do terceiro setor que têm alertado para a política de destruição da natureza levada a cabo pelo governo federal, como Observatório do Clima e MapBiomas. Já é evidente para o público que o sucateamento de estruturas como a de fiscalização de infrações contribui diretamente para esses números. As derrubadas de floresta com fins especulativos na área conhecida como AMACRO – que engloba os estados do Amazonas, Acre e Rondônia e contém a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho – são consequência direta dessa política.

Chama atenção, portanto, a ausência de vozes do governo nessas reportagens para comentar os índices e trazer alguma explicação. O Ministério do Meio Ambiente nada quis declarar à reportagem da Folha de S. Paulo. Um breve contraponto do Ministério da Justiça foi lido por Bonner ao fim da reportagem de Jornal Nacional, no formato de nota pelada. Já o g1 não detalha se procurou o governo para comentar o assunto.

Nós, pesquisadores em Jornalismo Ambiental, sempre frisamos a importância da diversidade de vozes nas coberturas ambientais para ir além do factual e do discurso padrão das fontes oficiais. Porém, o que fazer quando a fonte oficial precisa dar explicações à sociedade e se exime de suas reponsabilidades? Vemos que, principalmente após a fala do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva na COP27, a pauta climática já é direcionada à equipe de transição. Mas Jair Bolsonaro ainda é presidente e Joaquim Leite, seu Ministro do Meio Ambiente. Cabe ao jornalismo não desistir de cobrar as justificativas que eles nos devem.

*Jornalista, doutora em Comunicação, pesquisadora do GPJA

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