O jornalismo e os impactos da nova fronteira do petróleo para além da crise climática

Imagem: Município de Oiapoque. Fonte: OpenStreetMap – Licença de Base de Dados Aberta de Open Data Commons

Por Débora Gallas*

A licença obtida pela Petrobras para prospecção de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, situada na Margem Equatorial, tem sido bem documentada pela imprensa. Especialmente por ocasião da COP30 na Amazônia, em novembro de 2025, a autorização do Ibama para o início das atividades expôs as contradições do governo Lula, que ora propõe um mapa do caminho para a redução do consumo e das emissões de combustíveis fósseis, ora defende a exploração desses recursos, diretamente relacionados à crise climática global.

No entanto, as consequências da atividade petrolífera na região vão além da produção de combustíveis fósseis e da emissão dos gases de efeito estufa derivados de sua queima. Passam pela contaminação ambiental provocada por possíveis vazamentos na operação em alto mar, que poderiam atingir a costa brasileira, conforme noticiou recentemente a DW, e pelas transformações sociais em terra firme, que são tema de duas reportagens publicadas nas últimas semanas e que motivam as reflexões deste texto.

No dia 12 de julho, a Folha de S. Paulo publicou reportagem de Vinicius Sassine, com fotografias de Lalo de Almeida, sobre como o fluxo migratório movido pela esperança de ganhos com o petróleo e o encarecimento dos aluguéis resultam em ocupações irregulares no município do Oiapoque, no Amapá, o mais próximo do bloco de exploração. O registro do surgimento de sete novos bairros – todos estabelecidos em área de floresta devastada, com moradias precárias, sem saneamento básico e sequer regulação fundiária – aparece também na reportagem de Camila Lichotti para a edição de julho da revista piauí.

Quem lê ambas as reportagens entende a lógica de exploração da natureza como combustível para problemas sociais crescentes na região. Além disso, ambos os textos também lembram que a região tem um ecossistema sensível, como a maior costa de manguezais do mundo e os recifes de coral na foz do Amazonas.

A reportagem da Folha, mais compatível com o formato do jornalismo diário, foca na especulação imobiliária e na expansão desenfreada da urbanização em Oiapoque tendo o factual como ponto de partida – no caso, a prisão de envolvido na venda de lotes irregulares. Além dos posicionamentos oficiais – do Ibama, da Petrobras e da Prefeitura –, a reportagem conversa com pessoas que foram viver nos novos bairros movidas pela promessa de crescimento econômico do município.

Já a reportagem da piauí, mais alinhada ao jornalismo narrativo proposto pela revista, traz o histórico da expectativa relacionada à exploração de petróleo e dos royalties que podem gerar ao município. O texto conta as mudanças em Oiapoque centrada em uma personagem – uma empresária que vê a chegada da Petrobras como sinônimo de desenvolvimento e prosperidade. O contraponto ao otimismo aparece em visita da reportagem à aldeia Karipuna, nas imediações de Oiapoque, onde vivem 409 famílias. Após terem suas roças de mandioca afetadas pelas vassoura-de-bruxa, a comunidade também não consegue mais caçar porque o aumento do fluxo de aeronaves na região provoca barulhos que afugentam os animais. Além de terem a subsistência diretamente afetada pelo desembarque da Petrobras na região, os indígenas enfrentam ameaças quando levantam ressalvas às operações.

Há obstáculos evidentes para uma cobertura contínua e aprofundada sobre o tema, sendo o principal deles o isolamento geográfico e a tímida presença de jornalismo profissional – segundo o Atlas da Notícia, o município de Oiapoque conta com duas rádios e uma emissora de televisão, mas nenhum veículo impresso ou digital, por exemplo.

Porém, é importante que veículos jornalísticos, principalmente os de abrangência nacional, sigam a trilha do trabalho feito pela Folha e piauí. Acompanhar os desdobramentos de uma licença concedida sem que nenhum dos órgãos envolvidos dimensionasse os impactos do empreendimento para a organização territorial na costa amapaense – sobretudo para os povos e comunidades tradicionais, que já percebem sua relação com a natureza estremecida –, é uma das orientações do Jornalismo Ambiental. Nesse sentido, além de seguirem olhando para o elo mais fraco da especulação imobiliária e financeira que jorra em Oiapoque antes mesmo do petróleo, futuras reportagens poderiam consultar fontes da ciência que documentam as mudanças na região.

Revisão: Eloisa Loose, integrante do GPJA.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, é líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq ao lado de Ilza Girardi.

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