Imagem: filhote de gato-palheiro-pampeano, felino característico da metade sul do RS. Crédito da foto: Felipe Peters/Felinos do Pampa
Por Sérgio Pereira*
A abordagem editorial da chamada grande imprensa em relação ao Pampa gaúcho já foi tema de diversas postagens aqui no Observatório. Os artigos, em sua maioria, alertam que o ecossistema sulino e sua destruição têm sido praticamente desconsiderados pelos veículos tradicionais, apesar das advertências dos cientistas, dos protestos dos ambientalistas e dos relatórios do consórcio MapBiomas, que com frequência torna público dados sobre as situações dos seis biomas brasileiros.
Essa tendência, no entanto, teve sua rotina quebrada há poucas semanas. A notícia em questão envolvia o ingresso de um felino na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, um documento científico elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente. O gato-palheiro-pampeano (Leopardus munoai) passa agora a ser classificado como “criticamente em perigo”.
Chamado de “Fantasma do Pampa”, ele habita a metade sul do Rio Grande do Sul e em parte da Argentina e Uruguai. Estima-se que hoje só existam 250 desses felinos, que são independentes, esquivos e não gostam de andar em grupo. Suas aparições são cada vez mais raras, o que justifica o apelido.
Quando o tema é meio ambiente, a realidade do jornalismo tradicional brasileiro nos remete, na maioria das vezes, ao que o professor Wilson da Costa Bueno chama de “Síndrome da baleia encalhada”: uma cobertura jornalística “estática, paralisante, do meio ambiente, como se fosse possível (e desejável) ver a questão ambiental isolada de sua dinâmica, de suas causas e, portanto, distante dos grandes interesses que a promovem e a sustentam” (2007, p. 38). É “a espetacularização da tragédia ambiental” sem a necessária contextualização.
Ou ainda sofre da “Síndrome do muro alto”, outro termo empregado por Bueno, que identifica a “tentativa de despolitização do debate ambiental pela desvinculação entre a vertente técnica (comprometida com a perspectiva empresarial) e as demais vertentes (econômica, política e sociocultural)” (2007, p. 37).
Pois o impresso Zero Hora e o portal GZH, ambos do grupo RBS, concederam, dentro de sua realidade, espaços generosos para informar sobre o risco de extinção do gato-palheiro-pampeano. Em sua edição de 2 de julho, ZH reservou uma página para a matéria “Fantasma do Pampa entra em lista nacional de espécies ameaçadas”. Já o site de notícias atualizou postagem no dia 4 de julho com o título “Menos de 250 vivos: conheça o fantasma do pampa e saiba por que o felino corre risco de extinção”. Os textos são praticamente os mesmos, apenas com algumas alterações editoriais por conta das especificidades das diferentes plataformas.
A reportagem tem méritos. Além de alertar para os riscos enfrentados pelo felino, aborda questões que o jornalismo hegemônico costuma deixar de lado quando se trata do Pampa. Uma delas é mencionar a redução de sua vegetação nativa, resultado da ação humana. A publicação esclarece que “a espécie necessita de campos nativos preservados, que não estejam submetidos à intervenção de monoculturas e silviculturas”, citando os avanços das lavouras de arroz e soja sobre o bioma. Realidade que a Secretaria Estadual do Meio Ambiente tenta amenizar em suas declarações para o jornal.
A matéria de ZH ainda lista ações prioritárias indicadas por pesquisadores para salvar o Pampa, sua fauna e sua flora. Como acréscimo ao texto, o tema sobre os prejuízos que o agronegócio tem causado ao bioma sulino poderia ser ampliado para contextualizar a grande perda de área natural nas últimas décadas.
Outros jornais tradicionais do Estado, no entanto, confirmando a regra, ignoraram a notícia. Mas o gato-palheiro-pampeano também ganhou destaque em portais de notícias de fora do RS, como g1, Terra e UOL.
A propósito, importante valorizar o trabalho da equipe do Felinos do Pampa, utilizado como fonte da notícia por vários veículos de comunicação. Criado em 2021, o projeto de pesquisa e conservação objetiva “transmitir conhecimento para construir valores sociais e promover atitudes voltadas à conservação dos felinos silvestres e de seus habitats naturais”.
Nos últimos anos, o Felinos do Pampa, iniciativa vinculada à UFRGS, à UFPel ao Instituto Pró-Carnívoros, alcançou visibilidade junto à mídia e conta hoje com mais de 54 mil seguidores em seu perfil no Instagram. Os pesquisadores do projeto têm conquistado espaços na imprensa tradicional graças às suas pesquisas e à divulgação de vídeos e fotos raras das espécies nativas do RS. Afinal, em tempos de jornalismo metrificado, quem resiste aos potenciais cliques que a imagem de um gatinho oferece?
Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA
*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com
Referência:
BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, 2007. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/made/article/view/11897/8391. Acesso em: 21 jul. 2026.

