Desastres viram notícia. Preveni-los, não.

Foto: RS via Fotos Públicas

Eutalita Bezerra*

Nos últimos anos, o agravamento da crise climática tem ampliado o volume de iniciativas institucionais voltadas à mitigação de impactos ambientais e à adaptação das sociedades ao aquecimento global. Porém, parte dessas ações, mesmo quando envolvendo organismos internacionais, coalizões da sociedade civil ou decisões com impacto direto sobre políticas públicas, passam quase despercebidas no noticiário tradicional.

No início deste mês, duas iniciativas relevantes circularam principalmente em meios de comunicação alinhados à pauta ambiental. No dia 4, organizações que compõem o Observatório do Clima divulgaram a Agenda Legislativa 2026, documento que analisa proposições em tramitação no Congresso Nacional e no Senado Federal que desafiam ou colocam em risco o meio ambiente.

Dois dias depois, em 6 de março, a Organização das Nações Unidas anunciou o início do processo de elaboração do Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento (PNAR), iniciativa que pretende orientar a estratégia brasileira para lidar com o aumento de episódios de calor extremo, fenômeno cada vez mais frequente em um planeta em aquecimento. Ambas as iniciativas reúnem elementos clássicos de noticiabilidade. Envolvem instituições de peso, têm impacto potencial sobre políticas públicas e dialogam diretamente com um dos temas mais urgentes da atualidade, a crise climática. Ainda assim, ganharam pouca ou nenhuma visibilidade midiática.

Um levantamento exploratório realizado para este artigo em mecanismos de busca e nos principais portais de notícias do país indica cobertura pontual ou inexistente sobre os temas nos dias seguintes às divulgações.A busca por “Agenda Legislativa 2026” nas dez primeiras páginas da aba de notícias do Google, por exemplo, aponta que o assunto circulou especialmente em veículos especializados e fora do circuito dominante da grande imprensa. É o caso do Site O Eco, o Nexo , o Ciclo Vivo, o Clima Info e a Agência Brasil

Mesmo nesses casos, os textos publicados são muito semelhantes entre si e provavelmente versões reescritas de releases, sem aprofundamento jornalístico.  O Brasil de Fato foi um dos poucos veículos que avançou além do material institucional e ouviu um especialista para comentar o documento. Já o anúncio do processo de construção do PNAR foi ainda mais invisível e apareceu basicamente nos perfis institucionais da própria ONU.

Foto: RS via Fotos Públicas

Esse descompasso entre relevância pública e visibilidade jornalística não é novo. Seguidamente discutimos, neste observatório, que a cobertura ambiental costuma ganhar destaque sobretudo em momentos de desastre, como queimadas, enchentes ou deslizamentos. O que se observa agora é algo ainda mais preocupante: a dificuldade de dar espaço, inclusive em veículos especializados, a processos estruturais de formulação de políticas públicas.

Ainda à luz dos critérios de noticiabilidade, sabemos que iniciativas institucionais de planejamento, mesmo quando estratégicas, frequentemente carecem de elementos dramáticos, o que reduz sua competitividade no fluxo informativo das redações. Quando se trata da crise climática, porém, essa lógica produz um efeito paradoxal.

Quanto mais estruturais e preventivas são as iniciativas, menor tende a ser sua visibilidade pública. O resultado é um noticiário ambiental dominado por eventos extremos, enquanto processos decisivos de formulação de políticas climáticas, capazes de evitar que muitas dessas tragédias aconteçam, permanecem fora do radar da cobertura cotidiana.

A ausência de cobertura consistente sobre iniciativas como a Agenda Legislativa do Observatório do Clima ou o Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento não representa apenas uma lacuna editorial. Representa uma falha na mediação pública de um debate que definirá as condições de vida nas próximas décadas. Se o jornalismo pretende continuar sendo um espaço central de construção da esfera pública, precisa reconhecer que a crise climática não é uma pauta eventual. É o contexto que atravessa todas as outras. Ignorá-la não é apenas um erro de agenda. É, cada vez mais, uma forma de desinformação.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Guerra e clima não coabitam manchetes

Número de mortes e aspectos técnicos dominam enfoques da cobertura jornalística sobre guerras e desastres naturais, enquanto contexto climático fica fora do radar

Fonte: RS/Fotos Públicas

Heverton Lacerda*

Quem acompanha, com olhar atento, as publicações da imprensa brasileira a respeito da tragédia em Ubá (MG) e sobre as guerras patrocinadas por superpotências militares pode identificar, com facilidade, a falta de correlacionamento das pautas com as mudanças climáticas. As abordagens são muito similares: notícias factuais sem contextualização ampla, mantendo os fatos principais isolados.

É como se os enormes impactos ao meio ambiente não contribuíssem para ampliar a tragédia comum que afeta a vida em todo o planeta. As matérias não dão conta de identificar – sequer em notas de rodapé – que as destruições causadas pelas guerras e pelas próprias catástrofes climáticas ampliam o problema ambiental. Quanto mais agressões o corpo planetário sofre, mais diminui sua resiliência natural. Consecutivamente, a Terra perde capacidade de absorção de impactos e regeneração. 

Além de ceifar vidas e destruir territórios, infraestruturas e habitats naturais, guerras e tragédias climáticas ampliam emissões de gases de efeito estufa e os riscos sobre estruturas artificiais críticas. Um exemplo são as tecnologias que envolvem radiações ionizantes, muito utilizadas nas áreas de energia, indústria, médica, farmacêutica e agricultura, entre outras. Além do potencial de causar mortes por intoxicação, ferimentos ou traumas, os acidentes radiológicos comprometem a saúde mental e podem contaminar o solo, a água e o ar. O acidente radiológico de Goiânia, considerado o maior do mundo fora de usina nuclear, aconteceu em 1987. Até hoje, o Brasil abriga mais de três mil instalações radioativas em seu território, conforme o Ministério da Saúde.

Um alerta nesse sentido, ainda que sem mencionar a relação direta com o contexto climático, aparece no portal Opera Mundi, entre outros, quando noticia que a Rússia adverte risco de ‘catástrofe radiológica’ em guerra de EUA e Israel contra Irã.

As guerras e as catástrofes climáticas guardam relações e apresentam distinções. Ambas são reflexos de ações humanas, de decisões tomadas por grupos de poder político e econômico.  As guerras modernas geram toneladas de escombros e emitem gases poluentes em proporções muito maiores do que as atividades do dia a dia. São foguetes, mísseis, drones, veículos blindados – terrestres, marítimos, aéreos -, tecnologias de comunicação de última geração e muito mais. Tudo isso consome muita água e energia, desde a mineração dos materiais utilizados na construção dos equipamentos até as emissões de poluentes de origem fóssil e eletromagnética durante as operações. O volume de recursos financeiros gastos na indústria da guerra seria suficiente para abastecer os fundos climáticos mundiais e apoiar comunidades em risco em todas as partes do mundo. O Rio Grande do Sul, por exemplo, atingido pelas enchentes em 2024, até hoje não conseguiu reconstruir seu território e prepará-lo para o futuro incerto e preocupante que a ciência projeta, diante dos dados disponíveis.

Diferente das guerras, os eventos climáticos extremos já resultam, em grande parte, do acúmulo de atividades degradantes praticadas pela humanidade ao longo dos últimos dois séculos e meio. As catástrofes mais intensas que estamos testemunhando nos anos recentes são consequências do nosso passado. Já os resultados das destruições podem ser considerados agentes de enfraquecimento da resiliência natural dos territórios, exigindo ações preventivas mais eficazes e urgentes. Neste sentido, no entanto, tanto as guerras quanto as catástrofes ambientais intensificam ainda mais a crise climática. 

Talvez o jornalismo, de modo geral, não tenha condições, na correria diária, de ampliar a contextualização ao nível do detalhe, o que poderia comprometer um pouco a objetividade e a facilidade de compreensão das pautas. No entanto, a criatividade e os atuais recursos de design multimídia podem ser aliados estratégicos de apoio à intenção de contextualizar. Intenção é o ponto chave. Guerra e clima podem e devem coabitar não só manchetes, mas as melhores matérias jornalísticas. 

Cabe lembrar que, além da contextualização, o princípio da precaução é outro pressuposto teórico do Jornalismo Ambiental. Ele pode ajudar os colegas jornalistas a compreenderem, identificarem e explicarem os efeitos colaterais – neste caso, os reflexos na crise do clima – dos fatos em destaque na pauta. O compromisso com a fidelidade dos fatos e o alerta para as possíveis causas e consequências, diretas e indiretas, são elementos-chave para manter a pauta climática na transversalidade da boa cobertura jornalística. A visão sistêmica e o olhar para além das cortinas de fumaça demonstram a sagacidade do jornalista, fundamental para a cobertura de pautas complexas.

Revisão: Gabriella Barros, integrante do GPJA

*Heverton Lacerda é jornalista, especialista em Ciências Humanas, mestre em Comunicação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA)  e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Petróleo e mudanças climáticas: como a imprensa noticia a investida americana na Venezuela

Cobertura jornalística trata pouco do debate ambiental quando o assunto é a exploração do combustível fóssil no Mar do Caribe

Imagem: Freepik

Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

A cobertura sobre o novo domínio do petróleo venezuelano pelos Estados Unidos desde o ataque à Caracas no início de janeiro foi intensa. Apenas no portal G1, mais de 80 matérias jornalísticas foram veiculadas mencionando “venezuela/estados unidos” e “petróleo” em janeiro. Nenhuma delas mencionou o impacto do recurso no meio ambiente, e poucos outros veículos indicaram o quanto isso irá turbinar a crise do clima.  Já em outro formato, o Grupo Globo deu atenção ao enfoque: no podcast O Assunto, do G1. Nele, Natuza Nery comenta as contradições da busca pelo petróleo em tempos de aquecimento global desenfreado, e traz uma análise histórica dos interesses americanos na Venezuela. Mas, esse não seria um enquadramento possível também nas notícias do portal?

Em sua coluna na Folha de São Paulo, Marcelo Leite trouxe os cálculos de carbono das metas climáticas fixadas pelo Acordo de Paris e o trabalho contrário que o time de Donald Trump procura fazer. Também na Folha, e originalmente no New York Times, destaca-se que o petróleo da Venezuela polui mais, emite quantias altíssimas de metano e gera derramamentos. Na CNN, uma reportagem indica que os planos de extração de mais petróleo no país acendem alerta climático, e que o petróleo venezuelano: bruto, pesado e ácido, está entre os mais poluentes do mundo. Novamente no Grupo Globo, a plataforma Um Só Planeta traz a situação sob a perspectiva da transição energética defendida nas cúpulas do clima e a Deutsche Welle analisa como isso pode refletir na política energética brasileira

Ressalta-se que, nas editorias de Mundo/Internacional e Economia, ainda é escassa a perspectiva ambiental nas coberturas associadas aos combustíveis fósseis, mesmo nas matérias relacionadas ao ataque e controle da infraestrutura petroleira venezuelana. Não o fazer é deixar de atender o interesse público da sociedade passando por cima do direito constitucional de ter um futuro com qualidade de vida em um planeta equilibrado. Manter o tema atrelado apenas à perspectiva econômica ou geopolítica, invisibiliza as raízes da crise climática e de todas as demais crises oriundas de um modelo de desenvolvimento baseado na depleção das riquezas naturais, simplificadamente nomeadas como recursos. 

Imagem: Pexels

Contextualizando os fatos 

Em três de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram um ataque armado de grandes proporções à Venezuela. Para justificá-lo, o presidente do país, Donald Trump, alegou combater o narcotráfico, o regime de Nicolás Maduro e ameaças à segurança nacional. Após a captura/sequestro de Maduro, Trump declarou que sua gestão tomaria controle da infraestrutura petroleira do país, que a recuperaria, e que empresas americanas voltariam à operá-la e comandá-la. 

O discurso colonialista dos Estados Unidos não deixou muitas pessoas surpresas – a sua história em relação à economia de outros países mostra que a interferência do Tio Sam não têm limites. Sanções, guerras comerciais e ataques armados são algumas das demonstrações de poder feitas pelos estadunidenses na lógica nacional de acumular capital e modelar a geopolítica global aos seus interesses.

E é por isso que o assunto principal rapidamente tornou-se o petróleo (e aqui já não se falou muito mais em narcoterrorismo ou em salvar a democracia venezuelana). O petróleo é a atual base energética do mundo – há mais de um século, garante segurança econômica para quem o exporta e sustenta o comércio mundial.  E a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo com cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep). 

Agora, o que acontece quando líderes globais são negacionistas climáticos, sustentados por investidores coniventes e apoiadores que acreditam no mesmo? O impacto pesado e destruidor da energia fóssil é reservado apenas às notas de rodapé das decisões políticas dos EUA, mas impactam a todos.  

A mudança da matriz energética significa uma mudança completa na estrutura da geopolítica global. Para os Estados Unidos, apoiar a transição energética é colocar em risco seu poder sobre outros países com sua reserva petrolífera, e dar o braço a torcer para os que estão à frente pela transição energética. O domínio dos combustíveis fósseis significa poder comercial, que é uma das principais ‘moedas’ políticas do país. Como vimos em 2025, no caso das taxas ao Brasil, China e outros países, por exemplo, o governo Trump pode provocar guerras comerciais por objetivos arbitrários a qualquer momento. 

Diante de um país influente, com um líder que não poderia se importar menos com os impactos da emergência climática, o mundo se articula de novas formas – acordos, alianças e possíveis lideranças se apresentam como competidoras ao domínio estadunidense. Inclusive, se fala da necessidade do fortalecimento do multilateralismo climático

Com mudanças na “geopolítica da energia”, os Estados Unidos terão, de um jeito ou de outro, de se encaixar no que é o futuro – a energia limpa. Ainda é incerta a rapidez dessa mudança, mas o fato é que no tempo presente, os Estados Unidos sinalizam para seguir explorando a  ultrapassada energia fóssil e insistir no negacionismo criminoso, com o objetivo de explorar até o último recurso fóssil da terra, e principalmente das terras dos outros. 

*Eloisa Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

** Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

Referências

CARLINDO, Sabrina. PEIXINHO, Dimas Moraes. A geopolítica da energia e a consolidação do petróleo como instrumento de poder. Revista Sapiência, v. 14, n. 1, 2025. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/article/view/16027

A cobertura ambiental de 2025: o que esperar depois da COP brasileira?

Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Em 2025, o jornalismo de meio ambiente no Brasil lidou com uma agenda intensa: da política e legislação ambiental em chamas aos holofotes da COP-30 em Belém, que, para além da cobertura dos preparativos, contou com iniciativas de mobilização e discussão durante o ano todo. Foi possível observar notícias pautadas pela urgência na prevenção e mitigação de desastres climáticos, e mais visibilidade às demandas dos povos originários. Contudo, ainda é cedo para dizer que esses enfoques persistirão no médio e longo prazos.

Na publicação “O Jornalismo no Brasil em 2025”, da Associação Brasileira de Jornalismo e do Farol Jornalismo, veiculada no final de 2024, profissionais e pesquisadores de Jornalismo apontaram temáticas a se atentar nas coberturas. Entre elas, “Comunicação indígena será decisiva para enfrentar mudanças climáticas em 2025” da Rede Wayuri, e “Em 2025, coberturas de desastres climáticos vão exigir novos jornalismos”, fruto das observações do que foi vivenciado no Rio Grande do Sul a partir da eclosão do desastre em maio de 2024.

Uma análise retrospectiva do trabalho da imprensa ao longo deste ano indica que algumas previsões se concretizaram, mas muitos desafios persistem. Embora tenhamos tido um ano com muita cobertura ambiental, a fragmentação do assunto dificulta a compreensão da população, enfraquecendo o debate público. Mesmo com o mundo de olho na Amazônia em razão da COP, os políticos brasileiros aprovaram a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (ou PL da Devastação), que prejudica a proteção do meio ambiente. 

Com o Observatório, analisamos os enquadramentos, termos e lacunas das reportagens percebidas pelo viés do Jornalismo Ambiental. Em maio, nossa análise “A cobertura da aprovação do PL  sobre licenciamento: como se posicionam os jornais mainstream?” demonstrou que os veículos hegemônicos trouxeram contrapontos importantes ao PL, mas focaram de forma majoritária em fatores econômicos, com espaço exacerbado aos interesses do agronegócio e das petroleiras. Em agosto, Ilza Girardi e Isabelle Rieger seguiram observando de perto os termos utilizados na mídia hegemônica e independente para tratar da nova lei, sendo “desburocratização”, “flexibilização” e “abertura” os mais citados pela primeira, enquanto a segunda focou na possível destruição do meio ambiente causada pela aprovação. 

No texto de 2024 que buscava apontar o que estava por vir, a ampliação do debate ambiental no País estava prevista. Porém, notamos a predominância de uma perspectiva político-econômica, que favorece o desenvolvimentismo a qualquer custo. Com relação à cobertura do PL da Devastação, de forma específica, o Observatório identificou as contradições de se flexibilizar a proteção ambiental enquanto se fala cada vez mais no combate à emergência climática. 

Outra contradição marcante em 2025 foi a concessão da licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar o primeiro poço em águas profundas na bacia da Foz do Amazonas em data próxima à realização da Conferência das Partes. Embora anfitrião da COP, o governo federal defendeu o discurso de que a exploração do petróleo viabilizaria a transição energética. Na previsão de 2024, já se apontava que “explorar petróleo para garantir a transição energética ou vender o mercado de carbono como uma saída para a crise climática são falácias que deveriam ser mais bem checadas pelo jornalismo.”

Também foi notado o amplo apelo de setores econômicos, como a mineração e o agronegócio, que contribuem para as emissões de gases de efeito estufa fazendo lobby no ano da COP, para se venderem como protagonistas das soluções climáticas. Entretanto, em alguma medida, jornalistas apenas foram porta-vozes das disputas que atravessam a questão ambiental, como se o nosso futuro neste planeta não fosse a principal pauta de interesse público da contemporaneidade.

A perspectiva de maior volume de notícias em razão  da COP-30 se realizou, sendo que muitos aspectos climáticos foram bem explicados e aprofundados na mídia. O evento impulsionou o crescimento de projetos jornalísticos especializados, cursos de formação para comunicadores e uma cobertura mais intensificada por veículos tradicionais e independentes. Neste Observatório, avançamos na produção de críticas de mídia, com o especial “De olho na COP”. A imprensa, particularmente a não hegemônica, cobriu intensamente a contradição de o Brasil sediar a COP-30 enquanto licenciava a perfuração de poços. A omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final da COP-30 foi o tema mais criticado pela imprensa brasileira, que relatou a frustração do resultado da conferência.

Segundo o texto da Rede Wayuri, a importância da comunicação e dos saberes indígenas é considerada decisiva para o enfrentamento da crise climática, representando não apenas um ato de justiça histórica, mas também uma estratégia urgente para salvar o futuro de todos. O texto vislumbrando o Jornalismo em 2025, destacava mais espaço para a comunicação popular e as redes comunitárias,.

A partir da COP-30, esse protagonismo indígena ganhou relevo. Com a maior participação de povos originários em três décadas, cerca de 400 representantes indígenas estiveram credenciados nas salas de negociação oficial. A mobilização indígena foi um fator de destaque em alguns veículos, especialmente os independentes e dedicados à pauta ambiental, sendo considerada uma grande força política.

Apesar da presença inédita, a análise da cobertura midiática durante os eventos, como a Pré-COP, realizada em Brasília, indicou que a imprensa tradicional tratou as manifestações e reivindicações de povos indígenas e quilombolas de forma tímida, deixando suas vozes à margem do debate público midiático. Em decisões cruciais, como a aprovação da Lei Geral do Licenciamento e da exploração em território ambiental sensível como a Foz do Amazonas, suas vozes continuam sendo ignoradas, com poucas execeções. Logo, a reivindicação por mais visibilidade segue sendo uma demanda dos povos indígenas – e de muitos outros grupos que não são vistos como fontes qualificadas para a elaboração de notícias. Uma luta que deve avançar nos próximos anos.

Para 2026, o Farol Jornalismo e a Abraji lançaram novamente uma publicação de previsões para o Jornalismo – e aqui destacamos o texto: “Emergência climática e integridade da informação num cenário polarizado”. Nele, os autores indicam que o tema da emergência climática é tensionado por simpatias e antipatias políticas. Com as eleições presidenciais no próximo ano e o contexto de polarização interna, é esperado crescentes ondas de desinformação e produção de falsos conteúdos com o auxílio da Inteligência Artificial. Diante desses desafios, a confiança do público no Jornalismo é evidenciada, sendo que as informações devem ser íntegras, com checagem e fundamentação de qualidade, baseadas na ciência. Essa análise destaca também a importância do jornalismo local, cuja cobertura deve questionar as falhas e pressionar o dedo nas feridas dos governos regionais por todo o Brasil.

Além disso, alertam para outra tarefa do Jornalismo: a COP não acaba quando termina. As inúmeras pautas ambientais levantadas em 2025, impulsionadas pelo evento, não podem ser esquecidas. O trabalho pela preservação do meio ambiente é contínuo e deve estar presente durante todo o ano, em todas as editorias, de forma sistêmica. 

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

O agro que sonhava ser pop agora quer virar lição de casa

Foto: Matinal/Isabelle Rieger

Por Ilza Maria Tourinho Girardi* e Sérgio Pereira**

Ser brasileiro com consciência ambiental e de cidadania exige muita saúde ou ter um amparo psicológico permanente.

A COP30, realizada em Belém (PA) no mês de novembro, deixou muito a desejar pelas decisões aguardadas e que não aconteceram. Além disso, foi liberada a exploração, em forma de estudos iniciais, do petróleo na foz do rio Amazonas. As vozes indígenas, demais povos da floresta, dos cientistas e dos ecologistas não foram ouvidas. Nem os pedidos do cacique caiapó Raoni sensibilizaram Lula. Agora, o presidente da República pede a seus ministros das pastas de Minas e Energia, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, da Fazenda e da Casa Civil que elaborem o mapa para a substituição dos combustíveis fósseis. Então, por que liberar agora?

Vivemos no Brasil tempos de dissonância cognitiva. Nesse cenário político perturbador somos surpreendidos com a matéria da independente Matinal Jornalismo do dia 8 de dezembro sobre as atividades da associação De Olho no Material Escolar (DONME). Assinado pela jornalista Brenda Fernández, a reportagem “Como o agro quer controlar o que é ensinado nas escolas gaúchas” traz alerta importante para organização criada por produtores rurais e que está tentando mudar a forma como o agronegócio é abordado nas escolas públicas.

Conforme a matéria, a DONME já palestrou em 18 cidades gaúchas, a maioria conhecidas por sua tradição agrícola, como Uruguaiana, Alegrete, Bagé, Pelotas, Rio Grande e Dom Pedrito, entre outras. As atividades quase sempre são realizadas em feiras agrícolas ou em formato de visita a fazendas modelos de empresas associadas ao projeto. Conforme dados da entidade, até agora, cerca de 3,7 mil alunos e professores do RS foram impactados com os seus cursos entre 2024 e 2025.

A principal missão da associação é tentar fazer prevalecer seu discurso sobre como o agronegócio é importante para a economia. “Na pauta da DONME, estão sete prioridades elencadas em uma cartilha divulgada pela associação (leia aqui) em que a entidade deixa claro os seus objetivos. Entre as propostas para o PNE, está aplicar uma prova em professores ‘inspirada na experiência bem-sucedida do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil’, aumentar a participação da sociedade na indicação de avaliadores responsáveis pela revisão dos livros e criar uma etapa em que órgãos e instituições científicas auditem ‘de forma independente’ os conteúdos dos livros antes da publicação”, relata a jornalista na reportagem.

O agro quer agora fazer prevalecer sobre o imaginário de nossos estudantes uma narrativa parcial, incompleta e, por vezes, negacionista. A exemplo do movimento de extrema direita Escola Sem Partido, a entidade tenta apagar da realidade informações sobre o agronegócio brasileiro e seus problemas. É o caso da silenciosa destruição dos biomas brasileiros, inclusive o Pampa afetado sem perdão pelo avanço da soja; do uso indiscriminado de agrotóxicos; ou do grave problema da deriva de pesticidas que afeta não somente a saúde de todos, mas também a economia de produtores de outras culturas.

As últimas notícias não têm dado descanso aos brasileiros que travam a luta ambiental e que defendem um país melhor para todos, não apenas para alguns, como a classe ruralista. É grande a força do agro, cada vez mais mecanizado, com sua majoritária bancada no Congresso Nacional determinando os rumos da política, com a predominância em nossas lavouras da monocultura da soja, exportada em sua grande maioria como ração para gado. A escola, no entanto, não é lugar para versões, mas sim um espaço para o aprendizado, a convivência social e, agora mais do que nunca, para consolidação da verdade.

*Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS 

E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br

**Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

A crise climática precisa ouvir quem herda o planeta: As crianças!

Por Carine Massierer*

Se as crianças são o futuro do nosso país e seguem sendo educadas desconectadas da natureza, desvinculadas das matérias primas naturais e não conhecendo os processos de produção, como exigir delas uma conexão para a preservação ambiental? Em paralelo, a midiatização acaba por promover o distanciamento das relações sociais e cada vez mais temos a informação vinculada ao que as mídias virtuais nos entregam.

E o que tudo isso tem a ver com a COP 30? Se o futuro do Brasil e das crianças não está na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, onde ele pode estar?

Em 11 dias o Brasil comemorou ser sede dos 30 anos da COP em uma edição especial por acontecer na Amazônia, destacando a importância da floresta para o clima global e por reunir contribuições de mais de 600 crianças de 12 países e quatro continentes, reforçando a urgência de incluir as novas gerações nas decisões climáticas. Representando o Rio Grande do Sul, o município de Estância Velha se fez presente, por meio de uma carta de sugestões com ações de combate aos problemas causados pelo fator climático.

Além do movimento infantil, Unicef e outras entidades representativas e ONGs, como o Instituto Alana, movimentaram os espaços de debate na Conferência e também as mídias virtuais para chamar a atenção dos governantes e da Imprensa.

A imprensa não ficou de fora: o Correio Braziliense, Agência Brasil,  O Globo, CNN Brasil, TVT News, G1, Band, Folha de São Paulo. Todos estes veículos noticiaram esta edição da Conferência como a mais significativa no que se refere a manifestação pública pela necessidade de garantia de direitos às crianças frente aos agravamentos das vulnerabilidades em contextos de emergências climáticas.

No entanto, a matéria da Folha de São Paulo mostra o contraponto dos demais textos, apresentando a manifestação de ONGs que lutam pela cidadania das pessoas mais vulneráveis. As crianças estão entre as principais vítimas, de acordo com estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que alerta para o fato de que seis de cada dez crianças brasileiras já sofrem os impactos das mudanças climáticas.

Segundo as fontes do texto da Folha, dos 50 mil credenciados na COP 30, apenas 100 eram crianças e adolescentes que estavam presentes por força da sociedade civil. Isso descortina o fato de que se as crianças estão entre as principais vítimas das emergências e precisam ser prioridade neste debate. 

Assim, a COP 30 além de ser o evento mais importante destas duas semanas no Brasil e de ter a imprensa reverberando de alguma forma a presença das infâncias, os governantes precisam refletir e agir rapidamente fazendo com que as políticas públicas e a educação deste país estejam preparadas para as emergências climáticas.

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental 

Dez anos de um jornalismo incapaz de compreender o legado nefasto da mineração

Por Karina Gomes Barbosa*

No último dia 5 de novembro, Mariana relembrou os 10 anos do rompimento da barragem de Fundão. O desastre-crime matou 19 pessoas, provocou um aborto, destruiu comunidades tradicionais em Minas Gerais e devastou o Rio Doce até a foz, no Espírito Santo. Aqui, do epicentro do crime das mineradoras Samarco, Vale e BHP, considerado o pior desastre socioambiental da história do país, vemos esta década de forma ambígua e amarga.

De um lado, as comunidades atingidas conseguiram – e conseguem – vitórias inegáveis, graças a uma mobilização incansável ainda que sem direito a integrar as mesas decisórias da reparação desde 2015. Entre essas conquistas estão o direito à Assessoria Técnica Independente (ATI), em 2016, e a promessa de melhores condições de saúde com a construção de um hospital universitário em Mariana, neste ano. Na última sexta-feira, 14, a anglo-australiana BHP foi condenada nos tribunais ingleses pelo colapso da barragem de rejeitos.

Do outro, porém, são 10 anos de lutas desiguais, contra corporações minerárias transnacionais que emperram o andamento das ações judiciais no Brasil (foram absolvidas das acusações criminais, junto com os principais executivos e as empresas que atestaram a segurança da estrutura); contra ações de reparação sem escuta ativa e sem respeitar as necessidades e desejos das pessoas atingidas; contra preconceitos; e contra a invisibilidade.

Um dos espaços onde essa falta de presença se dá com mais força é o jornalismo. De 2015 para cá, houve mudanças perceptíveis na cobertura. Aquilo que num primeiro momento se configurou quase como um assédio a pessoas em choque, traumatizadas, incapazes de elaborar aquilo por que haviam passado, aos poucos se transformou numa escrita jornalística fria, distante.

Por anos, os temas relacionados a Fundão que emergiam na imprensa nacional diziam respeito às ações judiciais, aos desdobramentos nas investigações criminais e aos anúncios feitos pela Renova, entidade criada para, supostamente, gerenciar a reparação, e que sempre foi controlada pelas antigas rés do crime, dissolvida em 2025 porque não cumpriu suas obrigações.

Uma cobertura mais humanizada aparecia apenas nas efemérides, e nem em todas elas, quando veículos do país inteiro vinham dar conta do que estava ocorrendo aqui com as pessoas e comunidades atingidas, ou em veículos independentes ou laboratoriais produzidos no curso de Jornalismo da UFOP. Nos últimos anos, nem isso. Muitos veículos, inclusive mineiros, usaram material produzido pela Agência Brasil para não terem de se deslocar a Mariana.

Aos poucos o cenário vem se transformando, modesta e sazonalmente. Alguns veículos ampliaram, em certa medida, o olhar sobre o crime de 2015, trazendo temas caros às pessoas atingidas, como a violação cotidiana de direitos e os problemas de saúde decorrentes da catástrofe socioambiental. Essa presença mais constante, de uma abordagem menos emotiva e mais focada na perspectiva da luta e dos direitos humanos, modificou inclusive a relação de muitos e muitas atingidas com a imprensa: de desconfiança absoluta a uma atitude mais colaborativa com aqueles que mostravam as angulações para poderem ser atendidos por quem tem uma agenda de luta sem tréguas.

Em 2025, essa mudança ficou perceptível. Fundão já havia voltado aos holofotes desde junho, quando o presidente Lula e uma caravana de ministros estiveram em Mariana para anunciar um controverso acordo de repactuação – uma revisão dos termos da reparação assinada em 2016 –, elaborado mais uma vez sem a presença ou sequer uma escuta responsável e comprometida de atingidos e atingidas. Em novembro, a cobertura, de modo geral, foi respeitosa e buscou equilibrar as dimensões econômicas, jurídicas, socioambientais e o aspecto humano.

Contudo, uma ausência notável permanece e se perpetua, como miopia ou dificuldade de o jornalismo olhar para os acontecimentos com uma perspectiva sistêmica. Pouco ou nada se fala da conexão entre a exploração minerária predatória e a emergência climática. Os efeitos da extração de minerais são visíveis a olho nu, todos os dias, e obviamente cobram sua conta para a cidade, a bacia hidrográfica, o país, o planeta. Parece que mais uma vez, após mais de dois séculos, o minério consegue se esconder de sua responsabilidade sobre a devastação socioambiental do mundo.

Aqui em Mariana, a exploração protagonizada por Samarco, Vale, BHP, Cedro e, em breve, Cidreira – fora a moda das mini minas como a Patrimônio Mineração, na comunidade do Botafogo, em Ouro Preto – prevê o uso de uma quantidade abissal de água, jamais claramente apurada, inclusive para assentar o pó das atividades. Curiosamente, as duas cidades sofrem com falta d’água, a despeito de estarem rodeadas de nascentes.

A poeira que chega à zona urbana leva a diversos problemas respiratórios e de pele e a uma sobrecarga do sistema de saúde. Os serviços de saúde não são os únicos onerados. Mariana enfrenta problemas de saneamento básico e coleta de lixo, devido ao excesso populacional trazido pelos trabalhadores da mineração, além de aluguéis e comida inflacionados. O fluxo de ônibus de transporte de funcionários e de caminhões, alguns de carroceria tripla para transportar máquinas de ficção científica, geram poluição sonora, engarrafamentos, danos abundantes ao asfalto e, óbvio, emissão de gases poluidores.

Uma caminhada nas proximidades das barragens (agora, dizem, em descomissionamento) e pelas áreas de extração exibe a face mais explícita dos danos: o que eram montanhas e morros repletos de vegetação de transição entre mata atlântica e cerrado vão se tornando aos poucos zonas áridas, terrosas, terra arrasada. O reflorestamento parece uma eterna promessa que não se cumpre, porque a expropriação nunca tem fim.

Se vemos grandes reportagens apontando o desmatamento na Amazônia e o garimpo ilegal como vilões das mudanças climáticas, corporações como a Vale surgem como empresas comprometidas com a mineração verde – enquanto transformam a comunidade de Antônio Pereira em cenário de filme de terror em tons avermelhados. Isso sem falar que a zona rural de Mariana e todas essa outras localidades não existem para a mídia.

Quem já ouviu falar de Campinas, Pedras, Ponte do Gama, Águas Claras, ou até mesmo de Paracatu de Baixo e Gesteira, dois subdistritos arrastados, como foi Bento Rodrigues?

Andando um pouco mais, quem, num raio de menos de 100 km de Mariana, já leu ou escutou o nome de Socorro, distrito de Barão de Cocais que guarda semelhanças profundas históricas e demográficas com Bento Rodrigues, mas que carrega o estigma de não ter entrado para a história como terra arrasada, já que lá a barragem da Vale não rompeu, mas expulsou as pessoas de sua tricentenária comunidade desde 2019?

Os impactos imediatos e futuros gerados pelas mineradoras em pequenas cidades de 60, 80 mil habitantes (o IBGE não considera a população flutuante minerária) são desconsiderados pelo jornalismo, que parece não conectar a criação de diversas Marianas, Brumadinhos, Itabiras pelo país com os regimes de chuva irregulares, às tempestades que desalojam populações em vulnerabilidade, às ondas de calor que se multiplicam a cada ano, a secas inclementes, ao desaparecimento de áreas verdes, à morte de nascentes.

São cidades pequenas, desimportantes no cenário geral, parece. Cujos modos de vida esmagados pela mineração não têm noticiabilidade suficiente. A mineração legalizada, chancelada por ANM, MME e tantas siglas governamentais, tem credibilidade para dizer que não polui, mitiga, repara, refloresta, recompõe, devolve o que tirou, ao mesmo tempo que submete comunidades a processos de terrorismo de barragens, chantagens financeiras, violências e incertezas.

Enquanto isso, a Samarco começa um processo de expansão chamado Longo Prazo, com o objetivo de ampliar em 100% a capacidade de extração até 2042. Mais uma vez, o jornalismo parece dar pouca atenção à perspectiva distópica que se avizinha sobre a região, onde nasceu Minas Gerais graças ao ouro e que vive sob a maldição/dádiva do minério desde então.

A cegueira do jornalismo ante a essa conexão flagrante vai custar caro, como já custou em 2015, 2019 e ao longo da história mineira. Quando nossos pequenos problemas explodirem na foz de um rio, quando nossos pequenos danos se tornarem 272 mortos, quando nossas pequenas minas contribuírem para o fracasso do país com as metas de qualquer COP, eles serão novamente noticiados, com surpresa, horror e, provavelmente, a mesma incompreensão estrutural.

A autora agradece a André Luís Carvalho pela leitura e pelas contribuições.

* Professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), convidada por este Observatório em razão de seus estudos que envolvem o desastre-crime que completou recentemente dez anos. E-mail: karina.barbosa@gmail.com.

Rio Bonito do Iguaçu: quando um evento extremo é noticiado sem raízes

Por Eutalita Bezerra*

O Sul do Brasil enfrenta um novo episódio de destruição: mal se recupera das enchentes, agora lida com os danos causados por nova tempestade severa. Se na enxurrada o principal atingido foi o Rio Grande do Sul, desta vez, ainda que o estado gaúcho também tenha sido impactado pela tempestade, a destruição se abateu mais fortemente sobre Santa Catarina e Paraná. O primeiro foi afetado por pelo menos três tornados durante a onda de chuvas ocorrida no último dia 7. Já o segundo contou um dos mais intensos tornados registrados no planeta neste ano, com ventos de até 330 km/h, conforme a Metsul Meteorologia e os governos estaduais. O fenômeno dizimou a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, que teve 90% dos imóveis danificados ou totalmente destruídos.

Para esta análise, buscamos entender a forma que os veículos de comunicação se debruçaram sobre a questão, na fase de rescaldo. Tomamos como foco o Paraná, considerando a repercussão mais significativa, dada a singularidade do fenômeno. Optamos por utilizar o ChatGPT como ferramenta de busca**. Valemo-nos do seguinte prompt: “Na ultima sexta-feira (7), o Paraná foi atingido por uma tempestade severa e por tornados. Me indique links de veículos jornalísticos com presença digital consolidada que tenham divulgado essa notícia.”. A pesquisa inicial retornou sete links, entre veículos brasileiros e estrangeiros (Associated Press, India Times e El Pais), dos quais um, o da AP News, apareceu duas vezes. Um dos textos foi descartado por não se tratar de veículo reconhecidamente jornalístico, embora produza notícias: o Climatempo. 

Chegamos à publicação da CNN Brasil, “Tornado no Paraná deixa ao menos 1.000 pessoas desalojadas”, veiculada em 8 de novembro. As fontes ouvidas foram o Governo do Paraná e a Coordenadoria Estadual da Defesa Civil, mas há citação direta apenas do governador. O texto inicia contabilizando as perdas verificadas até aquele dia. Também relaciona as ações emergenciais do Governo do Paraná, citando abrigos e estruturas montadas para alimentação, triagem e encaminhamento dos afetados. Apresenta-se o número de mortos e feridos. De forma educativa, a repórter também diferencia “desabrigados” e “desalojados”. A publicação é finalizada com hiperlinks para uma reportagem sobre a classificação do tornado e outra metodológica, explicando como a categorização é feita. 

Ao longo do texto, outras hiperligações também são disponibilizadas, quais sejam: para publicação sobre luto oficial de três dias no estado, para pronunciamento do secretário de saúde citando “cenário de guerra” após tornado e para entrevista do governador, segundo o qual esta seria uma catástrofe sem precedentes na história do Paraná. Na mesma publicação também há uma subdivisão chamada “Leia mais”, que direciona para outras três publicações: “Veja quem são os mortos na catástrofe”, “Passagem de três tornados causa destruição no Oeste de Santa Catarina” e “O que é um ciclone extratropical? Saiba o que fazer durante uma tempestade”.

A segunda publicação disponibilizada pela ferramenta de busca foi da Agência Brasil, “Tornado destrói 90% de Rio Bonito do Iguaçu (PR) e causa seis mortes”, também do dia 8. A publicação tem como foco a cidade mais afetada, com imagens da destruição, citando dados de Defesa Civil, Governo do Paraná e Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Do mesmo modo que no texto anterior, citações diretas apenas do governador Ratinho Júnior, que fala sobre as ações emergenciais e que os estudos sobre a força do fenômeno ainda estavam em andamento. A publicação é finalizada com duas matérias relacionadas: Ciclone causa destruição, deixa 4 mortos e 400 feridos no Paraná e outra de alerta para ciclone em São Paulo na mesma data

O ChatGPT retornou, ainda, a publicação do The Times of India, veiculada em 9 de novembro, intitulada “Video: Moment tornado hit Brazil’s Parana; six killed hudreds injured”. Além de descrever o evento climático, a matéria trouxe vídeo do momento em que o tornado atingiu Rio Bonito do Iguaçu, replicado do perfil “WeatherMonitors” no X, antigo Twitter. Também se referiu a imagens aéreas que demonstraram o estrago deixado pelo tornado, embora não as tenha mostrado. Como fontes, foram citadas a Al Jazeera; o Governador do Paraná e o Presidente da República.

A Associated Press publicou que “Powerful tornado in Brazil kills 6 people and injures hundreds more”. De forma bastante breve, a publicação descreveu brevemente o fato, sem contextualizá-lo, e referiu-se ao luto oficial e à expressão de solidariedade do Presidente Lula. Embora cite “autoridades estaduais” para descrever a situação naquele momento, não especifica quem foi o emissor da informação.

Com efeito, entendemos que a ferramenta nos permitiu um panorama breve, mas indicativo de como tem se dado a cobertura sobre eventos climáticos extremos: a abordagem apressada de desastres que pedem profundidade.  Quando o jornalismo se limita a contabilizar perdas sem explicar causas, contextos ou conexões, ele se distancia de sua função social mais profunda: a de ajudar o público a compreender, e não apenas a lamentar, o que o vento levou.

Nenhuma das publicações contextualizou o fato, classificou como evento extremo ou localizou Rio Bonito do Iguaçu no mapa ambiental. Aqui o fazemos: a cidade, ao longo dos anos, foi transformada pelo desmatamento, colocando-se como o município brasileiro que mais desmatou a Mata Atlântica entre 1985 e 2015, segundo a ONG SOS Mata Atlântica. De acordo com publicação da BBC , ainda em 2021, até aquele momento já haviam sido destruídos 24,9 mil hectares de floresta no município. Eis a reflexão e, por que não, a sugestão de pauta.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Por ser a primeira utilização deste formato de busca no Observatório, optei por descrevê-la mais aprofundadamente nesta nota. A opção deveu-se à experimentação: consideramos estudos recentes que demonstram uma incipiente mudança no comportamento de usuários que migram de buscadores tradicionais para ferramentas de Inteligência Artificial, como o ChatGPT (Tibau, Siqueira e Nunes, 2024; Reuters, 2025). Também questionamos, na oportunidade, a ferramenta, a fim de verificar os critérios para a indicação de tais links. Segundo o ChatGPT, observou-se o critério de relevância jornalística (Histórico de produção noticiosa contínua, independência editorial e registro formal como empresa de mídia, equipe de redação identificável e canais oficiais); presença digital consolidada (domínio verificado, SEO e histórico indexado pelo Google Notícias, política de correção ou contato editorial visível no site); variedade geográfica e editorial.

Plantando tecnologia, colhendo silêncio: o enquadramento do agronegócio como herói climático no Jornal Nacional

Por Gabriella de Barros*

Embora amplamente tratado como pilar da economia e solução para os desafios climáticos, o agronegócio brasileiro é também um dos principais agentes de pressão sobre o meio ambiente. Sua centralidade nas narrativas econômicas e políticas revela mais sobre as estratégias de legitimação do setor do que sobre sua contribuição real à sustentabilidade. É também um dos setores mais associados às mudanças climáticas, seja pelo desmatamento, pelas emissões de gases de efeito estufa ou pelo uso intensivo de agrotóxicos e tecnologias que comprometem a saúde do solo e da alimentação.

Esta análise do Observatório de Jornalismo Ambiental concentra-se no primeiro episódio da série sobre como o agronegócio está enfrentando os efeitos das mudanças climáticas. A reportagem é dedicada à produção de arroz e feijão, principais alimentos da dieta brasileira. Para evidenciar como a cobertura do JN é voltada à defesa do agronegócio, utilizou-se uma reportagem publicada pelo portal O Joio e o Trigo, sobre como a temática pode ser noticiada.

A narrativa televisiva constrói-se a partir de exemplos como o de Santa Maria (RS), onde um produtor busca alternativas para o plantio do arroz diante da mudança no regime climático. O programa apresenta dados sobre a redução de produtividade quando o plantio ocorre fora da “janela ideal” (após 15 de novembro), destacando o impacto econômico do atraso para produtores e para o abastecimento interno.

Apesar de abordar o tema sob a ótica da adaptação, a reportagem reproduz um enquadramento tradicional do telejornalismo agroindustrial, concentrando-se em grandes produtores e em fontes institucionais, como a Embrapa e o Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA). O foco recai sobre a tecnologia e a eficiência produtiva como soluções para a crise climática, sem problematizar o modelo de produção.

O problema desse enquadramento é que o discurso sobre as mudanças climáticas é reduzido a um vocabulário técnico e globalizante, à elevação média de temperatura, que é o limite de 1,5° C, aos impactos previstos pelos relatórios do IPCC, dissociando a crise ambiental de suas causas estruturais e territoriais. Essa narrativa supostamente isenta, naturaliza o papel do agronegócio como parte da solução, em vez de mostrar a sua real e gigantesca parcela de pressão sobre todos os ecossistemas do país.

A ausência de perspectivas da agricultura familiar é notável, justamente o segmento que mais contribui para o abastecimento alimentar interno; portanto, uma contradição na abordagem do JN. Ao passo que a reportagem reforça a ideia de que o agronegócio representa o campo brasileiro em sua totalidade, silencia as desigualdades estruturais entre a produção voltada à exportação, e também, a agricultura familiar, que é destinada ao consumo nacional. Ao dar espaço apenas a grandes produtores e especialistas institucionais, o Jornal Nacional silencia outras narrativas possíveis e mantém o discurso hegemônico de que a modernização tecnológica seja suficiente para enfrentar as mudanças climáticas.

Em contraste, a cobertura do site O Joio e O Trigo, sobre a produção de arroz no Rio Grande do Sul, adota um enquadramento analítico e interpretativo, privilegiando múltiplos atores, especialmente agricultores familiares e médios produtores. A reportagem não se restringe a aspectos econômicos ou tecnológicos, mas examina a cadeia produtiva do arroz em suas dimensões estruturais, políticas e sociais, abordando a dependência dos produtores em relação à indústria, às relações de poder e às consequências das políticas agrícolas.

A abordagem de O Joio e O Trigo é mais complexa e humanizada porque apresenta histórias concretas de agricultores, contextualiza com dados econômicos, históricos e ambientais, e permite que se possa compreender quem ganha e quem perde dentro do sistema agroalimentar. Há uma dimensão crítica e explicativa, que busca responsabilizar atores e revelar contradições, uma perspectiva ausente na narrativa televisiva do Jornal Nacional.

Enquanto o Jornal Nacional opta por uma narrativa tecnicista e economicista, ancorada na ideia de progresso e inovação, o portal adota uma abordagem de jornalismo explicativo e contextualizado. Pois, ao analisar as causas estruturais do problema e situar a crise climática dentro das contradições do modelo agroalimentar brasileiro, evidencia a concentração de renda, a dependência tecnológica e a vulnerabilidade humana crescente à crise climática.

A comparação entre o Jornal Nacional e O Joio e O Trigo revela dois modos distintos de reportar o mesmo tema. O telejornal reforça o discurso dominante que apresenta o agronegócio como símbolo de modernização e eficiência, recorrendo a uma narrativa que associa tecnologia à ideia de sustentabilidade e apaga os impactos socioambientais do setor. Já o portal independente amplia o debate, evidenciando as contradições estruturais do sistema agroalimentar brasileiro, suas desigualdades fundiárias e os limites ambientais do modelo produtivista. Essa diferença de enquadramento evidencia como o jornalismo pode ou não, contribuir para uma compreensão crítica das relações entre agricultura, clima, sociedade e suas responsabilidades diante da emergência climática. 

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI). 

Referências

GLOBO. Série especial do JN mostra como o agronegócio brasileiro está enfrentando as mudanças climáticas. Rio de Janeiro: TV Globo, 06 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/10/06/serie-especial-do-jn-mostra-como-o-agronegocio-brasileiro-esta-enfrentando-as-mudancas-climaticas.ghtml. Acesso em: 31 out. 2025.

NAÇÕES UNIDAS. Agricultura e usos do solo representam 23% das emissões de gases do efeito estufa, diz ONU. Brasília: ONU Brasil, 08 ago. 2019. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/83925-agricultura-e-usos-do-solo-representam-23-das-emiss%C3%B5es-de-gases-do-efeito-estufa-diz-onu. Acesso em: 31 out. 2025.

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). Farms and forests can fight climate change. Roma: FAO, 04 dez. 2008. Disponível em: https://www.fao.org/newsroom/detail/Farms-and-forests-can-fight-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Special Report: Global Warming of 1.5°C. Geneva: IPCC, 2018. Disponível em: https://www.ipcc.ch/sr15/ . Acesso em: 31 out. 2025.

INSTITUTE FOR ENVIRONMENTAL RESEARCH & EDUCATION (IERE). How is agriculture affecting climate change? Vashon: IERE, jan. 2025. Disponível em: https://iere.org/how-is-agriculture-affecting-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

O JOIO E O TRIGO. Xadrez do arroz: quem são os reis, quem são os peões? São Paulo: O Joio e o Trigo, 2020. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2020/10/xadrez-do-arroz-quem-sao-os-reis-quem-sao-peoes/. Acesso em: 31 out. 2025.

A tempestade do século e o aquecimento global

Foto: NOAA

Por Patrícia Kolling*

Nesta semana, o furacão Melissa, com ventos de até 298 km/h, atingiu a Jamaica, República Dominicana, o Haiti e Cuba. No dia 28 de outubro, quando o furacão estava chegando na Jamaica e nos dias que antecederam, a imprensa brasileira deu espaços significativos ao fenômeno, trazendo informações técnicas para que o leitor compreendesse o furacão, com dados sobre a escala e velocidade dos ventos.

Na Uol, o leitor encontrava alternativas para acompanhar o fenômeno em tempo real. Muitas notícias destacavam o fato do furacão atingir a escala 5, o nível máximo de intensidade, e na Jamaica, ter sido o mais forte a atingir o solo na costa do Atlântico em 90 anos.

Os dados eram assustadores, e os textos jornalísticos faziam questão de ressaltar isso. A previsão era de que o furacão atravessasse a Jamaica de ponta a ponta e a Cruz Vermelha Internacional alertava para um “impacto massivo”. Cerca de 1,5 milhão de pessoas – metade da população da ilha – deveria ser afetada direta ou indiretamente. Tanto que, em uma das matérias, um morador da Jamaica entrevistado dizia não acreditar que iria sobreviver, portanto não sairia de sua casa. As previsões se confirmaram, e a tempestade, considerada a maior do mundo, causou muita destruição e mortes.

A Folha de São Paulo trouxe informações técnicas sobre velocidades dos ventos, áreas que seriam atingidas e as ações da Defesa Civil para tirar as pessoas da região e protegê-las. A Folha também reproduziu um texto do Washington Post, ‘Caçadores de Furacões’ sobrevoam olho do Melissa no Caribe; um relato de um meteorologista que junto com outras 18 pessoas voou sobre o olho do furacão, e narrou a perfeição meteorológica do fenômeno.

Acredito que os meios jornalísticos precisavam, sim, apresentar os dados concretos da gravidade do fenômeno, porém, senti que foram além disso, ao fazer do fato um espetáculo sem precedentes, beirando ao sensacionalismo.
Mas, foi na National Geographic Brasil, que encontramos a relação entre o aquecimento global e o aumento dos furacões de categoria 5. “O furacão Melissa se intensificou rapidamente ao se arrastar sobre águas oceânicas excepcionalmente quentes, cerca de 1,4 °C mais quentes que a média, algo até 700 vezes mais provável devido às mudanças climáticas causadas pelo homem”, informa a Climate Central (entidade independente de cientistas e jornalistas que pesquisa informações sobre mudanças climáticas e seus impactos).

(…) “Quanto mais quente estiver o oceano, mais combustível haverá para os furacões se intensificarem, desde que outras condições atmosféricas (como o cisalhamento do vento) também sejam favoráveis”, informa a NOAA.

Senti falta desta conexão entre o furacão e as mudanças climáticas na maioria dos textos que li. É mais que urgente que o jornalismo traga essas relações contextuais ao falar de fenômenos climáticos. É preciso dizer que a intensificação destes acontecimentos tem relação com as mudanças climáticas, entre elas o aquecimento, e que a responsabilidade está na emissão de combustíveis fósseis e de poluentes.

Coincidentemente, nesta semana a ONU apresentou o Relatório Síntese das Contribuições Nacionalmente Determinadas de 2025 (NDC Synthesis Report 2025), consolidando as metas climáticas apresentadas pelos países entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Os dados não são nada animadores, pois o relatório diz que, conforme as metas apresentadas pelos países signatários do Acordo de Paris, o corte de emissões de gases ficará em 17%, enquanto a Ciência diz que seria necessário cortar 60% das emissões de gases até 2035. Isso significa que se a metas apresentadas a ONU forem cumpridas, o mundo terá um aquecimento de 2,5º até 2100.

Além do site o((eco)), o portal InfoAmazonia também analisou o relatório , mas em outros sites de notícias não encontrei informações sobre esse relatório.

Portanto, a semana foi a oportunidade dos meios jornalísticos conectarem os dados pessimistas do relatório e os fenômenos extremos que estão acontecendo no Planeta. Conexões que não encontrei nos veículos que pesquisei.

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com