A cobertura que é mais do mesmo: 2025 começa com chuvas acima da média em diversas cidades brasileiras

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

O início de 2025, em diversas regiões do Brasil, foi marcado por uma série de eventos climáticos, que vem causando transtornos significativos e mobilizando esforços de emergência quase simultaneamente. Os primeiros dias do ano mostram que seguimos no ritmo de ebulição de 2024, que superou, pela primeira vez, a temperatura global de 1,5°C, o limiar climático apontado pelos cientistas, o que significa mais intensidade e frequência de eventos extremos.

Diante desse cenário, cabe ao jornalismo denominar o acontecimento de forma a não naturalizar o desastre. No primeiro texto do ano, o Observatório de Jornalismo Ambiental (OJA) analisou, no período de 04 de dezembro a 25 de janeiro, a cobertura do G1, portal de notícias da Globo e líder de audiência no jornalismo digital no país, sobre as chuvas intensas, alagamentos e enchentes que vêm afetando os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina e São Paulo – janeiro nem encerrou, mas já são muitos os casos reportados no País.

No Rio de Janeiro, Chuva forte provoca alagamentos e bolsões d’água na capital e Região Metropolitana do RJ (04/12/2024). Em Maricá, na rodovia RJ-106, Chuva deixa motoristas ilhados e trânsito congestionado na RJ-106, em Maricá.

No Espírito Santo, Chuva intensa no ES deixa desalojados, desabrigados e interdita rodovia; saiba quais cidades mais atingidas (08/01/2025). Vídeos mostram enchentes que causaram destruição e tiraram moradores de casas no ES (09/01/2025).

Em Minas Gerais, Chuvas deixam 25 mortos e mais de 50 cidades em situação de emergência em Minas Gerais (14/01/2025). Quase 100 cidades mineiras decretam situação de emergência ou calamidade pública por causa de temporais; veja lista (19/01/2025). 

Na Bahia, Temporais deixam moradores ilhados e alagam ruas de cidades em diferentes regiões da BA (15/01/2025).

Em Santa Catarina, o cenário também foi preocupante. Chuvas provocam situação caótica com estragos e desabrigados no litoral de SC; cidades decretam emergência (16/01/2025). Balneário Camboriú recebe em um dia quase todo o volume de chuvas esperado para janeiro; VÍDEOS mostram situação caótica (16/01/2025). 

Já em São Paulo, no dia 24 de janeiro, ocorreu o terceiro maior volume de chuva já registrado desde o início das medições do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em 1961, conforme aponta a matéria “FOTOS: São Paulo tem 3ª maior chuva da história, segundo Inmet” (25/01/2025). O artista plástico Rodolpho Tamanini Neto, de 73 anos, morreu afogado depois que uma enxurrada atingiu a sua casa, como relatado em “Corpo de artista plástico que morreu após enxurrada invadir sua residência é velado em SP” (25/01/2025). 

É percebido que nas notícias do G1 são atribuídas às chuvas a responsabilidade exclusiva pelos acontecimentos, personificando-as como agentes autônomos que “provocam”, “causam” ou “deixam” danos e vítimas. Essa abordagem, amplamente evidenciada nos títulos destacados, como “Chuva forte provoca alagamentos” e “Chuvas deixam 25 mortos”, contribui para a não responsabilização humana ou questionamento acerca das causas geradoras do problema. Embora a chuva seja o fenômeno imediato, desencadeador do processo, ela não é a única responsável pelos desastres relatados.

Os desastres não são apenas “naturais”, mas também resultados de uma série de fatores como a ocupação desordenada do solo, a falta de planejamento urbano, o desmatamento e a ausência de políticas públicas eficazes para a prevenção e mitigação de riscos – aspectos que criam situações de vulnerabilidade. Quando o jornalismo escolhe por eleger a chuva (ou outro fenômeno da natureza) como responsável por tragédias acaba por ignorar fatores derivados de escolhas humanas, contribuindo com a ideia de que desastres são inevitáveis, o que enfraquece a urgência em adotar medidas preventivas. 

“Ao personificar as forças da natureza e considerá-la um inimigo externo (“o rio invadiu”, “a chuva matou”), podemos desresponsabilizar a ação/inação humana”, afirma trecho do Manual para a Cobertura Jornalística dos Desastres Climáticos, desenvolvido pelo Grupo de Jornalismo Ambiental do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pelo Grupo Estudos de Jornalismo do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

A personificação das “forças da natureza” reforça uma narrativa que posiciona os desastres como algo “fora do nosso alcance”, resultado de uma suposta “força maior” contra a qual os seres humanos não teriam controle ou capacidade de resistência. Essa perspectiva ignora o papel ativo que as ações humanas desempenham na amplificação ou mitigação desses eventos. É preciso que o campo jornalístico desnaturalize os desastres, pois quando se atribui exclusivamente à natureza a origem dos problemas, perde-se a oportunidade de enxergar a conexão entre os fenômenos naturais e as escolhas políticas, econômicas e sociais que agravam seus impactos. O desastre só ocorre onde há processos de vulnerabilização em curso.

Há anos cientistas das Ciências Sociais e Humanas apontam a importância de se nomear de forma adequada os desastres, mas grande parte da comunidade jornalística segue reproduzindo o que é mais visível na eclosão do problema, desconsiderando questões crônicas que são os viabilizadores de desastres. Isso ainda é mais sério quando há nos títulos das notícias a reprodução de autoridades públicas que invocam os fenômenos naturais para justificar a sua inoperância. Quando deixaremos de cobrir os efeitos da crise climática, provocada pela ação humana, como algo desconectado do nosso modo de vida?

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

O Jornalismo entendeu a crise ecoclimática?

Por Heverton Lacerda*

Ao longo deste ano de 2024, os pesquisadores do Observatório do Jornalismo Ambiental, ligado ao Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (GPJA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), produziram uma série de artigos críticos com foco na atuação da imprensa diante das questões climáticas. Foram 46 textos – contando com este, que finaliza o ano – com diversas abordagens e reflexões. A relação de títulos, com os respectivos links, está mais abaixo. É uma ótima sugestão de leitura de férias para quem ainda não leu e quer ter um panorama sobre como o jornalismo brasileiro tem se relacionado com a realidade ambiental e com seus públicos neste período.

Abrir um texto, já no título, com uma pergunta é uma opção que pode ser até interpretada como uma irresponsabilidade, ainda mais quando a resposta tende a não ser totalmente conclusiva. Nesse caso, é possível que alguém considere haver até uma certa prepotência do escritor, que carece de dados de uma pesquisa ampla, caso haja a pretensão de respondê-la. Já adianto aqui que não tenho essa intenção, mas que também não é uma pergunta retórica. Trata-se de uma inquietação que me parece importante compartilhar com leitores que talvez possam ajudar a elucidá-la ou a ampliar a reflexão sobre o tema. 

Além de uma questão de difícil conclusão, fica claro que tenciono com um possível neologismo. Entendo, particularmente, que a crise climática que estamos vivenciando tem ligação direta com o descaso ecológico a partir do qual a sociedade está indicando o rumo a seguir. O clima não está mudando só por pressão extraterrena – como, por exemplo, devido à intensa atividade do Sol – e pela propalada ciclicidade das mudanças climáticas. Existe, como já identificado pela ciência há algumas décadas, uma forte influência das atividades humanas. Essas atividades, a exemplo da mineração de carvão e extração de petróleo, causam impactos ambientais e estão no início de processos de geração de poluentes climáticos. Os problemas, que vão muito além disso, se somam e se retroalimentam em uma escalada ecocida de difícil recuperação.

Daí a ideia de que a crise não é só climática nem só ecológica, mas sim a soma dessas duas dimensões diretamente interligadas, sem desconsiderar ainda outras possíveis camadas que incidem sobre esse ponto. Sim, o tema é complexo e, por isso, exige abordagens à altura. O jornalismo é capaz de fazer isso, mas, para tanto, precisa fazer valer suas melhores características. Cabe ressaltar ainda que o jornalismo é feito por humanos, uma das espécies que integra a biodiversidade da Terra. A amplitude do olhar, a empatia, a ética, o desprendimento e os sentidos de precaução e prevenção precisam estar presentes, cooperando com a boa prática do fazer jornalístico. 

O percurso de pesquisas acadêmicas sobre Jornalismo Ambiental, com mais de 15 anos de dedicação ao tema no âmbito do GPJA, tem apontado caminhos significativos. Os pressupostos desse jornalismo engajado com as pautas de defesa da vida apontam para a relevância da contextualização correta, da visão sistêmica, da mudança de pensamento, da antecipação dos riscos – o princípio da precaução. Isso tudo buscando a desnaturalização da visão hegemônica sobre os fatos e a aproximação com os interesses da cidadania e da ecologia enquanto condição necessária à manutenção da vida no planeta.

Se 2023 foi o ano mais quente já registrado na história humana, 2024 está na fila pedindo passagem. Os dados de temperatura máxima e média deste ano ainda não estavam consolidados no momento da publicação deste texto, mas o saldo de eventos climáticos extremos, amplamente noticiados, já davam indícios de que a crise climática não pode mais ser negada e precisa ser enfrentada com urgência. 

O jornalismo é obrigado a noticiar catástrofes, contar mortes e contabilizar prejuízos, mas não deve se ater a isso. Não é mais possível reduzir manchetes e reportagens climáticas a meras notas de pé de página. A pauta ganhou espaço nas redações. Mas como isso está sendo feito e que impactos tem gerado na população? Encerro com isso, com mais uma pergunta para te propor buscar respostas na produção deste ano do nosso grupo. Insira seus comentários. Os links seguem abaixo. Boa leitura e um ótimo final de ano! Que 2025 seja bem melhor!

  1. Pessoas e cultura valorizadas na editoria de meio ambiente
  2. De Cop em Cop, onde estão os avanços?
  3. 2023 foi chamado de o ano dos extremos, o que falar de 2024?
  4. A crise climática na cobertura jornalística das catástrofes em Valência e Porto Alegre
  5. Sul21 e o jornalismo a serviço da pauta ambiental nascida no cotidiano
  6. Em um mundo mais seco, jornalismo deve ser terra fértil para compartilhamento de soluções
  7. Questões ambientais se diluem no debate público e na cobertura jornalística sobre as eleições municipais em Porto Alegre
  8. Observação do tema desastre climático nas eleições de Porto Alegre constata descompasso entre a campanha e a preocupação da população
  9. Lembrança do desastre climático que atingiu Porto Alegre foi para o ralo de onde saíram as águas fétidas que inundaram a cidade 
  10. Como Zero Hora pauta a questão climática no contexto eleitoral de POA
  11. Jornalismo e o “espírito da época” nas cheias de maio
  12. Há cortina de fumaça nas eleições municipais?
  13. Enchentes e seus desdobramentos na disputa pelos votos na eleição de Porto Alegre
  14. A questão climática no centro das eleições de Porto Alegre
  15. A ponte informacional e o jornalismo independente na resistência do povo Guarani-Kaiowá
  16. O LIXO – do luxo de ser manchete ao silenciamento do Jornalismo no pós-enchente
  17. Eleições no horizonte: pauta ambiental municipal e o papel do jornalismo
  18. Mais do que carvão: por um jornalismo que acredite noutras potencialidades da economia candiotense 
  19. Racismo ambiental: mídia independente traz debate silenciado no jornalismo corporativo
  20. Jornalismo de soluções ou mais do mesmo: o insuficiente discurso da reconstrução
  21. Podemos repetir os mesmos erros? A reconstrução do RS na pauta dos portais de notícia
  22. Pequenas notícias, grandes negócios
  23. A responsabilidade da imprensa hegemônica na catástrofe climática do RS
  24. A repercussão internacional do desastre climático do Rio Grande do Sul
  25. O papel dos veículos independentes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul
  26. Com apuração e checagem, jornalismo mostra ações antiambientais na base do desastre climático no RS
  27. Tragédia no RS: jornalismo deve abordar causas e conexões entre eventos climáticos extremos
  28. Acerca do cavalo no telhado: circulação e desinformação noticiosa
  29. A inserção dos refugiados e deslocados climáticos na cobertura da catástrofe no RS
  30. RS embaixo d’água: observações neste início da cobertura do desastre
  31. O desafio da cobertura ambiental para além das catástrofes
  32. Recorde de conflitos no campo: qual a repercussão para além do release?
  33. Por que um ingrediente do veneno utilizado na Guerra do Vietnã é aplicado na agricultura familiar brasileira?
  34. Quem ganha com a exploração do carvão?
  35. Livro e blog sistematizam pesquisas e práticas de Jornalismo Ambiental em Santa Catarina
  36. Água pra que quero se não te venero?
  37. Clima, condições de trabalho e desafios de jornalistas em coberturas
  38. Inteligência Artificial e o Princípio da Precaução
  39. Jornalismo ambiental não hegemônico prova seu impacto no debate público
  40. Dengue além dos números: por que a doença ainda mata no Brasil?
  41. Imprensa precisa desideologizar a cobertura do MST
  42. A importância do contexto na notícia climática
  43. Alerta para o jornalismo ambiental: minoria compreende jargões ambientais
  44. O jornalismo precisa falar no racismo ambiental
  45. A falta da cobertura sobre os efeitos colaterais do “progresso”

*Heverton Lacerda é jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação Social, integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).

Pessoas e cultura valorizadas na editoria de meio ambiente

Imagem: Getty Images

Por Patrícia Kolling*

A reportagem com o título “Sobre as jazidas de gás, 1.200 mulheres mantêm viva a cultura do babaçu” publicada pela Folha de São Paulo, no último dia 1º de dezembro, na editoria de meio ambiente, mostra os impactos da abertura de poços e a construção de gasodutos na rotina das mulheres quebradeiras de babaçu, no Maranhão. Conforme contam as fontes da reportagem, houve derrubada de palmeiras, alteração de rotas usadas há décadas na busca dos frutos e fechamento de igarapés. Isso tudo impactando em uma cultura tradicional que passa de geração em geração. “Nós somos resultado de um conhecimento tradicional. Eu aprendi com a minha mãe, que aprendeu com a minha avó. Criei sete filhos com a quebra do coco. Pra nós, quebradeiras, a palmeira do babaçu é a nossa mãe. O coco é o nosso ouro. A gente valoriza muito isso, porque não podemos desconhecer aquilo que foi o leite da gente, que sempre foi tudo”, diz a quebradeira de coco Maria Alaídes.

A reportagem foi construída pelos repórteres André Borges e Ruy Baron, que se deslocaram e percorreram várias cidades do Maranhão, exercendo a verdadeira função de repórter ao observar, entrevistar as pessoas da comunidade e vivenciar o drama das famílias que lá vivem. A região visitada é uma das maiores províncias de gás terrestre do Brasil, e mesmo há mais de dez anos recebendo os royalties da exploração do gás natural, apresenta indicadores sociais péssimos.
Além do texto com foco nas quebradeiras de babaçu, os repórteres também produziram as reportagens “Região com exploração de gás no Maranhão é marcada por degradação ambiental e pobreza” e o documentário audiovisual “Na Trincheira do Gás”. Chama atenção o enfoque social da apuração dos repórteres. Eles relatam como as 65 famílias que tiveram que ser removidas da comunidade onde moravam, para a construção do gasoduto, sofrem impactos.

As famílias foram alojadas em uma área distante, cortada ao meio pela BR-135, onde é constante o tráfego de caminhões e carros. Os depoimentos dos moradores mostram o quanto os laços sociais e familiares foram rompidos com a mudança, e como isso influencia nos cuidados com os filhos e a possibilidade de trabalhar. Os repórteres mostraram, nos vários municípios da região, problemas básicos como o destino inadequado do lixo e ruas com esgoto correndo a céu aberto. Os entrevistados destacam também o desmatamento (principalmente das palmeiras de babaçu), a degradação das estradas, a má estrutura das casas que receberam e as promessas não cumpridas dos acordos de compensação pelas empresas que exploram o gás.


Nesta mesma linha de abordagem, está a reportagem “Estiagem profunda deixa indígenas sem igarapé, quilombolas sem lago e paraíso turístico sob fumaça” também publicada na Folha de São Paulo, dia 04 de dezembro. O texto narra de forma franca e impactante como o desaparecimento de cursos d’água no oeste do Pará altera a vida de comunidades. Pois, como destacam os repórteres, “a presença de comunidades tradicionais nessa parte da Amazônia está diretamente ligada a corpos d’água que, agora, estão secos”. O cacique Mapirizinho, Roselino Paz Kumaruara, resume: “Essa comunidade surgiu, há muito tempo, porque os antigos estavam buscando água e acharam o igarapé Mapiri. Neste ano, ele sumiu”.

A reportagem traz relatos e fotografias dos moradores das comunidades sobre os impactos da seca extrema na mortandade de peixes e outros animais aquáticos e nas rotinas das famílias. O texto faz parte da série Mudanças Climáticas na Amazônia que mostra os efeitos da crise do clima na maior floresta tropical do mundo, com foco nas populações diretamente afetadas.
O tema das reportagens citadas é desesperador e triste, porém, são produções com apurações como estas que estão no caminho do verdadeiro jornalismo ambiental e da sensibilização. São textos que permitem a conexão do ambiental e do social, ouvem fontes das comunidades (e não somente as fontes oficiais), vão in loco apurar e vivenciar e mostram como as mudanças climáticas afetam o dia-a-dia da vida da sociedade brasileira.

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

As respostas do Pampa para as mudanças climáticas 

Imagem: Representantes de sindicatos, associações e de órgãos municipais, estaduais como Emater/RS e UERGS, e federais como Ministério do Desenvolvimento Social, Embrapa Pecuária Sul e UFRGS. Só faltou mesmo a grande imprensa. / Eliege Fante

Por Eliege Fante* e Carine Massierer**

Esquecido pelas políticas públicas e pela imprensa, o bioma sulino possui uma pecuária familiar tradicional em campo nativo que é sustentável ambiental e economicamente.

Temos ouvido a respeito das soluções baseadas na Natureza e da bioeconomia, especialmente nos últimos dias durante a COP29. São dois conceitos recentes e já apontados por especialistas como chaves para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, bem como adaptar a economia visando manter o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius.

A pecuária familiar em campo nativo no Rio Grande do Sul, tradicional e secular modo de vida e de geração de renda onde humanos e natureza vivem ancestralmente em harmonia, consiste numa possibilidade efetiva para contribuir com a mitigação do aquecimento global. Os resultados das pesquisas científicas acumulam-se há pelo menos quatro décadas, mas na grande imprensa, este tema quase não aparece.

Considerando que a grande mídia brasileira fez coberturas diárias da COP29, teria sido uma excelente oportunidade ofertar conteúdos que aproximassem as preocupações das nações com as nossas lidas diárias que podem contribuir, na prática, para um futuro sustentável, como é o caso dessa pecuária em campo nativo.

Em paralelo a COP29, aconteceu o Seminário da Pecuária familiar das Palmas, em Bagé (RS), (dias 22 e 23 de novembro) com representantes de sindicatos e associações, de órgãos municipais, estaduais como Emater/RS e UERGS, e federais como Ministério do Desenvolvimento Social, Embrapa Pecuária Sul e UFRGS. Não faltaram autoridades, as fontes oficiais preferidas pela grande imprensa. Sem contar que teria sido válido ouvir os próprios pecuaristas familiares ainda mais porque estamos às vésperas do Dia do Bioma Pampa, 17 de dezembro.

O Seminário reuniu cientistas, técnicos e pecuaristas que conclamam o reconhecimento da pecuária familiar gaúcha em campo nativo enquanto conservadores da biodiversidade pampeana como alertava o título do evento: “300 anos de invisibilidade”.

Durante o evento o médico veterinário da Embrapa Pecuária Sul, Marcos Borba, afirmou (aqui gravado) que os pecuaristas, apesar de invisibilizados, contribuem com sua lida para a segurança alimentar sem agredir o meio ambiente: “nós manejamos através da pecuária uma conservação permanente da cobertura do solo com este tamanho de biodiversidade que aqui tem (ao menos 45 espécies da flora campestre por metro quadrado), a água que cai, infiltra, alimenta os repositórios de água subterrâneos, corre para a sanga, da sanga para o arroio, do arroio para o rio, do rio para a lagoa, da lagoa para o mar, daí evapora, e volta na forma de chuva. Portanto, ao produzir carne também produzimos água no sentido de que o ciclo da água permanece funcionando. Nós sequestramos carbono; essa região é um dos maiores depósitos de carbono acumulado do Rio Grande do Sul na forma dessa vegetação composta por campo conservado e mato. Ninguém reconhece isso.”

Qual a parcela de responsabilidade da grande imprensa sobre essa falta de reconhecimento? A invisibilidade deste tema na mídia brasileira não é coerente com a emergência das mudanças climáticas. Temos que fazer coberturas mais amplas: “A ocupação das pessoas é um dos maiores desafios enfrentados e, nós aqui, não precisamos ir para a cidade se não quisermos. Podemos ficar fazendo vida, história, cultura, produzindo alimentos de alta qualidade através do uso da luz do sol, da água da chuva e conservando a biodiversidade,” disse Borba a respeito da autonomia dessa pecuária em campo nativo.

Enquanto o desenvolvimento do Rio Grande do Sul é planejado por governos e corporações transnacionais de forma dependente do pacote tecnológico da monocultura da soja e do eucalipto, e de irrigação, ou seja, do uso crescente do recurso finito e escasso que é a água, é de assaz interesse público saber que existe uma atividade econômico-produtiva que mantém as famílias no meio rural, que sustenta, que não polui, que absorve o carbono da atmosfera e que “produz” água.

Todos temos que compreender e difundir os potenciais do bioma Pampa a partir da sua rica biodiversidade: o recorde de 63 espécies diferentes de plantas em um metro quadrado, redunda na imensa riqueza faunística e no “buffet” mais rico do Brasil disponível aos rebanhos. Já na Amazônia, a pecuária desmata e está levando o mega bioma ao ponto de não retorno!

A prática do jornalismo requer essa escuta horizontalizada, ampla, diversificada, produtora de conhecimento e educadora ao repercutir as tecnologias sociais parceiras da melhor ciência da conservação das espécies do planeta. Mais de uma dezena de fontes de alta relevância (internacional, inclusive) circularam neste evento local, mas de alcance e de interesse global neste momento histórico ímpar.  

*Eliege Fante. Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

De Cop em Cop, onde estão os avanços?

Por Carine Massierer*

Sempre que se aproxima uma edição da Conferência do Clima (COP) das Nações Unidas (ONU) ampliam-se os espaços para o tema ambiental na imprensa no Brasil e exterior. Nesta semana e na próxima, acontece a 29ª COP em Baku, no Azerbaijão, portanto, podemos nos preparar para várias abordagens, muitas delas resumindo a questão ambiental a disputas políticas, questões econômicas e promessas, uma vez que o evento movimenta a economia turística e tem em jogo muitos interesses.

Em 2024 se completam nove anos do Acordo de Paris, mas o ritmo de emissões de gases do efeito estufa, discutido na ocasião, não diminuiu. Pelo contrário, segundo matéria da Agência Pública, COP do Clima: os riscos a cada meio grau do aquecimento global, no ano passado as emissões cresceram 1,3% e até dezembro poderemos chegar a uma temperatura média com aumento de 1,5%C, quebrando o recorde.

Isso mostra que precisamos agir hoje para não haver uma piora da crise climática, uma vez que 2024 foi um ano de extremos. As mudanças climáticas fizeram parte de nosso dia a dia em todos os cantos do planeta, com dilúvios e longas ondas de calor que ultrapassaram os 40ºC, dentre tantos outros desastres socioambientais, como alerta Claudia Herte de Moraes, em artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental.

Observando a cobertura da COP29 e também avaliando como o tema da emergência climática impacta o debate público, percebe-se que a imprensa brasileira apenas repercute os compromissos assumidos pelo governo federal. Também se verifica que, mesmo que a população esteja mais preocupada com o tema ambiental e os desastres socioambientais, ela não demanda dos representantes que estes estejam comprometidos com as ações de fato, tanto para a diminuição das emissões, para a prevenção e adaptação aos eventos extremos. O jornalismo, portanto, não pode abrir mão da interpretação dos fatos, não deve apenas noticiar as COPs ano a ano sem contribuir, de fato, trazendo o aprofundamento dos conteúdos e complexificando essa pauta.

Imagem: Captura de tela das principais notícias do Google sobre a COP29, acesso em 13 de novembro de 2024.

A Agência Pública tem feito matérias desde antes da COP29 e está acompanhando o evento trazendo matérias mostrando se de fato há um comprometimento efetivo entre as nações para redução de emissões. O governo brasileiro manifestou a intensão para que isso ocorra e apresentou proposta e dia 11 de novembro representantes de países que estão na Conferência fizeram um acordo para aprovar o arcabouço de regras que serão usadas para criar um mercado de carbono global sob o Acordo de Paris, no qual se comprometeram com metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Esperamos de Cop em Cop, de fato, depois de nove anos do Acordo de Paris, estejamos cientes que os efeitos globais das mudanças climáticas não estão distantes e podem no afetar a qualquer momento.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental

2023 foi chamado de o ano dos extremos, o que falar de 2024?

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Cláudia Herte de Moraes*

O fim de ano se aproxima e neste momento a imprensa já se organiza na tarefa de realizar reportagens especiais, retrospectivas e trazer perspectivas para o próximo período. Ao pensar sobre 2024, poderíamos dizer que foi um ano de extremos, mas 2023 já havia sido. Ano passado, o jornal O Globo titulou assim o seu especial: “2023, o ano em que o futuro de extremos e fúria das mudanças climáticas se tornou o presente: Furacões no deserto, dilúvios e longas ondas de calor de mais de 40ºC assolaram o planeta”. 

Observando a cobertura do desastre socioambiental do Rio Grande do Sul em 2024 e também como o tema da emergência climática impactou o debate público, político e eleitoral em Porto Alegre, apontou-se que, embora a população esteja mais preocupada com o tema, não demanda dos representantes que estes estejam comprometidos com as ações ambientais, tanto para a diminuição das emissões, quanto para a prevenção e adaptação aos eventos extremos. O jornalismo, portanto, não pode abrir mão da interpretação dos fatos, não deve apenas noticiar as tragédias, trazendo comoção quando a cidade estava debaixo d’água, mas necessita aprofundar e complexificar essa pauta. Como anotaram Isabelle Rieger e Ilza Girardi, o jornalismo, de maneira geral e com algumas exceções, deixou de apontar o desastre climático de forma mais aprofundada no cenário eleitoral, relacionando os projetos em disputa, e de como as escolhas e definições das políticas públicas e dos representantes eleitos são parte do problema ou da solução. O jornal Correio do Povo, em análise de Sérgio Pereira, mereceu reconhecimento ao fazer entrevistas aprofundadas com as candidaturas debatendo a questão das enchentes na capital.

Entre as principais notícias ambientais de 2024, tivemos também a intensificação de queimadas e a crise climática em diversos biomas brasileiros, particularmente na Amazônia, com uma seca histórica. Por exemplo, de janeiro a outubro, a WWF divulgou que os incêndios “cresceram 51% na Amazônia, 69,5% no Cerrado e 639% no Pantanal em comparação ao mesmo período em 2023”. As queimadas, em grande parte criminosas, aumentam os níveis de gases de efeito estufa e ameaçam a biodiversidade e a saúde pública, além de gerar impactos econômicos significativos. São muitos fatos graves neste cenário e o público pode ter dificuldade em acompanhar, daí porque Débora Gallas indica a necessidade de o jornalismo apontar e debater soluções para as crises, estabelecendo um ponto de análise para a ação.

2024 efetivamente não ficará esquecido, pois foi o ano mais quente já registrado no Hemisfério Norte, como noticiou o GZH. Estes dados saltam em vários noticiários mundo afora, assim como o espaço para as conferências internacionais. A revista Carta Capital avalia que “novembro é um mês decisivo para a agenda climática global: saímos da COP 16 de biodiversidade, em Cali, na Colômbia, e seguimos para a reunião do G20 no Rio de Janeiro, a COP 29 em Baku, Azerbaijão”. Ou seja, de ano a ano, o mundo assiste às Conferências ambientais que entregam anúncios e acordos, porém com pouco impacto, já que são dificilmente convertidos em ações efetivas. Um outro exemplo, sobre a definição de como se dará o financiamento para a transição energética, tema discutido há décadas sem acordo efetivo. Com isso, o lobby do petróleo se mantém forte como podemos observar no caso brasileiro, mesmo o país sendo a sede da COP 30 em 2025 na cidade de Belém (PA), há disputa interna no governo Lula sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas no litoral do Amapá. Apesar de um recente parecer pelo indeferimento da licença ambiental, assinado por 26 técnicos, como noticiou o Clima Info, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) deu prosseguimento ao processo. Na reportagem da DW, ficam evidentes os possíveis prejuízos ambientais de tal empreendimento, e de como o caso da Foz do Amazonas pode abrir precedentes para facilitar outros licenciamentos questionáveis, assim trazendo um contexto importante ao leitor. 

De uma maneira geral, encontramos diariamente notícias ambientais e climáticas, em função de que os efeitos do aquecimento global e da superexploração da natureza exaurem os limites do planeta e já fazem parte do nosso cotidiano. O jornalismo em várias frentes está atuante. No entanto, é preciso refletir sobre as formas de abordagem destes temas, para que as pessoas consigam exercer a cidadania plena de direitos, que inclui o direito ao ambiente equilibrado e à participação nas definições das políticas ambientais. Se a era dos extremos climáticos já chegou, no jornalismo é preciso abandonar a superficialidade na abordagem ambiental e climática, para dar lugar ao olhar sistêmico, como um exercício diário para a compreensão do que está em jogo na pauta climática. Portanto, cada vez mais o jornalismo precisa manter o foco para uma cobertura complexa, que evidencie os interesses, conflitos, causas, consequências, desafios e soluções. 


*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

A crise climática na cobertura jornalística das catástrofes em Valência e Porto Alegre

Imagem: Valência/Espanha, 30/10/2024 , uma enchente repentina em Valência, no leste da Espanha, deixou ao menos 92 pessoas mortas, segundo as autoridades locais. A força das águas arrastou carros, transformou ruas de vilarejos em rios e interrompeu linhas ferroviárias e rodovias. /RS/Fotos Públicas

Por Míriam Santini de Abreu*

“Devastadora”, “trágica”, “catastrófica” e “apocalíptica” são adjetivos que a imprensa espanhola está usando para se referir aos efeitos da já caracterizada “maior chuva do século”, que devastou principalmente a comunidade de Valência. A imprensa brasileira também tem se utilizado dos mesmos adjetivos na cobertura. Postagens nas redes sociais estão divulgando notícias vindas do país europeu e associando o fato com as enchentes de abril/maio no Rio Grande do Sul. É oportuno, portanto, analisar a cobertura jornalística espanhola para investigar como estão posicionados os debates sobre a crise climática e a relação com a violenta DANA (depressão isolada de alto nível), fenômeno provocador das violentas chuvas e que ocorre quando o ar frio desce sobre as águas quentes do Mar Mediterrâneo.

Às 18h45 desta quarta-feira (30), o jornal El Mundo o assunto na capa, enquanto no El País, cujo slogan é “El periódico global”, as notícias mais bem posicionadas tem relação com a eleição presidencial nos Estados Unidos. No El País, a matéria principal, intitulada “95 muertos y decenas de desaparecidos en la peor gota fría del siglo en España”, destaca o mesmo fato do El Mundo, o número já confirmado de mortos: “Al menos 95 muertos y decenas de desaparecidos por la DANA”.

O El Mundo traz como primeira retranca outro fato que certamente irá merecer farta cobertura nos próximos dias: a demora do acionamento do sistema de alerta de Valência. O jornal também dá destaque para os motivos pelos quais a DANA foi tão violenta. A notícia traz análises de meteorologistas e destaca-se o seguinte trecho: “En este episodio, ha influido también un factor muy vinculado al cambio climático: la temperatura del agua del mar, pues en la costa de Valencia estaba entre un grado y dos por encima de la media en esta época del año. ‘No es una anomalía tan significativa como la de otros momentos del año, pero sin duda ha contribuido a que haya habido más lluvia’, afirma.”

Captura de tela das capas do El País e El Mundo às 18h45 de 30/10/2024

O El País aborda o fato em uma retranca de dois parágrafos na qual afirma que o Mediterrâneo mais quente que o normal, para esta época do ano, é a chave para a virulência das chuvas.

Em nota, a Metsul Meteorologia analisou dados da chuva na comunidade espanhola de Valência, comparou-os aos do desastre no Rio Grande do Sul e concluiu que a precipitação em pontos de Valência superou o acumulado em 24 horas de qualquer cidade gaúcha no evento do fim de abril e o começo de maio.  Mas, segundo a nota, “se considerado o período prolongado de instabilidade que atingiu o Rio Grande do Sul os volumes foram parecidos ou o dobro do que choveu em um só dia na região mais castigada da Espanha

Os dois veículos trazem reportagens descritivas sobre os impactos da DANA em diferentes localidades, medidas imediatas das autoridades públicas, serviços disponíveis aos atingidos, previsão meteorológica para as próximas horas e postagens de redes sociais feitas por moradores. Do ponto de vista da crítica da cobertura jornalística, seriam de grande valia estudos mais aprofundados para comparar o trabalho desenvolvido pelos jornais e jornalistas espanhóis com o dos congêneres do Rio Grande do Sul, a partir das premissas do jornalismo ambiental.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente

Sul21 e o jornalismo a serviço da pauta ambiental nascida no cotidiano

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Míriam Santini de Abreu*

O site de notícias independente Sul21 publicou, às vésperas do primeiro turno das Eleições 2024, a série de reportagens “Raio-X das Periferias” sobre as principais demandas de moradores dos quatro bairros mais populosos de Porto Alegre para o período eleitoral. A iniciativa, que incluiu os bairros Rubem Berta, Restinga, Sarandi e Lomba do Pinheiro (veja em bit.ly/3Ny1G25), é um exemplo significativo para relacionar cotidiano, espaço e pauta ambiental em tempos nos quais a população elege seus representantes na dita (e tão limitada) democracia representativa.  

Imagem: Print da timeline do site do jornal Sul21

No senso comum, cotidiano é o que ocorre todos os dias, o banal, o corriqueiro, o repetitivo. Mas nele também nasce a ruptura, a possibilidade de transformação social. O novo, afinal, emerge no cotidiano, e é no espaço que esse cotidiano, em sua riqueza e miséria, se realiza. As transformações pelas quais passa o jornalismo como fazer profissional e também como negócio, porém, afastam o jornalista do cotidiano e do espaço. Redações cada vez mais enxutas levam a coberturas magras, parte delas feitas por telefone ou redes sociais, levando portais noticiosos a terem “cara” de vitrine para boletim de ocorrência.

Em sentido oposto, a série do Sul21 traz diversidade de fontes e descrições expressivas do cotidiano e do espaço geográfico dos quatro bairros, onde aparece a errância de populações continuamente expulsas ou em busca de melhores condições de vida, situação agravada pela penosa tentativa de recuperação depois das enchentes catastróficas que atingiram o Rio Grande do Sul.

A debilidade dos serviços públicos, as dificuldades de locomoção, a falta de opções de lazer – todas elas relacionadas à pauta ambiental – vão sendo apresentadas ao longo das entrevistas para expor o abandono do poder público, as promessas que não se cumprem, as tentativas de organização popular para superar as carências do cotidiano. Aparecem ainda as conquistas via Orçamento Participativo, mas também as críticas aos limites deste instrumento de liberação de recursos públicos.

A série utiliza dados do Atlas de Vulnerabilidade Social desenvolvido no curso de Geografia da UFRGS, informação do mundo acadêmico a serviço da interpretação jornalística do espaço geográfico. Na reportagem sobre o bairro Rubem Berta, aparece menção ao jornal comunitário local Fala Cohab, a revelar o papel ainda vivo da comunicação comunitária. A série de reportagens “Raio-X das Periferias” é mais uma a confirmar o importante papel do Sul21 no jornalismo gaúcho e regional. Que as vozes que carrega em seus textos tão bem encaixados sejam ouvidas e levadas em conta por quem comandar Porto Alegre pelos próximos quatro anos. 

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente

Em um mundo mais seco, jornalismo deve ser terra fértil para compartilhamento de soluções

Imagem: Isabelle Rieger

Por Débora Gallas*

As mudanças climáticas são assunto incontornável por conta de seus efeitos, como a ocorrência de secas, tempestades e inundações com maior intensidade e frequência. Consequências de eventos climáticos extremos se sucedem nos noticiários, do furacão Milton, na América do Norte, ao temporal que afetou milhões de paulistanos na última semana.

Apesar da maior intensidade e frequência também na presença dos temas ambientais na pauta do dia, a sucessão de novos acontecimentos pode soterrar a cobertura sobre os desdobramentos desses fenômenos. Nesta semana, por exemplo, a seca histórica na Amazônia ressurgiu como pauta no Jornal Nacional, o principal telejornal do Brasil, após o foco nos temas citados anteriormente.

A reportagem em questão, exibida na segunda (14), falou sobre os desafios logísticos trazidos pelo baixo nível dos rios em Manaus. O enfoque foi econômico, mostrando como a dificuldade de navegação e de acesso dos navios aos portos da região encarece até mesmo produtos típicos, como o tucumã.

Sabemos que não é possível contemplar todas as consequências da seca em uma reportagem de dois minutos, e em meio a um noticiário já tão sobrecarregado. Porém, ressaltamos que é preciso dar continuidade a essa cobertura a partir de outros recortes, visto que o jornalismo ambiental preza pela contextualização dos fenômenos, o que viabiliza inclusive a proposição de soluções.

Outras abordagens sobre a mesma problemática podem ser vistas em reportagens como a de Luis Felipe Azevedo e Lucas Altino, de O Globo, que aborda a dificuldade de caminhões cruzarem o rio Madeira em balsas, no Amazonas, visto que a diminuição do nível do rio torna a navegação mais perigosa. Ou ainda na reportagem de Nicoly Ambrosio, em Amazônia Real, que detalha os impactos da seca na qualidade de vida dos manauaras, que já passaram meses sujeitos à fumaça das queimadas.   

A seca impacta o abastecimento de água, a alimentação das pessoas, a sobrevivência de outras espécies, como os botos. Em suma, fragiliza a resiliência do bioma. Com a quebra de recordes ano a ano, precisamos assumir o princípio da precaução também no jornalismo.

Precisamos de reportagens que não somente mostrem as consequências hoje, mas que cobrem setor público e privado e que se orientem pelo que diz a ciência a fim de evitar danos tão profundos nos anos por vir. É necessário lembrar ao público de que é possível reverter o caminho destrutivo da humanidade, e a conscientização é fundamental para fortalecer a cobrança coletiva dos principais responsáveis pela crise climática.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

Questões ambientais se diluem no debate público e na cobertura jornalística sobre as eleições municipais em Porto Alegre

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Sara Feitosa*

A cobertura jornalística das eleições municipais de 2024 em Porto Alegre, no primeiro turno, revelou uma abordagem desigual ao pautar temas ambientais na agenda pública – como as enchentes de maio. Embora tenha sido um evento de grande impacto para a cidade, que poderia e deveria ter permeado o debate político, os principais veículos de comunicação da capital trataram o tema de forma bastante heterogênea e com pouca relevância.

Este é um dos resultados preliminares do estudo desenvolvido por pesquisadores de dois observatórios com sede na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Observatório de Jornalismo Ambiental (OJA) e o Observatório de Comunicação Pública (OBCOMP). No estudo, buscamos mapear como, durante a campanha eleitoral, o tema das enchentes – de forma específica – e a crise do climática – de maneira mais ampla – aparecem como pauta na agenda pública, tanto no discurso dos candidatos durante o Horário de Propaganda Eleitoral Gratuita (HPEG) quanto na cobertura jornalística sobre o pleito municipal. A Investigação, que segue durante o segundo turno, reúne 17 pesquisadores e discentes dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas da UFRGS.

O estudo se justifica tanto pela magnitude das enchentes ocorridas em maio de 2024, quanto pelos sucessivos eventos climáticos registrados na cidade nos últimos anos, que evidenciam que as mudanças no clima são temas e acontecimentos do presente. Além disso, esta é a principal preocupação da população de Porto Alegre, de acordo com os dados da pesquisa realizada pelo Instituto Quaest, divulgada em 27 de agosto de 2024, que perguntou aos eleitores “quais são os problemas mais graves da cidade?”. O tema das enchentes e alagamentos apareceu em primeiro lugar com 33%. 

Na observação da cobertura jornalística, acompanhamos a produção sobre eleições nos jornais Correio do Povo, Matinal Jornalismo, Sul21 e Zero Hora, entre os dias 16 de agosto a 06 de outubro, durante o primeiro turno, e seguimos entre 07 e 27 de outubro, durante a cobertura do segundo turno. Além disso, coletamos as entrevistas concedidas pelos oito candidatos à prefeitura de Porto Alegre ao Jornal do Almoço, da RBSTV, no primeiro turno, e pelos dois candidatos que disputam o segundo turno. A escolha dos veículos observados se justifica pela relevância que têm no cenário comunicacional na capital gaúcha, seja por se tratarem de redações mais tradicionais ou jornalismo de referência (Zamin, 2015) – no caso do Correio do Povo e Zero Hora – seja por serem redações independentes e nativas digitais – como Matinal Jornalismo e Sul 21. A escolha das entrevistas para o Jornal do Almoço se justifica pela audiência do telejornal. 

Os números da coleta no primeiro turno apontam 293 reportagens, matérias ou notas sobre as eleições municipais nos quatro veículos, sendo 75 relacionadas ao tema do desastre climático na cobertura das eleições. Quanto ao material audiovisual, ou seja, as entrevistas realizadas com os candidatos à prefeitura durante o Jornal do Almoço (RBSTV), a coleta resultou em 56 minutos de gravação.  A observação segue até o dia 27 de outubro. Entre os dias 07 e 16 de outubro,  os dez primeiros dias da campanha de segundo turno, coletamos 115 materiais noticiosos, sendo que 18 tratam das cheias e suas consequências, nos veículos observados. A tendência segue a mesma do primeiro turno: Correio do Povo com maior número de notícias que relacionam as eleições e o desastre climático, com 11 de 63 materiais identificados; Zero Hora, com 6 reportagens/notícias de 30 identificadas; Sul21, com 1 de 20 matérias sobre as eleições e Matinal Jornalismo não publicou nenhuma reportagem que relacione eleições e enchentes.  Em relação ao material audiovisual, coletamos 32 minutos de gravação das entrevistas concedidas ao Jornal do Almoço (RBSTV) pelos dois candidatos que disputam o segundo turno na capital gaúcha.  

Os dados consolidados sobre a coleta no primeiro turno são os seguintes: O jornal com maior número de reportagens e matérias sobre eleições que correlacionam o tema do desastre climático é o Correio do Povo, com 54 materiais noticiosos; seguido de Zero Hora, com 18; Matinal Jornalismo, com dois; e Sul21 com 1. Importante esclarecer que, por materiais noticiosos, entendemos reportagens, matérias, notas e entrevistas, desde que se refiram às eleições e ao desastre climático. Não entram, portanto, reportagens sobre ações da prefeitura ou do governo do estado voltadas à reconstrução ou reparação de estruturas da cidade que não estabeleçam vinculação com as eleições. Outra nota de esclarecimento importante  a ser feita é que, nestes dados, consideramos o veículo matriz como locus de coleta, ou seja, a edição impressa de Zero Hora e Correio do Povo (em versão digital),  e as reportagens publicadas nos sites de Matinal Jornalismo e Sul21. No caso do Matinal Jornalismo, newsletters e material não publicados no site não foram incluídos na coleta de dados. No quadro abaixo, temos uma apresentação gráfica dos resultados quantitativos da coleta do primeiro turno. 

Gráfico 1 – Dados quantitativos de materiais noticiosos que 

relacionam eleições e desastre climático 

Fonte: OJA/UFRGS

Na continuidade da pesquisa, já com os dados quantitativos do segundo turno, incluiremos também uma análise qualitativa do conteúdo do material noticioso coletado.

Os dados coletados, até o momento revelam como os veículos de comunicação de Porto Alegre lidam de maneira diversa com o tema das enchentes no contexto eleitoral. A falta de uma integração mais consistente do tema no debate público em torno das eleições municipais sugere que um evento climático dessa magnitude, com profundas repercussões na vida urbana, ainda não foi suficientemente problematizado. Se, por um lado, o Correio do Povo, se destacou pela abordagem quantitativa do tema, outros veículos parecem tê-lo tratado como secundário no debate eleitoral. Essa divergência na cobertura aponta para a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre o papel do jornalismo em articular eventos climáticos com o futuro político e administrativo das cidades. A percepção preliminar, sem ainda uma análise qualitativa do material coletado, é que faltou um enquadramento na cobertura jornalística sobre as enchentes – de modo específico – e a mudança no clima – de modo geral – considerando as diferentes etapas de ação da gestão pública municipal quando falamos de emergência climática. Refiro-me aos diferentes estágios, como as ações de emergência, aquelas que cabem durante o acontecimento; as ações de prevenção, cujo objetivo é evitar novos desastres climáticos; ações de mitigação, voltadas para reduzir o impacto de eventos climáticos extremos que, ao que tudo indica, se tornarão cada vez mais frequentes; e, por fim, ações de adaptação, necessárias pelas mesmas razões pelas quais projetamos ações de mitigação.

A colunista de Zero Hora, Rosane de Oliveira, na coluna “Política e Poder” publicada no dia 03 de outubro, chama a atenção para o fato de que “a disputa na capital ignorou a questão ambiental”, com o que concordo totalmente. Porém, cabe também ao jornalismo pautar tais temas, articulando pautas que evidenciem a relação transversal das questões ambientais com saúde, educação, transporte público, infraestrutura urbana, cultura, lazer, enfim, todos os aspectos do viver em um centro urbano. Além de informar, que segue sendo uma função fundamental do jornalismo (Franciscato, 2005; Reginato, 2019), é necessário que o jornalismo cumpra outras funções primordiais — especialmente em tempos em que o jornalismo já não tem a exclusividade no ato informativo. Refiro-me a interpretar e analisar a realidade, ajudando o cidadão comum a entender o mundo contemporâneo. Como observa Gisele Reginato (2019): “O jornalismo deve interpretar e analisar a realidade, avaliando os fatos que acontecem e explicando-os de forma aprofundada à sociedade. É seu papel contextualizar as informações, fazendo relações entre passado e presente, entre causas e consequências”. Infelizmente, o que observamos é um debate sobre questões ambientais que ficou na superfície ou se voltou para “curiosidades”, sem aprofundamento. Um exemplo disso é uma das questões — a única sobre as enchentes — na entrevista publicada na edição de terça-feira, 08 de outubro, em Zero Hora, com o atual prefeito, que busca a reeleição. Em síntese, foi perguntado se ele tem alguma explicação para o fato de ter tido votação expressiva em bairros afetados pelas enchentes. Com todo o respeito, este é o tipo de questão que dá ao candidato a oportunidade de se auto elogiar e, obviamente, ele não perdeu a chance. Eu faria o mesmo, se fosse candidata. Outra questão que tangenciou o meio ambiente foi sobre a concessão do DMAE para a iniciativa privada, mas não houve desdobramento.

Na entrevista com a candidata de oposição que disputa o segundo turno, publicada na mesma edição de Zero Hora, de 08 de outubro, foi a candidata quem pautou o tema das enchentes. Diante das propostas apresentadas por ela, não houve uma insistência em aprofundar o tema. Por exemplo, poderiam ter sido feitas perguntas como: qual é a proposta da candidata para a redução de emissões de gases de efeito estufa na cidade? Qual o projeto de destinação de resíduos sólidos para Porto Alegre? Ou, ainda, qual a proposta para a substituição do combustível fóssil no transporte público? Enfim, há uma série de questionamentos que o jornalismo pode fazer aos candidatos, se o objetivo é tratar as questões ambientais como centrais para o viver na cidade.

Não é intenção aqui apontar o dedo para o jornalista, mas chamar para uma reflexão sobre a linha editorial que aposta na superficialidade e perde a oportunidade de assumir tarefas tão valiosas ao jornalismo, como de interpretar e analisar a realidade, além de ajudar o cidadão comum a entender o mundo em que vivemos. Se os políticos não pautam as questões ambientais na agenda pública durante as eleições, é papel do jornalismo fazê-lo. A eleição municipal é um momento privilegiado para debatermos e pensarmos em qual cidade queremos habitar, ao assumir o papel de pautar tais temas — que, talvez, as estratégias de  marketing dos candidatos queiram ignorar — o jornalismo cumpre um papel fundamental que lhe cabe nas sociedades, ou seja, colocar em primeiro plano o interesse público e contribui para consolidação da democracia e diversidade de perspectivas de como gerir a cidade. 

Por fim, penso que é fundamental para nós, do campo acadêmico, pautar e construir currículos em que as questões ambientais e o cenário de mudanças no clima e suas consequências sejam transversais na formação. Preparar jornalistas capazes de atuar profissionalmente em contexto de crise ambiental é uma tarefa para ontem. Estamos atrasados nessa missão. Como observa Ilza Girardi (2018), o jornalismo desempenha um papel essencial na sociedade, tanto ao informar quanto ao educar os cidadãos, fornecendo-lhes os meios para defender seus próprios interesses e os da coletividade. Em tempos de grandes turbulências, com ameaças contínuas ao meio ambiente, um olhar da perspectiva do jornalismo ambiental se torna indispensável, trazendo uma abordagem atenta e comprometida com a proteção da vida em todas as suas formas.

Referências

Franciscato, Carlos E. A fabricação do presente: como o jornalismo reformulou a experiência do tempo nas sociedades ocidentais. São Cristóvão: Editora UFS/Fundação Oviedo Teixeira, 2005.

Girardi, Ilza M. T, et al. Um semestre muito especial: o surgimento da primeira disciplina de Jornalismo Ambiental. Jornalismo ambiental: teoria e prática [ livro eletrônico] / organizado por Ilza Maria Tourinho Girardi … [et al.] – Dados eletrônicos – Porto Alegre: Metamorfose, 2018. 

Reginato, Gisele D. As finalidades do jornalismo. Série Jornalismo a Rigor. V.15. Florianópolis: Insular, 2019. 

Zamin, A. Jornalismo de referência: o conceito por trás da expressão. Revista FAMECOS, 21(3), 918–942, 2015.

*Professora de Jornalismo e Publicidade e Propaganda na Unipampa, pesquisadora do NUCOP e coordenadora de Notícias do OBCOMP.