Observatório de Jornalismo Ambiental

Jornalismo ambiental não hegemônico prova seu impacto no debate público

Imagem: Após reportagem de ((o))eco, condenado por assassinato de Chico Mendes é destituído de presidência do Partido Liberal (PL) / Arquivo Memorial Chico Mendes

Por Débora Gallas*

Uma reportagem do site ((o)) eco publicada no dia 27 de fevereiro repercutiu em outros veículos brasileiros de projeção nacional e impactou as decisões de uma das maiores forças políticas do Brasil – o Partido Liberal (PL). O texto da jornalista Cristiane Prizibisczki revelou que Darci Alves Pereira, condenado pela execução do seringueiro e ambientalista Chico Mendes, havia assumido a presidência do PL em Medicilândia, no Pará.

O caso, informado primeiramente por um veículo não hegemônico, foi notícia em seguida em veículos como GloboNews. No mesmo dia, diante das críticas ao PL, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, recomendou a destituição de Darci Alves Pereira do cargo. Os desdobramentos também foram noticiados por diversos veículos de jornalismo hegemônico de projeção nacional, como UOL e g1.

A polêmica também rendeu matérias sobre o tema por outros ângulos: O Povo, por exemplo, explica que, após o cumprimento da pena pelo crime realizado em Xapuri, no Acre em 1988, Darci se estabeleceu no Pará e passou a ser conhecido como “Pastor Daniel”. O Globo relembrou as circunstâncias e motivações do assassinato. Já a CNN aproveitou o gancho para explicar às novas gerações quem foi Chico Mendes e qual foi o legado de sua luta pela conservação ambiental e pelo uso sustentável dos bens naturais.

Quando nos referimos ao jornalismo não hegemônico, recorremos ao entendimento da pesquisadora Eloisa Loose. Segundo a autora, essa modalidade é praticada por meios que não dominam o mercado e que são mais propensos a adotar posicionamentos críticos. A definição de jornalismo não hegemônico tem similaridades com as ideias de jornalismo alternativo ou jornalismo independente – embora não sejam sinônimos – porque subvertem as preocupações comerciais vistas no jornalismo comumente denominado hegemônico, tradicional ou mainstream.

A autonomia e a independência do jornalismo não hegemônico em relação a anunciantes, por exemplo, são positivas sobretudo para a prática do jornalismo ambiental, que com frequência confronta interesses políticos e econômicos que ameaçam os ecossistemas e os seres humanos e não humanos.

A partir da apuração de ((o)) eco e da repercussão da informação sobre a entrada de Darci Alves Pereira na política, entendemos que o jornalismo não hegemônico não está reduzido a um nicho de público, com alcance limitado. Esse tipo de jornalismo, sobretudo no caso de pautas ambientais – que passaram a ser vistas como “hard news” muito recentemente – tem potencial de impactar o ecossistema do próprio jornalismo e, mais amplamente, o debate público e as decisões de atores relevantes.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Referências

GIRARDI, I. M. T.; LOOSE, E. B.; STEIGLEDER, D. G.; MASSIERER, C. Meio ambiente no Jornal Nacional: das tragédias às disputas políticas. Animus. Revista Interamericana de Comunicação Midiática, v. 22, n. 48, 2023. DOI: 10.5902/2175497768800.

LOOSE, Eloisa Beling. Jornalismo e mudanças climáticas desde o Sul: Os vínculos do jornalismo não hegemônico com a colonialidade. Porto Alegre: UFRGS, 2021. Tese de doutorado disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/220347/001124549.pdf.

Dengue além dos números: por que a doença ainda mata no Brasil?

Imagem: João Paulo Burini / Getty Images

Por Patrícia Kolling*

A leitura da coluna Saúde, meio ambiente, políticas públicas: a dengue mostra que está tudo interligado, produzida pelas colegas Isabelle Rieger e Cláudia Herte de Moraes, e publicada no site Eco, me instigou a apurar sobre a abordagem dada nas notícias da imprensa brasileira sobre a doença e suas relações com o meio ambiente e as políticas públicas. Em notícia publicada pelo governo federal, no dia 27/02, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, ressalta que o aumento no número de casos neste período do ano não era esperado, considerando as tendências históricas que indicam o pico das epidemias entre março e abril. O texto diz ainda que os motivos para esta situação, diferente do esperado, têm raízes múltiplas, entre elas as alterações climáticas, em especial na época de chuvas, e a mudança nos sorotipos circulantes da dengue. O Ministério declarou que o Brasil chegou a quase 1 milhão de casos registrados de dengue e que vai fazer uma mobilização nacional para combater os focos do mosquito, no sábado dia 2.

A fala da ministra foi citada em algumas notícias, porém, pouco se aproveitou para aprofundar a temática, explicando como e porque as alterações climáticas podem estar levando ao aumento dos mosquitos e dos casos de dengue. Uma apuração rápida, nos sites G1, Folha de São Paulo e Estadão, mostrou que a maioria das notícias foca nos números de infectados e mortos pela doença. A Folha de São Paulo, no dia 19, além das dezenas de números e gráficos que trouxe sobre a dengue, destacou que especialistas apontam os fatores climáticos como centrais para a explosão de casos. Diz o texto que o calor acima da média e o período chuvoso criam condições ideais para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença.

Para a construção deste texto, fizemos uma breve análise das notícias publicadas, mas em 2015 e 2016, o tema já foi estudado em profundidade por colegas deste grupo, e apresentado no artigo Dengue, Zika e Chikungunya: Análise da cobertura do risco de doenças associadas às mudanças climáticas sob a ótica do Jornalismo Ambiental. Na época vivia-se no Brasil também um período de aumento de casos de dengue, e da mesma forma a imprensa não aprofundou as relações entre as mudanças climáticas, o aumento dos mosquitos e de casos de dengue.

Outro aspecto que percebemos nas notícias foi a publicação de números que apontam o aumento das mortes por dengue no Brasil. A Folha de São Paulo, citou a fala da ministra Nísia, em que ela destaca a preocupação com o aumento dos casos graves.  “Temos de olhar o manejo adequado, cuidado no tempo certo e hidratação [do paciente]”. O infectologista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Kleber Luz, ressaltou esse aspecto no G1 “… é preciso mitigar o problema. Capacitar médicos, enfermeiros, equipes de saúde para tratar a dengue de forma adequada, disponibilizar insumos como soro, para que as pessoas sejam tratadas. O que devemos fazer é evitar as mortes”. O consultor da OMS ressaltou ainda que a dengue é uma doença completamente tratável, “com baixo índice de óbito se o paciente procurar atendimento precocemente” e se for realizada a intervenção adequada.

Diante dessas explicações por que tantas pessoas ainda estão morrendo de dengue no Brasil? Diferente da covid-19, que é uma doença ainda pouco conhecida, a dengue existe no Brasil há mais de 30 anos. A imprensa precisa questionar as autoridades e especialistas e buscar respostas para o porquê de as pessoas ainda estarem morrendo de dengue no Brasil. Os hospitais e postos de saúde não estão preparados para receber e fazer diagnósticos rápidos nos pacientes? Está sendo monitorado os índices de plaquetas nos pacientes e há bolsas de plaquetas para as transfusões nos casos graves? Os pacientes estão recebendo hidratação quando necessário? Essas são algumas das perguntas que a imprensa deveria estar fazendo e não está. As pautas estão aí, citadas nas próprias notícias. Cabe a imprensa saber olhar além dos números.

*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

Imprensa precisa desideologizar a cobertura do MST  

Imagem: Acervo MST

Por Sérgio Pereira*

No final de janeiro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra completou 40 anos de luta pela reforma agrária no Brasil. Para marcar a data, a entidade lançou a “Carta Compromisso do MST com a Luta e o Povo Brasileiro”, um documento que reafirma o seu compromisso “com o povo brasileiro e com a construção de uma nação mais justa e igualitária através da luta e da construção da Reforma Agrária Popular”.

A imprensa hegemônica brasileira, até o momento, praticamente ignorou o aniversário de 40 anos da organização, que para o linguista, filósofo e sociólogo norte-americano Noam Chomsky, “é o movimento popular mais importante e estimulante do mundo”, conforme seu o discurso de 2003 no Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre. Sua capacidade de mobilização, sua organização e a quantidade de filiados (mais de 400 mil famílias) comprovam isso.

O movimento também é conhecido por ser o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e por ter aberto diversos estabelecimentos comerciais com produtos sem pesticida em várias cidades do país, além de manter um serviço de vendas on-line.

O MST também recebeu alguns pequenos espaços na mídia alternativa, recentemente, por suas ações sociais em desastres naturais causados pelas mudanças climáticas, como as enchentes no Rio Grande do Sul ou suas doações para a população da Faixa de Gaza.

O jornal O Estado de S.Paulo fez uma única referência à data em uma notícia da editoria de Política, postada em 27/01/24, com o título “Ministros de Lula enaltecem MST em evento de 40 anos do movimento e saem aplaudidos”. O texto cobre evento com a participação de quatro ministros do governo federal, restringindo-se a relatar declarações de autoridades. Outros veículos impressos, como O Globo e Zero Hora, no entanto, ignoraram totalmente.

Exceção foi a Folha de S.Paulo, que produziu o especial “MST, 40 anos” em seu site. O jornal postou no final de janeiro oito textos lembrando “a trajetória, os conflitos e as mudanças em quatro décadas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”:

Apenas analisando os títulos acima já é possível verificar uma tendência. A utilização de alguns termos nos títulos denota o enfoque negativo: “irrisória”, “sob cerco”, “critica”, “desilusão”, “ruptura nebulosa”, “mais distante” e “frustrado”.

A palavra “invasões”, por exemplo, é citada em quatro dos oito títulos. O MST repudia esse termo e defende o uso de “ocupações”, expressão cujo significado legal se enquadra com fidelidade às ações do movimento.

Não se trata aqui de mera discussão semântica. O que se deve lembrar é que há diferenças entre “invadir” e “ocupar”, com suas implicações no mundo do direito. Carol Proner, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) e do Grupo Prerrogativas, explica que ocupação não é o mesmo que invasão. A Constituição Federal de 1988 define o conceito de uso social da terra e os critérios para que seja legítimo, que não degrade o meio ambiente, que não se faça por meio de trabalho escravo ou análogo e que seja produtiva.

Carol Proner acrescenta: “A ocupação de terras tem sido historicamente a forma pela qual os movimentos camponeses chamam a atenção para este compromisso de direitos fundamentais e da necessidade de que a propriedade venha acompanhada de uma função social. Confundir os dois conceitos propositalmente é uma forma de negar a luta pela terra e os legítimos sujeitos de direito, assim reconhecidos pela Declaração da ONU sobre Direitos dos Camponeses”. (Brasil 247, 2023)

A Folha, como vários jornais brasileiros, prefere ignorar a doutrina jurídica para, em clara manifestação ideológica, criminalizar o movimento camponês. Por sinal, nestas quatro décadas, o MST teve sua imagem emoldurada na imprensa como uma organização envolvida em “invasões”, “conflitos”, “destruição” e “mortes”, mesmo que as vítimas sejam em sua imensa maioria do próprio MST.

O texto intitulado “Arroz orgânico do MST tem produção quase irrisória, mas virou marca simbólica”, por sua vez, busca minimizar a importância do movimento após a grande repercussão da entrevista, em agosto de 2022, do então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva para o Jornal Nacional.

Naquela ocasião, o MST foi parar no Trending Topics, após Lula afirmar que o movimento era “o maior produtor de arroz orgânico do Brasil”. A declaração levou a milhares de manifestações nas redes sociais, algumas elogiando a fala de Lula e outras, ligadas à extrema direita, colocando em dúvida a informação. Com o texto da Folha, fica a comprovação de que a fala do atual presidente não apenas tinha procedência, como estava alicerçada em dados. O MST, por sinal, é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil e da América Latina, conforme admite o jornal.

A Folha, porém, ignora que a produção de orgânicos ainda está em desenvolvimento – e não apenas no Brasil. Os números mostram que a produção e o consumo de orgânicos crescem em todos os continentes. Mas trata-se de um mercado que ainda está se construindo, enfrentando burocracias, insumos com preços elevados e a falta de apoio institucional, entre outras questões.

A imprensa hegemônica brasileira, que se diz imparcial, precisa desideologizar sua cobertura do MST. A entidade precisa virar pauta seguindo os princípios de noticiabilidade, que são citados nos diversos manuais de redação. Seriam mais isentos os jornais se olhassem para o movimento camponês da mesma forma que veem as organizações patronais. Mas, para isso, precisam assumir definitivamente a ideia da imparcialidade. E não apenas quando lhes interessa.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

PRONER, Carol.Ocupação não é invasão. Brasil 247, São Paulo, 02 de mai. de 2023. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/ocupacao-nao-e-invasao?amp. Acesso em: 5 fev. 2024.

OLEGÁRIO, Polianna Teixeira; ZIEMANN, Marcos Afonso Lopes. Apontamentos Teóricos Sobre o Processo de Reforma Agrária no Brasil a partir da Observação em Campo no Assentamento Che Guevara. In: ANDRÉ, O. et al. Globalização, Regionalização e as Novas Ruralidades! [s.l: s.n.], 2017. p. 230-265. Disponível em: <https://dspace.unila.edu.br/bitstream/handle/123456789/2733/Livro%20Andre%20%26%20Silvia%20-%20Orgs%20-Agbook.pdf?sequence=1&isAllowed=y&gt;. Acesso em: 9 fev. 2024.

A luta indígena é dramática e urgente

Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Cláudia Herte de Moraes*

A luta indígena deve ser de todos nós. É um ponto crucial para o enfrentamento dos desafios do Brasil e do mundo, diante da “queda do céu” que se aproxima, nos servindo da metáfora de Davi Kopenawa que, em seu livro, traz a preocupação dos povos originários sobre o possível colapso do sistema que sustenta nossa vida. Na resenha da obra no site Outras Palavras, Álvaro Faleiros descreve nosso contexto: “No velho e requentado discurso neocolonial, o território brasileiro é riscado por fronteiras – “agrícola”, dos “negócios”, do “desenvolvimento”, da “civilização”… Fronteiras ou fronts de uma guerra de conquista que busca incorporar cada novo rincão ao projeto uniformizante do capitalismo extrativista global.”

No domingo de Carnaval, dia 11 de fevereiro de 2024, a Escola Acadêmicos do Salgueiro do Rio de Janeiro fez ecoar seu samba na avenida e trouxe uma reflexão dramática sobre o sofrimento do povo Yanomami, que enfrenta uma emergência humanitária, decretada desde 2023, logo após o início do governo atual do presidente Lula (e foi tema deste Observatório). No samba, a frase “Eu aprendi o português, a língua do opressor/ Pra te provar que meu penar também é sua dor/ Falar de amor enquanto a mata chora/ É luta sem flecha, da boca pra fora” traz a denúncia de que não bastam palavras e postagens em apoio à luta indígena, precisamos partir para a ação. Como trazido pelo Brasil de Fato, foi um desfile histórico na Sapucaí, que reafirma a trajetória de luta dos Yanomami.

Enquanto o samba da Acadêmicos do Salgueiro fez uma grande homenagem ao povo Yanomami, no maior espetáculo da terra, é preciso lembrar que estamos em pleno vigor da Lei 14.701 (antigo PL 2903, da tese do Marco Temporal) que foi aprovada em setembro e na segunda rodada, em dezembro de 2023, o Congresso Nacional derrubou os vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aos pontos mais críticos. Com isso, foram institucionalizadas várias violações constitucionais. A luta segue, em arenas jurídicas e no chão da floresta. O debate sobre o MT também foi abordado aqui no observatório.

Em 7 de fevereiro é celebrado o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. Nesta data, morria o nativo Sepé Tiaraju, no ano de 1756, do povo Guarani, importante liderança indígena pertencente aos Sete Povos das Missões. Este dia pretende trazer visibilidade às pautas dos povos originários brasileiros, infelizmente cada vez mais focada na própria sobrevivência. Em reportagem do G1 Amazônia, destaca como se dá a luta histórica dos indígenas pela defesa dos territórios, ouvindo indígenas, associações e pesquisadores, apontando como o sistema colonialista ainda se materializa na destruição ambiental e na negação dos direitos. 

O tema é recorrente e terrivelmente triste, pois não cessam as mortes de indígenas em todo território brasileiro. Em 21 de janeiro, foi assassinada Maria de Fátima Muniz, a Pajé Nega Pataxó Hã Hã Hã, na Bahia.  As investigações em curso demonstram que há uma combinação nefasta que se articula contra os direitos dos indígenas, incentivada até mesmo por benesses indevidas do Estado brasileiro, como apontado na notícia de 9 de fevereiro, da APIB: “Segundo testemunhas, o ataque teve a participação de integrantes do “Invasão Zero” e colaboração de policiais militares. A perícia comprovou que o tiro fatal partiu do filho de um fazendeiro.”

No entanto, os conflitos são cada vez mais frequentes nos territórios, possivelmente resultado dos últimos anos de um governo que insuflou pessoas e grupos armados contra os mais vulneráveis e protetores de suas terras e florestas. Também pela vigência do Marco Temporal e ligações políticas locais, como traz a reportagem do Nexo Jornal sobre a violação das terras de território Uru-Eu-Wau-Wau em Rondônia. 

O premiado documentário “Somos Guardiões”, recentemente entrou em cartaz no catálogo da Netflix. No destaque da Revista Fórum, Edivan Guajajara é o primeiro cineasta indígena a dirigir um filme no streaming e fala sobre a importância de trazer sua visão e unir forças para frear o problema ambiental e humano na Amazônia. A obra retrata os crimes ambientais e a violência contra os povos indígenas no país, mas especialmente a força daqueles que resistem há mais de 500 anos à invasão e exploração de seus territórios. Após assistir este documentário, fica nítido que precisamos mudar agora! Enquanto os indígenas e seus territórios são dilapidados, não chegaremos a impedir a queda do céu. 

Cada vez mais os jornais e publicações não hegemônicos despontam na cobertura das pautas indígenas, juntando-se à cobertura dos veículos jornalísticos tradicionais – que nem sempre conseguem apontar as ligações e complexidades de fatos históricos e entrelaçados com poderes colonialistas em nossa sociedade. Por isso, para apoiar e entender mais sobre a luta indígena, os espaços da visibilidade indígena nas plataformas digitais são muito relevantes, como a @apiboficial e as organizações regionais de base @apoinme_brasil | @coiabamazonia | @arpinsuloficial | @cons.terena | @atyguasu | @yvyrupa.cgy | @arpinsudestesprj

 * Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

A importância do contexto na notícia climática

Imagem: C3S /ECMWF

Por Heverton Lacerda*

Este ano já detém a marca do janeiro mais quente da história, segundo boletim do Copérnico (C3S), programa da União Europeia (UE) que monitora mudanças climáticas, divulgado nesta quinta-feira (8) e amplamente publicado na imprensa. 

De modo geral, veículos de notícias, a exemplo de GZH (RBS), UOL Notícias, NSC Total, Bom dia Brasil (Globo), Último Segundo (IG), Metrópoles, Rádio Senado, entre outros, apenas replicaram os dados do programa da UE. No entanto, alguns trouxeram informações adicionais que ajudam a contextualizar o problema, que tem causas e consequências que podem ir muito além do que apenas o extremo aumento da sensação térmica. Embora a contextualização não esteja presente em todas as notícias, percebe-se que a pauta climática começa a fazer sentido para alguns redatores, que incrementam a divulgação de novos dados com conhecimentos já consolidados pela Ciência. 

No portal SBT News, Camila Stucaluc informa que “o cenário é preocupante, uma vez que o aquecimento acima da meta pode provocar consequências extremas para o meio ambiente e a humanidade, como o aumento de queimadas e da transmissão de doenças por mosquitos. Outra consequência é o derretimento em maior velocidade e irreversível das geleiras, fazendo com que cidades costeiras, como o Rio de Janeiro, fiquem submersas”.

O texto de Jéssica Maes, na Folha de São Paulo, traz uma informação extra que agrega valor analítico à notícia: “No entanto, uma análise de dados feita pela Folha mostrou que a Terra viveu cinco El Niños mais severos do que o atual nos últimos 70 anos. Ou seja, a temperatura global no último ano já estava muito alta, mesmo sem levar em conta a intensidade do fenômeno”. Ela ressalta que a questão não é só o El Niño, como tem aparecido em algumas divulgações. Ou seja, o próprio fenômeno climático está mais intenso em função do aquecimento do clima, que gera influência sobre ele, o El Niño. São situações relacionadas que se retroalimentam.

Na cobertura geral dos veículos de imprensa, pode-se acompanhar uma seleção de  ocorrências que se constituem como catástrofes de grandes proporções, como, por exemplo, os incêndios que destruíram centenas de casas no Chile neste mês. Na maioria das vezes, fatos como esses têm sido noticiados isoladamente, enclausurados em si só, sem referência ao contexto global e aos diversos fatores antropogênicos inter-relacionados que podem contribuir para a emergência climática. 

Rompendo essa prática reducionista, além dos dois exemplos acima, temos uma matéria da BBC News Brasil, publicada no dia 5 de fevereiro, que menciona o estresse hídrico causado pela substituição de mata nativa por lavouras para a produção de celulose no Chile. “Somando-se a isso, tanto no centro como no sul do Chile existem muitas espécies invasoras, como o pinheiro ou o eucalipto, que foram introduzidas para a produção de celulose e madeira no país”. O texto é da Fernanda Paúl.

Informações de contextos, como esses exemplos das matérias acima, da Camila Stucaluc, da Jéssica Maes e da Fernanda Paúl, são fundamentais para ajudar a população e gestores públicos a cobrar e encaminhar medidas que são essenciais para mudar o rumo destrutivo promovido pelo atual modelo socioeconômico que está contribuindo para o caos climático. Os preceitos do jornalismo ambiental se mostram, cada vez mais, muito adequados e valiosos para a cobertura de pautas climáticas, fazendo a diferença na compreensão dos fatos e dos problemas envolvidos nessa questão de âmbito planetário.

*Jornalista, ativista ambiental, especialista em Ciências Humanas, mestrando no Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCPM/UFRGS) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Alerta para o jornalismo ambiental: minoria compreende jargões ambientais

Imagem: Depositphotos

Por Míriam Santini de Abreu*

Notícia publicada na página do jornal britânico The Guardian no dia 24 de janeiro dá o que pensar ao jornalismo ambiental. Ela apresenta o resultado de um estudo feito por uma empresa e uma agência de comunicação no Reino Unido mostrando que apenas um quarto das pessoas interrogadas compreendia claramente o termo “verde” e aproximadamente o mesmo número conseguia descrever com precisão o que significava “sustentável”. Mesmo termos considerados de uso generalizado pelas empresas, como “amigo do ambiente” e “cultivado localmente”, são compreendidos apenas por uma minoria de pessoas. A dificuldade de compreensão também atinge as iniciativas políticas governamentais orientadas para a redução de resíduos, como a proibição de talheres e pratos de plástico descartáveis.

A notícia, informa que, apesar da confusão em torno de alguns dos termos-chave, a investigação mostra um apoio extremamente amplo às questões: “nove em cada 10 consumidores consideraram importante que as empresas e marcas falassem sobre as suas iniciativas de sustentabilidade e 68% dos inquiridos eram mais propensos a comprar de uma empresa que tinha uma estratégia ambiental clara em vigor”.

A notícia cita ainda a opinião de Jamie Peters, da Friends of the Earth, para quem palavras-chave ambientais estão sendo sequestradas e mal utilizadas por empresas de petróleo e gás, que as utilizam para truques de marketing, e também pelo governo.

Aqui no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente desenvolvia, desde 1992, a pesquisa “O que o brasileiro pensa do meio ambiente e do consumo sustentável”, mas a última foi em 2012. Naquele ano, o indicador mais relevante foi o número de pessoas que, 20 anos antes (1992), não sabiam mencionar sequer um problema ambiental na sua cidade ou no seu bairro, número que diminuiu para 10% em 2012, em relação aos 46% de 1992.

É possível extrapolar o dado colhido no Reino Unido para interesses empresariais para discutir a escrita jornalística sobre a relação entre sociedade e natureza. A realidade brasileira não deve ser diferente da britânica, com boas chances de se apresentar ainda pior se a pesquisa fosse realizada aqui.

As pautas do jornalismo ambiental giram em torno de conceitos/práticas sobre a a crise climática, a sustentabilidade, o mercado de carbono, e há um imenso ponto de interrogação sobre o entendimento, por parte de leitores, ouvintes e telespectadores, das notícias e reportagens sobre essas temáticas.

Um caminho para a resposta aponta para o entendimento de que a palavra no e do jornalismo precisa nascer do cotidiano e da experiência do corpo vivida no espaço. O pensador francês H. Lefebvre afirma que, a partir da vida cotidiana, mudam a língua e as linguagens, nascem palavras novas, gírias, muitas vezes marginais em relação à linguagem oficial (LEFEBVRE, 1978, p. 94). Estudar a linguagem na vida cotidiana, afirma o autor, implica tomar também o que ela não diz, o que evita dizer, o que não pode nem deve dizer.

Para ele, uma revolução precisa dar lugar a um novo espaço, a um novo cotidiano e a uma nova linguagem: Uma revolução que não dá lugar a um novo espaço não chega a realizar todo seu potencial; trava e não gera mudanças de vida, apenas modifica as superestruturas ideológicas, as instituições, os aparatos políticos. Uma transformação revolucionária se verifica por sua capacidade criativa, geradora de efeitos na vida cotidiana, na linguagem e no espaço, embora seu impacto não tenha que acontecer necessariamente no mesmo ritmo e com intensidade semelhante (LEFEBVRE, 2013, p. 112).

Hoje, premido pelas mudanças nas rotinas de trabalho, o jornalismo mal estuda e pouco se alimenta da linguagem da vida cotidiana, do repertório de falas e fazeres das ruas. Ali, no espaço geográfico, com seus conflitos e tensões, onde os jargões, inclusive ambientais, fariam sentido na experiência do corpo, ausentam-se o jornalismo e os jornalistas.

Há então que revolutear a pesquisa, o ensino e o fazer, recuperar a rua, embrenhar o corpo no espaço para dali alimentar o texto.  A um jornalismo comprometido com a emancipação humana cabe a tarefa de, pela linguagem, tornar visíveis as práticas criadoras que, no espaço e no cotidiano, podem levar à transformação social, em especial nas pautas que nos são caras no jornalismo ambiental.

*Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

Referências:

LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Penísula, 1978.

LEFEBVRE, Henri. La producción del espacio. Espanha: Capitán Swing, 2013.

O jornalismo precisa falar no racismo ambiental

Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Na segunda semana de janeiro, a Ministra da Igualdade Racial Anielle Franco postou séries de tweets sobre o conceito de racismo ambiental, relacionando-o com os eventos climáticos extremos que os brasileiros vêm sofrendo com mais intensidade nos últimos meses. “Devido à desigualdade racial e social, o impacto das mudanças climáticas são agravados nas regiões periféricas e de maioria negra, que têm menos acesso a saneamento básico e políticas de infraestrutura”, escreve a ministra na rede social X, antigo Twitter. Muitas foram as reações contestando o termo e desdenhando da ministra pelo uso. “Não existe racismo ambiental, é uma palavra gatilho da esquerda social democrata”, reclamou um usuário em resposta à Anielle. 

 A Assessoria de Comunicação Social do Governo Federal teve que socorrer a  ministra e explicar isso por meio de nota institucional. Mesmo assim, Anielle continua sendo perseguida por portais de extrema direita, a exemplo da Gazeta do Povo, que corrobora com a versão de que esta é uma pauta “inventada”. 

No entanto, faz décadas que pesquisadores utilizam o termo. Selene Herculano, em “Racismo Ambiental, o que é isso?”, conceitua a expressão  como “a forma pela qual desqualificamos o outro e o anulamos como não-semelhante, imputando-lhe uma raça. Colocando o outro como inerentemente inferior, culpado biologicamente pela própria situação, nos eximimos de culpas, de efetivar políticas de resgate, porque o  desumanizamos: “ô raça!”.  O conceito foi empregado pela primeira vez em 1978, na Carolina do Norte, Estados Unidos, por Benjamim Chavez, por ocasião de protestos contra o depósito de bifenilos policlorados (PCB), compostos altamente tóxicos. 

O conceito inclui também a população indígena e quilombola, que, da mesma forma, é atingida pelos eventos extremos como tempestades e secas. Além das comunidades, cujas regiões são escolhidas para depósitos de resíduos urbanos e químicos por estarem localizadas longe dos centros urbanos onde vivem as pessoas das classes média e alta. Isso é injustiça climática, associada ao racismo ambiental porque boa parte da população das comunidades é negra.

É importante lembrar que  a população negra, principal foco da fala da ministra, habita historicamente encostas de morro e favelas, lugares mais afetados por eventos climáticos extremos nas áreas urbanas. A falta de serviços básicos como acesso à água e à moradia digna intensifica os efeitos de episódios adversos. Com os direitos essenciais não atendidos, as populações vulneráveis sofrem de forma acentuada os impactos do clima. No Brasil, pessoas negras compõem mais da metade da população, mas são apenas 30% do funcionalismo público federal, ocupam apenas 10% das cadeiras  do Legislativo e representam  12,8% da magistratura brasileira, dentre outros dados que demonstram a discrepância de poder entre pessoas brancas e pessoas negras. 

O tema vem sendo trabalhado na imprensa brasileira de forma adequada e as postagens da ministra promoveram a maior cobertura sobre o tema. Vários portais contextualizaram e admitiram a existência de racismo ambiental, ao exemplo de G1: “Racismo ambiental: população marginalizada está mais vulnerável às mudanças climáticas”, Portal Terra “Cinco materiais para entender o que é racismo ambiental”, coluna de Reinaldo Lopes na Folha de São Paulo “Racismo ambiental aumenta risco de tragédia para os não brancos” e Agência Pública “O racismo climático e a insanidade da polarização nas redes”.  

A função social do jornalismo é disponibilizar para os cidadãos informações corretas para que possam tomar as decisões no seu dia a dia. Ao selecionar e interpretar os fatos, auxilia a população na compreensão da realidade. Se a maioria das populações vulneráveis são pessoas não-brancas e essas são as que mais sofrem com os eventos climáticos extremos, podemos afirmar que existe racismo ambiental. A imprensa acerta nesta cobertura após manifestação da ministra Anielle. 

Um exemplo de racismo ambiental é a queda de luz que atingiu o sul do País nessa última semana. Porto Alegre (RS) presenciou cair do céu a quantidade de chuva prevista para o mês em uma hora. A cidade e sua região metropolitana ficaram sem luz, sem água e sem perspectiva de contato com a empresa responsável pela energia elétrica. A CEEE Equatorial, concessionária responsável pelo abastecimento de luz do estado do Rio Grande do Sul, teve que ser marcada no Twitter para que respondesse ao prefeito. Internautas reclamavam do atendimento automático. Cinco dias depois, porto-alegrenses ainda enfrentavam a falta de luz, água e internet em suas residências. 

Na cidade, os bairros que mais demoraram em restabelecer a energia foram os das periferias, formados, justamente, pela maioria da população negra. Moradores destas regiões realizaram protestos e foram recebidos com tropas de choque e bombas de borracha. O braço do estado que chega para estas populações é o repressor, não o que acolhe e repara a estrutura.

 Os veículos do estado, até o momento de publicação desta análise, não mencionaram que o que ocorre com as populações vulneráveis é um caso de  racismo ambiental, centrando suas coberturas nas consequências da falta de energia elétrica e na queda de árvores pela cidade. 

Os governantes parecem não compreender a gravidade do tema. O prefeito de Porto Alegre Sebastião Melo afirmou em entrevista ao jornal Sul21, horas antes da primeira chuva, que achava que “o primeiro remédio, o mais eficiente para combater a questão climática, é combater a pobreza”. Já havia feito tal afirmação no Jornal do Almoço de 22 de novembro do ano passado.  Esta posição nega os efeitos do clima e transfere a responsabilidade para o orçamento de cada cidadão. Até os bairros nobres são afetados pelos eventos climáticos extremos, já que não há adequação climática das cidades brasileiras. A Agenda 2030 associa o combate à pobreza e o enfrentamento às mudanças climáticas como aspectos transversais para pensarmos o desenvolvimento sustentável. O problema é achar que somente o combate à pobreza resolve a questão climática. 

As grandes perdas correm com os mais vulneráveis que têm mais dificuldade para reconstruir o que foi destruído. Embora o combate à pobreza possa contribuir com melhor adaptação às mudanças climáticas e, quiçá, com a redução de riscos de desastres, é preciso sublinhar que a crise climática não é causada pela pobreza, como a frase pode dar a entender. São os mais ricos que contribuem mais para as emissões de gases de efeito estufa, que intensificam as mudanças climáticas. Os mais pobres são os mais afetados, mesmo que tenham contribuído muito pouco para o cenário atual. Logo, combater a pobreza não significa, automaticamente, combater as mudanças do clima.

Nas duas entrevistas citadas, o jornalismo não questionou  o prefeito  sobre o significado de combater a pobreza e sobre a falta de políticas para construção de moradias dignas fora de regiões de risco e adequadas aos tempos de eventos extremos.

É necessário que o jornalismo evidencie equívocos dos administradores públicos. A sua atuação deve se pautar pelo interesse público e pela busca dos direitos dos cidadãos. Durante a pandemia a maior parte da imprensa prestou um grande serviço à sociedade e combateu a desinformação. A emergência climática é mais um desafio que precisa ser enfrentado pelo jornalismo, que também, através das informações corretas, estará cumprindo seu papel educativo.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade   Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

** Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS.

A falta da cobertura sobre os efeitos colaterais do “progresso”

Imagem: Labeurb/Unicamp

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

Muitos veículos publicaram nesta semana notícias contando qual era a situação de Brumadinho cinco anos depois do rompimento da barragem de rejeitos da empresa Vale, aproveitando a rememoração do acontecimento, que completa cinco anos neste 25 de janeiro. Contudo, algumas matérias, como a do Uol e a do Valor Econômico,  tratam dos avanços realizados pela mineradora em termos de organização nas buscas das vítimas ainda não encontradas, dos programas realizados e, sobretudo, dos montantes já desembolsados para reparação da  tragédia, que vitimou 270 pessoas, duas delas grávidas. Em ambos os casos citados, na nota de rodapé, consta a seguinte informação: “a jornalista viajou a convite da Vale”. 

Embora seja papel do jornalismo ficar atento ao desenrolar dos fatos e as efemérides costumam ser usadas como ganchos para pautar novamente o tema no debate público, tais notícias evidenciam o ponto de vista da empresa causadora do crime. Os questionamentos e efeitos negativos em cascata, ainda visíveis em Brumadinho, são minimizados em prol dos feitos daquela que segue lucrando a partir da destruição.

Na matéria do Valor Econômico, com 12 links que destacam o nome Vale,  apresenta-se a narrativa de como o processo está bem encaminhado: “Erramos sim, mas o objetivo é tentar acertar para evitar novas tragédias. Dentro da reparação, tudo vem sendo construído com as comunidades”, afirmou Gleusa Jesué, diretora de reparação da Vale.” Outra fonte ouvida nesta notícia é Flávia Soares, gerente de fomento econômico da reparação da empresa, que também apresenta aspectos positivos do processo de reparação, que, é sempre bom recordar, é uma obrigação legal.

A jornalista dá espaço para Josiane Melo, integrante da diretoria da Associação dos Familiares das Vítimas e Atingidos da Tragédia do Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum), porém o foco escolhido é a responsabilização de outros, neste caso o ex-presidente da Vale Fabio Schvartsman e a consultoria Tüv Süd. Por fim, o texto destaca a influência econômica que a mineradora segue tendo na cidade devastada: o Programa de Transferência de Renda (PTR) “traz para a região aumento de 50% na renda familiar”, demonstrando o impacto da empresa sobre os recursos do município.

De outra forma, na coluna de Eliane Trindade, da Folha de S. Paulo, a cobertura destaca os impactos sociais, ambientais e econômicos, relatando o adoecimento físico e psicológico de moradores, o inchaço populacional e a elevação do custo de vida em Brumadinho. Neste texto critica-se a divulgação dos valores pagos como indenização como sendo algo descolado das perdas e que geraria ganância. Além disso, pontua-se que PTR, chamado de “bolsa tragédia”, representa mais de 20% do PIB de Brumadinho, sendo uma renda indispensável para boa parte da população que vive uma realidade bem diferente do contexto pré-rompimento, ainda que tenha previsão de acabar em 2025.

O texto evidencia o processo de vulnerabilização da população que segue sobrevivendo às consequências do desastre. Uma das faltas trazidas pela jornalista resume: “É uma cidade doente em vários sentidos. É doente economicamente, pela dependência, e mentalmente, porque o luto se espalha de forma grave”. Tal situação, onde os interesses econômicos encobrem os reais problemas e o progresso é representado como algo inevitável, que requer certos sacrifícios (quase sempre daqueles que nada ganham com o aumento do PIB), deve ser visibilizada pelo jornalismo, uma profissão orientada para o interesse público. 

Esse sistema que privilegia o lucro de poucos à custa do sofrimento de muitos se repete em vários cantos do Brasil. Desde 2018, mais de 60 mil pessoas foram obrigadas a deixar suas casas devido ao risco ‘iminente’ de desabamento da mina de sal-gema da Braskem, localizada em Maceió (AL). Tremores de terra, rachaduras, afundamento do solo entre dez centímetros e um metro e meio fizeram com que cinco bairros do município sucumbissem. 

Como uma tentativa de remediar o irremediável, a Braskem já havia efetuado cerca de 18,5 mil pagamentos até outubro de 2023, totalizando R$ 3,85 bilhões em compensações por danos materiais e auxílios financeiros. Em média, cada pagamento realizado equivalia a aproximadamente R$ 207 mil. No entanto, considerando despesas cartorárias e honorários advocatícios, o valor líquido recebido pelas famílias é estimado em torno de R$ 113 mil. 

De acordo com as famílias afetadas, os valores não têm sido justos e são insuficientes para reparar os danos causados. Segundo elas, o baixo valor recebido tem obrigado as pessoas a morarem em lugares mais distantes, periféricos e com infraestrutura deficitária, forçando até mesmo o deslocamento de famílias para outras cidades. No documentário “A Braskem passou por aqui: a catástrofe de Maceió”, lançado em 2021, moradores dos bairros atingidos relatam que não se sentiram ouvidos pela imprensa. “A Globo veio fazer ‘materiazinha’ de seis minutos, mas tem que fazer uma coisa ampla. […]. Talvez seja porque a empresa seja muito poderosa”, disse um dos moradores.  

 A omissão da imprensa local no caso Braskem demonstra bem como o respeito ao meio ambiente e à dignidade das pessoas pode ser relativizado quando há vantagens econômicas em jogo. Esse foi um dos assuntos mais comentados no final do ano, mas deve seguir na mira de jornalistas, afinal o risco de novos afundamentos é iminente, trazendo uma série de prejuízos que seguem sendo negados pela Braskem. 

A Rádio Novelo publicou nesta semana um episódio sobre o que muitos chamam de “maior tragédia urbana do mundo”, contando como, desde a década de 1970, o setor consegue impor suas versões por meio do poder econômico. O rastro deixado pela Samarco em Mariana, pela Vale em Brumadinho e pela Braskem em Maceió são crimes socioambientais entendidos quase como um “efeito colateral” de um “progresso” a ser alcançado. Em um cenário em que a busca incessante pelo lucro muitas vezes resulta em impactos negativos para milhares de pessoas, para a fauna e flora, o jornalismo tem como responsabilidade ouvir e amplificar as histórias, os desafios e as resistências das comunidades afetadas. 

Ao fornecer um espaço para essas vozes, o jornalismo não apenas informa, mas também sensibiliza o público sobre as realidades enfrentadas por aqueles que vivem nas proximidades de áreas de mineração (ou outras atividades poluidoras). Se o interesse público é pressuposto da prática jornalística, é inquestionável que sejam priorizadas as dimensões reais das consequências da exploração desmedida que afeta as diversas formas de vida. O uso prioritário e recorrente do enquadramento econômico, baseado em números e a um suposto “desenvolvimento”, colabora para a naturalização de zonas de sacrifício e o apagamento das injustiças ambientais.

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Resistências e negociações à exploração de combustíveis fósseis

Imagem: Instituto Arayara

Por Patrícia Kolling*

Além de ser o principal ponto de impasse no acordo final da conferência global sobre o clima (COP-28), assinado na quarta-feira (13/12), em Dubai, os combustíveis fósseis também foram pauta no Brasil, devido a um leilão de mais de 600 blocos de petróleo e gás em diferentes partes do país. Enquanto o acordo final, sugeriu uma transição energética, em que os países devem se “afastar dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos, de uma forma justa, ordenada e equitativa”. O Brasil teve 197 novos blocos para exploração de petróleo sendo arrematados.

A imprensa reforçou a contradição do governo brasileiro, que participou com sua maior comitiva na COP 28, que apresentou números de redução de desmatamento, que teve no discurso do presidente cobranças de ações para que o mundo se torne menos dependente dos combustíveis fósseis. E que, por outro lado, deseja pular da oitava posição de exportador de petróleo para a quarta. Detalhe: o leilão da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aconteceu no mesmo dia que o acordo foi assinado, e a imprensa local já sinalizava isso: “O leilão de petróleo do Brasil um dia depois da COP28″ (Nexo Jornal) e “Leilão de petróleo pós-COP28 é bomba de emissões, diz ONG” (Folha de S.Paulo).  A contrariedade do governo já havia sido abordada no observatório da semana passada.

A abordagem dos temas polêmicos e contraditórios pela imprensa é interessante, por permitir a compreensão contextualizada das temáticas, em suas perspectivas ambientais, econômicas e sociais, entendendo conflitos, interesses e prejuízos, para assim o leitor formar uma opinião sobre o assunto.  O programa Como é que é?, da TV Folha, na quarta-feira, entrevistando a editora de Ambiente do jornal, Giuliana Toledo, promoveu exatamente essa reflexão sobre os interesses do Brasil em explorar petróleo, criticando as posições do governo e mostrando a força do poder econômico sobre o ambiental. O Globo destacou que mais de 80% das emissões de gases do efeito estufa são provocadas pelo petróleo, gás e carvão. Mas, esses combustíveis também representam grande parte da energia que o planeta consome diariamente, além de ser um negócio global que gera lucros diários superiores a R$ 15 bilhões

Assim, se compreende porque a assinatura do acordo em Dubai, não foi nada fácil, inclusive atrasou em um dia o final do evento, pois enquanto alguns países queriam uma linguagem direta sobre a eliminação dos combustíveis fósseis, os países exportadores de petróleo, como Arábia Saudita e Iraque, cujo desenvolvimento está ligado aos combustíveis não aceitaram. O consenso foi pelo termo “transition away”, por apresentar uma ambiguidade que agradou os países mais resistentes, pois indica mudança com flexibilidade.

A imprensa brasileira ressaltou essa ambiguidade, deixando evidente que o acordo aprovado na COP 28 não prevê o fim dos combustíveis fósseis, mas sugere uma transição das “energias que provocaram o aquecimento do planeta”. O texto propõe “triplicar a capacidade energética renovável” e “dobrar a eficiência energética média” até 2030. A imprensa mostrou que o acordo, como diz o site G1, foi positivo, mas ineficiente em medidas concretas para reduzir os efeitos das mudanças climáticas.  O site G1, que foi didático, explicando aspectos positivos e negativos de todos os pontos acordados.

No Brasil, a resistência foi das organizações ambientais, quilombolas e indígenas, que realizaram mobilizações contra o leilão. O Instituto Internacional Arayara pautou a imprensa sobre a quantidade de carbono emitida na atmosfera brasileira (2,3 milhões toneladas de carbono na atmosfera anualmente) e quanto os novos blocos aumentariam essas emissões.  O leilão foi apelidado de “leilão do fim do mundo”, porque além do seu potencial poluidor, dezenas das áreas oferecidas estão sobre unidades de conservação, terras indígenas e territórios quilombolas. O Instituto ajuizou ações públicas contra o leilão de 77 blocos, que contradiziam as diretrizes da ANP.

Conforme notícia no site do Instituto dos blocos ajuizados, 94% não tiveram ofertas e apenas 4 foram adquiridos. “Os 11 blocos da cadeia de montes submarinos de Fernando de Noronha não receberam ofertas. Territórios Quilombola ameaçados não receberam ofertas. 5.617 habitantes seriam impactados. Três blocos arrematados colocam em risco 5 territórios indígenas”.

*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

A dicotomia do Brasil na COP 28 e a cobertura midiática

Imagem: Chris LeBoutillier / Unsplash

Por Janaína Capeletti*

O Brasil está presente na 28ª Conferência do Clima das Nações Unidas (ONU), a COP28, com a maior delegação entre as 195 nações participantes. São cerca de 2.400 inscrições do governo, setor privado e sociedade civil. A comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é composta por 13 ministros e outros tantos parlamentares e representantes de empresas estatais.  

O país chegou ao evento com a ambição de liderar mundialmente o enfrentamento da crise climática e de cobrar do mundo o cumprimento do Acordo de Paris. Na sessão de abertura da Conferência, o presidente do Brasil fez um discurso forte, aproveitando a oportunidade para chamar a atenção das potências mundiais pelo cumprimento de compromissos estabelecidos para o enfrentamento do aquecimento global. A imprensa repercutiu. Na CNN, a matéria “Lula critica países que ‘lucram com a guerra’ e cobra redução de combustíveis fósseis na COP28” destacou a fala do presidente cobrando os países por ações concretas de descarbonização.  

“O planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos. De metas de redução de emissão de carbono negligenciadas. Do auxílio financeiro aos países pobres que não chega. De discursos eloquentes e vazios. Precisamos de atitudes concretas. Quantos líderes mundiais estão de fato comprometidos em salvar o planeta?”, questionou o presidente.

Além de apresentar resultados obtidos na atual gestão, como a redução do desmatamento, o evento foi palco para o lançamento mundial do Plano de Transformação Ecológica do país. Também foi anunciada a proposta de criação do Fundo Floresta Tropical para Sempre (FFTS), que proverá recursos para ajudar cerca de 80 nações detentoras de florestas, como o próprio Brasil, a conservá-las.

Contudo, já no início do evento, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, divulgou a adesão do Brasil na OPEP+, grupo estendido da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Questionado sobre a contradição entre discurso e ação, Lula disse que a participação do Brasil no cartel do petróleo será para “convencer” os países à transição energética. O mal-estar foi completado pelo presidente da Petrobrás anunciando que a empresa tem intenção em criar um braço no Oriente Médio.

As mensagens dúbias transmitidas pelo Brasil no início do evento tiveram ampla cobertura da mídia nacional e internacional. Como as matérias dos jornais Valor Econômico “Petróleo respinga em ‘liderança verde’ de Lula na COP 28“, Folha de São Paulo “Lula confirma na COP28 entrada na Opep+ para ‘convencer’ países a abandonar petróleo“, o Blog do Noblat no Metrópoles “Contradições de Lula na COP28 (por Hubert Alquéres)“, Reuters “Lula says Brazil’s participation in OPEC+ is to stop oil producers using fossil fuels“, The Guardian “Lula’s bid to style himself climate leader at Cop28 undermined by Opec move” e Le Monde “COP28: Heads of state call for action but remain divided on fossil fuels“.

Os holofotes estão sob o Brasil não à toa, o país recebeu da Climate Action Network (CAN), uma associação de 1.300 ONGs de mais de 120 países, o prêmio “Fóssil do Dia”, entregue diariamente durante a COP a alguma “personalidade”. O pesquisador Paulo Artaxo escreveu artigo para a Academia Brasileira de Ciências, comentando o fato.  

A imprensa não se absteve de apontar as incoerências da posição brasileira, contudo, sem aprofundamentos sobre as consequências de tais políticas. Dentre as exceções, a reportagem de Anna Beatriz Anjos, da Agência Pública, “Na COP28, Lula mostra lição de casa sobre Amazônia, mas reforça contradição com petróleo,” apresenta a contextualização do tema e sua repercussão. Na mesma linha, o site Sumaúma publicou uma excelente entrevista com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que se mostra na disputa pela liderança verde na América Latina. O colombiano divulgou na COP que seu país decidiu não assinar novos contratos de exploração de carvão, petróleo e gás. E por fim, a análise da jornalista Daniela Chiaretti: “Lula equilibra pratos entre florestas e petróleo na COP 28, enquanto Gustavo Petro diz o que se quer ouvir” também apresenta com lucidez a disputa regional pelo protagonismo verde.

A crise climática que nos encontramos demonstra a urgência de ações e não de discursos. É importante que o jornalismo seja vigilante e aponte as inconsistências das posições políticas. Entre os pressupostos do jornalismo ambiental está a responsabilidade na promoção da mudança de pensamento. Engajar a sociedade por meio de informações consistentes, contextualizadas, próximas de sua realidade é dever do jornalismo e de fundamental importância no momento em que o planeta se encontra.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.