Observatório de Jornalismo Ambiental

Um “novo normal” também para os jornalistas

Imagem: Connor McManus/Pexels

Por Sérgio Pereira*


Os eventos climáticos têm aumentado em frequência e intensidade, como alertam os cientistas, e uma expressão passou a se popularizar a partir disso: “novo normal”. Nascida primeiramente na pandemia de Covid-19, em 2020/2021, passou a ser empregada de igual forma após os eventos extremos dos últimos anos, como as cheias de 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul. O termo sugere a ideia de que precisamos entender que o mundo, como imaginávamos, não existe mais e que precisamos nos adaptar ao que vem pela frente.


As mudanças climáticas, antes ignoradas por uma parcela da sociedade, não estavam apenas batendo na nossa porta como também derrubando e carregando-a junto na correnteza. Até o presidente da Farsul, entidade conservadora ligada ao agronegócio, admitiu em entrevista ao Jornal do Comércio em março deste ano que “era” e que havia deixado de ser “negacionista sobre as mudanças climáticas”, o que provocou certa surpresa em alguns setores.


Poucos dias após essa declaração, Porto Alegre se viu novamente diante de um evento climático. Um temporal com ventos de 111 quilômetros por hora (medição superada apenas pelos 120 km/h registrados em 1º/10/2017 na capital) e chuvas intensas causaram destruição e novamente alagou parte da cidade. A população se viu mais uma vez em meio ao caos e tudo isso em menos de um ano após a grande enchente de 2024.


Se a sociedade precisa pensar em uma outra realidade, com novos desafios, precisamos igualmente refletir sobre um novo fazer jornalístico, com mais conhecimento científico e planejamento. Fritjof Capra, em 1982, já defendia que os jornalistas precisavam mudar e o “seu modo de pensar, fragmentário, deverá tornar-se holístico, desenvolvendo uma nova ética profissional baseada na consciência social e ecológica”. Outras rotinas se impõem ao trabalho dos profissionais de imprensa agora e devemos nos preparar para esse “novo normal”. Abaixo, deixo algumas propostas para reflexão com os colegas. São sugestões simples para enfrentarmos os tempos que estão por vir e, assim, não corrermos o risco de no futuro sermos arrastados pelos ventos da incerteza.


A prevenção precisa estar na pauta: conforme Alende Castro (2016), o jornalismo de prevenção “propõe a necessidade de vislumbrar os problemas, identificá-los, investigá-los e explicá-los ao público em vez de esperar que aconteçam para depois denunciá-los” (tradução nossa). O jornalista deve conhecer a realidade da sua região de cobertura e os seus perigos. Deve mapear os riscos e estar atento às crises em potencial. Por exemplo, se na sua cidade há chance de ocorrer desmoronamentos, é preciso pautar o assunto com frequência, alertar a população e cobrar providências das autoridades.

Uma pauta obrigatória, após as enchentes de setembro e novembro de 2023 no Rio Grande do Sul, proporia uma detalhada radiografia sobre os sistemas de proteção contra as águas do Rio Guaíba, em Porto Alegre. Isso poderia ter levantado questões importantes e, quem sabe, evitado algumas das consequências da cheia de abril/maio do ano seguinte. Esse mapeamento deve envolver todos os tipos de risco, não apenas os climáticos (secas, cheias, tornados, tempestades, terremotos, tsunamis…), mas também aqueles potencialmente provocados pela ação humana, especialmente a de escala predatória (mineração, indústrias de produtos tóxicos, barragens, usinas de energia, incêndios…). Essa sugestão vai ao encontro do Princípio da Precaução, que é um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental.

Palavra certa no momento certo: as redações devem se familiarizar e padronizar o uso de determinadas expressões, observando o correto sentido e a devida definição de cada termo. Overbeck e Pillar, por exemplo, alertam para o uso incorreto de “desmatamento” para se referir a qualquer tipo de vegetação suprimida, quando o uso correto é apenas em áreas de florestas. Se recomenda aqui a criação de um dicionário específico. O “Manual para a cobertura jornalística dos desastres climáticos”, lançado recentemente pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental, pode servir de ferramenta auxiliar para essa tarefa.

Contextualizar é conscientizar: cada texto envolvendo desastres ou riscos precisa ser devidamente contextualizado. Se uma encosta desaba, é importante buscar os motivos que levaram a essa crise. O jornalista deve buscar estudos científicos, referências e legislações ambientais que permitam ao consumidor de notícias compreender o que está acontecendo. Girardi e outros observam que o jornalista deve dar ênfase à contextualização na “expectativa de superar a fragmentação e a descontinuidade”, com “destaque para uma contextualização ampla, profunda e crítica (tecendo relações de causas e consequências) e a perspectiva sistêmica” (2020).

As lições da Comunicação de Risco: isso vale não apenas para os jornalistas de veículos de comunicação, já que é útil para os assessores de imprensa que trabalham em órgãos públicos, principalmente aos ligados à área de segurança e prestação de socorro. É importante que o repórter tenha algum conhecimento sobre sistema de gestão de riscos. Precisa dominar o vocabulário tanto das denominações técnicas como das populares. Há diversos cursos nesta área, como o do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, sobre como cobrir a crise climática e combater a desinformação. Ou do Instituto Reuters, que oferece um curso de jornalismo ambiental da Oxford Climate Journalism Network.

Sistematização na divulgação de alertas: com a adoção de avisos por parte da Defesa Civil em algumas comunidades, a imprensa passa a ter papel fundamental na multiplicação dessa informação. Importante, então, que os jornalistas discutam e planejem as formas mais rápidas e eficazes de difundir esses alarmes e deliberar sobre a necessidade de se criar formas para enfatizar os diferentes níveis de perigo (a exemplo das bandeiras verde, amarela e vermelha utilizadas pelos salva-vidas). Isso vale principalmente para as mídias eletrônicas, mas envolve também as impressas para os alertas a longo prazo.

O que fazer em situações de risco: os jornalistas expostos aos perigos precisam passar por cursos específicos para enfrentar esse tipo de situação. Há poucos dias viralizou uma imagem de uma repórter de TV do RS, em uma transmissão ao vivo, enfrentando os primeiros sinais dos fortes ventos do temporal de abril deste ano. As empresas de comunicação precisam preparar os profissionais para esse tipo de situação e observar a necessidade do fornecimento e uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) quando for o caso. Um bom exemplo vem da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que oferece em seu site, gratuitamente, o curso “Segurança para jornalistas”, abordando temas como primeiros socorros e gerenciamento de conflitos, entre outros.

Seguro de vida: os jornalistas que se expõem a situações de perigo e seus dependentes precisam estar devidamente assegurados. Por isso, as empresas jornalísticas deveriam contratar apólices de seguro para os seus profissionais, para dar um mínimo de segurança aos familiares de seus trabalhadores. As entidades de classe que representam os jornalistas podem incluir nas convenções coletivas cláusulas de proteção aos seus associados para os casos de cobertura de riscos, já que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não estabelece obrigatoriedade para esse tipo de caso.

Protocolos de reação: para as situações de risco, as redações precisam estabelecer previamente um protocolo tanto de cobertura como de segurança para seus profissionais. Da mesma forma que as empresas, a partir da década de 1980, proibiram os seus repórteres de se oferecerem na troca por reféns em casos de motim em presídios, o mesmo princípio protetor deve nortear as situações de emergências climáticas. Já para a cobertura, importante que esse protocolo tenha em mente a necessidade de que os jornalistas busquem fontes que permitam compreender o fenômeno, suas causas e consequências, além de incluir o termo “mudanças climáticas” quando de eventos extremos e de exceção, como a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul.

Outra visão de trabalho: em dias de alerta da Defesa Civil, as empresas jornalísticas devem flexibilizar o teletrabalho para seus jornalistas que não estão cobrindo os desastres in loco. Editores, diagramadores e repórteres que podem exercer suas atividades em casa, devem ser preservados. A imprensa também deveria defender o home office para todos os ramos de atividade quando as autoridades recomendarem o chamado “fique em casa” diante da previsão de eventos climáticos severos.

Desde o seu surgimento, no século XVII, a atividade jornalística tem se aprimorado e modificado, adaptando-se principalmente às evoluções tecnológicas, aos avanços da sociedade e às exigências do mercado de trabalho. O exercício da profissão, portanto, precisa seguir no caminho da atualização agora a partir das mudanças climáticas, que estão nos impactando diretamente e com uma frequência e força cada vez mais perigosas.

Referências:


ALENDE CASTRO, Silvia. Comunicar el riesgo desde la anticipación – El periodismo de prevención em la prensa gallega: una propuesta, Anuario Electrónico de Estudios em Comunicación Social “Dissertaciones”, v. 10, nº 2, p. 20-38, 2016.


AMARAL, Márcia Franz; LOOSE, Eloísa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho (Organizadoras). Manual para a cobertura jornalística dos desastres climáticos – 1ª ed. Santa Maria, RS: FACOS-UFSM, 2024. Disponível em: https://jornalismoemeioambiente.com/wp-content/uploads/2025/02/manual-para-a-cobertura-de-desastres-climaticos.pdf
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente. 25. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.


GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 279–291, 2020. Disponível em: https://www.reciis.icict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/2053

OVERBECK, Gerhard Ernest e PILLAR, Valério De Patta. Forest-biased terminology does not help to include open ecosystems in conservation policies. Perspectives in Ecology and Conservation, v. 22, n. 4, p. 328–330, out. 2024.

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com.

À margem das notícias e da precaução

Informações subdimensionadas em notícias da imprensa sobre impactos ecológicos da exploração de petróleo prejudicam avaliação pública sobre prospecções na margem equatorial brasileira 

Imagem: Adema/Governo do Sergipe

Por Heverton Lacerda*

Desde 2002, a Petrobras vem tentando obter licença para explorar petróleo na margem equatorial, uma região marítima da costa brasileira que se estende do Amapá até o Rio Grande do Norte. Apesar de críticas e alertas sobre os riscos ecológicos que a exploração de petróleo representa para os ecossistemas marinhos, o processo de licenciamento e as pressões do setor econômico seguem avançando. Notícia da Agência Brasil publicada no dia 6 de abril anunciou que a empresa petrolífera concluiu a construção de uma unidade para atendimento e reabilitação de fauna no Amapá. Essa estrutura soma ao Centro de Despetrolização e Reabilitação da Fauna que a Petrobras já mantém no Pará, em Belém. Ainda que a matéria não apresente dados estatísticos sobre tragédias anteriores, de modo a exemplificar os riscos envolvidos, fica evidente que a operação exige equipamentos para mitigar futuras tragédias ambientais. “A construção do equipamento é uma das exigências para que a empresa possa fazer perfurações para verificar a existência de petróleo no bloco FZA-M-59, em águas profundas do Amapá, a cerca de 500 km da foz do Rio Amazonas”, informa a matéria da jornalista Tâmara Freire.

Raoni

No dia 4, durante encontro do presidente Lula com o cacique Raoni na Terra Indígena Capoto-Jarina, no Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso, a liderança indígena enfatizou que a preservação ambiental do local em prospecção para estudos e exploração é importante para manter “a Terra com menos poluição e menos aquecimento”. Na ocasião do encontro, Raoni foi agraciado com a Ordem Nacional do Mérito, no grau Grã-Cruz, a mais alta honraria oficial do Brasil. O fato repercutiu nacionalmente em veículos como Carta Capital, Valor Econômico, Correio Braziliense, Infomoney, O Globo, Poder 360, Brasil 247, O Tempo, entre outros. Além de Raoni fornecer um gancho (uma oportunidade) para explorar o debate sobre os riscos ecológicos, ampliando ainda para a questão climática, os textos publicados não abordam o tema.

Precaução

Uma pesquisa publicada no periódico internacional Marine Environmental Research e divulgada pelo portal Fauna News revela que os impactos de um derramamento de petróleo ocorrido em 2019 no Nordeste brasileiro seguiam presentes em 2023. Os problemas observados pela pesquisa apontam para a ingestão de oleo e aumento da mortalidade da fauna marinha, evidenciando alterações comportamentais e nas proporções de sexo e tamanho de algumas espécies, além de anormalidades em larvas e ovos e consequências para populações humanas litorâneas. Outro ponto da pesquisa destacado no portal está relacionado à  extensão das áreas atingidas de cada ecossistema na tragédia ambiental de 2019, o que ajuda a dar uma dimensão dos riscos envolvidos. Os dados indicam que foram impactados 4.929,74 km² de áreas de estuários, 489,83 km² de florestas de mangue, 324,77 km² de prados de ervas marinhas, 185,30 km² de praias, 63,64 km² de planícies de maré, 45,95 km² de corais de águas profundas e 9,69 km² de corais de águas rasas.

Ao nominar ecossistemas em risco e apresentar as dimensões de áreas atingidas por tragédias, a cobertura jornalística sobre a margem equatorial tem a oportunidade de enriquecer o debate público. Para isso, seria fundamental que as notícias apresentassem maior contexto, o que contribuiria para o cumprimento do papel educativo, um pressuposto essencial reconhecido pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (Ufrgs/CNPq).

Além de fornecer contexto e educar, a cobertura poderia incorporar o princípio da precaução, um pressuposto que, conforme (Girard et al., 2020, p. 281), integra os fundamentos do jornalismo ambiental. Ao adotar o princípio da precaução, as notícias sobre a margem equatorial poderiam auxiliar a sociedade a formar uma opinião mais informada e a pressionar o governo em prol de medidas de proteção ambiental, antes que novas tragédias aconteçam.

*Heverton Lacerda, jornalista, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e presidente da Associação Gaúcha de Proteção  ao Ambiente Natural (Agapan).

Fórum Internacional do Meio Ambiente coloca o bioma Pampa no centro dos debates 

A 13ª edição do congresso contou com dois dias de discussões  intensas sobre a preservação da vegetação nativa, evento repercutiu de forma diversa na imprensa 

Bioma Pampa ocupa 69% do território gaúcho e é compartilhado / Imagem: Isabelle Rieger 

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

O bioma Pampa foi o centro dos debates ocorridos nos dias 26 e 27 de março durante o 13º Fórum Internacional do Meio Ambiente, promovido pela Associação Riograndense de Imprensa no auditório do Memorial da Assembleia Legislativa do Estado. Durante dois dias, os participantes puderam assistir palestras abordando temas cruciais para a proteção do Pampa, que ocupa 69% do território gaúcho e é compartilhado com o Uruguai e parte da Argentina.

Os painéis contemplaram os impactos das mudanças climáticas e projetos e práticas agropecuárias agressivas ao bioma, a regularização ambiental nos próximos anos, o potencial da pecuária para preservação e recuperação ambiental, geração de renda e produção de alimentos, o Pampa nos meios de comunicação e o potencial turístico e comercial do bioma. O evento teve a participação especial do cineasta Rogério Atama Rodrigues, diretor do filme Sobreviventes do Pampa (2025), que comentou a obra lançada em Porto Alegre. O longa mostra a relação de pessoas quilombolas, agricultores familiares e assentados da reforma agrária com a região. 

Pesquisadores, ambientalistas e jornalistas participaram e debateram os temas apresentados. Eles evidenciaram que, mesmo com sua beleza paisagística, riqueza cultural, sociobiodiversidade e potencial para a pecuária orgânica, o Pampa é um bioma ameaçado pelo avanço das monoculturas da soja e da silvicultura. As plantações de videiras e oliveiras foram apresentadas pelos palestrantes do evento como alternativa econômica para a região, desde que não sejam transformadas em monoculturas. 

No entanto, a ameaça do avanço da soja e do eucalipto traz consigo o uso dos agrotóxicos, como o 2,4 D, que prejudica as oliveiras e videiras com grandes quebras na produção, gerando um movimento para proibir o uso desse veneno na agricultura. Este agrotóxico também provoca graves doenças nos animais e seres humanos, sendo uma das causas de cânceres, conforme dados apresentados pelo Instituto Nacional do Câncer. A pecuária tradicional foi apresentada como importante prática para a  conservação das áreas campestres e destacada pela profunda relação com a cultura gaúcha e com o próprio artesanato de lã.

O fórum teve repercussão na imprensa em jornais como Correio do Povo, Jornal do Comércio, Brasil de Fato, Sul21, além de televisões e rádios. Os veículos destacaram tanto a necessidade de preservação do Pampa pela sua importância econômica como pela riqueza ambiental. O Correio do Povo, em 29/03 destacou o potencial econômico do bioma Pampa por meio do turismo, agricultura e pecuária com a manchete: “Fima debate potencial econômico”. O Jornal do Comércio de 28/03 também citou o potencial econômico do bioma, com a manchete de “Especialistas apontam potencial turístico do Pampa durante fórum em Porto Alegre”. Nesta reportagem, foi abordado o  uso indevido do agrotóxico 2,4 D, já que pode diminuir a potência econômica do local. 

Por sua vez  o Brasil de Fato, em 28/03, realçou a carta compromisso assinada em defesa do bioma.  O Sul21, em 27/03, destacou as mudanças climáticas como fatores de impacto da agricultura nas próximas décadas. Na Zero Hora, o presidente da Associação Rio Grandense de Imprensa, José Nunes, em 28/03, apelou para  a população gaúcha agir em defesa do bioma Pampa. O Fórum também foi mencionado na coluna da Juliana Bublitz, em 26/03. 

A divulgação do Pampa pela imprensa deveria ser constante em virtude das ameaças que sofre permanentemente e não ficar na dependência de eventos. No texto “As respostas do Pampa para as mudanças climáticas” as colegas Eliege Fante e Carine Massierer já discorreram sobre a relevância do bioma, enfatizando que mesmo esquecido pelas políticas públicas e pela imprensa, ele possui uma pecuária familiar tradicional em campo nativo que é sustentável ambiental e economicamente.

É necessário, assim, ressaltar que o Pampa tem uma biodiversidade que compreende cerca de 480 espécies de aves, quase cem espécies de mamíferos, 66 espécies de anfíbios e 97 répteis. Além disso, os povos e comunidades tradicionais do Pampa como indígenas, quilombolas, pecuaristas familiares, entre outros, que conferem outro olhar para a região, precisam ser conhecidos e valorizados. 

Ao concluir este texto e reconhecer a importância do 13º FIMA para chamar atenção para o Pampa, nos perguntamos: quando os problemas que afetam a existência do bioma serão resolvidos?

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com

Grupos de mídia de Florianópolis silenciam conflitos de interesses públicos e privados na especulação imobiliária no litoral

Imagem: Print/Reprodução/Jornal Já

Por Míriam Santini de Abreu*

Causou repercussão em Florianópolis (SC) a notícia do veículo “Já”, de Porto Alegre (RS), sobre o projeto de construção da uma avenida nos Ingleses, norte da Ilha de Santa Catarina, com a justificativa de desafogar o trânsito na região, uma das mais frequentadas por turistas durante a temporada de verão. A reportagem foi publicada no dia 12 de março na aba temática “Ambiente Já”

O veículo, que completa 40 anos de existência em 2025, expõe que o projeto foi encomendado e “doado” pelo empresário Fernando Marcondes de Mattos, proprietário do Costão do Santinho e do Costão Golf, ambos também no Norte da ilha. O fato é que a avenida, se aprovada e construída, facilitaria o projeto de expansão do Costão do Santinho. O principal obstáculo para o licenciamento, mostra o veículo, é a mobilidade na região onde, no verão, pode-se levar duas horas para vencer um trecho de dois quilômetros.

A notícia do “JÁ” expõe a frouxidão de tudo o que se entende por jornalismo na mídia de Florianópolis, incapaz de produzir notícias e reportagens sobre as consequências da voracidade imobiliária sobre o litoral do estado.

O vereador de Florianópolis Afrânio Boppré (PSOL), no Instagram, citou a notícia do “JÁ” e alfinetou: “Quem sabe estimula a imprensa local a cobrir o assunto, além das versões oficiais”

O portal ND+, do Grupo ND, trata do assunto em notícia intitulada “Projeto em Florianópolis prevê nova avenida para desafogar o trânsito no Norte da Ilha” e informa: “Em uma reunião na última quarta-feira (12), no Costão do Santinho, promovida pelo proprietário do resort, Fernando Marcondes de Mattos, com a presença do secretário municipal de Infraestrutura e Manutenção, Rafael Hahne, e das equipes de reportagem do Grupo ND, foram apresentados, em primeira mão, os detalhes deste plano”. Mas não há menção ao projeto de expansão do Costão do Santinho.

A construção do texto ressalta a “doação” do empresário e informa que “(…) a nova avenida será construída no espaço hoje ocupado por parte da faixa de areia, aproveitando o engordamento feito em 2023”. Em 12 linhas no final do texto, um engenheiro e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e uma moradora expõe preocupações sobre o impacto ambiental da obra, mas o portal não desenvolve a abordagem.

A CBN, do Grupo NSC, com o título “Florianópolis planeja nova avenida para melhorar mobilidade no Norte da Ilha”, entrevista o secretário Rafael Hahne, que menciona detalhes da obra citando apenas a Prefeitura.

Os demais veículos limitaram-se a reproduzir a versão da Prefeitura, sem se referir à prática questionável de misturar interesse público com interesse privado nem produzir notícias ou reportagens capazes de explicar as conexões entre o investimento com recursos públicos, as alternativas para a mobilidade na região e os impactos da projetada avenida. Não fosse a iniciativa noticiosa do veículo do estado vizinho, passaria em branco mais uma demonstração da tibieza da mídia local no debate sobre o impacto socioambiental dos grandes empreendimentos que pouco a pouco vão destruindo a faixa litorânea.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

A perspectiva não humana no jornalismo pode conscientizar sobre as questões ambientais?

Imagem: Alaor Filho / Fotos Públicas

Por Débora Gallas*

Após assistir ao filme Flow, vencedor do Oscar de melhor longa de animação nesta edição de 2025, me peguei pensando em como a arte é capaz de nos expor à alteridade e modificar nossas percepções – o que pode, em última instância, alterar nossa forma de agir sobre a realidade. A mais recente coluna de Giovana Girardi na Agência Pública fala exatamente sobre o poder do filme em nos colocar no lugar dos personagens e nos fazer refletir sobre a resiliência possível diante das mudanças climáticas.

Na obra, um grupo de animais de diferentes espécies, origens e temperamentos acaba no mesmo barco durante uma inundação repentina e precisa cooperar para sobreviver. Ao sair da sessão, ainda emocionada, fiquei pensando se seria possível o jornalismo nos aproximar das carências e urgências vividas, por humanos e não humanos, diante do agravamento dos efeitos das mudanças climáticas.

O apelo puramente emocional em uma cobertura a faz tender para o sensacionalismo – distanciando-a, portanto, do jornalismo, que é comprometido com os fatos. Mas é possível tornar essa cobertura mais empática e calorosa? Seguindo no tema do filme, lembrei, por exemplo, da matéria publicada em Mongabay em 24 de fevereiro sobre a estratégia desenvolvida pelas onças da Amazônia para sobreviver aos períodos de inundações – elas passam a viver nas copas das árvores.

O texto de Tiago da Mota e Silva detalha como o monitoramento dos animais é realizado por cientistas do Instituto Mamirauá, no Amazonas, e que o envolvimento dos especialistas com o território e seus seres é fundamental para as descobertas. Assim, as onças não são entendidas como meros objetos de pesquisa, mas como sujeitos que resistem e se reorganizam diante das adversidades ambientais – de forma semelhante aos personagens de Flow. E quando nos damos conta que as mudanças climáticas podem causar ainda mais alterações nas inundações e nos ciclos de chuva na região, passamos a nos preocupar com esses animais, cuja capacidade de adaptação será colocada ainda mais à prova.

O desafio da resiliência diante das mudanças climáticas e a busca por adaptação também estão na reportagem de Sônia Bridi sobre a morte dos corais no litoral do Nordeste exibida pelo Fantástico, da TV Globo, em 9 de março. Com dados do projeto Coral Vivo, a reportagem alerta que a onda de calor de 2024 gerou perdas sem precedentes nos recifes, como a morte de 95% dos corais vela e corais de fogo.

Os corais são animais que sustentam esses frágeis ecossistemas, caracterizados também pelas algas que se associam à sua estrutura e aos peixes que visitam as colônias em busca de alimento, por exemplo. A ameaça é ainda maior com o turismo predatório, como visto nas piscinas de Maragogi, em Alagoas. A reportagem finaliza mostrando o bom exemplo de respeito dos pescadores que promovem o turismo ecológico, mas aludindo à responsabilidade das pessoas humanas em duas frentes: freando o aquecimento do planeta e evitando atividades que impactam o local.

Nós que pesquisamos o jornalismo ambiental precisamos ressaltar, em várias ocasiões, que ele não se reduz a curiosidades da natureza idílica. Falamos isso para lembrar os interlocutores, que nós, seres humanos, também somos natureza e sofremos com nossas próprias ações para degradar os bens naturais. No entanto, chegamos em um ponto em que a ideia de outro humano enfrentando algum revés por conta das mudanças climáticas talvez não nos gere tanta comoção. Para algumas pessoas, pode parecer mais do mesmo. Diante dessa indiferença, abordar as consequências da crise climática pelo ponto de vista não humano poderia, talvez, gerar mais compaixão?

Claro, existe uma linha tênue entre essa abordagem e uma que desmobilize pelo pessimismo ao mostrar plantas e animais como vítimas indefesas e inevitáveis de tragédias como incêndios, secas e enchentes, por exemplo. Porém, através da informação jornalística contextualizada e devidamente apurada, as pessoas conseguem perceber conexões entre fenômenos naturais e acontecimentos sociais, além de entender seu papel e de outros seres na resolução dos problemas identificados. Foi o que engajou pessoas de todo o Brasil no resgate do cavalo Caramelo durante as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.

Assim, identificamos onças pintadas, corais, cavalos e outros animais como vulneráveis ao imprevisível, mas, também, como sujeitos resilientes – como nós humanos somos, afinal. Essa identificação, quando bem expressa pelo jornalismo, pode ajudar não somente a reconhecermos nossas limitações, mas também inspirar nossa organização coletiva para resistirmos e solucionarmos as questões ambientais emergentes.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação e vice-lider do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

“Reconstruir melhor”: será que estamos nos preparando para reduzir riscos de desastres?

Imagem: Vitor Rosa / Palácio Piratini

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

O Marco de Sendai, documento internacional orientado para prevenir e reduzir os riscos de desastres, instituído em 2015, aponta como uma de suas prioridades “melhorar a preparação para desastres para uma resposta efetiva e ‘reconstruir melhor’”, ou seja, tornar a infraestrutura mais resiliente do que era antes do desastre. Contudo, depois do ápice das inundações que afetaram o Rio Grande do Sul, como a imprensa tem fiscalizado essa reconstrução? 

A relação entre jornalismo e políticas públicas, especialmente no contexto dos desastres climáticos, exige uma cobertura contínua e aprofundada diante da perspectiva da construção de cidades resilientes. Aqui a ideia de watchdog (Traquina, 2005), que se refere à vigilância e ao monitoramento de decisões públicas, se faz especialmente relevante.

Observando a cobertura da reconstrução do desastre climático que ocorreu em maio de 2024, perguntamos: O jornalismo local gaúcho tem se debruçado sobre essa questão? Se sim, de que forma? 

Realizamos uma breve análise da cobertura sobre o tema entre o período de 1º de janeiro e 6 de fevereiro, feitas por GZH, Correio do Povo, Brasil de Fato e Sul 21, neste início de 2025, e identificamos não apenas diferentes abordagens sobre o tema, mas também lacunas significativas no tratamento da questão. Para identificar os conteúdos, utilizamos os buscadores dos próprios veículos, com as seguintes palavras-chave: enchentes, reconstrução, prevenção e resiliência.

A cobertura da GZH sobre a reconstrução tem sido abordada de forma fragmentada, com ênfase nas colunas de opinião e, portanto,com menos notícias e reportagens. Ao que indica, o jornal delegou aos colunistas a responsabilidade de cobrir a fase da reconstrução. Os conteúdos tratam de atrasos de editais, dificuldades burocráticas e desafios econômicos, como:

Já o Correio do Povo adota uma abordagem centrada em números e dados sobre investimentos e andamento das obras de infraestrutura realizadas pelo Estado, como a construção de pontes e rodovias. As matérias limitam-se a trazer informações sobre prazos e investimentos, como: 

O jornal Brasil de Fato, embora tenha um número menor de notícias, apresenta uma cobertura voltada para os Direitos Humanos, denunciando a falha do governo em garantir moradia digna para as famílias atingidas. O jornal foca nas dificuldades enfrentadas pelos moradores de Canoas e Porto Alegre, onde as soluções habitacionais continuam escassas e as remoções geram revolta. Reportagens como “Famílias atingidas pelas enchentes seguem sem solução habitacional em Canoas” (14 de janeiro)  e “‘Quem tirou o meu espaço não foi a enchente, foi a Prefeitura, porque passou com a patrola e me deixou sem casa’, diz morador de Canoas” (4 de fevereiro) evidenciam o sofrimento das vítimas e o descaso das autoridades. A cobertura do Brasil de Fato conecta o desastre à questão das desigualdades sociais, enfatizando a responsabilidade do poder público.

Ao destacar o andamento das obras e as parcerias público-privadas, o Sul 21 indica que a reconstrução está sendo conduzida por meio de parcerias público-privadas e financiamento de grandes agentes econômicos, em vez de ações exclusivamente governamentais. O portal enfatiza a reconstrução da cidade, questionando quem financia e conduz esse processo. A reportagem “Do Gasômetro ao Lami, reconstrução da orla é feita por contrapartidas de grandes empreendimentos” (20 de janeiro) sugere que o setor privado tem um papel central na recuperação da orla, levantando possíveis implicações sobre desigualdade no acesso e interesses econômicos. 

O jornal também dá visibilidade à responsabilização do Estado e aos direitos da população atingida. A matéria “Advogados defendem indenização pelo Estado a vítimas de enchentes” (31 de janeiro) coloca em pauta a necessidade de reparação, levantando uma discussão sobre omissões governamentais.

No entanto, a reconstrução do estado também deve ser tratada pela perspectiva da emergência climática, recorte que amplia a discussão, conectando o desastre a fenômenos globais e reforçando a necessidade de adaptação, mitigação e resiliência. Os conteúdos encontrados, em sua maioria, reportam o andamento da recomposição da infraestrutura, sem discutir se são obras pensadas para serem melhores do que aquelas destruídas pelo desastre. 

A reconstrução de uma cidade após um desastre não deveria deixá-la como era antes. Quando falamos em “cidade resiliente”, estamos nos referindo a um conjunto de práticas e políticas que não apenas restauram o que foi perdido, mas também preparam as cidades para enfrentar futuros eventos climáticos com maior eficácia e menos impacto. Nesse contexto, surge uma questão central: o jornalismo local está questionando se as ações implementadas na reconstrução do estado buscam realmente fortalecer a resiliência das cidades, ou se, ao contrário, estão apenas buscando devolver os municípios ao seu estado anterior, mantendo o status quo e perpetuando um ciclo de vulnerabilidade climática?

Se a cobertura jornalística local se limitar a cobrir o processo de reconstrução sem considerar as mudanças climáticas, falhará em trazer para o debate público as necessidades de adaptação das cidades aos novos desafios. A verdadeira resiliência vai além da reconstrução de casas, pontes e rodovias; ela implica em transformar as cidades para que sejam preparadas para enfrentar as consequências das mudanças climáticas de forma mais eficiente. Isso inclui, por exemplo, a implementação de infraestrutura verde, como áreas de drenagem natural, reflorestamento de encostas e a criação de espaços urbanos que absorvam as águas das chuvas, além de políticas de planejamento urbano que priorizem a adaptação ao clima. 

O jornalismo local pode questionar se as ações de recuperação estão atendendo a essas necessidades mais profundas e estruturais ou se estão sendo apenas paliativas. A falta de uma abordagem crítica nas coberturas jornalísticas pode resultar em uma “amnésia coletiva”, onde a sociedade, movida pela urgência da reconstrução imediata, não consegue enxergar a longo prazo. O jornalismo, como um mediador do debate público, deve estar atento a como as cidades estão sendo reconstruídas, de modo que consigam enfrentar os riscos climáticos já previstos.

Referência:

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo: Porque as notícias são como são. Vol. I. Florianópolis: Editora Insular, 2005.

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Das cheias às ondas de calor: Rio Grande do Sul no epicentro dos eventos climáticos extremos

Imagem: Alex Rocha/PMPA

Por Clara Aguiar e Eloisa Beling Loose**

Após as enchentes que submergiram parte do Rio Grande do Sul em maio de 2024, agora o estado se encontra diante de mais um evento climático: ondas de calor extremo. Enquanto os efeitos das cheias ainda são sentidos, o aumento das temperaturas intensifica ainda mais os desafios enfrentados pela população gaúcha. 

Em 4 de fevereiro, o estado registrou a maior temperatura dos últimos 115 anos, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). No município de Quaraí, os termômetros marcaram 43,8 °C. No dia 10, Porto Alegre foi a cidade mais quente do Brasil, com 37,9°C. No dia seguinte, a capital gaúcha marcou 39,8°C, registrando um novo recorde, com índices de sensação térmica alcançando os 60 °C.  

Além do desconforto térmico, os impactos diversos das ondas de calor vêm predominando nas manchetes dos jornais locais e nacionais: a estiagem já atinge mais de 90 municípios, a Justiça determinou o adiamento do início do ano letivo e projetos de lei foram protocolados para abordar as condições insustentáveis de trabalho ao ar livre em dias de calor extremo

O Jornalismo desempenha um papel fundamental ao informar a população sobre os riscos das mudanças climáticas e ao cobrar medidas efetivas de governantes. Mais do que noticiar recordes de temperatura, é essencial discutir caminhos para enfrentá-los. 

Na abertura do Jornal do Almoço, que foi ao ar no dia 10, a jornalista e apresentadora Cristina Ranzolin levantou a seguinte questão: “Os cientistas garantem que o calor extremo deve se tornar cada vez mais frequente, mas será que nós estamos preparados? Não é necessário termos planos emergenciais para enfrentar essas temperaturas? Leis e medidas que alterem o horário de trabalho, que prevejam distribuição de protetor solar, enfim, que nos protejam e adaptem a nossa rotina a essa nova realidade?”. 

Para debater sobre o que as cidades precisam fazer para enfrentar esse clima extremo, o JA convidou um grupo de especialistas: o climatologista da UFRGS, Francisco Eliseu Aquino; o especialista em saúde e segurança do trabalho, Luiz Alfredo Scienza; o deputado e vice-presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa, Airton Artus; e o vice-presidente da Famurs, Márcio Amaral.

O debate – que abordou questões como gestão pública, infraestrutura, plantio de árvores e legislações trabalhistas diante das alterações climáticas – se estendeu ao longo de todo o programa, intercalado por outras notícias. A iniciativa é positiva, pois insere o assunto em diferentes momentos do noticiário, inclusive estando presente no espaço de  comentaristas – Rodrigo Lopes critica a posição do Governo do Estado em relação à organização do início das aulas.

Porém, mais do que falar de medidas paliativas, para encarar o calor extremo, valeria recordar o que vem contribuindo para gerar esse problema. É importante trazer medidas que possam mitigar os efeitos de ondas de calor, porém a perspectiva do factual, que se centra nos efeitos imediatos, deve ser alargada pelo Jornalismo. 

Uma das soluções apresentadas no telejornal, a instalação de mais aparelhos de ar-condicionado, para permitir o conforto térmico diante de altas temperaturas, colabora para o incremento das mudanças climáticas. Estima-se que o uso desses aparelhos seja responsável por 10% do consumo global de energia e entre 4% e 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, de acordo o National Renewable Energy Laboratory e o Observatório Regional de Energias Renováveis da Cepal.

Quando se fala da necessidade de alteração da legislação trabalhista, por exemplo, um dos especialistas aponta para a necessidade de reconhecer os riscos das mudanças climáticas e seus impactos na saúde dos trabalhadores. Sem a percepção de riscos, é difícil que haja preocupação em mudar algo ou de se pensar em formas de evitá-lo. A imprensa é um espaço de visibilidade desses riscos, sendo relevante tratar deles antes que eles se transformem em algo concreto — nesse caso, o calor extremo. O que tem nos deixado mais vulneráveis às mudanças do clima? Que os próximos eventos possam ser debatidos em sua complexidade antes de sentirmos na pele uma das manifestações da crise climática.

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

A cobertura que é mais do mesmo: 2025 começa com chuvas acima da média em diversas cidades brasileiras

Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

O início de 2025, em diversas regiões do Brasil, foi marcado por uma série de eventos climáticos, que vem causando transtornos significativos e mobilizando esforços de emergência quase simultaneamente. Os primeiros dias do ano mostram que seguimos no ritmo de ebulição de 2024, que superou, pela primeira vez, a temperatura global de 1,5°C, o limiar climático apontado pelos cientistas, o que significa mais intensidade e frequência de eventos extremos.

Diante desse cenário, cabe ao jornalismo denominar o acontecimento de forma a não naturalizar o desastre. No primeiro texto do ano, o Observatório de Jornalismo Ambiental (OJA) analisou, no período de 04 de dezembro a 25 de janeiro, a cobertura do G1, portal de notícias da Globo e líder de audiência no jornalismo digital no país, sobre as chuvas intensas, alagamentos e enchentes que vêm afetando os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina e São Paulo – janeiro nem encerrou, mas já são muitos os casos reportados no País.

No Rio de Janeiro, Chuva forte provoca alagamentos e bolsões d’água na capital e Região Metropolitana do RJ (04/12/2024). Em Maricá, na rodovia RJ-106, Chuva deixa motoristas ilhados e trânsito congestionado na RJ-106, em Maricá.

No Espírito Santo, Chuva intensa no ES deixa desalojados, desabrigados e interdita rodovia; saiba quais cidades mais atingidas (08/01/2025). Vídeos mostram enchentes que causaram destruição e tiraram moradores de casas no ES (09/01/2025).

Em Minas Gerais, Chuvas deixam 25 mortos e mais de 50 cidades em situação de emergência em Minas Gerais (14/01/2025). Quase 100 cidades mineiras decretam situação de emergência ou calamidade pública por causa de temporais; veja lista (19/01/2025). 

Na Bahia, Temporais deixam moradores ilhados e alagam ruas de cidades em diferentes regiões da BA (15/01/2025).

Em Santa Catarina, o cenário também foi preocupante. Chuvas provocam situação caótica com estragos e desabrigados no litoral de SC; cidades decretam emergência (16/01/2025). Balneário Camboriú recebe em um dia quase todo o volume de chuvas esperado para janeiro; VÍDEOS mostram situação caótica (16/01/2025). 

Já em São Paulo, no dia 24 de janeiro, ocorreu o terceiro maior volume de chuva já registrado desde o início das medições do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em 1961, conforme aponta a matéria “FOTOS: São Paulo tem 3ª maior chuva da história, segundo Inmet” (25/01/2025). O artista plástico Rodolpho Tamanini Neto, de 73 anos, morreu afogado depois que uma enxurrada atingiu a sua casa, como relatado em “Corpo de artista plástico que morreu após enxurrada invadir sua residência é velado em SP” (25/01/2025). 

É percebido que nas notícias do G1 são atribuídas às chuvas a responsabilidade exclusiva pelos acontecimentos, personificando-as como agentes autônomos que “provocam”, “causam” ou “deixam” danos e vítimas. Essa abordagem, amplamente evidenciada nos títulos destacados, como “Chuva forte provoca alagamentos” e “Chuvas deixam 25 mortos”, contribui para a não responsabilização humana ou questionamento acerca das causas geradoras do problema. Embora a chuva seja o fenômeno imediato, desencadeador do processo, ela não é a única responsável pelos desastres relatados.

Os desastres não são apenas “naturais”, mas também resultados de uma série de fatores como a ocupação desordenada do solo, a falta de planejamento urbano, o desmatamento e a ausência de políticas públicas eficazes para a prevenção e mitigação de riscos – aspectos que criam situações de vulnerabilidade. Quando o jornalismo escolhe por eleger a chuva (ou outro fenômeno da natureza) como responsável por tragédias acaba por ignorar fatores derivados de escolhas humanas, contribuindo com a ideia de que desastres são inevitáveis, o que enfraquece a urgência em adotar medidas preventivas. 

“Ao personificar as forças da natureza e considerá-la um inimigo externo (“o rio invadiu”, “a chuva matou”), podemos desresponsabilizar a ação/inação humana”, afirma trecho do Manual para a Cobertura Jornalística dos Desastres Climáticos, desenvolvido pelo Grupo de Jornalismo Ambiental do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pelo Grupo Estudos de Jornalismo do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

A personificação das “forças da natureza” reforça uma narrativa que posiciona os desastres como algo “fora do nosso alcance”, resultado de uma suposta “força maior” contra a qual os seres humanos não teriam controle ou capacidade de resistência. Essa perspectiva ignora o papel ativo que as ações humanas desempenham na amplificação ou mitigação desses eventos. É preciso que o campo jornalístico desnaturalize os desastres, pois quando se atribui exclusivamente à natureza a origem dos problemas, perde-se a oportunidade de enxergar a conexão entre os fenômenos naturais e as escolhas políticas, econômicas e sociais que agravam seus impactos. O desastre só ocorre onde há processos de vulnerabilização em curso.

Há anos cientistas das Ciências Sociais e Humanas apontam a importância de se nomear de forma adequada os desastres, mas grande parte da comunidade jornalística segue reproduzindo o que é mais visível na eclosão do problema, desconsiderando questões crônicas que são os viabilizadores de desastres. Isso ainda é mais sério quando há nos títulos das notícias a reprodução de autoridades públicas que invocam os fenômenos naturais para justificar a sua inoperância. Quando deixaremos de cobrir os efeitos da crise climática, provocada pela ação humana, como algo desconectado do nosso modo de vida?

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

O Jornalismo entendeu a crise ecoclimática?

Imagem: Mauro Schaefer

Por Heverton Lacerda*

Ao longo deste ano de 2024, os pesquisadores do Observatório do Jornalismo Ambiental, ligado ao Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (GPJA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), produziram uma série de artigos críticos com foco na atuação da imprensa diante das questões climáticas. Foram 46 textos – contando com este, que finaliza o ano – com diversas abordagens e reflexões. A relação de títulos, com os respectivos links, está mais abaixo. É uma ótima sugestão de leitura de férias para quem ainda não leu e quer ter um panorama sobre como o jornalismo brasileiro tem se relacionado com a realidade ambiental e com seus públicos neste período.

Abrir um texto, já no título, com uma pergunta é uma opção que pode ser até interpretada como uma irresponsabilidade, ainda mais quando a resposta tende a não ser totalmente conclusiva. Nesse caso, é possível que alguém considere haver até uma certa prepotência do escritor, que carece de dados de uma pesquisa ampla, caso haja a pretensão de respondê-la. Já adianto aqui que não tenho essa intenção, mas que também não é uma pergunta retórica. Trata-se de uma inquietação que me parece importante compartilhar com leitores que talvez possam ajudar a elucidá-la ou a ampliar a reflexão sobre o tema. 

Além de uma questão de difícil conclusão, fica claro que tenciono com um possível neologismo. Entendo, particularmente, que a crise climática que estamos vivenciando tem ligação direta com o descaso ecológico a partir do qual a sociedade está indicando o rumo a seguir. O clima não está mudando só por pressão extraterrena – como, por exemplo, devido à intensa atividade do Sol – e pela propalada ciclicidade das mudanças climáticas. Existe, como já identificado pela ciência há algumas décadas, uma forte influência das atividades humanas. Essas atividades, a exemplo da mineração de carvão e extração de petróleo, causam impactos ambientais e estão no início de processos de geração de poluentes climáticos. Os problemas, que vão muito além disso, se somam e se retroalimentam em uma escalada ecocida de difícil recuperação.

Daí a ideia de que a crise não é só climática nem só ecológica, mas sim a soma dessas duas dimensões diretamente interligadas, sem desconsiderar ainda outras possíveis camadas que incidem sobre esse ponto. Sim, o tema é complexo e, por isso, exige abordagens à altura. O jornalismo é capaz de fazer isso, mas, para tanto, precisa fazer valer suas melhores características. Cabe ressaltar ainda que o jornalismo é feito por humanos, uma das espécies que integra a biodiversidade da Terra. A amplitude do olhar, a empatia, a ética, o desprendimento e os sentidos de precaução e prevenção precisam estar presentes, cooperando com a boa prática do fazer jornalístico. 

O percurso de pesquisas acadêmicas sobre Jornalismo Ambiental, com mais de 15 anos de dedicação ao tema no âmbito do GPJA, tem apontado caminhos significativos. Os pressupostos desse jornalismo engajado com as pautas de defesa da vida apontam para a relevância da contextualização correta, da visão sistêmica, da mudança de pensamento, da antecipação dos riscos – o princípio da precaução. Isso tudo buscando a desnaturalização da visão hegemônica sobre os fatos e a aproximação com os interesses da cidadania e da ecologia enquanto condição necessária à manutenção da vida no planeta.

Se 2023 foi o ano mais quente já registrado na história humana, 2024 está na fila pedindo passagem. Os dados de temperatura máxima e média deste ano ainda não estavam consolidados no momento da publicação deste texto, mas o saldo de eventos climáticos extremos, amplamente noticiados, já davam indícios de que a crise climática não pode mais ser negada e precisa ser enfrentada com urgência. 

O jornalismo é obrigado a noticiar catástrofes, contar mortes e contabilizar prejuízos, mas não deve se ater a isso. Não é mais possível reduzir manchetes e reportagens climáticas a meras notas de pé de página. A pauta ganhou espaço nas redações. Mas como isso está sendo feito e que impactos tem gerado na população? Encerro com isso, com mais uma pergunta para te propor buscar respostas na produção deste ano do nosso grupo. Insira seus comentários. Os links seguem abaixo. Boa leitura e um ótimo final de ano! Que 2025 seja bem melhor!

  1. Pessoas e cultura valorizadas na editoria de meio ambiente
  2. De Cop em Cop, onde estão os avanços?
  3. 2023 foi chamado de o ano dos extremos, o que falar de 2024?
  4. A crise climática na cobertura jornalística das catástrofes em Valência e Porto Alegre
  5. Sul21 e o jornalismo a serviço da pauta ambiental nascida no cotidiano
  6. Em um mundo mais seco, jornalismo deve ser terra fértil para compartilhamento de soluções
  7. Questões ambientais se diluem no debate público e na cobertura jornalística sobre as eleições municipais em Porto Alegre
  8. Observação do tema desastre climático nas eleições de Porto Alegre constata descompasso entre a campanha e a preocupação da população
  9. Lembrança do desastre climático que atingiu Porto Alegre foi para o ralo de onde saíram as águas fétidas que inundaram a cidade 
  10. Como Zero Hora pauta a questão climática no contexto eleitoral de POA
  11. Jornalismo e o “espírito da época” nas cheias de maio
  12. Há cortina de fumaça nas eleições municipais?
  13. Enchentes e seus desdobramentos na disputa pelos votos na eleição de Porto Alegre
  14. A questão climática no centro das eleições de Porto Alegre
  15. A ponte informacional e o jornalismo independente na resistência do povo Guarani-Kaiowá
  16. O LIXO – do luxo de ser manchete ao silenciamento do Jornalismo no pós-enchente
  17. Eleições no horizonte: pauta ambiental municipal e o papel do jornalismo
  18. Mais do que carvão: por um jornalismo que acredite noutras potencialidades da economia candiotense 
  19. Racismo ambiental: mídia independente traz debate silenciado no jornalismo corporativo
  20. Jornalismo de soluções ou mais do mesmo: o insuficiente discurso da reconstrução
  21. Podemos repetir os mesmos erros? A reconstrução do RS na pauta dos portais de notícia
  22. Pequenas notícias, grandes negócios
  23. A responsabilidade da imprensa hegemônica na catástrofe climática do RS
  24. A repercussão internacional do desastre climático do Rio Grande do Sul
  25. O papel dos veículos independentes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul
  26. Com apuração e checagem, jornalismo mostra ações antiambientais na base do desastre climático no RS
  27. Tragédia no RS: jornalismo deve abordar causas e conexões entre eventos climáticos extremos
  28. Acerca do cavalo no telhado: circulação e desinformação noticiosa
  29. A inserção dos refugiados e deslocados climáticos na cobertura da catástrofe no RS
  30. RS embaixo d’água: observações neste início da cobertura do desastre
  31. O desafio da cobertura ambiental para além das catástrofes
  32. Recorde de conflitos no campo: qual a repercussão para além do release?
  33. Por que um ingrediente do veneno utilizado na Guerra do Vietnã é aplicado na agricultura familiar brasileira?
  34. Quem ganha com a exploração do carvão?
  35. Livro e blog sistematizam pesquisas e práticas de Jornalismo Ambiental em Santa Catarina
  36. Água pra que quero se não te venero?
  37. Clima, condições de trabalho e desafios de jornalistas em coberturas
  38. Inteligência Artificial e o Princípio da Precaução
  39. Jornalismo ambiental não hegemônico prova seu impacto no debate público
  40. Dengue além dos números: por que a doença ainda mata no Brasil?
  41. Imprensa precisa desideologizar a cobertura do MST
  42. A importância do contexto na notícia climática
  43. Alerta para o jornalismo ambiental: minoria compreende jargões ambientais
  44. O jornalismo precisa falar no racismo ambiental
  45. A falta da cobertura sobre os efeitos colaterais do “progresso”

*Heverton Lacerda é jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação Social, integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).

Pessoas e cultura valorizadas na editoria de meio ambiente

Imagem: Getty Images

Por Patrícia Kolling*

A reportagem com o título “Sobre as jazidas de gás, 1.200 mulheres mantêm viva a cultura do babaçu” publicada pela Folha de São Paulo, no último dia 1º de dezembro, na editoria de meio ambiente, mostra os impactos da abertura de poços e a construção de gasodutos na rotina das mulheres quebradeiras de babaçu, no Maranhão. Conforme contam as fontes da reportagem, houve derrubada de palmeiras, alteração de rotas usadas há décadas na busca dos frutos e fechamento de igarapés. Isso tudo impactando em uma cultura tradicional que passa de geração em geração. “Nós somos resultado de um conhecimento tradicional. Eu aprendi com a minha mãe, que aprendeu com a minha avó. Criei sete filhos com a quebra do coco. Pra nós, quebradeiras, a palmeira do babaçu é a nossa mãe. O coco é o nosso ouro. A gente valoriza muito isso, porque não podemos desconhecer aquilo que foi o leite da gente, que sempre foi tudo”, diz a quebradeira de coco Maria Alaídes.

A reportagem foi construída pelos repórteres André Borges e Ruy Baron, que se deslocaram e percorreram várias cidades do Maranhão, exercendo a verdadeira função de repórter ao observar, entrevistar as pessoas da comunidade e vivenciar o drama das famílias que lá vivem. A região visitada é uma das maiores províncias de gás terrestre do Brasil, e mesmo há mais de dez anos recebendo os royalties da exploração do gás natural, apresenta indicadores sociais péssimos.
Além do texto com foco nas quebradeiras de babaçu, os repórteres também produziram as reportagens “Região com exploração de gás no Maranhão é marcada por degradação ambiental e pobreza” e o documentário audiovisual “Na Trincheira do Gás”. Chama atenção o enfoque social da apuração dos repórteres. Eles relatam como as 65 famílias que tiveram que ser removidas da comunidade onde moravam, para a construção do gasoduto, sofrem impactos.

As famílias foram alojadas em uma área distante, cortada ao meio pela BR-135, onde é constante o tráfego de caminhões e carros. Os depoimentos dos moradores mostram o quanto os laços sociais e familiares foram rompidos com a mudança, e como isso influencia nos cuidados com os filhos e a possibilidade de trabalhar. Os repórteres mostraram, nos vários municípios da região, problemas básicos como o destino inadequado do lixo e ruas com esgoto correndo a céu aberto. Os entrevistados destacam também o desmatamento (principalmente das palmeiras de babaçu), a degradação das estradas, a má estrutura das casas que receberam e as promessas não cumpridas dos acordos de compensação pelas empresas que exploram o gás.


Nesta mesma linha de abordagem, está a reportagem “Estiagem profunda deixa indígenas sem igarapé, quilombolas sem lago e paraíso turístico sob fumaça” também publicada na Folha de São Paulo, dia 04 de dezembro. O texto narra de forma franca e impactante como o desaparecimento de cursos d’água no oeste do Pará altera a vida de comunidades. Pois, como destacam os repórteres, “a presença de comunidades tradicionais nessa parte da Amazônia está diretamente ligada a corpos d’água que, agora, estão secos”. O cacique Mapirizinho, Roselino Paz Kumaruara, resume: “Essa comunidade surgiu, há muito tempo, porque os antigos estavam buscando água e acharam o igarapé Mapiri. Neste ano, ele sumiu”.

A reportagem traz relatos e fotografias dos moradores das comunidades sobre os impactos da seca extrema na mortandade de peixes e outros animais aquáticos e nas rotinas das famílias. O texto faz parte da série Mudanças Climáticas na Amazônia que mostra os efeitos da crise do clima na maior floresta tropical do mundo, com foco nas populações diretamente afetadas.
O tema das reportagens citadas é desesperador e triste, porém, são produções com apurações como estas que estão no caminho do verdadeiro jornalismo ambiental e da sensibilização. São textos que permitem a conexão do ambiental e do social, ouvem fontes das comunidades (e não somente as fontes oficiais), vão in loco apurar e vivenciar e mostram como as mudanças climáticas afetam o dia-a-dia da vida da sociedade brasileira.

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com