Este artigo não é sobre Dubai, nem tampouco sobre a Porto Alegre em si, mas trata de uma das possíveis causas das constantes inundações que afetam a capital gaúcha, para que possamos refletir sobre a ação humana e a importância de uma comunicação não ludibriada com as obras de expansão, que acabam sendo “naturalizadas” nos cenários urbanos e modernos das cidades.
A afirmação “Porto Alegre já era Dubai antes de Dubai ser Dubai” é uma hipérbole que compara o desenvolvimento da capital gaúcha com o da cidade árabe, especialmente em relação a grandes projetos de aterro e urbanização. Em Porto Alegre foram muitas etapas de aterramentos. Os primeiros, ocorreram no século 19 com pequenos avanços e depois foram feitas ampliações significativas no centro histórico e na zona portuária. Na década de 1950, houve um grande projeto de aterramento na Avenida Praia de Belas, iniciado em 1956. Além disso, a expansão para as zonas Sul e Norte também ocorreu e foi concluída até o final de 1970.
As maiores áreas de aterros foram construídas após a famosa enchente de 1941, um evento com o qual muitos consideravam que nunca encontrariam, mas que voltou a assombrar a população em maio de 2024, quando o estado do Rio Grande do Sul — e, em especial, sua capital — enfrentou a maior catástrofe de sua história. A imprensa, naquele momento, acabou trazendo o tema à tona, mas isso não serviu nem para uma mudança de postura da população com relação ao rio e muito menos para a discussão e ação política.
A imagem abaixo mostra o tamanho do problema em 2024 onde todas as áreas de aterro da capital alagaram:
Imagem da publicação no Instagram nas páginas de @portoalegreoficial e @portoalegre com o seguinte título: Todos os ATERROS de Porto Alegre ALAGARAM. Publicação de 2024. Disponível no link: https://www.instagram.com/p/C7WZHHPuGue/?hl=pt
Nesta semana novos alagamentos ocorreram, apesar do cenário ser diferente do registrado em abril de 2024, quando os acumulados chegaram a 800 milímetros de chuva concentrados, comparados aos cerca de 500 milímetros deste ano.
Porém, a pane voltou a se instaurar entre os habitantes das áreas aterradas e a imprensa passou a monitorar a pauta e publicar todo o tempo matérias em nível local e nacional, como pode ser acompanhado pelo link: https://goo.su/qT6t39X
O que as pessoas não levam em conta é que o rio volta a tomar o seu curso um dia e que as mudanças climáticas existem e se tornaram parte da rotina diária dos humanos, que invadiram os espaços e os recursos hídricos em prol do progresso.
Chegou a hora da Dubai Gaúcha, Porto Alegre, enfrentar o clima novamente. É a natureza cobrando as ações humanas que seguem desenfreadas. Nesta semana, os humanos que vivem nestas terras seguem “tremendo nas bases” porque a busca por modernizar a área central e expandir a área urbana fizeram com que a água do Lago Guaíba e a ampliação do vento Sul novamente alagasse a parte mais próxima a ele.
Como ressalta Canclini em Cidadãos Substituídos por Algoritmos, as mudanças que fizemos inadvertidamente acabaram comprometendo todo o sistema e agora enfrentamos um colapso ecológico. Para enfrentar o clima é preciso a mudança de postura, inclusive da imprensa que praticamente não tocou no tema dos aterramentos diante das catástrofes das enchentes neste ano.
Ou seja, mesmo que os alagamentos voltem a ocorrer em áreas que foram aterradas e se tornem o centro das preocupações da população, as consequências, a cada novo evento climático que ocorre, são o centro dos debates e das ações midiatizadas, mas as causas, no caso os aterramentos, não voltam às discussões políticas e nem como manchetes na imprensa.
*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental
Lançado na semana passada, o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil indicou, pela primeira vez na série histórica, queda no desmatamento em todos os biomas do país. Os dados, que se referem a 2024, são da iniciativa MapBiomas, que há seis anos reúne informações sobre a perda de vegetação nativa no Brasil. As chamadas dos principais portais de jornalismo destacam a tendência de queda, mas, quando muito, relegam à linha de apoio o fato de que os dados ainda são alarmantes.
Ultrapassando a Amazônia, o bioma com maior área desmatada é o Cerrado, pelo segundo ano consecutivo. A região conhecida como Matopiba, que reúne os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, concentrou 75% dos mais de 650 mil hectares perdidos no bioma. Já no acumulado de 2019 a 2024, o Pará, onde neste ano se realiza a COP-30, é o estado com maior área desmatada com cerca de 2 milhões de hectares suprimidos.
Estes dados não são triviais, já que correspondem justamente a regiões cuja força motriz tem sido o agronegócio. De acordo com a série histórica do MapBiomas, 97% de toda a perda de vegetação nativa no Brasil esta conectada à expansão de fronteira agropecuária. O Brasil de Fato foi o único veículo a destacar este dado, convocando outros dados para além do release amplamente divulgado na imprensa e criticando, inclusive o desmatamento considerado legal, nos marcos do Código Florestal.
Também chama a atenção que o relatório pondera o papel do desastre ocorrido no Rio Grande do Sul: o estado passou a ocupar o terceiro lugar dentre os estados da Mata Atlântica com maiores perdas de vegetação nativa em 2024. Isso se dá em função dos eventos climáticos extremos, que desencadeiam deslizamentos de encostas, revelando mais uma face da intrincada relação entre desmatamento e mudanças climáticas.
Com uma cobertura que foca em números, sem esforço amplo de contextualização, o desmatamento e a perda de vegetação nativa se resumem a dados abstratos. Após o recente desmantelamento das políticas ambientais e de monitoramento, evidente que qualquer redução nos índices de desmatamento representa um alívio, mas falta ao jornalismo abordar com seriedade os vetores desta derrubada – e quem lucra com estas atividades extrativas.
*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com
Jessica Thais Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**
Um dos papeis sociais do jornalismo é de oportunizar voz e vez. Em tempos de desastres, é necessário compromisso social para ouvir aqueles que são invisibilizados: pessoas da periferia, trabalhadores rurais, comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, entre outros. Por isso é importante expor a realidade de quem vive à margem da atenção midiática, mas sofre mais constantemente com as mudanças climáticas, como é o caso dos agricultores familiares que lidam na terra e muitas vezes ficam sem a produção do próprio alimento em função de desastres socioambientais.
As jornadas de agricultores familiares são intensas. Geralmente, trabalham entre 12 e 16 horas por dia. No campo, não tem final de semana. Não tem feriado. Enquanto muitos na cidade celebram datas como o Natal e o Ano Novo, eles seguem trabalhando para garantir comida na mesa de milhões. Dar voz a essas pessoas por meio dos veículos de comunicação é reconhecer sua importância e romper com a lógica de um jornalismo hegemônico que, muitas vezes, prioriza apenas o agronegócio ou simplesmente não considera os impactos dos desastres para a agricultura familiar. Um exemplo publicado neste Observatório foi o caso das queimadas no Amazonas em 2022, em que não houve menção às perdas dos agricultores.
Da mesma forma, durante as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, o portal UOL pouco abordou a situação da agricultura familiar. Mesmo após o auge da crise, em agosto de 2024, uma das poucas matérias que tangenciam o assunto mencionava, na generalidade, a importância depolíticas públicas que promovam a diversificação da produção agrícola (31/08/2024). A abordagem, ainda assim, foi de maneira superficial, com a mesma narrativa de aumento de produtividade e intrigando uma disputa com o agronegócio, ao invés de realçar a realidade dos pequenos agricultores e as formas diferenciadas de uso da terra no contexto da crise climática. A falta de reportagens em 2024 não se justifica, pois haviam dados disponíveis em órgãos como a Emater/RS-AScar, que divulgou ainda em junho de 2024 que mais de 206 mil propriedades rurais foram afetadas pelas enchentes no RS.
Embora seja responsável por grande parte dos alimentos que chegam à nossa mesa, a agricultura familiar quase sempre é esquecida nas coberturas jornalísticas sobre tragédias climáticas. Ou, ao menos, é a última a ser lembrada. Os agricultores perderam tudo com a enchente: a plantação, o sustento, o chão e suas casas. Mas não perderam a esperança e buscam se reerguer, mesmo diante da invisibilidade imposta pelos veículos hegemônicos.
* Graduanda em Jornalismo na UFSM, integrante do PET Educom Clima (UFSM), bolsista do Fundo de Incentivo à Extensão (FIEX), E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br
** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br
Série de reportagens produzida pela Agência Brasil aborda o histórico fenômeno climático sem tratar de meio ambiente
Isabelle Rieger/Sul21
Por Luciano Moraes Velleda*
A efeméride de um ano da enchente que devastou o Rio Grande do Sul em 2024 ganhou destaque na mídia nacional nos últimos dias de abril e no começo de maio. A Agência Brasil, uma agência pública de notícias vinculada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), enviou o repórter Pedro Rafael Vilela ao estado para produzir uma série de 11 reportagens, publicadas entre os dias 27 de abril e 1º de maio.
Ao todo, o material inclui duas entrevistas com prefeitos (o mandatário da Capital, Sebastião Melo, e o prefeito de Cruzeiro do Sul, Cesar Leandro Marmitt), duas reportagens tendo construções como personagens (o Mercado Público de Porto Alegre e um casarão/restaurante em Arroio do Meio que resistiu a enchente), uma entrevista com o secretário da Casa Civil do governo federal para o apoio à reconstrução do RS, Maneco Hassen, além de outra reportagem dando conta dos embates políticos entre a União e o governador Eduardo Leite devido a demora para o início dos projetos de proteção contra cheias nas cidades da região metropolitana – o governo federal disponibilizou R$ 6,5 bilhões para essa finalidade, mas nenhum centavo foi usado até agora, sendo que cabe ao governo estadual elaborar e executar os projetos.
A série de reportagens ainda inclui uma breve análise da situação do RS um ano depois, entre o caos da tragédia e o esforço de recuperação, assim como quatro matérias focadas no problema de moradia das milhares de pessoas que perderam suas casas e ainda lutam para ter uma nova residência.
Embora trate de uma tragédia climática, as reportagens não abordam os muitos aspectos ambientais do RS que emergiram junto com as águas no último ano. Sem essa importante contextualização, as matérias focam em dados objetivos da reconstrução do estado, como investimentos em obras para recuperação da infraestrutura, incluindo os sistemas de proteção contra cheias e, principalmente, os números dos programas habitacionais que tentam dar conta de atender milhares de pessoas que perderam suas casas. Embora divulgue bons dados do cenário atual da reconstrução, no conjunto, a série peca pela ausência de visão ambiental da tragédia.
As duas entrevistas com os prefeitos chamam a atenção. No caso do prefeito de Porto Alegre, a reportagem não aborda nenhuma das questões polêmicas que envolvem as responsabilidades da Prefeitura na dimensão da tragédia. O caminho escolhido pelo repórter foi dar voz ao prefeito para tratar da reconstrução dos diques e comportas que compõem o sistema de proteção da Capital, assim como os entraves no avanço dos projetos de moradia.
O prefeito da Capital também diz que as causas do alagamento não foram as casas de bombas que não funcionaram – cuja manutenção é sua responsabilidade –, preferindo enfatizar que o problema da enchente na cidade foi a falha de proteção dos diques, construídos há muitas décadas, compondo um discurso que o isenta de responsabilidade – ainda que a manutenção dos diques e comportas também esteja sob a alçada do governo municipal. Apesar de haver informações de especialistas que contestam a análise do prefeito, a entrevista não o questiona nesse sentido.
A ausência de uma postura mais incisiva do repórter tem sido uma característica da Agência Brasil, que não costuma confrontar de modo mais veemente suas fontes. Embora, ressalte-se, não há nada que estabeleça que uma agência pública deve ser menos contestadora.
Bem diferente é a entrevista com o prefeito de Cruzeiro do Sul, Cesar Leandro Marmitt. Sincero, ele conta não ter recurso para contratar um terceiro engenheiro para trabalhar nos projetos de moradia que irão reassentar centenas de famílias que perderam suas casas, diz não ter sequer um ginásio para ser um ponto de referência num plano de contingência e afirma não ter dúvidas de que a sua cidade e outras do Vale do Taquari, não têm condições de enfrentar novamente um cenário parecido com o de 2024. “Com todas as palavras, eu vou dizer, nós não estamos preparados para enfrentar uma nova cheia deste porte. Não estamos preparados mesmo”, disse.
A franqueza do prefeito de Cruzeiro do Sul dá a dimensão da dificuldade e dos desafios das cidades gaúchas para se recuperarem da tragédia e se prepararem para não sofrer algo semelhante novamente no futuro. Essa possível abordagem, todavia, não é tratada nas reportagens.
O aspecto mais humano da série está nas matérias cujo enfoque é a situação de moradia das vítimas da enchente. Mesclando dados dos projetos e programas habitacionais com histórias de vida, as reportagens mostram a ausência do lar como um dos aspectos mais dramáticos da trágica enchente. Ao todo, a série da Agência Brasil traça uma breve síntese da atual situação habitacional das vítimas da maior chuva já registrada no RS, ao mesmo tempo em que passa ao largo das muitas e importantes questões ambientais que afligem o território gaúcho.
*jornalista, sócio do Sul21, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.
O Marco de Sendai, documento internacional orientado para prevenir e reduzir os riscos de desastres, instituído em 2015, aponta como uma de suas prioridades “melhorar a preparação para desastres para uma resposta efetiva e ‘reconstruir melhor’”, ou seja, tornar a infraestrutura mais resiliente do que era antes do desastre. Contudo, depois do ápice das inundações que afetaram o Rio Grande do Sul, como a imprensa tem fiscalizado essa reconstrução?
A relação entre jornalismo e políticas públicas, especialmente no contexto dos desastres climáticos, exige uma cobertura contínua e aprofundada diante da perspectiva da construção de cidades resilientes. Aqui a ideia de watchdog (Traquina, 2005), que se refere à vigilância e ao monitoramento de decisões públicas, se faz especialmente relevante.
Observando a cobertura da reconstrução do desastre climático que ocorreu em maio de 2024, perguntamos: O jornalismo local gaúcho tem se debruçado sobre essa questão? Se sim, de que forma?
Realizamos uma breve análise da cobertura sobre o tema entre o período de 1º de janeiro e 6 de fevereiro, feitas por GZH, Correio do Povo, Brasil de Fato e Sul 21, neste início de 2025, e identificamos não apenas diferentes abordagens sobre o tema, mas também lacunas significativas no tratamento da questão. Para identificar os conteúdos, utilizamos os buscadores dos próprios veículos, com as seguintes palavras-chave: enchentes, reconstrução, prevenção e resiliência.
A cobertura da GZH sobre a reconstrução tem sido abordada de forma fragmentada, com ênfase nas colunas de opinião e, portanto,com menos notícias e reportagens. Ao que indica, o jornal delegou aos colunistas a responsabilidade de cobrir a fase da reconstrução. Os conteúdos tratam de atrasos de editais, dificuldades burocráticas e desafios econômicos, como:
Já o Correio do Povo adota uma abordagem centrada em números e dados sobre investimentos e andamento das obras de infraestrutura realizadas pelo Estado, como a construção de pontes e rodovias. As matérias limitam-se a trazer informações sobre prazos e investimentos, como:
Ao destacar o andamento das obras e as parcerias público-privadas, o Sul 21 indica que a reconstrução está sendo conduzida por meio de parcerias público-privadas e financiamento de grandes agentes econômicos, em vez de ações exclusivamente governamentais. O portal enfatiza a reconstrução da cidade, questionando quem financia e conduz esse processo. A reportagem “Do Gasômetro ao Lami, reconstrução da orla é feita por contrapartidas de grandes empreendimentos” (20 de janeiro) sugere que o setor privado tem um papel central na recuperação da orla, levantando possíveis implicações sobre desigualdade no acesso e interesses econômicos.
O jornal também dá visibilidade à responsabilização do Estado e aos direitos da população atingida. A matéria “Advogados defendem indenização pelo Estado a vítimas de enchentes” (31 de janeiro) coloca em pauta a necessidade de reparação, levantando uma discussão sobre omissões governamentais.
No entanto, a reconstrução do estado também deve ser tratada pela perspectiva da emergência climática, recorte que amplia a discussão, conectando o desastre a fenômenos globais e reforçando a necessidade de adaptação, mitigação e resiliência. Os conteúdos encontrados, em sua maioria, reportam o andamento da recomposição da infraestrutura, sem discutir se são obras pensadas para serem melhores do que aquelas destruídas pelo desastre.
A reconstrução de uma cidade após um desastre não deveria deixá-la como era antes. Quando falamos em “cidade resiliente”, estamos nos referindo a um conjunto de práticas e políticas que não apenas restauram o que foi perdido, mas também preparam as cidades para enfrentar futuros eventos climáticos com maior eficácia e menos impacto. Nesse contexto, surge uma questão central: o jornalismo local está questionando se as ações implementadas na reconstrução do estado buscam realmente fortalecer a resiliência das cidades, ou se, ao contrário, estão apenas buscando devolver os municípios ao seu estado anterior, mantendo o status quo e perpetuando um ciclo de vulnerabilidade climática?
Se a cobertura jornalística local se limitar a cobrir o processo de reconstrução sem considerar as mudanças climáticas, falhará em trazer para o debate público as necessidades de adaptação das cidades aos novos desafios. A verdadeira resiliência vai além da reconstrução de casas, pontes e rodovias; ela implica em transformar as cidades para que sejam preparadas para enfrentar as consequências das mudanças climáticas de forma mais eficiente. Isso inclui, por exemplo, a implementação de infraestrutura verde, como áreas de drenagem natural, reflorestamento de encostas e a criação de espaços urbanos que absorvam as águas das chuvas, além de políticas de planejamento urbano que priorizem a adaptação ao clima.
O jornalismo local pode questionar se as ações de recuperação estão atendendo a essas necessidades mais profundas e estruturais ou se estão sendo apenas paliativas. A falta de uma abordagem crítica nas coberturas jornalísticas pode resultar em uma “amnésia coletiva”, onde a sociedade, movida pela urgência da reconstrução imediata, não consegue enxergar a longo prazo. O jornalismo, como um mediador do debate público, deve estar atento a como as cidades estão sendo reconstruídas, de modo que consigam enfrentar os riscos climáticos já previstos.
Referência:
TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo: Porque as notícias são como são. Vol. I. Florianópolis: Editora Insular, 2005.
*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.
**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.
Após as enchentes que submergiram parte do Rio Grande do Sul em maio de 2024, agora o estado se encontra diante de mais um evento climático: ondas de calor extremo. Enquanto os efeitos das cheias ainda são sentidos, o aumento das temperaturas intensifica ainda mais os desafios enfrentados pela população gaúcha.
O Jornalismo desempenha um papel fundamental ao informar a população sobre os riscos das mudanças climáticas e ao cobrar medidas efetivas de governantes. Mais do que noticiar recordes de temperatura, é essencial discutir caminhos para enfrentá-los.
Na abertura doJornal do Almoço, que foi ao ar no dia 10, a jornalista e apresentadora Cristina Ranzolin levantou a seguinte questão: “Os cientistas garantem que o calor extremo deve se tornar cada vez mais frequente, mas será que nós estamos preparados? Não é necessário termos planos emergenciais para enfrentar essas temperaturas? Leis e medidas que alterem o horário de trabalho, que prevejam distribuição de protetor solar, enfim, que nos protejam e adaptem a nossa rotina a essa nova realidade?”.
Para debater sobre o que as cidades precisam fazer para enfrentar esse clima extremo, o JA convidou um grupo de especialistas: o climatologista da UFRGS, Francisco Eliseu Aquino; o especialista em saúde e segurança do trabalho, Luiz Alfredo Scienza; o deputado e vice-presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa, Airton Artus; e o vice-presidente da Famurs, Márcio Amaral.
O debate – que abordou questões como gestão pública, infraestrutura, plantio de árvores e legislações trabalhistas diante das alterações climáticas – se estendeu ao longo de todo o programa, intercalado por outras notícias. A iniciativa é positiva, pois insere o assunto em diferentes momentos do noticiário, inclusive estando presente no espaço de comentaristas – Rodrigo Lopes critica a posição do Governo do Estado em relação à organização do início das aulas.
Porém, mais do que falar de medidas paliativas, para encarar o calor extremo, valeria recordar o que vem contribuindo para gerar esse problema. É importante trazer medidas que possam mitigar os efeitos de ondas de calor, porém a perspectiva do factual, que se centra nos efeitos imediatos, deve ser alargada pelo Jornalismo.
Uma das soluções apresentadas no telejornal, a instalação de mais aparelhos de ar-condicionado, para permitir o conforto térmico diante de altas temperaturas, colabora para o incremento das mudanças climáticas. Estima-se que o uso desses aparelhos seja responsável por 10% do consumo global de energia e entre 4% e 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, de acordo o National Renewable Energy Laboratory e o Observatório Regional de Energias Renováveis da Cepal.
Quando se fala da necessidade de alteração da legislação trabalhista, por exemplo, um dos especialistas aponta para a necessidade de reconhecer os riscos das mudanças climáticas e seus impactos na saúde dos trabalhadores. Sem a percepção de riscos, é difícil que haja preocupação em mudar algo ou de se pensar em formas de evitá-lo. A imprensa é um espaço de visibilidade desses riscos, sendo relevante tratar deles antes que eles se transformem em algo concreto — nesse caso, o calor extremo. O que tem nos deixado mais vulneráveis às mudanças do clima? Que os próximos eventos possam ser debatidos em sua complexidade antes de sentirmos na pele uma das manifestações da crise climática.
*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.
**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.
O fim de ano se aproxima e neste momento a imprensa já se organiza na tarefa de realizar reportagens especiais, retrospectivas e trazer perspectivas para o próximo período. Ao pensar sobre 2024, poderíamos dizer que foi um ano de extremos, mas 2023 já havia sido. Ano passado, o jornal O Globo titulou assim o seu especial: “2023, o ano em que o futuro de extremos e fúria das mudanças climáticas se tornou o presente: Furacões no deserto, dilúvios e longas ondas de calor de mais de 40ºC assolaram o planeta”.
Observando a cobertura do desastre socioambiental do Rio Grande do Sul em 2024 e também como o tema da emergência climática impactou o debate público, político e eleitoral em Porto Alegre, apontou-se que, embora a população esteja mais preocupada com o tema, não demanda dos representantes que estes estejam comprometidos com as ações ambientais, tanto para a diminuição das emissões, quanto para a prevenção e adaptação aos eventos extremos. O jornalismo, portanto, não pode abrir mão da interpretação dos fatos, não deve apenas noticiar as tragédias, trazendo comoção quando a cidade estava debaixo d’água, mas necessita aprofundar e complexificar essa pauta. Como anotaram Isabelle Rieger e Ilza Girardi, o jornalismo, de maneira geral e com algumas exceções, deixou de apontar o desastre climático de forma mais aprofundada no cenário eleitoral, relacionando os projetos em disputa, e de como as escolhas e definições das políticas públicas e dos representantes eleitos são parte do problema ou da solução. O jornal Correio do Povo, em análise de Sérgio Pereira, mereceu reconhecimento ao fazer entrevistas aprofundadas com as candidaturas debatendo a questão das enchentes na capital.
Entre as principais notícias ambientais de 2024, tivemos também a intensificação de queimadas e a crise climática em diversos biomas brasileiros, particularmente na Amazônia, com uma seca histórica. Por exemplo, de janeiro a outubro, a WWF divulgou que os incêndios “cresceram 51% na Amazônia, 69,5% no Cerrado e 639% no Pantanal em comparação ao mesmo período em 2023”. As queimadas, em grande parte criminosas, aumentam os níveis de gases de efeito estufa e ameaçam a biodiversidade e a saúde pública, além de gerar impactos econômicos significativos. São muitos fatos graves neste cenário e o público pode ter dificuldade em acompanhar, daí porque Débora Gallas indica a necessidade de o jornalismo apontar e debater soluções para as crises, estabelecendo um ponto de análise para a ação.
2024 efetivamente não ficará esquecido, pois foi o ano mais quente já registrado no Hemisfério Norte, como noticiou o GZH. Estes dados saltam em vários noticiários mundo afora, assim como o espaço para as conferências internacionais. A revista Carta Capital avalia que “novembro é um mês decisivo para a agenda climática global: saímos da COP 16 de biodiversidade, em Cali, na Colômbia, e seguimos para a reunião do G20 no Rio de Janeiro, a COP 29 em Baku, Azerbaijão”. Ou seja, de ano a ano, o mundo assiste às Conferências ambientais que entregam anúncios e acordos, porém com pouco impacto, já que são dificilmente convertidos em ações efetivas. Um outro exemplo, sobre a definição de como se dará o financiamento para a transição energética, tema discutido há décadas sem acordo efetivo. Com isso, o lobby do petróleo se mantém forte como podemos observar no caso brasileiro, mesmo o país sendo a sede da COP 30 em 2025 na cidade de Belém (PA), há disputa interna no governo Lula sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas no litoral do Amapá. Apesar de um recente parecer pelo indeferimento da licença ambiental, assinado por 26 técnicos, como noticiou o Clima Info, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) deu prosseguimento ao processo. Na reportagem da DW, ficam evidentes os possíveis prejuízos ambientais de tal empreendimento, e de como o caso da Foz do Amazonas pode abrir precedentes para facilitar outros licenciamentos questionáveis, assim trazendo um contexto importante ao leitor.
De uma maneira geral, encontramos diariamente notícias ambientais e climáticas, em função de que os efeitos do aquecimento global e da superexploração da natureza exaurem os limites do planeta e já fazem parte do nosso cotidiano. O jornalismo em várias frentes está atuante. No entanto, é preciso refletir sobre as formas de abordagem destes temas, para que as pessoas consigam exercer a cidadania plena de direitos, que inclui o direito ao ambiente equilibrado e à participação nas definições das políticas ambientais. Se a era dos extremos climáticos já chegou, no jornalismo é preciso abandonar a superficialidade na abordagem ambiental e climática, para dar lugar ao olhar sistêmico, como um exercício diário para a compreensão do que está em jogo na pauta climática. Portanto, cada vez mais o jornalismo precisa manter o foco para uma cobertura complexa, que evidencie os interesses, conflitos, causas, consequências, desafios e soluções.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br
Imagem: Valência/Espanha, 30/10/2024 , uma enchente repentina em Valência, no leste da Espanha, deixou ao menos 92 pessoas mortas, segundo as autoridades locais. A força das águas arrastou carros, transformou ruas de vilarejos em rios e interrompeu linhas ferroviárias e rodovias. /RS/Fotos Públicas
Por Míriam Santini de Abreu*
“Devastadora”, “trágica”, “catastrófica” e “apocalíptica” são adjetivos que a imprensa espanhola está usando para se referir aos efeitos da já caracterizada “maior chuva do século”, que devastou principalmente a comunidade de Valência. A imprensa brasileira também tem se utilizado dos mesmos adjetivos na cobertura. Postagens nas redes sociais estão divulgando notícias vindas do país europeu e associando o fato com as enchentes de abril/maio no Rio Grande do Sul. É oportuno, portanto, analisar a cobertura jornalística espanhola para investigar como estão posicionados os debates sobre a crise climática e a relação com a violenta DANA (depressão isolada de alto nível), fenômeno provocador das violentas chuvas e que ocorre quando o ar frio desce sobre as águas quentes do Mar Mediterrâneo.
Às 18h45 desta quarta-feira (30), o jornal El Mundo o assunto na capa, enquanto no El País, cujo slogan é “El periódico global”, as notícias mais bem posicionadas tem relação com a eleição presidencial nos Estados Unidos. No El País, a matéria principal, intitulada “95 muertos y decenas de desaparecidos en la peor gota fría del siglo en España”, destaca o mesmo fato do El Mundo, o número já confirmado de mortos: “Al menos 95 muertos y decenas de desaparecidos por la DANA”.
O El Mundo traz como primeira retranca outro fato que certamente irá merecer farta cobertura nos próximos dias: a demora do acionamento do sistema de alerta de Valência. O jornal também dá destaque para os motivos pelos quais a DANA foi tão violenta. A notícia traz análises de meteorologistas e destaca-se o seguinte trecho: “En este episodio, ha influido también un factor muy vinculado al cambio climático: la temperatura del agua del mar, pues en la costa de Valencia estaba entre un grado y dos por encima de la media en esta época del año. ‘No es una anomalía tan significativa como la de otros momentos del año, pero sin duda ha contribuido a que haya habido más lluvia’, afirma.”
Captura de tela das capas do El País e El Mundo às 18h45 de 30/10/2024
O El País aborda o fato em uma retranca de dois parágrafos na qual afirma que oMediterrâneo mais quente que o normal, para esta época do ano, é a chave para a virulência das chuvas.
Os dois veículos trazem reportagens descritivas sobre os impactos da DANA em diferentes localidades, medidas imediatas das autoridades públicas, serviços disponíveis aos atingidos, previsão meteorológica para as próximas horas e postagens de redes sociais feitas por moradores. Do ponto de vista da crítica da cobertura jornalística, seriam de grande valia estudos mais aprofundados para comparar o trabalho desenvolvido pelos jornais e jornalistas espanhóis com o dos congêneres do Rio Grande do Sul, a partir das premissas do jornalismo ambiental.
* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente
O site de notícias independente Sul21 publicou, às vésperas do primeiro turno das Eleições 2024, a série de reportagens “Raio-X das Periferias” sobre as principais demandas de moradores dos quatro bairros mais populosos de Porto Alegre para o período eleitoral. A iniciativa, que incluiu os bairros Rubem Berta, Restinga, Sarandi e Lomba do Pinheiro (veja em bit.ly/3Ny1G25), é um exemplo significativo para relacionar cotidiano, espaço e pauta ambiental em tempos nos quais a população elege seus representantes na dita (e tão limitada) democracia representativa.
Imagem: Print da timeline do site do jornal Sul21
No senso comum, cotidiano é o que ocorre todos os dias, o banal, o corriqueiro, o repetitivo. Mas nele também nasce a ruptura, a possibilidade de transformação social. O novo, afinal, emerge no cotidiano, e é no espaço que esse cotidiano, em sua riqueza e miséria, se realiza. As transformações pelas quais passa o jornalismo como fazer profissional e também como negócio, porém, afastam o jornalista do cotidiano e do espaço. Redações cada vez mais enxutas levam a coberturas magras, parte delas feitas por telefone ou redes sociais, levando portais noticiosos a terem “cara” de vitrine para boletim de ocorrência.
Em sentido oposto, a série do Sul21 traz diversidade de fontes e descrições expressivas do cotidiano e do espaço geográfico dos quatro bairros, onde aparece a errância de populações continuamente expulsas ou em busca de melhores condições de vida, situação agravada pela penosa tentativa de recuperação depois das enchentes catastróficas que atingiram o Rio Grande do Sul.
A debilidade dos serviços públicos, as dificuldades de locomoção, a falta de opções de lazer – todas elas relacionadas à pauta ambiental – vão sendo apresentadas ao longo das entrevistas para expor o abandono do poder público, as promessas que não se cumprem, as tentativas de organização popular para superar as carências do cotidiano. Aparecem ainda as conquistas via Orçamento Participativo, mas também as críticas aos limites deste instrumento de liberação de recursos públicos.
A série utiliza dados do Atlas de Vulnerabilidade Social desenvolvido no curso de Geografia da UFRGS, informação do mundo acadêmico a serviço da interpretação jornalística do espaço geográfico. Na reportagem sobre o bairro Rubem Berta, aparece menção ao jornal comunitário local Fala Cohab, a revelar o papel ainda vivo da comunicação comunitária. A série de reportagens “Raio-X das Periferias” é mais uma a confirmar o importante papel do Sul21 no jornalismo gaúcho e regional. Que as vozes que carrega em seus textos tão bem encaixados sejam ouvidas e levadas em conta por quem comandar Porto Alegre pelos próximos quatro anos.
* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente
A cobertura jornalística das eleições municipais de 2024 em Porto Alegre, no primeiro turno, revelou uma abordagem desigual ao pautar temas ambientais na agenda pública – como as enchentes de maio. Embora tenha sido um evento de grande impacto para a cidade, que poderia e deveria ter permeado o debate político, os principais veículos de comunicação da capital trataram o tema de forma bastante heterogênea e com pouca relevância.
Este é um dos resultados preliminares do estudo desenvolvido por pesquisadores de dois observatórios com sede na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Observatório de Jornalismo Ambiental (OJA) e o Observatório de Comunicação Pública (OBCOMP). No estudo, buscamos mapear como, durante a campanha eleitoral, o tema das enchentes – de forma específica – e a crise do climática – de maneira mais ampla – aparecem como pauta na agenda pública, tanto no discurso dos candidatos durante o Horário de Propaganda Eleitoral Gratuita (HPEG) quanto na cobertura jornalística sobre o pleito municipal. A Investigação, que segue durante o segundo turno, reúne 17 pesquisadores e discentes dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas da UFRGS.
O estudo se justifica tanto pela magnitude das enchentes ocorridas em maio de 2024, quanto pelos sucessivos eventos climáticos registrados na cidade nos últimos anos, que evidenciam que as mudanças no clima são temas e acontecimentos do presente. Além disso, esta é a principal preocupação da população de Porto Alegre, de acordo com os dados da pesquisa realizada pelo Instituto Quaest, divulgada em 27 de agosto de 2024, que perguntou aos eleitores “quais são os problemas mais graves da cidade?”. O tema das enchentes e alagamentos apareceu em primeiro lugar com 33%.
Na observação da cobertura jornalística, acompanhamos a produção sobre eleições nos jornais Correio do Povo, Matinal Jornalismo, Sul21 e Zero Hora, entre os dias 16 de agosto a 06 de outubro, durante o primeiro turno, e seguimos entre 07 e 27 de outubro, durante a cobertura do segundo turno. Além disso, coletamos as entrevistas concedidas pelos oito candidatos à prefeitura de Porto Alegre ao Jornal do Almoço, da RBSTV, no primeiro turno, e pelos dois candidatos que disputam o segundo turno. A escolha dos veículos observados se justifica pela relevância que têm no cenário comunicacional na capital gaúcha, seja por se tratarem de redações mais tradicionais ou jornalismo de referência (Zamin, 2015) – no caso do Correio do Povo e Zero Hora – seja por serem redações independentes e nativas digitais – como Matinal Jornalismo e Sul 21. A escolha das entrevistas para o Jornal do Almoço se justifica pela audiência do telejornal.
Os números da coleta no primeiro turno apontam 293 reportagens, matérias ou notas sobre as eleições municipais nos quatro veículos, sendo 75 relacionadas ao tema do desastre climático na cobertura das eleições. Quanto ao material audiovisual, ou seja, as entrevistas realizadas com os candidatos à prefeitura durante o Jornal do Almoço (RBSTV), a coleta resultou em 56 minutos de gravação. A observação segue até o dia 27 de outubro. Entre os dias 07 e 16 de outubro, os dez primeiros dias da campanha de segundo turno, coletamos 115 materiais noticiosos, sendo que 18 tratam das cheias e suas consequências, nos veículos observados. A tendência segue a mesma do primeiro turno: Correio do Povo com maior número de notícias que relacionam as eleições e o desastre climático, com 11 de 63 materiais identificados; Zero Hora, com 6 reportagens/notícias de 30 identificadas; Sul21, com 1 de 20 matérias sobre as eleições e Matinal Jornalismo não publicou nenhuma reportagem que relacione eleições e enchentes. Em relação ao material audiovisual, coletamos 32 minutos de gravação das entrevistas concedidas ao Jornal do Almoço (RBSTV) pelos dois candidatos que disputam o segundo turno na capital gaúcha.
Os dados consolidados sobre a coleta no primeiro turno são os seguintes: O jornal com maior número de reportagens e matérias sobre eleições que correlacionam o tema do desastre climático é o Correio do Povo, com 54 materiais noticiosos; seguido de Zero Hora, com 18; Matinal Jornalismo, com dois; e Sul21 com 1. Importante esclarecer que, por materiais noticiosos, entendemos reportagens, matérias, notas e entrevistas, desde que se refiram às eleições e ao desastre climático. Não entram, portanto, reportagens sobre ações da prefeitura ou do governo do estado voltadas à reconstrução ou reparação de estruturas da cidade que não estabeleçam vinculação com as eleições. Outra nota de esclarecimento importante a ser feita é que, nestes dados, consideramos o veículo matriz como locus de coleta, ou seja, a edição impressa de Zero Hora e Correio do Povo (em versão digital), e as reportagens publicadas nos sites de Matinal Jornalismo e Sul21. No caso do Matinal Jornalismo, newsletters e material não publicados no site não foram incluídos na coleta de dados. No quadro abaixo, temos uma apresentação gráfica dos resultados quantitativos da coleta do primeiro turno.
Gráfico 1 – Dados quantitativos de materiais noticiosos que
relacionam eleições e desastre climático
Fonte: OJA/UFRGS
Na continuidade da pesquisa, já com os dados quantitativos do segundo turno, incluiremos também uma análise qualitativa do conteúdo do material noticioso coletado.
Os dados coletados, até o momento revelam como os veículos de comunicação de Porto Alegre lidam de maneira diversa com o tema das enchentes no contexto eleitoral. A falta de uma integração mais consistente do tema no debate público em torno das eleições municipais sugere que um evento climático dessa magnitude, com profundas repercussões na vida urbana, ainda não foi suficientemente problematizado. Se, por um lado, o Correio do Povo, se destacou pela abordagem quantitativa do tema, outros veículos parecem tê-lo tratado como secundário no debate eleitoral. Essa divergência na cobertura aponta para a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre o papel do jornalismo em articular eventos climáticos com o futuro político e administrativo das cidades. A percepção preliminar, sem ainda uma análise qualitativa do material coletado, é que faltou um enquadramento na cobertura jornalística sobre as enchentes – de modo específico – e a mudança no clima – de modo geral – considerando as diferentes etapas de ação da gestão pública municipal quando falamos de emergência climática. Refiro-me aos diferentes estágios, como as ações de emergência, aquelas que cabem durante o acontecimento; as ações de prevenção, cujo objetivo é evitar novos desastres climáticos; ações de mitigação, voltadas para reduzir o impacto de eventos climáticos extremos que, ao que tudo indica, se tornarão cada vez mais frequentes; e, por fim, ações de adaptação, necessárias pelas mesmas razões pelas quais projetamos ações de mitigação.
A colunista de Zero Hora, Rosane de Oliveira, na coluna “Política e Poder” publicada no dia 03 de outubro, chama a atenção para o fato de que “a disputa na capital ignorou a questão ambiental”, com o que concordo totalmente. Porém, cabe também ao jornalismo pautar tais temas, articulando pautas que evidenciem a relação transversal das questões ambientais com saúde, educação, transporte público, infraestrutura urbana, cultura, lazer, enfim, todos os aspectos do viver em um centro urbano. Além de informar, que segue sendo uma função fundamental do jornalismo (Franciscato, 2005; Reginato, 2019), é necessário que o jornalismo cumpra outras funções primordiais — especialmente em tempos em que o jornalismo já não tem a exclusividade no ato informativo. Refiro-me a interpretar e analisar a realidade, ajudando o cidadão comum a entender o mundo contemporâneo. Como observa Gisele Reginato (2019): “O jornalismo deve interpretar e analisar a realidade, avaliando os fatos que acontecem e explicando-os de forma aprofundada à sociedade. É seu papel contextualizar as informações, fazendo relações entre passado e presente, entre causas e consequências”. Infelizmente, o que observamos é um debate sobre questões ambientais que ficou na superfície ou se voltou para “curiosidades”, sem aprofundamento. Um exemplo disso é uma das questões — a única sobre as enchentes — na entrevista publicada na edição de terça-feira, 08 de outubro, em Zero Hora, com o atual prefeito, que busca a reeleição. Em síntese, foi perguntado se ele tem alguma explicação para o fato de ter tido votação expressiva em bairros afetados pelas enchentes. Com todo o respeito, este é o tipo de questão que dá ao candidato a oportunidade de se auto elogiar e, obviamente, ele não perdeu a chance. Eu faria o mesmo, se fosse candidata. Outra questão que tangenciou o meio ambiente foi sobre a concessão do DMAE para a iniciativa privada, mas não houve desdobramento.
Na entrevista com a candidata de oposição que disputa o segundo turno, publicada na mesma edição de Zero Hora, de 08 de outubro, foi a candidata quem pautou o tema das enchentes. Diante das propostas apresentadas por ela, não houve uma insistência em aprofundar o tema. Por exemplo, poderiam ter sido feitas perguntas como: qual é a proposta da candidata para a redução de emissões de gases de efeito estufa na cidade? Qual o projeto de destinação de resíduos sólidos para Porto Alegre? Ou, ainda, qual a proposta para a substituição do combustível fóssil no transporte público? Enfim, há uma série de questionamentos que o jornalismo pode fazer aos candidatos, se o objetivo é tratar as questões ambientais como centrais para o viver na cidade.
Não é intenção aqui apontar o dedo para o jornalista, mas chamar para uma reflexão sobre a linha editorial que aposta na superficialidade e perde a oportunidade de assumir tarefas tão valiosas ao jornalismo, como de interpretar e analisar a realidade, além de ajudar o cidadão comum a entender o mundo em que vivemos. Se os políticos não pautam as questões ambientais na agenda pública durante as eleições, é papel do jornalismo fazê-lo. A eleição municipal é um momento privilegiado para debatermos e pensarmos em qual cidade queremos habitar, ao assumir o papel de pautar tais temas — que, talvez, as estratégias de marketing dos candidatos queiram ignorar — o jornalismo cumpre um papel fundamental que lhe cabe nas sociedades, ou seja, colocar em primeiro plano o interesse público e contribui para consolidação da democracia e diversidade de perspectivas de como gerir a cidade.
Por fim, penso que é fundamental para nós, do campo acadêmico, pautar e construir currículos em que as questões ambientais e o cenário de mudanças no clima e suas consequências sejam transversais na formação. Preparar jornalistas capazes de atuar profissionalmente em contexto de crise ambiental é uma tarefa para ontem. Estamos atrasados nessa missão. Como observa Ilza Girardi (2018), o jornalismo desempenha um papel essencial na sociedade, tanto ao informar quanto ao educar os cidadãos, fornecendo-lhes os meios para defender seus próprios interesses e os da coletividade. Em tempos de grandes turbulências, com ameaças contínuas ao meio ambiente, um olhar da perspectiva do jornalismo ambiental se torna indispensável, trazendo uma abordagem atenta e comprometida com a proteção da vida em todas as suas formas.
Referências
Franciscato, Carlos E. A fabricação do presente: como o jornalismo reformulou a experiência do tempo nas sociedades ocidentais. São Cristóvão: Editora UFS/Fundação Oviedo Teixeira, 2005.
Girardi, Ilza M. T, et al. Um semestre muito especial: o surgimento da primeira disciplina de Jornalismo Ambiental. Jornalismo ambiental: teoria e prática [ livro eletrônico] / organizado por Ilza Maria Tourinho Girardi … [et al.] – Dados eletrônicos – Porto Alegre: Metamorfose, 2018.
Reginato, Gisele D. As finalidades do jornalismo. Série Jornalismo a Rigor. V.15. Florianópolis: Insular, 2019.