O Fórum Brasileiro de Segurança Pública publicizou na semana passada seu relatório anual, no qual estão compilados os principais dados sobre a violência no Brasil registrada em 2022. O Anuário Brasileiro da Segurança Pública há mais de 15 anos reúne informações oriundas de órgãos oficiais de todos os estados da federação, como as polícias e as secretarias. Os maiores veículos de comunicação enfatizaram as mudanças no panorama nacional, produzindo rankings da violência e destacando seus efeitos sobre os mais vulneráveis. O relatório informa que, a exemplo de 2021, o número de mortes violentas na Amazônia segue crescendo, informação que ganhou certo destaque na imprensa; no ano passado, pouco se repercutiu a especificidade da região em sua escalada da violência, como avaliou este Observatório.
O Anuário indica uma intrincada relação entre os conflitos por terra, o desmatamento e o garimpo ilegal nos estados amazônicos, afirmando que as disputas foram intensificadas pela ampliação da presença do narcotráfico na região. Ou seja, grupos criminosos de grande porte ligados ao tráfico de drogas agora se dedicam também a atividades ilegais historicamente violentas, processo do qual resulta uma associação entre os crimes ambientais e a violência letal.
Ainda que a repercussão do Anuário até aqui tenha sido mais atenta às dimensões ambientais da violência, especialmente na Amazônia, esta ainda parece ser uma lacuna nas coberturas empreendidas pela imprensa. Ao longo do ano, as pautas que dão conta desta relação se resumem à publicização de estudos e relatórios. O crescimento do “narcogarimpo”, problema grave a ser encarado pelo país, pode ser uma oportunidade para que o jornalismo faça transbordar o “ambiente” para além de editorias de sustentabilidade.
*Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.
Notícias recheadas com muitos números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informavam no final da semana passada a queda nos índices de desmatamento na Amazônia. Segundo notícia do site uol, a queda foi de 33,6% no primeiro semestre de 2023, em comparação ao mesmo período do ano passado. Os números foram divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, na quinta-feira, dia 06.
Enquanto, porém, os números de desmatamento na Amazônia Legal estão caindo, como resultado de muitas ações do atual governo, o bioma Cerrado registrou aumento de 21,1% no desmatamento no primeiro semestre. Segundo dados do Deter/Inpe, citados pela notícia da Agência Pública, foram desmatados 4.407,7 km² no bioma até 30 de junho. Somando os índices de Cerrado e Amazônia, foram desmatados 7.056,5 km² entre janeiro e junho, 7,4% a menos do que no mesmo período do ano anterior, quando a soma foi de 7.625,5 km². A notícia também destaca na área do estado de Mato Grosso, que congrega a Amazônia Legal, o desmatamento cresceu 7,1%, ante os seis primeiros meses de 2022, registrando 905,3 km² de corte raso. “O Estado foi o mais desmatado da região – o que não ocorria desde 2017 – e respondeu por 34,1% da perda florestal na Amazônia Legal em 2023. A área equivale a 573 Parques do Ibirapuera”, ressalta o texto. Interessante destacar que Mato Grosso, tem parte do seu território no bioma Amazônia, parte no bioma Cerrado e outra parte no Pantanal.
O site G1 somente publicou sobre o assunto no domingo, dia 09 de julho, e buscou contextualizar o cenário, com o texto: “Porque o desmatamento cai na Amazônia e aumenta no Cerrado?“, ouvindo especialistas e justificando os dados. O texto atribui a redução do desmatamento na Amazônia a retomada das cobranças de multas a infratores ambientais, a intensificação da fiscalização e o retorno da aplicação desembargos em áreas que cometeram crimes ambientais.
Já quanto ao Cerrado, a matéria apresenta como principais desafios: as dificuldades de monitorar autorizações para o desmatamento liberadas por órgãos ambientais regionais, o fato das áreas de cadastro (CAR) liderarem o desmatamento, sendo que 76% dos alertas foram registrados em áreas cujos donos são cadastrados, além da falta de reconhecimento do território ocupado por povos tradicionais, sendo que só 8% do bioma são legalmente protegidos com unidades de conservação. O texto também destaca que o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento no Cerrado ainda está em elaboração, enquanto o plano da Amazônia existe desde 2004.
Uma reportagem publicada, em junho pela BBC Brasil, já destacou esse assunto “Como a destruição do Cerrado é ofuscada por ‘prioridade’ a Amazônia” . O texto traz uma importante reflexão sobre as diferenças de prioridades entre os biomas, como: a legislação mais permissiva no Cerrado em relação a Amazônia e o Código Florestal, que protege 80% da mata localizada em áreas privadas na Amazônia, enquanto apenas 20% a 35% das áreas de Cerrado são reservas legais. Portanto, a lei estabelece uma proporção quase oposta para os dois biomas. Na reportagem, os especialistas argumentam que essas diferenças não fazem sentido “já que as duas áreas estão fortemente relacionadas e dependem uma da outra para sobreviver. Todos os rios da margem direita do Amazonas dependem da água das entranhas do Cerrado.(…) Se o Cerrado morrer, metade da Amazônia morre junto”.
A reportagem faz importantes comparações e reflexões sobre aspectos econômicos, políticos, de legislação e sociais que envolvem o Cerrado. Mostra que o bioma não é considerado patrimônio, como a Amazônia, não é foco de políticas públicas e não desperta atenções internacionais. Consequentemente, também não é pauta da cobertura midiática nacional e internacional.
O texto também caracteriza esse que é o segundo maior bioma brasileiro, mostrando a sua importância na distribuição das águas das bacias hidrográficas e que ele concentra 1/3 da biodiversidade brasileira. Ou seja, é uma reportagem que se contextualiza com profundidade o tema, o que é fundamental, pois como dizem os especialistas no texto: “A população não conhece o Cerrado e, portanto, não luta para defendê-lo”. E neste aspecto os veículos jornalísticos tem responsabilidades. Enquanto a Amazônia está na pauta dos principais veículos de comunicação nacionais e internacionais, qual é o espaço que o bioma Cerrado ocupa? Quando se fala da sua biodiversidade? Da importância dele para a regulação do clima? De suas características de raízes profundas para a manutenção das águas subterrâneas? Da sua importância para a produção de alimentos?
*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.
Esta segunda, 3 de julho de 2023, recebeu o título de “dia mais quente da história”, de acordo com as medições da temperatura média global realizadas desde 1979 pelos Centros Nacionais de Previsão Ambiental dos Estados Unidos. Diversos veículos do Brasil e do Exterior, repercutiram o ineditismo, explicando se tratar de um efeito direto das mudanças climáticas e do El Niño, fenômeno que provoca o aquecimento do Oceano Pacífico e influencia eventos como chuvas, ventos e oscilações de temperatura em todo o planeta.
O triste recorde, no entanto, foi superado na terça-feira, dia 4, quando o planeta alcançou a temperatura média de 17,18°C, ultrapassando os 17,01°C do dia anterior. A notícia do portal g1 publicada em 5 de julho destacou o derretimento de gelo no Ártico por conta do calor e foi um dos artigos mais lidos do dia, dividindo o Top 5 com o noticiário de entretenimento e polícia.
O crescente interesse do público pela temática corresponde à percepção cotidiana de que o clima do planeta está cada vez mais diferente – e imprevisível. Publicada no mês passado, pesquisa do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) Rio e Ipec Inteligência atesta que 86% da população brasileira relaciona o aquecimento global com a maior ocorrência de desastres ambientais, como noticiou a coluna Pensar a Cidade, do Jornal do Comércio.
De fato, de Norte a Sul, os efeitos das mudanças climáticas se intensificam e ganham destaque nos jornais. Amazônia e Cerrado registraram, no mês de junho, o maior número de queimadas em 16 anos, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Isso em plena estação de chuvas no Norte do país, como observa matéria do Estadão. Enquanto isso, o Rio Grande do Sul, que ainda nem se recuperou do ciclone extratropical ocorrido no dia 16 de junho, deve ser atingido por outro evento semelhante, ainda que de proporções menores, nesta semana, relata GZH.
A população já percebe a conexão entre eventos climáticos extremos com as mudanças globais do clima descritas pela comunidade científica. O jornalismo já aborda as constatações sobre as alterações climáticas reconhecendo seu valor noticioso. O que mais fazer então para mobilizar a sociedade rumo à adaptação e à mitigação desses efeitos? Como descrito anteriormente nesse Observatório, políticas públicas de enfrentamento às mudanças climáticas ainda não são devidamente abordadas pelo jornalismo, que pode assumir seu compromisso com o interesse público ao cobrar posicionamento dos gestores de todas as esferas do poder.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.
A boa notícia foi confirmada na última semana: Belém do Pará foi oficializada como a sede de realização da Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas de 2025, a COP30. Pela primeira vez a Amazônia receberá uma conferência internacional deste porte sobre o clima, permitindo um contato “direto” da comunidade internacional com o principal agente climático brasileiro, que é a floresta mantida em pé (assim como os demais ecossistemas da rica biodiversidade brasileira quando são conservados). Espera-se a visita de cerca de 50 mil pessoas na cidade durante os dias do evento, divulgou a Agência Brasil, nesta que será a COP que marca os 10 anos de assinatura do Acordo de Paris.
O anúncio da sede foi acompanhado da assinatura das primeiras obras na cidade e da divulgação do montante a ser financiado pelo BNDES: cerca de R$ 5 bilhões em projetos de infraestrutura, cuja ênfase será na criação de uma Belém carbono neutro, nas palavras do presidente do banco, Aloizio Mercadante, conforme noticiou o Portal UOL. O projeto do governo paraense abarca a agenda de mobilidade urbana, com corredores de ônibus elétricos ou à gás, para redução da emissão de carbono; saneamento básico — neste caso, vale notar, o objetivo é fazer a concessão à iniciativa privada; da rede hoteleira. Por fim, preveem ainda a reforma e criação de novas áreas de lazer: além da reestruturação do histórico mercado Ver-o-Peso, a primeira obra já foi assinada pelo governo federal, e trata-se da obra de um enorme parque verde na bacia do Una, no canal de São Joaquim, com construção de áreas de lazer e investimento em saneamento da região.
Ainda é cedo para exigir análises e reportagens profundas da mídia sobre os empreendimentos, mas experiências brasileiras passadas devem nortear o caso. Não é a primeira vez que um megaevento internacional ambiental numa cidade brasileira traz, a reboque, financiamentos para obras “ambientais” na sede. O caso exemplar foi a realização da imponente Eco-92, no Rio de Janeiro, quando anunciaram as bases de financiamento do grandioso Programa de Despoluição da Baía de Guanabara. Também na ordem dos bilhões, as estações de tratamento de esgoto construídas seguem, décadas depois, operando muito abaixo de suas capacidades — e a baía está longe de ser despoluída, mesmo com uma Olimpíada em 2016 e novas promessas no caminho.
Que o exemplo do Rio de Janeiro em 1992 (e em 2016, na Olimpíada) sirva para Belém em 2025: o financiamento de obras de infraestrutura e com cunho ambiental pode partir de eventos internacionais como impulso, mas as obras devem ser finalizadas e efetivamente servir à população. A atuação do jornalismo, seja local ou nacional, que se propõe ambiental, não pode se limitar à cobertura da conferência em si e de seus bastidores: é preciso estar atento e cobrar a revitalização, para o povo, de uma das capitais mais importantes do Brasil.
* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.
A Primavera parece realmente inspirar reflexões ecológicas. No dia 23 de setembro de 1971, o extinto jornal Folha da Manhã1, em sua edição nº 563 (Ano II), publicou uma coluna assinada pelo jornalista Jefferson Barros, que convidava o leitor a participar do “jôgo da Ecologia” (grafia original). Barros ressaltava que a data marcava a entrada de um equinócio, e o jogo serviria “para festejar a chegada da primavera” brincando, pois a data era, “antes de tudo, uma estação de jogos, brinquedos e divertimento”. Ainda que em um estágio bastante inicial, ao menos no Brasil2, é possível perceber ali o nascimento de uma cultura jornalística que ensaiava as primeiras linhas textuais de um até então incipiente – ou mesmo insipiente, neste caso específico – jornalismo ambiental. Você pode ajudar a definir melhor aquele momento quando ler, mais abaixo, a reprodução de parte do “Jôgo Ecológico”, conforme Barros intitulou sua coluna.
Cabe contextualizar antes, aqui, que o ano de 1971 é icônico também para o ambientalismo brasileiro e internacional, pois em abril era fundada, em Porto Alegre – mesma cidade do Folha da Manhã –, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambienta Natural (Agapan), entidade ambientalista ativa e atuante até hoje. Em setembro, surgia no Canadá o Greenpeace, aproximadamente uma semana antes do texto de Barros estampar a página quatro do jornal. Já a Primavera, celebrada atualmente como a estação das flores, também serviu de inspiração para, anos antes, a bióloga norte-americana Rachel Carson denunciar, através do livro Primavera Silenciosa (Silent Spring, no título original), publicado em 1962, os impactos dos pesticidas (biocidas) – em especial o DDT3– na natureza.
O interessante do jogo proposto pelo jornalista, além das inusitadas contraposições que ele sugere entre vários assuntos, coisas, pessoas e personagens para dizer o que é “ecológico” e o que é “não ecológico”, é a forma como busca, no texto, envolver e entusiasmar os leitores a refletirem sobre “o que é poluição, desequilíbrio ambiental e coisa e tal”. No alerta “Preste a atenção.”, ele explica que em “algumas linhas fica um espaço em branco”, com pontilhados no lugar de palavras, onde “você pode completar como quiser ou souber”. Barros justifica os espaços não preenchidos, sempre na coluna “não ecológico”, pela existência de “muitos candidatos”. Vale ressaltar que, do total de 59, apenas três espaços ficaram sem preenchimento. Antes de você entrar para o jogo e tentar completar as lacunas, 51 anos após elas serem abertas, rindo ou chorando, vamos conhecer alguns confrontos “Ecológico/Não Ecológico” propostos por Jefferson Barros na coluna:
ECOLÓGICO
NÃOECOLÓGICO
14 Bis
Concorde
Skol em latas
Chope mal tirado
Woodstock
A Convenção de chicago
Hot-dog
Hot-dog no Zé do Passaporte
Uma garrafa aberta de J&B
Uma garrafa lacrada de J&B
Caetano Veloso
Vilson Simonal
Heidegger hoje
Heidegger em 1939
Millor Fernandes
Nélson Rodrigues
O Estado de São Paulo
O Globo
Bem, vamos parar nesses nove exemplos, pois já dá para ter uma ideia do estilo do “jôgo”. Não sei se isso fez algum sentido para você, mesmo tendo em mente que foi uma forma de expressão impressa há cinco décadas, época na qual, aqui no Rio Grande do Sul, recentemente a pauta ecológica havia sido trazida, de forma mais enfática e sistemática, por alguns precursores do movimento ambientalista como os gaúchos Balduíno Rambo, Henrique Luís Roessler e José Lutzenberger, que também utilizavam os espaços conquistados na imprensa gaúcha para alertar sobre o que já previam que viria a ser a crise climática que enfrentamos atualmente.
Vamos agora à parte que o jornalista deixou para a imaginação dos leitores. Provavelmente, os leitores de 1971 pensariam, se motivados, em respostas pertinentes ao contexto da época. Nós, agora em 2023, podemos duplicar o desafio e buscar duas respostas para cada lacuna (são só três), uma pensando como seria há cinco décadas e outra como pensamos que é hoje. Como diz o autor, “Se você pensar bem, vai acabar sabendo…”. Será?
ECOLÓGICO
NÃO ECOLÓGICO
Ruy Carlos Ostermann4
………………..
Jean Luc Godard
………………..
Jesus Cristo
………………..
Para ser sincero, não consigo me motivar a arriscar respostas. Talvez você também não. E tudo bem se for o caso, pois não é bem isso o que importa, a meu ver. Levando em conta que até hoje, 2023, o jornalismo, de forma geral, ainda não está totalmente convencido da importância e necessidade de uma cobertura adequadamente crítica da pauta ambiental, e isso é verificável na cobertura jornalística atual, a tentativa do jornalista da Folha da Manhã feita em 1971 teve o mérito, a seu modo, de carregar para as páginas do jornal uma reflexão posta de forma lúdica, que chegou aos leitores. Isso é digno de reverência para quem acredita na relevância da atuação jornalística diante das mudanças climáticas, não só para noticiá-las, mas também para alertar, a tempo, sobre os problemas que podem ser evitados.
Concordo que jornalista não é vidente, mas também não é apenas uma inteligência artificial que reproduz recortes de informações digitais, reorganizando-as com certo sentido meramente aceitável. Nesta linha, a atenção à Ciência, aos saberes diversos e às informações difusas que muitos segmentos sociais compartilham, reorganizando-as em conjunto e traduzindo-as para o grande público, com linguagem acessível e atraente, pode ser considerada – ainda hoje e já em 1971 – um avanço significativo na forma de atuar do jornalismo ambiental, em especial o jornalismo contemporâneo das escolas da objetividade e da advocacy (BELMONTE, 2017).
* Jornalista e especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: heverton1234@gmail.com.
** Este texto se diferencia do padrão de publicações do site Jornalismo e Meio Ambiente no que diz respeito à atualidade do conteúdo jornalístico analisado, mas mantém os “objetivos [de] estabelecer um diálogo aberto sobre a cobertura ambiental no País, fomentar a qualificação do trabalho jornalístico nesta área, além de formar e cultivar um público crítico em relação à produção jornalística voltada para o meio ambiente”. Na mesma linha, a publicação pretende oferecer “informações úteis para pesquisadores interessados na temática”, visto que aborda a produção textual de um jornalista publicada em um jornal de 1971. (Referências das seções “O que é o observatório?” e “Sobre” do site https://jornalismoemeioambiente.com).
1 Jornal diário da Companhia Jornalística Caldas Júnior, de Porto Alegre, RS, publicado de 1969 a 1980. A edição utilizada para análise foi recuperada de um descarte por Geraldo Gemerasca de Oliveira, associado da Agapan que atualmente atende na banca que a entidade mantém na Feira de Agricultores Ecologistas, em Porto Alegre, RS, com funcionamento aos sábados pela manhã.
2 “No Brasil, o ambientalismo ganhou visibilidade pública a partir dos anos 1970” (BELMONTE, 2017).
3 DDT é sigla conhecida do inseticida diclorodifeniltricloroetano ou dichlorodiphenyltrichloroethan.
Alto Alegre (RR), 10/02/2023 – Áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami vistas em sobrevoo ao longo do rio Mucajaí. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.
Por Débora Gallas Steigleder*
Após o desmonte da política ambiental representado pelo governo de Jair Bolsonaro, é hora de colocar a casa em ordem. Porém, elementos como a autoproclamada boa vontade do presidente Lula para incluir o enfrentamento às mudanças climáticas na pauta do governo e a capacidade técnica da equipe que tem Marina Silva no comando podem não ser suficientes para produzir resultados rápidos, conforme o jornalismo brasileiro vem reportando.
A edição desta segunda-feira, 17 de abril, do podcast O Assunto, do G1, ressalta o cenário de terra arrasada na Amazônia. Apesar do trabalho de reconstrução do Fundo Amazônia e da ação contra o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, por exemplo, a capacidade de fiscalização do governo ainda está aquém do necessário, descreve a repórter do jornal Valor Econômico Daniela Chiaretti, que faz um apanhado dos primeiros meses da nova gestão federal.
A análise da jornalista também dá pistas sobre o tom da cobertura a respeito da política ambiental dos próximos quatro anos: o jornalismo deve abrir cada vez mais debate sobre soluções eficazes para os problemas que já estão na ordem do dia, como desmatamento e emissões de gases de efeito estufa, mas passando longe do otimismo e de considerar as intenções dos gestores como garantia de missão cumprida.
A persistente devastação dos biomas brasileiros e as ameaças aos modos de vida de seus povos segue em pauta na mídia independente passados os cem primeiros dias do atual governo. Reportagem do site Amazônia Realpublicada na quarta passada, 12 de abril, e assinada por Nicoly Ambrosio sublinha que o governo Lula ainda não demarcou terras indígenas na Amazônia – atualmente, são 31 TIs no bioma aguardando a retomada do processo de demarcação, que foi completamente paralisado na gestão anterior.
Reportagem da jornalista Elizabeth Oliveira publicada em O Ecotambém no dia 12 avalia os cem primeiros dias e destaca os desafios que vêm pela frente, sobretudo no combate ao crime ambiental e na transversalização da pauta climática. Calcado nas falas de especialistas de diversas instituições e coletivos, o material também alerta para possíveis retrocessos na Amazônia, como o asfaltamento da BR-319, entre Manaus e Porto Velho e a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas. Que o jornalismo siga de olho.
* Jornalista, Doutora em Comunicação e Informação e integrante do GPJA/UFRGS
Captura de tela – Vídeo do sexto episódio da série especial de entrevistas do projeto Planeta em Transe do jornal Folha de S. Paulo
Por Roberto Villar Belmonte*
Com duração de um ano, Planeta em Transe “é uma série de reportagens e entrevistas com novos atores e especialistas sobre mudanças climáticas no Brasil e no mundo”. Ainda segundo descrição publicada pelo jornal, este projeto de cobertura especial da Folha de S. Paulo acompanha também as respostas à crise do clima nas eleições de 2022 – com destaque para a região amazônica – e na COP27, a 27ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima que acontece no Egito entre 6 e 18 de novembro.
A jornalista ambiental Cristiane Fontes trabalha tecendo parcerias internacionais que ajudam a compreender e diversificar as vozes da luta ambiental. Logo após publicar, em meados de abril, as conclusões da pesquisa que coordenou intitulada “Narrativas Ancestrais – Presente do Futuro: Percepções sobre os Povos Indígenas no Brasil na última década (2011-2021)”, ela lançou no final de maio o projeto editorial Planeta em Transe em parceria com o jornal Folha de S. Paulo e apoio da Open Society Foundations.
A proposta anunciada é a realização de 24 entrevistas, publicadas quinzenalmente em texto e vídeo, com especialistas e ativistas que atuam no tema da crise climática, 12 brasileiros e 12 de fora do país. No entendimento do coordenador de justiça climática para a América Latina na Open Society Foundations, Iago Hairon, não é possível falar de direitos humanos sem falar da crise climática. Por isso, segundo ele, é preciso entender as narrativas das pessoas que estão na linha de frente.
Até o momento, apenas seis episódios foram produzidos em texto e vídeo, com três fontes brasileiras e três de fora do país: Uganda, Inglaterra e Estados Unidos. As entrevistas no formato pingue-pongue (pergunta e resposta) são realizadas pela própria Cristiane Fontes e pelo repórter e colunista Marcelo Leite, jornalista especializado em ciência e ambiente do Folha de S. Paulo. Os vídeos também são assinados pela editora de Ambiente do jornal, Giuliana de Toledo.
Esta parceria entre Cristiane Fontes e Marcelo Leite começou a ser alinhavada no ano passado. No início de dezembro de 2021, os dois já publicaram entrevista pingue-pongue – usando a cartola Mudança Climática – com a matemática e filósofa Tatiana Roque, autora do livro “O Dia em que Voltamos de Marte: Uma História da Ciência e do Poder com Pistas para um Novo Presente”, obra que detalha os avanços tecnológicos e disputas em torno dos paradigmas científicos nos últimos quatro séculos.
Mas foi somente no final de maio de 2022 que o jornal Folha de S. Paulo anunciou a estreia do novo projeto editorial. Desde então, além dos seis episódios já mencionados, notícias, reportagens e entrevistas com a cartola Planeta em Crise estão sendo publicadas sobre política e mudança do clima. Um exemplo foi a conversa da colunista Ana Carolina Amaral com Joenia Wapichana, única deputada indígena do Brasil na atual legislatura, que saiu na edição de 23 de julho.
Outro exemplo é a reportagem publicada por Giovana Girardi na edição de 17 de outubro sobre as emissões de metano do Brasil. Girardi, ex-repórter de ambiente do Estado de S. Paulo lançou em junho a série de podcast Tempo Quente, da Rádio Novelo, projeto já tratado neste Observatório.
Do ponto de vista dos estudos do jornalismo ambiental, duas questões chamam a atenção neste projeto editorial criado por Cristiane Fontes em parceria com Marcelo Leite. Primeiro a proposta de trazer para a agenda pública vozes de pessoas que atuam na linha de frente da crise climática, não apenas cientistas ou empresários, mas também ativistas. Espera-se que militantes da guerra ambiental apareçam com mais frequência nas páginas do jornal Folha de S. Paulo.
Outro ponto relevante é a participação de diversos repórteres do jornal na produção de notícias e reportagens sobre a crise climática no Brasil, o que mostra a relevância cada vez maior do jornalismo ambiental. Este, aliás, é o grande desafio dos cursos de jornalismo no país: formar profissionais capazes de tratar com proficiência as causas, as consequências e as política públicas necessárias para dar conta da crise climática. Com ou sem milicianos no poder.
Referências
27ª Conferência das Partes (COP 27) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima
*Roberto Villar Belmonte é professor de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Tomado pelo clima eleitoral, o noticiário brasileiro tem se desdobrado para analisar as tendências para o próximo dia 30, desmentir informações falsas e repercutir as agendas dos candidatos. Diante de tarefas árduas e sem grandes propostas que a mencionem, a pauta ambiental parece perder fôlego no jornalismo nacional – uma exceção louvável é a série “Nem um cm demarcado”, cujas reportagens vêm sendo publicadas pela Folha de S. Paulo. Neste esforço de investigação, Vinicius Sassimi e o fotógrafo Lalo de Almeida percorreram 6.000 quilômetros pela Amazônia a fim de averiguar os efeitos da política de “demarcação zero” do Governo Bolsonaro.
O nome da série, aliás, é uma referência à fala de Jair Bolsonaro em 2018, quando o então candidato à presidência afirmou que, em sua gestão, não demarcaria “nem um centímetro sequer” de Terras Indígenas. A promessa não só foi cumprida como o desmonte da FUNAI e da política ambiental atuam para a intensificação da violência na região amazônica. Nos últimos anos, tornou-se notícia comum a invasão de territórios tradicionais por garimpeiros, madeireiros, piratas e outras práticas ilegais. As reportagens da série, como a que figurou na capa da Folha neste dia 10, indicam que a omissão do Estado modificou a forma como povos indígenas vivem e, em uma tentativa de defenderem as suas próprias vidas e a floresta, se organizam. Estratégias como a autodemarcação e criação de guardas florestais indígenas surgem no vácuo do Estado a fim de conter a escalada da violência, ainda que se mostrem insuficientes diante do cenário que se impõe.
Não parece, então, ser por acaso a coincidência entre o chamado arco do desmatamento e a prevalência de votos para Jair Bolsonaro no primeiro turno. As reportagens da série da Folha nos convidam a identificar os efeitos políticos de escolhas institucionais realizadas nos últimos quatro anos. É justamente por isto que preocupa a ausência da pauta ambiental no cenário eleitoral, seja nas agendas dos candidatos ou na cobertura cotidiana, que não os demanda suficientemente a se posicionarem. A despeito das dificuldades que o debate público tem enfrentado, talvez caiba ao jornalismo brasileiro, por meio de trabalhos de qualidade como os da série em questão, contribuir para sua qualificação.
* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.
Mapa de perda de floresta devido ao fogo vs. outros fatores entre 2001 e 2019 (Foto: Alexandra Tyukavina, Peter Potapov, Matthew C. Hansen, Amy H. Pickens, Stephen Stehman, Svetlana Turubanova, Diana Parker, Viviana Zalles, André Lima, Indrani Kommareddy, Xiao-Peng Song, Lei WANG, and Nancy Harris). Fonte: Reprodução da notícia publicada em Galileu
A matéria levanta questões importantes e de interesse público referentes à situação das queimadas nas áreas florestais e sua proporção global entre 2001 e 2019 – sendo maior do que o estimado, além de mencionar o Brasil e as recentes queimadas na Amazônia, que chamaram a atenção dos pesquisadores. É apresentado o mapa produzido pelos autores, ilustrando em clara resolução as regiões que tiveram perda florestal e facilitando a visualização de quais áreas foram perdidas pela queimada ou por outros fatores e onde ainda não houve perdas.
No entanto, o conteúdo do texto se limita à reprodução dos dados da pesquisa, oferecendo pouca contextualização da temática que a envolve. Também não ouve muitas fontes, trazendo apenas declaração de uma das autoras do trabalho. A matéria não aponta a relação desses fenômenos com as ações humanas, que provocam, em maior parte, os incêndios florestais, além de não aprofundar esses danos à biodiversidade e aos ecossistemas.
De acordo com Wilson Bueno (2007a, p.18), com uma cobertura jornalística ambiental fragmentada, “o cidadão muitas vezes tem dificuldades para entender a amplitude e a importância de determinados conceitos e vislumbra o meio ambiente como algo que lhe é externo”, dificultando o entendimento do seu papel nessa atmosfera ambiental. Isso não auxilia na compreensão, nesse caso, dos motivos pelos quais os incêndios florestais ainda acontecem, quais são as consequências acarretadas pelas queimadas – como a emissão de gases do efeito estufa, mencionada no estudo – e, principalmente, o que pode ser feito para reverter tal situação e qual é a importância da participação dos setores público e privado no combate aos incêndios florestais.
A matéria negligencia o debate da emergência climática, inserindo apenas uma breve menção, no último parágrafo, de que o mapa apresentado “deve ser utilizado como ferramenta para fazer a gestão florestal e auxiliar no desenvolvimento de políticas globais e programas de conservação e modelagem climática”. A sua publicação foi feita no Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas e, no dia anterior (15), o mesmo veículo publicou outra notícia sobre um relatório que aponta consequências do aquecimento global nas américas até 2050, igualmente limitada e orientada para uma perspectiva catastrófica, trazendo dados científicos sem contextualizar a repercussão do estudo e ainda recorrendo ao sensacionalismo, uma das síndromes do jornalismo ambiental apontadas por Bueno (2007b).
Ao contrário, a cobertura dos incêndios, conforme o jornalismo ambiental, deveria ser comprometida com a mudança de paradigmas, enxergando além das aparências (BUENO, 2007a) e trazendo as pautas ambientais de forma ampliada, de modo a visibilizar as ações necessárias para lidar com catástrofes. A imprensa não poderia se eximir do papel educativo, colocando as informações necessárias e corretas à disposição da sociedade, que poderá tomar suas decisões diárias conectadas com a construção de uma vida sustentável (GIRARDI; LOOSE; BAUMONT, 2011).
Referências:
BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Majoara, 2007a.
BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, 2007b. pp. 33-44.
GIRARDI, Ilza; LOOSE, Eloisa; BAUMONT, Clarissa (orgs.) Ecos do Planeta: Estudos sobre Informação e Jornalismo Ambiental. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011.
*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.
Imagem: Reprodução da notícia analisada – Ruínas de casa na Praia de Atafona, engolida pelo mar. Erosão transforma paisagem em cenário apocalíptico Foto: Mauro Pimentel/AFP
Por Valentina Bressan*
Em 14 de fevereiro de 2022, foi publicada no portal online do jornal O Globo uma notícia sobre o balneário de Atafona, que fica na cidade de São João da Barra, no Rio de Janeiro. O mote da matéria é que a água do mar está avançando rapidamente sobre a costa, destruindo as casas no litoral.
Embora a notícia traga pontos interessantes e de interesse público, muito do conteúdo da matéria recai nos clichês de um jornalismo que pode pretender-se ambiental, mas ainda não chega a ter o “caráter revolucionário” proposto por Wilson Bueno (2007, p.17). O sociólogo John Hannigan afirma que “a cobertura ambiental dos meios de comunicação social é, em larga medida, limitada e moldada pelas mesmas limitações de produção que governavam o trabalho noticioso em geral” (2000, p.87).
Na matéria d’O Globo, a apuração e redação não foram feitas por um repórter próprio do veículo, mas por uma correspondente uruguaia da Agence France-Presse (AFP). Deslocar o repórter até Atafona seria, certamente, mais custoso economicamente do que contratar uma agência noticiosa.
O segundo ponto, que fala sobre o espaço do portal destinado ao jornalismo ambiental, é a editoria. No site d’O Globo, a matéria está dentro da editoria “RIO”. Isso não é necessariamente negativo, já que, segundo Eduardo Gerarque (2018), é preciso que o Jornalismo tenha uma visão sistêmica, transversal dos assuntos ambientais. Contudo, por outro lado, isso também diz muito sobre o “não-lugar” que o tema, muitas vezes, ocupa na mídia tradicional.
Quanto ao enquadramento, a frase da linha fina, “Devido a uma combinação de fatores naturais e humanos, o mar avança até 6 metros por ano […], evidencia o foco dado ao tema ao longo da matéria. Nos moldes do que aponta Carlos Walter Porto-Gonçalves (2004), é feita uma separação entre homem e natureza. Essa oposição entre cultura e natureza fica aparente: é o mar quem é capaz de destruir casas, de engolir o balneário.
No lide, a notícia traz o fato de que o aquecimento global é responsável pela intensificação da erosão no litoral de Atafona, porém as informações são superficiais: o uso que o homem fez da água nas últimas décadas e a construção de casas, que eliminou as dunas e a vegetação. Entretanto, o aquecimento global é desconectado das “causas humanas”, como se este não fosse também intensificado pelas ações das pessoas.
A situação do balneário é descrita como apocalíptica, incomum e, embora os critérios de noticiabilidade do Jornalismo orientem para o novo e o improvável, esta abordagem não é a ideal para o Jornalismo Ambiental, pois não dá conta de conectar os acontecimentos com os contextos sociais.
Ainda que sejam consultadas múltiplas fontes de informação, não há um aprofundamento das causas e consequências, impedindo que haja uma ligação entre os aspectos locais e globais. Em vez disso, a notícia fica focada no “sal da cobertura noticiosa”, como afirma Hannigan: os danos e as perdas humanas, mas que não trazem a contextualização esperada para compreendermos a complexidade dos fatos ambientais.
* Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: val.bressan@gmail.com.