A luta e o fardo de Lúcio Flávio Pinto

A trajetória de Lúcio Flávio Pinto se confunde com a defesa da Amazônia / Imagem: Cedida por Lúcio Flávio Pinto ao site Mongabay

Por Sérgio Pereira*

A Rádio Novelo presenteou seus ouvintes no dia 9 de novembro com uma produção jornalística sensível, histórica e, por que não dizer, essencial. A reportagem em formato podcast intitulada “O fardo que carregamos” aborda, em dois atos, “histórias sobre como levar o mundo nas costas”, nas palavras da própria produtora carioca.

Ambos os atos são dignos de aplausos, mas ficarei aqui restrito ao primeiro, que enfoca o drama vivido pelo jornalista, professor e escritor Lúcio Flávio Pinto, de 74 anos. Estamos tratando aqui de um dos maiores jornalistas ambientais do Brasil, que há quase 60 anos dedica sua vida à defesa da Amazônia. Prova disso, em 2021, a Universidade Federal do Amapá lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa  em reconhecimento à sua trajetória.

Vencedor de quatro Prêmios Esso, o maior do jornalismo brasileiro, Lúcio Flávio lançou em 1987 o “Jornal Pessoal”, impresso criado para divulgar o que os outros jornais do Pará, seu Estado natal, temiam tornar público.

Bueno nos lembra que o Jornalismo Ambiental deve propor-se política, social e culturalmente engajado, porque “só desta forma conseguirá encontrar forças para resistir às investidas e pressões de governos, empresas e até de universidades e institutos de pesquisa, muitos deles patrocinados ou reféns dos grandes interesses”. Lúcio Flávio sabe disso como ninguém. Suas denúncias contra poderosos empresários do Norte do país lhe renderam dezenas de processos, ameaças de morte e agressões físicas. Mas nada disso o fez desistir da luta.

Agora, no entanto, o jornalista tem pela frente um adversário implacável: a Doença de Parkinson, diagnosticado há alguns anos. Em julho último, lamentavelmente, ele revelou em seu blog que estava largando o jornalismo diário por causa da moléstia, logo após se dar conta de um equívoco cometido em uma de suas postagens.

O texto, intitulado “Perdão, leitores”, traz a corajosa confissão: “Sob o choque da percepção, decidi encerrar a minha atividade jornalística pública diária. Não quero cometer um novo erro desse tipo, por redução ou, em algum momento, perda da capacidade cognitiva. Poderia continuar sem mudança minha atividade, apoiado no fato, comprovado cientificamente, de que não seria um erro voluntário, mas devido à doença, sobre a qual, nessas circunstâncias, não exerço controle”, reconheceu Lúcio Flávio.

Diante dessa perda irreparável para o Jornalismo, a Rádio Novelo produziu o primeiro ato de seu episódio 51, “O fardo que carregamos”, oferecendo aos ouvintes um resumo da trajetória do jornalista paraense e relatando o seu drama. A reportagem assinada por Flora Thomson-Deveaux vale cada segundo.

Dominado por grande carga emocional, Lúcio Flávio relata no podcast de pouco mais de uma hora os seus primeiros passos na profissão, fala sobre a decisão de lançar seu próprio jornal e relaciona alguns dos obstáculos que enfrentou nestes mais de 50 anos em defesa da Amazônia. E ainda expõe a sua doença e a difícil decisão que precisou tomar em nome da ética e da fidelidade aos seus leitores: deixar o jornalismo diário.

Lúcio Flávio, como um bom jornalista, encontra na elaboração de analogias uma ferramenta para racionalizar os fatos. “A Amazônia sempre foi vítima da modernização compulsória; da geração de dólar como atividade principal na Amazônia; do avanço das frentes econômicas; da segurança nacional pela povoação da região e pela transformação da floresta que abriga e esconde as pessoas em hidroelétricas, rodovias, cidades…  Eu me sinto como se eu fosse um símbolo da destruição da Amazônia. Eu me sinto uma pessoa em processo de destruição”, desabafa.

Hoje lhe incomoda as limitações da doença, principalmente os lapsos de memória. Mas ele se sente como “um soldado que não pode abandonar o front”, como se estivesse traindo a sua causa, traindo a sua razão de viver, que sempre foi a Amazônia.

Lúcio Flávio, no entanto, tem buscado formas de conservar viva a chama do jornalismo que sempre lhe manteve aquecido. Nos últimos meses, ele tem republicado em seu blog antigas reportagens. É a sua forma de continuar na ativa e uma oportunidade para que tenhamos acesso aos seus trabalhos premiados. São valiosas aulas de jornalismo .

Não podemos carregar o fardo de Lúcio Flávio, mas podemos (e devemos) reverenciá-lo por sua imensa trajetória. Devemos lhe agradecer por sua devoção em prol da Amazônia, por sua coragem em enfrentar o desenvolvimentismo governamental mesmo durante a ditatura militar, por sua abnegação. E por suas mais de cinco décadas dedicadas ao Jornalismo Ambiental.

Em tempo: não deixe de ouvir também o segundo ato de “O fardo que carregamos”, de autoria da jornalista Bia Guimarães: a história de Alessandra e seu doloroso processo de cura diante de um violento trauma.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, p. 33-44, Curitiba, Editora UFPR, 2007. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/made/article/view/11897. Acesso em: 14 Nov. 2023.


Procura-se a faceta “ambiental” dos problemas urbanos no jornalismo

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Problemas ambientais urbanos são antigos e, em sua faceta moderna, estão presentes ao menos desde as primeiras revoluções industriais — ainda que não recebessem a alcunha “ambiental” no significado de hoje. Eles fazem parte, intrinsecamente, do imaginário da emergência das grandes cidades modernas europeias: fumaças das indústrias, rios poluídos, a falta de saneamento e as ruas entulhadas de lixo.

A eclosão de movimentos ambientalistas a partir da década de 1960, num primeiro momento, ainda parecia vir da terra “natural” — a questão dos pesticidas, por exemplo — e de uma ideia unificada do planeta, sob o medo da guerra nuclear. A razão talvez seja as próprias origens de um pensamento ambientalista: algo “romântico” ainda no século XIX, de valorização do natural em oposição ao urbano; e algo também “científico”, focado na conservação de florestas e proteção de parques naturais. De toda forma, apesar dessas origens, o fato é que os movimentos que se seguiram ao ambientalismo dos anos 1960 incluíram, nas décadas seguintes, as questões urbanas e a justiça social no seio do movimento. O ambientalismo migrava de um campo puramente “natural” e “científico” para abarcar também a arena política das grandes cidades.

A pauta ambiental urbana permeia, há décadas, o ambientalismo, as conferências internacionais e o próprio jornalismo. No entanto, ainda hoje é comum que as pessoas façam uma associação direta entre “temas ambientais” e “temas rurais”, como se distantes da cidade. Uma pequena análise da editoria de Meio Ambiente do portal G1 mostra que, das últimas 30 notícias (ao longo de todo o mês de outubro) nenhuma trouxe uma pauta ambiental urbana. A página é tomada por algumas notícias da maior importância: incêndios no pantanal, seca na Amazônia, garimpo ilegal, marco temporal, emissão de gás metano pela agropecuária etc. Outras são notícias mais soft, dificilmente enquadráveis como “jornalismo ambiental”, e sim como “notícias sobre (ou no) meio ambiente”: o prêmio de fotografia pela foto de um tigre; o resgate de uma loba-guará e a caça de um tatu-galinha pelo caseiro de uma fazenda.

A situação muda um pouco quando analisamos a Folha de SP. Lá a gente “lembra” que cidades também são afetadas, como na invasão de fumaça de incêndios florestais sobre a maior cidade boliviana; e na descoberta, por pescadores, de uma garrafa PET de 25 anos atrás em plena Baía de Guanabara. Obviamente, situações extremas como as inundações em cidades no Sul do país também costumam entrar na conta de notícias — mas persiste a escassez de matérias não impulsionadas por tragédias. A realidade urge que o jornalismo dito “ambiental” cruze, com mais frequência, as vielas e ladeiras das grandes cidades brasileiras, mostrando a face ambiental e cotidiana de nossos históricos — e desiguais — problemas urbanos.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

A falta de crítica da imprensa sobre o mercado de carbono

Imagem: Peter Werkman/Unplash

Por Janaína C. Capeletti

A Comissão de Meio Ambiente do Senado aprovou no início de outubro, o projeto de lei (PL) 412 de 2022, que regulamenta o mercado de carbono no Brasil. Aprovado de forma terminativa, o PL já tramita na Câmara do Deputados.

O texto do PL institui um órgão regulador, denominado de Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), que será o responsável por determinar os setores da economia sujeitos a tetos de emissões e por conceder permissões de emissão às empresas. Cada uma dessas autorizações de emissão, chamadas de Cotas Brasileiras de Emissões (CBE), equivale a uma tonelada de CO2 ou o equivalente em outros gases de efeito estufa.

Ficam sujeitas ao SBCE empresas e pessoas físicas que emitirem acima de 10 mil toneladas de gás carbônico equivalente (tCO2e) por ano, que devem monitorar e informar suas emissões e remoções anuais de gases de efeito estufa. Quem emitir acima de 25 mil toneladas de CO2 ficará sujeito a regras mais rígidas, com previsão de sanções e multas para os casos do descumprimento de metas.

Resumidamente, no mercado de carbono, os setores regulados recebem permissões para emitir uma certa quantidade de gases poluentes. Quem emitir menos que a sua cota pode vender o seu saldo positivo para empresas que excederam os seus limites de poluição.

O valor de cada crédito de carbono depende do mercado onde ele é negociado. No mercado voluntário, o crédito tende a ser mais caro do que o do mercado regulado. Hoje, no Brasil, existe somente o mercado voluntário de carbono, no qual qualquer empresa, pessoa ou governo pode gerar ou comprar créditos de carbono, que são auditados por uma entidade independente, porém, não são contados nas metas de redução de emissões de países no Acordo de Paris. Ou seja, a demanda nos mercados voluntários de carbono não surge a partir de um teto regulatório, mas de empresas e indivíduos que desejam voluntariamente compensar ou neutralizar sua pegada de carbono, e de investidores que exigem que as empresas de seu portfólio se tornarem neutras ou zero carbono.

O mercado de carbono não é novidade. Fala-se nele desde o Protocolo de Quioto, em 1997. No Brasil, contudo é uma expressão que tem aparecido na mídia com mais frequência nos últimos anos, especialmente com o boom do ESG (Environmental, Social and Governance) e dos compromissos empresariais com a sustentabilidade.

A aprovação do PL foi noticiada em grandes veículos, que além de explicarem o conteúdo da proposta do legislativo, destacaram a ausência no texto da regulamentação ao agronegócio. A Frente Parlamentar Agropecuária negociou com a relatora do projeto, a senadora Leila Barros (PDT/DF), para que o agro ficasse de fora. A justificativa é que não existem formas precisas para medir a emissão de carbono de atividades do campo e que os principais mercados de carbono do mundo não incluem a agricultura e nem a pecuária.

Um estudo inédito do Observatório do Clima, lançado na terça-feira (24/10), estima que os sistemas alimentares responderam em 2021 por 73,7% (1,8 bilhão de toneladas) das 2,4 bilhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa lançadas pelo país na atmosfera. Conforme Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, “esse relatório deveria ser lido pelos representantes do agronegócio e pelo governo como um chamado à responsabilidade”.

Assim, voltando à repercussão do PL, os veículos de imprensa cumpriram o seu papel em noticiar o fato, explicar o contexto, como os sites do Globo Rural, da CNN Brasil, do Valor Econômico, do Estadão. Alguns destacaram a falta de inclusão do agro como JOTA e o Money Times. O site O Eco analisa, por meio da opinião de dois especialistas, como ficará a regulamentação sem o agro. O Capital Reset também propõe uma reflexão sobre o tema.

Apesar de ser um tema complexo e de relevância socioambiental para o Brasil, não são percebidas nestas coberturas nenhuma preocupação com os pressupostos do Jornalismo Ambiental. Nota-se que as notícias não propõem um questionamento sobre a real eficácia do mercado de carbono em tempos de emergência climática, ou se é uma solução eficaz para contribuir com a descarbonização do país. Este tipo de cobertura também não prioriza a aproximação com o leitor não especializado. Não há a intenção de engajar e envolver o público para uma tomada de posição ou para uma reflexão sobre o tema.

O assunto ainda é embrionário no Brasil, integra a agenda do atual Governo Federal e do mercado. Assim, mesmo que utópico, se faz necessário insistir para que a imprensa, de modo geral, amplie o olhar para a complexidade do tema e busque abarcar vozes, saberes e alternativas que expandam o debate vigente de forma mais crítica.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.

Queimadas no Amazonas: também cabe ao jornalismo apurar responsabilidades

Imagem: Camila Garce Idesam/Flickr

Por Débora Gallas*

Ciclonesenchentescalor recordeseca… Relatar as causas e consequências desses eventos climáticos extremos na vida da população tem sido desafiador para jornalistas brasileiros. É possível observar que a sobreposição de emergências afeta diretamente a cobertura: a imprensa nacional não tem dado a merecida atenção às queimadas que assolam a região metropolitana de Manaus pelo menos desde setembro.

É verdade que o assunto esteve em pauta em grandes portais como FolhaValor e g1 especialmente entre os dias 11 e 13 de outubro, período em que a qualidade do ar em Manaus se tornou uma das piores do mundo. A cobertura desses veículos inclui fontes da ciência para explicar como os efeitos do fenômeno El Niño e a degradação ambiental contribuem para que a cidade seja tomada por fumaça, vinda sobretudo de focos no município de Autazes e nas adjacências da BR-319, que liga Manaus e Porto Velho. Também são ouvidas fontes oficiais, que explicam onde estão os principais focos de queimadas e quais providências que estão sendo tomadas, como a prisão de suspeitos de atear fogo em áreas de floresta.

As matérias publicadas na última semana carecem, porém, de alguma apuração própria desses veículos no local dos fatos. Diante de outro gravíssimo acontecimento que atinge o estado – a seca histórica de rios amazônicos – e de pautas igualmente urgentes de outras editorias – como a guerra entre Israel e Hamas –, há o risco de as atenções se dividirem e o tema sumir do noticiário assim que a fumaça se dissipar e o problema parecer controlado. É interessante lembrar que, em agosto de 2019, bastou que uma nuvem cinza encobrisse o céu de São Paulo para que as queimadas na Amazônia tomassem o noticiário nacional e a ação apelidada de “dia do fogo”, apurada primeiramente pelo jornal paraense Folha do Progresso, ganhasse repercussão em todo o país.

Leitores de todo o país certamente podem contar com a cobertura qualificada de veículos locais. Ainda em julho, reportagem de Amazônia Real apontava a previsão de cientistas sobre o aumento dos focos de queimadas no maior bioma do Brasil durante o ápice da estação seca – justamente o mês de outubro. Alerta semelhante foi realizado por Vocativo em 8 de setembro, que destacou a possibilidade de piora da fumaça que já tomava Manaus naquele momento. Mais recentemente, Vocativo repercutiu a coletiva de Marina Silva em Manaus no dia 13 de outubro, em que a ministra destacou a origem criminosa dos incêndios. Amazônia Real, por sua vez, está em campo para destacar os prejuízos diretos das queimadas à saúde pública.

Apesar do árduo trabalho dos veículos independentes na abordagem das causas e consequências, urge que, em um evento com essa gravidade, os gestores de veículos que se apresentam como nacionais – e possuem estrutura e financiamento condizentes com tal pretensão – mobilizem ampla base de correspondentes ou repórteres freelancers locais para reforçar a investigação jornalística. A sociedade precisa conhecer os CPFs e CNPJs envolvidos na destruição para lhes atribuir as devidas responsabilidades – e o jornalismo é essencial para que essas e outras informações de interesse público venham à tona. Afinal, como falar de solução para crise ambiental sem haver conhecimento sobre a origem dos problemas?

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Estamos preparados para as consequências das mudanças climáticas?

Imagem: Silvio Avila/Getty Images

Por Carine Massierer*

A pergunta pode gerar choques, mas parece que alguns seres humanos só conseguem realmente crer que as mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano quando ciclones, vendavais e outros eventos climáticos batem às suas portas e causam prejuízos materiais, emocionais ou levam vidas. Isto é o que tem ocorrido no mês de setembro, no Rio Grande do Sul, e as notícias sobre o tema tomam contam das manchetes em rádios, jornais, canais televisivos e até na Internet, como aparece na imagem abaixo:

Imagem: Print da página inicial do buscador Bing.com

Uma dessas notícias é a publicada em 26 de setembro no Site G1 (Setembro é o mês mais chuvoso de Porto Alegre em 107 anos, aponta Inmet | Rio Grande do Sul ), que mostra que este mês já é o mais chuvoso em 107 anos em Porto Alegre, capital gaúcha. A fonte da informação é o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que aponta como maior índice desde 1916, quando a medição passou a ser registrada. Em 1941, a precipitação pluviométrica chegou a 405,5 mm e, em 2023, até o dia 26 de setembro, está em 413,8mm. As informações acabam deixando as pessoas apreensivas e o total de atingidos pelos desastres aumenta a cada dia.

O número de pessoas afetadas pelas enchentes tem se ampliado e uma das matérias que chama a atenção para isso é a publicada na Folha de São Paulo em 24 de setembro: Chuva: Registro de desastres foi recorde em 2022 no Brasil – 24/09/2023 – Ambiente – Folha (uol.com.br). Segundo dados da Defesa Civil Nacional, que dão origem a esse texto do jornal, as chuvas atingiram o maior índice em 2022, num período de dez anos. A matéria é muito bem elaborada e contém uma análise sobre o aumento de vítimas e a ligação com momentos em que ocorreram eventos extremos. Além disso, os jornalistas entrevistaram um professor da Universidade de São Paulo (USP), um meteorologista, o coordenador de articulação política da Frente Nacional dos Prefeitos eapresentaram dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), do Ministério da Ciência e Tecnologia, dentre outras fontes de informação. O texto é informativo, qualificado e um alerta que aponta, inclusive, que os dados de 2023 ainda não estão consolidados, mas que, pelo andar das coisas, é um ano em que alguns estados, especialmente o Rio Grande do Sul, vêm sendo destroçados pelo poder das chuvas intensas.

E não fomos avisados disto? Sim, fomos, pelos pesquisadores brasileiros e mundiais, pelos ambientalistas, há mais de 50 anos, e pela imprensa nas últimas décadas. Nesta matéria de março de 2023, de GZH (Qual a diferença entre El Niño e La Niña?), já haviam informações sobre as intercorrências causadas pelo La Niña e que o El Niño passaria a alterar os padrões climáticos neste ano, o que já havia sido anunciado em final de 2022 pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês).

Se, desde 2022, os anúncios foram feitos, de fato espera-se que não só os governos se preparem para a adaptação e mitigação da crise climática, mas também cada ser humano faça a sua parte. No momento atual, estamos vivenciando as mudanças climáticas, mas, na prática, nem criamos o diálogo e entendimento de que a Comunicação de Riscos é peça chave na gestão de risco em âmbito público, privado e governamental, e nem pensamos em estratégias para a adaptação e mitigação climáticas a curto, médio e longo prazo.

Há muito para fazer, mas o importante é arregaçar as mangas e começar a tratar e dialogar, de forma séria e centrada, sobre as mudanças climáticas, para dirimir as consequências avassaladoras para a vida na Terra.

Leia mais em: La comunicación del cambio climático, una herramienta ante el gran desafío.

*Jornalista, especialista em Marketing e mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Parque Harmonia, da negligência ambiental à jornalística

Imagem: Gabriel Poester

Por Mathias Lengert*

O dia 20 de setembro, que tradicionalmente celebra a cultura gaúcha, rememora não apenas o churrasco e a música típica, mas também a imagem do acampamento farroupilha no Parque Harmonia, em Porto Alegre. O local, que antes abrigava diversas espécies de árvores e animais, agora é cenário de devastação. Concedida ao poder privado, a área foi transformada em um vasto canteiro de obras, resultando na descaracterização da sua vegetação em prol de um projeto de desenvolvimento que ignora a importância das áreas verdes urbanas.

Alertas de ambientalistas e pesquisadores não são escassos, no entanto, são ignorados pelas autoridades públicas, ao passo que a mídia hegemônica gaúcha parece dar de ombros para essas preocupações.

Publicada no dia 19 de setembro, a notícia Parcerias com a iniciativa privada impulsionam desenvolvimento de Porto Alegre, da Rádio Guaíba, apresenta uma abordagem questionável da concessão da Orla do Guaíba, do Cais Mauá e do Parque Harmonia. O veículo assume uma postura pró-concessão ao descrever os projetos de revitalização em Porto Alegre como bem-sucedidos e promissores. Apesar de mencionar que uma parte da população questiona esse modelo de gestão, a reportagem se limita a ouvir apenas uma fonte: o Secretário de Parcerias e Concessões do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. O jornalismo, no entanto, possui a responsabilidade de ouvir vozes que constituam outras perspectivas, como cidadãos, movimentos sociais e especialistas em urbanismo, especialmente quando se trata de decisões que afetam os espaços públicos.

Além disso, embora enfatize a revitalização de espaços urbanos, a Rádio Guaíba não indica como essas concessões podem impactar o meio ambiente e as áreas verdes da cidade. Esse enfoque transforma a notícia quase que em uma peça de promoção dos interesses de atores que defendem esse modelo de urbanização.

É fundamental questionar que tipo de desenvolvimento está sendo priorizado em Porto Alegre e quais são os custos ambientais para a cidade. O jornalismo deve desempenhar o papel de oferecer contrapontos, conscientizar a população e incentivá-la a se engajar na preservação das áreas verdes urbanas.

Como bem expressou a professora Ana Maria Dalla Zen, “matar árvores tornou-se rotina em Porto Alegre”. Sua coluna sobre o arboricídio na capital gaúcha, publicada no Sul21, mostra que a destruição do Parque Harmonia é apenas uma peça em um projeto sistemático e abrangente que atua em várias frentes, suprimindo as áreas verdes da orla porto-alegrense. Este é um plano que negligencia os desafios urbanos contemporâneos, a necessidade de mitigação climática e a responsabilidade em relação às futuras gerações. Quando a imprensa relata esses eventos sem questionar as forças políticas que os impulsionam, acaba por adotar uma visão limitada do mundo.

*Jornalista, mestre em Comunicação e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Ciclone extratropical repete a pergunta: onde está a prevenção?

Roca Sales depois da chuva / Imagem: Guilherme Hamm/Secom

Por Cláudia Herte de Moraes* e Taís Busanello**

A frequência de grandes ciclones tropicais aumentou nas últimas quatro décadas, segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) (2021). Estudos sobre eventos extremos concluíram que temos alta confiança de que “a mudança do clima causada pelo homem aumenta a precipitação intensa associada a ciclones tropicais”. Neste início de setembro, um ciclone extratropical foi a principal causa de inundações, chuvas intensas, granizo e vendavais que afetaram 98 municípios gaúchos, causando 47 mortes confirmadas em 12 de setembro (ainda há desaparecidos), cerca de 5 mil desabrigados e 20 mil desalojados. Considerada a maior tragédia natural em 40 anos, a destruição e a calamidade saltam aos olhos. Assim como a falta de prevenção.

No jornalismo gaúcho e nacional, vivemos o impacto da super notícia, em que há a proliferação de matérias sobre um fato, destacando especialmente o sofrimento humano e as perdas e danos relacionados. O valor-notícia desta tragédia coletiva exigiu uma ampla cobertura midiática para atender o interesse público. Contudo, exigiria também a apuração de informações em mais camadas para a mobilização do necessário debate público sobre os meios possíveis de tornar as cidades resilientes aos efeitos das mudanças climáticas.

Tendo isso em conta, ao analisar a cobertura da revista Veja sobre as cheias de 2010 no Sul e Sudeste, pesquisadoras afirmam que “a tarefa do jornalismo seria observar e atuar de forma ativa na crítica à realidade”, abordando desastres de grande magnitude com políticas recentes sobre a situação da habilitação das populações vulneráveis. (MORAES, GIRARDI, 2011, p.11).

Desta forma, o destaque deste comentário semanal está no papel do jornalista ambiental frente aos acontecimentos dramáticos no que concerne a explanação das problemáticas e questões ao poder público, considerando o dever jornalístico, principalmente em cobertura de eventos extremos, de ser “política, social e culturalmente engajado” (BUENO, 2007, p. 36).

Trazemos aqui o exemplo do jornalista André Trigueiro (Globo News), com 30 anos de experiência na cobertura de temas ambientais, incluindo os eventos climáticos extremos e os consequentes desastres enfrentados pela sociedade, crescentes em quantidade e potência destrutiva nas duas últimas décadas. É um dos raros profissionais preocupados com a cultura da prevenção, definitivamente esquecida por nossos governantes. No vídeo que viralizou após a reação do governador Eduardo Leite, de acusar o jornalista de ter falta de empatia, Trigueiro apenas exercia a função autorizada pela sociedade aos jornalistas: a de perguntar, inclusive as questões que não vão agradar o poder constituído. Porque é um dever ético do jornalismo checar as informações junto aos órgãos e fontes do poder público, a fim de que esclarecimentos sejam prestados, ainda mais importante considerando-se a perspectiva de prevenção e de redução de danos.

Os alertas sobre as previsões meteorológicas que subsidiam as ações de prevenção foram dadas, inclusive desmentindo outra fala infeliz do governador gaúcho. Tanto que, se houve alguma falta de prevenção governamental diante dos alertas de chuvas extremas no acontecimento do ciclone deste início de mês, o Ministério Público está apurando o papel dos órgãos públicos na fase anterior ao desastre.

A tragédia motiva a reflexão também sobre como os cidadãos devem atuar quanto aos riscos. Com estreia nesta semana, um novo programa do jornal Brasil de Fato RS vai discutir diretamente o tema: Mudanças climáticas e eventos extremos, estamos preparados?. Também é preciso reivindicar das autoridades públicas uma gestão de riscos, ações pré-desastres para além do socorro após o caos se instalar. Enfim, uma visão de médio e longo prazos. O artigo publicado no Brasil de Fato RS traz importante discussão: o que falta para a declaração de emergência climática no estado? Neste sentido, recomendamos acompanhar a audiência pública sobre mudança climática no RS, dia 18 de setembro, proposta pelo deputado estadual Matheus Gomes (PSol).

O jornalismo questiona, mobiliza, esclarece. Aos jornalistas, cabe o incentivo para cobrir os temas ambientais e dos riscos considerando o princípio da precaução, que converge numa perspectiva de prevenção. Por isso, o papel do jornalismo é fiscalizar o cumprimento das ações estabelecidas nos planos de adaptação e de mitigação às mudanças climáticas dos estados, dos municípios e do país como um todo. E mais: a sociedade carece da circulação de informações completas sobre as medidas para conter o aumento da temperatura global muito além da descarbonização dos setores econômico-produtivos maiores responsáveis pela emissão dos gases de efeito estufa. Dessa maneira, é preciso relacionar a cobertura dos desastres aos temas da mitigação e da adaptação como ações preventivas aos efeitos das mudanças climáticas. São necessárias respostas e soluções de e para toda a sociedade. 

 * Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

** Estudante de Jornalismo na UFSM, bolsista de Iniciação Científica.  E-mail: tais.busanello@acad.ufsm.br

Referências

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, p. 33-44, jan./jun. 2007. Editora UFPR.

MORAES, Cláudia Herte de; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. As Cheias de 2010 na Revista Veja: a Narração Jornalística Diante do “Inesperado”. Revista Ação Midiática – Estudos em Comunicação, Sociedade e Cultura Universidade Federal do Paraná Programa de Pós Graduação em Comunicação Vol 1. Nº 2. Ano 2011. Disponível em: < https://revistas.ufpr.br/acaomidiatica/rt/metadata/26422/17636 > Acesso em: 12 set. 2023

Novo PAC, Plano de Transformação Ecológica e a cobertura da mídia

Imagem: Geraldo Falcão/Agência Petrobrás

Por Janaína C. Capeletti*

O governo federal lançou na última semana um novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com a promessa de investir R$ 1,7 trilhão em todos os Estados do país. O novo PAC possui nove eixos prioritários, sendo que a área batizada como Transição e Segurança Energética receberá o segundo maior volume de recursos, com projeção de receber R$ 449,6 bilhões até 2026 e R$ 91,1 bilhões pós-2026. O valor fica atrás apenas dos projetos para Cidades Sustentáveis e Resilientes.

Além do PAC, o ministro da Economia, Fernando Haddad, apresentou o Plano de Transformação Ecológica. Entre as ações previstas estão: nova infraestrutura verde, finanças sustentáveis, economia circular, adensamento tecnológico, bioeconomia, transição energética e adaptação à mudança do clima.

Como esperado, houve ampla cobertura dos veículos de comunicação nacionais e regionais, alguns dando destaque ao Plano de Transformação Ecológica especificamente, como o Correio Brazilense e o G1, que apresentaram falas do ministro e pontos básicos do projeto. O portal o Eco também noticiou e questiona, no texto, como o governo irá equilibrar o retorno de grandes obras de infraestrutura e a preservação ambiental. O Globo Rural abordou a previsão de investimentos em biocombustíveis e energia limpa, já o R7 enfatizou os investimentos que a Petrobras planeja, que inclui um fundo de descarbonização.

Os textos, em geral, não discutem de forma aprofundada o projeto, apenas reproduzem o discurso governamental, sem a escuta de outras vozes que pudessem ampliar o debate em torno de pautas tão relevantes para a sociedade. Não há crítica sobre os reais impactos do PAC na questão ambiental, se o que está sendo posto realmente é positivo e viável. Pode ser que repercussões mais específicas sobre as propostas do governo ocorram nos próximos dias.

O site Capital Reset foi, dos veículos analisados, o que mais aprofundou o tema com a matéria “Em novo PAC, 62% dos recursos para energia ficam com fósseis”. O texto apresenta informações claras que permitem perceber as incongruências de discurso e ação do governo com relação à pauta ambiental.

O site Um só planeta, com a matéria “Novo PAC prevê transição ecológica, mas também investimento bilionário em petróleo e gás e projetos ambientalmente polêmicos”, também apresentou uma visão mais analítica com relação ao PAC, destacando os projetos  já em andamento e que são duvidosos com relação ao impacto ambiental positivo.

Vivemos uma emergência climática, não há mais espaço para que compromissos assumidos em termos governamentais sejam ambíguos, reforçando uma condição que já se mostra inviável em termos planetários. Os veículos de comunicação têm o compromisso de informar, e como vimos nos textos citados, eles fizeram bem o seu papel, mas é preciso ir além. É também compromisso do jornalismo ouvir diferentes vozes e questionar. Espera-se que esta pauta seja ampliada.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.

Críticas da sociedade civil dão o tom da cobertura jornalística na Cúpula da Amazônia

Imagem: Canva

Por Patrícia Kolling*

A Cúpula da Amazônia terminou sob críticas da falta de comprometimento com o desmatamento zero e com o fim da exploração de combustíveis fósseis. O evento reuniu líderes dos oito países amazônicos (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela), em Belém, capital do Pará, nos dias 08 e 09 de agosto. Organizações socioambientais apontam que o documento final do evento, a Declaração de Belém, não apresenta metas concretas e não define prazos, além não apresentar consenso entre os países sobre temas considerados chave para a região.

Foram exatamente as críticas das organizações da sociedade civil à falta de contundência no documento final do encontro, que será levado a COP 28, que repercutiram na imprensa brasileira. A Folha de São Paulo publicou: “Declaração da Cúpula da Amazônia não tem ações concretas, criticam ongs”. A primeira fonte citada no texto é Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, que integra 80 organizações da sociedade civil brasileira. Ele diz: “Não é possível que, num cenário como esse, oito países amazônicos não consigam colocar numa declaração, em letras garrafais, que o desmatamento precisa ser zero e que explorar petróleo no meio da floresta não é uma boa ideia”. Na sequência, a notícia cita falas do Leandro Ramos, diretor de programas do Greenpeace Brasil e de Marcelo Furtado, fundador da Coalizão Brasil e diretor da Nature Finance. Como eles, várias outras representantes da sociedade civil foram ouvidos pelas equipes de reportagem e foram citadas no texto, diversidade de fontes que merece destaque quando consideramos o histórico de coberturas de cúpulas e reuniões entre Estados.

O Jornal Hoje, do dia 09, apresentou também reportagem “Evento chega ao fim sem a definição de uma meta comum contra o desmatamento pelos oito países membros da OTCA”, em que representantes das entidades socioambientais são entrevistados mostrando seu descontentamento. Uma das críticas à Declaração de Belém se dá pela falta de acolhimento das propostas apresentadas no âmbito do Diálogos Amazônicos, evento realizado no final de semana que antecedeu a Cúpula. Nos Diálogos estiveram presentes cerca de 20 mil pessoas, representantes 400 organizações socioambientais, que debateram e trabalharam sobre temas ambientais, e entregaram documentos para embasar as decisões da Cúpula da Amazônia. As fontes ressaltam que que essa participação da sociedade civil parece não ter produzido resultados significativos, ou seja, as decisões propostas não foram consideradas pelos líderes. André Trigueiro ressalta, porém, que a participação ativa da sociedade civil deu ao evento um caráter inclusivo, que foi o seu principal diferencial, pois garantiu debates e acordos de organizações fora das ações da Cúpula.

Uma das falas mais repercutidas pela imprensa, durante a semana, foi a do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que disse haver um “conflito ético” na exploração de petróleo na região, especialmente no caso de países liderados pela esquerda. Petro tem um plano de redução progressiva de exploração de petróleo na região amazônica. A fala de Petro ganhou imensa noticiabilidade, principalmente diante do fato da Petrobras, maior estatal brasileira, planejar explorar poços de petróleo no fundo do mar da margem equatorial, onde fica a foz do rio Amazonas. O tema já foi abordado nesse Observatório. A Declaração de Belém, porém, trata o tema com muita sutileza, destacando a necessidade de “iniciar um diálogo” sobre a sustentabilidade de setores “como mineração e hidrocarbonetos”.

É evidente que a imprensa brasileira também destacou os pontos positivos do encontro, expostos da Declaração de Belém, entre os quais podemos citar: a consciência quanto à necessidade urgente de cooperação regional para evitar o ponto de não-retorno na Amazônia, a criação da  Aliança Amazônica de Combate ao Desmatamento, a criação de um centro integrado de policiamento contra o crime organizado e a criação de mecanismos financeiros de fomento do desenvolvimento sustentável.

Mas, como ressaltamos no título, as ações e mobilizações da sociedade civil deram os direcionamentos às pautas de cobertura jornalística do evento. A Folha de São Paulo, publicou o artigo “O verdadeiro valor do petróleo na Foz do Amazonas” mostrando quanto o Brasil ganharia se mantivesse as reservas de petróleo nas profundezas do mar. O texto foi escrito pelo coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria, membro da coordenação do Observatório do Clima e integrante da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais, Caetano Scannavino.

O protagonismo das organizações ambientais definindo o rumo das pautas e a escolha das fontes, e consequentemente, oportunizando o debate das perspectivas temáticas que talvez nem seriam abordadas, além da presença de jornalistas do mundo inteiro em Belém, foram na cobertura jornalística os principais ganhos do evento.

*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

As dificuldades na cobertura de um bioma campestre

Pesquisa encontra até mais de 50 espécies de plantas/metro quadrado no campo nativo pampeano. Como restaurar tamanha biodiversidade campestre? – Imagem: Eliege Fante/Rede Campos Sulinos.

Por Eliege Fante*

A recente boa notícia do governo gaúcho sobre o plantio de “800 mil mudas no bioma pampa”, ler aqui e aqui, denotando resultados de Projeto iniciado em 2018 “a partir de dados alarmantes sobre o bioma pampa, entre eles, a diminuição de quatro milhões de hectares de área entre 1985 e 2021 (de 18,2 mi/ha para 14 mi/ha)”, foi repetida por grande parte da imprensa, através de rádios como a Guaíba e outras do interior do estado, tevês e internet. Por conhecermos as adversidades enfrentadas pelos jornalistas para realizarem os seus trabalhos, entre outros obstáculos diante do extremado enxugamento das redações, cabe problematizar esta mera repetição/republicação com a imprensa-empresa.

A publicação dos chamados relises é comum, bem como a necessidade conhecida por jornalistas, de complementar as informações que veiculam. Uma semana depois, outro relise foi meramente repetido, só que a respeito da renovação do Projeto, tendo sido exaltado pelo governo e igualmente por GZH, entre outros veículos de imprensa. O fato é que os relises republicados anunciam benefícios para o Pampa, mas afirmam que o recurso provém do cumprimento de débitos de Reposição Florestal Obrigatória (RFO), ou seja, relacionado às áreas florestais.

RFO destinada à recuperação de áreas na Mata Atlântica faz sentido, mas não tem o mesmo peso para a conservação de um bioma predominantemente campestre como o Pampa. É importante, sim; mas o desmatamento no Pampa é muito menor do que a supressão de campos, tendo sido de 3 mil hectares em 2022 segundo o MapBiomas. E a Rede Campos Sulinos estima que a supressão de vegetação campestre no Pampa tenha sido, em média, de 145 mil hectares por ano entre 2012 e 2020. Esta é a maior perda de vegetação nativa entre todos os biomas brasileiros, e os pesquisadores se perguntam quanto dessa supressão foi autorizada de acordo com a Lei 12.651/2012 (que não é Código Florestal, é Lei de Proteção a Vegetação Nativa). Fica aí sugerida uma pauta para a imprensa.

“No Pampa, o que faz sentido é restaurar campos nativos, haja vista a perda anual de milhares de hectares”, comentou um especialista. O uso de recursos da RFO na recuperação de campos nativos do Pampa seria uma boa notícia, porém essa confirmação depende do envio de um pedido de informação, pois, na notícia consta apenas que “A RFO é uma medida legal para compensação ou reparação ambiental pela supressão ou manejo de vegetação nativa. A cada árvore suprimida, o empreendedor precisa compensar as perdas com valores equivalentes a outras 15 mudas”. O exemplo da árvore não facilita a compreensão ainda mais que o gravíssimo risco de extinção encontra-se na vegetação campestre característica do Rio Grande do Sul e da matriz cultural.

Urge qualificar a produção dessas notícias por meio da escuta de fontes diversificadas, especialmente de técnicos dos órgãos ambientais, que igualmente são fontes oficiais do Estado. Ou seguiremos festejando a circulação de informações incompletas quando poderiam evidenciar as demais ações cabíveis e, o mais importante, eficazes para evitar a extinção do Pampa. E a primeira delas é “Dar imediato cumprimento ao previsto na Lei n° 12.651/2012, implementando a análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com exigência de Reserva Legal, representando no mínimo 20% da área total das propriedades rurais do bioma Pampa”, conforme explicitado na Carta Aberta da Coalizão pelo Pampa.

Afinal, quantas notícias a imprensa publicou sobre o uso produtivo das áreas de reserva legal no Pampa, onde o manejo pastoril é permitido e merece ser incentivado? Enquanto isso, predominam as notícias sobre a conversão do Pampa através dos incentivos às lavouras, em especial de soja, mas também de arroz, milho e eucaliptos. Por fim, é preciso ultrapassar a ideia falaciosa de que áreas de campo com pecuária são de uso consolidado, porque o manejo pastoril conserva a biodiversidade do Pampa. Para tanto, a imprensa-empresa tem que aceder à escuta de fontes diversificadas, bem como pautar as recomendações técnicas dos órgãos ambientais para estancar a supressão da vegetação nativa campestre.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, membra do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e assessora de comunicação da Rede Campos Sulinos.