Livro e blog sistematizam pesquisas e práticas de Jornalismo Ambiental em Santa Catarina


Capa do livro “Território e texto: jornalismo ambiental em Santa Catarina

Por Míriam Santini de Abreu*

O conhecimento sobre o jornalismo ambiental em Santa Catarina é o objeto que a equipe da Revista Pobres & Nojentas, que desde 2006 atua em Florianópolis, vem buscando consolidar. A primeira iniciativa foi o lançamento, em dezembro de 2023, do livro “Território e texto: jornalismo ambiental em Santa Catarina”, com seis artigos de jornalistas que, em momentos de sua trajetória, escreveram sobre a relação entre sociedade e natureza no estado.  A segunda foi a criação de um blog, em fevereiro passado, para reunir pesquisas na área e também sobre a história do movimento ambientalista estadual.

A primeira análise do material localizado revelou a existência de cinco Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), seis dissertações, oito artigos e dois livros. A mais antiga pesquisa localizada foi a minha dissertação de mestrado em Geografia, de 2004, analisando o discurso jornalístico sobre o desenvolvimento sustentável. O mais recente, de 2024, é a dissertação de mestrado de Camila Collato intitulada “Jornalismo ambiental em Santa Catarina: direitos humanos e da natureza sob a perspectiva dos grupos RBS e NC”, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC.

As primeiras constatações com o levantamento foram as seguintes: 1) a revisão bibliográfica das pesquisas traz o conhecimento do jornalismo em geral e do jornalismo ambiental em particular, mas as pesquisas, independentemente da orientação teórico-metodológica e dos objetos empíricos, em geral não dialogam com trabalhos anteriores, ainda que poucos, produzidos no estado; 2) em minha dissertação, que completa 20 anos em 2024, afirmo que o espaço é constitutivo do discurso jornalístico sobre meio ambiente, mas verifica-se que as marcas da formação socioespacial catarinense praticamente não são levadas em conta nas análises.

A situação é incompatível com a realidade socioespacial tão diversa de Santa Catarina e a necessidade de um jornalismo que a interprete. O geógrafo Armen Mamigonian (2003) afirma que, no decorrer do processo histórico, delinearam-se em Santa Catarina três regiões industriais importantes identificadas como a região alemã, o Oeste agroindustrial e a região carbonífero-cerâmica do Sul. Cada uma dessas regiões lida com impactos ambientais comuns, como o desmatamento e a poluição do solo e da água, mas singulares na forma como se expressam no cotidiano da população. Porém, o jornalismo catarinense não tem abordado tão complexa realidade e parte expressiva das pesquisas localizadas também não leva em conta essas particularidades socioespaciais.

A recente pesquisa de Camila Collato é importante por dialogar com trabalhos anteriores e revelar a situação da cobertura na atualidade, concluindo o seguinte: a) a cobertura privilegia uma constituição antropocêntrica de sentidos, apoiando-se em uma base científica moderna em relação ao meio ambiente, sendo este abordado majoritariamente por meio do dualismo humano x Natureza; b) é fragmentária, ao apresentar uma baixa interlocução entre áreas de conhecimento e saberes e; c) por vezes, é fatalista, ao furtar-se do papel de fomentador de um debate público crítico sobre responsabilidades e possíveis soluções diante dos problemas ambientais enfrentados pela população. A autora destaca anda a baixa participação dos cidadãos, com a predominância de fontes documentais e oficiais, e um jornalismo orientado para a construção de sentidos de apelo modernizante por meio de discursos econômicos de matriz capitalista.

A conclusão desses esforços para consolidar o conhecimento sobre o jornalismo ambiental em Santa Catarina é que os dois grupos hegemônicos mais importantes de mídia no estado, NSC e ND, desconsideram a importância de interpretar jornalisticamente a grave realidade socioambiental regional, situação que vem se agravando com o enxugamento de profissionais nas redações, restando a sites de circulação local – como O Blumenauense e a Folha Metropolitana (Joinville) – a iniciativa de manter editorias sobre o tema, ainda que não haja pesquisas direcionadas à análise do material divulgado.

Referência:

MAMIGONIAN, Armen. Projeto integrado de pesquisa: Santa Catarina – sociedade e natureza. Relatório final de pesquisa. Florianópolis, 2003.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.


Água pra que quero se não te venero?

Imagem: iStock / Getty Images

Por Carine Massierer*

O Dia Mundial da Água é celebrado em 22 de março. A data foi instituída em 1992 durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, a Rio-92, com o objetivo conscientizar as pessoas sobre a importância vital da água. Esse recurso é indispensável para a vida das pessoas e para o equilíbrio dos ecossistemas. No entanto, o que se vê é que não há uma tomada de consciência das pessoas já que todos os dias são dias de se venerar a água deste planeta.

Neste dia, a Revista Exame publicou matéria que tem por base a pesquisa “A percepção dos brasileiros sobre segurança hídrica”, realizada pela The Nature Conservacy Brasil (TNC) com o apoio técnico do Instituto Ipsos.

Imagem: Captura de tela do site da Exame em 26 de março de 2023. (Dia Mundial da Água: maioria da população vê amento da poluição e pouco cuidado do recurso natural | Exame).

O texto apresenta o resultado da pesquisa: a água é um recurso natural muito utilizado, mas pouco cuidado, de acordo com a percepção de sete em cada dez brasileiros. Além disso, 78% da população nota um aumento na poluição das águas nos últimos quatro anos no país.

A matéria é um deleite, pois apresenta dados comparativos com o Atlas do Saneamento, divulgado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em 2017, que mostrou que o Brasil tem cerca de 114.000 quilômetros de rios com a qualidade da água comprometida, uma extensão equivalente a quase três vezes a circunferência do Planeta Terra. O texto traz ainda a metodologia aplicada na pesquisa do Instituto Ipsos e as respostas associadas à falta de água e às mudanças climáticas. “As populações menos favorecidas indicam menor associação entre problemas ambientais e mudanças climáticas, enquanto os mais privilegiados têm um entendimento mais amplo”, destaca o texto.

Empresas de comunicação como O Globo e outras (dia mundial da agua 2024 – Pesquisar News (bing.com), aproveitaram a oportunidade para cobrir eventos ou trazer matérias mais reflexivas, como a proposta pelos jornalistas Juliana Perdigão e Odilon Amaral, no jornal Estado de Minas.

Imagem: Captura de tela do site do Jornal Estado de Minas Gerais em 26 de março de 2023.(Dia Mundial da Água: Série retrata o impacto do recurso na cultura mineira – Estado de Minas).

No dia Mundial da Água a empresa jornalística lançou a série de vídeo documental ‘Saberes Ancestrais’, realizada pelo Projeto Preserva, coordenada pelos jornalistas. A série demonstra exemplos de sustentabilidade, preservação ambiental e também cultural. Estruturada em cinco episódios, as histórias mostram como a natureza e seus recursos impactam a vida das comunidades do interior de Minas Gerais e contribuem também para a formação da cultura local. 

Isso mostra que, se a preservação das águas, que são fonte essencial para nossas vidas, não está ocorrendo, ao menos a imprensa tem demonstrado em suas escolhas editoriais a preocupação de trazer estas reflexões aos leitores e seguidores, o que anteriormente se centrava mais na cobertura de eventos ou estratégias utilizadas por órgãos governamentais como oportunidades para atrair os holofotes do cidadão. Bora cuidar da água e venerar este bem tão precioso para deixarmos para as gerações futuras?

*Carine Massierer é jornalista, especialista em Marketing e mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Inteligência Artificial e o Princípio da Precaução

Imagem: Pixabay

Por Sérgio Pereira*

O assunto do momento é a Inteligência Artificial (IA) e suas consequências. Esse avanço tecnológico está em todas as redes de debates. O mundo discute questões éticas (uso indevido na produção de fake news e violação do direito de imagem), econômicas (quem vai lucrar e o que fazer com o exército de desempregados que porventura surgir?), jurídicas (as sentenças um dia ficarão a cargo dos algoritmos?), tributárias (como manter os níveis de arrecadação já que robô não paga imposto?), entre tantos outros.

Quando o assunto é jornalismo, as discussões envolvem, no momento, como aproveitar essa ferramenta no dia a dia e o quanto isso impactará na estrutura das redações. Entidades de classe se preocupam com o provável aumento no número de demissões, que já se intensificaram nos últimos dez anos no Brasil, deixando sem emprego parte considerável dos profissionais de imprensa.

Na área ambiental, por sua vez, alguns estudos já fazem a conexão entre o uso de IA e o crescimento na emissão de dióxido de carbono (CO2). O portal Earth.Org destaca pesquisa da OpenAI que estima que as emissões da indústria das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), como um todo, atinjam 14% das emissões globais no ano de 2040.

O professor Anders Nordgren, da Universidade de Linköping (Suécia), faz um alerta sobre a emissão de CO2 em treinamentos de Inteligência Artificial: “Um estudo focado explicitamente na IA como contribuinte para as alterações climáticas foi conduzido por Strubell et al. (2019). Eles investigaram a pegada de carbono de vários modelos diferentes de IA. Concluíram que as emissões variam significativamente. As maiores foram encontradas no treinamento de um modelo de IA para processamento de linguagem natural (PNL)” (2023).

Conforme Nordgren, calcula-se que o treinamento de IA resulte em cerca de 300 mil quilos de CO2e (Strubell et al., 2019). Essas emissões equivalem a, aproximadamente, 125 voos de ida e volta de Nova Iorque a Pequim (Dobbe e Whittaker, 2019).

Essas pesquisas científicas, no entanto, estão sendo ignoradas quando a discussão envolve essa nova ferramenta tecnológica, independentemente da área envolvida. Mas os jornalistas não podem deixar de considerar esses dados quando escrevem sobre o assunto.

Um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental é o Princípio da Precaução, que já foi abordado em artigos anteriores aqui no Observatório. Conforme Girardi et al., esse princípio “amplia o tempo de ação do jornalismo, orientando-o para o futuro na tentativa de alertar e evitar consequências negativas” (2017). Girardi acrescenta que a “ampliação da divulgação de incertezas por parte do campo científico e as constatações de que não temos controle sobre as consequências de muitos processos e produtos conduziram a um olhar mais cauteloso, que levou à discussão do princípio da precaução”.

Já o “Princípio 15” da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento na Conferência das Nações Unidas, elaborado durante a Rio-92, estabelece: “Com o fim de proteger o meio ambiente, o Princípio da Precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”.

Nesse sentido, devemos, a partir da preocupação com as consequências negativas do uso da IA, sem considerar os danos ao ambiente, recomendar que os jornalistas, amparados na cautela, busquem sempre aprofundar o tema e informar a sociedade sobre o impacto e os riscos inerentes do uso desse novo instrumento. É preciso contextualizar e elencar sempre os prós e contras.

Uma máxima universal estabelece que, na dúvida, não devemos ultrapassar. Essa regra, no entanto, é deixada de lado quando conveniências econômicas e políticas se tornam prioridades. E o jornalismo não pode se submeter a interesses que não coloquem a coletividade em primeiro lugar. Principalmente quando os danos forem irreversíveis, como testemunhamos agora com os trágicos efeitos das mudanças climáticas, para citar apenas um exemplo dos muitos que poderíamos relacionar aqui.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p.279–291, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053. Acesso em: 11 mar. 2024.

NORDGREN, Anders. Artificial intelligence and climate change: ethical issues, Journal of Information, Communication and Ethics in Society, Vol. 21 Nº 1, pp (2023). Disponível em: https://doi.org/10.1108/JICES-11-2021-0106. Acesso em: 12 mar. 2024.

Jornalismo ambiental não hegemônico prova seu impacto no debate público

Imagem: Após reportagem de ((o))eco, condenado por assassinato de Chico Mendes é destituído de presidência do Partido Liberal (PL) / Arquivo Memorial Chico Mendes

Por Débora Gallas*

Uma reportagem do site ((o)) eco publicada no dia 27 de fevereiro repercutiu em outros veículos brasileiros de projeção nacional e impactou as decisões de uma das maiores forças políticas do Brasil – o Partido Liberal (PL). O texto da jornalista Cristiane Prizibisczki revelou que Darci Alves Pereira, condenado pela execução do seringueiro e ambientalista Chico Mendes, havia assumido a presidência do PL em Medicilândia, no Pará.

O caso, informado primeiramente por um veículo não hegemônico, foi notícia em seguida em veículos como GloboNews. No mesmo dia, diante das críticas ao PL, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, recomendou a destituição de Darci Alves Pereira do cargo. Os desdobramentos também foram noticiados por diversos veículos de jornalismo hegemônico de projeção nacional, como UOL e g1.

A polêmica também rendeu matérias sobre o tema por outros ângulos: O Povo, por exemplo, explica que, após o cumprimento da pena pelo crime realizado em Xapuri, no Acre em 1988, Darci se estabeleceu no Pará e passou a ser conhecido como “Pastor Daniel”. O Globo relembrou as circunstâncias e motivações do assassinato. Já a CNN aproveitou o gancho para explicar às novas gerações quem foi Chico Mendes e qual foi o legado de sua luta pela conservação ambiental e pelo uso sustentável dos bens naturais.

Quando nos referimos ao jornalismo não hegemônico, recorremos ao entendimento da pesquisadora Eloisa Loose. Segundo a autora, essa modalidade é praticada por meios que não dominam o mercado e que são mais propensos a adotar posicionamentos críticos. A definição de jornalismo não hegemônico tem similaridades com as ideias de jornalismo alternativo ou jornalismo independente – embora não sejam sinônimos – porque subvertem as preocupações comerciais vistas no jornalismo comumente denominado hegemônico, tradicional ou mainstream.

A autonomia e a independência do jornalismo não hegemônico em relação a anunciantes, por exemplo, são positivas sobretudo para a prática do jornalismo ambiental, que com frequência confronta interesses políticos e econômicos que ameaçam os ecossistemas e os seres humanos e não humanos.

A partir da apuração de ((o)) eco e da repercussão da informação sobre a entrada de Darci Alves Pereira na política, entendemos que o jornalismo não hegemônico não está reduzido a um nicho de público, com alcance limitado. Esse tipo de jornalismo, sobretudo no caso de pautas ambientais – que passaram a ser vistas como “hard news” muito recentemente – tem potencial de impactar o ecossistema do próprio jornalismo e, mais amplamente, o debate público e as decisões de atores relevantes.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Referências

GIRARDI, I. M. T.; LOOSE, E. B.; STEIGLEDER, D. G.; MASSIERER, C. Meio ambiente no Jornal Nacional: das tragédias às disputas políticas. Animus. Revista Interamericana de Comunicação Midiática, v. 22, n. 48, 2023. DOI: 10.5902/2175497768800.

LOOSE, Eloisa Beling. Jornalismo e mudanças climáticas desde o Sul: Os vínculos do jornalismo não hegemônico com a colonialidade. Porto Alegre: UFRGS, 2021. Tese de doutorado disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/220347/001124549.pdf.

Dengue além dos números: por que a doença ainda mata no Brasil?

Imagem: João Paulo Burini / Getty Images

Por Patrícia Kolling*

A leitura da coluna Saúde, meio ambiente, políticas públicas: a dengue mostra que está tudo interligado, produzida pelas colegas Isabelle Rieger e Cláudia Herte de Moraes, e publicada no site Eco, me instigou a apurar sobre a abordagem dada nas notícias da imprensa brasileira sobre a doença e suas relações com o meio ambiente e as políticas públicas. Em notícia publicada pelo governo federal, no dia 27/02, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, ressalta que o aumento no número de casos neste período do ano não era esperado, considerando as tendências históricas que indicam o pico das epidemias entre março e abril. O texto diz ainda que os motivos para esta situação, diferente do esperado, têm raízes múltiplas, entre elas as alterações climáticas, em especial na época de chuvas, e a mudança nos sorotipos circulantes da dengue. O Ministério declarou que o Brasil chegou a quase 1 milhão de casos registrados de dengue e que vai fazer uma mobilização nacional para combater os focos do mosquito, no sábado dia 2.

A fala da ministra foi citada em algumas notícias, porém, pouco se aproveitou para aprofundar a temática, explicando como e porque as alterações climáticas podem estar levando ao aumento dos mosquitos e dos casos de dengue. Uma apuração rápida, nos sites G1, Folha de São Paulo e Estadão, mostrou que a maioria das notícias foca nos números de infectados e mortos pela doença. A Folha de São Paulo, no dia 19, além das dezenas de números e gráficos que trouxe sobre a dengue, destacou que especialistas apontam os fatores climáticos como centrais para a explosão de casos. Diz o texto que o calor acima da média e o período chuvoso criam condições ideais para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença.

Para a construção deste texto, fizemos uma breve análise das notícias publicadas, mas em 2015 e 2016, o tema já foi estudado em profundidade por colegas deste grupo, e apresentado no artigo Dengue, Zika e Chikungunya: Análise da cobertura do risco de doenças associadas às mudanças climáticas sob a ótica do Jornalismo Ambiental. Na época vivia-se no Brasil também um período de aumento de casos de dengue, e da mesma forma a imprensa não aprofundou as relações entre as mudanças climáticas, o aumento dos mosquitos e de casos de dengue.

Outro aspecto que percebemos nas notícias foi a publicação de números que apontam o aumento das mortes por dengue no Brasil. A Folha de São Paulo, citou a fala da ministra Nísia, em que ela destaca a preocupação com o aumento dos casos graves.  “Temos de olhar o manejo adequado, cuidado no tempo certo e hidratação [do paciente]”. O infectologista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Kleber Luz, ressaltou esse aspecto no G1 “… é preciso mitigar o problema. Capacitar médicos, enfermeiros, equipes de saúde para tratar a dengue de forma adequada, disponibilizar insumos como soro, para que as pessoas sejam tratadas. O que devemos fazer é evitar as mortes”. O consultor da OMS ressaltou ainda que a dengue é uma doença completamente tratável, “com baixo índice de óbito se o paciente procurar atendimento precocemente” e se for realizada a intervenção adequada.

Diante dessas explicações por que tantas pessoas ainda estão morrendo de dengue no Brasil? Diferente da covid-19, que é uma doença ainda pouco conhecida, a dengue existe no Brasil há mais de 30 anos. A imprensa precisa questionar as autoridades e especialistas e buscar respostas para o porquê de as pessoas ainda estarem morrendo de dengue no Brasil. Os hospitais e postos de saúde não estão preparados para receber e fazer diagnósticos rápidos nos pacientes? Está sendo monitorado os índices de plaquetas nos pacientes e há bolsas de plaquetas para as transfusões nos casos graves? Os pacientes estão recebendo hidratação quando necessário? Essas são algumas das perguntas que a imprensa deveria estar fazendo e não está. As pautas estão aí, citadas nas próprias notícias. Cabe a imprensa saber olhar além dos números.

*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

Imprensa precisa desideologizar a cobertura do MST  

Imagem: Acervo MST

Por Sérgio Pereira*

No final de janeiro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra completou 40 anos de luta pela reforma agrária no Brasil. Para marcar a data, a entidade lançou a “Carta Compromisso do MST com a Luta e o Povo Brasileiro”, um documento que reafirma o seu compromisso “com o povo brasileiro e com a construção de uma nação mais justa e igualitária através da luta e da construção da Reforma Agrária Popular”.

A imprensa hegemônica brasileira, até o momento, praticamente ignorou o aniversário de 40 anos da organização, que para o linguista, filósofo e sociólogo norte-americano Noam Chomsky, “é o movimento popular mais importante e estimulante do mundo”, conforme seu o discurso de 2003 no Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre. Sua capacidade de mobilização, sua organização e a quantidade de filiados (mais de 400 mil famílias) comprovam isso.

O movimento também é conhecido por ser o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e por ter aberto diversos estabelecimentos comerciais com produtos sem pesticida em várias cidades do país, além de manter um serviço de vendas on-line.

O MST também recebeu alguns pequenos espaços na mídia alternativa, recentemente, por suas ações sociais em desastres naturais causados pelas mudanças climáticas, como as enchentes no Rio Grande do Sul ou suas doações para a população da Faixa de Gaza.

O jornal O Estado de S.Paulo fez uma única referência à data em uma notícia da editoria de Política, postada em 27/01/24, com o título “Ministros de Lula enaltecem MST em evento de 40 anos do movimento e saem aplaudidos”. O texto cobre evento com a participação de quatro ministros do governo federal, restringindo-se a relatar declarações de autoridades. Outros veículos impressos, como O Globo e Zero Hora, no entanto, ignoraram totalmente.

Exceção foi a Folha de S.Paulo, que produziu o especial “MST, 40 anos” em seu site. O jornal postou no final de janeiro oito textos lembrando “a trajetória, os conflitos e as mudanças em quatro décadas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”:

Apenas analisando os títulos acima já é possível verificar uma tendência. A utilização de alguns termos nos títulos denota o enfoque negativo: “irrisória”, “sob cerco”, “critica”, “desilusão”, “ruptura nebulosa”, “mais distante” e “frustrado”.

A palavra “invasões”, por exemplo, é citada em quatro dos oito títulos. O MST repudia esse termo e defende o uso de “ocupações”, expressão cujo significado legal se enquadra com fidelidade às ações do movimento.

Não se trata aqui de mera discussão semântica. O que se deve lembrar é que há diferenças entre “invadir” e “ocupar”, com suas implicações no mundo do direito. Carol Proner, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) e do Grupo Prerrogativas, explica que ocupação não é o mesmo que invasão. A Constituição Federal de 1988 define o conceito de uso social da terra e os critérios para que seja legítimo, que não degrade o meio ambiente, que não se faça por meio de trabalho escravo ou análogo e que seja produtiva.

Carol Proner acrescenta: “A ocupação de terras tem sido historicamente a forma pela qual os movimentos camponeses chamam a atenção para este compromisso de direitos fundamentais e da necessidade de que a propriedade venha acompanhada de uma função social. Confundir os dois conceitos propositalmente é uma forma de negar a luta pela terra e os legítimos sujeitos de direito, assim reconhecidos pela Declaração da ONU sobre Direitos dos Camponeses”. (Brasil 247, 2023)

A Folha, como vários jornais brasileiros, prefere ignorar a doutrina jurídica para, em clara manifestação ideológica, criminalizar o movimento camponês. Por sinal, nestas quatro décadas, o MST teve sua imagem emoldurada na imprensa como uma organização envolvida em “invasões”, “conflitos”, “destruição” e “mortes”, mesmo que as vítimas sejam em sua imensa maioria do próprio MST.

O texto intitulado “Arroz orgânico do MST tem produção quase irrisória, mas virou marca simbólica”, por sua vez, busca minimizar a importância do movimento após a grande repercussão da entrevista, em agosto de 2022, do então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva para o Jornal Nacional.

Naquela ocasião, o MST foi parar no Trending Topics, após Lula afirmar que o movimento era “o maior produtor de arroz orgânico do Brasil”. A declaração levou a milhares de manifestações nas redes sociais, algumas elogiando a fala de Lula e outras, ligadas à extrema direita, colocando em dúvida a informação. Com o texto da Folha, fica a comprovação de que a fala do atual presidente não apenas tinha procedência, como estava alicerçada em dados. O MST, por sinal, é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil e da América Latina, conforme admite o jornal.

A Folha, porém, ignora que a produção de orgânicos ainda está em desenvolvimento – e não apenas no Brasil. Os números mostram que a produção e o consumo de orgânicos crescem em todos os continentes. Mas trata-se de um mercado que ainda está se construindo, enfrentando burocracias, insumos com preços elevados e a falta de apoio institucional, entre outras questões.

A imprensa hegemônica brasileira, que se diz imparcial, precisa desideologizar sua cobertura do MST. A entidade precisa virar pauta seguindo os princípios de noticiabilidade, que são citados nos diversos manuais de redação. Seriam mais isentos os jornais se olhassem para o movimento camponês da mesma forma que veem as organizações patronais. Mas, para isso, precisam assumir definitivamente a ideia da imparcialidade. E não apenas quando lhes interessa.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

PRONER, Carol.Ocupação não é invasão. Brasil 247, São Paulo, 02 de mai. de 2023. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/ocupacao-nao-e-invasao?amp. Acesso em: 5 fev. 2024.

OLEGÁRIO, Polianna Teixeira; ZIEMANN, Marcos Afonso Lopes. Apontamentos Teóricos Sobre o Processo de Reforma Agrária no Brasil a partir da Observação em Campo no Assentamento Che Guevara. In: ANDRÉ, O. et al. Globalização, Regionalização e as Novas Ruralidades! [s.l: s.n.], 2017. p. 230-265. Disponível em: <https://dspace.unila.edu.br/bitstream/handle/123456789/2733/Livro%20Andre%20%26%20Silvia%20-%20Orgs%20-Agbook.pdf?sequence=1&isAllowed=y&gt;. Acesso em: 9 fev. 2024.

A luta indígena é dramática e urgente

Por Cláudia Herte de Moraes*

A luta indígena deve ser de todos nós. É um ponto crucial para o enfrentamento dos desafios do Brasil e do mundo, diante da “queda do céu” que se aproxima, nos servindo da metáfora de Davi Kopenawa que, em seu livro, traz a preocupação dos povos originários sobre o possível colapso do sistema que sustenta nossa vida. Na resenha da obra no site Outras Palavras, Álvaro Faleiros descreve nosso contexto: “No velho e requentado discurso neocolonial, o território brasileiro é riscado por fronteiras – “agrícola”, dos “negócios”, do “desenvolvimento”, da “civilização”… Fronteiras ou fronts de uma guerra de conquista que busca incorporar cada novo rincão ao projeto uniformizante do capitalismo extrativista global.”

No domingo de Carnaval, dia 11 de fevereiro de 2024, a Escola Acadêmicos do Salgueiro do Rio de Janeiro fez ecoar seu samba na avenida e trouxe uma reflexão dramática sobre o sofrimento do povo Yanomami, que enfrenta uma emergência humanitária, decretada desde 2023, logo após o início do governo atual do presidente Lula (e foi tema deste Observatório). No samba, a frase “Eu aprendi o português, a língua do opressor/ Pra te provar que meu penar também é sua dor/ Falar de amor enquanto a mata chora/ É luta sem flecha, da boca pra fora” traz a denúncia de que não bastam palavras e postagens em apoio à luta indígena, precisamos partir para a ação. Como trazido pelo Brasil de Fato, foi um desfile histórico na Sapucaí, que reafirma a trajetória de luta dos Yanomami.

Enquanto o samba da Acadêmicos do Salgueiro fez uma grande homenagem ao povo Yanomami, no maior espetáculo da terra, é preciso lembrar que estamos em pleno vigor da Lei 14.701 (antigo PL 2903, da tese do Marco Temporal) que foi aprovada em setembro e na segunda rodada, em dezembro de 2023, o Congresso Nacional derrubou os vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aos pontos mais críticos. Com isso, foram institucionalizadas várias violações constitucionais. A luta segue, em arenas jurídicas e no chão da floresta. O debate sobre o MT também foi abordado aqui no observatório.

Em 7 de fevereiro é celebrado o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. Nesta data, morria o nativo Sepé Tiaraju, no ano de 1756, do povo Guarani, importante liderança indígena pertencente aos Sete Povos das Missões. Este dia pretende trazer visibilidade às pautas dos povos originários brasileiros, infelizmente cada vez mais focada na própria sobrevivência. Em reportagem do G1 Amazônia, destaca como se dá a luta histórica dos indígenas pela defesa dos territórios, ouvindo indígenas, associações e pesquisadores, apontando como o sistema colonialista ainda se materializa na destruição ambiental e na negação dos direitos. 

O tema é recorrente e terrivelmente triste, pois não cessam as mortes de indígenas em todo território brasileiro. Em 21 de janeiro, foi assassinada Maria de Fátima Muniz, a Pajé Nega Pataxó Hã Hã Hã, na Bahia.  As investigações em curso demonstram que há uma combinação nefasta que se articula contra os direitos dos indígenas, incentivada até mesmo por benesses indevidas do Estado brasileiro, como apontado na notícia de 9 de fevereiro, da APIB: “Segundo testemunhas, o ataque teve a participação de integrantes do “Invasão Zero” e colaboração de policiais militares. A perícia comprovou que o tiro fatal partiu do filho de um fazendeiro.”

No entanto, os conflitos são cada vez mais frequentes nos territórios, possivelmente resultado dos últimos anos de um governo que insuflou pessoas e grupos armados contra os mais vulneráveis e protetores de suas terras e florestas. Também pela vigência do Marco Temporal e ligações políticas locais, como traz a reportagem do Nexo Jornal sobre a violação das terras de território Uru-Eu-Wau-Wau em Rondônia. 

O premiado documentário “Somos Guardiões”, recentemente entrou em cartaz no catálogo da Netflix. No destaque da Revista Fórum, Edivan Guajajara é o primeiro cineasta indígena a dirigir um filme no streaming e fala sobre a importância de trazer sua visão e unir forças para frear o problema ambiental e humano na Amazônia. A obra retrata os crimes ambientais e a violência contra os povos indígenas no país, mas especialmente a força daqueles que resistem há mais de 500 anos à invasão e exploração de seus territórios. Após assistir este documentário, fica nítido que precisamos mudar agora! Enquanto os indígenas e seus territórios são dilapidados, não chegaremos a impedir a queda do céu. 

Cada vez mais os jornais e publicações não hegemônicos despontam na cobertura das pautas indígenas, juntando-se à cobertura dos veículos jornalísticos tradicionais – que nem sempre conseguem apontar as ligações e complexidades de fatos históricos e entrelaçados com poderes colonialistas em nossa sociedade. Por isso, para apoiar e entender mais sobre a luta indígena, os espaços da visibilidade indígena nas plataformas digitais são muito relevantes, como a @apiboficial e as organizações regionais de base @apoinme_brasil | @coiabamazonia | @arpinsuloficial | @cons.terena | @atyguasu | @yvyrupa.cgy | @arpinsudestesprj

 * Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Alerta para o jornalismo ambiental: minoria compreende jargões ambientais

Imagem: Depositphotos

Por Míriam Santini de Abreu*

Notícia publicada na página do jornal britânico The Guardian no dia 24 de janeiro dá o que pensar ao jornalismo ambiental. Ela apresenta o resultado de um estudo feito por uma empresa e uma agência de comunicação no Reino Unido mostrando que apenas um quarto das pessoas interrogadas compreendia claramente o termo “verde” e aproximadamente o mesmo número conseguia descrever com precisão o que significava “sustentável”. Mesmo termos considerados de uso generalizado pelas empresas, como “amigo do ambiente” e “cultivado localmente”, são compreendidos apenas por uma minoria de pessoas. A dificuldade de compreensão também atinge as iniciativas políticas governamentais orientadas para a redução de resíduos, como a proibição de talheres e pratos de plástico descartáveis.

A notícia, informa que, apesar da confusão em torno de alguns dos termos-chave, a investigação mostra um apoio extremamente amplo às questões: “nove em cada 10 consumidores consideraram importante que as empresas e marcas falassem sobre as suas iniciativas de sustentabilidade e 68% dos inquiridos eram mais propensos a comprar de uma empresa que tinha uma estratégia ambiental clara em vigor”.

A notícia cita ainda a opinião de Jamie Peters, da Friends of the Earth, para quem palavras-chave ambientais estão sendo sequestradas e mal utilizadas por empresas de petróleo e gás, que as utilizam para truques de marketing, e também pelo governo.

Aqui no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente desenvolvia, desde 1992, a pesquisa “O que o brasileiro pensa do meio ambiente e do consumo sustentável”, mas a última foi em 2012. Naquele ano, o indicador mais relevante foi o número de pessoas que, 20 anos antes (1992), não sabiam mencionar sequer um problema ambiental na sua cidade ou no seu bairro, número que diminuiu para 10% em 2012, em relação aos 46% de 1992.

É possível extrapolar o dado colhido no Reino Unido para interesses empresariais para discutir a escrita jornalística sobre a relação entre sociedade e natureza. A realidade brasileira não deve ser diferente da britânica, com boas chances de se apresentar ainda pior se a pesquisa fosse realizada aqui.

As pautas do jornalismo ambiental giram em torno de conceitos/práticas sobre a a crise climática, a sustentabilidade, o mercado de carbono, e há um imenso ponto de interrogação sobre o entendimento, por parte de leitores, ouvintes e telespectadores, das notícias e reportagens sobre essas temáticas.

Um caminho para a resposta aponta para o entendimento de que a palavra no e do jornalismo precisa nascer do cotidiano e da experiência do corpo vivida no espaço. O pensador francês H. Lefebvre afirma que, a partir da vida cotidiana, mudam a língua e as linguagens, nascem palavras novas, gírias, muitas vezes marginais em relação à linguagem oficial (LEFEBVRE, 1978, p. 94). Estudar a linguagem na vida cotidiana, afirma o autor, implica tomar também o que ela não diz, o que evita dizer, o que não pode nem deve dizer.

Para ele, uma revolução precisa dar lugar a um novo espaço, a um novo cotidiano e a uma nova linguagem: Uma revolução que não dá lugar a um novo espaço não chega a realizar todo seu potencial; trava e não gera mudanças de vida, apenas modifica as superestruturas ideológicas, as instituições, os aparatos políticos. Uma transformação revolucionária se verifica por sua capacidade criativa, geradora de efeitos na vida cotidiana, na linguagem e no espaço, embora seu impacto não tenha que acontecer necessariamente no mesmo ritmo e com intensidade semelhante (LEFEBVRE, 2013, p. 112).

Hoje, premido pelas mudanças nas rotinas de trabalho, o jornalismo mal estuda e pouco se alimenta da linguagem da vida cotidiana, do repertório de falas e fazeres das ruas. Ali, no espaço geográfico, com seus conflitos e tensões, onde os jargões, inclusive ambientais, fariam sentido na experiência do corpo, ausentam-se o jornalismo e os jornalistas.

Há então que revolutear a pesquisa, o ensino e o fazer, recuperar a rua, embrenhar o corpo no espaço para dali alimentar o texto.  A um jornalismo comprometido com a emancipação humana cabe a tarefa de, pela linguagem, tornar visíveis as práticas criadoras que, no espaço e no cotidiano, podem levar à transformação social, em especial nas pautas que nos são caras no jornalismo ambiental.

*Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

Referências:

LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Penísula, 1978.

LEFEBVRE, Henri. La producción del espacio. Espanha: Capitán Swing, 2013.

A dicotomia do Brasil na COP 28 e a cobertura midiática

Imagem: Chris LeBoutillier / Unsplash

Por Janaína Capeletti*

O Brasil está presente na 28ª Conferência do Clima das Nações Unidas (ONU), a COP28, com a maior delegação entre as 195 nações participantes. São cerca de 2.400 inscrições do governo, setor privado e sociedade civil. A comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é composta por 13 ministros e outros tantos parlamentares e representantes de empresas estatais.  

O país chegou ao evento com a ambição de liderar mundialmente o enfrentamento da crise climática e de cobrar do mundo o cumprimento do Acordo de Paris. Na sessão de abertura da Conferência, o presidente do Brasil fez um discurso forte, aproveitando a oportunidade para chamar a atenção das potências mundiais pelo cumprimento de compromissos estabelecidos para o enfrentamento do aquecimento global. A imprensa repercutiu. Na CNN, a matéria “Lula critica países que ‘lucram com a guerra’ e cobra redução de combustíveis fósseis na COP28” destacou a fala do presidente cobrando os países por ações concretas de descarbonização.  

“O planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos. De metas de redução de emissão de carbono negligenciadas. Do auxílio financeiro aos países pobres que não chega. De discursos eloquentes e vazios. Precisamos de atitudes concretas. Quantos líderes mundiais estão de fato comprometidos em salvar o planeta?”, questionou o presidente.

Além de apresentar resultados obtidos na atual gestão, como a redução do desmatamento, o evento foi palco para o lançamento mundial do Plano de Transformação Ecológica do país. Também foi anunciada a proposta de criação do Fundo Floresta Tropical para Sempre (FFTS), que proverá recursos para ajudar cerca de 80 nações detentoras de florestas, como o próprio Brasil, a conservá-las.

Contudo, já no início do evento, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, divulgou a adesão do Brasil na OPEP+, grupo estendido da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Questionado sobre a contradição entre discurso e ação, Lula disse que a participação do Brasil no cartel do petróleo será para “convencer” os países à transição energética. O mal-estar foi completado pelo presidente da Petrobrás anunciando que a empresa tem intenção em criar um braço no Oriente Médio.

As mensagens dúbias transmitidas pelo Brasil no início do evento tiveram ampla cobertura da mídia nacional e internacional. Como as matérias dos jornais Valor Econômico “Petróleo respinga em ‘liderança verde’ de Lula na COP 28“, Folha de São Paulo “Lula confirma na COP28 entrada na Opep+ para ‘convencer’ países a abandonar petróleo“, o Blog do Noblat no Metrópoles “Contradições de Lula na COP28 (por Hubert Alquéres)“, Reuters “Lula says Brazil’s participation in OPEC+ is to stop oil producers using fossil fuels“, The Guardian “Lula’s bid to style himself climate leader at Cop28 undermined by Opec move” e Le Monde “COP28: Heads of state call for action but remain divided on fossil fuels“.

Os holofotes estão sob o Brasil não à toa, o país recebeu da Climate Action Network (CAN), uma associação de 1.300 ONGs de mais de 120 países, o prêmio “Fóssil do Dia”, entregue diariamente durante a COP a alguma “personalidade”. O pesquisador Paulo Artaxo escreveu artigo para a Academia Brasileira de Ciências, comentando o fato.  

A imprensa não se absteve de apontar as incoerências da posição brasileira, contudo, sem aprofundamentos sobre as consequências de tais políticas. Dentre as exceções, a reportagem de Anna Beatriz Anjos, da Agência Pública, “Na COP28, Lula mostra lição de casa sobre Amazônia, mas reforça contradição com petróleo,” apresenta a contextualização do tema e sua repercussão. Na mesma linha, o site Sumaúma publicou uma excelente entrevista com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que se mostra na disputa pela liderança verde na América Latina. O colombiano divulgou na COP que seu país decidiu não assinar novos contratos de exploração de carvão, petróleo e gás. E por fim, a análise da jornalista Daniela Chiaretti: “Lula equilibra pratos entre florestas e petróleo na COP 28, enquanto Gustavo Petro diz o que se quer ouvir” também apresenta com lucidez a disputa regional pelo protagonismo verde.

A crise climática que nos encontramos demonstra a urgência de ações e não de discursos. É importante que o jornalismo seja vigilante e aponte as inconsistências das posições políticas. Entre os pressupostos do jornalismo ambiental está a responsabilidade na promoção da mudança de pensamento. Engajar a sociedade por meio de informações consistentes, contextualizadas, próximas de sua realidade é dever do jornalismo e de fundamental importância no momento em que o planeta se encontra.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.


Onde está a pluralidade de vozes? 

Imagem: rafapress/Shutterstock

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Cobertura da GZH para a COP 28 está centrada em setores poluidores, como agronegócio e indústria, em vez de olhar para soluções ecológicas de produção. 

As expectativas de setores industriais e do agronegócio para a 28ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP 28) foram tema da reportagem central do caderno Doc, da Zero Hora, na edição de final de semana de 24 e 25 de novembro. O texto analisou respostas à crise climática que setores industriais e do agro apresentam, como adequação de sua produção e adoção de discurso sustentável. No entanto, entendendo que o jornalismo também serve para produzir consensos, ele ignora iniciativas que já produzem agroecologia e prezam pela sustentabilidade de todas as formas de vida, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e tem como princípio o respeito com a terra. Ainda, existem diversas associações de agricultores ecologistas que vendem sua produção nas feiras agroecológicas que ocorrem em todo o estado.

Analisando a reportagem em conformidade com os pressupostos do jornalismo ambiental, entende-se que a relação das fontes, em primeiro ponto, não é plural. São ouvidos somente fontes ditas oficiais, isto é, pesquisadores de universidades, ONGs com respaldo internacional (a exemplo do Greenpeace), entidades ligadas à indústria e ao agronegócio. Em Porto Alegre, por exemplo, cidade onde está a sede da Zero Hora, foi fundada a Associação Gaúcha de Proteção Ambiental (Agapan) em 1971. O Rio Grande do Sul foi pioneiro em associações ambientalistas, a exemplo da agora Amigas da Terra Brasil, que teve Magda Renner como liderança. Até por critérios de noticiabilidade tradicionais do jornalismo, não faz sentido excluir essas organizações como fonte em uma reportagem especial no maior veículo de comunicação do estado.

Da mesma forma, a reportagem explica que o agronegócio leva posicionamento sustentável ao evento, como já evidenciado na Expointer, principal evento para o agro da Região Sul.A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defende que a produção brasileira seja vista em Dubai como parte da solução para o aquecimento global. Tanto que entregou ao governo brasileiro posicionamento de combate ao desmatamento ilegal e ao fortalecimento de políticas de desenvolvimento regional, por meio de mecanismos de financiamento previstos na Convenção do Clima”, é o que diz o texto.

Ainda assim, não há qualquer menção aos pequenos produtores e a quem produz agroecologia, a exemplo do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), das populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas. A produção em larga escala sem respeitar a necessidade do solo ou dos seres humanos que estão realizando o trabalho não é sustentável a longo prazo – estamos sofrendo as consequências da crise climática também por ignorar o que os saberes tradicionais dizem sobre como respeitar a natureza. 

A reportagem menciona que, nos anos 90, a população brasileira tinha mais do que se preocupar ao invés das mudanças climáticas. Havia, segundo ele, problemas mais importantes e, mesmo que os países se reunissem para discutir isso, o assunto era esquecido. As populações que vivem nas encostas de morros, por exemplo, e que a cada chuva sofrem com falta de luz, enchentes e dificuldades no deslocamento podem discordar. Também, quem teve seu território invadido há 523 anos e suas terras constantemente desmatadas pode vir a contestar essa fala. 

Agora que o problema se generalizou para além de populações historicamente vulnerabilizadas, o enfoque da cobertura jornalística passa a ser a crise. No entanto, há pelo menos 50 anos movimentos ambientais avisam das consequências que o extrativismo e a forma de produção voltada para a escalabilidade dos lucros provocam no planeta. De acordo com relatório produzido pela ONU, em 2030, a Terra deve atingir seu limite, ou um ponto de não retorno, ocasionando num desastre climático em massa. Se as pessoas não estavam preocupadas com isso, mesmo com denúncias, onde estava o jornalismo que não cumpriu seu papel de apontar e lembrar o problema?

Ao final do texto, ainda, a conclusão é que, com reformas pontuais, a crise climática pode vir a parar. Com o exemplo do chamado capitalismo consciente, a reportagem faz menção a empresas que implementam, por reformas, um olhar mais sustentável. Embora isso possa ser uma atitude louvável em casos de pequenas ou médias empresas, as transnacionais, big techs e outras representantes gigantes que dominam o mercado utilizam-se da apropriação desse discurso verde para fazer o greenwashing, isto é, anunciando erroneamente que seus produtos são sustentáveis enquanto continua explorando seus trabalhadores. A chamada grande imprensa, ou imprensa hegemônica, por fim, contribui para a perpetuação da exclusão de vozes da cobertura ambiental, ignorando os saberes dos povos originários, que também estarão na COP 28, da mesma forma que contribui para uma leitura da crise climática de forma acrítica. É importante lembrar que não existe desenvolvimento sustentável e o Planeta está demonstrando isso. Capitalismo verde ou economia verde não perdem sua característica de exploração da força de trabalho e da natureza para aumentar os lucros das empresas.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista de Iniciação Científica. E-mail: belle.rieger@gmail.com.
** Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora convidada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFRGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br.