O papel dos veículos independentes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul

Imagem: Isabelle Rieger/Sul 21

Por Míriam Santini de Abreu*

Veículos independentes como o Sul 21, Brasil de Fato RS, Agência Pública e Intercept Brasil, entre outros, estão cumprindo um papel dos mais relevantes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul. Os quatro operam à margem da mídia hegemônica, que se refestela com recursos públicos e faz cada vez menos jornalismo. Os veículos citados trouxeram ao debate fatos ignorados, ocultados ou mal divulgados pela imprensa tradicional, mais preocupada em tentar blindar a incompetência de prefeitos e do governador do estado. Entre esses fatos estão aqueles caros ao jornalismo ambiental.

O Sul21, no dia 6 de maio, na reportagem intitulada “Tragédia histórica expõe o quanto governo Leite ignora alertas e atropela política ambiental”, assinada por Luciano Velleda, detalha as críticas de organizações não-governamentais ao governo do estado em relação às mudanças no Código Estadual do Meio Ambiente e à iniciativas como a construção de barragens em áreas de preservação da natureza.

O Brasil de Fato RS tem publicado várias reportagens a partir da periferia de Porto Alegre, ouvindo populações empobrecidas que perderam o pouco que tinham e enfrentarão dificuldades inimagináveis para recompor o cotidiano. Uma delas foi a reportagem intitulada “Em bairro ‘esquecido’ de Porto Alegre (RS), enchente faz emergir solidariedade”, assinada por Murilo Pajolla e publicada no dia 27 de maio.

Outra reportagem do Brasil de Fato RS, intitulada “Com 180 mil pessoas atingidas pela enchente, Canoas tem atendimento do CRAS interrompido” e assinada por Clara Aguiar em 21 de maio, repercutiu e serviu de base para denúncia junto ao Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (MPRS). A repórter, em sua conta na rede social Instagram (@clguiar), avalia a repercussão do relato sobre as dificuldades enfrentadas pelas famílias vítimas da enchente ao tentarem se cadastrar no CadÚnico em Canoas, município vizinho de Porto Alegre. O cadastramento é essencial para que pessoas atingidas possam ter acesso aos benefícios do governo estadual e federal. “O jornalismo de impacto desempenha um papel crucial especialmente nesse momento em que milhares de vítimas da enchente buscam auxílio e informações confiáveis”, comenta Clara Aguiar na postagem.

Com o título “O passo-a-passo da inoperância no RS, segundo um dos responsáveis por alertar as autoridades”, o Intercept Brasil divulgou reportagem assinada por Paulo Motoryn e Marcelo Soares no dia 15 de maio revelando grave conflito de interesses: uma das empresas responsáveis pela manutenção do sistema de contenção de inundações de Porto Alegre tem, entre seus sócios, um ex-funcionário da prefeitura que, por dois anos, foi o responsável por sua fiscalização.

No dia 22 de maio, a Agência Pública divulgou a reportagem intitulada “Militares e políticos sem experiência estão à frente da Defesa Civil em cidades do RS” , assinada por Rafael Oliveira, tendo, para isso, analisado o orçamento empenhado para a Defesa Civil por esses municípios e pelo estado nos últimos três anos. Os dados foram extraídos diretamente do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi), abastecido pelos próprios governos estaduais e municipais.

As reportagens mencionadas são exemplos do conjunto da cobertura dos quatro veículos, que disponibilizam, em suas páginas, outros textos tão significativos quanto os acima citados.

A designação de imprensa/jornalismo tradicional, também chamada de convencional, faz referência aos grupos e empresas controladoras do setor no Brasil. Sobre o jornalismo independente, há inúmeras pesquisas que investigam o tema, sendo uma delas o trabalho de M. Silva (2017), que mapeia 30 iniciativas criadas entre 2013 e 2015 no Brasil, por ela denominadas novas experiências de jornalismo. Segundo a autora, as expressões geralmente aplicadas a esse tipo de iniciativa – jornalismo independente, jornalismo alternativo, mídia radical, mídia contra-hegemônica – não dão conta de toda a variedade de propostas que compõem tais iniciativas.

Este artigo toma o papel da imprensa tradicional/hegemônica como o de manutenção da ordem social e, em contrapartida, o da imprensa independente/alternativa/contra-hegemônica como o de crítica a esta ordem para a construção de outro modo de organização social. Os quatro veículos citados, em maior ou menor grau, explicitam essa perspectiva, e de forma concreta trazem ao fazer e ao discurso jornalístico um conjunto de temas, pontos de vista e fontes invisibilizadas ou negligenciadas no debate público.

Nesta direção, prestam-se ao exercício do direito à fala e à escrita muitas vezes proscrita na imprensa tradicional. Idealizador da ideia do direito à cidade, Henri Lefebvre, em artigo no livro “Du Contrat de Citoyenneté”, publicado em 1990, lista o que nomeia como “Os novos direitos do cidadão”. Entre eles estão o direito à informação e o direito à expressão. Diz Lefebvre que um cidadão não deve nem pode ficar calado sobre o que o preocupa e que lhe diz respeito, mesmo que apenas indiretamente: “Isso é muito: todos os assuntos da sociedade preocupam todos os membros. Daí o direito de refletir, de falar, de escrever” (LEFEBVRE, 1990. p. 34).

É possível afirmar que no nascedouro da catástrofe que se abate sobre o Rio Grande do Sul estão também esses direitos sufocados ou mal-ouvidos pelas autoridades hoje apressadas em se livrar de sua cota de responsabilidade. Que bom termos veículos como os quatro citados, entre outros, para trazer à tona fatos que, para essas autoridades, deveriam estar convenientemente esquecidos. Sobrevivem a duras penas e fazem jornalismo à altura desses duros tempos.

Referências

LEFEBVRE, HENRI et LE GROUPE DE NAVARRENX . Du Contrat de Citoyenneté. Paris: Editions Syllepse et Editions Periscope, 1990.

SILVA, Mariana da Rosa. Tensões entre o alternativo e o convencional: organização e financiamento nas novas experiências de jornalismo no Brasil. Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Santa Catarina, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/185627. Acesso em: 28 maio. 2024.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente

Com apuração e checagem, jornalismo mostra ações antiambientais na base do desastre climático no RS

Por Patrícia Kolling*

Nesta segunda-feira, dia 20 de maio, o programa Roda Viva, da TV Cultura, foi transmitido do Theatro São Pedro, em Porto Alegre (RS). O entrevistado foi o governador Eduardo Leite (PSDB) e os entrevistadores um time de jornalistas gaúchos. Conforme a apresentadora Vera Magalhães, a transmissão do programa da capital gaúcha foi para que a bancada de jornalistas fosse formada por pessoas que estão à frente da cobertura jornalística da tragédia no Estado.

Preparando-se para as entrevistas, os jornalistas buscaram informações sobre as legislações ambientais aprovadas no Estado, as previsões de chuva divulgadas antecipadamente e as ações do Governo para evitar tantos danos. Elaboraram perguntas que buscavam identificar responsabilidades pelo acontecido, mostrando que não foi um acidente; e também relacionando as enchentes com as mudanças climáticas.  A jornalista Kelly Matos destacou as enchentes, temporais e ciclones que aconteceram no Estado, do final do ano passado até início deste, e questionou o governador se o estado não poderia ter feito algo, se preparado melhor, para minimizar os efeitos. Os jornalistas também questionaram sobre as mudanças no novo Código Ambiental do RS, aprovado no início do governo de Eduardo Leite, destacando a proteção do Bioma Pampa e a dispensa de autorização ambiental para algumas ações.

O governador Eduardo Leite respondeu às questões trazendo muitos dados e contextualizando situações, dizendo não negar a ciência e os alertas, mas não conseguiu descrever o que efetivamente fez para prevenir tantos prejuízos sociais e econômicos. O foco principal da fala do governador foi mostrar como o Estado está empenhado em auxiliar as pessoas desabrigadas e que ficaram sem moradias e ações para a reconstrução do RS.Muitas perguntas, porém, ficaram sem respostas concretas, como também muitas outras perguntas poderiam ter sido feitas, no sentido de mostrar a responsabilidade do Governo Gaúcho diante do acontecido, como, por exemplo, sobre os investimentos no polo carbonífero de Candiota, tema já analisado neste observatório. O chargista Luciano Veronezi trouxe a crítica e o humor às respostas do governador.

Mas o papel de fiscalizador do poder público do jornalismo não se encerrou com a entrevista do programa Programa Roda Viva. No dia seguinte, 21 de maio, os  jornalistas Amanda Ribeiro, Ethel Rudnitzki e Luiz Fernando Menezes, do site Aos Fatos publicaram  “No Roda Viva, Eduardo Leite desinforma sobre responsabilidade do governo gaúcho e alertas pré-enchentes”. O site checou algumas informações e mostrou que diferente do que o governador disse os institutos meteorológicos haviam previstos altos volumes de chuvas, que tanto estados, como municípios são responsáveis por zelar pelos sistemas de prevenção de desastres, além de mostrar que o novo Código Florestal não define normas para a proteção do Bioma Pampa. Para produzir o material, o site acessou legislações, notas publicadas emitidas pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), da UFRGS, reportagens veiculadas na mídia nacional e regional, retomou previsões meteorológicas e entrevistou especialistas.

O jornalista e colunista da Folha de S. Paulo, Bruno Boghossian também analisou criticamente as falas de Eduardo Leite, destacando o desconforto do governador diante das discussões sobre o desastre e ressaltando que ele não poderá se escorar por muito tempo na busca de soluções imediatas, sem a identificação dos culpados.

E os responsáveis já começam a ser apontados pela imprensa e outros setores da sociedade. A Folha de S. Paulo publicou também no dia 21, “Prefeitura de Porto Alegre foi alertada há seis anos sobre risco de falha no sistema contra enchente”. O texto relata que um parecer técnico elaborado por engenheiros municipais, em setembro de 2018, apontava falhas no sistema de bombeamento na região central de Porto Alegre. Em novembro do ano passado outro alerta foi encaminhado a prefeitura, mas até o início das chuvas as melhorias não haviam sido realizadas.

Da mesma forma, que o governador Eduardo Leite, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB) foge das suas responsabilidades, classificando como narrativas mentirosas, fake news ou a recortes parciais feitos pela imprensa, informações que estão chegando à sociedade. É importante destacar que há um esforço de apuração séria e responsável, como fez a Folha de S. Paulo e o site Aos Fatos, quando há checagem das informações dadas pelas autoridades e divulgadas nas redes sociais.

Ainda no dia 21, a Carta Capital publicou a notícia “Fachin manda Leite explicar mudança na legislação ambiental do RS” . O texto explica que o Ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, pede explicação na mudança da legislação ambiental do estado que deu aval à supressão de vegetação nativa em áreas de proteção permanente.

O assunto já havia sido destacado no  dia 17 de maio, em texto da Folha de S. Paulo, que dizia que a troca de vegetação nativa por soja pode ter agravado as enchentes no Rio Grande do Sul. O texto informa que, entre 1985 e 2022, o Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação nativa, que corresponde a 22% da cobertura original vegetal existente no estado em 1985. Cientistas apontam que a vegetação diminui a velocidade à qual a enxurrada chega ao leito dos rios; aumenta a quantidade de água infiltrada no solo, o que diminui a quantidade de água disponível para inundações e protege o solo diminuindo a quantidade de sedimentos que assoreiam os rios da região.

No final da entrevista ao Roda Viva, o governador Eduardo Leite, destaca ter se perguntado “por que o Rio Grande do Sul?” Por mais valente e resiliente que seja o povo gaúcho, a resposta à questão está bem mais relacionada a aspectos de negligência com as prioridades ambientais, que começam a ter mais espaço na cobertura jornalística sobre a tragédia das cheias na região.

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

O desafio da cobertura ambiental para além das catástrofes

Por Débora Gallas*

Em uma das edições do Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental, talvez há uns dez anos, lembro que uma participante perguntou às demais presentes: como sensibilizar as pessoas sobre os efeitos das mudanças climáticas no planeta com imagens que sejam mais próximas da gente? Ela gostaria de exemplos para além da imagem-síntese do aquecimento global àquela altura – a do urso polar ilhado por conta do derretimento de gelo no Ártico.

Infelizmente, neste momento, estamos rodeadas de imagens exemplares sobre a emergência climática. Após um 2023 marcado por alto volume de chuvas e inundações, novamente acompanhamos o noticiário sobre os eventos climáticos que atingem o Rio Grande do Sul. A população brasileira sabe que as mudanças climáticas são realidade porque sente na pele seus efeitos.

Mas, se nossa preocupação há dez anos era informar e sensibilizar as pessoas sobre esses riscos através do jornalismo porque ainda havia tempo hábil para buscar alternativas que reduzissem danos e impactos, nosso desafio hoje é manter o público engajado para além do bombardeio de informações catastróficas. A mera reprodução do discurso de fontes oficiais reforça essa sensação porque está associada, por um lado, à ideia de que a tragédia é imprevisível e, por outro, de que ela é inevitável.

Estes dois pontos estiveram presentes no discurso do governador do estado, Eduardo Leite, em dois momentos distintos. No ano passado, o argumento de que as chuvas pegaram o estado de surpresa chegou a ser contestado ao vivo pelo jornalista André Trigueiro na GloboNews. Agora, como repercutem os veículos locais, como GZH, Leite vem usando as redes sociais para compartilhar informes da Defesa Civil sobre o agravamento da situação em áreas de risco.

Acompanhar as falas oficiais é, obviamente, uma tarefa fundamental do jornalismo, mas é importante variar o tom da cobertura e incluir aspectos diversos que demonstrem a complexidade do problema. Isso pode ser feito através de um olhar crítico ao discurso desses atores frente a posicionamentos recentes que podem levar ao agravamento da crise climática, como o incentivo à exploração de carvão no Rio Grande do Sul, tema que foi objeto de análise recentemente neste Observatório.

Pode vir também da escuta de outras fontes, como as especialistas, como fez esta matéria de O Globo, mesmo à distância. Além de explicar a origem do fenômeno, o texto incluiu a perspectiva de entidades da sociedade civil que acompanham há anos, com preocupação, o impacto de atividades como a monocultura de soja, por exemplo, para a regulação climática da região.

Por fim, urgem coberturas que mostrem à população a necessidade de políticas públicas que se antecipem às catástrofes – e que há muitas propostas boas por aí, com origem nos próprios territórios impactados, porém sujeitas à vontade política para terem seu potencial transformador aumentado.

O 20º Acampamento Terra Livre, por exemplo, que reuniu milhares de indígenas de todo o país em Brasília na semana passada, buscou pautar a contribuição da luta indígena pelo território para a conservação dos ecossistemas brasileiros – luta essa que consequentemente reverbera em estratégias de resiliência do país frente às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade.

Portanto, cabe ao jornalismo acompanhar esses movimentos e manter o público engajado em possíveis soluções para que não haja apenas resignação e inação diante da catástrofe.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Recorde de conflitos no campo: qual a repercussão para além do release?

Imagem: Polícia Federal / Gov

Por Ângela Camana*

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) lançou nesta segunda-feira, dia 22, o relatório “Conflitos no Campo 2023”, publicação anual que reúne dados da violência no meio rural brasileiro. Os dados são alarmantes: o país registrou o maior número de conflitos desde 1985, quando a série começou a ser publicada. Foram 2.203 ocorrências, envolvendo 950 mil pessoas; também foi recorde a quantidade de vítimas do trabalho escravo, com 251 casos denunciados e 2.663 pessoas resgatadas. A divulgação do relatório ganhou as páginas dos principais portais de notícias no Brasil, o que indica a consolidação do trabalho da CPT nas últimas décadas. Contudo, raros foram os veículos que se dedicaram a algo mais que a simples reprodução dos dados do documento – a exceção até aqui é A Pública.

Imagem: Captura de tela

Ao buscar fontes para ampliar as possibilidades interpretativas do que o relatório informa e ao elaborar um conjunto de gráficos e representações visuais, a Pública parece levar a sério a publicação e, ainda mais, o panorama dos conflitos no campo. Isto, evidentemente, não é fortuito, já que o portal possui um Mapa dos Conflitos alimentado com os dados da própria CPT, além de rotineiramente se dedicar ao tema das disputas ambientais no Brasil.

De acordo com os dados do relatório, as disputas por terra persistem sendo o principal motor dos conflitos no campo, seguidas por confrontos em torno à água. Em paralelo, os dados da CPT informam que indígenas, pescadores, ribeirinhos, quilombolas e assentados são os grupos que mais sofrem com a violência. O único texto que busca repercutir o sentido de tais dados é, novamente, o da Pública: de fato, talvez esta seja um dos poucos, senão o único, veículo que se dedica a uma cobertura contínua dos conflitos no campo e às relações entre as disputas e a forma predatória de ocupação da terra. Justamente pela ausência desta temática em outros veículos, não deixa de ser curioso que a repercussão do relatório no G1 esteja abrigada sob a cartola “Agro” – a despeito do termo não aparecer nenhuma vez ao longo do texto. É uma pena que a relação não tenha sido mais bem explorada, para além da meia palavra na editora.

Imagem: Captura de tela

Não é novidade que, por seu caráter sistêmico, os conflitos no campo pouco repercutam, à exceção de momentos em que a violência irrompe deixando mártires – o que parece se enquadrar melhor nos valores-notícia ainda em voga no país. Ainda que o relatório da CPT seja um importante esforço de catalogação dos conflitos no Brasil e que sua publicização pelos principais veículos já represente um ganho para aqueles que se ocupam de questões fundiárias e ambientais, o jornalismo convencional, ao se concentrar na reprodução de números de release e em histórias póstumas, parece ter escolhido um perigoso caminho.

*Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Por que um ingrediente do veneno utilizado na Guerra do Vietnã é aplicado na agricultura familiar brasileira?

Imagem: Nosso Futuro Roubado

Por Isabelle Rieger* Ilza Maria Tourinho Girardi**

No domingo, 14 de abril, o programa Fantástico, da TV Globo, colocou no ar uma reportagem de autoria do jornalista Paulo Renato Soares, denunciando a aplicação do agrotóxico agente laranja, nas fazendas do pecuarista Claudecy Oliveira Lemes, do município de Barão de Melgaço, em Mato Grosso. Conforme a reportagem, agrotóxicos com a substância 2,4-D foram jogados sobre uma camada de floresta do Pantanal, em área de 80 mil hectares, equivalente à cidade de Campinas.

A reportagem informa também que o fazendeiro tem R$5,2 bilhões em autuações, desde 2019, por danos ao bioma. Além de destruir a floresta, ele expulsou dezenas de famílias para apropriar-se de uma área de 80 mil hectares. O desfolhante foi aplicado para transformar a área em campos de pastagem para a criação de gado.

Os investigadores encontraram em uma das fazendas notas fiscais que comprovam a compra de 240 toneladas de capim, de espécie exótica para substituir a área desmatada, outro problema para a biodiversidade. Conforme Jean Carlos Ferreira, fiscal da Secretaria do Meio Ambiente de Mato Grosso, ouvido pelo repórter no local da autuação, “quando ele joga diretamente do avião, além de matar essas árvores, influencia também diretamente na fauna, principalmente na água”.

Durante três anos foram lançados sobre a área 25 agrotóxicos diferentes, dentre eles o 2,4 – D. Essa é a mesma substância desfolhante encontrada no agente laranja, veneno usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã (1959-1976), para tentar vencer o inimigo que se escondia sob as árvores. O jornalista entrevista o professor Vanderlei Pignati, da UFMT, que afirma que o herbicida é bastante estável e é levado pelos ventos a uns 20 ou 30 km contaminando tudo. A secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso, Mauren Lazzaretti, também ouvida pela reportagem, declarou que houve uma mudança no protocolo de medidas impostas ao infrator, que passou a arcar também com a reparação dos danos ambientais. Outras fontes, como polícia, promotora de justiça e perito, mencionaram os danos à flora e à saúde das pessoas, além da questão legal. O jornalista tentou falar com o pecuarista, mas ele não quis dar entrevista.

A reportagem com 10 minutos e 41 segundos denuncia um problema ambiental grave, no entanto, poderia ter abordado com mais profundidade os danos do 2, 4 – D. A substância lançada sobre o Vietnã, junto com o 2, 4, 5- T, continua provocando doenças, como câncer e o nascimento de crianças com anomalias devido à sua periculosidade.

De acordo com os pesquisadores Gurgel, Guedes e Friedrich, nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, foram liberados 997 agrotóxicos. Entre 2019 e 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) finalizou a avaliação de ingredientes ativos de agrotóxicos mais utilizados no Brasil 2-4 D e o glifosato, além da abamectina, tiram e paraquate.

Conforme os pesquisadores, foi constituída uma Força Tarefa composta por representantes das empresas agroquímicas que atuaram na divulgação de  informações que atestam a segurança dos produtos, desqualificando a produção científica que apontava os riscos das substâncias. Além disso, o grupo fazia pressão para interferir nas decisões do governo e do legislativo. Tal procedimento não é novidade, pois ocorre desde a aprovação da Lei 7802, Lei dos Agrotóxicos, promulgada em 1989 e que incomodou muito a indústria agroquímica e seus prepostos no congresso e no governo em diferentes épocas.

A Anvisa concluiu pela não proibição tanto do glifosato como 2,4-D, além da abamectina e tiram. Manteve a proibição somente do paraquate. No entanto, conforme estudos acadêmicos, o 2,4-D é possivelmente cancerígeno, está relacionado ao desenvolvimento do Linfoma não Hodgkin (LNH), sarcomas, câncer de cólon e leucemia. Também “pode alterar o desempenho sexual e a fertilidade, exercer efeitos tóxicos no feto e em lactentes e interferir no desenvolvimento motor, comportamental, intelectual, reprodutivo, hormonal ou imunológico, provocando aborto ou morte nos primeiros meses de vida”, de acordo com Gurgel et al. no artigo Flexibilização da regulação de agrotóxicos enquanto oportunidade para a (necro)política brasileira: avanços do agronegócio e retrocessos para a saúde e o ambiente. Outro aspecto apontado pela literatura é que pode produzir dioxinas, que são classificadas como poluentes orgânicos persistentes, reconhecidas por causarem câncer e outros problemas.

O engenheiro agrônomo Jacques Lüderitz Saldanha, curador de conteúdo do site Nosso Futuro Roubado, lembra do caso das parreiras  na região da Campanha Gaúcha, que ficaram prejudicadas pelo uso de um herbicida na soja. Tal herbicida é o 2,4-D, empregado como substituto ao glifosato/roundup, que já não mata as ‘super-ervas’. Saldanha questiona: “Está-se acompanhando os efeitos em termos de saúde de toda a população que consome soja e outros vegetais do agronegócio?”. O site informa sobre como ficou o Vietnã e sua sociobiodiversidade após a guerra, assim como as medidas compensatórias realizadas pelos Estados Unidos. Porém, isso devolve a vida ou a saúde das pessoas? E a biodiversidade?

Voltando à ação da Anvisa, percebe-se que o princípio da precaução não foi acionado pela agência, que deveria considerá-lo, caso sua finalidade seja mesmo “promover a proteção da saúde da população, por intermédio do controle sanitário da produção e consumo de produtos e serviços submetidos à vigilância sanitária, inclusive dos ambientes, dos processos, dos insumos e das tecnologias a eles relacionados, bem como o controle de portos, aeroportos, fronteiras e recintos alfandegados”. (Lei nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999). A reportagem poderia ter apontado alguns desses problemas e questionado sobre quais estudos foram considerados para a liberação do produto. A finalidade do jornalismo, além de informar corretamente a população para que essa possa exercer sua cidadania, é fazer a vigilância dos poderes.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS.

Quem ganha com a exploração do carvão?

Imagem: Eletrobras CGT Eletrosul

Por Eutalita Bezerra*

De acordo com o Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, que visa a “tornar públicas vozes que lutam por justiça ambiental de populações frequentemente discriminadas e invisibilizadas pelas instituições e pela mídia”, estão em andamento no Brasil, atualmente, doze conflitos gerados por termoelétricas. Um deles diz respeito ao Complexo Termelétrico de Candiota, na Campanha Gaúcha, que figurou no jornalismo nesta semana – com pompas – após anúncio da chegada de uma nova indústria.

O vultuoso investimento de R$ 420 milhões foi o grande destaque das publicações referentes ao projeto Ferroligas Candiota, que vai fabricar, no Polo Carboquímico de Candiota, uma liga metálica a partir do carvão. Em publicação veiculada no Correio do Povo do último dia 10, por exemplo, as únicas menções à questão ambiental envolvida são declaratórias e entreguistas: o governador Eduardo Leite teria afirmado que “o governo tem compromisso com o desenvolvimento sustentável, destacando a importância da responsabilidade ambiental para impulsionar a economia estadual”. O trecho destaca, ainda, que é papel do governo garantir “que a emissão de licenças ambientais seja baseada em análises detalhadas e em conformidade com a legislação”.

Do mesmo modo, o secretário do Desenvolvimento Econômico do estado foi ouvido, retomando a questão do meio ambiente. Conforme o texto, ele teria destacado “os esforços do governo para agilizar as análises relacionadas ao meio ambiente”. Já o prefeito de Candiota, Luiz Carlos Folador, teria focado sua atenção exclusivamente na possível geração de empregos. Apesar de ser tratado como tábua de salvação, é preciso destacar sempre que a exploração de carvão em Candiota traz graves problemas, além de nem sempre ser considerada uma boa opção do ponto de vista econômico.

Em 2022, o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) publicou o Inventário de Emissões Atmosféricas em Usinas Termelétricas segundo o qual “Entre as dez usinas com mais baixa eficiência energética, cinco são movidas a carvão. Entre as piores estão Pampa Sul e Candiota III, com apenas 27% de eficiência.” Candiota III também foi considerada a usina a carvão mineral com a maior taxa de emissão entre todas as que forneceram energia ao Sistema Interligado Nacional em 2020, ano-base da pesquisa. Tudo isso colocou Candiota como um dos municípios mais emissores de gases do efeito estufa no país na mesma ocasião.

Há que se destacar, também, retomando o Mapa de Conflitos, que vários problemas de saúde e ambientais foram relatados desde a instalação das usinas termelétricas no município, culminando com a recomendação, em 2011, por parte do Ministério Público Federal, da suspensão da licença de operação de uma das usinas, além da paralisação e adequação de outras duas, pelo não cumprimento das exigências mínimas de controle da poluição emitida.
Abrir mão de tratar sobre estas questões quando se fala de Polo Carboquímico é um precedente perigoso que, nas grandes empresas de comunicação do Rio Grande do Sul, tem sido o habitual. Não se trata de negar a importância da geração de empregos e de receitas aos municípios, mas de estabelecer à custa de que isso está sendo possível.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio Ambiente. eutalita@gmail.com.

Livro e blog sistematizam pesquisas e práticas de Jornalismo Ambiental em Santa Catarina


Capa do livro “Território e texto: jornalismo ambiental em Santa Catarina

Por Míriam Santini de Abreu*

O conhecimento sobre o jornalismo ambiental em Santa Catarina é o objeto que a equipe da Revista Pobres & Nojentas, que desde 2006 atua em Florianópolis, vem buscando consolidar. A primeira iniciativa foi o lançamento, em dezembro de 2023, do livro “Território e texto: jornalismo ambiental em Santa Catarina”, com seis artigos de jornalistas que, em momentos de sua trajetória, escreveram sobre a relação entre sociedade e natureza no estado.  A segunda foi a criação de um blog, em fevereiro passado, para reunir pesquisas na área e também sobre a história do movimento ambientalista estadual.

A primeira análise do material localizado revelou a existência de cinco Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), seis dissertações, oito artigos e dois livros. A mais antiga pesquisa localizada foi a minha dissertação de mestrado em Geografia, de 2004, analisando o discurso jornalístico sobre o desenvolvimento sustentável. O mais recente, de 2024, é a dissertação de mestrado de Camila Collato intitulada “Jornalismo ambiental em Santa Catarina: direitos humanos e da natureza sob a perspectiva dos grupos RBS e NC”, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC.

As primeiras constatações com o levantamento foram as seguintes: 1) a revisão bibliográfica das pesquisas traz o conhecimento do jornalismo em geral e do jornalismo ambiental em particular, mas as pesquisas, independentemente da orientação teórico-metodológica e dos objetos empíricos, em geral não dialogam com trabalhos anteriores, ainda que poucos, produzidos no estado; 2) em minha dissertação, que completa 20 anos em 2024, afirmo que o espaço é constitutivo do discurso jornalístico sobre meio ambiente, mas verifica-se que as marcas da formação socioespacial catarinense praticamente não são levadas em conta nas análises.

A situação é incompatível com a realidade socioespacial tão diversa de Santa Catarina e a necessidade de um jornalismo que a interprete. O geógrafo Armen Mamigonian (2003) afirma que, no decorrer do processo histórico, delinearam-se em Santa Catarina três regiões industriais importantes identificadas como a região alemã, o Oeste agroindustrial e a região carbonífero-cerâmica do Sul. Cada uma dessas regiões lida com impactos ambientais comuns, como o desmatamento e a poluição do solo e da água, mas singulares na forma como se expressam no cotidiano da população. Porém, o jornalismo catarinense não tem abordado tão complexa realidade e parte expressiva das pesquisas localizadas também não leva em conta essas particularidades socioespaciais.

A recente pesquisa de Camila Collato é importante por dialogar com trabalhos anteriores e revelar a situação da cobertura na atualidade, concluindo o seguinte: a) a cobertura privilegia uma constituição antropocêntrica de sentidos, apoiando-se em uma base científica moderna em relação ao meio ambiente, sendo este abordado majoritariamente por meio do dualismo humano x Natureza; b) é fragmentária, ao apresentar uma baixa interlocução entre áreas de conhecimento e saberes e; c) por vezes, é fatalista, ao furtar-se do papel de fomentador de um debate público crítico sobre responsabilidades e possíveis soluções diante dos problemas ambientais enfrentados pela população. A autora destaca anda a baixa participação dos cidadãos, com a predominância de fontes documentais e oficiais, e um jornalismo orientado para a construção de sentidos de apelo modernizante por meio de discursos econômicos de matriz capitalista.

A conclusão desses esforços para consolidar o conhecimento sobre o jornalismo ambiental em Santa Catarina é que os dois grupos hegemônicos mais importantes de mídia no estado, NSC e ND, desconsideram a importância de interpretar jornalisticamente a grave realidade socioambiental regional, situação que vem se agravando com o enxugamento de profissionais nas redações, restando a sites de circulação local – como O Blumenauense e a Folha Metropolitana (Joinville) – a iniciativa de manter editorias sobre o tema, ainda que não haja pesquisas direcionadas à análise do material divulgado.

Referência:

MAMIGONIAN, Armen. Projeto integrado de pesquisa: Santa Catarina – sociedade e natureza. Relatório final de pesquisa. Florianópolis, 2003.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.


Água pra que quero se não te venero?

Imagem: iStock / Getty Images

Por Carine Massierer*

O Dia Mundial da Água é celebrado em 22 de março. A data foi instituída em 1992 durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, a Rio-92, com o objetivo conscientizar as pessoas sobre a importância vital da água. Esse recurso é indispensável para a vida das pessoas e para o equilíbrio dos ecossistemas. No entanto, o que se vê é que não há uma tomada de consciência das pessoas já que todos os dias são dias de se venerar a água deste planeta.

Neste dia, a Revista Exame publicou matéria que tem por base a pesquisa “A percepção dos brasileiros sobre segurança hídrica”, realizada pela The Nature Conservacy Brasil (TNC) com o apoio técnico do Instituto Ipsos.

Imagem: Captura de tela do site da Exame em 26 de março de 2023. (Dia Mundial da Água: maioria da população vê amento da poluição e pouco cuidado do recurso natural | Exame).

O texto apresenta o resultado da pesquisa: a água é um recurso natural muito utilizado, mas pouco cuidado, de acordo com a percepção de sete em cada dez brasileiros. Além disso, 78% da população nota um aumento na poluição das águas nos últimos quatro anos no país.

A matéria é um deleite, pois apresenta dados comparativos com o Atlas do Saneamento, divulgado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em 2017, que mostrou que o Brasil tem cerca de 114.000 quilômetros de rios com a qualidade da água comprometida, uma extensão equivalente a quase três vezes a circunferência do Planeta Terra. O texto traz ainda a metodologia aplicada na pesquisa do Instituto Ipsos e as respostas associadas à falta de água e às mudanças climáticas. “As populações menos favorecidas indicam menor associação entre problemas ambientais e mudanças climáticas, enquanto os mais privilegiados têm um entendimento mais amplo”, destaca o texto.

Empresas de comunicação como O Globo e outras (dia mundial da agua 2024 – Pesquisar News (bing.com), aproveitaram a oportunidade para cobrir eventos ou trazer matérias mais reflexivas, como a proposta pelos jornalistas Juliana Perdigão e Odilon Amaral, no jornal Estado de Minas.

Imagem: Captura de tela do site do Jornal Estado de Minas Gerais em 26 de março de 2023.(Dia Mundial da Água: Série retrata o impacto do recurso na cultura mineira – Estado de Minas).

No dia Mundial da Água a empresa jornalística lançou a série de vídeo documental ‘Saberes Ancestrais’, realizada pelo Projeto Preserva, coordenada pelos jornalistas. A série demonstra exemplos de sustentabilidade, preservação ambiental e também cultural. Estruturada em cinco episódios, as histórias mostram como a natureza e seus recursos impactam a vida das comunidades do interior de Minas Gerais e contribuem também para a formação da cultura local. 

Isso mostra que, se a preservação das águas, que são fonte essencial para nossas vidas, não está ocorrendo, ao menos a imprensa tem demonstrado em suas escolhas editoriais a preocupação de trazer estas reflexões aos leitores e seguidores, o que anteriormente se centrava mais na cobertura de eventos ou estratégias utilizadas por órgãos governamentais como oportunidades para atrair os holofotes do cidadão. Bora cuidar da água e venerar este bem tão precioso para deixarmos para as gerações futuras?

*Carine Massierer é jornalista, especialista em Marketing e mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Inteligência Artificial e o Princípio da Precaução

Imagem: Pixabay

Por Sérgio Pereira*

O assunto do momento é a Inteligência Artificial (IA) e suas consequências. Esse avanço tecnológico está em todas as redes de debates. O mundo discute questões éticas (uso indevido na produção de fake news e violação do direito de imagem), econômicas (quem vai lucrar e o que fazer com o exército de desempregados que porventura surgir?), jurídicas (as sentenças um dia ficarão a cargo dos algoritmos?), tributárias (como manter os níveis de arrecadação já que robô não paga imposto?), entre tantos outros.

Quando o assunto é jornalismo, as discussões envolvem, no momento, como aproveitar essa ferramenta no dia a dia e o quanto isso impactará na estrutura das redações. Entidades de classe se preocupam com o provável aumento no número de demissões, que já se intensificaram nos últimos dez anos no Brasil, deixando sem emprego parte considerável dos profissionais de imprensa.

Na área ambiental, por sua vez, alguns estudos já fazem a conexão entre o uso de IA e o crescimento na emissão de dióxido de carbono (CO2). O portal Earth.Org destaca pesquisa da OpenAI que estima que as emissões da indústria das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), como um todo, atinjam 14% das emissões globais no ano de 2040.

O professor Anders Nordgren, da Universidade de Linköping (Suécia), faz um alerta sobre a emissão de CO2 em treinamentos de Inteligência Artificial: “Um estudo focado explicitamente na IA como contribuinte para as alterações climáticas foi conduzido por Strubell et al. (2019). Eles investigaram a pegada de carbono de vários modelos diferentes de IA. Concluíram que as emissões variam significativamente. As maiores foram encontradas no treinamento de um modelo de IA para processamento de linguagem natural (PNL)” (2023).

Conforme Nordgren, calcula-se que o treinamento de IA resulte em cerca de 300 mil quilos de CO2e (Strubell et al., 2019). Essas emissões equivalem a, aproximadamente, 125 voos de ida e volta de Nova Iorque a Pequim (Dobbe e Whittaker, 2019).

Essas pesquisas científicas, no entanto, estão sendo ignoradas quando a discussão envolve essa nova ferramenta tecnológica, independentemente da área envolvida. Mas os jornalistas não podem deixar de considerar esses dados quando escrevem sobre o assunto.

Um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental é o Princípio da Precaução, que já foi abordado em artigos anteriores aqui no Observatório. Conforme Girardi et al., esse princípio “amplia o tempo de ação do jornalismo, orientando-o para o futuro na tentativa de alertar e evitar consequências negativas” (2017). Girardi acrescenta que a “ampliação da divulgação de incertezas por parte do campo científico e as constatações de que não temos controle sobre as consequências de muitos processos e produtos conduziram a um olhar mais cauteloso, que levou à discussão do princípio da precaução”.

Já o “Princípio 15” da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento na Conferência das Nações Unidas, elaborado durante a Rio-92, estabelece: “Com o fim de proteger o meio ambiente, o Princípio da Precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”.

Nesse sentido, devemos, a partir da preocupação com as consequências negativas do uso da IA, sem considerar os danos ao ambiente, recomendar que os jornalistas, amparados na cautela, busquem sempre aprofundar o tema e informar a sociedade sobre o impacto e os riscos inerentes do uso desse novo instrumento. É preciso contextualizar e elencar sempre os prós e contras.

Uma máxima universal estabelece que, na dúvida, não devemos ultrapassar. Essa regra, no entanto, é deixada de lado quando conveniências econômicas e políticas se tornam prioridades. E o jornalismo não pode se submeter a interesses que não coloquem a coletividade em primeiro lugar. Principalmente quando os danos forem irreversíveis, como testemunhamos agora com os trágicos efeitos das mudanças climáticas, para citar apenas um exemplo dos muitos que poderíamos relacionar aqui.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p.279–291, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053. Acesso em: 11 mar. 2024.

NORDGREN, Anders. Artificial intelligence and climate change: ethical issues, Journal of Information, Communication and Ethics in Society, Vol. 21 Nº 1, pp (2023). Disponível em: https://doi.org/10.1108/JICES-11-2021-0106. Acesso em: 12 mar. 2024.

Jornalismo ambiental não hegemônico prova seu impacto no debate público

Imagem: Após reportagem de ((o))eco, condenado por assassinato de Chico Mendes é destituído de presidência do Partido Liberal (PL) / Arquivo Memorial Chico Mendes

Por Débora Gallas*

Uma reportagem do site ((o)) eco publicada no dia 27 de fevereiro repercutiu em outros veículos brasileiros de projeção nacional e impactou as decisões de uma das maiores forças políticas do Brasil – o Partido Liberal (PL). O texto da jornalista Cristiane Prizibisczki revelou que Darci Alves Pereira, condenado pela execução do seringueiro e ambientalista Chico Mendes, havia assumido a presidência do PL em Medicilândia, no Pará.

O caso, informado primeiramente por um veículo não hegemônico, foi notícia em seguida em veículos como GloboNews. No mesmo dia, diante das críticas ao PL, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, recomendou a destituição de Darci Alves Pereira do cargo. Os desdobramentos também foram noticiados por diversos veículos de jornalismo hegemônico de projeção nacional, como UOL e g1.

A polêmica também rendeu matérias sobre o tema por outros ângulos: O Povo, por exemplo, explica que, após o cumprimento da pena pelo crime realizado em Xapuri, no Acre em 1988, Darci se estabeleceu no Pará e passou a ser conhecido como “Pastor Daniel”. O Globo relembrou as circunstâncias e motivações do assassinato. Já a CNN aproveitou o gancho para explicar às novas gerações quem foi Chico Mendes e qual foi o legado de sua luta pela conservação ambiental e pelo uso sustentável dos bens naturais.

Quando nos referimos ao jornalismo não hegemônico, recorremos ao entendimento da pesquisadora Eloisa Loose. Segundo a autora, essa modalidade é praticada por meios que não dominam o mercado e que são mais propensos a adotar posicionamentos críticos. A definição de jornalismo não hegemônico tem similaridades com as ideias de jornalismo alternativo ou jornalismo independente – embora não sejam sinônimos – porque subvertem as preocupações comerciais vistas no jornalismo comumente denominado hegemônico, tradicional ou mainstream.

A autonomia e a independência do jornalismo não hegemônico em relação a anunciantes, por exemplo, são positivas sobretudo para a prática do jornalismo ambiental, que com frequência confronta interesses políticos e econômicos que ameaçam os ecossistemas e os seres humanos e não humanos.

A partir da apuração de ((o)) eco e da repercussão da informação sobre a entrada de Darci Alves Pereira na política, entendemos que o jornalismo não hegemônico não está reduzido a um nicho de público, com alcance limitado. Esse tipo de jornalismo, sobretudo no caso de pautas ambientais – que passaram a ser vistas como “hard news” muito recentemente – tem potencial de impactar o ecossistema do próprio jornalismo e, mais amplamente, o debate público e as decisões de atores relevantes.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Referências

GIRARDI, I. M. T.; LOOSE, E. B.; STEIGLEDER, D. G.; MASSIERER, C. Meio ambiente no Jornal Nacional: das tragédias às disputas políticas. Animus. Revista Interamericana de Comunicação Midiática, v. 22, n. 48, 2023. DOI: 10.5902/2175497768800.

LOOSE, Eloisa Beling. Jornalismo e mudanças climáticas desde o Sul: Os vínculos do jornalismo não hegemônico com a colonialidade. Porto Alegre: UFRGS, 2021. Tese de doutorado disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/220347/001124549.pdf.