Quando os termômetros (do Norte Global) estouram: o pico de notícias

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Por Michel Misse Filho*

O assunto do texto desta semana não poderia ser outro, senão a onda de calor extremo que assola o hemisfério Norte neste verão, batendo recordes atrás de recordes nas temperaturas e sendo amplamente noticiada. A primeira semana de julho foi a mais quente da história, e as duas maiores economias (não por acaso, também as mais poluidoras) do mundo — Estados Unidos e China — viram os termômetros dispararem para mais de 52ºC na China. Coincidentemente, na mesma semana as duas potências retomaram, após um ano, o diálogo sobre a questão climática.

A onda de calor é avassaladora também pela Europa, Japão e Oriente Médio — no Irã, a sensação de calor chegou a incríveis 66 ºC em um aeroporto, acima da marca suportável pelo corpo humano. O jornal O Globo publicou essa e outras reportagens, próprias ou de agências internacionais, numa cobertura ampla sobre o tema nos últimos dias. O jornal possui uma subeditoria de Mundo chamada “Clima e Ciência”, e um panorama geral do assunto pode ser encontrado nesta matéria, que lista, em quatro pontos, a magnitude da onda de calor. Já o Brasil, situado no hemisfério Sul, também não passa ileso: o calor por ora dá trégua, mas os eventos climáticos extremos seguem firmes, como o ciclone extratropical que atingiu boa parte do país. Sobre eventos extremos no nosso país, o jornal publicou um podcast especial na última semana.

O aumento das notícias sobre as mudanças climáticas parece evidente, mas é mais sintomático do que uma boa notícia: espelha a emergência climática em curso, embora o pico de notícia seja sempre, em todos os anos, durante o verão dos países ricos. De qualquer forma, pode e deve ajudar ao aumento do chamado “letramento climático” na população, abordado em coluna da Folha de São Paulo, e tido como fundamental para a pressão por formulações de políticas para o clima. Esperamos que não seja tarde demais.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

O dia mais quente da história e a necessária virada na cobertura sobre mudanças climáticas

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Por Débora Gallas*

Esta segunda, 3 de julho de 2023, recebeu o título de “dia mais quente da história”, de acordo com as medições da temperatura média global realizadas desde 1979 pelos Centros Nacionais de Previsão Ambiental dos Estados Unidos. Diversos veículos do Brasil e do Exterior, repercutiram o ineditismo, explicando se tratar de um efeito direto das mudanças climáticas e do El Niño, fenômeno que provoca o aquecimento do Oceano Pacífico e influencia eventos como chuvas, ventos e oscilações de temperatura em todo o planeta.

O triste recorde, no entanto, foi superado na terça-feira, dia 4, quando o planeta alcançou a temperatura média de 17,18°C, ultrapassando os 17,01°C do dia anterior. A notícia do portal g1 publicada em 5 de julho destacou o derretimento de gelo no Ártico por conta do calor e foi um dos artigos mais lidos do dia, dividindo o Top 5 com o noticiário de entretenimento e polícia.

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O crescente interesse do público pela temática corresponde à percepção cotidiana de que o clima do planeta está cada vez mais diferente – e imprevisível.  Publicada no mês passado, pesquisa do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) Rio e Ipec Inteligência atesta que 86% da população brasileira relaciona o aquecimento global com a maior ocorrência de desastres ambientais, como noticiou a coluna Pensar a Cidade, do Jornal do Comércio.

De fato, de Norte a Sul, os efeitos das mudanças climáticas se intensificam e ganham destaque nos jornais. Amazônia e Cerrado registraram, no mês de junho, o maior número de queimadas em 16 anos, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Isso em plena estação de chuvas no Norte do país, como observa matéria do Estadão. Enquanto isso, o Rio Grande do Sul, que ainda nem se recuperou do ciclone extratropical ocorrido no dia 16 de junho, deve ser atingido por outro evento semelhante, ainda que de proporções menores, nesta semana, relata GZH.

A população já percebe a conexão entre eventos climáticos extremos com as mudanças globais do clima descritas pela comunidade científica. O jornalismo já aborda as constatações sobre as alterações climáticas reconhecendo seu valor noticioso. O que mais fazer então para mobilizar a sociedade rumo à adaptação e à mitigação desses efeitos? Como descrito anteriormente nesse Observatório, políticas públicas de enfrentamento às mudanças climáticas ainda não são devidamente abordadas pelo jornalismo, que pode assumir seu compromisso com o interesse público ao cobrar posicionamento dos gestores de todas as esferas do poder.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

As caras da máquina de fake news sobre aquecimento global

Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Míriam Santini de Abreu*

A reportagem intitulada “Agronegócio e extrema direita impulsionam máquina de fake news sobre aquecimento global”, da Agência Pública, publicada em 30 de junho e assinada por Giovana Girardi, Cristina Amorim, Álvaro Justen e Rafael Oliveira, trata de um tema que veículos regionais comprometidos com o bom jornalismo deveriam abordar.

A reportagem informa que, por dois meses, a Pública, “com o apoio do Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais (NetLab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) , analisou anúncios na Meta (Facebook e Instagram), vídeos no YouTube e outros conteúdos publicados em redes sociais e em sites noticiosos ou não, com o objetivo de rastrear quem está por trás da disseminação do negacionismo climático e da desinformação ambiental no país”.

Em fevereiro, a equipe do NetLab lançou o relatório “Panorama da Infodemia Socioambiental: uma análise multiplataforma do ecossistema brasileiro de mídia digital (2021-2023)”, que analisa as implicações sociais da propaganda, desinformação e automação em diferentes tópicos no Brasil desde 2016. Entrevistados, membros da equipe apontam a falta de regulamentação jurídica e de transparência das grandes plataformas que divulgam conteúdos falsos.

Uma das fontes da reportagem, o sociólogo Jean Miguel, professor associado ao Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, afirma que uma parcela do agronegócio incorporou o negacionismo do aquecimento global e da ciência que revela os impactos da devastação ambiental para atingir leis ambientais específicas. Tal processo evidenciou-se ao longo do governo Bolsonaro e seu ataque sistemático à legislação ambiental federal, com graves repercussões nos estados e municípios.

A abordagem da Pública aponta caminhos para que veículos nos diferentes estados façam o mapeamento de associações, canais e atores que regionalmente promovem desinformação ambiental.

*Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

COP 30 e o investimento em cidades-sede: a oportunidade para Belém (PA)?

Imagem: Canva

Por Michel Misse Filho*

A boa notícia foi confirmada na última semana: Belém do Pará foi oficializada como a sede de realização da Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas de 2025, a COP30. Pela primeira vez a Amazônia receberá uma conferência internacional deste porte sobre o clima, permitindo um contato “direto” da comunidade internacional com o principal agente climático brasileiro, que é a floresta mantida em pé (assim como os demais ecossistemas da rica biodiversidade brasileira quando são conservados). Espera-se a visita de cerca de 50 mil pessoas na cidade durante os dias do evento, divulgou a Agência Brasil, nesta que será a COP que marca os 10 anos de assinatura do Acordo de Paris.

O anúncio da sede foi acompanhado da assinatura das primeiras obras na cidade e da divulgação do montante a ser financiado pelo BNDES: cerca de R$ 5 bilhões em projetos de infraestrutura, cuja ênfase será na criação de uma Belém carbono neutro, nas palavras do presidente do banco, Aloizio Mercadante, conforme noticiou o Portal UOL. O projeto do governo paraense abarca a agenda de mobilidade urbana, com corredores de ônibus elétricos ou à gás, para redução da emissão de carbono; saneamento básico — neste caso, vale notar, o objetivo é fazer a concessão à iniciativa privada; da rede hoteleira. Por fim, preveem ainda a reforma e criação de novas áreas de lazer: além da reestruturação do histórico mercado Ver-o-Peso, a primeira obra já foi assinada pelo governo federal, e trata-se da obra de um enorme parque verde na bacia do Una, no canal de São Joaquim, com construção de áreas de lazer e investimento em saneamento da região.

Ainda é cedo para exigir análises e reportagens profundas da mídia sobre os empreendimentos, mas experiências brasileiras passadas devem nortear o caso. Não é a primeira vez que um megaevento internacional ambiental numa cidade brasileira traz, a reboque, financiamentos para obras “ambientais” na sede. O caso exemplar foi a realização da imponente Eco-92, no Rio de Janeiro, quando anunciaram as bases de financiamento do grandioso Programa de Despoluição da Baía de Guanabara. Também na ordem dos bilhões, as estações de tratamento de esgoto construídas seguem, décadas depois, operando muito abaixo de suas capacidades — e a baía está longe de ser despoluída, mesmo com uma Olimpíada em 2016 e novas promessas no caminho.

Que o exemplo do Rio de Janeiro em 1992 (e em 2016, na Olimpíada) sirva para Belém em 2025: o financiamento de obras de infraestrutura e com cunho ambiental pode partir de eventos internacionais como impulso, mas as obras devem ser finalizadas e efetivamente servir à população. A atuação do jornalismo, seja local ou nacional, que se propõe ambiental, não pode se limitar à cobertura da conferência em si e de seus bastidores: é preciso estar atento e cobrar a revitalização, para o povo, de uma das capitais mais importantes do Brasil.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Continuamos sem planos de enfrentamento às mudanças climáticas?

Imagem: Getty Images

Por Carine Massierer*

Para você, cidadão, os planos de enfrentamento às mudanças climáticas pode ser um assunto que você não sabe do que se trata, não busca informações ou talvez nem queira saber. Mas se eventos antes considerados extremos, como furacões, enxurradas e excessos de chuvas atingirem a sua casa e acabarem como seu lar, como as coisas ficam?

É chegada a hora de estarmos todos, os cidadãos e os políticos, preocupados com as mudanças climáticas e os estudos e os planos para minimizar e enfrentar tragédias. Pois nesta semana a Agência Pública trouxe uma reportagem que traz a preocupação que todos os cidadãos deveriam ter: “Maioria das capitais brasileiras não tem plano de enfrentamento às mudanças climáticas”.

A reportagem foi motivada pelas chuvas intensas registradas em maio, em duas capitais que ficam em pontos extremos do mapa: Porto Alegre e Aracaju. Segundo apuração da Agência Pública, Aracaju e Porto Alegre ilustram o despreparo das capitais brasileiras para responder aos desafios postos pela emergência climática. Elas estão entre as 17 das 27 capitais (incluindo o Distrito Federal) que não possuem planos municipais de mudanças climáticas.

A reportagem acessou estudos do Serviço Geológico Brasileiro e acionou as 27 prefeituras para inquerir quais delas tinham planos de enfrentamento às mudanças climáticas.

Os planos de mudanças climáticas são parte de um longo processo de resposta dos municípios. Em geral, este processo se inicia com a realização de dois estudos que fazem uma espécie de diagnóstico da cidade: o inventário de emissões de gases de efeito estufa e o estudo de vulnerabilidade e riscos às mudanças climáticas. A partir desses, o plano de mudanças climáticas define ações a serem tomadas pelos municípios com os objetivos de reduzir e até neutralizar as emissões de gases de efeito estufa, e reduzir os riscos e impactos sobre as mudanças climáticas.

Sobre alguns planos a reportagem se debruçou e conseguiu apontar, com a corroboração de entrevistas, que muitos são frágeis, pois não incluem metas de adaptação e outros nem sequer saíram do papel. Isto se deve ao fato lembrado pelo porta-voz da Campanha Clima e Justiça do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, e que é fonte na matéria, de que existe uma cultura de que é preciso esperar a catástrofe acontecer.

Assim como estamos estão a esperar as catástrofes acontecerem, continuamos sem planos de mitigação e enfrentamento às mudanças climáticas. A imprensa, que é motivada pelos fatos e eventos para se pautar, também está “esperando as catástrofes acontecerem” e sabe por quê? Porque este tema super relevante não foi explorado por nenhum outro veículo de comunicação. A reportagem, de excelente qualidade feita pela Pública, nem sequer foi reproduzida. Assim seguimos, esperando que os outro façam o que é papel de cada um.

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Eólicas: a distância da cobertura em relação aos sentimentos dos habitantes locais

Por Eliege Fante*

A descarbonização está na ordem do dia e na pauta político-econômica dos jornais. Os projetos em andamento em todo o litoral brasileiro (cobertura em epbr.com.br/) provenientes de empresas do Norte global, especialmente da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Espanha, têm muito em comum: implantação de usinas eólicas para geração de energia renovável e limpa. Limpa, considerando-se a menor emissão de gases de efeito estufa, diferença favorável em comparação com a geração de energia termoelétrica a partir de combustíveis fósseis como o carvão. Entretanto, assim como ocorreu há alguns anos a respeito das hidrelétricas, a ciência e os movimentos sociais acumulam descrições, fatos e relatos dos impactos sobre o ambiente e as comunidades tradicionais e povos originários afetados.

Recentemente foram lançados dois documentários sobre os impactos na região Nordeste: Ventos do Delta, dirigido por Gelson Catatau e Ester Farache (assistir) sobre o Piauí  e, Vento Agreste, dirigido por João do Vale (assistir) sobre Pernambuco. Nesses estados, de modo semelhante ao que pode ocorrer no Rio Grande do Sul na região da Lagoa dos Patos, as áreas impactadas são remanescentes de biodiversidade e de modos de vida distintos como a pesca artesanal gaúcha (conferir parecer técnico). Portanto, riscos imensos pairam sobre o que ainda não foi devastado sob o paradigma econômico, e tem fundamental relevância para a conservação da fauna, da flora e para a sobrevivência de milhares de pessoas.

O governo gaúcho tem divulgado a participação em inúmeros eventos, como o recente em Rio Grande, onde poderia ter visitado uma comunidade de pescadores e escutado as diversas demandas ou minimamente esclarecido suas dúvidas. Há uma agenda para o mês de abril em Porto Alegre, porém sem a presença dos representantes locais dessas comunidades. Um estudo de viabilidade econômica parece ser o único feito pelo governo estadual, produzido pela Consultoria McKinsey Brasil e que foi citado neste evento do governo, porém o documento não foi disponibilizado para acesso público em PDF na página do Pró-clima 2050 que reúne as informações sobre os projetos de descarbonização. 

Uma rápida busca nos sites de alguns meios de comunicação jornalísticos no estado com a palavra-chave “eólicas” evidencia a distância da cobertura em relação aos sentimentos dos habitantes locais.  Exceto as cinco notícias deste ano publicadas pelo Brasil de Fato que informam também segundo a visão das fontes das comunidades. A mais recente do Correio do Povo repete o discurso do desenvolvimento social da região com esse tipo de energia renovável, exatamente o que as comunidades contestam. Essa repetição ocorre em Zero Hora e em O Sul. Chamou a atenção o grande uso de notícias provenientes de agências internacionais e ao menos uma de agência nacional em quase todos os sites.

SitesNotícias em 2023 arroladas pelo buscador
Brasil de Fato5
Correio do Povo3
Jornal do Comércio1
Matinal0
O Sul5
Sul210
Zero Hora5

De modo geral, a imprensa (não somente a gaúcha) tem repetido o discurso da descarbonização e do desenvolvimento sustentável do governo e das grandes empresas. Uma escuta ativa e daria-se conta de que descarbonizar a economia foi somente uma das recomendações do Painel Intergovernamental das Nações Unidas, o IPCC. As possibilidades para a mitigação e a adaptação aos efeitos das mudanças climáticas bem como a tentativa emergencial de deter o aumento da temperatura média da atmosfera dependem do diálogo entre todos os setores econômicos e grupos sociais. Sim, existem técnicas e tecnologias sociais locais aguardando a vez para brilhar no céu dos investimentos públicos. E, a pesca artesanal, por exemplo, representa uma significativa fonte de receita nos municípios de origem dos trabalhadores, o que permite afirmar que nem a cobertura econômica tem sido completa para uma leitura elucidativa do público diante de todas as implicações dos projetos em andamento para a dita descarbonização. 

Por fim, a estreita ideia de fontes jornalísticas em prática tem viabilizado a escuta predominantemente de fontes oficiais vinculadas ao poder hegemônico, obstaculizando a circulação de informações imprescindíveis a toda a sociedade. É o que ocorre com o silêncio diante das denúncias provenientes das próprias comunidades, movimentos sociais e de pesquisadores de universidades, quanto ao não cumprimento de acordos internacionais e regulações, principalmente da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT, que estabelece a consulta livre, prévia e informada aos povos originários e às comunidades tradicionais.

* Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação, membra do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq, editora da EcoAgência e Assessora de Comunicação da Rede Campos Sulinos.

Quando há vontade política, há mitigação ambiental

Por Carine Massierer*

A vontade política pode não conseguir, sozinha, recuperar a destruição do meio ambiente ocasionada pelas mãos humanas, mas, com certeza, pode contribuir para a mitigação de danos ambientais. A decisão de editar um decreto para reconhecer estado de emergência climática em mais de mil municípios mapeados como mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas foi anunciada pela ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, ao visitar áreas atingidas por alagamentos em Manaus no dia 26 de março. Na capital do Amazonas, conforme registrado pela imprensa, as fortes chuvas fizeram com que 172 famílias ficassem sem acesso às suas casas. A postura da ministra gerou grande repercussão na imprensa, ao manifestar que o governo federal debate internamente decretar estado de emergência climática em cerca de 1.038 municípios mapeados como mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.

Imagem: Captura de tela do site do Jornal do Brasilem 29 de março de 2023. Governo estuda decretar emergência climática permanente em mil cidades (jb.com.br)

A matéria foi publicada em periódicos impressos e online como o Jornal do Brasil, Gazeta do Povo, Correio Braziliense, Bem Paraná, assim como em empresas televisivas como o Canal Rural. O site de jornalismo independente, Headline, também destaca o anúncio da ministra, mas com um novo olhar (Quase 20% das cidades brasileiras podem entrar em estado de emergência permanente devido ao clima | HEADLINE), propondo uma ampliação da pauta e dando destaque ao decreto de estado de emergência permanente devido ao clima. O veículo aponta que não estão apenas sendo pensadas ações paliativas às consequências das mudanças climáticas, como tem acontecido em relação às estiagens em estados do Sul do país e às excessivas chuvas no Mato Grosso, Acre, Ceará e outros.

Na matéria do Headline, consta que o objetivo da medida seria permitir obras preventivas nos 1.038 municípios e que os projetos seriam de prevenção para médio e longo prazo.

Assim, vemos, na prática, que a repercussão na mídia mostra a importância da ação política com vistas à mitigação climática. Através de enfoques mais amplos e elaborados, a exemplo do Headline, identificamos que a pauta pode indicar, ainda, que não basta mitigar efeitos. Nesta linha, percebe-se que comunicação e jornalismo de qualidade podem contribuir para a clareza de que as mudanças climáticas estão aí e exigem a tomadas de atitudes urgentes e eficazes dos seres humanos.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Preocupação ambiental das populações: pesquisa compara países e temas

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

Como medir a preocupação da população com questões ambientais — mais especificamente, as mudanças climáticas? Não é uma questão trivial, mas uma pesquisa da Ipsos Global Advisor realizada em 27 países, em junho de 2022, buscou responder. São duas as informações principais e que mais chamam a atenção: o Brasil está em penúltimo lugar entre os países cuja população trata o tema como prioridade, apenas à frente da Argentina; por outro lado, 77% dos brasileiros externalizaram preocupação com os impactos da emergência climática no país.          

Num olhar raso, o resultado pareceria contraditório. Não é. Acontece que a pesquisa mede — e a matéria publicada n’O Globo corretamente contextualiza isto —, num primeiro momento, a proporção de pessoas que trata as mudanças climáticas como assunto prioritário. Não surpreendentemente, os países que figuram no ranking dos mais desenvolvidos do mundo ficaram nas primeiras posições, com exceção da Índia, variando entre 20% e 31% dos entrevistados; o Brasil soma 4%, enquanto a média global foi de 16%. Embora numa análise mais especulativa do que assertiva, o que podemos interpretar do outro questionamento da pesquisa (em que três quartos dos brasileiros estão preocupados) é que a liderança de países do Norte Global não se trata apenas de uma questão “educacional”. A prioridade de preocupação com as mudanças climáticas é, por certo, relacional: países devassados pela alta da inflação, fome, crise econômica, violência etc. colocam a crise climática num segundo escalão — o que não significa, necessariamente, que a desprezem.

De qualquer forma, ainda que a ampla maioria dos brasileiros pareça preocupada com o tema, é preciso cada vez mais apresentar para a população a relação intrínseca entre as questões ambientais e os outros fatores, sociais, urbanos e econômicos, que afligem a população. A atuação contra as mudanças climáticas é, necessariamente, socioeconômica, e com impactos proporcionalmente maiores para os países e populações mais pobres. É aí que entra o papel da imprensa, como reiteradamente pontuamos neste Observatório, de não estar limitado à exposição factual dos acontecimentos e desastres ambientais, ou das longínquas reuniões políticas sobre o clima: é necessário que a conexão entre meio ambiente e a vida real das pessoas perpasse, inexoravelmente, a produção do jornalismo ambiental.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Entre diagnósticos e projeções do IPCC, as múltiplas nuances da emergência climática

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

A principal notícia deste mês de abril, no que tange à situação climática do planeta, foi a divulgação do novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima) da Organização das Nações Unidas. É apontada uma diminuição das chances de limitação do aumento da temperatura em 1,5ºC, cenário para o qual é necessário alcançar o pico de emissões até 2025 e cortá-las pela metade até 2030. O relatório do IPCC é um acontecimento tão científico quanto geopolítico e, divulgado sazonalmente, costuma ocupar um relativo lugar de destaque no noticiário dos grandes veículos de mídia.

Enquanto notícia, os fatos relatados pelas matérias costumam conter boa dose de informações climáticas, projeções de cenários, diagnósticos do problema — afinal, são estes os dados divulgados no âmbito do próprio IPCC. A matéria da Folha de S. Paulo sobre o acontecimento cumpre à risca seu papel e não se furta de elucidar, com clareza, as principais informações, causas e consequências que envolvem a emergência climática em curso. Já esta reportagem da BBC Brasil, publicada na última semana por portais como G1 e Folha de S. Paulo, também mobiliza uma interessante discussão científica em torno das novas tecnologias de “geoengenharia solar”: pesquisas que buscam mitigar o aquecimento do planeta a partir de técnicas como o lançamento de substâncias químicas na estratosfera, fazendo-as atuarem como barreira aos raios solares. Grande parte dos cientistas, todavia, alerta para o grave risco das técnicas, com consequências imprevisíveis para o planeta; reforçam o grau apenas paliativo do empreendimento; e criticam o deslocamento de atenção da raiz do problema, que é a imprescindível necessidade de redução da emissão de gases de efeito estufa.

O problema, no entanto, é que o emaranhado de outras dimensões que envolvem as mudanças climáticas — para além da reunião de cientistas e/ou políticos em organizações multilaterais — também necessita estar presente nas capas dos jornais e televisão. Se o objetivo deve ser o de informar a população para que, indiretamente, aumente a pressão da sociedade civil por medidas mais rigorosas de enfrentamento às mudanças climática, é preciso acionar as diversas nuances do assunto e envolver o público pelos múltiplos caminhos possíveis.

Um bom exemplo é esta matéria publicada pelo National Geographic Brasil, abordando “como o aquecimento global afeta a vida no Brasil”. A publicação envolve o já conhecido aumento de desastres naturais — e cita, por exemplo, as chuvas torrenciais que deixaram 233 mortos em Petrópolis (RJ) —, apontando para a mudança no padrão de chuvas nas regiões Sul e Sudeste, em especial. Também engloba as consequências diretas na saúde humana devido ao estresse térmico, bem como o aumento no custo de produção alimentícia e energética, e suas repercussões no aumento da desigualdade social brasileira.

A necessidade de envolver o público para as questões ambientais em suas diversas facetas é evidenciada, por exemplo, nesta coluna do portal Latinoamérica21, publicada na Folha de S. Paulo, sobre as “Contradições no mundo diante das mudanças climáticas”. Em suma, pesquisas de opinião apontam para um elevado grau de alerta das populações latino-americanas sobre as mudanças climáticas em relação ao resto do mundo; ao mesmo tempo, apesar de alertas, também são estas as mais otimistas quanto à resolução dos problemas. Chama mais a atenção, no entanto, a alta ênfase dada à responsabilização do indivíduo para solucionar as mudanças climáticas: nove em cada dez latino-americanos acreditam que suas ações pessoais fazem a diferença (mais do que a média de países desenvolvidos) e 40% das classes média e média baixa brasileira veem no indivíduo uma responsabilidade maior pela sustentabilidade do que nos governos e empresas.

Embora sem diminuir a importância da conscientização em nível individual, o foco somente nesta instância pode desestimular a pressão popular e a fiscalização dos grandes agentes poluidores. É também nesta direção que deve caminhar o jornalismo, em seu papel de descortinar as muitas variáveis que orbitam as questões socioambientais.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

O raso debate sobre veganismo

Imagem: IPEAS Report – The Politics of Protein, 2022

Por Matheus Cervo*

Nas últimas décadas, o debate sobre os impactos do consumo de carne tem avançado para mostrar que a escolha em aderir uma dieta vegana vai muito além de optar pela libertação animal.

Segundo a FAO-ONU, o consumo de carne vermelha gera 14,5% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e é responsável por inúmeras infrações trabalhistas nos setores frigoríficos. Além disso, mais de 60% das doenças infecciosas humanas são causadas por agentes patogênicos partilhados com animais selvagens ou domésticos. Por isso, são utilizados antibióticos de forma excessiva na indústria da carne, o que contribui enormemente para o surgimento de agentes resistentes aos mesmos.

Os impactos são ainda mais gritantes quando pensamos de forma sistêmica e percebemos que esse tipo de produção gera desafios críticos à sustentabilidade, como perda de biodiversidade, poluição química, degradação da terra, dificuldade de manter um meio de subsistência e pobreza nutricional nas dietas familiares. Não é trivial notar dados alarmantes que mostram que 80% das terras agrícolas globais são destinadas à produção de soja e milho para fabricação de ração, algo que é extremamente ineficiente para resolver o problema grave da insegurança alimentar.

Ainda assim, existe uma quantidade enorme de matérias jornalísticas que não se comprometem em buscar fontes sérias, gerando desinformação e rejeição sobre o tema. Como exemplo disso, o Metrópoles publicou uma matéria chamada “Entenda por que alguns vegetarianos e veganos voltam a comer carne”. A escrita traz posições de nutricionistas que ainda não se atualizaram no debate científico, já que falam que veganos tendem a voltar a comer carne por ficarem subnutridos (pela suposta falta de proteína) ou por perceberem que estavam em um “surto” por pressões sociais absurdas. Por fim, traz uma série de argumentos de psicólogos para legitimar o processo de reconversão a uma dieta com carne, uma vez que esses profissionais da saúde afirmam a necessidade de autoconhecimento para se “desvincular de crenças que geram sofrimento”.

Um meio que faz um trabalho muito mais sério é O Joio e O Trigo, um projeto de jornalismo investigativo sobre alimentação, saúde e poder. Recentemente, publicaram uma matéria sobre o crescente mercado das caríssimas “carnes vegetais” industriais. Logo de início, partem de inúmeras fontes de informação que pautam a importância do debate sobre a mudança alimentar, como o relatório do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food), que foi publicado no dia 6 de abril de 2022. Contudo, é com base nesse relatório que a matéria mostra que as soluções não são simples e que muitas alternativas industriais como as mencionadas não são sustentáveis e, inclusive, são patrocinadas pela própria indústria da carne.

O texto termina como uma aula ao jornalismo que se debruça ao veganismo e às mudanças alimentares, já que traz um discurso de que esse debate sobre carnes e proteínas precisa de uma dimensão antropológica. Ou seja, se sabemos que a redução ou a eliminação dos produtos de origem animal são necessárias, precisamos fazer esse debate junto da diversidade cultural de práticas para e com a natureza, com agricultores familiares, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e mesmo grupos urbanos em situação de insegurança alimentar. Não se trata de criar matérias repudiando ou adorando o veganismo, mas, sim, de o debater de forma societária e complexa.

* Graduado em Ciências Sociais, mestre em Comunicação e atual doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.