“Liberar desinformação pode ter consequências diretas na segurança das pessoas”, afirma especialista

Roda Viva/Reprodução/OJA

Por Valéria Baptista*

Jaqueline Sordi é bióloga e jornalista especializada em pautas ambientais. Doutora e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e também Especialista em Sustentabilidade pela Universidade da Califórnia (UCLA). Publica em veículos nacionais e internacionais como Sumaúma, Agência Lupa, Folha de S. Paulo, Zero Hora, Mongabay e Skeptical Science.

Em 2020, recebeu financiamento do Google News Initiative para desenvolver o projeto Lupa na Ciência, focado no combate à desinformação sobre a covid-19. O projeto se tornou referência no país durante a pandemia. Em 2021, foi um dos cinco profissionais de comunicação indicados para o Prêmio Comunique-se na categoria Sustentabilidade, considerado o “Oscar” do jornalismo no Brasil. Em 2023, foi uma das três brasileiras vencedoras do programa Disarming Disinformation, do International Center For Journalists (ICFJ), focado no combate à desinformação científica e ambiental.

Em 2024, teve uma de suas reportagens publicadas em Sumaúma premiada pelo Digital Media Americas Awards. Atualmente é gerente de engajamento do Greenpeace no projeto COP-30.

Nesta entrevista, concedida no âmbito da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da UFRGS, Sordi destaca as implicações da desinformação climática e maneiras de combatê-la.

Valéria Baptista (VB) – Segundo pesquisa do DataFolha divulgada em 1º/05/2025, a parcela de brasileiros que nega os riscos das mudanças climáticas aumentou nos últimos meses. A pesquisa informa que o índice passou de 5% em junho de 2024 para 9% em abril de 2025. O número já havia subido para 7% em outubro de 2024, sinalizando uma tendência de alta entre os que minimizam as ameaças do aquecimento global. Os dados mostram, contudo, que a maioria da população ainda considera as mudanças climáticas um risco real:  53% dos entrevistados afirmam que o perigo é imediato, outros 35% dizem que os impactos afetarão as próximas gerações, somando 88% de percepção de risco – patamar inferior aos 94% registrados em junho e aos 92% de outubro do ano passado. Sobre a percepção pública da crise climática, pode-se dizer que as pessoas estão abertas para a informação climática e dispostas a cooperar no enfrentamento da crise?

Jaqueline Sordi (JS) – Eu entendo que sim, porque – nos últimos anos – as pessoas estão sofrendo tão diretamente as consequências da crise climática que acabam se tornando mais abertas para receber informações e para internalizar que a crise climática realmente existe. Elas estão cada vez mais abertas para as informações sobre o assunto, principalmente porque isso afeta diretamente a vida delas; no entanto, por se tratar de um tema tão difícil e complexo, tão cheio de dúvidas e de medos, também abre um caminho muito fértil para a desinformação climática. Uma das estratégias da desinformação é exatamente trazer soluções fáceis e respostas absolutas para questões complexas como a crise climática. Em um momento em que as pessoas estão mobilizadas, em que a emoção fala mais alto que a razão, elas acabam buscando essas estratégias como uma forma de conforto. E ao mesmo tempo que as pessoas estão no momento atual mais abertas à informação, estão também mais suscetíveis à desinformação.

VB – A desinformação climática vai na contramão da educação ambiental provocando um desserviço à causa ambiental, já que consegue muitas vezes ter um efeito danoso junto à opinião pública. Qual o papel da educação ambiental no combate à desinformação climática?

JS – A educação ambiental tem um papel fundamental. A gente precisa ter uma base conceitual sobre meio ambiente, sobre a natureza e sobre a nossa relação com a natureza muito bem estabelecida e internalizada para não ficar vulnerável aos discursos falsos, aos discursos de negação. E essa base só é possível pela educação primária, ou seja, desde a infância. A gente vê nas gerações que cresceram distantes da natureza e cada vez mais nas que estão crescendo as consequências disso, que é exatamente essa vulnerabilidade de acreditar nessas narrativas. E isso é muito pela deficiência dessa conexão com a natureza, não só com a ciência da natureza, mas também com a conexão física da natureza. De entender que fazemos parte de algo maior. As nossas gerações cresceram muito com a ideia de humanos de um lado e natureza do outro como sendo coisas diferentes e separadas. E essa ideia já não se sustenta mais, porque já sabemos que o mundo não funciona dessa forma. Essa deficiência nesta percepção acaba nos deixando vulneráveis. Eu entendo que a educação ambiental trabalhada na forma de reaproximar desde a infância e acabar com a construção da ideia de homem e natureza como algo separado é fundamental para não nos deixar mais vulneráveis a essas narrativas.

VB – Uma pesquisa da Broadminded realizada ao longo do mês de janeiro de 2025 entrevistou pessoas de seis países da América Latina sobre a Meta e o uso de suas redes sociais. Um dos tópicos foi a mudança na política de moderação de conteúdo e o fim do programa de checagem da empresa. Nesta pesquisa, 77% dos brasileiros discordam que disseminar notícias falsas seja “direito democrático”. Os brasileiros foram os que mais rejeitaram a mudança, com 41% discordando dela por acreditarem que a medida pode favorecer a disseminação de notícias falsas e discurso de ódio. Outros 34% disseram concordar por se tratar de liberdade de expressão. Os que concordam que remover iniciativas de checagem de fatos das plataformas de social media representa uma ameaça direta à democracia somam 54%. Diante disso, quais são as consequências da desinformação para a sociedade em geral?

JS –Asconsequências da desinformação são extremamente danosas. Liberar discursos de ódio sob o argumento da liberdade de expressão pode ter consequências diretas na segurança das pessoas. E liberar desinformação também. Eu entendo que, sobre essas medidas, é preciso ter um debate mais aprofundado sobre a moderação das redes, porque estamos entrando em um universo completamente novo. Antigamente a informação era passada de um para muitos, de poucos para muitos, e esses poucos trabalhavam com uma base de um processo de curadoria, de checagem de informação. Mas hoje em dia isso não existe mais. Só que essa nova realidade nos foi imposta sem que houvesse uma reflexão sobre ela. E hoje estamos vendo as consequências disso. Então, o ideal seria: parar tudo, dar um passo atrás e ver que potencial dano pode causar e, dessa forma, minimizar. Eu defendo a ideia de lugares de checagem, de restrição de publicações desde que não sejam vinculados a um viés político, mas sim científico.

VB – As redes sociais são um terreno fértil para a propagação de desinformação devido ao fácil acesso e ao grande número de pessoas conectadas. Como combater a desinformação climática neste contexto?

JS – Temos uma frente maior, que é a de combater a raiz do problema, que está dentro de grandes estratégias de desinformação oriundas de grandes empresas com interesses outros nessas narrativas, ou seja, interesses de manter o status quo. Um exemplo é a indústria do petróleo que, para manter o lucro, nega as consequências desse modelo de produção. Nós temos um trabalho maior que é o de mudar esse espectro mais complicado próprio da indústria. Mas também temos estratégias que cada um pode aplicar e exercer para evitar esse tipo de situação, entre as quais está em saber identificar uma notícia falsa, cuidar antes de circular, sempre desconfiar de informações que vêm com verdades absolutas, soluções mágicas ou certezas que contrariam o senso comum por mais atrativas que sejam. E também em situações de vulnerabilidade em que o emocional acaba falando mais alto que o racional, por exemplo, quando houve a enchente no RS. É aconselhável ter isso em mente para manter o racional sempre atento e não se deixar levar por essas narrativas que são muito atrativas nesses momentos.

VB – Devido às últimas chuvas intensas ocorridas no mês de junho no RS, alguns políticos levantaram a discussão de que a formação de bancos de areia no rio Guaíba agravaria as enchentes, sendo necessário fazer o desassoreamento do rio. No entanto, especialistas rebatem essa teoria dizendo que os bancos de areia são um tipo de formação geológica que ocorre devido a um processo natural de sedimentação e que a dragagem do rio Guaíba seria desnecessária. O que separa a desinformação climática de um ponto de vista distinto sobre uma questão como essa, por exemplo?

JS – Temos que pensar que a questão traz um ponto de vista político e um ponto de vista científico. A política não tem o papel de assumir o lugar da ciência. Os políticos têm que ouvir a ciência e, a partir do que a ciência diz, tomar as decisões. É claro que a ciência quase nunca traz certezas absolutas, pois ela é feita de consensos, é feita de maiorias que levam para um mesmo caminho. Então, o papel político é sempre ouvir e tentar entender quais são os consensos e como agir a partir daí. Discordâncias sempre vão haver. Para que as melhores iniciativas sejam tomadas, as iniciativas mais corretas ou menos danosas, temos que entender que a ciência não é feita de certezas absolutas, lembrando que em diversos casos dentro da própria ciência vamos ouvir opiniões divergentes. Em propostas do âmbito político as tomadas de decisões têm mais chances de acerto quando há espaço para discussão científica. Acredito que falta um pouco dessa capacidade que a gente perdeu de dialogar, de discutir, de entender diferentes pontos, de entender o que é ciência e o que não é, e quais são as limitações da própria ciência.

VB – Nesta questão fiquei pensando no público em geral que fica na dúvida sobre qual lado tem razão. Mas aí entra o papel da escola, não é mesmo?

JS – Talvez não precise abrir tanto essas divergências, mas sim mostrar o que é consenso ou quais são os caminhos possíveis. Isso precisa ficar claro que foi feito a partir de discussões científicas. Mas, é claro, entra o papel da escola, dos veículos de comunicação e da própria política.

VB – O homem se afastou da natureza especialmente a partir da Revolução Industrial e da intensificação da urbanização. O que o homem contemporâneo precisa mudar na sua relação com a natureza, em tempos de crise climática, de maneira que seja possível construir uma sociedade consciente, colaborativa e crítica com relação às questões ambientais?

JS –O homem precisa voltar a ouvir quem nunca se afastou da concepção de que homem e natureza são uma coisa só. Temos aí milhares de pessoas, povos indígenas, comunidades tradicionais que há milênios vivem em harmonia com a natureza. Não se afastaram desse conceito e, por isso, são exemplos de como viver sem destruir. O nosso modelo de sociedade já se mostrou insustentável, e a gente precisa aprender a escutar quem ainda vive num modelo de vida sustentável. E quem tem a resposta para essa pergunta são esses povos.

VB – Em uma de suas matérias, você cita as falsas dicotomias como uma das cinco estratégias usadas para manipular e confundir a opinião pública. Como exemplo disso, grupos de interesse econômico divulgam a falsa ideia de que desenvolvimento e preservação estão em lados opostos. Poderia falar sobre essa falsa dicotomia e apontar quais interesses estariam por trás desse tipo de desinformação climática?

JS – A gente tem a ideia de que o modelo de sociedade ocidental no qual vivemos representa desenvolvimento, mas, na verdade, ele representa um modelo de exploração insustentável com relação aos recursos que a gente tem. Na verdade, a gente nem deveria chamar de recursos. Eu usei esse termo para que fique mais fácil de entender. Não são recursos, e sim elementos naturais. A gente associa a ideia de desenvolvimento a esse nosso modelo, mas hoje em dia já se sabe que esse modelo não representa necessariamente desenvolvimento, porque é um modelo insustentável. As grandes indústrias que se sustentam  a partir desse modelo seguem alimentando essa narrativa para continuar lucrando e manter o status quo. E essa é a falsa dicotomia. A gente pode entender que desenvolvimento está muito mais ligado a estabelecer uma relação com o meio ambiente sem destruí-lo, que, no final das contas, é uma relação muito mais complexa, mais tecnológica e muito mais intensa e profunda do que esse modelo de chegar a um local, explorar, retirar recursos e ir embora. Essa falsa dicotomia está também relacionada muito com a apropriação da ideia de um desenvolvimento que não condiz mais com a realidade.

VB – A educação para a cidadania já se comprovou um processo lento na sociedade brasileira devido principalmente ao baixo investimento em políticas públicas por parte dos governos. Não dá para esperar que a sociedade atinja a maturidade nesse aspecto, ou seja, é preciso agir rápido com medidas de mitigação no que se refere à emissão de gases de efeito estufa, já que eventos extremos estão acontecendo com muita frequência. Como podemos ter esperança de que a sociedade capitalista vai se engajar na luta para salvar o planeta, a própria vida e a das gerações futuras?

JS – Acredito que temos que trabalhar com três frentes: uma a curto prazo, outra a médio e outra a longo prazo. A frente a curto prazo seria pensar em medidas que estão inseridas na lógica atual para tentar mitigar e adiar, porque a gente precisa reduzir as emissões. A gente não vai conseguir mudar esse sistema econômico nem tampouco reeducar o homem na sua relação com a natureza agora. Então temos essa dicotomia e precisamos trabalhar dentro da própria lógica para implementar ações de redução – seja por meio da própria tecnologia de captura de carbono, seja por investimento em energia renovável, seguindo o modelo de produção, só que dentro da energia renovável. E aí pensar a médio prazo em políticas públicas que ajudem nesse sentido, políticas tanto de educação como de redução de desmatamento, de taxação para poluentes entre outras; e medidas a longo prazo, sendo a principal delas a que está dentro dessa questão mais profunda da educação, a de educar pela escola, pelos sistemas de educação, retrabalhando a questão ambiental a partir de uma nova perspectiva que não separa o homem da natureza. O desafio tem que ser encarado nessas três frentes, senão fica impossível mesmo, já que não dá tempo de a gente mudar o modelo de sistema econômico atual para resolver a crise climática, porque quando a gente conseguir fazer isso o planeta já terá acabado.

*Revisora de Textos da UFRGS. Cursou a disciplina Jornalismo e Meio Ambiente em 2025/1, quando produziu essa  entrevista sob orientação da professora Eloisa Loose.

O olhar da comunicação pública no primeiro ano da enchente no Rio Grande do Sul

Série de reportagens produzida pela Agência Brasil aborda o histórico fenômeno climático sem tratar de meio ambiente

Isabelle Rieger/Sul21

Por Luciano Moraes Velleda*

A efeméride de um ano da enchente que devastou o Rio Grande do Sul em 2024 ganhou destaque na mídia nacional nos últimos dias de abril e no começo de maio. A Agência Brasil, uma agência pública de notícias vinculada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), enviou o repórter Pedro Rafael Vilela ao estado para produzir uma série de 11 reportagens, publicadas entre os dias 27 de abril e 1º de maio. 

Ao todo, o material inclui duas entrevistas com prefeitos (o mandatário da Capital, Sebastião Melo, e o prefeito de Cruzeiro do Sul, Cesar Leandro Marmitt), duas reportagens tendo construções como personagens (o Mercado Público de Porto Alegre e um casarão/restaurante em Arroio do Meio que resistiu a enchente), uma entrevista com o secretário da Casa Civil do governo federal para o apoio à reconstrução do RS, Maneco Hassen, além de outra reportagem dando conta dos embates políticos entre a União e o governador Eduardo Leite devido a demora para o início dos projetos de proteção contra cheias nas cidades da região metropolitana – o governo federal disponibilizou R$ 6,5 bilhões para essa finalidade, mas nenhum centavo foi usado até agora, sendo que cabe ao governo estadual elaborar e executar os projetos. 

A série de reportagens ainda inclui uma breve análise da situação do RS um ano depois, entre o caos da tragédia e o esforço de recuperação, assim como quatro matérias focadas no problema de moradia das milhares de pessoas que perderam suas casas e ainda lutam para ter uma nova residência. 

Embora trate de uma tragédia climática, as reportagens não abordam os muitos aspectos ambientais do RS que emergiram junto com as águas no último ano. Sem essa importante contextualização, as matérias focam em dados objetivos da reconstrução do estado, como investimentos em obras para recuperação da infraestrutura, incluindo os sistemas de proteção contra cheias e, principalmente, os números dos programas habitacionais que tentam dar conta de atender milhares de pessoas que perderam suas casas. Embora divulgue bons dados do cenário atual da reconstrução, no conjunto, a série peca pela ausência de visão ambiental da tragédia.

As duas entrevistas com os prefeitos chamam a atenção. No caso do prefeito de Porto Alegre, a reportagem não aborda nenhuma das questões polêmicas que envolvem as responsabilidades da Prefeitura na dimensão da tragédia. O caminho escolhido pelo repórter foi dar voz ao prefeito para tratar da reconstrução dos diques e comportas que compõem o sistema de proteção da Capital, assim como os entraves no avanço dos  projetos de moradia. 

O prefeito da Capital também diz que as causas do alagamento não foram as casas de bombas que não funcionaram – cuja manutenção é sua responsabilidade –, preferindo enfatizar que o problema da enchente na cidade foi a falha de proteção dos diques, construídos há muitas décadas, compondo um discurso que o isenta de responsabilidade – ainda que a manutenção dos diques e comportas também esteja sob a alçada do governo municipal. Apesar de haver informações de especialistas que contestam a análise do prefeito, a entrevista não o questiona nesse sentido.

A ausência de uma postura mais incisiva do repórter tem sido uma característica da Agência Brasil, que não costuma confrontar de modo mais veemente suas fontes. Embora, ressalte-se, não há nada que estabeleça que uma agência pública deve ser menos contestadora.

Bem diferente é a entrevista com o prefeito de Cruzeiro do Sul, Cesar Leandro Marmitt. Sincero, ele conta não ter recurso para contratar um terceiro engenheiro para trabalhar nos projetos de moradia que irão reassentar centenas de famílias que perderam suas casas, diz não ter sequer um ginásio para ser um ponto de referência num plano de contingência e afirma não ter dúvidas de que a sua cidade e outras do Vale do Taquari, não têm condições de enfrentar novamente um cenário parecido com o de 2024. “Com todas as palavras, eu vou dizer, nós não estamos preparados para enfrentar uma nova cheia deste porte. Não estamos preparados mesmo”, disse. 

A franqueza do prefeito de Cruzeiro do Sul dá a dimensão da dificuldade e dos desafios das cidades gaúchas para se recuperarem da tragédia e se prepararem para não sofrer algo semelhante novamente no futuro. Essa possível abordagem, todavia, não é tratada nas reportagens.

O aspecto mais humano da série está nas matérias cujo enfoque é a situação de moradia das vítimas da enchente. Mesclando dados dos projetos e programas habitacionais com histórias de vida, as reportagens mostram a ausência do lar como um dos aspectos mais dramáticos da trágica enchente. Ao todo, a série da Agência Brasil traça uma breve síntese da atual situação habitacional das vítimas da maior chuva já registrada no RS, ao mesmo tempo em que passa ao largo das muitas e importantes questões ambientais que afligem o território gaúcho.

*jornalista, sócio do Sul21, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Um “novo normal” também para os jornalistas

Imagem: Connor McManus/Pexels

Por Sérgio Pereira*


Os eventos climáticos têm aumentado em frequência e intensidade, como alertam os cientistas, e uma expressão passou a se popularizar a partir disso: “novo normal”. Nascida primeiramente na pandemia de Covid-19, em 2020/2021, passou a ser empregada de igual forma após os eventos extremos dos últimos anos, como as cheias de 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul. O termo sugere a ideia de que precisamos entender que o mundo, como imaginávamos, não existe mais e que precisamos nos adaptar ao que vem pela frente.


As mudanças climáticas, antes ignoradas por uma parcela da sociedade, não estavam apenas batendo na nossa porta como também derrubando e carregando-a junto na correnteza. Até o presidente da Farsul, entidade conservadora ligada ao agronegócio, admitiu em entrevista ao Jornal do Comércio em março deste ano que “era” e que havia deixado de ser “negacionista sobre as mudanças climáticas”, o que provocou certa surpresa em alguns setores.


Poucos dias após essa declaração, Porto Alegre se viu novamente diante de um evento climático. Um temporal com ventos de 111 quilômetros por hora (medição superada apenas pelos 120 km/h registrados em 1º/10/2017 na capital) e chuvas intensas causaram destruição e novamente alagou parte da cidade. A população se viu mais uma vez em meio ao caos e tudo isso em menos de um ano após a grande enchente de 2024.


Se a sociedade precisa pensar em uma outra realidade, com novos desafios, precisamos igualmente refletir sobre um novo fazer jornalístico, com mais conhecimento científico e planejamento. Fritjof Capra, em 1982, já defendia que os jornalistas precisavam mudar e o “seu modo de pensar, fragmentário, deverá tornar-se holístico, desenvolvendo uma nova ética profissional baseada na consciência social e ecológica”. Outras rotinas se impõem ao trabalho dos profissionais de imprensa agora e devemos nos preparar para esse “novo normal”. Abaixo, deixo algumas propostas para reflexão com os colegas. São sugestões simples para enfrentarmos os tempos que estão por vir e, assim, não corrermos o risco de no futuro sermos arrastados pelos ventos da incerteza.


A prevenção precisa estar na pauta: conforme Alende Castro (2016), o jornalismo de prevenção “propõe a necessidade de vislumbrar os problemas, identificá-los, investigá-los e explicá-los ao público em vez de esperar que aconteçam para depois denunciá-los” (tradução nossa). O jornalista deve conhecer a realidade da sua região de cobertura e os seus perigos. Deve mapear os riscos e estar atento às crises em potencial. Por exemplo, se na sua cidade há chance de ocorrer desmoronamentos, é preciso pautar o assunto com frequência, alertar a população e cobrar providências das autoridades.

Uma pauta obrigatória, após as enchentes de setembro e novembro de 2023 no Rio Grande do Sul, proporia uma detalhada radiografia sobre os sistemas de proteção contra as águas do Rio Guaíba, em Porto Alegre. Isso poderia ter levantado questões importantes e, quem sabe, evitado algumas das consequências da cheia de abril/maio do ano seguinte. Esse mapeamento deve envolver todos os tipos de risco, não apenas os climáticos (secas, cheias, tornados, tempestades, terremotos, tsunamis…), mas também aqueles potencialmente provocados pela ação humana, especialmente a de escala predatória (mineração, indústrias de produtos tóxicos, barragens, usinas de energia, incêndios…). Essa sugestão vai ao encontro do Princípio da Precaução, que é um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental.

Palavra certa no momento certo: as redações devem se familiarizar e padronizar o uso de determinadas expressões, observando o correto sentido e a devida definição de cada termo. Overbeck e Pillar, por exemplo, alertam para o uso incorreto de “desmatamento” para se referir a qualquer tipo de vegetação suprimida, quando o uso correto é apenas em áreas de florestas. Se recomenda aqui a criação de um dicionário específico. O “Manual para a cobertura jornalística dos desastres climáticos”, lançado recentemente pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental, pode servir de ferramenta auxiliar para essa tarefa.

Contextualizar é conscientizar: cada texto envolvendo desastres ou riscos precisa ser devidamente contextualizado. Se uma encosta desaba, é importante buscar os motivos que levaram a essa crise. O jornalista deve buscar estudos científicos, referências e legislações ambientais que permitam ao consumidor de notícias compreender o que está acontecendo. Girardi e outros observam que o jornalista deve dar ênfase à contextualização na “expectativa de superar a fragmentação e a descontinuidade”, com “destaque para uma contextualização ampla, profunda e crítica (tecendo relações de causas e consequências) e a perspectiva sistêmica” (2020).

As lições da Comunicação de Risco: isso vale não apenas para os jornalistas de veículos de comunicação, já que é útil para os assessores de imprensa que trabalham em órgãos públicos, principalmente aos ligados à área de segurança e prestação de socorro. É importante que o repórter tenha algum conhecimento sobre sistema de gestão de riscos. Precisa dominar o vocabulário tanto das denominações técnicas como das populares. Há diversos cursos nesta área, como o do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, sobre como cobrir a crise climática e combater a desinformação. Ou do Instituto Reuters, que oferece um curso de jornalismo ambiental da Oxford Climate Journalism Network.

Sistematização na divulgação de alertas: com a adoção de avisos por parte da Defesa Civil em algumas comunidades, a imprensa passa a ter papel fundamental na multiplicação dessa informação. Importante, então, que os jornalistas discutam e planejem as formas mais rápidas e eficazes de difundir esses alarmes e deliberar sobre a necessidade de se criar formas para enfatizar os diferentes níveis de perigo (a exemplo das bandeiras verde, amarela e vermelha utilizadas pelos salva-vidas). Isso vale principalmente para as mídias eletrônicas, mas envolve também as impressas para os alertas a longo prazo.

O que fazer em situações de risco: os jornalistas expostos aos perigos precisam passar por cursos específicos para enfrentar esse tipo de situação. Há poucos dias viralizou uma imagem de uma repórter de TV do RS, em uma transmissão ao vivo, enfrentando os primeiros sinais dos fortes ventos do temporal de abril deste ano. As empresas de comunicação precisam preparar os profissionais para esse tipo de situação e observar a necessidade do fornecimento e uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) quando for o caso. Um bom exemplo vem da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que oferece em seu site, gratuitamente, o curso “Segurança para jornalistas”, abordando temas como primeiros socorros e gerenciamento de conflitos, entre outros.

Seguro de vida: os jornalistas que se expõem a situações de perigo e seus dependentes precisam estar devidamente assegurados. Por isso, as empresas jornalísticas deveriam contratar apólices de seguro para os seus profissionais, para dar um mínimo de segurança aos familiares de seus trabalhadores. As entidades de classe que representam os jornalistas podem incluir nas convenções coletivas cláusulas de proteção aos seus associados para os casos de cobertura de riscos, já que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não estabelece obrigatoriedade para esse tipo de caso.

Protocolos de reação: para as situações de risco, as redações precisam estabelecer previamente um protocolo tanto de cobertura como de segurança para seus profissionais. Da mesma forma que as empresas, a partir da década de 1980, proibiram os seus repórteres de se oferecerem na troca por reféns em casos de motim em presídios, o mesmo princípio protetor deve nortear as situações de emergências climáticas. Já para a cobertura, importante que esse protocolo tenha em mente a necessidade de que os jornalistas busquem fontes que permitam compreender o fenômeno, suas causas e consequências, além de incluir o termo “mudanças climáticas” quando de eventos extremos e de exceção, como a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul.

Outra visão de trabalho: em dias de alerta da Defesa Civil, as empresas jornalísticas devem flexibilizar o teletrabalho para seus jornalistas que não estão cobrindo os desastres in loco. Editores, diagramadores e repórteres que podem exercer suas atividades em casa, devem ser preservados. A imprensa também deveria defender o home office para todos os ramos de atividade quando as autoridades recomendarem o chamado “fique em casa” diante da previsão de eventos climáticos severos.

Desde o seu surgimento, no século XVII, a atividade jornalística tem se aprimorado e modificado, adaptando-se principalmente às evoluções tecnológicas, aos avanços da sociedade e às exigências do mercado de trabalho. O exercício da profissão, portanto, precisa seguir no caminho da atualização agora a partir das mudanças climáticas, que estão nos impactando diretamente e com uma frequência e força cada vez mais perigosas.

Referências:


ALENDE CASTRO, Silvia. Comunicar el riesgo desde la anticipación – El periodismo de prevención em la prensa gallega: una propuesta, Anuario Electrónico de Estudios em Comunicación Social “Dissertaciones”, v. 10, nº 2, p. 20-38, 2016.


AMARAL, Márcia Franz; LOOSE, Eloísa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho (Organizadoras). Manual para a cobertura jornalística dos desastres climáticos – 1ª ed. Santa Maria, RS: FACOS-UFSM, 2024. Disponível em: https://jornalismoemeioambiente.com/wp-content/uploads/2025/02/manual-para-a-cobertura-de-desastres-climaticos.pdf
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente. 25. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.


GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 279–291, 2020. Disponível em: https://www.reciis.icict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/2053

OVERBECK, Gerhard Ernest e PILLAR, Valério De Patta. Forest-biased terminology does not help to include open ecosystems in conservation policies. Perspectives in Ecology and Conservation, v. 22, n. 4, p. 328–330, out. 2024.

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com.

À margem das notícias e da precaução

Informações subdimensionadas em notícias da imprensa sobre impactos ecológicos da exploração de petróleo prejudicam avaliação pública sobre prospecções na margem equatorial brasileira 

Imagem: Adema/Governo do Sergipe

Por Heverton Lacerda*

Desde 2002, a Petrobras vem tentando obter licença para explorar petróleo na margem equatorial, uma região marítima da costa brasileira que se estende do Amapá até o Rio Grande do Norte. Apesar de críticas e alertas sobre os riscos ecológicos que a exploração de petróleo representa para os ecossistemas marinhos, o processo de licenciamento e as pressões do setor econômico seguem avançando. Notícia da Agência Brasil publicada no dia 6 de abril anunciou que a empresa petrolífera concluiu a construção de uma unidade para atendimento e reabilitação de fauna no Amapá. Essa estrutura soma ao Centro de Despetrolização e Reabilitação da Fauna que a Petrobras já mantém no Pará, em Belém. Ainda que a matéria não apresente dados estatísticos sobre tragédias anteriores, de modo a exemplificar os riscos envolvidos, fica evidente que a operação exige equipamentos para mitigar futuras tragédias ambientais. “A construção do equipamento é uma das exigências para que a empresa possa fazer perfurações para verificar a existência de petróleo no bloco FZA-M-59, em águas profundas do Amapá, a cerca de 500 km da foz do Rio Amazonas”, informa a matéria da jornalista Tâmara Freire.

Raoni

No dia 4, durante encontro do presidente Lula com o cacique Raoni na Terra Indígena Capoto-Jarina, no Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso, a liderança indígena enfatizou que a preservação ambiental do local em prospecção para estudos e exploração é importante para manter “a Terra com menos poluição e menos aquecimento”. Na ocasião do encontro, Raoni foi agraciado com a Ordem Nacional do Mérito, no grau Grã-Cruz, a mais alta honraria oficial do Brasil. O fato repercutiu nacionalmente em veículos como Carta Capital, Valor Econômico, Correio Braziliense, Infomoney, O Globo, Poder 360, Brasil 247, O Tempo, entre outros. Além de Raoni fornecer um gancho (uma oportunidade) para explorar o debate sobre os riscos ecológicos, ampliando ainda para a questão climática, os textos publicados não abordam o tema.

Precaução

Uma pesquisa publicada no periódico internacional Marine Environmental Research e divulgada pelo portal Fauna News revela que os impactos de um derramamento de petróleo ocorrido em 2019 no Nordeste brasileiro seguiam presentes em 2023. Os problemas observados pela pesquisa apontam para a ingestão de oleo e aumento da mortalidade da fauna marinha, evidenciando alterações comportamentais e nas proporções de sexo e tamanho de algumas espécies, além de anormalidades em larvas e ovos e consequências para populações humanas litorâneas. Outro ponto da pesquisa destacado no portal está relacionado à  extensão das áreas atingidas de cada ecossistema na tragédia ambiental de 2019, o que ajuda a dar uma dimensão dos riscos envolvidos. Os dados indicam que foram impactados 4.929,74 km² de áreas de estuários, 489,83 km² de florestas de mangue, 324,77 km² de prados de ervas marinhas, 185,30 km² de praias, 63,64 km² de planícies de maré, 45,95 km² de corais de águas profundas e 9,69 km² de corais de águas rasas.

Ao nominar ecossistemas em risco e apresentar as dimensões de áreas atingidas por tragédias, a cobertura jornalística sobre a margem equatorial tem a oportunidade de enriquecer o debate público. Para isso, seria fundamental que as notícias apresentassem maior contexto, o que contribuiria para o cumprimento do papel educativo, um pressuposto essencial reconhecido pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (Ufrgs/CNPq).

Além de fornecer contexto e educar, a cobertura poderia incorporar o princípio da precaução, um pressuposto que, conforme (Girard et al., 2020, p. 281), integra os fundamentos do jornalismo ambiental. Ao adotar o princípio da precaução, as notícias sobre a margem equatorial poderiam auxiliar a sociedade a formar uma opinião mais informada e a pressionar o governo em prol de medidas de proteção ambiental, antes que novas tragédias aconteçam.

*Heverton Lacerda, jornalista, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e presidente da Associação Gaúcha de Proteção  ao Ambiente Natural (Agapan).

Fórum Internacional do Meio Ambiente coloca o bioma Pampa no centro dos debates 

A 13ª edição do congresso contou com dois dias de discussões  intensas sobre a preservação da vegetação nativa, evento repercutiu de forma diversa na imprensa 

Bioma Pampa ocupa 69% do território gaúcho e é compartilhado / Imagem: Isabelle Rieger 

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

O bioma Pampa foi o centro dos debates ocorridos nos dias 26 e 27 de março durante o 13º Fórum Internacional do Meio Ambiente, promovido pela Associação Riograndense de Imprensa no auditório do Memorial da Assembleia Legislativa do Estado. Durante dois dias, os participantes puderam assistir palestras abordando temas cruciais para a proteção do Pampa, que ocupa 69% do território gaúcho e é compartilhado com o Uruguai e parte da Argentina.

Os painéis contemplaram os impactos das mudanças climáticas e projetos e práticas agropecuárias agressivas ao bioma, a regularização ambiental nos próximos anos, o potencial da pecuária para preservação e recuperação ambiental, geração de renda e produção de alimentos, o Pampa nos meios de comunicação e o potencial turístico e comercial do bioma. O evento teve a participação especial do cineasta Rogério Atama Rodrigues, diretor do filme Sobreviventes do Pampa (2025), que comentou a obra lançada em Porto Alegre. O longa mostra a relação de pessoas quilombolas, agricultores familiares e assentados da reforma agrária com a região. 

Pesquisadores, ambientalistas e jornalistas participaram e debateram os temas apresentados. Eles evidenciaram que, mesmo com sua beleza paisagística, riqueza cultural, sociobiodiversidade e potencial para a pecuária orgânica, o Pampa é um bioma ameaçado pelo avanço das monoculturas da soja e da silvicultura. As plantações de videiras e oliveiras foram apresentadas pelos palestrantes do evento como alternativa econômica para a região, desde que não sejam transformadas em monoculturas. 

No entanto, a ameaça do avanço da soja e do eucalipto traz consigo o uso dos agrotóxicos, como o 2,4 D, que prejudica as oliveiras e videiras com grandes quebras na produção, gerando um movimento para proibir o uso desse veneno na agricultura. Este agrotóxico também provoca graves doenças nos animais e seres humanos, sendo uma das causas de cânceres, conforme dados apresentados pelo Instituto Nacional do Câncer. A pecuária tradicional foi apresentada como importante prática para a  conservação das áreas campestres e destacada pela profunda relação com a cultura gaúcha e com o próprio artesanato de lã.

O fórum teve repercussão na imprensa em jornais como Correio do Povo, Jornal do Comércio, Brasil de Fato, Sul21, além de televisões e rádios. Os veículos destacaram tanto a necessidade de preservação do Pampa pela sua importância econômica como pela riqueza ambiental. O Correio do Povo, em 29/03 destacou o potencial econômico do bioma Pampa por meio do turismo, agricultura e pecuária com a manchete: “Fima debate potencial econômico”. O Jornal do Comércio de 28/03 também citou o potencial econômico do bioma, com a manchete de “Especialistas apontam potencial turístico do Pampa durante fórum em Porto Alegre”. Nesta reportagem, foi abordado o  uso indevido do agrotóxico 2,4 D, já que pode diminuir a potência econômica do local. 

Por sua vez  o Brasil de Fato, em 28/03, realçou a carta compromisso assinada em defesa do bioma.  O Sul21, em 27/03, destacou as mudanças climáticas como fatores de impacto da agricultura nas próximas décadas. Na Zero Hora, o presidente da Associação Rio Grandense de Imprensa, José Nunes, em 28/03, apelou para  a população gaúcha agir em defesa do bioma Pampa. O Fórum também foi mencionado na coluna da Juliana Bublitz, em 26/03. 

A divulgação do Pampa pela imprensa deveria ser constante em virtude das ameaças que sofre permanentemente e não ficar na dependência de eventos. No texto “As respostas do Pampa para as mudanças climáticas” as colegas Eliege Fante e Carine Massierer já discorreram sobre a relevância do bioma, enfatizando que mesmo esquecido pelas políticas públicas e pela imprensa, ele possui uma pecuária familiar tradicional em campo nativo que é sustentável ambiental e economicamente.

É necessário, assim, ressaltar que o Pampa tem uma biodiversidade que compreende cerca de 480 espécies de aves, quase cem espécies de mamíferos, 66 espécies de anfíbios e 97 répteis. Além disso, os povos e comunidades tradicionais do Pampa como indígenas, quilombolas, pecuaristas familiares, entre outros, que conferem outro olhar para a região, precisam ser conhecidos e valorizados. 

Ao concluir este texto e reconhecer a importância do 13º FIMA para chamar atenção para o Pampa, nos perguntamos: quando os problemas que afetam a existência do bioma serão resolvidos?

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com

Grupos de mídia de Florianópolis silenciam conflitos de interesses públicos e privados na especulação imobiliária no litoral

Imagem: Print/Reprodução/Jornal Já

Por Míriam Santini de Abreu*

Causou repercussão em Florianópolis (SC) a notícia do veículo “Já”, de Porto Alegre (RS), sobre o projeto de construção da uma avenida nos Ingleses, norte da Ilha de Santa Catarina, com a justificativa de desafogar o trânsito na região, uma das mais frequentadas por turistas durante a temporada de verão. A reportagem foi publicada no dia 12 de março na aba temática “Ambiente Já”

O veículo, que completa 40 anos de existência em 2025, expõe que o projeto foi encomendado e “doado” pelo empresário Fernando Marcondes de Mattos, proprietário do Costão do Santinho e do Costão Golf, ambos também no Norte da ilha. O fato é que a avenida, se aprovada e construída, facilitaria o projeto de expansão do Costão do Santinho. O principal obstáculo para o licenciamento, mostra o veículo, é a mobilidade na região onde, no verão, pode-se levar duas horas para vencer um trecho de dois quilômetros.

A notícia do “JÁ” expõe a frouxidão de tudo o que se entende por jornalismo na mídia de Florianópolis, incapaz de produzir notícias e reportagens sobre as consequências da voracidade imobiliária sobre o litoral do estado.

O vereador de Florianópolis Afrânio Boppré (PSOL), no Instagram, citou a notícia do “JÁ” e alfinetou: “Quem sabe estimula a imprensa local a cobrir o assunto, além das versões oficiais”

O portal ND+, do Grupo ND, trata do assunto em notícia intitulada “Projeto em Florianópolis prevê nova avenida para desafogar o trânsito no Norte da Ilha” e informa: “Em uma reunião na última quarta-feira (12), no Costão do Santinho, promovida pelo proprietário do resort, Fernando Marcondes de Mattos, com a presença do secretário municipal de Infraestrutura e Manutenção, Rafael Hahne, e das equipes de reportagem do Grupo ND, foram apresentados, em primeira mão, os detalhes deste plano”. Mas não há menção ao projeto de expansão do Costão do Santinho.

A construção do texto ressalta a “doação” do empresário e informa que “(…) a nova avenida será construída no espaço hoje ocupado por parte da faixa de areia, aproveitando o engordamento feito em 2023”. Em 12 linhas no final do texto, um engenheiro e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e uma moradora expõe preocupações sobre o impacto ambiental da obra, mas o portal não desenvolve a abordagem.

A CBN, do Grupo NSC, com o título “Florianópolis planeja nova avenida para melhorar mobilidade no Norte da Ilha”, entrevista o secretário Rafael Hahne, que menciona detalhes da obra citando apenas a Prefeitura.

Os demais veículos limitaram-se a reproduzir a versão da Prefeitura, sem se referir à prática questionável de misturar interesse público com interesse privado nem produzir notícias ou reportagens capazes de explicar as conexões entre o investimento com recursos públicos, as alternativas para a mobilidade na região e os impactos da projetada avenida. Não fosse a iniciativa noticiosa do veículo do estado vizinho, passaria em branco mais uma demonstração da tibieza da mídia local no debate sobre o impacto socioambiental dos grandes empreendimentos que pouco a pouco vão destruindo a faixa litorânea.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

A perspectiva não humana no jornalismo pode conscientizar sobre as questões ambientais?

Imagem: Alaor Filho / Fotos Públicas

Por Débora Gallas*

Após assistir ao filme Flow, vencedor do Oscar de melhor longa de animação nesta edição de 2025, me peguei pensando em como a arte é capaz de nos expor à alteridade e modificar nossas percepções – o que pode, em última instância, alterar nossa forma de agir sobre a realidade. A mais recente coluna de Giovana Girardi na Agência Pública fala exatamente sobre o poder do filme em nos colocar no lugar dos personagens e nos fazer refletir sobre a resiliência possível diante das mudanças climáticas.

Na obra, um grupo de animais de diferentes espécies, origens e temperamentos acaba no mesmo barco durante uma inundação repentina e precisa cooperar para sobreviver. Ao sair da sessão, ainda emocionada, fiquei pensando se seria possível o jornalismo nos aproximar das carências e urgências vividas, por humanos e não humanos, diante do agravamento dos efeitos das mudanças climáticas.

O apelo puramente emocional em uma cobertura a faz tender para o sensacionalismo – distanciando-a, portanto, do jornalismo, que é comprometido com os fatos. Mas é possível tornar essa cobertura mais empática e calorosa? Seguindo no tema do filme, lembrei, por exemplo, da matéria publicada em Mongabay em 24 de fevereiro sobre a estratégia desenvolvida pelas onças da Amazônia para sobreviver aos períodos de inundações – elas passam a viver nas copas das árvores.

O texto de Tiago da Mota e Silva detalha como o monitoramento dos animais é realizado por cientistas do Instituto Mamirauá, no Amazonas, e que o envolvimento dos especialistas com o território e seus seres é fundamental para as descobertas. Assim, as onças não são entendidas como meros objetos de pesquisa, mas como sujeitos que resistem e se reorganizam diante das adversidades ambientais – de forma semelhante aos personagens de Flow. E quando nos damos conta que as mudanças climáticas podem causar ainda mais alterações nas inundações e nos ciclos de chuva na região, passamos a nos preocupar com esses animais, cuja capacidade de adaptação será colocada ainda mais à prova.

O desafio da resiliência diante das mudanças climáticas e a busca por adaptação também estão na reportagem de Sônia Bridi sobre a morte dos corais no litoral do Nordeste exibida pelo Fantástico, da TV Globo, em 9 de março. Com dados do projeto Coral Vivo, a reportagem alerta que a onda de calor de 2024 gerou perdas sem precedentes nos recifes, como a morte de 95% dos corais vela e corais de fogo.

Os corais são animais que sustentam esses frágeis ecossistemas, caracterizados também pelas algas que se associam à sua estrutura e aos peixes que visitam as colônias em busca de alimento, por exemplo. A ameaça é ainda maior com o turismo predatório, como visto nas piscinas de Maragogi, em Alagoas. A reportagem finaliza mostrando o bom exemplo de respeito dos pescadores que promovem o turismo ecológico, mas aludindo à responsabilidade das pessoas humanas em duas frentes: freando o aquecimento do planeta e evitando atividades que impactam o local.

Nós que pesquisamos o jornalismo ambiental precisamos ressaltar, em várias ocasiões, que ele não se reduz a curiosidades da natureza idílica. Falamos isso para lembrar os interlocutores, que nós, seres humanos, também somos natureza e sofremos com nossas próprias ações para degradar os bens naturais. No entanto, chegamos em um ponto em que a ideia de outro humano enfrentando algum revés por conta das mudanças climáticas talvez não nos gere tanta comoção. Para algumas pessoas, pode parecer mais do mesmo. Diante dessa indiferença, abordar as consequências da crise climática pelo ponto de vista não humano poderia, talvez, gerar mais compaixão?

Claro, existe uma linha tênue entre essa abordagem e uma que desmobilize pelo pessimismo ao mostrar plantas e animais como vítimas indefesas e inevitáveis de tragédias como incêndios, secas e enchentes, por exemplo. Porém, através da informação jornalística contextualizada e devidamente apurada, as pessoas conseguem perceber conexões entre fenômenos naturais e acontecimentos sociais, além de entender seu papel e de outros seres na resolução dos problemas identificados. Foi o que engajou pessoas de todo o Brasil no resgate do cavalo Caramelo durante as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.

Assim, identificamos onças pintadas, corais, cavalos e outros animais como vulneráveis ao imprevisível, mas, também, como sujeitos resilientes – como nós humanos somos, afinal. Essa identificação, quando bem expressa pelo jornalismo, pode ajudar não somente a reconhecermos nossas limitações, mas também inspirar nossa organização coletiva para resistirmos e solucionarmos as questões ambientais emergentes.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação e vice-lider do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

“Reconstruir melhor”: será que estamos nos preparando para reduzir riscos de desastres?

Imagem: Vitor Rosa / Palácio Piratini

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

O Marco de Sendai, documento internacional orientado para prevenir e reduzir os riscos de desastres, instituído em 2015, aponta como uma de suas prioridades “melhorar a preparação para desastres para uma resposta efetiva e ‘reconstruir melhor’”, ou seja, tornar a infraestrutura mais resiliente do que era antes do desastre. Contudo, depois do ápice das inundações que afetaram o Rio Grande do Sul, como a imprensa tem fiscalizado essa reconstrução? 

A relação entre jornalismo e políticas públicas, especialmente no contexto dos desastres climáticos, exige uma cobertura contínua e aprofundada diante da perspectiva da construção de cidades resilientes. Aqui a ideia de watchdog (Traquina, 2005), que se refere à vigilância e ao monitoramento de decisões públicas, se faz especialmente relevante.

Observando a cobertura da reconstrução do desastre climático que ocorreu em maio de 2024, perguntamos: O jornalismo local gaúcho tem se debruçado sobre essa questão? Se sim, de que forma? 

Realizamos uma breve análise da cobertura sobre o tema entre o período de 1º de janeiro e 6 de fevereiro, feitas por GZH, Correio do Povo, Brasil de Fato e Sul 21, neste início de 2025, e identificamos não apenas diferentes abordagens sobre o tema, mas também lacunas significativas no tratamento da questão. Para identificar os conteúdos, utilizamos os buscadores dos próprios veículos, com as seguintes palavras-chave: enchentes, reconstrução, prevenção e resiliência.

A cobertura da GZH sobre a reconstrução tem sido abordada de forma fragmentada, com ênfase nas colunas de opinião e, portanto,com menos notícias e reportagens. Ao que indica, o jornal delegou aos colunistas a responsabilidade de cobrir a fase da reconstrução. Os conteúdos tratam de atrasos de editais, dificuldades burocráticas e desafios econômicos, como:

Já o Correio do Povo adota uma abordagem centrada em números e dados sobre investimentos e andamento das obras de infraestrutura realizadas pelo Estado, como a construção de pontes e rodovias. As matérias limitam-se a trazer informações sobre prazos e investimentos, como: 

O jornal Brasil de Fato, embora tenha um número menor de notícias, apresenta uma cobertura voltada para os Direitos Humanos, denunciando a falha do governo em garantir moradia digna para as famílias atingidas. O jornal foca nas dificuldades enfrentadas pelos moradores de Canoas e Porto Alegre, onde as soluções habitacionais continuam escassas e as remoções geram revolta. Reportagens como “Famílias atingidas pelas enchentes seguem sem solução habitacional em Canoas” (14 de janeiro)  e “‘Quem tirou o meu espaço não foi a enchente, foi a Prefeitura, porque passou com a patrola e me deixou sem casa’, diz morador de Canoas” (4 de fevereiro) evidenciam o sofrimento das vítimas e o descaso das autoridades. A cobertura do Brasil de Fato conecta o desastre à questão das desigualdades sociais, enfatizando a responsabilidade do poder público.

Ao destacar o andamento das obras e as parcerias público-privadas, o Sul 21 indica que a reconstrução está sendo conduzida por meio de parcerias público-privadas e financiamento de grandes agentes econômicos, em vez de ações exclusivamente governamentais. O portal enfatiza a reconstrução da cidade, questionando quem financia e conduz esse processo. A reportagem “Do Gasômetro ao Lami, reconstrução da orla é feita por contrapartidas de grandes empreendimentos” (20 de janeiro) sugere que o setor privado tem um papel central na recuperação da orla, levantando possíveis implicações sobre desigualdade no acesso e interesses econômicos. 

O jornal também dá visibilidade à responsabilização do Estado e aos direitos da população atingida. A matéria “Advogados defendem indenização pelo Estado a vítimas de enchentes” (31 de janeiro) coloca em pauta a necessidade de reparação, levantando uma discussão sobre omissões governamentais.

No entanto, a reconstrução do estado também deve ser tratada pela perspectiva da emergência climática, recorte que amplia a discussão, conectando o desastre a fenômenos globais e reforçando a necessidade de adaptação, mitigação e resiliência. Os conteúdos encontrados, em sua maioria, reportam o andamento da recomposição da infraestrutura, sem discutir se são obras pensadas para serem melhores do que aquelas destruídas pelo desastre. 

A reconstrução de uma cidade após um desastre não deveria deixá-la como era antes. Quando falamos em “cidade resiliente”, estamos nos referindo a um conjunto de práticas e políticas que não apenas restauram o que foi perdido, mas também preparam as cidades para enfrentar futuros eventos climáticos com maior eficácia e menos impacto. Nesse contexto, surge uma questão central: o jornalismo local está questionando se as ações implementadas na reconstrução do estado buscam realmente fortalecer a resiliência das cidades, ou se, ao contrário, estão apenas buscando devolver os municípios ao seu estado anterior, mantendo o status quo e perpetuando um ciclo de vulnerabilidade climática?

Se a cobertura jornalística local se limitar a cobrir o processo de reconstrução sem considerar as mudanças climáticas, falhará em trazer para o debate público as necessidades de adaptação das cidades aos novos desafios. A verdadeira resiliência vai além da reconstrução de casas, pontes e rodovias; ela implica em transformar as cidades para que sejam preparadas para enfrentar as consequências das mudanças climáticas de forma mais eficiente. Isso inclui, por exemplo, a implementação de infraestrutura verde, como áreas de drenagem natural, reflorestamento de encostas e a criação de espaços urbanos que absorvam as águas das chuvas, além de políticas de planejamento urbano que priorizem a adaptação ao clima. 

O jornalismo local pode questionar se as ações de recuperação estão atendendo a essas necessidades mais profundas e estruturais ou se estão sendo apenas paliativas. A falta de uma abordagem crítica nas coberturas jornalísticas pode resultar em uma “amnésia coletiva”, onde a sociedade, movida pela urgência da reconstrução imediata, não consegue enxergar a longo prazo. O jornalismo, como um mediador do debate público, deve estar atento a como as cidades estão sendo reconstruídas, de modo que consigam enfrentar os riscos climáticos já previstos.

Referência:

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo: Porque as notícias são como são. Vol. I. Florianópolis: Editora Insular, 2005.

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

A cobertura que é mais do mesmo: 2025 começa com chuvas acima da média em diversas cidades brasileiras

Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose**

O início de 2025, em diversas regiões do Brasil, foi marcado por uma série de eventos climáticos, que vem causando transtornos significativos e mobilizando esforços de emergência quase simultaneamente. Os primeiros dias do ano mostram que seguimos no ritmo de ebulição de 2024, que superou, pela primeira vez, a temperatura global de 1,5°C, o limiar climático apontado pelos cientistas, o que significa mais intensidade e frequência de eventos extremos.

Diante desse cenário, cabe ao jornalismo denominar o acontecimento de forma a não naturalizar o desastre. No primeiro texto do ano, o Observatório de Jornalismo Ambiental (OJA) analisou, no período de 04 de dezembro a 25 de janeiro, a cobertura do G1, portal de notícias da Globo e líder de audiência no jornalismo digital no país, sobre as chuvas intensas, alagamentos e enchentes que vêm afetando os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina e São Paulo – janeiro nem encerrou, mas já são muitos os casos reportados no País.

No Rio de Janeiro, Chuva forte provoca alagamentos e bolsões d’água na capital e Região Metropolitana do RJ (04/12/2024). Em Maricá, na rodovia RJ-106, Chuva deixa motoristas ilhados e trânsito congestionado na RJ-106, em Maricá.

No Espírito Santo, Chuva intensa no ES deixa desalojados, desabrigados e interdita rodovia; saiba quais cidades mais atingidas (08/01/2025). Vídeos mostram enchentes que causaram destruição e tiraram moradores de casas no ES (09/01/2025).

Em Minas Gerais, Chuvas deixam 25 mortos e mais de 50 cidades em situação de emergência em Minas Gerais (14/01/2025). Quase 100 cidades mineiras decretam situação de emergência ou calamidade pública por causa de temporais; veja lista (19/01/2025). 

Na Bahia, Temporais deixam moradores ilhados e alagam ruas de cidades em diferentes regiões da BA (15/01/2025).

Em Santa Catarina, o cenário também foi preocupante. Chuvas provocam situação caótica com estragos e desabrigados no litoral de SC; cidades decretam emergência (16/01/2025). Balneário Camboriú recebe em um dia quase todo o volume de chuvas esperado para janeiro; VÍDEOS mostram situação caótica (16/01/2025). 

Já em São Paulo, no dia 24 de janeiro, ocorreu o terceiro maior volume de chuva já registrado desde o início das medições do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em 1961, conforme aponta a matéria “FOTOS: São Paulo tem 3ª maior chuva da história, segundo Inmet” (25/01/2025). O artista plástico Rodolpho Tamanini Neto, de 73 anos, morreu afogado depois que uma enxurrada atingiu a sua casa, como relatado em “Corpo de artista plástico que morreu após enxurrada invadir sua residência é velado em SP” (25/01/2025). 

É percebido que nas notícias do G1 são atribuídas às chuvas a responsabilidade exclusiva pelos acontecimentos, personificando-as como agentes autônomos que “provocam”, “causam” ou “deixam” danos e vítimas. Essa abordagem, amplamente evidenciada nos títulos destacados, como “Chuva forte provoca alagamentos” e “Chuvas deixam 25 mortos”, contribui para a não responsabilização humana ou questionamento acerca das causas geradoras do problema. Embora a chuva seja o fenômeno imediato, desencadeador do processo, ela não é a única responsável pelos desastres relatados.

Os desastres não são apenas “naturais”, mas também resultados de uma série de fatores como a ocupação desordenada do solo, a falta de planejamento urbano, o desmatamento e a ausência de políticas públicas eficazes para a prevenção e mitigação de riscos – aspectos que criam situações de vulnerabilidade. Quando o jornalismo escolhe por eleger a chuva (ou outro fenômeno da natureza) como responsável por tragédias acaba por ignorar fatores derivados de escolhas humanas, contribuindo com a ideia de que desastres são inevitáveis, o que enfraquece a urgência em adotar medidas preventivas. 

“Ao personificar as forças da natureza e considerá-la um inimigo externo (“o rio invadiu”, “a chuva matou”), podemos desresponsabilizar a ação/inação humana”, afirma trecho do Manual para a Cobertura Jornalística dos Desastres Climáticos, desenvolvido pelo Grupo de Jornalismo Ambiental do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pelo Grupo Estudos de Jornalismo do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

A personificação das “forças da natureza” reforça uma narrativa que posiciona os desastres como algo “fora do nosso alcance”, resultado de uma suposta “força maior” contra a qual os seres humanos não teriam controle ou capacidade de resistência. Essa perspectiva ignora o papel ativo que as ações humanas desempenham na amplificação ou mitigação desses eventos. É preciso que o campo jornalístico desnaturalize os desastres, pois quando se atribui exclusivamente à natureza a origem dos problemas, perde-se a oportunidade de enxergar a conexão entre os fenômenos naturais e as escolhas políticas, econômicas e sociais que agravam seus impactos. O desastre só ocorre onde há processos de vulnerabilização em curso.

Há anos cientistas das Ciências Sociais e Humanas apontam a importância de se nomear de forma adequada os desastres, mas grande parte da comunidade jornalística segue reproduzindo o que é mais visível na eclosão do problema, desconsiderando questões crônicas que são os viabilizadores de desastres. Isso ainda é mais sério quando há nos títulos das notícias a reprodução de autoridades públicas que invocam os fenômenos naturais para justificar a sua inoperância. Quando deixaremos de cobrir os efeitos da crise climática, provocada pela ação humana, como algo desconectado do nosso modo de vida?

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

As respostas do Pampa para as mudanças climáticas 

Imagem: Representantes de sindicatos, associações e de órgãos municipais, estaduais como Emater/RS e UERGS, e federais como Ministério do Desenvolvimento Social, Embrapa Pecuária Sul e UFRGS. Só faltou mesmo a grande imprensa. / Eliege Fante

Por Eliege Fante* e Carine Massierer**

Esquecido pelas políticas públicas e pela imprensa, o bioma sulino possui uma pecuária familiar tradicional em campo nativo que é sustentável ambiental e economicamente.

Temos ouvido a respeito das soluções baseadas na Natureza e da bioeconomia, especialmente nos últimos dias durante a COP29. São dois conceitos recentes e já apontados por especialistas como chaves para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, bem como adaptar a economia visando manter o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius.

A pecuária familiar em campo nativo no Rio Grande do Sul, tradicional e secular modo de vida e de geração de renda onde humanos e natureza vivem ancestralmente em harmonia, consiste numa possibilidade efetiva para contribuir com a mitigação do aquecimento global. Os resultados das pesquisas científicas acumulam-se há pelo menos quatro décadas, mas na grande imprensa, este tema quase não aparece.

Considerando que a grande mídia brasileira fez coberturas diárias da COP29, teria sido uma excelente oportunidade ofertar conteúdos que aproximassem as preocupações das nações com as nossas lidas diárias que podem contribuir, na prática, para um futuro sustentável, como é o caso dessa pecuária em campo nativo.

Em paralelo a COP29, aconteceu o Seminário da Pecuária familiar das Palmas, em Bagé (RS), (dias 22 e 23 de novembro) com representantes de sindicatos e associações, de órgãos municipais, estaduais como Emater/RS e UERGS, e federais como Ministério do Desenvolvimento Social, Embrapa Pecuária Sul e UFRGS. Não faltaram autoridades, as fontes oficiais preferidas pela grande imprensa. Sem contar que teria sido válido ouvir os próprios pecuaristas familiares ainda mais porque estamos às vésperas do Dia do Bioma Pampa, 17 de dezembro.

O Seminário reuniu cientistas, técnicos e pecuaristas que conclamam o reconhecimento da pecuária familiar gaúcha em campo nativo enquanto conservadores da biodiversidade pampeana como alertava o título do evento: “300 anos de invisibilidade”.

Durante o evento o médico veterinário da Embrapa Pecuária Sul, Marcos Borba, afirmou (aqui gravado) que os pecuaristas, apesar de invisibilizados, contribuem com sua lida para a segurança alimentar sem agredir o meio ambiente: “nós manejamos através da pecuária uma conservação permanente da cobertura do solo com este tamanho de biodiversidade que aqui tem (ao menos 45 espécies da flora campestre por metro quadrado), a água que cai, infiltra, alimenta os repositórios de água subterrâneos, corre para a sanga, da sanga para o arroio, do arroio para o rio, do rio para a lagoa, da lagoa para o mar, daí evapora, e volta na forma de chuva. Portanto, ao produzir carne também produzimos água no sentido de que o ciclo da água permanece funcionando. Nós sequestramos carbono; essa região é um dos maiores depósitos de carbono acumulado do Rio Grande do Sul na forma dessa vegetação composta por campo conservado e mato. Ninguém reconhece isso.”

Qual a parcela de responsabilidade da grande imprensa sobre essa falta de reconhecimento? A invisibilidade deste tema na mídia brasileira não é coerente com a emergência das mudanças climáticas. Temos que fazer coberturas mais amplas: “A ocupação das pessoas é um dos maiores desafios enfrentados e, nós aqui, não precisamos ir para a cidade se não quisermos. Podemos ficar fazendo vida, história, cultura, produzindo alimentos de alta qualidade através do uso da luz do sol, da água da chuva e conservando a biodiversidade,” disse Borba a respeito da autonomia dessa pecuária em campo nativo.

Enquanto o desenvolvimento do Rio Grande do Sul é planejado por governos e corporações transnacionais de forma dependente do pacote tecnológico da monocultura da soja e do eucalipto, e de irrigação, ou seja, do uso crescente do recurso finito e escasso que é a água, é de assaz interesse público saber que existe uma atividade econômico-produtiva que mantém as famílias no meio rural, que sustenta, que não polui, que absorve o carbono da atmosfera e que “produz” água.

Todos temos que compreender e difundir os potenciais do bioma Pampa a partir da sua rica biodiversidade: o recorde de 63 espécies diferentes de plantas em um metro quadrado, redunda na imensa riqueza faunística e no “buffet” mais rico do Brasil disponível aos rebanhos. Já na Amazônia, a pecuária desmata e está levando o mega bioma ao ponto de não retorno!

A prática do jornalismo requer essa escuta horizontalizada, ampla, diversificada, produtora de conhecimento e educadora ao repercutir as tecnologias sociais parceiras da melhor ciência da conservação das espécies do planeta. Mais de uma dezena de fontes de alta relevância (internacional, inclusive) circularam neste evento local, mas de alcance e de interesse global neste momento histórico ímpar.  

*Eliege Fante. Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).