Hábitos de consumo em tempos de pandemia

Fonte: Captura de tela do site da Agência Brasil

Por Eutalita Bezerra*

O objetivo 12 da Agenda 2030, plano de ação global para mudar o mundo em mais 10 anos, situa a produção e o consumo sustentáveis como pilares para alcançar esta transformação. Conforme o objetivo, são medidas indispensáveis à redução da pressão sobre o meio ambiente um novo olhar para o consumo e para a produção. Por absoluta necessidade, o novo Coronavírus, que deflagrou uma pandemia, ao que parece, tem sido um catalizador desta mudança.

A Agência Brasil destacou, utilizando o indicador Intenção de Consumo das Famílias medido pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, que houve uma retração de 2,5% na previsão de consumo na passagem de março para abril. Esta diminuição deveu-se, dentre outras coisas, à incerteza sobre as consequências que a pandemia pode provocar nos indicadores econômicos deste ano.

No início de abril, o Pioneiro  apontou como esta retração tem se traduzido em mudança de hábitos dos consumidores. Uma destas transformações diz respeito à consciência de comunidade. A reportagem citou, por exemplo, que com a pandemia os consumidores estão mais propensos à valorização de setores da economia criativa, a um interesse maior pelo consumo local e sustentável, além de estarem mais dispostos a consumir produtos de segunda mão, algo que ainda era carregado de estigmas.

A reportagem, que ouve especialistas da Psicologia, da Economia e do Marketing para traçar este panorama, ainda é complementada por levantamento realizado com mais de 2 mil pessoas pela Opinion Box, segundo a qual é possível afirmar que a pandemia forçou uma readequação do cotidiano, a começar pelos hábitos de consumo.

Fonte: Captura de tela do site O Pioneiro

Ainda na publicação há uma lista de caminhos a seguir para o momento de cautela. Nesta, itens como o uso racional da comida, a redução no consumo de luz e água e evitar gastos desnecessários nas compras online são propostos aos leitores.

No que tange ao consumo de supérfluos, dois momentos merecem ser destacados.  Passamos recentemente pela semana Fashion Revolution, encerrada no último dia 24, em que se busca questionar a indústria de moda sobre seus processos, desde a extração de matéria-prima até a destinação dos seus resíduos. Em tempos de pandemia, o varejo de moda sofrerá grandes mudanças que perpassam toda a sua cadeia produtiva. É o que aponta reportagem do Diario do Nordeste , segundo a qual existe uma tendência brasileira de aproximação com a corrente minimalista, criada nos Estados Unidos, relacionada a um estilo de vida mais baseado no que é essencial, com novos hábitos pautados pelo localismo, a sustentabilidade e o autocuidado.”

Um segundo ponto que levantamos diz respeito ao Índice Batom (lipstick index). Criado em 2001, por ocorrência dos atentados de 11 de setembro, este indicador aponta que em tempos de crise o consumo de produtos cosméticos de entrada costumam crescer. Porém, se no ano passado o mercado de beleza – que tem um impacto ambiental bastante significativo – andava aquecido, a pandemia pode ter levado abaixo o índice citado. Em reportagem publicada por Exame, o segmento deve ter neste ano uma retração de 2,5% . E o Brasil segue a tendência, com a expectativa de uma queda expressiva na venda de fragrâncias e produtos associados à vida social,categorias que representam um terço do mercado brasileiro de beleza.

Tais apontamentos nos permitem considerar que a mudança em curso pode nos direcionar a um consumo mais consciente e a uma retomada dos nossos interesses mais primitivos, pautados em necessidades racionais. As reportagens, porém, ainda carecem de fazer a interligação entre esta mudança e a menor pressão nos bens naturais, de forma que seja possível ao leitor médio entender de que maneira estes pequenos hábitos impactam toda a sociedade.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Eutalita@gmail.com

Jornalismo em tempos de transe planetário

Por Mathias Lengert*

“Entramos em 2020 com a Terra em transe, já com vistas para 2030”. A afirmação do primeiro editorial do ano da revista Época Negócios não falava da pandemia, mas o transe antecipado retrata acertadamente os atuais acontecimentos.  

O momento é de mudança brusca de planos. A propagação do novo Coronavírus, organismo invisível a olho nu, mas com impactos nas dimensões humana e econômica, colocou o planeta em transe. Neste momento crítico, a física e ativista Vandana Shiva direciona a nossa busca por compreensão, lembrando a partir da nossa humanidade que “somos membros da família planetária”.

O relatório do Fórum Econômico de Davos, publicado em janeiro, apontou que os cinco principais riscos globais à prosperidade estão relacionados às questões ambientais. O documento sinalizou o tom das discussões no evento e não poupou o próprio capitalismo de receber a culpa sobre o aumento de catástrofes climáticas.

A urgência climática enfatizada no Fórum de Davos se refletiu na edição de março da Época Negócios, onde também foi destacado o capitalismo em transe. A revista expressa a preocupação que transpassa todas as páginas, afinal, em suas palavras, “a crise é grave. Gravíssima. E exige intervenção imediata”.

Fonte: Captura de tela de Época Negócios.

As pautas da revista transitam da energia renovável à alimentação vegetariana, da mobilização de Greta Thunberg ao mercado de carbono. O enriquecimento narrativo do jornalismo aprofundado remonta satisfatoriamente à complexidade ambiental, e assim, expressa que a mudança climática nos impacta de diferentes maneiras. Época Negócios é crítica, considerando que é uma publicação voltada à empresários e empreendedores, que ao elucidar o atual sistema econômico insustentável e as ações individuais brandas, indica alternativas e respostas para às questões ambientais.

A narrativa sobre a possibilidade de enfrentamento da revista sugere que monetizar bens naturais e coletivos é uma atitude viável – o que é problemático se considerarmos que estamos em déficit de recursos naturais, visto que consumimos mais do que a Terra consegue repor, o correspondente a 1,75 planeta. É especialmente na reportagem que explora os créditos de carbono, que a emissão de gases de efeito estufa é apresentada como item de compra e venda, como produto de um nicho de mercado.

Outro ponto discutível é a presença de uma promoção demasiada de organizações e startups que se autointitulam ecológicas nas reportagens. Fico com a sensação de que só há interesse da revista na sustentabilidade porque as organizações têm manifestado entusiasmo (ou até mesmo conveniência) em incorporar a questão às marcas.

Segundo esta publicação, o capitalismo precisa enfrentar “o mais árduo dos desafios” para permanecer viável: sair do seu transe. É possível mudar paliativamente o sistema econômico e adequar o consumo às tendências iminentes, no entendimento da revista. Penso que o jornalismo pode ir além, avaliando em profundidade esse ideal da sustentabilidade que prioriza a economia em detrimento das dimensões ambiental e social. As funções do jornalismo contemplam ações mobilizadoras e catalizadoras para um amplo debate público em torno de temas essenciais e pautas como essas que vimos aqui.

* Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Lições da pandemia para a ação climática

Fonte: Ecoa/UOL
Por Cláudia Herte de Moraes*

Em 2019, a jovem sueca Greta Thunberg foi destaque nas mídias ao redor do mundo justamente por potencializar a mensagem sobre o que a ciência do clima tem feito há décadas. No Fórum Econômico em Davos, em janeiro de 2020, falando de emergência climática, a ativista disse que “Precisamos começar a ouvir a ciência e tratar esta crise com a importância que ela merece”, conforme reportagem da agência Sputinik. 

Em relação à pandemia, a ciência também amplia o seu papel através da indicação de caminhos para seu enfrentamento, com orientações sobre a gravidade da doença COVID-19, formas de evitar o contágio, pesquisas sobre medicamentos e vacinas. Mesmo com os alertas, alguns governantes levam suas populações a pagar um preço muito alto de contaminação e milhares de mortes, como o exemplo dos Estados Unidos, mostrado na crítica do New York Times. Parece que o valor econômico ainda está sendo colocado acima da vida. O mesmo ocorre com a crise climática, que bate à nossa porta de forma inequívoca, mas não mobiliza governos para seu enfrentamento. Então, a primeira lição é não ignorar os avisos da ciência.

Além da valorização dos cientistas, temos a lição, não menos importante, para agir de forma preventiva. Se há incerteza quanto ao funcionamento do vírus, o mais correto é agir a partir do princípio da precaução, definido na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992) como uma garantia contra os riscos potenciais, mesmo que o estado atual do conhecimento não possa identificá-los, pois “a existência de um risco de um dano sério ou irreversível requer a implementação de medidas que possam prever este dano”. 

Em terceiro, temos a oportunidade de priorizar a ajuda aos mais vulneráveis. Pela falta de políticas públicas eficazes ao longo do tempo, há milhões de pessoas doentes, pobres, sem moradia, saúde, saneamento, ou alimentação, e que são mais afetadas nas crises. Devem ser resgatadas pela sociedade, pois a construção da igualdade social é da ordem da sustentabilidade. Na retomada econômica, ao implementar políticas públicas para a superação das vulnerabilidades sociais, estaremos ampliando o esforço de adaptação à emergência climática. 

Para abordar a análise da imprensa neste cenário, cabe salientar que a maioria dos grandes veículos tem dado destaque ao papel da ciência e aos aspectos preventivos, mas poucos à desigualdade. Neste segundo grupo, encontramos a reportagem especial da plataforma Ecoa, do portal Uol: “No Brasil, quase 35 milhões de pessoas vivem sem acesso a água tratada, enquanto 100 milhões não possuem esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento em 2018.” Como esperar que sem acesso a bens essenciais as pessoas estariam protegidas? Ao lado disso, construir uma nova forma de agir em relação à política, como propõe Mariana Belmont, colunista da mesma plataforma: “Teremos um grande desafio político, e nesse sentido quero dizer que teremos que olhar a política como meio fundamental para o combate às desigualdades, um olhar para reconstrução.”.

Diante da crise, podemos pensar e agir de forma mais sustentável, reconectando o humano com o valor da vida, priorizando ecossistemas ao invés do lucro, de forma mais democrática e fraterna. O jornalismo é capaz de trazer grande contribuição social neste sentido, indicando ações que são coerentes com o patamar do conhecimento coletivo, de forma preventiva e pela igualdade. São lições adequadas ao enfrentamento tanto do coronavírus quanto da emergência climática.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação (UFRGS), professora na UFSM e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS CNPq, email: chmoraes@gmail.com

A dimensão socioambiental do coronavírus através de relações ecossistêmicas e interespécies

Pangolim em Kuala Lumpur, Malaysia, in 2002. Fonte: Jimin Lai/Agence France-Presse — Getty Images / NY Times
Por Matheus Cervo*

É impossível não falarmos do novo coronavírus (COVID-19) em uma publicação de abril de 2020, já que parte da emergência da pandemia se dá devido uma teia de relações interespécies. Através de uma matéria veiculada pelo canal do YouTube do Vox chamada How wild life trade is linked to coronavirus (Como o comércio da vida selvagem está ligado ao coronavírus) em 06 de março de 2020, percebe-se que a emergência do novo coronavírus possui uma longa trajetória de relação entre humanos e não humanos na China. Há evidências de que o COVID-19 surgiu de complexas relações interespecíficas entre morcegos, pangolins e humanos. 

Peter Li, professor associado da universidade de Houston-Downtown,  afirmou que o surgimento contínuo de viroses não é uma surpresa para nenhum especialista em trocas comerciais que envolvem animais na China, já que os animais ficam enjaulados em cubículos de metal e empilhados uns em cima dos outros para abate no mesmo local de comércio. Claro que essa modalidade de venda de animais não é uma especialidade chinesa, mas alguns mercados, como o “wet-market” de Wuhan, oferecem uma variedade extasiante de animais silvestres para consumo culinário humano, gerando uma peculiaridade em torno da emergência do COVID-19.

O início dessa especificidade comercial ocorreu com uma decisão do governo comunista chinês na data de 1970 que, controlando toda produção de comida, falhou em fornecer alimentação para a população. Na beira do colapso, o governo chinês, em 1978, permitiu que a produção fosse realizada no âmbito privado e, para sustentação dessa agricultura familiar emergente, muitos animais silvestres começaram a ser criados. A mudança na lei de proteção da “vida silvestre” em 1988 designou os animais silvestres como “recursos pertencentes ao Estado” e ofereceu proteção às pessoas que estavam engajadas nesse tipo de produção.

Em 2003, a SARS surgiu em um dos “wet-markets” em Foshan na província de Guandong através da comercialização do gato civeta. Uma notícia da Associated Press foi veiculada neste mesmo ano demonstrando que o governo chinês voltou com a permissão de exploração de múltiplas espécies da vida silvestre para comercialização após o surto. De acordo com a matéria do Vox, essa prática se transmutou durante as últimas quatro décadas: esse mercado cresceu para uma indústria de 148 bilhões de yuans (106 bilhões de reais). Nessa mesma matéria, Peter Li afirma que não é a população mais pobre da China que consome em grande escala esse tipo de carne atualmente, mas, sim, uma minoria de classes mais altas que acreditam nas propriedades milagrosas de produtos exóticos como estes. 

Em 2020, novamente a Associated Press lança uma matéria semelhante à 2003: China temporarily bans wildlife trade in wake of outbreak (China temporariamente bane as trocas de animais silvestres após surto). A história se repete. Acredito que devemos nos perguntar: será que nossas narrativas estão se repetindo na pandemia do novo coronavírus e será que vamos falhar de novo em compreender que a questão sanitária é uma questão socioambiental?

*Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade. Acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/8290548520385605. Email: cervomatheus@gmail.com