As mudanças irreversíveis no clima precisam incluir o debate sobre a justiça climática

Cláudia Herte de Moraes *

O mundo já escutou – ou deveria – que agora estamos em uma nova fase do aquecimento global. Em 2019, cientistas declararam a “emergência climática”. Em alguns casos a expressão crise climática, caos climático e colapso climático têm substituído o termo ainda mais usado – mudanças climáticas – exemplo do The Guardian. A divulgação do VI Relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU), na segunda-feira 9 de agosto, trouxe o tema da emergência climática global novamente às manchetes. Os chamados “recados da ciência” são cada vez mais claros e assertivos: estudos mapeados por centenas de cientistas representando 195 países, indicam que se tornou praticamente impossível a limitação de até 1,5°C acima da temperatura de parâmetro – da era pré-industrial, colocada como horizonte no cenário do Acordo de Paris (2015). Desta forma, também as consequências das mudanças climáticas já estão sendo sentidas por milhões ao redor do mundo. 

Não se pode mais esconder a crise climática. Ela é considerada “inequívoca”, assim como a participação humana para o aquecimento global, pela primeira vez quantificada:   cerca 98%, destacando-se o aumento mais rápido da temperatura do planeta de 1970 em diante do que em qualquer outro período. Ou seja, é resultado de um tipo de progresso ou desenvolvimento hegemônico que degradou ao extremo as condições ambientais no planeta,  notadamente colaborando com as duas principais causas para o aquecimento global: o desmatamento e a queima excessiva de combustíveis fósseis. 

O aviso é de um grande perigo iminente, pois a alteração em sistemas de suporte, que regulam o clima na terra, se torna cada vez mais desastrosa em seus efeitos: dificuldades extras na produção de alimentos, alteração em ciclo de chuvas, ciclones, incêndios generalizados,impactos na saúde humana e animal,  além do risco à sobrevivência de grandes populações ao redor do mundo, afetadas diretamente pelo aumento do nível do mar.

Neste 2021, o último recorde das medições de temperatura ocorreu em julho, o mês mais quente registrado desde 1880. A cada dia temos variadas notícias de consequências do aquecimento global: ondas de calor extremo no Hemisfério Norte, chuvas torrenciais na China e Alemanha, temporadas de ventos e furacões mais agressivos em vários locais no planeta. No Brasil, a crise hídrica e o inverno mais seco afetam a colheita em várias partes do país. Com análise dos dados do IPCC, a produção de alimentos será afetada no Brasil.

A frase do secretário geral da ONU, António Guterres, de que o IPCC-AR6 é um alerta vermelho para a humanidade, foi amplificada pela imprensa brasileira, a exemplo da BBC News Brasil. Muito frequente foi a menção ao consenso científico sobre a crise indicando que os efeitos do aquecimento global estão por toda parte, cada vez mais visíveis. O facebook.eco em conjunto com a Lupa fez uma comparação com os alertas anteriores do IPCC e constatou a formação deste discurso.

Um dos aspectos observados está na relação temporal das análises. Agora, os eventos já estão sendo sentidos pela geração atual – e não se trata mais de situações apenas para “nossos netos”. Além disso, a cobertura jornalística trouxe a percepção de que a política e os governos precisam agir o quanto antes. Visualizamos comentários sobre decisões locais contrárias à ação climática – de governos negacionistas – como sendo não apenas crimes contra as populações locais, mas também percalços para a humanidade, como destacou o UOL.

Para ilustrar e exemplificar neste Observatório de Jornalismo Ambiental, fizemos uma busca exploratória no Google, com os termos “Relatório IPCC”, na data de 14 de agosto. Foram excluídos artigos e análises, e observado resultados por relevância, ou seja, os links que mais circularam na internet envolvendo notícias em português (Brasil). Observamos que os cinco veículos mais acessados foram os portais de notícias G1 e UOL, bem como os jornais Estadão, Folha de São Paulo e a CNN. Podemos observar que neste tema em específico – divulgação de relatórios da ONU – a chamada imprensa tradicional tem um maior espaço e ganha maior projeção. Os sites mais alternativos não retornaram como os primeiros em relevância, entre esses figurando apenas o Facebook.Eco (publicado por Piauí FSP) e uma reportagem da Mongabay publicado no UOL

Na tônica da cobertura da imprensa tradicional há seriedade nas considerações dos aspectos científicos bem como destaque à comunicação mais objetiva e clara dos resultados pelo IPCC.  Chama a atenção que ainda é tímida a abordagem do tema da injustiça climática. Precisamos refinar a busca para encontrar destaques sobre os efeitos em populações vulneráveis e desigualdades socioambientais. Não constavam nas primeiras páginas, mas conseguimos localizar nesta repercussão do relatório sobre o impacto da crise em relação aos direitos humanos.

Que as repercussões sobre o relatório sejam aprofundadas e cheguem com força até a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 26) marcada para novembro em Glasgow (Escócia). Os cientistas indicam o caminho para a limitação das emissões imediatamente, na perspectiva de emissão líquida zero até 2050. Assim, esta conferência será decisiva, pois já está passando da hora de ações concretas pelos formuladores de políticas para um enfrentamento urgente à mudança global, não se furtando de incluir o impacto destes cenários para os mais pobres e vulneráveis

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E Mail: claudia.moraes@ufsm.br

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