O maior lixão têxtil do mundo tem endereço

Pilhas de roupas. Crédito: Pexels.

Por Carine Massierer*

Você sabe qual o endereço do maior lixão do mundo? O maior lixão de roupas do mundo fica no Deserto do Atacama, nos arredores de Alto Hospício e próximo a Iquique, no Norte do Chile. A montanha de roupas descartadas que a Europa envia para o Chile já ultrapassa 60 mil toneladas e é visível do espaço. Esta manchete voltou a circular pela imprensa brasileira e internacional há poucos dias, nos veículos Correio Brasiliense, Gazeta de São Paulo, O Globo e o jornal online AS, por exemplo.O tema também ganhou as redes sociais da imprensa e de ativistas como neste link: https://www.instagram.com/p/DbQIC2TmHXv/.

O tema não é novo e o problema só cresce, já que este é o maior aterro sanitário do mundo, agora visto do espaço, e já se tornou um símbolo do impacto ambiental da indústria da moda rápida, mais conhecida como fast fashion. Em 2019, a jornalista Eutalita Bezerra, doutora em Comunicação, já trazia o tema da insustentabilidade da moda para debate aqui no Observatório de Jornalismo Ambiental e sinalizava que tal indústria tinha previsão de produzir, até 2030, 102 milhões de toneladas de roupas e calçados e que faltava um esforço conjunto do setor para diminuir a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera.

O consumo acelerado e a dificuldade de reciclagem dos tecidos sintéticos são os principais motivos para que o lixão só se amplie. A montanha de resíduos ocupa uma área de dezenas de hectares perto de bairros pobres da cidade de Alto Hospicio. O problema vai além do impacto visual. Grande parte das roupas é feita com fibras sintéticas derivadas do petróleo e, quando queimadas ou degradadas, liberam compostos poluentes e microplásticos.

Os textos analisados – nesta volta do tema neste Observatório – trazem informações de como o deserto se tornou um depósito de roupas, o impacto ambiental dos tecidos, de onde vêm os produtos têxteis, quem vive perto dos lixões, os problemas ambientais causados pelo lixão e o que pode ser feito. O que chama a atenção neste conjunto é a inexistência da responsabilização e do porquê o lixão aumenta a cada ano que passa. Em 2 de julho de 2018, o jornal chileno La Tercera publicou a reportagem “La contaminación no tradicional del desierto: ropa”, de Alejandra Lobo. O texto já tratava do descarte de roupas no deserto como um problema de contaminação, mas, até agora, de fato, nada parece deter o aumento de descarte no local.

A fotografia aérea do lixão, utilizada na ilustração da matéria, pela Gazeta de São Paulo e pelo O Globo (no Instagram e no site), é a mesma, o que chama a atenção. A imagem é de Martín Bernetti, fotógrafo feita para Agence France-Presse (AFP) e circulou pelo mundo desde 2021 quando foi feita.

Essa fotografia traz o enquadramento aéreo e transforma as roupas em uma espécie de “mancha” ou “paisagem” no deserto. O observador não vê propriamente indivíduos, mas a dimensão territorial do problema.

A partir destas matérias é possível perceber que são muitos os sentidos que a foto área ativa nas pessoas que acessam as matérias promovendo uma reflexão importante sobre consumo, descarte, fast fashion, risco ambiental e escala global. A imagem visível e ampla mostra que o problema aumenta e é global e que o descarte adequado passa também por uma reflexão sobre consumo, desigualdade socioambiental e risco ambiental. A circulação propiciada na sociedade contemporânea pela midiatização faz com que tenhamos acesso a este tipo de informação, e a imagem que acompanha a matéria nos chama a atenção o suficiente para entendermos que um problema do Chile é a consequência das atitudes consumistas desenfreadas de parte da humanidade.

Revisora: Cláudia Moraes, integrante do GPJA.

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Deixe um comentário