
Imagem de Manaus. Crédito: Heverton Lacerda.
Por Heverton Lacerda*
Não é de hoje que a pauta ecológica tem sido tratada com desprezo ou até mesmo com certa infantilidade pelo jornalismo comercial hegemônico no Brasil. O cerne da questão, aquele detalhe vital que indica que o modelo atual de desenvolvimento promovido pela humanidade está destruindo o planeta, não é pautado com o destaque que a emergência dos tempos exige.
As abordagens jornalísticas das mídias hegemônicas não alcançam a profundidade necessária ao noticiar os fenômenos climáticos que, conforme anunciado há décadas, estão ficando cada vez mais frequentes e intensos. Como bem destacou o jornalista e pesquisador Luciano Velleda em artigo publicado neste Observatório no dia 10 de julho, mesmo quando as notícias relacionam os fatos com as mudanças do clima, “as reportagens não explicam que as mudanças climáticas são causadas pela ação da própria humanidade com a emissão dos gases do efeito estufa em altíssima escala”. Percebe-se um pequeno avanço, embora tardio, no reconhecimento das mudanças climáticas, mas grita a falta de conexão entre o problema e suas causas.
Esse encobrimento de informações essenciais nas coberturas sobre fatos relacionados às mudanças climáticas é sintomático de um modelo de desenvolvimento do qual o jornalismo comercial faz parte e é totalmente dependente. Os grandes conglomerados de comunicação do Brasil são dirigidos por famílias influentes que estão no topo da pirâmide econômica. E é exatamente nesse topo que se encontram os que mais emitem gases de efeito estufa e contribuem para ampliar o problema ecológico. Conforme dados apresentados pela Oxfam Brasil, que produz análises sobre a conjuntura e a injustiça climática, o estilo de vida do 1% mais rico do mundo é responsável pela maior parte das emissões de poluentes climáticos. O consumo de luxo – super iates e outras extravagâncias – pendem a balança das emissões para níveis insustentáveis. As vendas de jatos particulares altamente poluentes, por exemplo, dobraram nas últimas duas décadas. Enquanto isso, a fome persiste no mundo e, em 2024, atingiu mais de 600 milhões de pessoas, conforme o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo da Organização das Nações Unidas. Na base da pirâmide econômica, aquela que suporta o peso da sociedade e não tem acesso aos privilégios do topo, persistem problemas como o atraso no crescimento em crianças menores de cinco anos, o sobrepeso infantil, a anemia entre mulheres, a baixa diversidade alimentar e o sobrepeso entre adultos.
Esse breve recorte acima aponta para a necessidade do aumento de consumo entre as pessoas que estão na base da pirâmide para satisfazerem suas necessidades básicas. No entanto, o modelo social em curso privilegia a concentração de recursos nas mãos dos que estão no topo.
Voltamos aqui ao jornalismo dos conglomerados do topo. Até que ponto os donos dos grupos de comunicação que dependem de patrocínios de empresas da elite econômica estão dispostos a noticiar realidades que questionam o modelo que lhe sustenta e, ao mesmo tempo, é a origem do problema?
Para dar um exemplo de pauta que conta com abordagem superficial e desinformativa por parte da imprensa hegemônica, trago aqui outro artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental: Enquadramento hegemônico do projeto Natureza da CMPC escanteia questões indígenas e ecológicas, de autoria da professora e pesquisadora Cláudia Herte de Moraes e do estudante de Jornalismo Franchesco de Oliveira Y Castro. Os autores apontam que poucas reportagens do jornalismo hegemônico destacaram aspectos relacionados à injustiça ambiental, focando mais em pontos econômicos anunciados pelos proprietários da empresa chilena CMPC. No entanto, percebe-se que a falha na cobertura sobre a questão vai muito além, pois a imprensa, no geral, restringe-se basicamente a reproduzir a cifra de R$ 27 bilhões anunciada pela empresa como investimento privado. O jornalismo empresarial, que já tem relações de patrocínio com a CMPC, sequer questiona os retornos de ICMS que a empresa deixa de entregar ao Estado em função da imunidade tributária atribuída às exportações de celulose. Tampouco, problematiza os incentivos e créditos fiscais dos quais a empresa se beneficia. Ou seja, a abordagem econômica também é seletiva e incompleta neste caso.
Notícias produzidas no contexto da crise climática não podem se dar ao luxo de negar o problema global e suas origens. A falta de entendimento e compreensão sobre o assunto pode ser facilmente superada com algumas leituras qualificadas sobre o tema, entre elas, este observatório acadêmico de Jornalismo Ambiental, que se dedica a analisar criticamente a cobertura da imprensa sobre questões ambientais. Já a questão da censura editorial precisa ser encarada com perspicácia e criatividade, pois, na maioria dos casos, jornalistas e proprietários de conglomerados de comunicação não residem na mesma camada da pirâmide.
*Jornalista, especialista em Ciências Humanas, mestre em Comunicação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).
