Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental se solidariza com o portal Tapajós de Fato pela liberdade de imprensa e contra a censura das denúncias ambientais no Brasil

Crédito: Ruddy Corporan/Unplash
Por Nico Kûara Costamilan e Eloisa Beling Loose
A decisão do portal independente Tapajós de Fato, sediado em Santarém (PA), de cancelar a cobertura das eleições de 2026 expõe um cenário alarmante da violência e insegurança enfrentada por jornalistas na Amazônia. Após frequentes intimidações, vandalismo, ameaças de morte e casos de agressão, o veículo relatou se ver forçado a deixar de cobrir e pautar diretamente a eleição de 2026. Diante do risco de vida de seus repórteres, a redação adaptou sua atuação com o lançamento da campanha #SeLiga, Eleitores. A campanha lançada na última quarta (23), irá pautar demandas socioambientais a partir de comunidades locais, sem a exposição de seus profissionais.
A escalada de hostilidades contra o Tapajós de Fato é registrada desde pouco depois da sua criação em 2020. Com foco na cobertura da defesa dos territórios e dos direitos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, o veículo dá visibilidade aos conflitos da região amazônica – o que vem resultando em formas de violência não sentidos apenas por jornalistas, mas também por ambientalistas, organizações da sociedade civil e povos indígenas que denunciam crimes ambientais. O assassinato do líder sindical e ambientalista Chico Mendes, em 1988, decorrente da luta pela floresta e dos direitos dos seringueiros, nos lembra que tal prática é antiga e segue presente no Brasil.
O relatório Press and Planet in Danger [Imprensa e Planeta em Perigo], publicado pela UNESCO em 2024 mostra que 70% dos jornalistas que cobrem meio ambiente já foram alvo de ataques – assassinato, violência física, detenção e prisão, assédio online ou ataques judiciais. Somado ao fato que os acontecimentos ambientais são atravessados por grandes interesses políticos e econômicos, locais distantes dos grandes centros costumam exigir uma camada extra de cuidado por parte dos jornalistas.
Em período eleitoral, as disputas por poder se intensificam. Porém, quando tais práticas conseguem diminuir a cobertura jornalística durante o período eleitoral, quem perde é o eleitorado, que perde o acesso a informações plurais e fiscalizadoras que contribuem para um voto consciente. O recuo de uma redação inteira por medo de retaliações reflete o avanço da impunidade e a atuação desimpedida de grupos que buscam controlar o debate público pelo terror, sufocando vozes que denunciam abusos e violações de direitos na região.
O caso foi recentemente denunciado por reportagem da InfoAmazônia em parceria com o Repórter Brasil e a Agência Pública, e reforça a urgência de mecanismos eficazes de proteção e amparo jurídico aos comunicadores independentes, especialmente aqueles dedicados à pauta ambiental. A atuação de organizações como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), é indispensável na denúncia do assédio à imprensa livre, e na cobrança da atuação do Estado na proteção da categoria.
Em nota, a FENAJ afirma: “Nenhuma eleição pode ser plenamente informada quando jornalistas precisam escolher entre trabalhar e proteger a própria integridade”. Proteger o direito à informação é tarefa do país pelo bem da transparência e da democracia, especialmente em época eleitoral. Também, é urgente a valorização dos jornalistas como categoria que se expõe a riscos pela informação pública e continua agindo mesmo com baixos salários e proteção precária.
Na publicação Dia da Amazônia: O papel crucial do jornalismo na proteção da região, o Repórteres Sem Fronteiras (RSF) relembra o caso do assassinato do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira em Atalaia do Norte, e detalha as pressões específicas sobre os jornalistas amazônidas. Segundo o RSF, que anualmente produz o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, apesar de avanços, persistem fortes desafios na implementação das medidas de proteção a jornalistas e comunicadores na região.
A Agência Pública, em reportagem sobre ataques a jornalistas em 2024 e 2025, separou ferramentas compartilhadas pelas organizações ABRAJI, RSF e Artigo 19 para proteção física, digital e jurídica de jornalistas:
- Guia de segurança para comunicadores em coberturas políticas (Artigo 19)
- Guia de proteção e segurança para comunicadores e defensores de direitos humanos
- Cartilha aborda princípios de segurança para jornalista freelance
- Segurança digital para jornalistas: como se defender de ameaças online
A Abraji também conta com um Programa de Proteção Legal para Jornalistas, e a Rede de Proteção para Jornalistas e Comunicadores tem portal para denúncias de ameaças ou ataques à liberdade de expressão sofridos pela categoria. Nesta quinta-feira (24/09) lançou a cartilha de proteção legal para jornalistas e comunicadores ambientais, com recomendações sobre como preparar publicações, minimizando o risco de processos judiciais – uma estratégia usada para paralisar o trabalho jornalístico.
O Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) manifesta solidariedade aos profissionais do Tapajós de Fato. Quando o Jornalismo Ambiental é desacreditado na sua necessidade política e profissional, situações como essa nos lembram que as ameaças e censuras acontecem com questões que incomodam: denúncias que desafiam criminosos e autoridades são as mais necessárias no jornalismo com real impacto social.
