Cobertura ambiental recua no mundo indiferente ao agravamento da crise climática

Crédito: Freepik

Por Sérgio Pereira*

Enquanto a crise climática atinge níveis cada vez mais assustadores, a preocupação da imprensa com o assunto diminuiu, contrariando a lógica. A confirmação desse fenômeno pode ser encontrada no levantamento divulgado pelo Observatório de Mídia e Mudanças Climáticas (MeCCO), ligado à Universidade do Colorado (EUA).

Os dados fazem parte de relatório divulgado no primeiro trimestre deste ano, mas que passou praticamente em branco no jornalismo brasileiro. O monitoramento revelou que a cobertura climática da mídia em todo o mundo caiu 38% em 2025 em relação a 2021. Na comparação com 2024, a queda foi de 14%. Dos últimos 22 anos monitorados, 2025 ocupa apenas a décima posição nos anos com maior incidência de notícias sobre a crise climática, enquanto 2024 foi o sétimo.

O MeCCO monitora 131 veículos de comunicação, entre jornais, rádios e emissoras de TV de 59 países. Na América Latina, 15 mídias foram incluídas no estudo, entre elas os jornais O Globo e Folha de S.Paulo. Conforme o estudo, a redução foi mais acentuada na África, no Oriente Médio, na América do Norte e na Europa; menor na Ásia, na América Latina e na Oceania.

O relatório aponta que essa queda mundial registrada em 2025 “parece contrastar com o aquecimento global em curso, em que as temperaturas médias nos últimos anos foram as mais altas em quase 150 anos de história registrada. Enquanto isso, 2025 foi o ano com as maiores concentrações de dióxido de carbono na atmosfera nos últimos 14 milhões de anos”.

Entre os motivos para o enfraquecimento da cobertura climática estão elementos já conhecidos, como pressão do poder econômico, concentração da pauta em outros temas (como a guerra EUA/Israel contra Irã ou o conteúdo dos milhões de páginas do arquivo Epstein, por exemplo), o discurso anticiência de Donald Trump aplaudido por veículos identificados com a extrema direita e a política de demissões das grandes empresas de comunicação.

Neste último tópico, Suzannah Evans Comfort e Jill Hopke, em artigo no Nieman Reports (publicado em português pelo site Poder 360), lembram casos de repercussão no ano passado nos Estados Unidos. Como o da Paramount, que dispensou 100 funcionários da CBS News e desmontou a equipe de cobertura climática, e o da rede de notícias NPR, que demitiu 28 jornalistas, incluindo dois da equipe de clima. Neste ano, o diário Washington Post já demitiu mais de 300 profissionais de redação, um terço do total.

No Brasil, a situação não é diferente. Conforme a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), com base em dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o número de trabalhadores formais em funções jornalísticas nos jornais e revistas caiu de 9.870, em 2015, para 4.709 em 2025, uma redução de 52,3% em dez anos.

O levantamento do Dieese revela ainda que, no mesmo ritmo em que as redações vão murchando, as Assessorias de Imprensa (AI) ocupam parcela cada vez maior do mercado. Em 2025, os jornalistas que atuavam em AI representaram a maior fatia dos vínculos empregatícios, com 25,2% do total. A título de comparação, em 2021 a participação dos assessores era de 20%. E parte dessas AI trabalha justamente para empresas interessadas em negar as mudanças climáticas e em explorar áreas hoje preservadas.

O jornalismo sempre lutou contra as dificuldades. Faz parte do seu papel confrontar o poder, estar sempre vigilante, superar as ameaças, ficar ao lado de quem não tem voz, ser guardião da verdade, defender a vida e a ciência. Mas não há adversário mais difícil de driblar do que a precarização. Diante de redações progressivamente menores, o dilema é definir as prioridades das prioridades. É quando precisamos decidir entre o que será noticiado e o que será silenciado, barrado nos filtros da edição. E a crise climática, o que é de se lamentar, não aparece ter relevância nessa lista.

Revisão: Luciano Velleda, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

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