Velhas promessas e novas questões: a Baía de Guanabara e a privatização do saneamento

Imagem: Baía de Guanabara. Fonte: Pixabay

Por Michel Misse Filho*


Importante cartão-postal brasileiro e recorrente pauta jornalística ambiental, não é novidade dizer que a Baía de Guanabara padece de um processo de poluição que vem de décadas. Desde 2001, o 18 de janeiro é o Dia Estadual da Baía de Guanabara, ocasião menos celebrativa do que reflexiva, que remonta ao crime ambiental decorrente do vazamento de um duto da Petrobrás, com graves consequências para o ecossistema — sobretudo no fundo da baía, longe dos bairros turísticos.


A data deste ano vem acompanhada de “velhas novidades” para a região. A concessão do saneamento básico para a iniciativa privada promete a resolução do histórico problema nos municípios do entorno da baía, como São Gonçalo e cidades da Baixada Fluminense, na periferia metropolitana, que contam com alguns dos piores índices de tratamento de esgoto do Brasil¹; junto às favelas, elas também detêm as maiores concentrações de pessoas pobres e negras da região metropolitana.


Ao longo das últimas semanas, a baía foi assunto em três matérias publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo. A primeira, “Baía de Guanabara ‘fura fila’ e vê nova promessa de despoluição”, faz uma boa retrospectiva das muitas promessas fracassadas de despoluição e apresenta dados sobre saneamento e qualidade da água. Mas a notícia, de fato, é a implantação de um sistema emergencial (o “coletor de tempo seco”), ao longo dos próximos cinco anos, antes do sistema tradicional de esgoto (o “separador absoluto”). Para que se diminua o passivo ambiental da baía de forma mais rápida e com menor custo, o esgoto seguirá sendo escoado nas redes pluviais, mas será coletado e tratado antes do despejo nos rios — nos dias de chuva, todavia, o sistema não dá vazão, as comportas se abrem e a poluição segue o curso. Ficam adiadas, assim, as obras definitivas de saneamento de residência por residência; e permanecem os valões de esgoto na porta das casas e os riscos à saúde da população. A controvérsia é bem colocada e trabalhada pelo jornalista, com bons argumentos de ambos os lados: no fundo, estaria a despoluição de um ambiente sendo priorizada em relação à saúde das pessoas?


A resposta não é trivial, o assunto não é leviano e o consenso mais palpável é que os dois sistemas, em algum momento, precisam ser concretizados de forma complementar num modelo duplo. A segunda matéria da Folha, no entanto, dá pistas sobre interesses privados e alertas à sociedade. Numa entrevista com o presidente da concessionária, a promessa de limpar a Praia de Botafogo em cinco anos intitula a matéria, jogando luz sobre o principal cartão-postal da cidade. A recuperação da baía é tratada como oportunidade de projeção internacional da empresa; e, por que não, podemos supor, de avalizar e justificar a privatização do saneamento Brasil afora. Um olhar atento ainda deve questionar as implicações imobiliárias do empreendimento, sobretudo pela dificuldade — admitida na entrevista — de tornar balneáveis as praias da periferia, próximas à Ilha do Governador.

Longe de uma discussão que contraponha pessoas e ambiente em polos distintos, é preciso garantir que os benefícios de lazer, econômicos, sanitários etc. de uma eventual despoluição contemplem toda a população da desigual baía. A terceira e última matéria, por fim, retoma pontos já conhecidos da população, como a triste constatação de que os botos-cinza, presentes no brasão municipal, tendem ao desaparecimento; e o bom exemplo da preservação e recuperação de manguezais da região. Que desenterremos, do fundo da lama dos mangues do recôncavo, a esperança de uma baía economicamente indutora, ambientalmente rica e socialmente igualitária.

¹O Ranking de Saneamento 2021 do Instituto Trata Brasil coloca quatro cidades do entorno da baía entre as dez piores do Brasil em tratamento de esgoto — as únicas fora da região Norte.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

Patrimônio material e imaterial em Ouro Preto na cobertura jornalística

Imagem: Deslizamento do Morro da Forca que destruiu um casario histórico em Ouro Preto. 
Fonte: Redes Sociais, autor(a) desconhecido(a).

Por Matheus Cervo*

Os extremos climáticos na América do Sul se tornam cada vez mais parte do nosso cotidiano. Logo após a passagem de 2021 para 2022, tivemos a presença de uma grande onda de calor no sul do continente e fortes chuvas registradas em Minas Gerais e na Bahia – fenômenos que não podem ser desconectados do colapso climático que segue em curso.

Não é surpresa que esses extremos estejam atingindo parte do nosso patrimônio histórico e social, visto que isso tem acontecido de forma cada vez mais agressiva. Como mais um evento desse tipo, o aumento das chuvas em Minas Gerais causou a destruição de um casario histórico no Morro da Forca em Ouro Preto devido a um deslizamento de terra no dia 13 de janeiro. Com isso, uma parte do jornalismo brasileiro se debruçou sobre o ocorrido para discutir a situação da memória brasileira frente a esses fenômenos climáticos.

O G1 fez uma matéria chamada “Patrimônio Mundial da Humanidade, Ouro Preto convive com áreas de risco e danos ao casario histórico”. Ela se destaca por ter buscado especialistas de diferentes áreas para entender não só a destruição em si, mas o que pode ser feito para que se tenha um resguardo das edificações históricas do nosso país. Entre eles, foram mencionadas falas de uma professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) do departamento da Arquitetura e do Urbanismo, explicações de um geólogo e estudos sobre áreas de risco do Serviço Geológico do Brasil/CPRM. Além disso, tentaram entrar em contato com a administração municipal de Ouro Preto e com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), assim como trouxeram alguns dados antigos para mostrar que os deslizamentos de terra e as perdas ao patrimônio não são novidades nessa cidade.

O evento causou tanta comoção aos profissionais que se preocupam com a questão da memória que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) se pronunciou com uma nota no dia 14 afirmando que foi uma grande perda para toda a humanidade – o que foi resumido e noticiado pelo jornal O Estado de São Paulo. Essa grande mobilização da organização internacional se deve ao fato de Ouro Preto ser a primeira cidade brasileira inscrita na década de 1980 na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, sendo uma cidade que é monitorada pelo Centro do Patrimônio Mundial. Não é trivial salientar que a diretora ressaltou que medidas protetivas são ainda mais importantes em meio ao avanço das mudanças climáticas, o que foi noticiado pelo Estadão.

Percebe-se que, até aqui, cumpre-se com a necessidade de buscar pela complexidade dentro do jornalismo, especialmente nessa imbricação de áreas que estudam as questões ambientais relacionadas com a preservação do patrimônio nacional. Contudo, ainda dentro da discussão sobre memória e sociedade, é possível dizer que a cobertura desses fatos carece de uma discussão mais aprofundada acerca do patrimônio imaterial que se refere às sociabilidades e modos de vida existentes nesses locais. Depois desse evento que foi seguido de alguns outros deslizamentos noticiados, surgiram diversas matérias afirmando que Ouro Preto tem mais de 300 áreas de risco, sendo que 882 residências estão nessas regiões. Saíram notícias mostrando que 80 famílias foram removidas do bairro Taquaral e diversos serviços foram evacuados como forma de precaução.

Por isso, como o jornalismo ambiental poderia noticiar esses desastres ao patrimônio brasileiro sem prezar somente pelo material? Não seriam as formas de sociabilidade e as construções históricas de modos de vida específicos desses locais patrimônios imateriais tão importantes quanto as edificações? Não seriam elas também formas tão importantes de resguardo quanto a materialidade da nossa memória brasileira? São essas questões que ficam pungentes para aprofundamento dessa discussão sobre o que realmente é o patrimônio mundial da humanidade e como o jornalismo (assim como organizações como a Unesco) poderiam ter uma noção mais abrangente de como a memória se mantém viva na sociedade através das suas dimensões imateriais.

* Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade.

Desafios da cobertura jornalística sobre os impactos do Plano Diretor

Imagem: Captura de tela da entrevista do Sul21

Por Míriam Santini de Abreu*


Os jornalistas que cobrem “Geral” ou “Cidade” sabem o tamanho do desafio de tornar atrativas as notícias e reportagens sobre mudanças no Plano Diretor, que, segundo o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2011), é o instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana do município. As mudanças mexem de forma direta no cotidiano dos moradores, mas explicar isso significa compreender a disputa pelo solo urbano e dar a entender termos como “gabarito”, “capacidade de suporte”, “potencial construtivo” e “coeficiente de aproveitamento”, assim como dezenas de siglas que nomeiam as áreas da cidade. Duas capitais do Sul, Florianópolis e Porto Alegre, estão discutindo alterações nos planos diretores, e os jornalistas se deparam com esse desafio.


Em Florianópolis, a cobertura jornalística sobre o tema expressa a realidade local de mídia, onde o grupo NSC, ex-RBS, tem magra cobertura local, e o grupo ND, ex-RIC, ligado ao grupo Record, alinha-se ao discurso da prefeitura e do empresariado. A prefeitura realizou Audiência Pública em 17 de dezembro e irá promover outras 14 em janeiro para apresentar as mudanças no Plano Diretor, desconsiderando críticas dos movimentos sociais organizados. Essas críticas se relacionam à forma, ao conteúdo e à organização do processo, em plena temporada de verão e com casos crescentes de contaminação por covid-19. As críticas não aparecem nas poucas notícias e raríssimas reportagens publicadas nos veículos dos dois grupos e, nas colunas e editoriais, são atribuídas a “grupos ideológicos de esquerda”, historicamente chamados de “os contra”, como na coluna de Moacir Pereira, comentarista político de longa data demitido do grupo NSC e contratado pelo grupo ND.


Desde o início de dezembro passado, quando a prefeitura apresentou a proposta de mudança do Plano Diretor, até agora, às vésperas das audiências para ouvir a população sobre os rumos da chamada “Ilha da Magia”, esses veículos não se prestaram a apresentar a proposta de forma detalhada e ouvir quem é crítico aos planos da atual administração. A cobertura se limita aos releases enviados pela prefeitura e às entrevistas de secretários e empresários descontentes com a mobilização do movimento popular, que tem obtido até agora vitórias na justiça para suspender as Audiências Públicas agendadas para janeiro. Nesse ínterim, em meio ao calor do verão e ao temor pelo recrudescimento da pandemia, a população da capital catarinense, a depender da cobertura jornalística local, pouco ou nada saberá do que planejam os gestores para mudar o uso do solo da cidade.


Já um bom exemplo de como um veículo pode oferecer informação de qualidade apareceu dia 7 de janeiro no site de notícias Sul21, que publicou entrevista pingue-pongue com o prefeito de Porto Alegre intitulada “Sebastião Melo: ‘O Plano Diretor que vamos mandar para a Câmara será bastante liberal’”. As perguntas permitem ao prefeito expressar o projeto para a cidade, mas não deixam de explorar contradições, aprofundar afirmações vagas e apresentar exemplos concretos em que o discurso oficial contradiz a prática da prefeitura. Também é visível o conhecimento dos jornalistas sobre a história da cidade e as ações de administrações anteriores, quando perguntam, por exemplo, se os projetos em curso estão mantendo o legado de preocupação ambiental de Porto Alegre. É importante assinalar que o Sul21 publicou em julho do ano passado um especial, intitulado “Que Porto é esse: quem ganha com as transformações na capital”, com sete reportagens repletas de entrevistas, dados e fotografias que oferecem ao leitor um prato colorido e apetitoso para compreender a disputa pelo espaço urbano na capital gaúcha. Os veículos de Florianópolis estão devendo um prato desses na cobertura dos impactos da mudança do Plano Diretor local.


*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo.

As mudanças climáticas em pautas sobre as enchentes na Bahia

Por Débora Gallas Steigleder*

Estudos de integrantes do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental sobre a cobertura ambiental no Jornal Nacional no ano de 2019 identificaram a ampliação e transversalização das pautas sobre meio ambiente no telejornal em relação a anos anteriores. A maior recorrência de temas ambientais nas edições do principal produto jornalístico da TV Globo pode ser explicada por dois fatores frequentemente sobrepostos: o desmonte das políticas públicas de proteção ambiental a partir da posse de Jair Bolsonaro como presidente e o aumento de ocorrências de tragédias de grande envergadura. A busca por explicações e soluções para os impactos dos fenômenos percebidos, no entanto, ainda fica em segundo plano. Após mais de dois anos, é possível perceber que este padrão se mantém na cobertura sobre as fortes chuvas que vitimam e vulnerabilizam cerca de 700 mil pessoas no sul da Bahia ao longo deste mês de dezembro.

Quando o acontecimento irrompe, os esforços de cobertura são direcionados para captar o drama humano. A contextualização da tragédia a partir dos locais mais afetados envolve o telespectador: nas edições dos dias 28 e 29 de dezembro, a situação na Bahia ganhou destaque na programação, com mais de sete minutos em tela. A abordagem de JN chamou à reflexão ao destacar que Jair Bolsonaro decidiu não interromper suas férias no litoral de Santa Catarina para se envolver nas ações do governo federal a fim de amparar da população afetada. Também chamou o público à ação quando coloca em pauta as redes de solidariedade que se formam em todo o Brasil para auxílio no resgate e na sobrevivência daqueles impactados durante o dezembro mais chuvoso dos últimos 32 anos na região.

Porém, uma cobertura realizada a partir de olhar complexo, de acordo com os pressupostos do jornalismo ambiental, deve se debruçar igualmente sobre as causas dessas tragédias, ainda que as consequências sejam visualmente mais impactantes e, portanto, tenham maior valor-notícia. Embora no discurso das fontes oficiais a expressão “desastre natural” seja recorrente, o jornalismo precisa incorporar a contextualização sobre o aumento dos eventos extremos como consequência das mudanças climáticas.

Este entendimento existe, mas ainda é periférico na mídia brasileira. Ao longo da semana, portais de notícias replicaram reportagens com explicações científicas que conectam as enchentes na Bahia à emergência climática, produzidas por veículos de abrangência internacional como RFI e BBC News Brasil. Em 28 de dezembro, Jornal Nacional chegou a exibir reportagem aprofundada sobre o agravamento dos desastres causados pelas chuvas diante da falta de planejamento das cidades brasileiras.

Trata-se de uma conexão necessária para que o público consiga compreender a relação de causa e consequência que envolve tais fenômenos; porém, poderia ser ainda mais detalhada com a incorporação da crise climática como plano de fundo, já que reconhecer sua inevitabilidade e a frequência cada vez maior dos eventos extremos implica em envolver a opinião pública nos debates sobre medidas de enfrentamento às mudanças do clima. De quebra, também fortalece o debate sobre a responsabilidade dos governantes que permanecem inertes diante do caos.

Referências
GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas. Ampliação e transversalização da pauta ambiental no Jornal Nacional. Comunicación y cambio climático: contribuciones actuales. Sevilha: Ediciones Egregius, 2020. p. 15-33. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Eloisa-Beling-Loose/publication/348815171_AMPLIACAO_E_TRANSVERSALIZACAO_DA_PAUTA_AMBIENTAL_NO_JORNAL_NACIONAL/links/601196e8a6fdcc071b9936a1/AMPLIACAO-E-TRANSVERSALIZACAO-DA-PAUTA-AMBIENTAL-NO-JORNAL-NACIONAL.pdf.

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; STEIGLEDER, Débora Gallas; LOOSE, Eloisa Beling. Novos rumos da cobertura ambiental brasileira: um estudo a partir do Jornal Nacional. TraHs: Revista Trayectorias Humanas Trascontinentales, Limoges, n.7, p. 47-62, 2019. Disponível em: https://www.unilim.fr/trahs/2054#tocto1n3.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação. Integrante do GPJA.

Defronte mitos e farsas do negacionismo climático, o jornalismo

Imagem: Captura de tela de notícia da BBC Brasil.

Por Mathias Lengert*

Apesar do aquecimento global ser um consenso científico, campanhas de desinformação disseminam desconfiança e conteúdos imprecisos com êxito. É o que aponta uma sondagem realizada durante a COP26 pelo Institute for Strategic Dialogue (ISD). O monitoramento do think thank britânico verificou que páginas negacionistas do clima no Facebook obtiveram engajamento 12 vezes superior ao de fontes especializadas, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Além disso, perfis negacionistas foram significativamente mais atuantes na rede social durante o evento. Anteriormente, este observatório já discutiu a responsabilidade editorial de veículos de comunicação ao acolherem, sem constrangimento, colunistas que minimizavam as conclusões do relatório do IPCC. Agora, nos questionamos como o jornalismo pode lidar com episódios de desinformação climática.

Trata-se de um fenômeno mobilizado por diversos atores sociais que operam ativamente, entre outras formas, em duas frentes: nas mídias sociais digitais, realizando disparos de notícias falsas, e a partir do lobby de instituições, financiadoras de um número ínfimo de pesquisadores que defendem a hipótese que nega o impacto antrópico no clima.

A checagem de fatos, em contrapartida à primeira frente, é um procedimento que ratifica a veracidade das informações e adverte suas eventuais inconsistências. Na ocasião da conferência do clima, o Estadão alertou para postagens em redes sociais que disseminavam dúvidas sobre a intervenção humana no aquecimento do planeta e ataques à ativistas ambientais. Ainda que seja uma prática imprescindível, a checagem de fatos é uma medida pontual que deve ser correlata a uma cobertura jornalística contínua e engajada, capaz de promover conexões entre o aquecimento global e o contexto local do público.

Em paralelo às notícias falsas, o lobby de determinados segmentos da sociedade busca descredibilizar as evidências científicas sobre o fenômeno. É o caso de alguns setores do agronegócio e da ala militar reacionária. Esse é um dos destaques da investigação jornalística da BBC Brasil, que noticiou que esses grupos financiaram palestras de dois conhecidos pesquisadores negacionistas, Ricardo Felício e Luiz Carlos Molion, que afirmam, entre outras frases sem embasamento científico, que “o aquecimento global é uma farsa, é um mito” e que a redução de emissões é “inútil”. Esses mesmos adjetivos, coincidentemente, foram amplamente usados por perfis negacionistas do Facebook para descredibilizar a COP26, conforme a sondagem do ISD. O movimento, portanto, repete tais chavões como estratégia de minar os esforços de combate ao aquecimento global e semear dúvidas na sociedade.

O jornalismo, como bem exemplifica a reportagem da BBC, deve desvelar o negacionismo, apurar as fontes de custeio e estimular um debate amplo e crítico quanto aos interesses econômicos destes segmentos ao minimizarem ações de enfrentamento ao fenômeno. Embora a desinformação climática exija uma responsabilidade que excede o jornalismo, cabe registrar que este tema perpassa um esforço cotidiano dos profissionais do campo. Aprimorar o caráter educativo jornalismo, em especial, é fundamental para qualificar a pauta e conscientizar o público contra o negacionismo climático.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O desmatamento em números, sem causas e consequências

Imagem: Captura de tela de notícia do dia 18.11.21 publicada na Folha de S. Paulo

Por Patrícia Kolling*

Na última semana a pauta foi, novamente, o aumento da taxa de desmatamento na Amazônia, que cresceu 22% em um ano, com a devastação de 13.235 km2 entre agosto de 2020 e julho de 2021. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e mostram o maior desmatamento dos últimos 15 anos. O novo levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) confirmou o aumento no desmatamento, com dados de janeiro a outubro de 2021, chegando a uma área de 9.742 km2, o equivalente a mais de 6 vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

Sobre o tema, repercutiram na imprensa também as declarações de autoridades brasileiras contradizendo ou justificando os dados divulgados. O presidente Jair Bolsonaro afirmou na segunda-feira, dia 15, durante evento com investidores em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, que “os ataques que o Brasil sofre em relação à Amazônia não são justos”, que a floresta “tem mais de 90% de área preservada” e que está “exatamente igual a como era em 1500”. Na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), o presidente havia ressaltado que tem protegido a Amazônia e o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, anunciou que o Brasil deverá zerar o desmatamento ilegal em 2028.


O ministro do Meio Ambiente também sustentou na semana passada que os números do INPE “não refletem a ação do Governo nos últimos meses” com o destacamento dos integrantes da Guarda Nacional. Para completar o vice-presidente, Hamilton Mourão, disse que o crescimento do desmatamento na Amazônia está associado ao avanço da população na região.


Ainda ganhou destaque na imprensa o fato de que o documento do INPE com os dados oficiais ter a data de 27 de outubro, mas ser divulgado apenas em 18 de novembro, depois de ser encerrada a COP 26, em Glasgow.

Números, declarações oficiais, questões políticas vieram à tona com o relatório do INPE. Mas, e o desmatamento: quais as causas, quem são os responsáveis, quais os prejuízos sociais, ambientais e econômicos, qual a importância da floresta em pé para a manutenção do clima brasileiro e mundial, quais as relações do desmatamento com a agropecuária, quais os riscos que o Brasil corre ao desmatar a Amazônia? Infelizmente, nenhuma das matérias jornalísticas, acessadas, respondiam essas questões.

A causa ambiental é urgente, e independente da política editorial de cada veículo e da busca pela imparcialidade, já não é mais possível deparar-se com textos que trazem números e declarações contraditórias e, muitas vezes, falsas, como já abordadas neste observatório, e que confundem o leitor que busca informação. Já que a imprensa brasileira se alimenta do factual, precisa aproveitar esses momentos, no caso, a divulgação dos dados do INPE, para tratar em profundidade e com informações contextualizadas as questões ambientais. A informação é a chave para a educação e as ações na preservação do meio ambiente e a imprensa um dos principais canais de difusão.


Deveria estar no manual de redação de todas as organizações jornalísticas, a obrigatoriedade de que todas as notícias ambientais, que são factuais e sintéticas, viessem acompanhadas por reportagens que tratassem a temática em profundidade, abordando causas e consequências.

*Patrícia Kolling é jornalista, professora da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Universitário do Araguaia e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

COP26: resultados insuficientes e “journalismwhashing”

Imagem: Captura de tela. Eric Terena diz que jornalismo precisa de outras referências e fontes

Por Cláudia Herte de Moraes e Eliege Fante*

As COPs costumam ser frustrantes, pelo menos em termos de efetividade em relação aos compromissos assumidos como soluções pelos acordos entre governos e corporações. Entre 31 de outubro e 12 de novembro, estivemos atentas a Glasgow (Escócia), acompanhando as notícias sobre a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26). Vários analistas indicam que as negociações globais em torno do clima estão entregando resultados pífios, não obstante venham sendo construídos ao longo de décadas. Especialmente levando em conta a urgência para implantar as ações que nos desviem do caos climático que se avizinha, devido à ultrapassagem da marca de aumento da temperatura global em 1,5oC. Do contrário, não teríamos o alerta definitivo quanto à necessidade de conter o aquecimento global, por parte do VI Relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU), divulgado em agosto de 2021, às vésperas desta conferência. O órgão traz a análise de cientistas do mundo todo e informa sobre o caos que já se instalou em todos os sistemas que sustentam a vida na Terra.

A hora é de agir, segundo cientistas que dizem já terem feito o seu trabalho, e agora cabe à comunicação fazer o seu. Enquanto os jovens vão às ruas pelo clima e pelo próprio futuro, os governos continuam negociando metas com os mercados como uma razão meramente contábil – através da precificação da natureza, como se fosse possível trazer de volta o equilíbrio vital desperdiçado dos ecossistemas com simples trocas financeiras. Nessa teia complexa, olhamos para o jornalismo e pensamos em como qualificar o debate público sobre estes temas. 

O Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) faz análises amplas, sistemáticas, específicas ou focadas em temas sobre a cobertura de meio ambiente por diferentes veículos de comunicação. Na pauta climática, publicações recentes no Observatório de Jornalismo Ambiental apontam a necessidade de que o debate seja mais constante e aprofundado que apenas pontual, principalmente quando temos as conferências do clima.

Quando houve a divulgação do relatório do IPCC em agosto de 2021, observamos que “neste tema específico […] a chamada imprensa tradicional tem um maior espaço e ganha maior projeção. Os sites mais alternativos não retornaram como os primeiros em relevância”. No entanto, poucos deram enfoque ao tema da justiça climática, que emerge como fundamental para a definição nítida de acordos entre governos e grandes empresas para um caminho de real transformação social.

A crítica se dá também ao conteúdo da cobertura que, mesmo usando a COP26 como mote, em geral, carece de “[…] abordagens sobre os problemas e soluções estruturais diante da emergência climática”. Por outro lado, “algumas lacunas são supridas através da comunicação produzida pelos próprios grupos vítimas da injustiça climática, através das redes sociais.”

A equipe produz debates e conhecimentos disponíveis em artigos científicos, teses, dissertações e e-books, considerando maneiras em que o jornalismo possa ser um aliado à transição justa em nossa sociedade. Vale consultar a bibliografia no site do grupo, com destaque à publicação recente do “Minimanual para a cobertura jornalística das mudanças climáticas”.

Na observação mais detida da cobertura jornalística, de forma geral, podemos tecer três críticas quanto à forma e conteúdo. Em primeiro lugar, é preciso pensar que o Jornalismo, ao privilegiar apenas a temporalidade presente (e não futura, impedindo se pensar em futuros coletivamente), associando-se à repercussão de fatos, pouco se atém a problemáticas de continuidade, o que certamente é o caso da superexploração dos bens naturais – e da emergência climática como um todo.

Em segundo, na escolha das fontes, quando predominam as oficiais e, entre elas, os cargos do topo, e somente dos grupos sociais político, econômico e científico. No caso dos governos, isso é significativamente preocupante, porque com frequência os cargos técnicos que detém maior constância no setor público, possuem informações mais verdadeiras. Por exemplo, o pré-candidato à presidência, Eduardo Leite (PSDB), teve o seu discurso para a COP26 festejado pela imprensa em geral e, somente um blog divulgou o desmentido graças aos servidores do estado do Rio Grande do Sul, desmascarando a conversa fiada do governador gaúcho.

Em terceiro, a angulação das reportagens que se propõem a trazer os questionamentos desde outros saberes, o faz de forma minorizada e parcial. Justamente o oposto do discurso da imparcialidade, como apontou o jornalista Eric Terena em live recente: “Não se fala sobre população indígena, sobre os problemas, sobre o cotidiano, na imprensa tradicional, só lembram da cultura, do comportamento. Vejo que a imprensa quer ser imparcial sendo parcial. Tenho que falar hoje sobre as leis que afetam diretamente os nossos territórios e quem vai falar é quem assume a pauta e o compromisso, ou seja, são os povos indígenas, são os povos quilombolas.”

Finalmente, não é que a imprensa em geral não se dê conta, como José Henrique Mariante mostrou a opção da Folha de São Paulo, ao privilegiar um espaço cinco vezes maior à ESG do que à cobertura da COP26. E, em resposta à pergunta título do colunista, “Se a ameaça ao planeta é real, por que os jornais não compram a briga?”, parodiamos a definição dele quanto à maquiagem verde sobre os anúncios do governo brasileiro, porque entendemos que jornais da imprensa corporativa fazem um “journalismwhashing”, tipo uma maquiagem de jornalismo. Enquanto exercem a sua parcialidade em favor das corporações e grandes empresas alinhadas aos setores que mais emitem gases de efeito estufa, como o agronegócio associado ao desmatamento, apresentam-se como jornalismo, porém sem praticar uma escuta ativa, aberta à pluralidade de fontes outras. Neste sentido, trazem apenas uma falsa aparência de jornalismo porque não contemplam os interesses de todos os povos, especialmente quanto à emergência climática.

*Integrantes do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental – UFRGS/CNPq.

Cobertura da COP26 revela novas pautas e vozes

Imagem: Captura de tela de publicação da Deutsche Welle.

Por Ângela Camana*            

O encerramento oficial da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26), adiada pela crise sanitária em 2020, foi na última sexta-feira, dia 12 de novembro. Realizada em Glasgow, na Escócia, as expectativas globais eram altas: a COP26 prometia delimitar como poderão ser cumpridas as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris. Quanto aos pactos estabelecidos, ainda é cedo para afirmar se poderão exceder o “blá-blá-blá” das principais lideranças mundiais, como provocou a ativista sueca Greta Thumberg. Encerrada a quinzena do evento, ainda que o texto final do evento não tenha sido – até o momento da redação deste comentário – publicado, já é possível ponderar sobre o tom adotado na cobertura da imprensa sobre a conferência e sobre as mudanças climáticas.           

Lembro que entre 2009 e 2012 este grupo de pesquisa desenvolveu uma ampla pesquisa sobre a cobertura das COP15 e16, avaliando publicações na imprensa de referência brasileira e portuguesa. Naquela ocasião, identificamos que o jornalismo não era capaz de exceder o discurso ecotecnocrático, privilegiando fontes oriundas dos campos políticos e econômico. Conclusões semelhantes foram delimitadas por pesquisas de mestrado e doutorado defendidas por membros de nossa equipe. Nossas investigações avaliam que as coberturas das cúpulas sobre mudanças climáticas sempre foram marcadas por um otimismo tecnológico, com reportagens que exaltam iniciativas da indústria e do mercado – como os créditos de carbono, por exemplo – como soluções para as transformações globais. Nesse sentido, esta pauta amplamente financeirizada ocupava-se de escutar chefes de Estado, grandes empresários e, quando muito, cientistas.

Passados dez anos, uma análise preliminar indica que ainda prevalecem abordagens da ordem da política institucional, mas é inegável que outros tópicos e outras fontes vêm transformando a pauta neste período. Vozes dissonantes, como as de ativistas climáticas e de povos originários, não são mais restritas a curtas notas (em muito exotizantes), mas ocupam capas de grandes portais. “Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar nos centros das decisões que acontecem aqui”, disse Txai Suruí, brasileira que discursou na abertura oficial da COP26. A imprensa nacional não apenas repercutiu a fala, mas utilizou o gancho para abordar temas como justiça climática e racismo ambiental.

Imagem: Captura de tela do podcast da Folha de S. Paulo.

Há uma década, este tipo de debate só seria acessado por meio de canais alternativos e de comunicadores independentes – que, aliás, seguem fazendo um trabalho de qualidade, como é o caso de Sabrina Fernandes e da Mídia Ninja. A cobertura da imprensa de referência sobre a COP6 parece estar experimentando um momento de virada: o tom predominante já não é de fascínio tecnológico, nem guiado unicamente por soluções financeiras. Do contrário: esta é justamente acrítica que fez o podcast Café da Manhã, produzido pela Folha de S. Paulo, no dia 12 de novembro, fez às discussões travadas na cúpula. O título do episódio é sugestivo: “COP26: a força da grana nas questões do clima”. Isto me parecia impossível há uma década.  Talvez eu esteja sendo demasiada otimista, é verdade. Mas quero acreditar que a inclusão de novas pautas, fontes e temáticas não são apenas reflexo de mudanças editoriais pontuais, mas um sinal de que jornalistas e veículos, alertas à urgência climática, estão assumindo seu papel diante do interesse público. Convido os leitores e as leitoras a fazerem o mesmo. 

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Vidas indígenas importam na imprensa e para o mundo

Imagem: Reprodução da edição de 3 de novembro de 2021 da CNN Brasil.

Por Carine Massierer*

A importância do ser humano e da espécie humana em seu habitat nunca esteve tão em xeque. Na semana passada, o artista indígena Jaider Esbell foi encontrado morto em seu apartamento, em São Paulo, e a notícia foi repercutida em publicações impressas, em rádios, nas emissoras televisivas e na internet. A causa da morte segue desconhecida. O artista plástico, que pertencia à etnia makuxi, assentada na reserva indígena Raposa Serra do Sol, também se destacava como escritor, ativista e educador.

Natural de Roraima, Esbell foi reconhecido lá fora, no exterior, a ponto de o Centre Pompidou adquirir duas obras suas recentemente, como contou sua marchande Socorro de Andrade Lima, da galeria Millan, que representava o artista, ao Correio Braziliense.

Até final de outubro, sua instalação “Entidades” (que apresentava duas cobras infláveis gigantes) esteve no Parque Redenção, integrando a programação do 28° Porto Alegre em Cena. Suas obras também estão na mostra coletiva “Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), durante a 34ª Bienal de São Paulo que vai até final de novembro.

A matéria da CNN sobre tal acontecimento nos traz uma reflexão. Assim como outras publicações, essa também apresentou apenas o fato, a notícia do falecimento de um indígena que ganhou expressividade e reconhecimento público. E, independentemente da causa, trata-se da morte de mais um indígena e do enfraquecimento das lideranças e dos representantes sociais dos povos tradicionais. A imprensa tem feito seu papel noticiando, mas é preciso ir além, como fez a Agência Pública, em final de outubro, ao publicar uma entrevista da antropóloga Lúcia Helena Rangel, que coordenou o relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

Imagem: Reprodução da publicação de 28 de outubro de 2021 da Agência Pública.

Com base no acompanhamento contínuo feito por missionários espalhados em todo o Brasil e em uma série de dados oficiais, o CIMI detectou que, desde 2015, não havia tantos registros de violência contra indivíduos e territórios indígenas. Em 2020 foram pelo menos 182 vítimas conhecidas, número recorde em 25 anos. Ao todo, os homicídios de indígenas tiveram um aumento de mais de 60% na comparação com o ano anterior, 2019.

Com este levantamento é possível perceber que as vidas indígenas importam e que os povos tradicionais estão desprotegidos. O jornalismo, enquanto parte de um sistema de informação pública, deveria, ao menos, dar mais expressão à cultura indígena e seus representantes não só em momentos onde o factual impera, como no caso da morte de Esbell, mas ampliar e diversificar a cobertura para que a população entenda que eles estão sendo historicamente dizimados.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Da COP26 às matérias cotidianas: agendas complementares para comunicar a emergência climática

Imagens: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

O assunto não poderia ser outro: teve início, neste domingo (31), a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26), adiada por conta da pandemia, e que visa atualizar as metas de redução de emissão de CO2, tornando-as mais ambiciosas para conter a emergência climática em curso. O objetivo final, como firmado desde o Acordo de Paris em 2015, é limitar o aumento de temperatura do planeta para no máximo 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais — esta marca, já considerada inviável por muitos, poderia ser flexibilizada para 2 ºC num cenário ainda otimista para o atual estágio de emissões, embora incerto em suas consequências. Nas palavras de Patrícia Espinosa, chefe da Convenção do Clima, “é muito mais do que meio ambiente, trata-se de paz”, noticiou o jornal O Globo.

Os resultados da conferência serão avaliados nos próximos dias, bem como a cobertura da imprensa. Já nos preparativos para o encontro, destacamos a atuação d’O Globo, que promoveu um “Especial COP-26”. Foi também o único jornal que destacou a conferência na capa da versão impressa de domingo, e ratificada no editorial — Folha de SP e Estadão, embora tenham publicado matérias nos últimos dias, foram mais tímidos no destaque. A matéria de capa introduz os desafios e especificidades da COP26 (por exemplo, a primeira revisão das Contribuições Nacionalmente Determinadas, NDCs), com foco na situação de EUA e China, os dois principais poluentes. Acompanha, na mesma edição, esta reportagem que apresenta, em gráficos, o histórico de emissões, de aumento na temperatura etc., evidenciando a necessidade de maior ambição — e ação efetiva, por óbvio — dos países.

Um dia antes do início da conferência, o jornal havia publicado uma matéria visando elucidar, para o público, as expressões e jargões utilizadas no debate ambiental.  A iniciativa de apresentação dos termos é importante por si só, mas também parece sintoma de um problema maior: o “descolamento” do público com o debate climático de uma maneira geral, permeado de “juridiquês” e “numerês” ambiental, que cumpre apenas parcialmente a função informativa do jornalismo diante do maior desafio do século. Aliado a estes problemas, há o infeliz diagnóstico de que o gancho das conferências da ONU permanece em boa medida sendo condição necessária para o destaque, em primeira página, do jornalismo ambiental.

Não se trata de criticar as boas matérias que elucidam, cientificamente e politicamente, as preocupações e o cenário envolto às grandes conferências. O ponto é requisitar, de forma complementar, que outras reportagens no dia a dia tragam o tema à tona, e numa perspectiva mais próxima ao cidadão. Segue o exemplo desta matéria, também d’O Globo, abordando a ameaça que paira sobre o litoral brasileiro por conta das mudanças climáticas e da histórica ocupação urbana.  O gancho é o aumento de obras em orlas de cidades como Balneário Camboriú e Fortaleza, como o alargamento da faixa de areia, e alguns dos impactos imprevistos das intervenções; a matéria ainda aborda a publicação do MapBiomas, semana passada, que o país perdeu 15% de sua área costeira desde 1985. Se o “numerês” e o “juridiquês” da grande pauta climática é importante, a pauta localizada — desde que atenta às mudanças climáticas —, passa a ser o seu complemento imprescindível para comunicar a emergência climática em curso. 

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.