Observatório de Jornalismo Ambiental

Meio ambiente e o interesse do eleitor

Imagem: o candidato Lula em campanha com indígenas em Belém (PA) – Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

Por Sérgio Pereira*

É impossível determinar o quanto o tema “meio ambiente” influenciou na escolha por Luiz Inácio Lula da Silva, presidente eleito por mais de 60 milhões de brasileiros. Afinal, o voto é secreto. Há algumas elementos, no entanto, que podem ajudar a mensurar quais foram os principais interesses do eleitor neste pleito de 2022.

Uma dessas ferramentas é uma pesquisa divulgada pelo Datafolha no início de setembro sobre as questões mais importantes para o eleitorado na hora de se definir entre os postulantes à Presidência. O formulário do levantamento, no entanto, relaciona apenas seis assuntos e não questiona os entrevistados sobre meio ambiente, conforme dados disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral.

Aqui, permita-me um parêntese: o instituto de pesquisa poderia ter definido apenas temas genéricos no questionário aplicado, como educação, saúde, transporte, segurança ou meio ambiente. Ao contrário, colocou no levantamento três pautas gerais e outras três que faziam parte da campanha do candidato da extrema direita: defesa dos valores da família; combate à corrupção; e combate à violência. Já plataformas defendidas pelos candidatos da esquerda, como combate à fome, inclusão social ou defesa da Amazônia, por exemplo, foram ignoradas.

Nesta pesquisa, os entrevistados elencaram como suas principais preocupações eleitorais a saúde, com 34%; educação, com 24%; e emprego e renda, com 17%. O combate à corrupção aparece em quarto lugar, com apenas 10% de interesse; seguido da defesa dos valores da família, com 7%; e combate à violência, com 6%.

Outra pesquisa foi elaborada no início de setembro, quando o PoderData entrevistou 3.000 pessoas sobre a importância da Amazônia para o desenvolvimento da economia brasileira, sendo que 74% responderam afirmativamente. O levantamento encomendado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), no entanto, fixou-se apenas no Bioma Amazônico, com um viés econômico e sem perguntar até que ponto esse item influenciaria na hora do voto, não sendo possível, portanto, utilizá-lo como indicador nesta breve pesquisa.

Um novo instrumento que nos auxilia a medir o interesse sobre determinados temas, mesmo que seja de uso restrito, é o Google Trends (GT). Para quem não se aventurou ainda a usar, o GT é “uma ferramenta de avaliação de dados que permite que os usuários personalizem as pesquisas por termos e frases relevantes e monitorem as tendências de SEO (Search Engine Optimization ou otimização de mecanismos de busca) em qualquer período definido”, conforme definição da própria plataforma.

Em outubro, o GT disponibilizou um levantamento sobre os principais assuntos pesquisados envolvendo os dois candidatos do segundo turno. Importante destacar que a aba ainda está ativa e continua sendo atualizada.

Os internautas, quando pesquisaram sobre Lula nos últimos 90 dias, procuraram respostas para questões como o boné usado pelo candidato em determinado dia da campanha com as letras “CPX” (que significam “complexo do Alemão”, mas que foi usado como fake News por parte do adversário como sendo de uma facção criminosa) ou sobre a participação do ex-presidente em entrevistas, como no Programa do Ratinho ou no podcast Flow.

Já sobre Jair Bolsonaro, no mesmo período, as 25 principais consultas envolveram pontos com “pintou um clima” ou “pedófilo” (sobre um comentário feito sobre um momento de campanha em que encontrou meninas venezuelanas entre 14 e 15 anos), “canibal” (outra declaração mais antiga sobre episódio em que se mostrou interessado em comer um indígena), além de participações suas em programas de entrevistas.

Nos dois casos, nada envolvendo assuntos da esfera ambiental, o que já é revelador sobre o desinteresse do eleitor pelo assunto.

Um dos objetivos da imprensa é despertar a sociedade sobre assuntos que são relevantes. Em rápida análise sobre o principal jornal do RS, é possível constatar que Zero Hora divulgou pelo menos sete matérias envolvendo “eleições e meio ambiente” em outubro, durante a campanha do segundo turno. Entre elas, um texto tratando do desmatamento na Amazônia no governo atual e em outra comparando propostas dos dois candidatos sobre diversos temas e entre eles foi incluído o meio ambiente. Ou seja, não houve omissão por parte de ZH, mas o jornal poderia ter explorado mais o assunto por sua importância não apenas para os brasileiros, mas para todo o mundo.

Pode-se afirmar que a vitória de Lula passa por uma série de fatores. Pautas como combate à fome, mais empregos e defesa da democracia foram fundamentais neste processo eleitoral. Mas a estratégia equivocada de Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19, sua total inabilidade para tratar os principais problemas nacionais e seu estilo insultuoso também pesaram na decisão do eleitor. Não há indícios, porém, para afirmar que os temas ambientais foram decisivos para a grande maioria do eleitorado brasileiro, infelizmente. Mesmo assim, os 60 milhões de brasileiros que miraram em outros interesses acabaram por dar um basta à política devastadora de Bolsonaro. Mais quatro anos poderiam ser irreversíveis e, por isso, o mundo agradece.

*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente

O Brasil no cenário mundial da crise climática: para onde iremos?

Barco navega em rio na Amazônia, que reflete céu azul e árvores
Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

A eleição de 2022, definidora do futuro da democracia brasileira, colocou em cena também, entre tantos outros temas, a pauta socioambiental e a beira de um possível abismo. Se o futuro brasileiro aos votos pertence e o novo governo tem as credenciais para o tema, um recorte temporal apenas sobre as matérias da última semana indica o presente devastador em que estamos inseridos.

Na quinta-feira, 27/10, foi publicado o relatório anual de lacunas de emissões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), e o diagnóstico é de um ínfimo avanço no sentido de redução das emissões até 2030, desde a COP26, de Glasgow em 2021. O relatório aponta que as novas metas climáticas submetidas pelos países permanecem insuficientes para preencher a lacuna de emissões, caso desejemos limitar o aquecimento do planeta aos 2ºC acordados em Paris, em 2015.

Se números, acordos e metas de emissão por vezes soam abstratos, as consequências são das mais concretas. Na quarta-feira, 26/10, um relatório da premiada revista The Lancet apontou um aumento de 68% na mortalidade relacionada ao calor, para pessoas acima de 65 anos. Além disso, o documento expõe o aumento de 29% em áreas do planeta afetadas por secas extremas, entre outras consequências da emergência climática que podem ser verificadas nesta matéria publicada pela Folha de São Paulo. Ainda sobre os efeitos do calor, no mesmo dia a UNICEF publicou o prognóstico de que, até 2050, todas as crianças devem estar expostas à alta frequência de ondas de calor. Outros detalhes sobre este relatório foram publicados também pela Folha, evidenciando um papel importante do jornal na informação da pauta climática.

O mundo assiste, preocupado, aos efeitos da crise climática e a inépcia de governantes, ao mesmo tempo em que observa, de longe e aflito, os desdobramentos das eleições brasileiras. A pauta do desmatamento é central, e ninguém menos que o New York Times publicou que a eleição brasileira irá determinar o futuro do planeta. Por fim, e fechando este sobrevoo pelas matérias da semana que passou, o STF formou maioria para determinar a reativação do Fundo Amazônia pelo governo federal em até 60 dias. A notícia é boa, mas mais importante são as escolhas que o governo eleito fará para gerir este e tantos outros recursos.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Planeta em Transe: Cristiane Fontes amplia enfoque da cobertura climática

Captura de tela – Vídeo do sexto episódio da série especial de entrevistas do projeto Planeta em Transe do jornal Folha de S. Paulo

Por Roberto Villar Belmonte*

Com duração de um ano, Planeta em Transe “é uma série de reportagens e entrevistas com novos atores e especialistas sobre mudanças climáticas no Brasil e no mundo”. Ainda segundo descrição publicada pelo jornal, este projeto de cobertura especial da Folha de S. Paulo acompanha também as respostas à crise do clima nas eleições de 2022 – com destaque para a região amazônica – e na COP27, a 27ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima que acontece no Egito entre 6 e 18 de novembro.

A jornalista ambiental Cristiane Fontes trabalha tecendo parcerias internacionais que ajudam a compreender e diversificar as vozes da luta ambiental. Logo após publicar, em meados de abril, as conclusões da pesquisa que coordenou intitulada “Narrativas Ancestrais – Presente do Futuro: Percepções sobre os Povos Indígenas no Brasil na última década (2011-2021)”, ela lançou no final de maio o projeto editorial Planeta em Transe em parceria com o jornal Folha de S. Paulo e apoio da Open Society Foundations.

A proposta anunciada é a realização de 24 entrevistas, publicadas quinzenalmente em texto e vídeo, com especialistas e ativistas que atuam no tema da crise climática, 12 brasileiros e 12 de fora do país. No entendimento do coordenador de justiça climática para a América Latina na Open Society Foundations, Iago Hairon, não é possível falar de direitos humanos sem falar da crise climática. Por isso, segundo ele, é preciso entender as narrativas das pessoas que estão na linha de frente.

Até o momento, apenas seis episódios foram produzidos em texto e vídeo, com três fontes brasileiras e três de fora do país: Uganda, Inglaterra e Estados Unidos. As entrevistas no formato pingue-pongue (pergunta e resposta) são realizadas pela própria Cristiane Fontes e pelo repórter e colunista Marcelo Leite, jornalista especializado em ciência e ambiente do Folha de S. Paulo. Os vídeos também são assinados pela editora de Ambiente do jornal, Giuliana de Toledo.  

Episódio 1

Vanessa Nakate, ativista climática de Uganda

Episódio 2

Eduardo Assad, pesquisador de mudança do clima na agricultura

Episódio 3

Joana Setzer, professora brasileira na London School of Economics

Episódio 4

Farhana Yamin, advogada e ativista britânica

Episódio 5

Ângela Mendes, ativista e filha de Chico Mendes

Episódio 6

Gillian Caldwell, diretora da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional

Esta parceria entre Cristiane Fontes e Marcelo Leite começou a ser alinhavada no ano passado. No início de dezembro de 2021, os dois já publicaram entrevista pingue-pongue – usando a cartola Mudança Climática – com a matemática e filósofa Tatiana Roque, autora do livro “O Dia em que Voltamos de Marte: Uma História da Ciência e do Poder com Pistas para um Novo Presente”, obra que detalha os avanços tecnológicos e disputas em torno dos paradigmas científicos nos últimos quatro séculos.

Mas foi somente no final de maio de 2022 que o jornal Folha de S. Paulo anunciou a estreia do novo projeto editorial. Desde então, além dos seis episódios já mencionados, notícias, reportagens e entrevistas com a cartola Planeta em Crise estão sendo publicadas sobre política e mudança do clima. Um exemplo foi a conversa da colunista Ana Carolina Amaral com Joenia Wapichana, única deputada indígena do Brasil na atual legislatura, que saiu na edição de 23 de julho.

Outro exemplo é a reportagem publicada por Giovana Girardi na edição de 17 de outubro sobre as emissões de metano do Brasil. Girardi, ex-repórter de ambiente do Estado de S. Paulo lançou em junho a série de podcast Tempo Quente, da Rádio Novelo, projeto já tratado neste Observatório.

Do ponto de vista dos estudos do jornalismo ambiental, duas questões chamam a atenção neste projeto editorial criado por Cristiane Fontes em parceria com Marcelo Leite. Primeiro a proposta de trazer para a agenda pública vozes de pessoas que atuam na linha de frente da crise climática, não apenas cientistas ou empresários, mas também ativistas. Espera-se que militantes da guerra ambiental apareçam com mais frequência nas páginas do jornal Folha de S. Paulo.

Outro ponto relevante é a participação de diversos repórteres do jornal na produção de notícias e reportagens sobre a crise climática no Brasil, o que mostra a relevância cada vez maior do jornalismo ambiental. Este, aliás, é o grande desafio dos cursos de jornalismo no país: formar profissionais capazes de tratar com proficiência as causas, as consequências e as política públicas necessárias para dar conta da crise climática. Com ou sem milicianos no poder.

Referências

27ª Conferência das Partes (COP 27) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima

https://unfccc.int/cop27

https://cop27.eg

Narrativas Ancestrais – Presente do Futuro: Percepções sobre os Povos Indígenas no Brasil na última década (2011-2021)

http://www.amoreira.info/narrativasancestrais/

*Roberto Villar Belmonte é professor de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

‘Nem um cm demarcado’: série da Folha escancara a rotina de violência diante das omissões do Governo Bolsonaro

Capa da Folha no dia 10 de outubro (reprodução)

Por Ângela Camana*

Tomado pelo clima eleitoral, o noticiário brasileiro tem se desdobrado para analisar as tendências para o próximo dia 30, desmentir informações falsas e repercutir as agendas dos candidatos. Diante de tarefas árduas e sem grandes propostas que a mencionem, a pauta ambiental parece perder fôlego no jornalismo nacional – uma exceção louvável é a série “Nem um cm demarcado”, cujas reportagens vêm sendo publicadas pela Folha de S. Paulo. Neste esforço de investigação, Vinicius Sassimi e o fotógrafo Lalo de Almeida percorreram 6.000 quilômetros pela Amazônia a fim de averiguar os efeitos da política de “demarcação zero” do Governo Bolsonaro.

O nome da série, aliás, é uma referência à fala de Jair Bolsonaro em 2018, quando o então candidato à presidência afirmou que, em sua gestão, não demarcaria “nem um centímetro sequer” de Terras Indígenas. A promessa não só foi cumprida como o desmonte da FUNAI e da política ambiental atuam para a intensificação da violência na região amazônica. Nos últimos anos, tornou-se notícia comum a invasão de territórios tradicionais por garimpeiros, madeireiros, piratas e outras práticas ilegais. As reportagens da série, como a que figurou na capa da Folha neste dia 10, indicam que a omissão do Estado modificou a forma como povos indígenas vivem e, em uma tentativa de defenderem as suas próprias vidas e a floresta, se organizam. Estratégias como a autodemarcação e criação de guardas florestais indígenas surgem no vácuo do Estado a fim de conter a escalada da violência, ainda que se mostrem insuficientes diante do cenário que se impõe.

Não parece, então, ser por acaso a coincidência entre o chamado arco do desmatamento e a prevalência de votos para Jair Bolsonaro no primeiro turno. As reportagens da série da Folha nos convidam a identificar os efeitos políticos de escolhas institucionais realizadas nos últimos quatro anos. É justamente por isto que preocupa a ausência da pauta ambiental no cenário eleitoral, seja nas agendas dos candidatos ou na cobertura cotidiana, que não os demanda suficientemente a se posicionarem. A despeito das dificuldades que o debate público tem enfrentado, talvez caiba ao jornalismo brasileiro, por meio de trabalhos de qualidade como os da série em questão, contribuir para sua qualificação.

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.


Depois das eleições, a COP-27

Imagem: Reprodução de notícia do Mongabay

Por Eloisa Beling Loose*

A principal pauta brasileira segue sendo a eleição presidencial, que será definida no segundo turno, no próximo dia 30. Contudo, a crise ambiental não dá trégua e em breve teremos mais uma oportunidade de avançar no enfrentamento climático: de 7 a 18 de novembro ocorre a 27ª Conferência das Partes (COP-27) em Sharm el-Sheikh, no Egito. A um mês do encontro, o País ainda apresenta incertezas sobre os rumos da política ambiental, que demonstra ter perspectivas opostas a depender do candidato que vencerá nas urnas.

A questão ambiental é um assunto que divide os candidatos: enquanto um entende que a destruição da natureza é um mal necessário para o progresso (algo que já foi comprovado por estudos que não corresponde à realidade: áreas desmatadas não significam melhora nos indicadores econômicos, como divulgou recentemente o Mongabay) o outro pretende restabelecer uma liderança no debate internacional e combater o desmatamento ilegal. Como assinala o Amazônia Real, a Amazônia é alvo de dois projetos de futuro bastante diferentes para o Brasil – o que afeta diretamente a maneira como lidaremos com a emergência climática em curso.

Enquanto a decisão não chega, o que vários analistas e jornalistas já destacaram é que o caminho será árduo de qualquer forma. Com a eleição de parlamentares mais conservadores e alinhados com o crescimento econômico de curto prazo (às custas de muita devastação e injustiças ambientais), pode-se esperar mais flexibilização da legislação ambiental e outros projetos antiambientais. A revista piauí trouxe uma reportagem sobre as possibilidades que se desenham com um novo perfil de Senado, afirmando que foi eleito “Um congresso mais hostil ao meio ambiente”.

Além do descaso com a proteção ambiental, verifica-se que não há gestão para minimizar riscos e danos, mesmo diante das evidências científicas que a intensificação das mudanças climáticas causará eventos extremos cada vez mais frequentes, na qual as populações mais vulnerabilizadas são as que mais sofrem. O Globo divulgou que 99% do orçamento destinado a prevenção de desastres foi cortado para 2023.

Os efeitos climáticos não aguardam enquanto decidimos quem vai governar nosso País. O secretário-geral da ONU, António Guterres, já declarou que a Guerra da Ucrânia impactou a discussão de ações mais ambiciosas, inclusive notando retrocessos no setor privado, porém a crise do clima não cessa. Alguém ainda duvida que o cenário é sério?

O jornalismo, em diferentes formatos e linhas editoriais, tem buscado evidenciar o desafio ambiental que se apresenta, baseado em dados e fatos, respaldados pela ciência. Esse é o grande assunto não apenas da COP-27, mas de todo nosso tempo. É a pauta que nos acompanhará por muitos e muitos anos. Cabe a todos nós colaborar para que seu enfoque deixe de ser catastrofista e passe a relatar a transição para uma humanidade mais consciente de suas decisões.

*Jornalista, professora e pesquisadora. Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento, e em Comunicação. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

As queimadas na agricultura familiar no estado do Amazonas

Imagem: Print de manchete do G1 em 25/09/2022.

Por Alberto Luiz Silva Ferreira*

A narrativa das queimadas na Amazônia brasileira por parte da mídia hegemônica tem despertado as atenções de uma forma quase sempre alarmista. Mesmo considerando apenas a área de território do estado do Amazonas, estamos falando de uma extensão de terras fabulosas, que até mesmo pela sua localização central no continente sul-americano torna difícil o acesso e a exploração dos recursos naturais existentes nas terras, águas e florestas.

A matéria de Matheus Castro trata sobre as queimadas acontecidas no estado do Amazonas em setembro de 2022 apresenta o fenômeno de forma alarmista, sem levar em consideração que a população local necessita preparar áreas para a agricultura visando a produção de alimentos. Segundo Matheus Castro, somente em quatro dias – de 21 a 24 de setembro – foram registrados 1.043 focos de queimadas, totalizando 7.286 focos de calor somente no mês de setembro. O consolidado para o ano de 2022 seria de 17.798 incêndios, o pior cenário desde 1998, quando o INPE começou a fazer o monitoramento das queimadas. Esse seria o pior mês de setembro desde 1998. Matheus Castro apenas cita que os focos de queimadas se concentram nos municípios periféricos do do Amazonas: Lábrea e Boca do Acre, ambos no sul do Estado do Amazonas.

Ainda que o autor da matéria cite como fonte o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a generalização das queimadas pelo estado do Amazonas oculta a finalidade do uso do fogo. Do total de 17.198 focos de incêndio, o autor não apresenta o total da área queimada, muito menos o porquê do uso do fogo.

Não estou aqui negando a destruição que se vem fazendo há décadas, principalmente no chamado círculo de fogo, no sul do estado do Pará, chegando já a atingir terras do sul do Amazonas. Contudo, a generalização, como consta ma matéria do G1/AM citada, é levar a opinião pública ao erro.

Caso o autor, Matheus Castro, consultasse dados existentes no site do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM), poderia concluir que praticamente toda a agricultura praticada no estado do Amazonas é desenvolvida por agricultores familiares, que para a limpeza do terreno e o preparo do solo para o plantio, necessariamente lançam mão do fogo como mecanismo de preparo da área tanto no ecossistema de terra firme quanto no de várzea.

Segundo o Instituto, nesse ano o total de hectares trabalhados com agricultura no estado do Amazonas foi de 38.571 hectares, cultivados com as culturas de milho, feijão, arroz, mandioca, malva, guaraná, banana, açaí, abacaxi, cupuaçu e laranja, distribuídos por 33.778 produtores. Na terra firme o porte das árvores e a dureza das madeiras dificultam a retirada das galhadas e o arranquio dos tocos de porte avantajado; já no ecossistema de várzea, mesmo sendo a vegetação de menor porte ou rasteira, quase sempre gramíneas, ainda assim faz-se necessário o uso do fogo.

Levando em consideração o tamanho das áreas cultivadas por cada família, geralmente variando de meio a dois hectares percebe-se logo que o impacto ambiental, levando-se em conta o tamanho da região amazônica, é possível de ser absorvido pela floresta. Normalmente na terra firme é cultivada a mandioca para a produção de farinha, uma das bases da alimentação das famílias que residem na zona rural, a proteína é obtida dos peixes e já bem pouco da carne de caça.

No ecossistema de várzea são cultivadas as culturas de ciclo curto, como melancia, milho, jerimum, feijão caupi, hortaliças de várias espécies – o agricultor aproveita a riqueza natural dos solos de várzea. Na área de influência da região metropolitana da cidade de Manaus já se pratica uma agricultura de porte comercial, com o plantio de fruteiras como a laranja, o abacaxi, coco e maracujá.

No estado do Amazonas mesmo a pecuária também é praticada em propriedades de pouca extensão territorial, diferentemente do Pará, que possui criatórios que ocupam milhares de hectares cultivados com capim. Conclui-se que a matéria foge dos princípios do jornalismo ambiental, já que este, segundo Wilson da Costa Bueno (2007), “deve ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios”.

Referências:

INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO E FLORESTAL SUSTENTÁVEL DO ESTADO DO AMAZONAS. Disponível em: http://www.idam.am.gov.br/ater/producao-vegetal/. Acesso em: 27/09/2022.

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, jornalismo e meio ambiente: teoria e pesquisa.São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

*Doutorando pelo PPGCOM, DINTER UFRGS/UFAM. E-mail: ferreiraalberto2009@gmail.com

Tudo precisa ir a algum lugar (ou: meu copinho vai para o oceano)

Por Reges Schwaab*

Toneladas de plástico. O Brasil é o maior poluidor plástico da América Latina, conta uma das reportagens sobre problemáticas socioambientais que merecem destaque nestas últimas semanas. Em texto para O Eco, a atenta Paulina Chamorro, realizadora do @vozesdoplaneta.podcast, costura dados estarrecedores sobre a poluição plástica e algumas considerações importantes que ela ouviu desde a mais recente Conferência dos Oceanos. Em seu perfil no Instagram, a jornalista compartilha uma frase marcante no evento realizado em Lisboa, em julho passado. A poluição plástica no mar é como um derramamento de óleo lento e constante. E muito intenso. Na reportagem, a participação exponencial e ativa do nosso país como um dos propulsores do problema é destaque.

Daqui, mandamos 325 mil toneladas de plástico direto para os mares todos os anos. Aquele nosso “inocente” copinho descartável de café deve estar lá, portanto. Ou um dos muitos garfinhos para os bolos de aniversário vida afora. Ou uma das tantas coisas de plástico que já tivemos em casa. Ou, pelo menos, os fragmentos do “inocente” copinho descartável de café, do garfinho, da sacolinha. Com certeza estão lá. Todos participamos disso. Nosso cotidiano descartável está impregnado de plástico de uso único. Não há política pública contundente que possa frear essa linha de frente da destruição do planeta.

Um modo acelerado de levar a vida está ramificado por todos os lados, mas desconectado de tudo. Se lembrássemos, conscientes, do percurso do copinho plástico, se fôssemos atentos às conexões, o descartável não teria tanto espaço. Ainda não é assim, no entanto. “Tudo se conecta com tudo o mais”, diz uma das quatro leis informais da ecologia de Commoner. Só que não prestamos atenção. Em casa, no trabalho, em nossa cidade, em nosso país, em Brasília.

A imensidão de plástico que embrulha nossa vida e a de outros seres (que não optaram pelo plástico) está, em geral, na trilha da fabricação de embalagens e outros itens descartáveis. A reportagem contabiliza 2,95 milhões de toneladas produzidas por ano. Exemplificando: é o equivalente à produção de 500 bilhões de unidades de itens de uso único no Brasil. Como o “copinho” e o “garfinho”. E “tudo precisa ir a algum lugar”, continua Commoner na segunda lei informal da ecologia.

A terceira lei é: “a natureza sempre tem razão”. Isso faz pensar em muita coisa, inclusive no fato de que uma fruta, que tem casca, não precisaria estar embalada em isopor e coberta de filme plástico, para ficar em um exemplo corriqueiro.  Commoner termina: “nada vem do nada”, a quarta lei informal da ecologia. É o que assinalamos antes, as coisas estão absolutamente interligadas. Não é um papo de jovem místico, é lógica e observação.

Nós já sabemos disso, em termos gerais. Esse conceito faz sentido para nós. Mas nossa compreensão é apenas intelectual, não é da ordem de uma ética internalizada, refletida. Já lemos que não existe nada isolado no nosso sistema terrestre. Mesmo assim, seguimos descartando a vida, permeando tudo que é possível com plástico, enviado rapidamente a cantos do planeta. Nosso plástico já forma continentes no mar, está depositado na Antártida. Depois volta até nós, pois ingerimos microplástico todos os dias.

Outro alerta muito pertinente da matéria é o de que “reciclável” não quer dizer que seja, efetivamente, reciclado. Na sociedade descartável e desatenta, o selo de reciclável serve muito bem à nossa tentativa de sermos “legais” e termos a consciência tranquila. De fato, todavia, fazemos pouco ou quase nada. Valorizamos mais as opções passíveis de foto nas redes sociais. Na sociedade de selos e símbolos pouco perenes, seguimos achando que o destino final do saco de recicláveis – lixo seco que separamos (ainda bem!) – é algum lugar perto da nossa casa, no máximo. Algo bacana parece que vai acontecer, porém não temos real dimensão ou a informação completa sobre todo processo com os resíduos que geramos.

Quando andamos pelas cidades antes da coleta de resíduos, o cenário é arrasador. Se pegarmos uma ponta disso, se puxarmos os fios, se multiplicarmos o que vemos em escala ampla, podemos ter alguma noção do tipo de realidade que nossa sociedade está construindo. E não é a realidade de um futuro distante. Por isso, trata-se de uma pauta que precisa estar sempre no horizonte de forma insistente. O jornalismo precisa ajudar a puxar cada um desses fios.

A reportagem de Paulina Chamorro é reflexo de uma apuração importante, capaz de fazer alguma ranhura na casca grossa dos nossos hábitos desatentos. Junto, levanta também o olhar sobre as questões macro, que dependeriam de ação política e governamental, tão distante quanto a possibilidade de uma sociedade sustentável (o que não nos impede de seguir construindo um caminho). A nossa vida está aqui, está na Amazônia, está no córrego que passa no fundo da nossa cidade, está no meio do oceano. Nossa vida está conectada a tudo, em toda parte. As conexões são incalculáveis. Em geral, é uma pena, permanecemos embalados pela incompreensão de qual é o nosso lugar nisso tudo.

Já abordamos a problemática em outros textos aqui no Observatório. Você pode vê-los aqui.

* Jornalista, doutor em Comunicação e Informação, professor na UFSM e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Sumaúma: um portal de jornalismo no centro da floresta

Imagem: Reprodução do portal Sumaúma

Por Patrícia Kolling*

Na última semana, o Brasil e o mundo ganharam um novo portal de jornalismo, o Sumaúma, intitulado “Jornalismo do Centro do Mundo”. O portal/newsletter pretende trazer notícias e grandes reportagens produzidas diretamente da Amazônia, a partir do olhar dos povos da floresta. O manifesto de lançamento do projeto destaca que este se “propõe a debater e jogar luz aos temas urgentes que colocam a Amazônia no epicentro da questão ambiental do planeta”. Os criadores do projeto acreditam que, em um mundo em colapso climático, os centros mais essenciais “não são Washington ou Pequim, não são os bunkers do sistema financeiro, mas os enclaves de vida do qual depende a nossa sobrevivência, como os oceanos, as florestas tropicais, os vários biomas”.

A jornalista e escritora Eliane Brum e o jornalista britânico Jonathan Watts, editor de meio ambiente do The Guardian, são os idealizadores do projeto, que conta com a participação das jornalistas Carla Jimenez, Verônica Goyzueta e Talita Bedinelli, e a parceria da rede de comunicadores indígenas Rede Wayuri. O projeto tem sede em Altamira, no Pará, e terá como base um conselho com pessoas representativas da floresta.

Sumaúma é uma das maiores árvores da Amazônia. Ela é majestosa e traz na memória dos povos indígenas e da floresta inúmeras histórias. Por isso, foi escolhida para dar nome ao portal, que segundo o manifesto quer contar histórias dos povos que vivem na Amazônia, a partir da sua perspectiva, e permitir que essas vozes se propaguem.

Sumaúma é um portal de notícias e um newsletter em português, inglês e espanhol, além da Rádio Sumaúma, que produzirá um podcast quinzenal contando os bastidores e análises das reportagens publicadas. O podcast é comandando por Elizângela Baré, mulher indígena de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Na sua primeira edição, o portal já mostrou a que se propõe, ouvindo as mulheres do povo Yanomami. Mulheres que não falam português e que vivem num território cada vez mais controlado pelo garimpo ilegal, sendo vítimas de violências que dificilmente são expostas. “Escolhemos escutar as mulheres Yanomami porque entendemos que Sumaúma nasce em um tempo de guerra, a guerra contra a natureza e seus povos que está levando o planeta à catástrofe climática e à sexta extinção em massa de espécies”. Nas guerras, são as mulheres, adultas e crianças, as mais silenciadas e as que mais sofrem, destaca Eliane Brum, no texto de abertura do portal.

Para garantir fidelidade à fala das indígenas, buscando “alcançar a palavra exata e a interpretação precisa”, a reportagem foi produzida com a ajuda de duas tradutoras, uma indígena Yanomami e uma antropóloga com 15 anos de experiência com povos originários. Ou seja, o portal pretende realmente trazer com profundidade as situações vivenciadas pelos povos da floresta, penetrando nas suas “entranhas”. Além da informação e da fala das fontes, os textos descrevem situações e locais vividos, o que permite ao leitor entrar no espaço da reportagem e, vivenciar os dramas vividos.

É um jornalismo que exige muita coragem, pois como diz a reportagem: “Sabíamos que seria muito difícil alcançar as regiões dominadas pelo garimpo, porque os criminosos controlam não só o chão, mas também o ar”. Para fazer a reportagem, com apoio de organizações parceiras, as mulheres foram retiradas dos seus territórios e levadas para lugares em que pudessem falar e se expressar em segurança. “Botamos em curso uma complexa operação de jornalismo em território de guerra, uma guerra cujas forças são tão desproporcionais que a palavra mais exata seria massacre.”

Segundo o que afirma em sua apresentação, o objetivo do portal é ser muita mais que uma plataforma de jornalismo ambiental ou de meio ambiente, embora sua proposta se encaixe perfeitamente nos pressupostos defendidos pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e na tentativa de ambientalizar o fazer jornalístico. Sinaliza-se aqui a necessidade de pontuar o que, de fato, é compreendido por esse jornalismo ambiental, que não representa a produção de Sumaúma. “Nossa compreensão dos mundos não é compartimentada: entendemos que a crise climática atravessa todos os temas e é assim que deve ser tratada pelo jornalismo.” Destaca o texto: “Só podemos cobrir a brutalidade de uma minoria humana capaz de provocar uma extinção em massa de espécies e colocar suas próprias crianças em risco de um futuro hostil se compreendermos que a guerra contra a natureza é configurada pelas relações de poder determinadas por raça, gênero, classe e também espécie”. Acreditamos, que se os povos indígenas fizerem efetivamente parte deste projeto, a complexidade da questão ambiental será expressada nos textos de forma natural.

Ao propor-se a atuar como laboratório para a formação de jornalistas que moram na Amazônia, o projeto pretende ser um espaço em que alma da floresta seja transmitida em texto e áudios, tornando-se um canal influente para trabalhar em benefício do futuro do planeta. Como destacam os fundadores, “por enquanto é um projeto semente”, e por ser um projeto de jornalismo independente, depende da colaboração dos leitores e ouvintes para sua sobrevivência financeira (para apoiar: https://apoia.se/sumaumajornalismo).

É na esperança de que a união de jornalistas renomados, experientes e influentes, juntamente com a sabedoria dos povos da floresta possa dar certo, que encerramos este texto. Acreditamos que esse tipo de prática, que conecta, que sente, que expressa, seja o futuro do jornalismo, com o potencial de provocar mudanças nas mentes e nos corações da sociedade. Desejamos coragem e determinação aos criadores, e que consigam colocar em prática tudo que vislumbram, desejando vida longa ao projeto e a este jornalismo de verdade.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da Universidade Federal do Mato Grosso – Campus Araguaia.

A falsa neutralidade na cobertura da questão ambiental nas eleições

Imagem: Reprodução de Rede Brasil Atual.

Por Matheus Cervo*

Com o início das campanhas eleitorais no Brasil  em 16 de agosto, o jornalismo começou a cobrir mais ativamente as mensagens que vêm sendo transmitidas pelas campanhas dos presidenciáveis. Não é inesperado que muitos veículos de comunicação se voltem para as possíveis propostas de governo direcionadas à questão ambiental, após quatro anos de notícias sobre os enormes impactos ambientais negativos devidos à atuação do atual governo federal. Como memória disso e de acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), lembramos que houve um aumento de 56,6% da média de desmatamento anual da Amazônia de 2019 à 2022 em comparação com o período anterior (2016 à 2018).

Contudo, mesmo com a realidade dos últimos quatro anos e com a quantidade enorme de dados científicos sobre a questão, a cobertura sobre as propostas dos presidenciáveis tem se dado através de um debate raso e meramente declaratório em muitos veículos. Como exemplo disso, podemos ver a matéria do Uol acerca da declaração de Bolsonaro sobre as áreas indígenas protegidas fazerem o mapa do Brasil parecer com um “corpo com catapora” – um país pintado com áreas protegidas que “afetariam o agronegócio e o homem do campo”. Essa matéria, publicada no dia 26 de agosto, não faz nada além de declarar o que foi dito pelo candidato à reeleição, apenas aumentando ainda mais o alcance da falácia sobre um assunto complexo, que poderia ter sido debatido com pesquisas sérias na área e importantes vozes que atualmente abordam esse tema. O mesmo é feito pelo Portal Terra que, apesar de fazer um compilado de falas dos principais quatro presidenciáveis sobre a questão do marco temporal às terras indígenas, não se posiciona sobre o tema com dados e pesquisas, tratando o debate como meras opiniões equivalentes a serem consideradas.

Essa falta de profundidade afeta várias questões ambientais dentro do jornalismo que pauta as eleições, como as matérias que cobrem as propostas em relação ao agronegócio e as possibilidade de reforma agrária no Brasil. O jornal Correio do Estado publicou uma matéria no dia nove de setembro sobre as declarações de Ciro Gomes, candidato do PDT, sobre a temática. O tom novamente foi meramente declaratório, expandindo as falas do presidenciável sobre a força do agronegócio como o setor econômico “que leva o Brasil nas costas”. Além disso, a matéria apenas reescreve as falas do candidato sobre o “problema econômico do agronegócio” relacionado com o consumo de fertilizantes externos da Rússia e da Ucrânia, o que o faz pensar em medidas para criar autonomia brasileira na produção de fertilizantes. Essa tonalidade neutra do Correio do Estado faz com que não haja nenhuma discussão real e científica sobre as propostas – como faz o projeto O Joio e O Trigo que mostra que a investigação sobre os impactos do uso de agrotóxicos ocasiona perseguições e mortes no nosso país.

Por isso, qual deve ser o papel da cobertura das propostas dos presidenciáveis ao meio ambiente dentro do jornalismo ambiental? Sem dúvida, não deve ser um jornalismo que se pretende neutro e, para isso, opera simplesmente através da declaração do que está sendo dito por diferentes candidatos. Ao contrário, deve tomar posição através da memória do que temos vivido nos últimos quatro anos e deve retomar a fala de inúmeros pesquisadores na área para que tenhamos um entendimento melhor de quais são as propostas mais adequadas que juntam pensamento político e pensamento acadêmico/científico.

* Cientista Social/Antropólogo. Mestre em Comunicação. Atual doutorando em Comunicação pelo PPGCOM/UFRGS.

Preocupação ambiental das populações: pesquisa compara países e temas

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

Como medir a preocupação da população com questões ambientais — mais especificamente, as mudanças climáticas? Não é uma questão trivial, mas uma pesquisa da Ipsos Global Advisor realizada em 27 países, em junho de 2022, buscou responder. São duas as informações principais e que mais chamam a atenção: o Brasil está em penúltimo lugar entre os países cuja população trata o tema como prioridade, apenas à frente da Argentina; por outro lado, 77% dos brasileiros externalizaram preocupação com os impactos da emergência climática no país.          

Num olhar raso, o resultado pareceria contraditório. Não é. Acontece que a pesquisa mede — e a matéria publicada n’O Globo corretamente contextualiza isto —, num primeiro momento, a proporção de pessoas que trata as mudanças climáticas como assunto prioritário. Não surpreendentemente, os países que figuram no ranking dos mais desenvolvidos do mundo ficaram nas primeiras posições, com exceção da Índia, variando entre 20% e 31% dos entrevistados; o Brasil soma 4%, enquanto a média global foi de 16%. Embora numa análise mais especulativa do que assertiva, o que podemos interpretar do outro questionamento da pesquisa (em que três quartos dos brasileiros estão preocupados) é que a liderança de países do Norte Global não se trata apenas de uma questão “educacional”. A prioridade de preocupação com as mudanças climáticas é, por certo, relacional: países devassados pela alta da inflação, fome, crise econômica, violência etc. colocam a crise climática num segundo escalão — o que não significa, necessariamente, que a desprezem.

De qualquer forma, ainda que a ampla maioria dos brasileiros pareça preocupada com o tema, é preciso cada vez mais apresentar para a população a relação intrínseca entre as questões ambientais e os outros fatores, sociais, urbanos e econômicos, que afligem a população. A atuação contra as mudanças climáticas é, necessariamente, socioeconômica, e com impactos proporcionalmente maiores para os países e populações mais pobres. É aí que entra o papel da imprensa, como reiteradamente pontuamos neste Observatório, de não estar limitado à exposição factual dos acontecimentos e desastres ambientais, ou das longínquas reuniões políticas sobre o clima: é necessário que a conexão entre meio ambiente e a vida real das pessoas perpasse, inexoravelmente, a produção do jornalismo ambiental.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.