Observatório de Jornalismo Ambiental

Misoginia, violência e morte: meio ambiente na Editoria de Polícia

Fonte: Captura de tela do site Sul 21

*Por Ursula Schilling

Um dos pontos centrais do jornalismo ambiental é a transversalidade da pauta “meio ambiente”. Não se trata de uma editoria sobre o assunto, mas de jornalistas e veículos abordarem o tema para além da superfície, entendendo e explorando sua complexidade e sua relação com tópicos que, aparentemente, não estão debaixo do guarda-chuva ambiental.

Um exemplo disso é a notícia sobre a morte, ainda sem causa e motivação definidas, de Daiane Girá Sales, menina Kaingang de 14 anos, encontrada em uma lavoura no Noroeste do RS na semana passada. A polícia trabalha com a hipótese de assassinato. Não cabe aqui explorar a cena cruel em si, narrada por diferentes veículos. A intenção é provocar uma reflexão sobre o foco na morte e nos detalhes que chamam para cliques e para leitura e sobre a quase ausência de questionamentos quanto às possíveis razões de tal barbárie acontecer.

Tratado como caso de polícia, e de fato é, o que chama a atenção e é o gancho para essa análise, é que a situação poderia e deveria ser vista sob o prisma ambiental. Desde muito tempo, no Brasil, há 521 anos especificamente, os povos indígenas estão sob constante ataque e vêm sendo massacrados. As políticas de desmonte do atual governo têm agravado a situação.

Fonte: Captura de tela do site Brasil de Fato

A questão indígena, especialmente quando se trata de disputas de terra, merece ser abordada aqui e em outros momentos. A raiz de perseguições e violências precisa ser debatida, esmiuçada. Falar de grilagem, mostrar os interesses e práticas do agronegócio e da mineração, por exemplo. E, além disso, os mecanismos que sustentam esses pilares da economia e colaboram para a manutenção de desigualdades sociais e ambientais, a saber, nossos hábitos de consumo.

De seis sites consultados, dois, Sul 21, Extra Classe – e não por coincidência alternativos – pincelam a questão das disputas de terras. Os outros quatro, sendo três de grandes veículos, G1, Isto É e GZH, se concentram na ocorrência policial, no feminicídio (por si só gravíssimo).

Quando ecojornalistas, pesquisadores e ativistas reclamam por mais espaço, especialmente na mídia hegemônica, não é sobre (só) volume, quantidade de aparições das pautas ambientais, mas sua profundidade. Um trabalho informativo/educativo, ao longo do tempo, através das editorias. Já passou da hora de o jornalismo construir suas pautas de forma a não só informar parcial e superficialmente o que ocorre, mas a descortinar facetas “esquecidas” ou silenciadas dos acontecimentos.

É preciso que cada um de nós perceba que nosso modo de vida, aquilo que fazemos e que consumimos, pode estar muito estreitamente relacionado com o dilaceramento da vida em suas diversas formas. Que se desfaça a ideia de “natureza X sujeito”, uma vez que o sujeito é parte da natureza. Não é somente a morte de fauna e flora, o desaparecimento da biodiversidade. É também o fim de vidas humanas, parte do ambiente, afinal.

*Jornalista e membro Núcleo de Ecojornalistas do RS e do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Jornalismo de neve: o mesmo de sempre? Nem sempre

Por Míriam Santini de Abreu*


A cobertura das ocorrências de neve já virou motivo de piada no meio jornalístico de Santa Catarina. A pauta é sempre a mesma: o deslumbre dos turistas (e repórteres), a abundância de roupas para enfrentar o frio, a campanha do agasalho, a lotação esgotada de hotéis e pousadas na Serra, a tentativa de confecção de bonecos de neve enlameados. Em caminho oposto, duas matérias se destacaram na edição de 30 de julho, uma no Portal ND+ e outra no DC (Portal NSCTotal). No primeiro, as dificuldades de famílias empobrecidas diante das baixas temperaturas; no segundo, a ligação entre o frio atípico da semana que passou e a crise climática.
Assinada pela jornalista Ângela Bastos, a notícia do DC aborda o quanto o frio afeta o cotidiano de famílias que moram no Maciço do Morro da Cruz, que se estende de Norte a Sul no Centro de Florianópolis. A repórter descreve o espaço geográfico, as moradias precárias e detalha as medidas desesperadas das famílias para tentar se aquecer, como tapar frestas das casas com papelão e folhas de jornal e se esquentar com o calor do corpo de outro membro da família, com pais e filhos dormindo juntos. A notícia sai do lugar comum da cobertura jornalística local, que costuma associar a pobreza à destruição da natureza.
Intitulada “Frio atípico em SC é sinal de alerta para impactos do aquecimento global”, a notícia do ND+, assinada por Lorenzo Dornelles, traz como fontes pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) e do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Mesmo sem aprofundar a explicação, a notícia busca estabelecer a relação entre os recordes de temperaturas mínimas no âmbito regional, com 0°C em Florianópolis e -8,6°C em Bom Jardim da Serra, por exemplo, e de máximas em outros países, como o Canadá e os Estados Unidos, onde houve temperaturas acima dos 50°C nas últimas semanas. Na mesma edição, outra notícia falava sobre um migrante do Pará socorrido com início de hipotermia após pernoitar em uma área de mata em Concórdia, no Oeste do Estado, sob temperatura de 0°C.
Ainda que pouco densas, matérias como essas abrem caminhos promissores para veículos e jornalistas de Santa Catarina em busca de abordagens mais totalizantes para a pauta sazonal da chegada do frio e da neve. Para enriquecer essa cobertura, é importante apostar na pluralidade de fontes e interpretações, ouvir as pessoas afetadas pelo frio fora do circuito do turismo deslumbrado e questionar o posicionamento do poder público sobre as medidas a serem tomadas para mitigar esses impactos. Além disso, cada vez mais é fundamental aprofundar as conexões entre a neve e outros fenômenos que também são decorrentes das mudanças climáticas.

  • Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo

Depois da boiada, o cardume: novos dados sobre contaminação por mercúrio decorrente do garimpo ilegal devem servir de alerta

Imagem: Captura de tela

Por Ângela Camana*

O Governo Bolsonaro, como as publicações deste Observatório indicam, tem sido de intenso ataque ao ambiente a aos direitos humanos no Brasil. Para além do desmatamento recorde e do desmonte de políticas públicas de conservação promovidos pela atual gestão, a imprensa também nos alerta para o recrudescimento dos conflitos ambientais envolvendo povos indígenas no país. O incentivo ao garimpo ilegal de ouro e os confrontos que dele decorrem não são novidade e já ganharam até linha do tempo em grandes portais. No entanto, nesta semana pudemos acompanhar um novo capítulo nesta escalada de violência e de descaso com a vida: os efeitos do garimpo ilegal já se fazem sentir na água, no solo, no ar e nos corpos da Amazônia.

Estudos estimam que o mercúrio utilizado no garimpo ilegal entre 2019 e 2020 excede as 100 toneladas: destas, 30% vai parar nos rios. Os peixes são a base da alimentação de grande parte dos povos indígenas amazônicos e pesquisas indicam que quatro a cada dez crianças menores de cinco anos nas regiões Yanomami estão contaminadas por altas concentrações do metal – entre os Munduruku, são seis em cada dez. Uma plataforma lançada no dia 20 de julho, o Observatório do Mercúrio, reúne diferentes pesquisas sobre a temática, além de dispor informações georrefenciadas que facilitam a identificação e correlação entre a atividade mineradora e os casos de contaminação humana e de peixes. Ainda que o assunto seja sério e exceda em muito as fronteiras amazônicas, a cobertura da imprensa em grande medida se restringiu à publicação do release produzido pela WWF, uma das instituições responsáveis pela plataforma.

Uma exceção é o bom trabalho publicado no El Pais, que situa o lançamento do Observatório do Mercúrio em uma rede de acontecimentos mais ampla, escutando pesquisadores responsáveis pelas investigações. O texto é competente ao articular o cenário de contaminação ao discurso permissivo do Governo Federal, e alerta para os riscos do PL 490, já aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, que – ao dificultar a demarcação de terras indígenas – abre margem para a ampliação do cenário de mineração. Na semana anterior, a Revista Piauí também já havia pautado a questão do mercúrio em um texto de título sagaz: Desensinando a Pescar. Bem, em um governo no qual um coordenador da FUNAI sugere “meter fogo” em indígenas isolados, recomendar a reeducação alimentar dessas populações já nem nos gera tanto espanto. Oxalá que o bom jornalismo siga se recusando a normalizar este e outros absurdos.

*Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Liana John: uma pioneira do jornalismo ambiental brasileiro

Crédito: Débora Gallas

Por Roberto Villar Belmonte*

A jornalista Liana John (1958-2021) publicou seu último texto neste sábado, 24 de julho de 2021, um dia depois de perder a luta contra um câncer no pâncreas. Como repórter que sempre foi, ela fez questão de escrever sua própria despedida. “Não queria ir embora sem agradecer a todos”, explicou-se em comovente mensagem.

Em sua homenagem, o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) reproduz aqui trechos da palestra que ministrou dia 28 de setembro de 2018 em Porto Alegre (RS) durante o IV Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental, realizado na Fabico/UFRGS.

Conheci Liana John nos encontros preparatórios para a cobertura da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92. Sempre foi uma referência profissional. Ela ajudou a consolidar o jornalismo ambiental brasileiro, como pode ser constatado em seu depoimento a seguir, registrado no evento de 2018.

Influências no início da carreira

Nessa lista, um dos meus heróis, as pessoas que eu olhava, no Estadão tinha o Rubens Rodrigues dos Santos, que depois fundou o Jornal Verde, e que era uma pessoa que falava de deslizamento, do problema que se tinha com poluição, começava a ter alguma coisa de Mata Atlântica, ainda não existia a SOS Mata Atlântica. Então o Rubens Rodrigues dos Santos era uma pessoa que no Estadão ele fazia umas matérias bem interessantes.

Tinha a Roseli Tardelli, da Rádio Eldorado, e depois ela parou de fazer jornalismo ambiental e começou a trabalhar com divulgação de AIDS, porque ela teve um irmão que morreu de AIDS, então nos anos 80 ela saiu dessa área.

Tinha a Eliana Lucena que trabalhou muito com a Funai com índios, que era uma pessoa que fazia um material muito interessante.

E eu lia bastante coisa de fora. Tinha algumas reportagens que eu gostava demais. Teve uma que era sobre as tempestades. O repórter tinha embarcado num avião, isso dos Estados Unidos, entrava na tempestade, media o tornado. Eu queria ser uma jornalista dessas. Tipo aquele que vai junto. Teve uma outra reportagem de uma revista especializada de natureza que era uma viagem pelos tepuis, entre o Brasil e a Venezuela você tem vários tepuis, no caso a reportagem era na Venezuela. Era um jornalista que acompanhava os cientistas e ia ver como é que o cara sabe que aquilo é potencialmente uma planta nova, que as pessoas não conhecem. Como é que o cara sabe. Por que o jornalista estava na expedição científica. Eu quero ser esse jornalista aí. O cara que vai lá junto. Que vai lá na Antártica. Minha mãe dizia que eu tinha nascido com rodinhas. Falou em viajar é comigo mesmo. Eu já tô arrumando a mala. A parte melhor é essa.

Meta: jornalismo ambiental

Então o meu ideal nesse início, eu estava lá na TV Tupi fazendo buraco de rua, era ser esse jornalista que vai junto com o cientista e vai descobrir junto. Vai tá lá junto no fim do mundo saber o que tá acontecendo. Eu comecei no jornalismo fazendo outras coisas. Trabalhei em uma revista de supermercados. Trabalhei nas primeiras edições do Meio e Mensagem, um jornal dirigido a publicitários. A minha meta era chegar no jornalismo ambiental.

Cheguei a escrever algumas matérias no jornal Movimento falando de índio de algumas coisas que o Movimento nem tratava. Era uma época em que a tônica econômica era o desenvolvimento. A gente teve um ministro que falou isso. Se for pra passar por cima do meio ambiente não tem importância. O que a gente quer é o desenvolvimento econômico. Estava na época do milagre econômico.

Ser do jornalismo ambiental era uma coisa que dentro das próprias redações era visto como esquisito. Era esse bando de poeta, sei lá, uma pessoa que não tinha crédito nenhum. Nos anos 1980 a gente começa a ter alguns sinais de que realmente esse desenvolvimento a qualquer preço não estava dando muito certo. Estava causando vários efeitos colaterais muito graves.

Em São Paulo, o Vale da Morte que era Cubatão, aquela concentração de indústrias poluindo uma área e tinha toda aquela população que morava ao lado das indústrias e começou a surgir casos de crianças que nasceram sem cérebro. Muito afetados pela poluição. Já não dava para esconder tão facilmente que aquele desenvolvimento a qualquer preço não estava tendo consequências.

Nesse tempo eu fui trabalhar cobrindo férias na IstoÉ, na editoria de Geral, já com o propósito de fazer meio ambiente. Em 1983. Então eu comecei a fazer isso. A primeira batalha era dentro da redação porque os editores achavam aquilo um jornalismo menor. Os jornalistas feras eram os que faziam ou política ou economia. Não era o pessoal de Geral.

Revista Veja (1984-1985)

De lá eu fui pra Veja contratada como jornalista de meio ambiente. Era complicadíssimo. […] A escola que eu tive de passar uma pauta de meio ambiente foi a reunião de pauta da Veja porque eu tinha que argumentar com o Elio Gaspari, com a Dorrit Harazim, pra provar que aquela pauta era pertinente e que deveria sair na revista semanal. Você passa a construir. Você não pode chegar assim eu acho que tem que fazer uma coisa sobre Cubatão. Eu tinha que convencer que eles tinham que me mandar pra Cubatão pra eu fazer as entrevistas, pra eu fazer uma apuração, gastar tempo pra ir lá e ver o que tá acontecendo. E era complicadíssimo porque era uma época em que as empresas não abriam dados de nada, os dados de empresa eram super fechados, os dados de governo pior ainda. Você tinha que arrancar as coisas meio de saca rolha. Eu fui várias vezes a Cubatão entrevistar pessoas da população, da área médica e tentar fazer essa conexão entre a poluição e o que a gente estava vendo de consequências, as doenças nas pessoas. Era uma coisa muito trabalhosa. Eu tenho que ter uma coisa com substância suficiente para que os editores lá concordem em publicar. Era realmente uma escola. Não posso argumentar “eu acho”. Eles tratavam como lixo. Por isso eu fui caminhando pra essa área da investigação.

[…]

Então realmente essa foi uma escola muito interessante, num ambiente interno da redação completamente avesso ao tema ambiental. Consegui emplacar algumas matérias. Trabalhei na Veja em 1984 e 1985. A minha última matéria na Veja foi sobre a primeira vez que a Nasa fez convênio com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais pra fazer um levantamento da atmosfera na Floresta Amazônica. Na época tinha muitas previsões… se a Amazônia fosse toda desmatada ia acontecer isso…. tinha muitas previsões de pessoas que nunca tinham pisado na Amazônia e só falavam abobrinha. Então a gente combinou de fazer uma matéria assim… nós não vamos falar nada sobre o que vai acontecer com a Amazônia se a floresta for desmatada. Vamos lá na Amazônia, fiquei lá 15 dias, e fiz uma série de reportagens pra saber o que já estava acontecendo nas áreas que já haviam sido desmatadas. Tinha o começo do projeto de fragmentos florestais do Thomas Lovejoy.

Eu fui entrevistá-los. Participei dos primeiros levantamentos de atmosfera baixa, abaixo de um quilômetro, na Floresta Amazônica, feitos pela Nasa com o pessoal do INPE. Entrevistei lá várias pessoas da Nasa. Foi muito interessante entrar no avião deles, saber como eles estavam fazendo todas aquelas medições. Fiz amigos, fontes que depois eu passei a entrevistar por telefone para saber que dados eles tinham tido das coletas de dados que tinham sido feitas ali.

Da Veja eu fui para o Guia Rural Abril, que estava sendo criado naquele momento, que era o Anuário. Era um editor fantástico todo voltado para a área do desenvolvimento sustentável, pra agricultura orgânica, então eu fui correr o Brasil nas Embrapas todas procurar as pesquisas que trabalhavam com uma agricultura conservacionista, uma agricultura que não fosse simplesmente botar tudo no chão. Então todo o trabalho de substituição do agrotóxico, como é que você melhora o solo, trabalhei vários anos ali, fizemos muitas coisas interessantes. E de lá eu fui pra Agência Estado. Final dos anos 1980.

Crédito: Eloisa Loose

Jornalismo ambiental científico

Esse trabalho no Guia Rural e na Veja também acho que aproximou. Não era só eu, tinha outros jornalistas que começaram a trabalhar nessa área, a tentativa de aproximar o jornalismo ambiental do científico. Como é que você vai falar que tal poluente causa o nascimento de crianças com anencefalia. Você tem que se basear em levantamentos e estudos. A gente não tinha internet na época. O fato de falar inglês, por exemplo, me facilitou muito porque todas as viagens que eu fiz pra fora eu trazia material.

[…]

Aos poucos foi com muito custo que a gente conseguiu ir passando do jornalismo bando de hippie, maluco, um jornalismo menor, para um jornalismo que tinha importância. Que podia entrar. Que podia ser uma página de jornal. Que podia dar capa. Que podia ter chamada na capa da Veja. Realmente foi um trabalho que eu considero muito importante, a reportagem e esse embasamento científico.

E também a gente ir falar com as pessoas responsáveis pela poluição. E tive entrevistas muito difíceis com donos de mineração na Amazônia. Com gente que era o inimigo. Você tinha que tá lá. Você tinha que fazer isso. Respeitando a questão de ouvir os dois lados. Porque o cara tá fazendo isso? Qual é a visão de quem está decidindo desmatar, de quem tá decidindo trocar a floresta por uma estrada? Teria que ouvir tanto os cientistas que vão embasar as consequências como aqueles que estão promovendo se não você faz um jornalismo muito parcial. O máximo de parcialidade que a gente admitia nesse jornalismo era bom eu sou a favor do meio ambiente. Isso eu sou. Agora você tem que saber do que você está falando. Você tem que ler sobre as coisas que está falando. Isso foi uma coisa dos anos 1980. Começava a existir mais jornalistas que faziam isso. A Teresa Urban mesmo era uma pessoa que trabalhava muito no Paraná com isso.

Agência Estado (1988-2003)

Do Guia Rural eu fui pra Agência Estado. […] Eu fui convidada pelo Rodrigo Lara Mesquita. Ele tinha sido presidente da SOS Mata Atlântica [criada em 20 de setembro de 1986], um dos fundadores, e na família Mesquita era um hippie verde. Era o meu interlocutor. A Agência Estado já existia dentro da empresa como uma unidade que cuidava dos correspondentes. E o Rodrigo transformou numa agência de notícias de verdade. Passou a funcionar vendendo material pra jornais regionais no Brasil inteiro, mais de 250 jornais que recebiam, e mais tarde, mais pra frente um pouco, o Rodrigo também conseguiu fazer acordos com cinco agências internacionais então o nosso material era distribuído na Reuters, em várias agências internacionais, e também a gente distribuía o material deles no Brasil.

Com isso o alcance daquilo que a gente fazia na Agência Estado foi se ampliando muito. E eu tinha no Rodrigo o meu interlocutor porque ele era uma pessoa que sabia da necessidade de pensar meio ambiente e ele tinha esse veio jornalístico que veio do pai, embora o pai sempre trabalhasse na área política e na área econômica, ele tinha esse sentido de jornalista que é nós temos grandes temas que nós precisamos trabalhar. E na área ambiental eu sentava com ele pra definir quais eram os grandes temas que nós iríamos trabalhar na Agência Estado. Como a gente tinha os correspondentes no Brasil e no exterior trabalhando para a Agência Estado, a gente conseguiu gradualmente montar vários projetos pra fazer essa discussão mobilizando os correspondentes.

Por exemplo, a gente fez uma série, que foi dos mangues do Brasil, que eu mobilizei todos os correspondentes do litoral brasileiro onde tem mangue. Então cada um produziu matérias, a gente foi orientando, a gente quer mostrar isso, que condição que estão esses mangues, quais são os principais problemas, falar da importância do mangue, falar com a área científica porque o mangue não é só um negócio mal cheiroso que a gente precisa eliminar e aterrar, mas ele precisa existir, porque aquele pedaço de mangue precisa ser preservado, precisa ser suficiente pra fazer o papel ali de berçário dos peixes. Então a gente falava da importância daquele ecossistema e falava também em que condição ele estava. Lá no Paraná, em Santa Catarina, no Amapá. Fizemos toda uma cobertura e demos isso em várias sequências. Fizemos uma cobertura de Amazônia.

A Agência Estado começou com o Rodrigo e mais quatro editores no fundo de um corredor com uma mesinha desse tamanho assim. Depois ela virou uma unidade mesmo na empresa dentro do Grupo Estado. Eu comecei nessa época que era no fundo do corredor com quatro pessoas. Mas a gente fazia e a gente foi progredindo. Um dia teve uma visita… Foi uma época que a gente começou a publicar o levantamento do desmatamento da Amazônia feito pelo INPE. Houve uma disputa entre o Estadão e a Folha porque a Folha falou uma coisa o Estadão falava outra. E eu fiquei encarregada de ir no INPE e fazer as reportagens todas.

Amazônia em chamas

Então eu tinha vários pesquisadores que eu conhecia no INPE que trabalhavam com isso e esse pesquisador o Alberto Setzer que trabalhava com as queimadas. Aí teve uma visita, porque a gente foi celebrar lá um acordo para área de meteorologia, previsão do tempo, e eu combinei com o Alberto Setzer de desviar a comitiva dos editores e levar eles pra ver as imagens de satélite que mostravam os pontos de queimadas. E fizemos isso. Vem ver uma coisinha aqui. O Alberto Setzer pôs na tela do computador. Você via ali delimitada a área da Amazônia Legal e dentro da Amazônia Legal aquele monte de pontinho que eram as queimadas. Nesse desvio que a gente fez nasceu a série que nós fizemos que era a Amazônia em Chamas.

Conexão com as fontes

Então tudo isso com o apoio enorme, eu tinha uma conexão muito grande com as fontes. Eram eles que me davam essa possibilidade de ter uma reportagem mais interessante. Eu cheguei a fazer reportagens a partir do que via no satélite ir lá e ver o que estava acontecendo lá no lugar. A gente teve uma área lá do Maranhão que foi feito monitoramento de satélite um ano, em que a cidade era um pontinho, um cruzamento de rodovias, e dez anos depois era uma mancha preta no satélite. Que diabo era essa mancha preta no satélite? Aquela cidade estava na rota do minério de ferro de Carajás pra exportação e criou guzeras, que transforma minério de ferro em ferro guza. E pra fazer isso o que eles estavam fazendo, usando carvão vegetal. Então estavam desmatando. O que a gente enxergava preto era fuligem de carvão. Que cobria a cidade inteira. A investigação… A gente podia olhar e dizer que a imagem de satélite estava meio borrada, mas a gente foi lá e viu o que que era aquele negócio preto.

Gradativamente a gente foi conquistando respeito para a cobertura ambiental. Uma cobertura já não daquele bando de hippie, mas que realmente começou a conquistar respeito.

A Rio 92

Na Rio 92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento), a gente sabia dessa importância. Começamos a fazer reuniões com as pessoas. Primeiro a gente começou a produzir vários materiais, um glossário de temas ambientais para os jornalistas que não eram especializados e que seriam deslocados para a cobertura entenderem minimamente o que eles estavam cobrindo. A gente teve que dar preferência pra pessoas que falavam duas línguas. A gente teve jornalista de esporte deslocado pra fazer a Rio 92.

Na primeira reunião que a gente teve da Rio 92, de coordenação, com o Luiz Maranhão, chefe da sucursal do Rio de Janeiro da Agência Estado, no fim de 1990, início de 1991, ele queria deslocar quatro repórteres pra cobrir esse evento. Eu e o Rodrigo perguntamos se ele tinha ideia do que seria o evento. Pra vocês terem uma ideia ele queria por quatro e a Agência Estado levou 50. A gente deslocou todos os correspondentes. O William Wack era correspondente em Berlim. O Rabino (Moisés Rabinovich) era correspondente em Washington. O Paulo Sotero era em Nova Iorque. E o Reali Junior era de Paris. O Reali foi deslocado de Paris não fez nem um dia de cobertura e teve um infarto.

De 4 a gente foi pra 54 jornalistas. A gente fez vários acordos. O governo brasileiro foi transferido para o Riocentro. Além da cobertura da própria conferência a gente tinha a cobertura de Brasília que foi toda deslocada para o Rio de Janeiro. Os ministérios estavam lá. O presidente estava lá. Estava tudo lá. Estava começando o impeachment do Collor. Um acordo que foi interessante foi com a Motorolla. Eles forneceram pra gente pagers com mensagem pra testar. O que existia na época era bip. Você ligava pra uma central pra saber qual era o recado. O pager já dizia qual era a mensagem. “Oh… tá chegando o Fidel Castro, vão lá entrevistar ele”. Você recebia a mensagem em si. Não podia ainda mandar de volta, mas recebia. Eu fiquei na cobertura do evento oficial. O Riocentro é longe pra caramba de tudo. Nossa sucursal era no Flamengo, do lado do Aterro do Flamengo. A gente teve que montar um laboratório de fotos perto do Riocentro porque não tinha nada perto. Alugamos uma suíte no motel Monza com cama redonda e era o nosso laboratório de fotografia porque era perto do Riocentro. Os fotógrafos montaram lá um laboratório na banheira e revelavam os filmes. Tinha telefoto que a gente transmitia.

Outro acordo que a gente fez foi com a RNP, a Rede Nacional de Pesquisas. A sede era em Campinas. A RNP era a responsável pelo backbone da Bitnet, antecedente da Internet. A sede da RNP ficava na rua onde eu morava em Campinas. A gente conhecia o Tadau, que era o chefe da RNP, e ele tava tendo uma demanda do mundo acadêmico porque as pessoas não teriam condições de vir a Rio 92, mas queriam saber notícias. Então fizemos um acordo com a RNP. Eles colocaram uma série de tradutores lá no Instituto de Matemática do Rio de Janeiro e a gente foi repassando todas as notícias mais interessantes da Agência Estado, o pessoal da coordenação fazia uma triagem, para os tradutores que traduziam em tempo real para o inglês e colocavam na bitnet. Era só texto. Nem existia www. Fornecemos então para 180 países em tempo real o noticiário da Agência Estado para a RNP e em troca a RNP instalou no topo do prédio do Estadão lá na Marginal uma antena de micro-ondas voltada para a Fapesp que recebia o material da bitnet e a outra antena na minha casa que apontava para a Unicamp. A minha casa é bem perto da Unicamp e de lá tinha o tráfego pra Fapesp.


PERGUNTAS DO PÚBLICO

Mário Rocha: Cobertura ambiental transversal passando por todas as editorias, cobertura segmentada em cadernos e espaços específicos ou um mistura das duas coisas?

A gente já tinha na Agência e ao longo desses meus anos todos de jornalismo a gente sempre teve essa discussão da editoria especializada versus a transversalidade em todas as editorias ou da mista. Eu diria que é importante que o jornalismo ambiental seja feito por jornalistas especializados porque você precisa entender toda uma série de conceitos que são importantes pra você construir a matéria. Agora a publicação é muito importante que ela seja transversal. A resposta é mista. Eu acho que você tem que ter uma produção de matérias ambientais por jornalistas especializados, mas a publicação em diversas editorias. A gente começou a fazer isso na Agência em várias coberturas, por exemplo, a discussão do prolongamento da Rodovia dos Bandeirantes lá em São Paulo que era um assunto da Editoria de Brasil, no entanto eu trabalhei nessa cobertura na parte que era de avaliação dos impactos ambientais. Aí você vai falar com um público que não é iniciado. Eu acho que esse é um dos problemas do jornalismo ambiental que é você falar para quem já está convertido. A gente precisa das outras editorias para falar para um público não convertido porque meio ambiente é justamente um bem comum. Se você consegue conquistar um dono de empresa poluente para pelo menos mudar algumas práticas é muito mais eficiente do que você conquistar um monte de gente que pode fazer uma manifestação na frente da empresa dele e o cara vai ficar com medo da violência e não vai querer nem ouvir o que as pessoas estão falando. Em termos de eficiência para o resultado que a gente quer que é um meio ambiente mais saudável, um desenvolvimento mais sustentável, alternativas mais interessantes, acho que você tem que falar com um público que não é o seu público fácil que é o seu público já convertido.

Eloisa Loose: O jornalismo ambiental pode ser feito em formato de notícia na cobertura factual?

Uma coisa que eu acho muito importante é essa coisa do jornalista ter agenda própria. Não só as comunicações oficiais de governo ou de empresas procuram dirigir a notícia que vai ser produzida ou a reportagem que vai ser produzida, mas também as das ONGs ambientalistas. Cada um tem sua agenda própria. Cada fonte de informação tem uma agenda própria. Então o jornalista não pode estar nem alinhado com as empresas ou publi-informação, nem alinhado a agenda das ONGs, que não é a mesma agenda do jornalista ambiental. Embora no fundo, no fundo todos queremos defender meio ambiente, existem agendas específicas de ONGs que não é nosso papel reproduzir fielmente. Eu acho que a gente tem que manter o espírito crítico. Quando eu falo reportagem, não é só exclusivamente a reportagem de ir lá no lugar, não é todo tempo que você pode fazer isso, você sendo um jornalista especializado você consegue identificar dentro da notícia aquilo que é um posicionamento de comércio exterior, um posicionamento de barreira ambiental com finalidade de exportação/importação. Tudo isso existe. Nós estamos em um mundo que é cheio de interesses. Então o jornalista tem que ter essa capacidade de diferenciar aquilo que é de fato uso do bem comum daquilo que puxar brasa pra minha sardinha. É importante que o jornalista tenha sua própria agenda. Por isso era extremamente rico esses grandes temas que a gente discutia na Agência Estado, a gente sentava e discutia o que estamos precisando discutir nesse momento. Então como a gente vai trabalhar esses temas. Ai o resultado disso, já respondendo a questão da notícia e da reportagem especial, era uma série de publicações que podiam ser notícia ou não, mas que estavam dentro de um tema que nós havíamos discutido entre nós que era a nossa agenda, da Agência Estado. O que nós queremos, qual a nossa postura pra defender isso. Por que às vezes quando você tem um jornalista especializado cobrindo uma coisa que vai ser a notícia do dia, você pode enriquecer aquela notícia com um conhecimento que não necessariamente você obteve ali na hora. Mas, você pode dar o contexto, pode falar de um acidente como Mariana, mas dar o contexto daquilo, dizendo como aconteceu, estava sem monitoramento a lagoa de contenção dos dejetos, enfim. O contexto faz parte da notícia também.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Incêndios florestais, seca, chuvas e a Havan em Canoas

Imagem: Reprodução do Matinal

Por Nicoli Saft*

À medida que a última semana transcorria, ficava cada vez mais difícil decidir sobre o que escrever para este Observatório. Começa a semana com o decreto de situação de emergência no Mato Grosso do Sul devido a incêndios florestais e a seca, seguindo com os também incêndios florestais nos Estados Unidos. Na quarta-feira, foi divulgada uma pesquisa do Inpe apontando que a Floresta Amazônica já emite mais gás carbônico do que absorve. Na quinta, uma excelente reportagem sobre a construção da Havan em Canoas (RS), eliminando com ela a última grande área verde do centro da cidade. Mas, então, chegou a sexta-feira, e as chuvas na Europa Central já haviam matado 120 pessoas. E o que todos estes acontecimentos informam sobre nosso tempo?

A emergência climática não está apenas no futuro, está acontecendo agora. E o que estamos fazendo? Bom, construindo lojas de departamento em áreas de preservação permanente, é claro. A reportagem “Instalação da Havan em Canoas abre caminho para o fim da última grande área verde no centro da cidade” foi escrita pelos estudantes Júlia Ozório, Nicole Goulart, Rafael Pereira, Eduarda Stefenon e Valentina Bressan, da UFRGS, e por Naira Hofmeister, do Matinal. A investigação foi produzida pelos estudantes para a disciplina de Ciberjornalismo III, do curso de Jornalismo, ministrada pelo professor Dr. Marcelo Träsel.

A matéria denuncia o pouco caso que a administração municipal faz da destruição da mata em virtude de novos empreendimentos no local. Como um exemplo emblemático, poucos dias antes da derrubada das árvores, biólogos encontraram no local indícios de uma espécie de lagostim nunca descrita pela ciência, e temem que ela irá desaparecer com as obras. A reportagem é dividida em três: a primeira relata os problemas envolvendo a construção do prédio da Havan em Canoas, uma segunda mostra o histórico da empresa em desrespeitar o meio ambiente e as legislações municipais, e uma terceira relembra casos em que a Prefeitura de Canoas negligenciou o meio ambiente, recomendo a leitura de todas.

Não se fala em aquecimento global ou emergência climática na reportagem, mas o texto mostra como a degradação daquela área verde pode afetar os moradores. Sem os banhados para reter a água no solo, ocorrerão inundações frequentes. A fauna do Arroio Araçá, destino da água da inundação, poderá ser afetada também. O microclima do bairro será impactado, ficando mais quente. E com o aumento dos carros, aumenta a poluição atmosférica. A reportagem explica como tudo está ligado, como as coisas acontecem.

Algumas matérias sobre as chuvas nos países europeus ou sobre os incêndios florestais citam a crise climática, outras chegam até a apontar o que especialistas estão falando, trazendo a conexão existente entre os fatos e as transformações globais. Eu não espero que no dia de um desastre já se possa explicá-lo, é claro. Mas o que eu gostaria que acontecesse, no caso da tempestade, dos incêndios florestais, das secas e das ondas de calor, é que os jornais mostrassem, de forma clara, qual a ligação desses eventos com a destruição do planeta pela humanidade, algo que se pode ver – atentando para suas devidas proporções e diferenças – no rigoroso trabalho publicado pelo Matinal.

Não parece ser por acaso que a única reportagem aprofundada sobre o terreno em Canoas que eu encontrei foi escrita por estudantes e publicada em um veículo de mídia independente. Ir contra grandes empresários não é exatamente o que o jornalismo tradicional faz no seu dia a dia, infelizmente. Então temos aqui duas questões que podem ser aprendidas com o colegas que ainda está na faculdade: confrontar empresas e governos que destroem o meio ambiente e explicar como essa destruição nos envolve e nos afeta.

Para finalizar, deixo uma questão: o que podemos fazer agora para interromper este processo de exploração da Terra? O jornalismo precisa explorar pautas sobre quais ações são necessárias tanto para evitar o agravamento do aquecimento global quanto para fornecer qualidade de vida a todos durante a emergência climática que já estamos. É triste pensar isso, mas espero que agora que países ricos europeus também estão sendo brutalmente atingidos, possamos olhar para essas questões com mais seriedade.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Oportunidades para avançar na pauta da crise hídrica

Imagem: Pixabay

Por Eloisa Beling Loose*

Desde maio é possível observar, em diferentes meios de comunicação, uma frequente cobertura sobre os impactos, sobretudo econômicos, derivados da escassez da água. O sinal de que os reservatórios das usinas hidrelétricas estão baixos desencadeou aumento na conta de luz e o receio de um novo apagão, como aquele sentido em 2001. Contudo, mais do que falar da água como recurso energético, o registro da pior seca dos últimos 91 anos serve de gatilho para que o jornalismo aborde os muitos interesses que envolvem sua disputa, como noticiou a CNN, e seu futuro em um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes.


Ao tratar esse contexto como de crise é preciso avaliar o quanto essa situação é mesmo atípica ou pode ser remediada no curto prazo. Uma nota técnica da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia aponta que este momento não é um desvio da curva que voltará ao normal, mas parte de uma tendência. As hidrelétricas estão com menos água porque os regimes de chuva estão mudando, resultado das alterações do clima – e isso não terá efeitos apenas em 2021. Mas, o que estamos fazendo para nos precavermos? O aumento da geração de energia por termelétricas, além de pesar no bolso do consumidor, contribui para a intensificação das mudanças climáticas em razão da maior emissão de gases de efeito estufa. Sofremos os efeitos da escassez hídrica e reagimos com medidas que tendem a potencializar o problema. Por quê? Quem ganha com isso?


A matéria do El País O que liga o aumento na conta de luz ao desmatamento da Amazônia e à emergência climática? Tudo” trouxe uma conexão importante, não apenas com o clima, mas também com o desmatamento da Amazônia (que nem sempre é vinculado à crise climática). É importante repetir que os fenômenos estão interligados e que o desmonte de políticas públicas ambientais afeta todo nosso modo de vida porque não há nada isolado na natureza. A perspectiva ambiental ajuda a compreender que água é um bem que deve ser cuidado por toda humanidade. O que estamos fazendo?


Apelar para a consciência do usuário também não é (ou deveria ser) o bastante. Utilizar a água com parcimônia é necessário, porém vale investigar quem são os grandes consumidores deste País e como se dá sua gestão. Nossa situação não é decorrente do acaso, de “um azar”, como declarou o presidente Jair Bolsonaro, mas de falta de planejamento e ações efetivas contra as mudanças climáticas. Leonardo Sakamoto, em sua coluna do UOL, destaca a conexão da falta d’água com a emergência climática, finalizando seu texto com o chamado para atuarmos em diferentes frentes: na geração de energia, no abastecimento, na produção industrial e na agropecuária.


Uma das poucas matérias encontradas nesta última semana que discute o uso da água pela agropecuária e coloca em xeque sua forma de produção é feita pela BBC Brasil. Nela, além da articulação entre a questão climática e o desmatamento, atrelada à expansão agrícola, é abordado o processo de irrigação das lavouras – em parte da bacia do Paraná, ela é responsável por 90% do consumo, que poderia ser destinado para o abastecimento das cidades ou geração de eletricidade. Segundo relatório da Agência Nacional das Águas de 2021, a irrigação é responsável por quase 50% da demanda de todo Brasil e esse número deve crescer para ampliar ou até mesmo manter a produtividade. Quais serão as consequências disso para os outros setores?


As secas, decorrentes da falta de chuvas, são processos longos e que costumam ser “normalizadas” com o tempo, recebendo menos atenção midiática do que outros eventos extremos mais intensos e de curto prazo. Que o aumento da conta da luz ou a ameaça do apagão para a reeleição de Bolsonaro transforme-se em oportunidades para que a cobertura da água seja mais problematizada e ganhe diversos enfoques. A questão hídrica é somente uma das facetas de um emaranhado de crises gerado pelo nosso modelo de desenvolvimento. Quando vamos falar mais sobre isso?

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Do frio brasileiro ao calor do Canadá, a importância de contextualizar a pauta do clima

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Uma onda de frio percorreu grande parte do país nesta última semana, do Sul ao Centro-Oeste. Já se tornou relativamente comum que, nesses momentos e em todos os anos, saiam dos porões — há muito abertos — negacionistas de plantão vociferando contra a existência e intensificação do aquecimento global. Quando acontece, trata-se de uma pseudodisputa: não interessa a eles a vitória de suas narrativas mentirosas, basta o simples questionamento na sociedade, a pura suspensão da certeza científica, o desvio do foco de atenção do que realmente importa. É possível que até mesmo a família Bolsonaro já tenha se cansado de propagar a mentira do frio, dessa vez mais preocupados com o desenrolar da CPI da covid-19 e com as denúncias sobre o ex-ministro, Ricardo Salles, relacionadas ao favorecimento de madeireiros ilegais na Amazônia.

Ondas sazonais de frio em nada contradizem a emergência climática (ao contrário, podem ser efeitos dela), e é importante que isso esteja claro sempre que a desinformação mentirosa ousar aparecer. Acontece que, nesta semana, isso ficou mais explícito diante do contraste radical e concomitante ao nosso “frio”, a partir das ondas históricas de calor registradas, mais uma vez e ano após ano, em países do hemisfério norte. Que o verão deles é no nosso inverno, não é novidade; mas um país como o Canadá bater três recordes seguidos, alcançando históricos 49,6º C, é mais do que preocupante. As centenas de mortes em decorrência direta das ondas de calor evidenciam um novo risco à saúde humana tão importante quanto aqueles relacionados aos grandes desastres já intensificados pela emergência climática, como furacões, ciclones, entre outros fenômenos. Pessoas com doenças crônicas, idosos e crianças são ainda mais vulneráveis ao estresse térmico provocado pelas ondas de calor, como informa a Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade.

Entre as matérias publicadas no G1 sobre o tema, uma de autoria da BBC News e restrita à editoria Natureza (seção Aquecimento Global) é a mais qualificada, ao abordar os fatores meteorológicos para o calor e contendo uma breve análise de um especialista sobre o aumento da probabilidade desses eventos em função do aquecimento global. Já a notícia com pauta mais factual e inédita (no jargão jornalístico, mais “quente”) sobre o caso, na editoria Mundo e de autoria do próprio G1, falha ao apenas noticiar as mortes e as temperaturas do Canadá, negligenciando a discussão sobre a emergência climática, relegada a uma pequena frase no final da matéria. No dia seguinte, esta matéria do mesmo portal noticia o incêndio que devastou um vilarejo canadense e, novamente, relega as mudanças climáticas à última frase da matéria, desta vez em tom de inevitabilidade: “Cientistas avisam que, com as mudanças climáticas, fenômenos do tipo ficarão mais frequentes”.

A frase não está errada, e é importante que se frise a direção trágica que a humanidade caminha. No entanto, é imprescindível que o jornalismo não se ausente da elucidação dos contextos, causas (sobre os efeitos climáticos irreversíveis “em dominó”, a BBC publicou ótima matéria nesta semana) e medidas a serem tomadas, sobretudo nas publicações para o grande público, para além das editorias especializadas no assunto. Fica também implícita, aí, a necessidade de uma dimensão política e ativa inerente ao exercício jornalístico. Vale tanto para elucidar um tipo de senso comum sobre o frio, quanto para realçar e lembrar, sempre que possível, a altíssima associação, em termos probabilísticos, do aquecimento global com as ondas de calor.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Cai o ministro, segue a boiada: o PL490 é sobre a vida de todos nós

Por Ângela Camana*

Imagem: Captura de tela do site El Pais Brasil

Os acontecimentos desta última semana de junho, narrados em textos que ocuparam as capas dos principais portais de notícias, são representativos de um argumento recorrente entre aqueles e aquelas que se dedicam a pensar o jornalismo ambiental: as “questões ambientais” não estão restritas a uma editoria específica, pois as transbordam. A cobertura sobre a tramitação do PL490 – que altera a legislação sobre terras indígenas, instituindo, entre outras mudanças, o marco temporal – foi manchete ao longo de toda a semana, mobilizando discussões que vão desde os arranjos político-partidários à denúncia do ataque que este projeto de lei promove aos direitos dos povos originários e, em última instância, à própria natureza, já que abre margem para o garimpo e a grilagem. Poucos textos, no entanto, abordaram o fato de que a preservação da floresta é cara não unicamente aos que nela habitam, mas a todo o planeta, já que a manutenção da biodiversidade é necessária à regulação do clima, por exemplo. E, infelizmente, a pauta também chegou às páginas policiais, devido à ação truculenta da polícia para sufocar a manifestação dos indígenas de diversas etnias em frente ao congresso – com repercussão inclusive em veículos internacionais, como o The Guardian.


Observar a cobertura que a imprensa brasileira dedicou ao PL490 já é uma tarefa a ser sugerida nas salas de aula dos cursos de jornalismo de todo país – pois, por mais que algumas notícias relutem em assumir, trata-se de pauta cujas fronteiras editoriais são borradas: direitos humanos, economia e política são indissociáveis da natureza. Averiguar as estratégias narrativas adotadas pelos veículos acerca de uma pauta que envolve mais de 500 anos de história, a usurpação de terras indígenas, torna-se um desafio ainda maior quando observamos que este debate irrompe justamente na semana em que o Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles deixa o governo.
Ricardo Salles – como lembram jornais mundo a fora – está envolvido em acusações de tráfico de madeira e é possível que novas provas venham à tona nas próximas semanas. Não podemos esquecer que Salles é também o autor da célebre sugestão de que o Brasil deveria aproveitar a pandemia para “passar a boiada”. De fato, é a perspectiva que se coloca, sobretudo quando observamos a nomeação de um ruralista como novo ministro.
Infelizmente, parece que se vão os ministros, mas seguem seus bois – e estes passam por cima da Constituição, dos biomas e dos direitos indígenas. Como diz Eliane Brum em sua coluna semanal, no El Pais, a votação do PL490 é um ponto de não retorno: “A boiada passa inteira e nós todos, inclusive os autores do crime, ficaremos embaixo dos cascos porque a floresta vai virar outra coisa. E a coisa que vira não vai regular o clima”.
Fica o convite, então, para que o jornalismo brasileiro pare de se debater entre suas muitas cartolas pré-prontas e assuma, de uma vez por todas, que o ambiente seja não só uma pauta, mas um aliado. E é importante para todos nós que se imponha um freio à boiada e aos boiadeiros.

Cais Mauá: Com quantos adjetivos negativos se (des)faz um espaço?

*Eutalita Bezerra

Imagem: Captura de tela do site do Jornal do Comércio

Nos últimos quatro ou cinco anos, por conta da minha pesquisa de doutorado, investiguei a cobertura acerca das construções (ou destruições) nas áreas de Cais no Brasil. Em certo momento, buscando uma analogia entre o que ocorria no Cais José Estelita, em Pernambuco, no qual um conjunto de empreiteiras leiloou o terreno à beira do rio e propôs erguer ali um paredão de edifícios, e um possível futuro do Cais Mauá, em Porto Alegre, folheei as publicações tradicionais da cidade. A expectativa era de traçar paralelos entre as narrativas. O silêncio sobre o assunto era de tal forma significativo que inviabilizou a análise.

No último ano, porém ,tenho percebido um crescimento das discussões sobre o assunto nas páginas gaúchas, possivelmente mobilizado pelo já inaugurado Cais Embarcadero e por novas possibilidades para a região. Um exemplo pode ser visto no último dia 15 de junho, em que duas publicações foram feitas pelo Jornal do Comércio, ambas tratando de uma possível “revitalização” e exploração econômica da antiga área portuária de Porto Alegre.

A primeira delas, intitulada, “ ‘Projeto Cais Mauá é emblemático e único no País’, diz responsável no BNDES”, publicado sob a cartola “Patrimônio”, trata especialmente dos esforços do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, instituição responsável pelo estudo que vai sugerir ao Estado o formato para atrair interesse do setor privado naquela área.

Ao tratar sobre o espaço, convém destacar os termos utilizados, seja para descrevê-lo ou para apontar os caminhos já tomados: espaço degradado, desafio, concessão fracassada, conjunto deteriorado. O tombamento de alguns dos armazéns pelo patrimônio histórico também é citado como um entrave, inclusive apresentado como um dos responsáveis pela rescisão de um contrato anterior para obras na região.

Apesar de tantas agruras, o Banco parece enxergar ali potencialidades. Sua localização privilegiada, no centro da cidade, bem como seus mais de três quilômetros de extensão, o tornam de tal maneira “único” que merece a atenção do Departamento de Ativos Imobiliários da instituição financeira. Ao mesmo tempo, este, segundo a publicação, evitou comentar o potencial da área, bem como o volume de investimentos esperado.

Já a segunda publicação vem na coluna Pensar a Cidade, tutelada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul, com a cartola “Urbanismo”. Sob o título “Estudo sobre o Cais Mauá inicia com escuta ao público”, informa acerca dos primeiros de dez workshops propostos pelo Consórcio Revitaliza, grupo de oito empresas delegadas, junto com o BNDES, pelo estado para definir o melhor uso para a área.

O texto descreve os encontros como reuniões para apresentar “levantamentos iniciais sobre a área, bem como coletar sugestões sobre como poderia ser usada e qual a percepção das pessoas sobre o Cais e sua relação com a cidade”. O primeiro encontro teria ocorrido apenas com empresários e o segundo, apontado como “dia de maior debate”, recebeu a comunidade local, do entorno ou com algum interesse direto na área.

Professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, representantes de entidades da sociedade civil, como o Observatório das Metrópoles e da Associação Amigos do Cais do Porto, foram nominados no texto como vozes dissidentes. O texto admite, ainda, novas reuniões com entidades de arquitetura, universidades e imprensa sobre as “singularidades criativas que caracterizam o local”. O mesmo texto também admite que em pelo menos dois dos encontros serão realizadas devoluções, informando o que se pode ou não incorporar ao projeto a partir das contribuições recebidas.

Nesta publicação, embora o caminho pareça mais aberto que aquele vislumbrado noutras oportunidades ao se discutir o futuro de áreas de Cais, a naturalização do olhar para o espaço como apenas um ativo,necessariamente nos chama a atenção, mas não é o ponto mais importante neste momento. O que nos atinge com mais propriedade é o fato de que, mesmo quando em abertura a contribuições que fujam da lógica acumuladora e espoliadora, não há qualquer menção ao potencial impacto ambiental decorrente de sua utilização. Não é possível, aliás, dizer que esse assunto não foi tratado na reunião. Mas é plenamente factível afirmar que, caso tenha sido, o jornal não tomou como importante o suficiente para ser citado num texto que conta com três subtítulos.


Ao jornalismo, especialmente em momentos decisivos como este, em que o impacto de um empreendimento de grande envergadura não é analisado em sua potencialidade e nos seus riscos, cabe reforçar que o silêncio também é narrativa. E aqui retomo o olhar ao que ocorreu em Pernambuco: lido como um não-lugar pelos jornais, o terreno do Cais José Estelita, hoje e adiante, serve a uma ínfima parte da população. Seguirá com a expectativa do que poderia ter sido e não foi.


Para um destino diferente, os jornalistas precisam explanar as questões ambientais envolvidas nessa pauta hoje. É mister admitir que este não pode ser um assunto para segundo momento, quando as definições “sobre o que se pode ou não incorporar ao projeto”, como dito anteriormente, já estejam tão cristalizadas que seja impossível enxergar outros caminhos.

* Jornalista, Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eutalita@gmail.com

Desmatamento no Brasil: informação já temos, o que precisamos é agir

Cláudia Herte de Moraes *

Fonte: https://www.oeco.org.br/reportagens/relatorio-mostra-que-998-dos-desmatamentos-no-brasil-em-2020-foram-ilegais/

A informação e a comunicação de dados ambientais são crescentes, sendo cada vez mais relevantes para dar subsídios à tomada de decisões, especialmente, aos formuladores de políticas públicas. Num mundo ideal (ou pelo menos inteligente), sociedade e seus cidadãos, bem como os poderes instituídos deveriam utilizar o conhecimento destes dados para proteger a vida em primeiro lugar, e respeitar os preceitos da proteção ambiental é um caminho bastante importante para o Brasil, devido aos seus biomas ricos em biodiversidade. No lançamento do MapBiomas Alerta, em 11 de junho de 2021, o destaque foi dado ao crescimento do desmatamento em todos os seis biomas brasileiros que fazem parte do monitoramento. O crescimento foi de “13,6% em 2020, atingindo 13.853 km2 (1.385.300 hectares), uma área nove vezes maior que a cidade de São Paulo. Desse total, 61% estão na Amazônia.”. A análise inédita de 74.218 alertas de desmatamento no Brasil está publicada e aberta ao público. (https://mapbiomas.org/pais-perdeu-24-arvores-por-segundo-em-2020).


O MapBiomas Alerta é uma iniciativa do consórcio MapBiomas constituído por mais de 20 instituições, entre ONGs, universidades e startups de tecnologia. Seu objetivo é processar os alertas de desmatamento emitidos por cinco sistemas: o Deter (do Inpe, para a Amazônia e o Cerrado), o SAD (do Imazon, para a Amazônia), o Glad (da Universidade de Maryland, para Mata Atlântica, Pantanal e Pampa), o Sirad-X (do Instituto Socioambiental, para a bacia do Xingu), e ainda incluindo os dados do novo SAD Caatinga (da Universidade Estadual de Feira de Santana e da Geodatin).


A iniciativa MapBiomas surgiu para buscar ferramentas para a compreensão sobre os fatos relacionados ao território brasileiro em relação à emissão de gases de efeito estufa no país, conforme pontuou Tasso Azevedo (Observatório do Clima), na live de lançamento do MapBiomas Alerta. Com isso, é possível organizar o conhecimento tanto em relação ao desmatamento, quanto a outras transformações importantes nos biomas, por exemplo, com a exploração e extração mineral, a utilização de água, a urbanização entre outras. A base do trabalho se dá com auxílio de softwares de aprendizagem de máquina, capaz de auxiliar na interpretação de imagens de satélites, cruzamento de dados, trazendo aos mais de 100 profissionais envolvidos, a possibilidade de interpretação de dados em nuvem, de forma ampliada e em tempo recorde.


A equipe do MapBiomas concluiu que o desmatamento está crescente em todos os biomas e é, em sua vasta maioria, composto de casos de atividades ilegais. Mais de 70% se dá em domínios privados e há possibilidade de responsabilização de ⅔ das áreas desmatadas. No entanto, também apontam que 99% das propriedades rurais não tiveram desmatamento em 2020 – e sofrem com a impunidade daqueles que infringem as leis. Para tratar deste tema neste Observatório de Jornalismo Ambiental, fizemos uma busca exploratória no Google, em busca da repercussão nos jornais, com os termos “Relatório inédito do MapBiomas Alerta”, na data de 13 de junho. A partir das publicações encontradas, pudemos conferir que houve boa repercussão das informações, tanto em portais, jornais alternativos e sites especializados ou institucionais, quanto em jornais e portais mais tradicionais da imprensa brasileira.

Listagem das principais notícias sobre MapBiomas Alerta

Com essa repercussão, que deve ser ampliada durante esta semana, podemos concluir que estamos num momento de intensa proliferação de informações e dados ambientais, sendo que o nosso maior problema é o que está sendo feito (ou não) com estas informações e alertas científicos. Estamos ingressando na década considerada determinante quanto aos destinos e rumos de nossa civilização, levando em conta que estamos muito próximos do ponto de não-retorno quanto à mudança do clima global. A informação ambiental está clara e os cidadãos e seus representantes na política, especialistas e empresários, todos nós precisamos entender esse alerta. A hora é, portanto, de ação. O jornalismo também precisa direcionar sua cobertura quanto aos alertas, e avançar ainda mais no questionamento sobre a falta de ação, especialmente por parte de agentes públicos e de fiscalização, para que haja a real responsabilização dos desmatadores no Brasil.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E Mail: claudia.moraes@ufsm.br