Observatório de Jornalismo Ambiental

A luta das mulheres que fortaleceram o Jornalismo Ambiental


Por Carine Massierer*

Se vocês me dão licença, hoje vou tomar conta deste espaço para recuperar a trajetória de luta de algumas mulheres jornalistas pelas causas ambientais. Neste Dia Internacional da Mulher, apresento um pouco de história e de lembranças das nossas desbravadoras com o objetivo também de homenageá-las.

É importante ressaltar que as mulheres jornalistas, ao longo da história, têm contribuído para a formação de núcleos de ecojornalismo pelo Brasil (como é o caso do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul – NEJ-RS), para a criação da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA), em 1998, e da Rede de Comunicação Ambiental da América Latina e do Caribe, em 2000. No entanto, antes mesmo destes movimentos e, em paralelo a eles, tivemos uma série de jornalistas que foram pioneiras em dar repercussão para a temática ambiental.

Este é o caso da paranaense Teresa Urban, que se formou em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná em 1967. Considerada uma combatente do regime militar, Teresa foi presa, exilou-se no Chile e depois voltou ao Brasil onde passou a atuar no jornal A Voz do Paraná no final da década de 1970. Teve participações nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, e na revista Veja, entre outros, consolidando-se como uma pioneira no jornalismo ambiental. Teve a oportunidade de escrever diversas obras, contando com 21 títulos. Aderiu aos projetos das ONGs SOS Mata Atlântica e Mater Natura. Contribuiu para o mapeamento dos remanescentes da floresta de araucária no estado do Paraná e ajudou a desenvolver a Rede Verde de Informações Ambientais, além de atuar também no Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). É uma das criadoras da Rede Verde, que transmite pelo rádio informações ambientais para todo o Paraná. Teresa Urban faleceu em 2013.

Mara Régia Di Perna é carioca, radicada em Brasília e tem uma história de mais de quatro décadas ligada ao radiojornalismo ambiental brasileiro e à Amazônia. A jornalista é profissional da Rádio Nacional, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde dirige o programa Viva Maria (40 anos) e Natureza Viva (26 anos). Já recebeu o Prêmio Chico Mendes de Meio Ambiente e teve grande visibilidade com a reportagem sobre o desaparecimento de abelhas e outros polinizadores no oeste do Pará. A grande reportagem ‘A morte dos polinizadores’ contém 17 páginas e pode ser lida no portal Amazônia Latitude e também ouvida nas plataformas digitais.

A gaúcha Ilza Maria Tourinho Girardi começou a se envolver com a questão ambiental há mais de 40 anos, quando se tornou sócia da Cooperativa Ecológica Colméia (1979). Ela esteve presente na criação do NEJ-RS em 1990 (único núcleo ainda ativo no país), criou a primeira disciplina de Jornalismo Ambiental no Brasil em 2004, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental, em 2008, sendo mobilizada sempre pela qualificação da informação ambiental. Em 2015, Ilza recebeu o prêmio Pioneiras da Ecologia por seu ativismo ecológico e trabalho acadêmico na área, contribuindo para a formação de jornalistas conscientes, críticos e engajados em prol de um mundo sustentável. Até é hoje ela foi a única jornalista mulher premiada.

A ideia que resultou na formação, em 1998, da RBJA também surgiu de uma mulher: Liana John. A jornalista especializada em ciência e em meio ambiente sugeriu que deveríamos “[…] nacionalizar alguns temas que sejam locais e que mereçam uma cobertura mais global de toda a imprensa” (BELMONTE, 2020). Ela recomendou, na época, a formação de clubes que, na verdade, se tornam núcleos. Destaca-se que muitas jornalistas faziam parte das listas de debates ambientais que existiam na década de 1990. Estas listas, conforme Belmonte, reuniam integrantes de todo o país, como Regina Scharf, do jornal Gazeta Mercantil, e Maria Zulmira, do Repórter Eco, da TV Cultura. Patrícia Palumbo, da Rádio Eldorado, também foi pioneira na época abordando temas ambientais no radiojornalismo de São Paulo, assim como Lúcia Chayb, da Revista Eco 21.

Muitas outras jornalistas foram fundamentais para ampliar a visibilidade que a pauta ambiental tem hoje no Brasil e merecem nosso reconhecimento. Junto à homenagem, registro a lacuna existente na literatura na área sobre o papel das mulheres na construção do Jornalismo Ambiental. Que possamos resgatar esse legado e preservar a memória dessas mulheres, que nos inspiram até hoje.

Referência:
BELMONTE, Roberto Villar. Uma breve história do jornalismo ambiental brasileiro. Revista Brasileira de História da Mídia, vol. 6, nº 2, 110-125.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A morte de Aruká Juma e o Jornalismo Ambiental posicionado

Reprodução de imagem: Gabriel Uchida, Kanindé – Amazônia Real.

Por Matheus Cervo*

É com muita tristeza que o Brasil amanheceu no dia 17 de fevereiro com a notícia da morte de Aruká Juma, o último homem da etnia Juma existente. Após a sua partida devido às complicações da infecção pelo novo coronavírus, suas três filhas chamadas Borehá, Maitá e Mandeí são as últimas sobreviventes dos Juma, ainda que elas tenham tido filhos com indígenas Uru-Eu-Wau-Wau que tiveram contato com a tradição de seu povo. É com essas informações que podemos perceber que a morte de Aruká está longe de ser um fenômeno isolado, já que muitas práticas genocidas foram ocorrendo na governança bolsonarista e nas últimas décadas.

A agência de jornalismo independente Amazônia Real solicitou os boletins médicos sobre o período de internação nos meses de janeiro e fevereiro, recebendo informações de uma profissional da Casa de Atendimento de Saúde Indígena (Casai) de Humaitá (AM), órgão do Ministério da Saúde. Segundo ela, Aruká Juma foi medicado no Hospital Sentinela com azitromicina, ivermectina, nitazoxanida e sulfato de zinco. Esses remédios fazem parte do coquetel de “tratamento precoce” que foi promovido pela necropolítica de Jair Bolsonaro que não é reconhecida para tratamento dos infectados pela covid-19 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Essa notícia que expõe o “tratamento precoce” que Aruká Juma recebeu não hesita em aderir ao que foi dito nas notas de pesares da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib). Nessas notas – que foram expostas inteiras no final da reportagem da Amazônia Real -, as organizações afirmam veemente que a morte de Aruká foi resultado de políticas públicas omissas e incompetentes do governo Bolsonaro que vão além da divulgação intensiva de tratamentos ineficazes e perigosos. 

Por já estarem sujeitos à vulnerabilidade e risco de desaparecimento, o povo Juma era considerado como de recente contato e constava como um dos povos a serem protegidos por Barreiras Sanitárias para evitar o seu contágio durante a pandemia. O pedido da instalação foi feito por essas organizações e foi deferido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em julho de 2020. Contudo, o ministro Luís Roberto Barroso deu o prazo de até setembro para que as barreiras fossem instaladas, mas o governo não cumpriu o seu dever e decidiu instalar, em dezembro, apenas um posto de controle de acesso na BR 230 – Rodovia Transamazônica – sem comprovar sua eficácia.

Além do que foi aqui brevemente mencionado, a reportagem citada na Amazônia Real realizou uma gênese do conflito de terras que o povo Juma enfrenta, de forma mais intensa, desde a década de 1960, guerra que foi, paulatinamente, gerando o desaparecimento desses indígenas. Essa perspectiva histórica foi publicada na íntegra em 2015, mas foi recuperada na matéria que anunciou a morte do último indígena Juma junto com detalhes trazidos pelas notas de pesares. Por isso, o Jornalismo Ambiental feito pela Amazônia Real acerta ao noticiar a dura realidade da morte de Aruká Juma com uma posição crítica e não neutra, expondo práticas genocidas que possuem uma profundidade que excede em muito a sua morte pelo coronavírus. E, para finalizar, é como antropólogo que acredito que o jornal acerta também ao permitir que uma jornalista indígena como Luciene Kaxinawá cubra um tema tão importante ao invés de falar sobre a morte de Aruká pela mediação de algum especialista.

* Cientista Social com ênfase em antropologia e atual mestrando do programa de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com bolsa Capes.

A política da mudança do clima: do internacional ao local

Imagens: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Enquanto é discutida a viabilidade de se realizar os Jogos Olímpicos de Tóquio em meio à maior crise sanitária desde o último século, outro “comitê” esportivo nos chamou a atenção recentemente aos efeitos do aquecimento global. Trata-se da candidatura simbólica para a Olimpíada de verão de 2032, no lugarejo de Salla, que conta com 3.400 moradores no Ártico finlandês. A ideia, exposta nesta matéria da Folha de São Paulo, é denunciar a emergência climática e seus efeitos em uma cidade com modo de vida ligado ao frio e à neve, daí o motivo de ser “possível” a realização do evento com modalidades tipicamente de verão.

Se o exemplo desta iniciativa cumpre um importante papel elucidativo através da alegoria, causa apreensão, em todas as sociedades, o descompasso de atividades simbólicas, acordos e promessas políticas em relação às efetivas atuações, no mundo real, para a redução das emissões. Ao mesmo tempo, uma notícia do início de fevereiro informa que o Tribunal de Paris declarou a responsabilidade do governo da França pela inércia no combate às mudanças climáticas. Conforme explica a Revista Época, a ação foi movida por ONGs que reuniram mais de dois milhões de assinaturas. E Jorge Abraão enfatizou, em sua coluna na Folha de São Paulo, a relevância e o pioneirismo do resultado ao criar jurisprudência e referência, além de encorajar ações contra governos que não cumprem os compromissos assumidos. 

Já no Brasil, sabemos que o melhor caminho para alcançarmos nosso compromisso é pela redução e eliminação do desmatamento ilegal na Amazônia. Desafio necessário e viável, torna-se, no entanto, mais difícil de ser realizado à medida que o governo federal move mundos (e poucos fundos), desde 2019, para impedir a devida repressão a este crime ambiental. Como um agravante, a política local também é, em geral, grande aliada dos inimigos da floresta. A “desamazonização da Amazônia”, coluna de Fabiano Maisonnave na Folha, aborda a hegemonia do discurso antiambientalista na região, caracterizado pelo ínfimo contrapeso de políticos amazonenses de perfil socioambiental. Cabe questionarmos aí, além da forma de atuação da mídia local, também o papel que cumpre a abordagem da grande mídia nacional sobre aquela região, por vezes tratada como exótica e distante — a Amazônia vista com o olhar do Sudeste do Brasil.

A ação da mídia é fundamental para além das denúncias de crimes ambientais, mas mobilizando uma ampla e complexa visão socioambiental da região. Deve envolver, ainda, o estímulo às políticas de criação de maior valor agregado em atividades econômicas sustentáveis, que não deixem a população economicamente à mercê de um discurso ecologicamente suicida. A composição deste dilatado cenário de combate à emergência climática é complexa, mas certamente abrange mais que a atuação de organismos globais e das esferas federais. Tendo em vista o emaranhado de interesses em conflito na região amazônica, o cerne da questão parece mesmo requerer uma atuação direta em nível local.

* Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Jornalismo ambiental: complexidade para ligar os pontos

Imagem: Captura de tela do programa Direto ao Ponto de 8 de fevereiro de 2021. Jornalistas entrevistam Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente
Fonte: Reprodução Youtube / Canal Jovem Pan News

Por Débora Gallas Steigleder*

Neste Observatório de Jornalismo Ambiental, nossa principal tarefa é comentar os destaques da semana na cobertura jornalística sobre meio ambiente. Mas o que priorizar quando percebemos a sobreposição de debates urgentes em um curto espaço de tempo? A análise é ainda mais desafiadora quando há cobertura pulverizada sobre temas relevantes, mas que não são “pautas quentes”, ou seja, aqueles assuntos que, dotados de impacto evidente e inquestionável, repercutem em todos os noticiários do dia.

Dois conteúdos publicados na semana anterior inicialmente me chamaram a atenção pela relevância e pela similaridade de formato: são entrevistas com fontes de reconhecida autoridade em seu campo de atuação – a ciência. A primeira selecionada se chama Diretora de Meio Ambiente da OMS: “70% dos últimos surtos epidêmicos começaram com o desmatamento”. Trata-se de entrevista com María Neira realizada por Juan Miguel Hernández Bonilla e publicada em 6 de fevereiro em El País, traduzida da edição em espanhol. A fala de Neira alerta para a relação entre a conversão de florestas tropicais em áreas de agricultura intensiva e a propagação de novos vírus entre a população humana. 

Este tema não é inédito para o jornalismo, pois ele já havia sido tratado em profundidade, por exemplo, em uma reportagem de João Moreira Salles publicada em outubro de 2020 na Revista Piauí. O texto abordou a possibilidade de a Amazônia ser o epicentro de uma próxima pandemia devido ao acelerado processo de destruição da floresta. Mas, na medida em que as coberturas se tornam mais recorrentes, o público pode contemplar outras perspectivas para melhor compreender o fenômeno.

Neste sentido, outra entrevista publicada na mesma semana dá continuidade à necessária conversa sobre as conexões entre riscos ambientais e impactos na população humana e na biodiversidade, especificando a Amazônia como personagem principal. Savanização da Amazônia já está ocorrendo traz entrevista com o cientista Carlos Nobre realizada por Daniela Chiaretti e publicada em 5 de fevereiro em Valor Econômico.

Percebemos que a continuidade da cobertura complexa, que se propõe a ligar os pontos entre causas e consequências, problemas e soluções, é ainda mais urgente no contexto de domínio do poder por negacionistas da ciência. Em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, no dia 8 de fevereiro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu que o governo federal trabalha com “ações”. Ao ser questionado pela jornalista Sucena Shkrada Resk sobre as políticas ambientais que deveriam ser implementadas frente ao processo de savanização da Amazônia constatado por Carlos Nobre, Salles disse se tratar de uma “opinião alarmista”. 

Na sequência, em resposta à jornalista Ana Carolina Amaral, que o questionou sobre as decisões do governo contestadas judicialmente por ausência de embasamento técnico, o ministro deslegitimou a atuação das organizações não governamentais, universidades e imprensa. Afirmou que “a imprensa, aparelhada pela esquerda, e os partidos se juntam e tocam ação no Judiciário” e que a afirmação de que o país sofre com o desmonte ambiental é “militância disfarçada de jornalismo”.

De cara com o desmonte para o qual o governo fecha os olhos, o jornalismo ambiental deve seguir no esforço de evidenciar os riscos globais, atuando de forma contínua e se valendo de diferentes formas e conteúdos para realizar a cobertura de pautas tão urgentes. Afinal, somente uma diversidade de abordagens pode dar conta da complexidade dos fenômenos ambientais.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deboragallas@gmail.com.

Brasileiros percebem o problema das mudanças climáticas, mas o que falta para o país encarar a questão?

Imagem: Reprodução parcial de notícia d’O Globo publicada em 04/02/2021

Por Ângela Camana*

Na primeira semana de fevereiro, diversas pautas ambientais dominaram os noticiários – o acordo da Vale para reparação em Brumadinho e a possibilidade de extração de petróleo próximo ao arquipélago de Fernando de Noronha acenderam um alerta para condução das questões de preservação no país. Na contramão destes acontecimentos, a divulgação de uma pesquisa realizada no ano passado surpreendeu pelos resultados positivos: a percepção de que as mudanças climáticas estão em curso é quase uma unanimidade entre os brasileiros, e 77% dos entrevistados reconhecem que tais transformações são provocadas pela ação humana.  O estudo, encomendado pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio) em parceria com o Programa de Comunicação de Mudanças Climáticas da Universidade de Yale, foi conduzido pelo IBOPE em todo o Brasil entre os meses de setembro e outubro de 2020. A iniciativa lançou um site próprio, no qual a pesquisa completa pode ser acessada.

Os dados são robustos e levantam questões importantes, que deveriam ressoar na atuação da imprensa. O primeiro deles é o fato de que 77% dos brasileiros dizem que a preservação ambiental deveria ser prioridade, e não o crescimento econômico – o contrário, aliás, das práticas do atual governo. Além disso, quando perguntados sobre as queimadas na Amazônia, mais da metade dos entrevistados defende que cabe ao Estado buscar soluções. Esta cobrança de atitudes dos governantes e de políticas públicas preservacionistas poucas vezes é vista no jornalismo sobre meio ambiente, que ainda se dedica a pautas baseadas em ações individuais. Os dados sugerem que a imprensa assuma um papel mais ativo a fim de fiscalizar e pautar políticos e instituições, chamando-os para a ação.

Um segundo elemento que merece destaque – e que deve chamar a imprensa brasileira à responsabilidade – dá conta de que, apesar de reconhecerem a questão como importante, apenas 25% dos entrevistados dizem ter conhecimento o bastante sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas. Este número está, ainda, associado à escolaridade e acesso à internet, o que demonstra a importância do papel que a grande imprensa pode realizar, expondo o tema aos estratos sociais brasileiros menos escolarizados — que são, em geral, os mais vulneráveis aos próprios efeitos das mudanças climáticas.

Ainda que se deva reconhecer a dificuldade da cobertura desta temática, este dado corrobora para o diagnóstico de que o jornalismo brasileiro ainda é muito fragmentado e preso ao factual. Os números deste estudo abrem margem para que se produza conteúdo, em seus diversos formatos, com maior profundidade. A própria repercussão do estudo na grande imprensa  foi pouco além de reproduzir os dados e compará-los com pesquisa semelhante realizada nos Estados Unidos, perdendo a oportunidade de produzir análises de qualidade. Isso para não falar da ausência de autocrítica.

Por fim, a investigação divulgada nesta semana reforça a importância de que jornalistas se engajem com a temática ambiental, buscando ampliar seu repertório face às principais questões da atualidade. É o que propõem iniciativas como o ClimaInfo  e mesmo o Minimanual para a cobertura jornalística das mudanças climáticas, lançado por este grupo.


*Ângela Camana é jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia. Membro do GPJA e do TEMAS (Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade). E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Uma resposta à fragmentação das informações pelo jornalismo hegemônico

Fonte: Captura parcial de tela do site GGN

Por Eliege Fante*

A fragmentação das informações, ou a sua apresentação na forma de “retalhos”, difundida pelo jornalismo hegemônico, mais uma vez não somou para a compreensão dos conceitos em disputa na sociedade. É o caso de bioeconomia, um dos principais assuntos do Fórum Econômico de Davos, virtual devido à pandemia da Covid-19 e realizado entre 25 e 29 de janeiro de 2021. Neste link, a notícia do Estadão repetiu as ideias do presidente da Natura, fonte e empresa cativas nas pautas sobre bioeconomia e desenvolvimento sustentável. E apenas reiterou os três pilares da bioeconomia, já circulantes: ciência, pesquisa e inovação, respeito às comunidades locais e desenvolvimento econômico com a “floresta em pé”. Contudo, como esse processo raramente é descrito, problematizado e tampouco as comunidades locais são ouvidas, no mesmo volume e dimensão que os players da grande economia, as informações permanecem fragmentadas tal como “retalhos” dispersos e a serem costurados por quem lê e busca uma compreensão para tentar participar, com alguma lucidez, dos debates sobre os destinos das políticas públicas. 

Por se tratar de uma cobertura, era de se esperar que os assuntos tratados fossem explicados e até tivessem a reflexão aprofundada numa notícia. Neste sentido, a diversidade de fontes no mesmo texto é imprescindível: mais de uma fonte, sendo não somente o contraditório e com exposição do pluralismo; superação do preconceito de que os públicos não leem notícias complexas; ampliação do conceito de “autoridade no assunto” para muito além das fontes oficiais, ou no mínimo, das repetidas exaustivamente. Esses modos de “costurar os retalhos” das informações sobre bioeconomia, entre outros, não são novos, porém são mais conhecidos pelos jornalistas e, não tanto pelos profissionais encarregados de decidir como uma notícia vai ser publicada, por serem mais alinhados aos interesses singulares das empresas de comunicação do que à deontologia do Jornalismo.

Assim, a notícia de cobertura sobre o Fórum de Davos e a bioeconomia acabou cedendo um espaço maior a outro assunto muito sério e, da mesma maneira, com informações fragmentadas. Mas, não foi com qualquer “retalho”: transmitiu a posição do presidente da Natura sobre os debates em torno dos pedidos de impeachment de Bolsonaro (sem partido, 2019-2022), que vêm ganhando força, inclusive sendo organizados por membros da direita brasileira e movimentos que somaram para a deflagração do Golpe de 2016 contra a Presidenta Dilma Rousseff (PT, 2015-2016): a de que o impeachment é desnecessário em nome do “bom senso”. Só que a comparação feita pela fonte entrevistada, entre a “insatisfação” e a “frustração”, expressadas pela população dos países europeus com a da população brasileira, desconsiderou todas as informações reunidas em quase um ano de pandemia, e que um único documento sintetizou dramaticamente: que dos 98 países que tiveram as respostas à Covid-19 avaliadas, o Brasil obteve o pior desempenho.   

Para responder ao desafio de costurar os “retalhos” de informações difundidas pelo jornalismo hegemônico, sobre bioeconomia e outros importantes temas cujos sentidos estão em permanente disputa, e visando uma efetiva participação democrática, cada cidadão e cidadã precisa buscar os blogs de jornalistas, como o GGN de Luís Nassif, o qual difundiu os vídeos do Fórum Social Mundial 2021, há 20 anos alternativo ao Econômico de Davos. E, ainda, pesquisar os documentos das ONG’s, tão criticadas pelo atual governo federal, mas que vêm aprofundando e problematizando os sentidos do desenvolvimento sustentável, da economia verde e da bioeconomia, como este da Fundação Heinrich Boll de 2014. Sem esquecer de apoiar ativamente o fortalecimento da luta pela democratização da comunicação

* Eliege Fante é jornalista e pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação. Integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e é associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS). E-mail: gippcom@gmail.com

A humanização no jornalismo ambiental brasileiro

Imagem: Reprodução de notícia publicada em Mongabay no dia 18/01/2021

Por Patrícia Kolling*

Começar a ler um texto jornalístico, se deparando com a foto acima, que reflete um sorriso franco, um olhar firme e um rosto expressivo, é como sentir vida no texto e na história. O texto referente à foto conta a história de Osvalinda Alves Pereira, trabalhadora rural que vive no Projeto de Assentamento Areia, no município de Trairão, no sudeste do Pará. No dia 24 de novembro ela foi a primeira brasileira a receber o prêmio Edelstam, premiação sueca concedida as pessoas que contribuíram de forma excepcional, e com grande coragem para a defesa dos direitos humanos.

Segundo a notícia, em 2012, Osvalinda montou uma associação de mulheres para capacitar agricultores a difundir o projeto agroflorestal já consolidado em seu lote. O sistema criava alternativa de trabalho e renda para os assentados até então submetidos a condições análogas à de escravos na extração de madeira. Desde então, uma série de ameaças foram feitas a Osvalinda e ao seu marido Daniel. Duas sepulturas (com cruzes) foram construídas a 100 metros da sua casa em 2018, o que levou o casal a se retirar do assentamento durante 18 meses.

O assentamento é porta de entrada para um corredor de áreas protegidas e, cobiçadas por madeireiros ilegais. Ler a história, os dramas e as conquistas da mulher e trabalhadora rural Osvalinda nos aproxima da realidade vivida por ela e por outras centenas ou até milhares de pessoas que lutam pela preservação ambiental.

O jornalismo ganha seus méritos, quando suas notícias e reportagens abrem espaço para histórias de vida e relatos humanizados que nos aproximam das pessoas e das causas ambientais, como se elas estivessem acontecendo do lado da nossa casa, e não a milhares de quilômetros de distância. O texto vai entrelaçando a história de Osvalinda a outras informações, trazendo à tona as contradições nos discursos políticos, as irregularidades na fiscalização da exportação de madeira e também números sobre o aumento de áreas de desmatamento, que teve seu maior patamar da década, e, paralelamente, a redução das autuações por esse crime.

A reportagem, relação com a história de Osvalinda, mostra como a desestruturação das atividades de fiscalização ambiental, podem deixar ainda mais desprotegidas pessoas que, como ela, defendem os direitos humanos e se opõe a realização desta prática ilegal. Ou seja, nos permite ver como as determinações governamentais, criadas e aprovadas em Brasília, que privilegiam a impunidade, podem impactar no dia a dia das pessoas Brasil a fora, colocando em risco suas vidas.

É claro, que, jornalisticamente falando, Osvalinda foi pauta desta matéria devido ao prêmio recebido internacionalmente, o que dá caráter de atualidade e novidade a notícia, porém, mesmo que não tivesse sido premiada, é uma cidadã com uma história de vida determinante para instituir a empatia da sociedade às causas ambientais. No mesmo dia da publicação da notícia do Mongabay, 18 de janeiro, o Jornal Nacional veiculou uma notícia com números sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, incluindo o Pará, como estado em que o aumento do desmatamento foi mais significativo. Notícia bem produzida, com dados do Instituto Imazon, muitas imagens, mas na qual sentiu-se falta de uma Osvalinda para despertar no telespectador a sensibilidade às causas ambientais.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

Crise da Covid-19 e ataques à imprensa e aos ativistas seguem como desafios para 2021

Imagem: Reprodução de notícia do UOL, de 16/01/2021

Por Cláudia Herte de Moraes*

No retorno do recesso e das “festas” de final de ano, logo nos deparamos com a realidade que infelizmente assola o mundo: a pandemia ainda persiste e o desfecho em nosso país continua totalmente envolto em incertezas. Os votos de um ano bom – aqueles feitos na virada do ano – não esconderam a grande dor que assola milhares de famílias brasileiras, que choram as mais de 200 mil mortes decorrentes da Covid-19. Ano passado parece que ainda não terminou, infelizmente. Muitos entoamos com esperança o verso que foi revivido em canção por Belchior e, mais recentemente, por Emicida: Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro. Ninguém aguenta mais, pois as tristezas são diárias e há tanto a fazer.

Nesta semana, a gravidade da situação da crise da saúde pública no Brasil se mostrou mais uma vez ao mundo, quando o oxigênio simplesmente faltou no Amazonas, matando vários pacientes que dele dependiam e colocando em risco de morte outros tantos, incluindo bebês prematuros e todos e todas que estão sob cuidados médicos no estado. Vale a pena destacar a reportagem de Wanderley Preite Sobrinho no UOL que traz uma análise de múltiplos fatores contribuintes para o descalabro que se instalou em Manaus – e que sirvam os alertas aos governos e aos cidadãos para uma atuação efetiva contra a pandemia em todo território.

Não é de hoje que os inimigos declarados daqueles que ocupam o poder estão tanto na imprensa, quanto entre ONGs e ativistas de modo geral, isso porque as denúncias e alertas decorrem especialmente destes setores. Em 2020, o direito à liberdade de expressão e de imprensa foi violado inúmeras vezes. No ano anterior (2019), um relatório da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) já apontava que a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência havia contribuído “grandemente” para derrubar a posição do Brasil no ranking da Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa, por dois anos seguidos.

No Brasil de 2021 seguem os ataques à imprensa, especialmente àquela considerada progressista, àquela que investiga o poder de forma mais independente. O site do Repórter Brasil, por exemplo, foi atacado com exigências de que apagassem arquivos de reportagens que denunciavam o mal dos venenos/agrotóxicos. Em 7 de janeiro, houve uma tentativa de invasão física ao local. O prognóstico é que estes ataques continuem, como pontuou Natália Viana da Agência Pública.

Em julho de 2020, a notícia foi o levantamento sobre a morte de ativistas ambientais e de direitos humanos, que são crescentes no mundo, sendo os indígenas os mais vulneráveis aos ataques. O Brasil figura em vexatório 3º lugar, segundo a ONG Global Witness. O ativismo ambiental é considerado essencial para o enfrentamento da mudança climática. A ocorrência de constantes assassinatos de ativistas diz muito sobre como a sociedade não defende aquelas e aqueles que lutam efetivamente por um futuro sustentável, viável e equilibrado.

Em 2021 precisamos pensar na construção de um “novo normal” que esteja baseado nos direitos fundamentais de todas e todos, com liberdade de expressão e de imprensa e com atuação firme de jornalistas e da sociedade contra os desgovernos na saúde e no ambiente. Precisamos lutar pela vida acima da morte e pelo ambiente sustentável acima do lucro.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E Mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Toda pauta é ambiental: natal, consumo e o meio ambiente em liquidação

Fonte: Luiz Antonio Toni por Pixabay 

*Por Ursula Schilling

O planeta tem limites. Essa deveria ser a premissa para tudo o que fazemos: trabalhar, produzir, consumir e, claro, informar. Mas caminhamos a passos ligeiros na direção oposta a isso. Agimos como se tudo o que a Terra e a terra nos fornecem fosse inesgotável. E pouco valesse.

É uma lógica, conforme destacou Reges Schwaab no seu texto da semana passada para este observatório (se você ainda não leu, leia), “reflexo de uma relação com o mundo, e com os demais, pautada por fatias de realidade, descompassada do tempo natural e alicerçada em aparências “.

Compramos, usamos pouco, descartamos e compramos de novo, mesmo que algo de qualidade muito duvidosa, que custe pouco ou muito) e que (talvez) tenha explorado trabalho escravo ou mão-de-obra infantil, para que possamos saciar, temporariamente, nossa sede de ter algo, não importa o que.

Como um item de vestuário, por exemplo, custa menos do que a matéria-prima, o processo de manufatura, a confecção e a etapa de distribuição? No mínimo, é uma conta que não tem como fechar. No caso de eletroeletrônicos, tomamos como normal a obsolescência programada.

Fonte: Captura de tela do site Agência Brasil

Seguimos nesse movimento e nos esquecemos de que, como muito bem lembrou recentemente em suas redes sociais o jornalista André Trigueiro, quando jogamos algo fora, por mais que aquilo “suma” da nossa vista, não existe “fora”. Podemos até ignorar o que não é nossa realidade imediata, mas isso não significa que não existam ilhas de lixos de textil, eletrônico e outros, em algum lugar altamente degradado.

No natal, e em outras datas comemorativas que foram mercantilizadas, transformadas em eventos comerciais e não mais sociais, familiares e festivos, não é diferente. Em 2020, apesar da dita crise, e de uma pandemia em níveis ainda críticos, notícias de diversos sites dão conta de que o comércio pretende comemorar as vendas ou, pelo menos, correr para isso.

Mesmo com o aumento dos casos de Covid-19, o horário dos estabelecimentos, em Porto Alegre, por exemplo, foi ampliado.
Defendemos, sustentando o discurso da indústria e do varejo, e que só interessa aos ricos, que é preciso fazer a roda da economia girar, que é preciso consumir para gerar empregos, que é com emprego que a sociedade será mais igualitária e as pessoas terão uma vida mais digna. Por favor, me diga, com fatos e dados, se vivemos num mundo justo e igualitário e se somente eu estou no lugar errado.

Antes de manifestações reacionárias, deixo registrado que não questiono a importância do trabalho, da renda (digna), de bens essenciais para uma vida também digna. Tampouco, que não celebremos datas, que não tenhamos nossos ritos e que não presenteemos pessoas queridas. A questão aqui é vivermos numa eterna black friday e tratarmos o consumo como solução. Não paramos para enxergá-lo, assim como está estabelecido, como um grande causador da degradação da natureza, entendida a natureza como tudo que é vivo na face da mãe Gaia, incluindo nós.

É por isso que o jornalismo tem, para o bem e para o mal, um papel preponderante nessa cadeia. O que se vê, inclusive a partir de diversas análises deste canal, é uma mídia tradicional, e geralmente de massa, que sustenta, apoia e dissemina esse discurso dominante e contribui para manter relações de dominação e produção.

A cada natal, os cidadãos, nesse contexto, meros consumidores, são conclamados a girar a roda da economia. O meio ambiente, que passa ao largo das abordagens, continua aqui, sendo explorado, esgotado e ignorado pelo frenesi coletivo do consumo. Das editorias de economia, de onde pululam projeções, comemorações de alta nas vendas, supersafras e crescimento no PIB, deveriam também surgir perguntas como “e quando a (in)esgotável fonte de recursos acabar?”.

Aqui, mais uma vez, o jornalismo ambiental, destacados dele dois eixos, desponta como um norte. Somente com uma visão sistêmica nas redações, que liga os pontos, que relaciona diferentes esferas da vida, a causa ambiental poderá ser tratada com profundidade e seriedade. Ao mesmo tempo, para que isso ocorra, é preciso que essa seja uma pauta transversal a todos os assuntos possíveis. Ou seja, economia, cultura e política são editorias ambientais, sim. E muito. Cabe ainda um terceiro eixo: nada disso ocorrerá sem uma adequada formação do jornalista.

Não há respostas prontas, mas é certo que, se superarmos um modelo de educação (que também reverbera no jornalismo) que memoriza, replica e não questiona, um modelo que teme o antagonismo, podemos tentar romper barreiras.

É um assunto complexo, que move paixões e, principalmente, que mexe com interesses e forças políticas e econômicas que parecem impossíveis de superar. Mas é preciso começar pelo começo. Pela reflexão, pelo questionamento, pela crítica, é desacomodando velhos e novos conceitos, que nem sabemos se não nossos, e colocando em xeque o status quo, que forças de oposição poderão começar a se mover no sentido de reverter a dramática situação inúmeras vezes aqui constatada.

Não será uma virada de chave fácil, mas, cedo ou tarde, compreenderemos que habitamos TODOS o mesmo planeta. Espero que não tão tarde.
(seja modesto e crítico nas suas compras de natal)


*Jornalista e membro Núcleo de Ecojornalistas do RS e do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Comendo o planeta: nós e o jornalismo podemos nos libertar do autoengano?

Imagem: Reges Schwaab

Por Reges Schwaab*

Para ir em direção ao colapso, o conjunto de humanos tem mantido sua habilidade de andar a passos largos. Essa caminhada é reflexo de uma relação com o mundo, e com os demais, pautada por fatias de realidade, descompassada do tempo natural e alicerçada em aparências. Nossa ação, em geral, não vem tramada pelo coletivo e pelo cuidado com a vida, mas por balizadores de esferas privadas. E nem há um incentivo, em perspectiva macro e política, para isso. A emergência ambiental e climática pode até ser escrita como urgente na manchete, mas é incômoda no imediato, por isso deixada de lado e negada no comportamento cotidiano.

A reflexão precisa ser contundente. E parece novamente importante de ser trabalhada quando lemos que o total de objetos construídos pela humanidade supera, pela primeira vez, a massa dos seres vivos na Terra. Conforme matéria da Folha de S. Paulo, “a transformação de matérias-primas naturais em artefatos humanos cresceu de forma tão vertiginosa que, a cada semana, os novos objetos feitos pela nossa espécie superam o peso corporal de cada pessoa viva hoje”. A pesquisa foi publicada na revista científica Nature por uma equipe do Instituto Weizmann de Ciência. Os plásticos já superam todos os animais somados: são oito gigatoneladas (bilhões de toneladas) contra quatro gigatoneladas dos animais, revela o estudo.

A leitura da notícia acabou permeada aqui por uma provocação do líder índigena Ailton Krenak, ambientalista, filósofo e escritor. Feita em outro contexto, mas adequada ao que parece necessário em termos de debate. É uma afirmação com potencialidade de ruptura com a mesmidade da nossa relação com o entorno:

Outro dia fiz um comentário público de que a ideia de sustentabilidade era uma vaidade pessoal, e isso irritou muitas pessoas. Disseram que eu estava fazendo uma afirmação que desorganizava uma série de iniciativas que tinham como propósito educar as pessoas para a sustentabilidade. Aí eu disse: “Eu concordo com você que nós precisamos nos educar sobre isso, mas não é inventando um mito da sustentabilidade que nós vamos, de verdade, trabalhar pra isso”. Inventando um mito da sustentabilidade, nós vamos apenas nos enganar, mais uma vez, como quando inventamos as religiões, por exemplo. Tem gente que fica muito confortável se contorcendo na ioga, ralando no caminho de Santiago ou rolando no Himalaia, achando que com isso está se elevando. Na verdade, o que ele está fazendo é só uma fricção com a paisagem, não vai fazer ninguém sair do ponto morto. Então, é uma provocação acerca do egoísmo. Eu não vou me salvar sozinho de nada! Eu não tenho fuga. Nós estamos todos enrascados. E eu acho que seria irresponsável ficar dizendo para as pessoas que se nós economizarmos água, ou se só comermos orgânicos e andarmos de bicicleta, nós vamos diminuir a velocidade com que nós estamos comendo o mundo.**

A mágica desse pensamento provocador é justamente mostrar que é preciso quebrar o automatismo. A existência, para ir além da mera sobrevivência, precisa de um lugar de começar, para nós e para o jornalismo. No conjunto de críticas que lemos aqui, no sentido de como o jornalismo nos interessa, temos posto que é necessário distender o tempo–espaço que habitamos, pensando nossas vidas por modos que não neguem o compartilhar.

Krenak não desconsidera a ação sustentável, mas chama a atenção para a necessidade de um pensamento que abarque todos os seres. Sem essa ótica solidária aberta, não apenas humana, outros saberes e modos de ser, para além da nossa experiência objetiva, continuam desconsiderados. Fazer esse tipo de comunicação nos leva a uma abordagem de atravessar, de ir a outros povos e ter com outras mediações culturais. Como o próprio Krenak costuma alertar em seus livros, nossos gestos não podem ser pautados apenas por um mundo de concreto, de ruas e de cidades, “que imprime no corpo da Terra a marca dos homens como se eles fossem a única existência inteligente e sensível”.

Nossos movimentos narrativos, portanto, não deveriam reforçar a predação que dá origem a relatos como esse da pesquisa mencionada, de um andar hegemônico, que nos propõe ir pelo mundo como se a proposta desenvolvimentista branca e ocidental fosse a única inteligência válida. A mesma inteligência que já sabe o que está fazendo, mas celebra o autoengano. Quando alguém aponta o equívoco, a reação é considerar a crítica radical. A reação do jornalismo é, também, ver utopia, a impossibilidade. Em geral, nos mantemos brutais em alimentar a colisão, encerrados em nossa fixação aos objetos, dependentes da máquina de fazer coisas, como reflete Krenak, uma máquina que não queremos desligar. Por isso, quando vai falar, o jornalismo também gosta desse lugar confortável.

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