Desmatamento recua, mas não há o que celebrar

Por Ângela Camana*

Foto: USP Imagens

Lançado na semana passada, o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil indicou, pela primeira vez na série histórica, queda no desmatamento em todos os biomas do país. Os dados, que se referem a 2024, são da iniciativa MapBiomas, que há seis anos reúne informações sobre a perda de vegetação nativa no Brasil. As chamadas dos principais portais de jornalismo destacam a tendência de queda, mas, quando muito, relegam à linha de apoio o fato de que os dados ainda são alarmantes.

Ultrapassando a Amazônia, o bioma com maior área desmatada é o Cerrado, pelo segundo ano consecutivo. A região conhecida como Matopiba, que reúne os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, concentrou 75% dos mais de 650 mil hectares perdidos no bioma. Já no acumulado de 2019 a 2024, o Pará, onde neste ano se realiza a COP-30, é o estado com maior área desmatada com cerca de 2 milhões de hectares suprimidos.

Estes dados não são triviais, já que correspondem justamente a regiões cuja força motriz tem sido o agronegócio. De acordo com a série histórica do MapBiomas, 97% de toda a perda de vegetação nativa no Brasil esta conectada à expansão de fronteira agropecuária. O Brasil de Fato foi o único veículo a destacar este dado, convocando outros dados para além do release amplamente divulgado na imprensa e criticando, inclusive o desmatamento considerado legal, nos marcos do Código Florestal.

Também chama a atenção que o relatório pondera o papel do desastre ocorrido no Rio Grande do Sul: o estado passou a ocupar o terceiro lugar dentre os estados da Mata Atlântica com maiores perdas de vegetação nativa em 2024. Isso se dá em função dos eventos climáticos extremos, que desencadeiam deslizamentos de encostas, revelando mais uma face da intrincada relação entre desmatamento e mudanças climáticas.

Com uma cobertura que foca em números, sem esforço amplo de contextualização, o desmatamento e a perda de vegetação nativa se resumem a dados abstratos. Após o recente desmantelamento das políticas ambientais e de monitoramento, evidente que qualquer redução nos índices de desmatamento representa um alívio, mas falta ao jornalismo abordar com seriedade os vetores desta derrubada – e quem lucra com estas atividades extrativas.

*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com

A invisibilidade da agricultura familiar nas coberturas das cheias

Foto: Pedro H. Tesch/Flickr

Jessica Thais Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**

Um dos papeis sociais do jornalismo é de oportunizar voz e vez. Em tempos de desastres, é necessário compromisso social para ouvir aqueles que são invisibilizados: pessoas da periferia, trabalhadores rurais, comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, entre outros. Por isso é importante expor a realidade de quem vive à margem da atenção midiática, mas sofre mais constantemente com as mudanças climáticas, como é o caso dos agricultores familiares que lidam na terra e muitas vezes ficam sem a produção do próprio alimento em função de desastres socioambientais.

As jornadas de agricultores familiares são intensas. Geralmente, trabalham entre 12 e 16 horas por dia. No campo, não tem final de semana. Não tem feriado. Enquanto muitos na cidade celebram datas como o Natal e o Ano Novo, eles seguem trabalhando para garantir comida na mesa de milhões. Dar voz a essas pessoas por meio dos veículos de comunicação é reconhecer sua importância e romper com a lógica de um jornalismo hegemônico que, muitas vezes, prioriza apenas o agronegócio ou simplesmente não considera os impactos dos desastres para a agricultura familiar. Um exemplo publicado neste Observatório foi o caso das queimadas no Amazonas em 2022, em que não houve menção às perdas dos agricultores.

Da mesma forma, durante as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, o portal UOL pouco abordou a situação da agricultura familiar. Mesmo após o auge da crise, em agosto de 2024, uma das poucas matérias que tangenciam o assunto mencionava, na generalidade, a importância de políticas públicas que promovam a diversificação da produção agrícola (31/08/2024). A abordagem, ainda assim, foi de maneira superficial, com a mesma narrativa de aumento de produtividade e intrigando uma disputa com o agronegócio, ao invés de realçar a realidade dos pequenos agricultores e as formas diferenciadas de uso da terra no contexto da crise climática. A falta de reportagens em 2024 não se justifica, pois haviam dados disponíveis em órgãos como a Emater/RS-AScar, que divulgou ainda em junho de 2024 que mais de 206 mil propriedades rurais foram afetadas pelas enchentes no RS.

Em contraste, Brasil de Fato, veículo de comunicação popular, publicou várias matérias sobre o tema no mesmo período, denunciando as desigualdades no campo, oferecendo uma perspectiva popular e de luta de classes, e dando visibilidade à realidade e necessidade dos agricultores familiares no enfrentamento da calamidade. Entre os destaques estão reportagens como Chuvas no RS destroem lavouras de arroz e hortaliças do MST e provocam prejuízo de R$ 64 milhões (17/05/2024), que revela as deteriorações causadas pelas chuvas em inúmeros assentamentos da reforma agrária, e Enchente no Sul arrasa lavouras de arroz orgânico do MST; prejuízos podem chegar a 10 mil toneladas (09/05/2024), que expõe o impacto direto no que diz respeito à produção agroecológica do país.

Embora seja responsável por grande parte dos alimentos que chegam à nossa mesa, a agricultura familiar quase sempre é esquecida nas coberturas jornalísticas sobre tragédias climáticas. Ou, ao menos, é a última a ser lembrada. Os agricultores perderam tudo com a enchente: a plantação, o sustento, o chão e suas casas. Mas não perderam a esperança e buscam se reerguer, mesmo diante da invisibilidade imposta pelos veículos hegemônicos.

* Graduanda em Jornalismo na UFSM, integrante do PET Educom Clima (UFSM), bolsista do Fundo de Incentivo à Extensão (FIEX), E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

O olhar da comunicação pública no primeiro ano da enchente no Rio Grande do Sul

Série de reportagens produzida pela Agência Brasil aborda o histórico fenômeno climático sem tratar de meio ambiente

Isabelle Rieger/Sul21

Por Luciano Moraes Velleda*

A efeméride de um ano da enchente que devastou o Rio Grande do Sul em 2024 ganhou destaque na mídia nacional nos últimos dias de abril e no começo de maio. A Agência Brasil, uma agência pública de notícias vinculada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), enviou o repórter Pedro Rafael Vilela ao estado para produzir uma série de 11 reportagens, publicadas entre os dias 27 de abril e 1º de maio. 

Ao todo, o material inclui duas entrevistas com prefeitos (o mandatário da Capital, Sebastião Melo, e o prefeito de Cruzeiro do Sul, Cesar Leandro Marmitt), duas reportagens tendo construções como personagens (o Mercado Público de Porto Alegre e um casarão/restaurante em Arroio do Meio que resistiu a enchente), uma entrevista com o secretário da Casa Civil do governo federal para o apoio à reconstrução do RS, Maneco Hassen, além de outra reportagem dando conta dos embates políticos entre a União e o governador Eduardo Leite devido a demora para o início dos projetos de proteção contra cheias nas cidades da região metropolitana – o governo federal disponibilizou R$ 6,5 bilhões para essa finalidade, mas nenhum centavo foi usado até agora, sendo que cabe ao governo estadual elaborar e executar os projetos. 

A série de reportagens ainda inclui uma breve análise da situação do RS um ano depois, entre o caos da tragédia e o esforço de recuperação, assim como quatro matérias focadas no problema de moradia das milhares de pessoas que perderam suas casas e ainda lutam para ter uma nova residência. 

Embora trate de uma tragédia climática, as reportagens não abordam os muitos aspectos ambientais do RS que emergiram junto com as águas no último ano. Sem essa importante contextualização, as matérias focam em dados objetivos da reconstrução do estado, como investimentos em obras para recuperação da infraestrutura, incluindo os sistemas de proteção contra cheias e, principalmente, os números dos programas habitacionais que tentam dar conta de atender milhares de pessoas que perderam suas casas. Embora divulgue bons dados do cenário atual da reconstrução, no conjunto, a série peca pela ausência de visão ambiental da tragédia.

As duas entrevistas com os prefeitos chamam a atenção. No caso do prefeito de Porto Alegre, a reportagem não aborda nenhuma das questões polêmicas que envolvem as responsabilidades da Prefeitura na dimensão da tragédia. O caminho escolhido pelo repórter foi dar voz ao prefeito para tratar da reconstrução dos diques e comportas que compõem o sistema de proteção da Capital, assim como os entraves no avanço dos  projetos de moradia. 

O prefeito da Capital também diz que as causas do alagamento não foram as casas de bombas que não funcionaram – cuja manutenção é sua responsabilidade –, preferindo enfatizar que o problema da enchente na cidade foi a falha de proteção dos diques, construídos há muitas décadas, compondo um discurso que o isenta de responsabilidade – ainda que a manutenção dos diques e comportas também esteja sob a alçada do governo municipal. Apesar de haver informações de especialistas que contestam a análise do prefeito, a entrevista não o questiona nesse sentido.

A ausência de uma postura mais incisiva do repórter tem sido uma característica da Agência Brasil, que não costuma confrontar de modo mais veemente suas fontes. Embora, ressalte-se, não há nada que estabeleça que uma agência pública deve ser menos contestadora.

Bem diferente é a entrevista com o prefeito de Cruzeiro do Sul, Cesar Leandro Marmitt. Sincero, ele conta não ter recurso para contratar um terceiro engenheiro para trabalhar nos projetos de moradia que irão reassentar centenas de famílias que perderam suas casas, diz não ter sequer um ginásio para ser um ponto de referência num plano de contingência e afirma não ter dúvidas de que a sua cidade e outras do Vale do Taquari, não têm condições de enfrentar novamente um cenário parecido com o de 2024. “Com todas as palavras, eu vou dizer, nós não estamos preparados para enfrentar uma nova cheia deste porte. Não estamos preparados mesmo”, disse. 

A franqueza do prefeito de Cruzeiro do Sul dá a dimensão da dificuldade e dos desafios das cidades gaúchas para se recuperarem da tragédia e se prepararem para não sofrer algo semelhante novamente no futuro. Essa possível abordagem, todavia, não é tratada nas reportagens.

O aspecto mais humano da série está nas matérias cujo enfoque é a situação de moradia das vítimas da enchente. Mesclando dados dos projetos e programas habitacionais com histórias de vida, as reportagens mostram a ausência do lar como um dos aspectos mais dramáticos da trágica enchente. Ao todo, a série da Agência Brasil traça uma breve síntese da atual situação habitacional das vítimas da maior chuva já registrada no RS, ao mesmo tempo em que passa ao largo das muitas e importantes questões ambientais que afligem o território gaúcho.

*jornalista, sócio do Sul21, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Desigualdades, crise climática e o papel do jornalismo ambiental

Imagem: Isabelle Rieger / Sul21

Michel Misse Filho*

Soa cada vez mais anacrônico falar em crise climática e degradação ambiental sem que sejam pontuados as origens e consequências desiguais destes processos. Injustiça ambiental e climática, racismo ambiental, desigualdade socioambiental — seja lá o termo utilizado —, todos se referem à privação econômica e ao risco ambiental desproporcional a que estão submetidas parcelas socioeconomicamente vulneráveis da população, em geral não brancos, no campo ou na cidade, nas favelas e periferias.

Por muito tempo a produção de conhecimento sobre o tema ambiental negligenciou em grande parte essas nuances sociais, da academia ao jornalismo, passando pela formulação de políticas públicas. Ainda é comum que, na grande mídia, a cobertura ambiental seja feita em torno de grandes eventos — como as COPs e outras conferências —, grandes líderes ou em torno de tragédias ambientais. O jornalismo ambiental, porém, requer ir além do noticiário factual.

Um exemplo positivo foi, ainda em 2024, o especial de reportagens da Folha de São Paulo sobre desigualdades agravadas pela crise climática. A matéria alerta para a diferença de até 9º C de calor no bairro de Paraisópolis em comparação ao vizinho elitizado Morumbi, em São Paulo. Apesar da diferença entre os telhados, o principal fator indicado para a diferença é a vegetação. A desigualdade de arborização, como se pode supor, não é restrito ao caso em questão: constitui um padrão das cidades brasileiras, que certamente será destrinchado ao final deste ano, quando saírem os novos dados do Censo Demográfico. É papel do jornalismo, em conjunto à pesquisa científica, expor estes territórios e assimetrias.

Mais recentemente, na última semana a Folha publicou uma excelente matéria sobre a Ilha de Maré, o bairro mais negro de Salvador, impactado pelas indústrias e crise climática, com reclamações de contaminação química por parte dos moradores e falta de pescado. A reportagem é relativamente longa, com uma série de entrevistas de moradores atestando suas histórias e a gravidade da situação — dando voz às comunidades, como preza o bom jornalismo. Essas pessoas são remanescentes de um quilombo, com 97% da população formada por negros numa comunidade considerada rural, que sobrevivem da pesca artesanal, mariscagem e turismo. Há 20 anos eles pedem um estudo abrangente que meça os níveis de metal no mar.

É importante que reportagens deste tipo não estejam restritas aos especiais de reportagens como o organizado pela Folha, mas sejam pauta constante dos noticiários. A exposição constante das desigualdades ambientais — rurais e urbanas — é o primeiro passo para a aplicação de políticas públicas em territórios já acostumados com o esquecimento.

*jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Pesquisa do IBGE sobre baixa arborização em Santa Catarina mal repercute na mídia estadual


Imagem: Agência IBGE

Por Míriam Santini de Abreu*


A divulgação, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da pesquisa “Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios” rendeu, nos meios de comunicação, pautas sobre os dados de arborização. Segundo o Instituto, 58,7 milhões de pessoas (33,7%) moram em vias sem arborização, enquanto 114,9 milhões (66,0%) vivem em vias com presença de árvores, sendo que 55,8 milhões (32,1%) estão em vias com 5 árvores ou mais.
Na região Sul, duas situações chamaram a atenção: São José (SC) é o município de mais de 100 mil habitantes com menor percentual de moradores em vias com arborização (15,1%), enquanto Maringá, o maior (98,6%). Já Florianópolis está em 24º lugar, entre 27 capitais, no ranking das capitais mais arborizadas.


Na mídia catarinense, o fato repercutiu no Portal NSC Total, do grupo que comprou as operações da RBS em Santa Catarina, mas, em 13 parágrafos, a notícia não traz uma só entrevista. Aparece citado apenas o próprio IBGE. O texto, intitulado “Florianópolis está entre as cidades menos arborizadas do país, aponta IBGE”.

O Jornal do Almoço, do mesmo grupo, em notícia de 2 minutos e 23 segundos, limitou-se a apresentar os percentuais, também sem entrevistas.
O Diarinho, periódico do município de Itajaí, noticiou o fato sob o título “SC tem segundo pior índice de arborização do país”. O portal destaca que, entre as dez áreas urbanas com as menores taxas de arborização, Santa Catarina aparece com seis municípios, incluindo a capital, Florianópolis. O Diarinho traz, entre aspas, declaração de um analista do IBGE, mas não houve entrevista. É um trecho tirado da notícia publicada na Agência de Notícias do próprio instituto, também usada pelo Portal NSC Total, mas sem indicação de fonte.

As notícias não fazem qualquer relação com os motivos pelos quais Santa Catarina aparece tão mal no ranking, não cobram do poder público medidas para melhorar o índice de arborização, mostrando as consequências do fato apontado pelo IBGE, ignoram pesquisas científicas em diferentes áreas de conhecimento sobre o assunto (SC tem universidade pública federal e estadual) e não relacionam a realidade do estado com as mudanças climáticas. Dada a atualidade e relevância da pesquisa do IBGE, foi uma oportunidade perdida de fazer boa cobertura jornalística de um tema de interesse de toda a população.

*Míriam Santini de Abreu é jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

Um “novo normal” também para os jornalistas

Imagem: Connor McManus/Pexels

Por Sérgio Pereira*


Os eventos climáticos têm aumentado em frequência e intensidade, como alertam os cientistas, e uma expressão passou a se popularizar a partir disso: “novo normal”. Nascida primeiramente na pandemia de Covid-19, em 2020/2021, passou a ser empregada de igual forma após os eventos extremos dos últimos anos, como as cheias de 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul. O termo sugere a ideia de que precisamos entender que o mundo, como imaginávamos, não existe mais e que precisamos nos adaptar ao que vem pela frente.


As mudanças climáticas, antes ignoradas por uma parcela da sociedade, não estavam apenas batendo na nossa porta como também derrubando e carregando-a junto na correnteza. Até o presidente da Farsul, entidade conservadora ligada ao agronegócio, admitiu em entrevista ao Jornal do Comércio em março deste ano que “era” e que havia deixado de ser “negacionista sobre as mudanças climáticas”, o que provocou certa surpresa em alguns setores.


Poucos dias após essa declaração, Porto Alegre se viu novamente diante de um evento climático. Um temporal com ventos de 111 quilômetros por hora (medição superada apenas pelos 120 km/h registrados em 1º/10/2017 na capital) e chuvas intensas causaram destruição e novamente alagou parte da cidade. A população se viu mais uma vez em meio ao caos e tudo isso em menos de um ano após a grande enchente de 2024.


Se a sociedade precisa pensar em uma outra realidade, com novos desafios, precisamos igualmente refletir sobre um novo fazer jornalístico, com mais conhecimento científico e planejamento. Fritjof Capra, em 1982, já defendia que os jornalistas precisavam mudar e o “seu modo de pensar, fragmentário, deverá tornar-se holístico, desenvolvendo uma nova ética profissional baseada na consciência social e ecológica”. Outras rotinas se impõem ao trabalho dos profissionais de imprensa agora e devemos nos preparar para esse “novo normal”. Abaixo, deixo algumas propostas para reflexão com os colegas. São sugestões simples para enfrentarmos os tempos que estão por vir e, assim, não corrermos o risco de no futuro sermos arrastados pelos ventos da incerteza.


A prevenção precisa estar na pauta: conforme Alende Castro (2016), o jornalismo de prevenção “propõe a necessidade de vislumbrar os problemas, identificá-los, investigá-los e explicá-los ao público em vez de esperar que aconteçam para depois denunciá-los” (tradução nossa). O jornalista deve conhecer a realidade da sua região de cobertura e os seus perigos. Deve mapear os riscos e estar atento às crises em potencial. Por exemplo, se na sua cidade há chance de ocorrer desmoronamentos, é preciso pautar o assunto com frequência, alertar a população e cobrar providências das autoridades.

Uma pauta obrigatória, após as enchentes de setembro e novembro de 2023 no Rio Grande do Sul, proporia uma detalhada radiografia sobre os sistemas de proteção contra as águas do Rio Guaíba, em Porto Alegre. Isso poderia ter levantado questões importantes e, quem sabe, evitado algumas das consequências da cheia de abril/maio do ano seguinte. Esse mapeamento deve envolver todos os tipos de risco, não apenas os climáticos (secas, cheias, tornados, tempestades, terremotos, tsunamis…), mas também aqueles potencialmente provocados pela ação humana, especialmente a de escala predatória (mineração, indústrias de produtos tóxicos, barragens, usinas de energia, incêndios…). Essa sugestão vai ao encontro do Princípio da Precaução, que é um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental.

Palavra certa no momento certo: as redações devem se familiarizar e padronizar o uso de determinadas expressões, observando o correto sentido e a devida definição de cada termo. Overbeck e Pillar, por exemplo, alertam para o uso incorreto de “desmatamento” para se referir a qualquer tipo de vegetação suprimida, quando o uso correto é apenas em áreas de florestas. Se recomenda aqui a criação de um dicionário específico. O “Manual para a cobertura jornalística dos desastres climáticos”, lançado recentemente pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental, pode servir de ferramenta auxiliar para essa tarefa.

Contextualizar é conscientizar: cada texto envolvendo desastres ou riscos precisa ser devidamente contextualizado. Se uma encosta desaba, é importante buscar os motivos que levaram a essa crise. O jornalista deve buscar estudos científicos, referências e legislações ambientais que permitam ao consumidor de notícias compreender o que está acontecendo. Girardi e outros observam que o jornalista deve dar ênfase à contextualização na “expectativa de superar a fragmentação e a descontinuidade”, com “destaque para uma contextualização ampla, profunda e crítica (tecendo relações de causas e consequências) e a perspectiva sistêmica” (2020).

As lições da Comunicação de Risco: isso vale não apenas para os jornalistas de veículos de comunicação, já que é útil para os assessores de imprensa que trabalham em órgãos públicos, principalmente aos ligados à área de segurança e prestação de socorro. É importante que o repórter tenha algum conhecimento sobre sistema de gestão de riscos. Precisa dominar o vocabulário tanto das denominações técnicas como das populares. Há diversos cursos nesta área, como o do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, sobre como cobrir a crise climática e combater a desinformação. Ou do Instituto Reuters, que oferece um curso de jornalismo ambiental da Oxford Climate Journalism Network.

Sistematização na divulgação de alertas: com a adoção de avisos por parte da Defesa Civil em algumas comunidades, a imprensa passa a ter papel fundamental na multiplicação dessa informação. Importante, então, que os jornalistas discutam e planejem as formas mais rápidas e eficazes de difundir esses alarmes e deliberar sobre a necessidade de se criar formas para enfatizar os diferentes níveis de perigo (a exemplo das bandeiras verde, amarela e vermelha utilizadas pelos salva-vidas). Isso vale principalmente para as mídias eletrônicas, mas envolve também as impressas para os alertas a longo prazo.

O que fazer em situações de risco: os jornalistas expostos aos perigos precisam passar por cursos específicos para enfrentar esse tipo de situação. Há poucos dias viralizou uma imagem de uma repórter de TV do RS, em uma transmissão ao vivo, enfrentando os primeiros sinais dos fortes ventos do temporal de abril deste ano. As empresas de comunicação precisam preparar os profissionais para esse tipo de situação e observar a necessidade do fornecimento e uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) quando for o caso. Um bom exemplo vem da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que oferece em seu site, gratuitamente, o curso “Segurança para jornalistas”, abordando temas como primeiros socorros e gerenciamento de conflitos, entre outros.

Seguro de vida: os jornalistas que se expõem a situações de perigo e seus dependentes precisam estar devidamente assegurados. Por isso, as empresas jornalísticas deveriam contratar apólices de seguro para os seus profissionais, para dar um mínimo de segurança aos familiares de seus trabalhadores. As entidades de classe que representam os jornalistas podem incluir nas convenções coletivas cláusulas de proteção aos seus associados para os casos de cobertura de riscos, já que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não estabelece obrigatoriedade para esse tipo de caso.

Protocolos de reação: para as situações de risco, as redações precisam estabelecer previamente um protocolo tanto de cobertura como de segurança para seus profissionais. Da mesma forma que as empresas, a partir da década de 1980, proibiram os seus repórteres de se oferecerem na troca por reféns em casos de motim em presídios, o mesmo princípio protetor deve nortear as situações de emergências climáticas. Já para a cobertura, importante que esse protocolo tenha em mente a necessidade de que os jornalistas busquem fontes que permitam compreender o fenômeno, suas causas e consequências, além de incluir o termo “mudanças climáticas” quando de eventos extremos e de exceção, como a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul.

Outra visão de trabalho: em dias de alerta da Defesa Civil, as empresas jornalísticas devem flexibilizar o teletrabalho para seus jornalistas que não estão cobrindo os desastres in loco. Editores, diagramadores e repórteres que podem exercer suas atividades em casa, devem ser preservados. A imprensa também deveria defender o home office para todos os ramos de atividade quando as autoridades recomendarem o chamado “fique em casa” diante da previsão de eventos climáticos severos.

Desde o seu surgimento, no século XVII, a atividade jornalística tem se aprimorado e modificado, adaptando-se principalmente às evoluções tecnológicas, aos avanços da sociedade e às exigências do mercado de trabalho. O exercício da profissão, portanto, precisa seguir no caminho da atualização agora a partir das mudanças climáticas, que estão nos impactando diretamente e com uma frequência e força cada vez mais perigosas.

Referências:


ALENDE CASTRO, Silvia. Comunicar el riesgo desde la anticipación – El periodismo de prevención em la prensa gallega: una propuesta, Anuario Electrónico de Estudios em Comunicación Social “Dissertaciones”, v. 10, nº 2, p. 20-38, 2016.


AMARAL, Márcia Franz; LOOSE, Eloísa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho (Organizadoras). Manual para a cobertura jornalística dos desastres climáticos – 1ª ed. Santa Maria, RS: FACOS-UFSM, 2024. Disponível em: https://jornalismoemeioambiente.com/wp-content/uploads/2025/02/manual-para-a-cobertura-de-desastres-climaticos.pdf
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente. 25. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.


GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 279–291, 2020. Disponível em: https://www.reciis.icict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/2053

OVERBECK, Gerhard Ernest e PILLAR, Valério De Patta. Forest-biased terminology does not help to include open ecosystems in conservation policies. Perspectives in Ecology and Conservation, v. 22, n. 4, p. 328–330, out. 2024.

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com.

À margem das notícias e da precaução

Informações subdimensionadas em notícias da imprensa sobre impactos ecológicos da exploração de petróleo prejudicam avaliação pública sobre prospecções na margem equatorial brasileira 

Imagem: Adema/Governo do Sergipe

Por Heverton Lacerda*

Desde 2002, a Petrobras vem tentando obter licença para explorar petróleo na margem equatorial, uma região marítima da costa brasileira que se estende do Amapá até o Rio Grande do Norte. Apesar de críticas e alertas sobre os riscos ecológicos que a exploração de petróleo representa para os ecossistemas marinhos, o processo de licenciamento e as pressões do setor econômico seguem avançando. Notícia da Agência Brasil publicada no dia 6 de abril anunciou que a empresa petrolífera concluiu a construção de uma unidade para atendimento e reabilitação de fauna no Amapá. Essa estrutura soma ao Centro de Despetrolização e Reabilitação da Fauna que a Petrobras já mantém no Pará, em Belém. Ainda que a matéria não apresente dados estatísticos sobre tragédias anteriores, de modo a exemplificar os riscos envolvidos, fica evidente que a operação exige equipamentos para mitigar futuras tragédias ambientais. “A construção do equipamento é uma das exigências para que a empresa possa fazer perfurações para verificar a existência de petróleo no bloco FZA-M-59, em águas profundas do Amapá, a cerca de 500 km da foz do Rio Amazonas”, informa a matéria da jornalista Tâmara Freire.

Raoni

No dia 4, durante encontro do presidente Lula com o cacique Raoni na Terra Indígena Capoto-Jarina, no Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso, a liderança indígena enfatizou que a preservação ambiental do local em prospecção para estudos e exploração é importante para manter “a Terra com menos poluição e menos aquecimento”. Na ocasião do encontro, Raoni foi agraciado com a Ordem Nacional do Mérito, no grau Grã-Cruz, a mais alta honraria oficial do Brasil. O fato repercutiu nacionalmente em veículos como Carta Capital, Valor Econômico, Correio Braziliense, Infomoney, O Globo, Poder 360, Brasil 247, O Tempo, entre outros. Além de Raoni fornecer um gancho (uma oportunidade) para explorar o debate sobre os riscos ecológicos, ampliando ainda para a questão climática, os textos publicados não abordam o tema.

Precaução

Uma pesquisa publicada no periódico internacional Marine Environmental Research e divulgada pelo portal Fauna News revela que os impactos de um derramamento de petróleo ocorrido em 2019 no Nordeste brasileiro seguiam presentes em 2023. Os problemas observados pela pesquisa apontam para a ingestão de oleo e aumento da mortalidade da fauna marinha, evidenciando alterações comportamentais e nas proporções de sexo e tamanho de algumas espécies, além de anormalidades em larvas e ovos e consequências para populações humanas litorâneas. Outro ponto da pesquisa destacado no portal está relacionado à  extensão das áreas atingidas de cada ecossistema na tragédia ambiental de 2019, o que ajuda a dar uma dimensão dos riscos envolvidos. Os dados indicam que foram impactados 4.929,74 km² de áreas de estuários, 489,83 km² de florestas de mangue, 324,77 km² de prados de ervas marinhas, 185,30 km² de praias, 63,64 km² de planícies de maré, 45,95 km² de corais de águas profundas e 9,69 km² de corais de águas rasas.

Ao nominar ecossistemas em risco e apresentar as dimensões de áreas atingidas por tragédias, a cobertura jornalística sobre a margem equatorial tem a oportunidade de enriquecer o debate público. Para isso, seria fundamental que as notícias apresentassem maior contexto, o que contribuiria para o cumprimento do papel educativo, um pressuposto essencial reconhecido pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (Ufrgs/CNPq).

Além de fornecer contexto e educar, a cobertura poderia incorporar o princípio da precaução, um pressuposto que, conforme (Girard et al., 2020, p. 281), integra os fundamentos do jornalismo ambiental. Ao adotar o princípio da precaução, as notícias sobre a margem equatorial poderiam auxiliar a sociedade a formar uma opinião mais informada e a pressionar o governo em prol de medidas de proteção ambiental, antes que novas tragédias aconteçam.

*Heverton Lacerda, jornalista, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e presidente da Associação Gaúcha de Proteção  ao Ambiente Natural (Agapan).

Fórum Internacional do Meio Ambiente coloca o bioma Pampa no centro dos debates 

A 13ª edição do congresso contou com dois dias de discussões  intensas sobre a preservação da vegetação nativa, evento repercutiu de forma diversa na imprensa 

Bioma Pampa ocupa 69% do território gaúcho e é compartilhado / Imagem: Isabelle Rieger 

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

O bioma Pampa foi o centro dos debates ocorridos nos dias 26 e 27 de março durante o 13º Fórum Internacional do Meio Ambiente, promovido pela Associação Riograndense de Imprensa no auditório do Memorial da Assembleia Legislativa do Estado. Durante dois dias, os participantes puderam assistir palestras abordando temas cruciais para a proteção do Pampa, que ocupa 69% do território gaúcho e é compartilhado com o Uruguai e parte da Argentina.

Os painéis contemplaram os impactos das mudanças climáticas e projetos e práticas agropecuárias agressivas ao bioma, a regularização ambiental nos próximos anos, o potencial da pecuária para preservação e recuperação ambiental, geração de renda e produção de alimentos, o Pampa nos meios de comunicação e o potencial turístico e comercial do bioma. O evento teve a participação especial do cineasta Rogério Atama Rodrigues, diretor do filme Sobreviventes do Pampa (2025), que comentou a obra lançada em Porto Alegre. O longa mostra a relação de pessoas quilombolas, agricultores familiares e assentados da reforma agrária com a região. 

Pesquisadores, ambientalistas e jornalistas participaram e debateram os temas apresentados. Eles evidenciaram que, mesmo com sua beleza paisagística, riqueza cultural, sociobiodiversidade e potencial para a pecuária orgânica, o Pampa é um bioma ameaçado pelo avanço das monoculturas da soja e da silvicultura. As plantações de videiras e oliveiras foram apresentadas pelos palestrantes do evento como alternativa econômica para a região, desde que não sejam transformadas em monoculturas. 

No entanto, a ameaça do avanço da soja e do eucalipto traz consigo o uso dos agrotóxicos, como o 2,4 D, que prejudica as oliveiras e videiras com grandes quebras na produção, gerando um movimento para proibir o uso desse veneno na agricultura. Este agrotóxico também provoca graves doenças nos animais e seres humanos, sendo uma das causas de cânceres, conforme dados apresentados pelo Instituto Nacional do Câncer. A pecuária tradicional foi apresentada como importante prática para a  conservação das áreas campestres e destacada pela profunda relação com a cultura gaúcha e com o próprio artesanato de lã.

O fórum teve repercussão na imprensa em jornais como Correio do Povo, Jornal do Comércio, Brasil de Fato, Sul21, além de televisões e rádios. Os veículos destacaram tanto a necessidade de preservação do Pampa pela sua importância econômica como pela riqueza ambiental. O Correio do Povo, em 29/03 destacou o potencial econômico do bioma Pampa por meio do turismo, agricultura e pecuária com a manchete: “Fima debate potencial econômico”. O Jornal do Comércio de 28/03 também citou o potencial econômico do bioma, com a manchete de “Especialistas apontam potencial turístico do Pampa durante fórum em Porto Alegre”. Nesta reportagem, foi abordado o  uso indevido do agrotóxico 2,4 D, já que pode diminuir a potência econômica do local. 

Por sua vez  o Brasil de Fato, em 28/03, realçou a carta compromisso assinada em defesa do bioma.  O Sul21, em 27/03, destacou as mudanças climáticas como fatores de impacto da agricultura nas próximas décadas. Na Zero Hora, o presidente da Associação Rio Grandense de Imprensa, José Nunes, em 28/03, apelou para  a população gaúcha agir em defesa do bioma Pampa. O Fórum também foi mencionado na coluna da Juliana Bublitz, em 26/03. 

A divulgação do Pampa pela imprensa deveria ser constante em virtude das ameaças que sofre permanentemente e não ficar na dependência de eventos. No texto “As respostas do Pampa para as mudanças climáticas” as colegas Eliege Fante e Carine Massierer já discorreram sobre a relevância do bioma, enfatizando que mesmo esquecido pelas políticas públicas e pela imprensa, ele possui uma pecuária familiar tradicional em campo nativo que é sustentável ambiental e economicamente.

É necessário, assim, ressaltar que o Pampa tem uma biodiversidade que compreende cerca de 480 espécies de aves, quase cem espécies de mamíferos, 66 espécies de anfíbios e 97 répteis. Além disso, os povos e comunidades tradicionais do Pampa como indígenas, quilombolas, pecuaristas familiares, entre outros, que conferem outro olhar para a região, precisam ser conhecidos e valorizados. 

Ao concluir este texto e reconhecer a importância do 13º FIMA para chamar atenção para o Pampa, nos perguntamos: quando os problemas que afetam a existência do bioma serão resolvidos?

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com

Grupos de mídia de Florianópolis silenciam conflitos de interesses públicos e privados na especulação imobiliária no litoral

Imagem: Print/Reprodução/Jornal Já

Por Míriam Santini de Abreu*

Causou repercussão em Florianópolis (SC) a notícia do veículo “Já”, de Porto Alegre (RS), sobre o projeto de construção da uma avenida nos Ingleses, norte da Ilha de Santa Catarina, com a justificativa de desafogar o trânsito na região, uma das mais frequentadas por turistas durante a temporada de verão. A reportagem foi publicada no dia 12 de março na aba temática “Ambiente Já”

O veículo, que completa 40 anos de existência em 2025, expõe que o projeto foi encomendado e “doado” pelo empresário Fernando Marcondes de Mattos, proprietário do Costão do Santinho e do Costão Golf, ambos também no Norte da ilha. O fato é que a avenida, se aprovada e construída, facilitaria o projeto de expansão do Costão do Santinho. O principal obstáculo para o licenciamento, mostra o veículo, é a mobilidade na região onde, no verão, pode-se levar duas horas para vencer um trecho de dois quilômetros.

A notícia do “JÁ” expõe a frouxidão de tudo o que se entende por jornalismo na mídia de Florianópolis, incapaz de produzir notícias e reportagens sobre as consequências da voracidade imobiliária sobre o litoral do estado.

O vereador de Florianópolis Afrânio Boppré (PSOL), no Instagram, citou a notícia do “JÁ” e alfinetou: “Quem sabe estimula a imprensa local a cobrir o assunto, além das versões oficiais”

O portal ND+, do Grupo ND, trata do assunto em notícia intitulada “Projeto em Florianópolis prevê nova avenida para desafogar o trânsito no Norte da Ilha” e informa: “Em uma reunião na última quarta-feira (12), no Costão do Santinho, promovida pelo proprietário do resort, Fernando Marcondes de Mattos, com a presença do secretário municipal de Infraestrutura e Manutenção, Rafael Hahne, e das equipes de reportagem do Grupo ND, foram apresentados, em primeira mão, os detalhes deste plano”. Mas não há menção ao projeto de expansão do Costão do Santinho.

A construção do texto ressalta a “doação” do empresário e informa que “(…) a nova avenida será construída no espaço hoje ocupado por parte da faixa de areia, aproveitando o engordamento feito em 2023”. Em 12 linhas no final do texto, um engenheiro e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e uma moradora expõe preocupações sobre o impacto ambiental da obra, mas o portal não desenvolve a abordagem.

A CBN, do Grupo NSC, com o título “Florianópolis planeja nova avenida para melhorar mobilidade no Norte da Ilha”, entrevista o secretário Rafael Hahne, que menciona detalhes da obra citando apenas a Prefeitura.

Os demais veículos limitaram-se a reproduzir a versão da Prefeitura, sem se referir à prática questionável de misturar interesse público com interesse privado nem produzir notícias ou reportagens capazes de explicar as conexões entre o investimento com recursos públicos, as alternativas para a mobilidade na região e os impactos da projetada avenida. Não fosse a iniciativa noticiosa do veículo do estado vizinho, passaria em branco mais uma demonstração da tibieza da mídia local no debate sobre o impacto socioambiental dos grandes empreendimentos que pouco a pouco vão destruindo a faixa litorânea.

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

A perspectiva não humana no jornalismo pode conscientizar sobre as questões ambientais?

Imagem: Alaor Filho / Fotos Públicas

Por Débora Gallas*

Após assistir ao filme Flow, vencedor do Oscar de melhor longa de animação nesta edição de 2025, me peguei pensando em como a arte é capaz de nos expor à alteridade e modificar nossas percepções – o que pode, em última instância, alterar nossa forma de agir sobre a realidade. A mais recente coluna de Giovana Girardi na Agência Pública fala exatamente sobre o poder do filme em nos colocar no lugar dos personagens e nos fazer refletir sobre a resiliência possível diante das mudanças climáticas.

Na obra, um grupo de animais de diferentes espécies, origens e temperamentos acaba no mesmo barco durante uma inundação repentina e precisa cooperar para sobreviver. Ao sair da sessão, ainda emocionada, fiquei pensando se seria possível o jornalismo nos aproximar das carências e urgências vividas, por humanos e não humanos, diante do agravamento dos efeitos das mudanças climáticas.

O apelo puramente emocional em uma cobertura a faz tender para o sensacionalismo – distanciando-a, portanto, do jornalismo, que é comprometido com os fatos. Mas é possível tornar essa cobertura mais empática e calorosa? Seguindo no tema do filme, lembrei, por exemplo, da matéria publicada em Mongabay em 24 de fevereiro sobre a estratégia desenvolvida pelas onças da Amazônia para sobreviver aos períodos de inundações – elas passam a viver nas copas das árvores.

O texto de Tiago da Mota e Silva detalha como o monitoramento dos animais é realizado por cientistas do Instituto Mamirauá, no Amazonas, e que o envolvimento dos especialistas com o território e seus seres é fundamental para as descobertas. Assim, as onças não são entendidas como meros objetos de pesquisa, mas como sujeitos que resistem e se reorganizam diante das adversidades ambientais – de forma semelhante aos personagens de Flow. E quando nos damos conta que as mudanças climáticas podem causar ainda mais alterações nas inundações e nos ciclos de chuva na região, passamos a nos preocupar com esses animais, cuja capacidade de adaptação será colocada ainda mais à prova.

O desafio da resiliência diante das mudanças climáticas e a busca por adaptação também estão na reportagem de Sônia Bridi sobre a morte dos corais no litoral do Nordeste exibida pelo Fantástico, da TV Globo, em 9 de março. Com dados do projeto Coral Vivo, a reportagem alerta que a onda de calor de 2024 gerou perdas sem precedentes nos recifes, como a morte de 95% dos corais vela e corais de fogo.

Os corais são animais que sustentam esses frágeis ecossistemas, caracterizados também pelas algas que se associam à sua estrutura e aos peixes que visitam as colônias em busca de alimento, por exemplo. A ameaça é ainda maior com o turismo predatório, como visto nas piscinas de Maragogi, em Alagoas. A reportagem finaliza mostrando o bom exemplo de respeito dos pescadores que promovem o turismo ecológico, mas aludindo à responsabilidade das pessoas humanas em duas frentes: freando o aquecimento do planeta e evitando atividades que impactam o local.

Nós que pesquisamos o jornalismo ambiental precisamos ressaltar, em várias ocasiões, que ele não se reduz a curiosidades da natureza idílica. Falamos isso para lembrar os interlocutores, que nós, seres humanos, também somos natureza e sofremos com nossas próprias ações para degradar os bens naturais. No entanto, chegamos em um ponto em que a ideia de outro humano enfrentando algum revés por conta das mudanças climáticas talvez não nos gere tanta comoção. Para algumas pessoas, pode parecer mais do mesmo. Diante dessa indiferença, abordar as consequências da crise climática pelo ponto de vista não humano poderia, talvez, gerar mais compaixão?

Claro, existe uma linha tênue entre essa abordagem e uma que desmobilize pelo pessimismo ao mostrar plantas e animais como vítimas indefesas e inevitáveis de tragédias como incêndios, secas e enchentes, por exemplo. Porém, através da informação jornalística contextualizada e devidamente apurada, as pessoas conseguem perceber conexões entre fenômenos naturais e acontecimentos sociais, além de entender seu papel e de outros seres na resolução dos problemas identificados. Foi o que engajou pessoas de todo o Brasil no resgate do cavalo Caramelo durante as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.

Assim, identificamos onças pintadas, corais, cavalos e outros animais como vulneráveis ao imprevisível, mas, também, como sujeitos resilientes – como nós humanos somos, afinal. Essa identificação, quando bem expressa pelo jornalismo, pode ajudar não somente a reconhecermos nossas limitações, mas também inspirar nossa organização coletiva para resistirmos e solucionarmos as questões ambientais emergentes.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação e vice-lider do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.