Dengue além dos números: por que a doença ainda mata no Brasil?

Imagem: João Paulo Burini / Getty Images

Por Patrícia Kolling*

A leitura da coluna Saúde, meio ambiente, políticas públicas: a dengue mostra que está tudo interligado, produzida pelas colegas Isabelle Rieger e Cláudia Herte de Moraes, e publicada no site Eco, me instigou a apurar sobre a abordagem dada nas notícias da imprensa brasileira sobre a doença e suas relações com o meio ambiente e as políticas públicas. Em notícia publicada pelo governo federal, no dia 27/02, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, ressalta que o aumento no número de casos neste período do ano não era esperado, considerando as tendências históricas que indicam o pico das epidemias entre março e abril. O texto diz ainda que os motivos para esta situação, diferente do esperado, têm raízes múltiplas, entre elas as alterações climáticas, em especial na época de chuvas, e a mudança nos sorotipos circulantes da dengue. O Ministério declarou que o Brasil chegou a quase 1 milhão de casos registrados de dengue e que vai fazer uma mobilização nacional para combater os focos do mosquito, no sábado dia 2.

A fala da ministra foi citada em algumas notícias, porém, pouco se aproveitou para aprofundar a temática, explicando como e porque as alterações climáticas podem estar levando ao aumento dos mosquitos e dos casos de dengue. Uma apuração rápida, nos sites G1, Folha de São Paulo e Estadão, mostrou que a maioria das notícias foca nos números de infectados e mortos pela doença. A Folha de São Paulo, no dia 19, além das dezenas de números e gráficos que trouxe sobre a dengue, destacou que especialistas apontam os fatores climáticos como centrais para a explosão de casos. Diz o texto que o calor acima da média e o período chuvoso criam condições ideais para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença.

Para a construção deste texto, fizemos uma breve análise das notícias publicadas, mas em 2015 e 2016, o tema já foi estudado em profundidade por colegas deste grupo, e apresentado no artigo Dengue, Zika e Chikungunya: Análise da cobertura do risco de doenças associadas às mudanças climáticas sob a ótica do Jornalismo Ambiental. Na época vivia-se no Brasil também um período de aumento de casos de dengue, e da mesma forma a imprensa não aprofundou as relações entre as mudanças climáticas, o aumento dos mosquitos e de casos de dengue.

Outro aspecto que percebemos nas notícias foi a publicação de números que apontam o aumento das mortes por dengue no Brasil. A Folha de São Paulo, citou a fala da ministra Nísia, em que ela destaca a preocupação com o aumento dos casos graves.  “Temos de olhar o manejo adequado, cuidado no tempo certo e hidratação [do paciente]”. O infectologista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Kleber Luz, ressaltou esse aspecto no G1 “… é preciso mitigar o problema. Capacitar médicos, enfermeiros, equipes de saúde para tratar a dengue de forma adequada, disponibilizar insumos como soro, para que as pessoas sejam tratadas. O que devemos fazer é evitar as mortes”. O consultor da OMS ressaltou ainda que a dengue é uma doença completamente tratável, “com baixo índice de óbito se o paciente procurar atendimento precocemente” e se for realizada a intervenção adequada.

Diante dessas explicações por que tantas pessoas ainda estão morrendo de dengue no Brasil? Diferente da covid-19, que é uma doença ainda pouco conhecida, a dengue existe no Brasil há mais de 30 anos. A imprensa precisa questionar as autoridades e especialistas e buscar respostas para o porquê de as pessoas ainda estarem morrendo de dengue no Brasil. Os hospitais e postos de saúde não estão preparados para receber e fazer diagnósticos rápidos nos pacientes? Está sendo monitorado os índices de plaquetas nos pacientes e há bolsas de plaquetas para as transfusões nos casos graves? Os pacientes estão recebendo hidratação quando necessário? Essas são algumas das perguntas que a imprensa deveria estar fazendo e não está. As pautas estão aí, citadas nas próprias notícias. Cabe a imprensa saber olhar além dos números.

*Doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com.

Imprensa precisa desideologizar a cobertura do MST  

Imagem: Acervo MST

Por Sérgio Pereira*

No final de janeiro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra completou 40 anos de luta pela reforma agrária no Brasil. Para marcar a data, a entidade lançou a “Carta Compromisso do MST com a Luta e o Povo Brasileiro”, um documento que reafirma o seu compromisso “com o povo brasileiro e com a construção de uma nação mais justa e igualitária através da luta e da construção da Reforma Agrária Popular”.

A imprensa hegemônica brasileira, até o momento, praticamente ignorou o aniversário de 40 anos da organização, que para o linguista, filósofo e sociólogo norte-americano Noam Chomsky, “é o movimento popular mais importante e estimulante do mundo”, conforme seu o discurso de 2003 no Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre. Sua capacidade de mobilização, sua organização e a quantidade de filiados (mais de 400 mil famílias) comprovam isso.

O movimento também é conhecido por ser o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e por ter aberto diversos estabelecimentos comerciais com produtos sem pesticida em várias cidades do país, além de manter um serviço de vendas on-line.

O MST também recebeu alguns pequenos espaços na mídia alternativa, recentemente, por suas ações sociais em desastres naturais causados pelas mudanças climáticas, como as enchentes no Rio Grande do Sul ou suas doações para a população da Faixa de Gaza.

O jornal O Estado de S.Paulo fez uma única referência à data em uma notícia da editoria de Política, postada em 27/01/24, com o título “Ministros de Lula enaltecem MST em evento de 40 anos do movimento e saem aplaudidos”. O texto cobre evento com a participação de quatro ministros do governo federal, restringindo-se a relatar declarações de autoridades. Outros veículos impressos, como O Globo e Zero Hora, no entanto, ignoraram totalmente.

Exceção foi a Folha de S.Paulo, que produziu o especial “MST, 40 anos” em seu site. O jornal postou no final de janeiro oito textos lembrando “a trajetória, os conflitos e as mudanças em quatro décadas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”:

Apenas analisando os títulos acima já é possível verificar uma tendência. A utilização de alguns termos nos títulos denota o enfoque negativo: “irrisória”, “sob cerco”, “critica”, “desilusão”, “ruptura nebulosa”, “mais distante” e “frustrado”.

A palavra “invasões”, por exemplo, é citada em quatro dos oito títulos. O MST repudia esse termo e defende o uso de “ocupações”, expressão cujo significado legal se enquadra com fidelidade às ações do movimento.

Não se trata aqui de mera discussão semântica. O que se deve lembrar é que há diferenças entre “invadir” e “ocupar”, com suas implicações no mundo do direito. Carol Proner, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) e do Grupo Prerrogativas, explica que ocupação não é o mesmo que invasão. A Constituição Federal de 1988 define o conceito de uso social da terra e os critérios para que seja legítimo, que não degrade o meio ambiente, que não se faça por meio de trabalho escravo ou análogo e que seja produtiva.

Carol Proner acrescenta: “A ocupação de terras tem sido historicamente a forma pela qual os movimentos camponeses chamam a atenção para este compromisso de direitos fundamentais e da necessidade de que a propriedade venha acompanhada de uma função social. Confundir os dois conceitos propositalmente é uma forma de negar a luta pela terra e os legítimos sujeitos de direito, assim reconhecidos pela Declaração da ONU sobre Direitos dos Camponeses”. (Brasil 247, 2023)

A Folha, como vários jornais brasileiros, prefere ignorar a doutrina jurídica para, em clara manifestação ideológica, criminalizar o movimento camponês. Por sinal, nestas quatro décadas, o MST teve sua imagem emoldurada na imprensa como uma organização envolvida em “invasões”, “conflitos”, “destruição” e “mortes”, mesmo que as vítimas sejam em sua imensa maioria do próprio MST.

O texto intitulado “Arroz orgânico do MST tem produção quase irrisória, mas virou marca simbólica”, por sua vez, busca minimizar a importância do movimento após a grande repercussão da entrevista, em agosto de 2022, do então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva para o Jornal Nacional.

Naquela ocasião, o MST foi parar no Trending Topics, após Lula afirmar que o movimento era “o maior produtor de arroz orgânico do Brasil”. A declaração levou a milhares de manifestações nas redes sociais, algumas elogiando a fala de Lula e outras, ligadas à extrema direita, colocando em dúvida a informação. Com o texto da Folha, fica a comprovação de que a fala do atual presidente não apenas tinha procedência, como estava alicerçada em dados. O MST, por sinal, é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil e da América Latina, conforme admite o jornal.

A Folha, porém, ignora que a produção de orgânicos ainda está em desenvolvimento – e não apenas no Brasil. Os números mostram que a produção e o consumo de orgânicos crescem em todos os continentes. Mas trata-se de um mercado que ainda está se construindo, enfrentando burocracias, insumos com preços elevados e a falta de apoio institucional, entre outras questões.

A imprensa hegemônica brasileira, que se diz imparcial, precisa desideologizar sua cobertura do MST. A entidade precisa virar pauta seguindo os princípios de noticiabilidade, que são citados nos diversos manuais de redação. Seriam mais isentos os jornais se olhassem para o movimento camponês da mesma forma que veem as organizações patronais. Mas, para isso, precisam assumir definitivamente a ideia da imparcialidade. E não apenas quando lhes interessa.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

PRONER, Carol.Ocupação não é invasão. Brasil 247, São Paulo, 02 de mai. de 2023. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/ocupacao-nao-e-invasao?amp. Acesso em: 5 fev. 2024.

OLEGÁRIO, Polianna Teixeira; ZIEMANN, Marcos Afonso Lopes. Apontamentos Teóricos Sobre o Processo de Reforma Agrária no Brasil a partir da Observação em Campo no Assentamento Che Guevara. In: ANDRÉ, O. et al. Globalização, Regionalização e as Novas Ruralidades! [s.l: s.n.], 2017. p. 230-265. Disponível em: <https://dspace.unila.edu.br/bitstream/handle/123456789/2733/Livro%20Andre%20%26%20Silvia%20-%20Orgs%20-Agbook.pdf?sequence=1&isAllowed=y&gt;. Acesso em: 9 fev. 2024.

A luta indígena é dramática e urgente

Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Cláudia Herte de Moraes*

A luta indígena deve ser de todos nós. É um ponto crucial para o enfrentamento dos desafios do Brasil e do mundo, diante da “queda do céu” que se aproxima, nos servindo da metáfora de Davi Kopenawa que, em seu livro, traz a preocupação dos povos originários sobre o possível colapso do sistema que sustenta nossa vida. Na resenha da obra no site Outras Palavras, Álvaro Faleiros descreve nosso contexto: “No velho e requentado discurso neocolonial, o território brasileiro é riscado por fronteiras – “agrícola”, dos “negócios”, do “desenvolvimento”, da “civilização”… Fronteiras ou fronts de uma guerra de conquista que busca incorporar cada novo rincão ao projeto uniformizante do capitalismo extrativista global.”

No domingo de Carnaval, dia 11 de fevereiro de 2024, a Escola Acadêmicos do Salgueiro do Rio de Janeiro fez ecoar seu samba na avenida e trouxe uma reflexão dramática sobre o sofrimento do povo Yanomami, que enfrenta uma emergência humanitária, decretada desde 2023, logo após o início do governo atual do presidente Lula (e foi tema deste Observatório). No samba, a frase “Eu aprendi o português, a língua do opressor/ Pra te provar que meu penar também é sua dor/ Falar de amor enquanto a mata chora/ É luta sem flecha, da boca pra fora” traz a denúncia de que não bastam palavras e postagens em apoio à luta indígena, precisamos partir para a ação. Como trazido pelo Brasil de Fato, foi um desfile histórico na Sapucaí, que reafirma a trajetória de luta dos Yanomami.

Enquanto o samba da Acadêmicos do Salgueiro fez uma grande homenagem ao povo Yanomami, no maior espetáculo da terra, é preciso lembrar que estamos em pleno vigor da Lei 14.701 (antigo PL 2903, da tese do Marco Temporal) que foi aprovada em setembro e na segunda rodada, em dezembro de 2023, o Congresso Nacional derrubou os vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aos pontos mais críticos. Com isso, foram institucionalizadas várias violações constitucionais. A luta segue, em arenas jurídicas e no chão da floresta. O debate sobre o MT também foi abordado aqui no observatório.

Em 7 de fevereiro é celebrado o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. Nesta data, morria o nativo Sepé Tiaraju, no ano de 1756, do povo Guarani, importante liderança indígena pertencente aos Sete Povos das Missões. Este dia pretende trazer visibilidade às pautas dos povos originários brasileiros, infelizmente cada vez mais focada na própria sobrevivência. Em reportagem do G1 Amazônia, destaca como se dá a luta histórica dos indígenas pela defesa dos territórios, ouvindo indígenas, associações e pesquisadores, apontando como o sistema colonialista ainda se materializa na destruição ambiental e na negação dos direitos. 

O tema é recorrente e terrivelmente triste, pois não cessam as mortes de indígenas em todo território brasileiro. Em 21 de janeiro, foi assassinada Maria de Fátima Muniz, a Pajé Nega Pataxó Hã Hã Hã, na Bahia.  As investigações em curso demonstram que há uma combinação nefasta que se articula contra os direitos dos indígenas, incentivada até mesmo por benesses indevidas do Estado brasileiro, como apontado na notícia de 9 de fevereiro, da APIB: “Segundo testemunhas, o ataque teve a participação de integrantes do “Invasão Zero” e colaboração de policiais militares. A perícia comprovou que o tiro fatal partiu do filho de um fazendeiro.”

No entanto, os conflitos são cada vez mais frequentes nos territórios, possivelmente resultado dos últimos anos de um governo que insuflou pessoas e grupos armados contra os mais vulneráveis e protetores de suas terras e florestas. Também pela vigência do Marco Temporal e ligações políticas locais, como traz a reportagem do Nexo Jornal sobre a violação das terras de território Uru-Eu-Wau-Wau em Rondônia. 

O premiado documentário “Somos Guardiões”, recentemente entrou em cartaz no catálogo da Netflix. No destaque da Revista Fórum, Edivan Guajajara é o primeiro cineasta indígena a dirigir um filme no streaming e fala sobre a importância de trazer sua visão e unir forças para frear o problema ambiental e humano na Amazônia. A obra retrata os crimes ambientais e a violência contra os povos indígenas no país, mas especialmente a força daqueles que resistem há mais de 500 anos à invasão e exploração de seus territórios. Após assistir este documentário, fica nítido que precisamos mudar agora! Enquanto os indígenas e seus territórios são dilapidados, não chegaremos a impedir a queda do céu. 

Cada vez mais os jornais e publicações não hegemônicos despontam na cobertura das pautas indígenas, juntando-se à cobertura dos veículos jornalísticos tradicionais – que nem sempre conseguem apontar as ligações e complexidades de fatos históricos e entrelaçados com poderes colonialistas em nossa sociedade. Por isso, para apoiar e entender mais sobre a luta indígena, os espaços da visibilidade indígena nas plataformas digitais são muito relevantes, como a @apiboficial e as organizações regionais de base @apoinme_brasil | @coiabamazonia | @arpinsuloficial | @cons.terena | @atyguasu | @yvyrupa.cgy | @arpinsudestesprj

 * Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Alerta para o jornalismo ambiental: minoria compreende jargões ambientais

Imagem: Depositphotos

Por Míriam Santini de Abreu*

Notícia publicada na página do jornal britânico The Guardian no dia 24 de janeiro dá o que pensar ao jornalismo ambiental. Ela apresenta o resultado de um estudo feito por uma empresa e uma agência de comunicação no Reino Unido mostrando que apenas um quarto das pessoas interrogadas compreendia claramente o termo “verde” e aproximadamente o mesmo número conseguia descrever com precisão o que significava “sustentável”. Mesmo termos considerados de uso generalizado pelas empresas, como “amigo do ambiente” e “cultivado localmente”, são compreendidos apenas por uma minoria de pessoas. A dificuldade de compreensão também atinge as iniciativas políticas governamentais orientadas para a redução de resíduos, como a proibição de talheres e pratos de plástico descartáveis.

A notícia, informa que, apesar da confusão em torno de alguns dos termos-chave, a investigação mostra um apoio extremamente amplo às questões: “nove em cada 10 consumidores consideraram importante que as empresas e marcas falassem sobre as suas iniciativas de sustentabilidade e 68% dos inquiridos eram mais propensos a comprar de uma empresa que tinha uma estratégia ambiental clara em vigor”.

A notícia cita ainda a opinião de Jamie Peters, da Friends of the Earth, para quem palavras-chave ambientais estão sendo sequestradas e mal utilizadas por empresas de petróleo e gás, que as utilizam para truques de marketing, e também pelo governo.

Aqui no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente desenvolvia, desde 1992, a pesquisa “O que o brasileiro pensa do meio ambiente e do consumo sustentável”, mas a última foi em 2012. Naquele ano, o indicador mais relevante foi o número de pessoas que, 20 anos antes (1992), não sabiam mencionar sequer um problema ambiental na sua cidade ou no seu bairro, número que diminuiu para 10% em 2012, em relação aos 46% de 1992.

É possível extrapolar o dado colhido no Reino Unido para interesses empresariais para discutir a escrita jornalística sobre a relação entre sociedade e natureza. A realidade brasileira não deve ser diferente da britânica, com boas chances de se apresentar ainda pior se a pesquisa fosse realizada aqui.

As pautas do jornalismo ambiental giram em torno de conceitos/práticas sobre a a crise climática, a sustentabilidade, o mercado de carbono, e há um imenso ponto de interrogação sobre o entendimento, por parte de leitores, ouvintes e telespectadores, das notícias e reportagens sobre essas temáticas.

Um caminho para a resposta aponta para o entendimento de que a palavra no e do jornalismo precisa nascer do cotidiano e da experiência do corpo vivida no espaço. O pensador francês H. Lefebvre afirma que, a partir da vida cotidiana, mudam a língua e as linguagens, nascem palavras novas, gírias, muitas vezes marginais em relação à linguagem oficial (LEFEBVRE, 1978, p. 94). Estudar a linguagem na vida cotidiana, afirma o autor, implica tomar também o que ela não diz, o que evita dizer, o que não pode nem deve dizer.

Para ele, uma revolução precisa dar lugar a um novo espaço, a um novo cotidiano e a uma nova linguagem: Uma revolução que não dá lugar a um novo espaço não chega a realizar todo seu potencial; trava e não gera mudanças de vida, apenas modifica as superestruturas ideológicas, as instituições, os aparatos políticos. Uma transformação revolucionária se verifica por sua capacidade criativa, geradora de efeitos na vida cotidiana, na linguagem e no espaço, embora seu impacto não tenha que acontecer necessariamente no mesmo ritmo e com intensidade semelhante (LEFEBVRE, 2013, p. 112).

Hoje, premido pelas mudanças nas rotinas de trabalho, o jornalismo mal estuda e pouco se alimenta da linguagem da vida cotidiana, do repertório de falas e fazeres das ruas. Ali, no espaço geográfico, com seus conflitos e tensões, onde os jargões, inclusive ambientais, fariam sentido na experiência do corpo, ausentam-se o jornalismo e os jornalistas.

Há então que revolutear a pesquisa, o ensino e o fazer, recuperar a rua, embrenhar o corpo no espaço para dali alimentar o texto.  A um jornalismo comprometido com a emancipação humana cabe a tarefa de, pela linguagem, tornar visíveis as práticas criadoras que, no espaço e no cotidiano, podem levar à transformação social, em especial nas pautas que nos são caras no jornalismo ambiental.

*Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente.

Referências:

LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Penísula, 1978.

LEFEBVRE, Henri. La producción del espacio. Espanha: Capitán Swing, 2013.

A dicotomia do Brasil na COP 28 e a cobertura midiática

Imagem: Chris LeBoutillier / Unsplash

Por Janaína Capeletti*

O Brasil está presente na 28ª Conferência do Clima das Nações Unidas (ONU), a COP28, com a maior delegação entre as 195 nações participantes. São cerca de 2.400 inscrições do governo, setor privado e sociedade civil. A comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é composta por 13 ministros e outros tantos parlamentares e representantes de empresas estatais.  

O país chegou ao evento com a ambição de liderar mundialmente o enfrentamento da crise climática e de cobrar do mundo o cumprimento do Acordo de Paris. Na sessão de abertura da Conferência, o presidente do Brasil fez um discurso forte, aproveitando a oportunidade para chamar a atenção das potências mundiais pelo cumprimento de compromissos estabelecidos para o enfrentamento do aquecimento global. A imprensa repercutiu. Na CNN, a matéria “Lula critica países que ‘lucram com a guerra’ e cobra redução de combustíveis fósseis na COP28” destacou a fala do presidente cobrando os países por ações concretas de descarbonização.  

“O planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos. De metas de redução de emissão de carbono negligenciadas. Do auxílio financeiro aos países pobres que não chega. De discursos eloquentes e vazios. Precisamos de atitudes concretas. Quantos líderes mundiais estão de fato comprometidos em salvar o planeta?”, questionou o presidente.

Além de apresentar resultados obtidos na atual gestão, como a redução do desmatamento, o evento foi palco para o lançamento mundial do Plano de Transformação Ecológica do país. Também foi anunciada a proposta de criação do Fundo Floresta Tropical para Sempre (FFTS), que proverá recursos para ajudar cerca de 80 nações detentoras de florestas, como o próprio Brasil, a conservá-las.

Contudo, já no início do evento, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, divulgou a adesão do Brasil na OPEP+, grupo estendido da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Questionado sobre a contradição entre discurso e ação, Lula disse que a participação do Brasil no cartel do petróleo será para “convencer” os países à transição energética. O mal-estar foi completado pelo presidente da Petrobrás anunciando que a empresa tem intenção em criar um braço no Oriente Médio.

As mensagens dúbias transmitidas pelo Brasil no início do evento tiveram ampla cobertura da mídia nacional e internacional. Como as matérias dos jornais Valor Econômico “Petróleo respinga em ‘liderança verde’ de Lula na COP 28“, Folha de São Paulo “Lula confirma na COP28 entrada na Opep+ para ‘convencer’ países a abandonar petróleo“, o Blog do Noblat no Metrópoles “Contradições de Lula na COP28 (por Hubert Alquéres)“, Reuters “Lula says Brazil’s participation in OPEC+ is to stop oil producers using fossil fuels“, The Guardian “Lula’s bid to style himself climate leader at Cop28 undermined by Opec move” e Le Monde “COP28: Heads of state call for action but remain divided on fossil fuels“.

Os holofotes estão sob o Brasil não à toa, o país recebeu da Climate Action Network (CAN), uma associação de 1.300 ONGs de mais de 120 países, o prêmio “Fóssil do Dia”, entregue diariamente durante a COP a alguma “personalidade”. O pesquisador Paulo Artaxo escreveu artigo para a Academia Brasileira de Ciências, comentando o fato.  

A imprensa não se absteve de apontar as incoerências da posição brasileira, contudo, sem aprofundamentos sobre as consequências de tais políticas. Dentre as exceções, a reportagem de Anna Beatriz Anjos, da Agência Pública, “Na COP28, Lula mostra lição de casa sobre Amazônia, mas reforça contradição com petróleo,” apresenta a contextualização do tema e sua repercussão. Na mesma linha, o site Sumaúma publicou uma excelente entrevista com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que se mostra na disputa pela liderança verde na América Latina. O colombiano divulgou na COP que seu país decidiu não assinar novos contratos de exploração de carvão, petróleo e gás. E por fim, a análise da jornalista Daniela Chiaretti: “Lula equilibra pratos entre florestas e petróleo na COP 28, enquanto Gustavo Petro diz o que se quer ouvir” também apresenta com lucidez a disputa regional pelo protagonismo verde.

A crise climática que nos encontramos demonstra a urgência de ações e não de discursos. É importante que o jornalismo seja vigilante e aponte as inconsistências das posições políticas. Entre os pressupostos do jornalismo ambiental está a responsabilidade na promoção da mudança de pensamento. Engajar a sociedade por meio de informações consistentes, contextualizadas, próximas de sua realidade é dever do jornalismo e de fundamental importância no momento em que o planeta se encontra.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.


Onde está a pluralidade de vozes? 

Imagem: rafapress/Shutterstock

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Cobertura da GZH para a COP 28 está centrada em setores poluidores, como agronegócio e indústria, em vez de olhar para soluções ecológicas de produção. 

As expectativas de setores industriais e do agronegócio para a 28ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP 28) foram tema da reportagem central do caderno Doc, da Zero Hora, na edição de final de semana de 24 e 25 de novembro. O texto analisou respostas à crise climática que setores industriais e do agro apresentam, como adequação de sua produção e adoção de discurso sustentável. No entanto, entendendo que o jornalismo também serve para produzir consensos, ele ignora iniciativas que já produzem agroecologia e prezam pela sustentabilidade de todas as formas de vida, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina e tem como princípio o respeito com a terra. Ainda, existem diversas associações de agricultores ecologistas que vendem sua produção nas feiras agroecológicas que ocorrem em todo o estado.

Analisando a reportagem em conformidade com os pressupostos do jornalismo ambiental, entende-se que a relação das fontes, em primeiro ponto, não é plural. São ouvidos somente fontes ditas oficiais, isto é, pesquisadores de universidades, ONGs com respaldo internacional (a exemplo do Greenpeace), entidades ligadas à indústria e ao agronegócio. Em Porto Alegre, por exemplo, cidade onde está a sede da Zero Hora, foi fundada a Associação Gaúcha de Proteção Ambiental (Agapan) em 1971. O Rio Grande do Sul foi pioneiro em associações ambientalistas, a exemplo da agora Amigas da Terra Brasil, que teve Magda Renner como liderança. Até por critérios de noticiabilidade tradicionais do jornalismo, não faz sentido excluir essas organizações como fonte em uma reportagem especial no maior veículo de comunicação do estado.

Da mesma forma, a reportagem explica que o agronegócio leva posicionamento sustentável ao evento, como já evidenciado na Expointer, principal evento para o agro da Região Sul.A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defende que a produção brasileira seja vista em Dubai como parte da solução para o aquecimento global. Tanto que entregou ao governo brasileiro posicionamento de combate ao desmatamento ilegal e ao fortalecimento de políticas de desenvolvimento regional, por meio de mecanismos de financiamento previstos na Convenção do Clima”, é o que diz o texto.

Ainda assim, não há qualquer menção aos pequenos produtores e a quem produz agroecologia, a exemplo do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), das populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas. A produção em larga escala sem respeitar a necessidade do solo ou dos seres humanos que estão realizando o trabalho não é sustentável a longo prazo – estamos sofrendo as consequências da crise climática também por ignorar o que os saberes tradicionais dizem sobre como respeitar a natureza. 

A reportagem menciona que, nos anos 90, a população brasileira tinha mais do que se preocupar ao invés das mudanças climáticas. Havia, segundo ele, problemas mais importantes e, mesmo que os países se reunissem para discutir isso, o assunto era esquecido. As populações que vivem nas encostas de morros, por exemplo, e que a cada chuva sofrem com falta de luz, enchentes e dificuldades no deslocamento podem discordar. Também, quem teve seu território invadido há 523 anos e suas terras constantemente desmatadas pode vir a contestar essa fala. 

Agora que o problema se generalizou para além de populações historicamente vulnerabilizadas, o enfoque da cobertura jornalística passa a ser a crise. No entanto, há pelo menos 50 anos movimentos ambientais avisam das consequências que o extrativismo e a forma de produção voltada para a escalabilidade dos lucros provocam no planeta. De acordo com relatório produzido pela ONU, em 2030, a Terra deve atingir seu limite, ou um ponto de não retorno, ocasionando num desastre climático em massa. Se as pessoas não estavam preocupadas com isso, mesmo com denúncias, onde estava o jornalismo que não cumpriu seu papel de apontar e lembrar o problema?

Ao final do texto, ainda, a conclusão é que, com reformas pontuais, a crise climática pode vir a parar. Com o exemplo do chamado capitalismo consciente, a reportagem faz menção a empresas que implementam, por reformas, um olhar mais sustentável. Embora isso possa ser uma atitude louvável em casos de pequenas ou médias empresas, as transnacionais, big techs e outras representantes gigantes que dominam o mercado utilizam-se da apropriação desse discurso verde para fazer o greenwashing, isto é, anunciando erroneamente que seus produtos são sustentáveis enquanto continua explorando seus trabalhadores. A chamada grande imprensa, ou imprensa hegemônica, por fim, contribui para a perpetuação da exclusão de vozes da cobertura ambiental, ignorando os saberes dos povos originários, que também estarão na COP 28, da mesma forma que contribui para uma leitura da crise climática de forma acrítica. É importante lembrar que não existe desenvolvimento sustentável e o Planeta está demonstrando isso. Capitalismo verde ou economia verde não perdem sua característica de exploração da força de trabalho e da natureza para aumentar os lucros das empresas.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista de Iniciação Científica. E-mail: belle.rieger@gmail.com.
** Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora convidada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM/UFRGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br.

A luta e o fardo de Lúcio Flávio Pinto

A trajetória de Lúcio Flávio Pinto se confunde com a defesa da Amazônia / Imagem: Cedida por Lúcio Flávio Pinto ao site Mongabay

Por Sérgio Pereira*

A Rádio Novelo presenteou seus ouvintes no dia 9 de novembro com uma produção jornalística sensível, histórica e, por que não dizer, essencial. A reportagem em formato podcast intitulada “O fardo que carregamos” aborda, em dois atos, “histórias sobre como levar o mundo nas costas”, nas palavras da própria produtora carioca.

Ambos os atos são dignos de aplausos, mas ficarei aqui restrito ao primeiro, que enfoca o drama vivido pelo jornalista, professor e escritor Lúcio Flávio Pinto, de 74 anos. Estamos tratando aqui de um dos maiores jornalistas ambientais do Brasil, que há quase 60 anos dedica sua vida à defesa da Amazônia. Prova disso, em 2021, a Universidade Federal do Amapá lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa  em reconhecimento à sua trajetória.

Vencedor de quatro Prêmios Esso, o maior do jornalismo brasileiro, Lúcio Flávio lançou em 1987 o “Jornal Pessoal”, impresso criado para divulgar o que os outros jornais do Pará, seu Estado natal, temiam tornar público.

Bueno nos lembra que o Jornalismo Ambiental deve propor-se política, social e culturalmente engajado, porque “só desta forma conseguirá encontrar forças para resistir às investidas e pressões de governos, empresas e até de universidades e institutos de pesquisa, muitos deles patrocinados ou reféns dos grandes interesses”. Lúcio Flávio sabe disso como ninguém. Suas denúncias contra poderosos empresários do Norte do país lhe renderam dezenas de processos, ameaças de morte e agressões físicas. Mas nada disso o fez desistir da luta.

Agora, no entanto, o jornalista tem pela frente um adversário implacável: a Doença de Parkinson, diagnosticado há alguns anos. Em julho último, lamentavelmente, ele revelou em seu blog que estava largando o jornalismo diário por causa da moléstia, logo após se dar conta de um equívoco cometido em uma de suas postagens.

O texto, intitulado “Perdão, leitores”, traz a corajosa confissão: “Sob o choque da percepção, decidi encerrar a minha atividade jornalística pública diária. Não quero cometer um novo erro desse tipo, por redução ou, em algum momento, perda da capacidade cognitiva. Poderia continuar sem mudança minha atividade, apoiado no fato, comprovado cientificamente, de que não seria um erro voluntário, mas devido à doença, sobre a qual, nessas circunstâncias, não exerço controle”, reconheceu Lúcio Flávio.

Diante dessa perda irreparável para o Jornalismo, a Rádio Novelo produziu o primeiro ato de seu episódio 51, “O fardo que carregamos”, oferecendo aos ouvintes um resumo da trajetória do jornalista paraense e relatando o seu drama. A reportagem assinada por Flora Thomson-Deveaux vale cada segundo.

Dominado por grande carga emocional, Lúcio Flávio relata no podcast de pouco mais de uma hora os seus primeiros passos na profissão, fala sobre a decisão de lançar seu próprio jornal e relaciona alguns dos obstáculos que enfrentou nestes mais de 50 anos em defesa da Amazônia. E ainda expõe a sua doença e a difícil decisão que precisou tomar em nome da ética e da fidelidade aos seus leitores: deixar o jornalismo diário.

Lúcio Flávio, como um bom jornalista, encontra na elaboração de analogias uma ferramenta para racionalizar os fatos. “A Amazônia sempre foi vítima da modernização compulsória; da geração de dólar como atividade principal na Amazônia; do avanço das frentes econômicas; da segurança nacional pela povoação da região e pela transformação da floresta que abriga e esconde as pessoas em hidroelétricas, rodovias, cidades…  Eu me sinto como se eu fosse um símbolo da destruição da Amazônia. Eu me sinto uma pessoa em processo de destruição”, desabafa.

Hoje lhe incomoda as limitações da doença, principalmente os lapsos de memória. Mas ele se sente como “um soldado que não pode abandonar o front”, como se estivesse traindo a sua causa, traindo a sua razão de viver, que sempre foi a Amazônia.

Lúcio Flávio, no entanto, tem buscado formas de conservar viva a chama do jornalismo que sempre lhe manteve aquecido. Nos últimos meses, ele tem republicado em seu blog antigas reportagens. É a sua forma de continuar na ativa e uma oportunidade para que tenhamos acesso aos seus trabalhos premiados. São valiosas aulas de jornalismo .

Não podemos carregar o fardo de Lúcio Flávio, mas podemos (e devemos) reverenciá-lo por sua imensa trajetória. Devemos lhe agradecer por sua devoção em prol da Amazônia, por sua coragem em enfrentar o desenvolvimentismo governamental mesmo durante a ditatura militar, por sua abnegação. E por suas mais de cinco décadas dedicadas ao Jornalismo Ambiental.

Em tempo: não deixe de ouvir também o segundo ato de “O fardo que carregamos”, de autoria da jornalista Bia Guimarães: a história de Alessandra e seu doloroso processo de cura diante de um violento trauma.

*Jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobepereira@gmail.com.

Referências

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, p. 33-44, Curitiba, Editora UFPR, 2007. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/made/article/view/11897. Acesso em: 14 Nov. 2023.


Procura-se a faceta “ambiental” dos problemas urbanos no jornalismo

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Problemas ambientais urbanos são antigos e, em sua faceta moderna, estão presentes ao menos desde as primeiras revoluções industriais — ainda que não recebessem a alcunha “ambiental” no significado de hoje. Eles fazem parte, intrinsecamente, do imaginário da emergência das grandes cidades modernas europeias: fumaças das indústrias, rios poluídos, a falta de saneamento e as ruas entulhadas de lixo.

A eclosão de movimentos ambientalistas a partir da década de 1960, num primeiro momento, ainda parecia vir da terra “natural” — a questão dos pesticidas, por exemplo — e de uma ideia unificada do planeta, sob o medo da guerra nuclear. A razão talvez seja as próprias origens de um pensamento ambientalista: algo “romântico” ainda no século XIX, de valorização do natural em oposição ao urbano; e algo também “científico”, focado na conservação de florestas e proteção de parques naturais. De toda forma, apesar dessas origens, o fato é que os movimentos que se seguiram ao ambientalismo dos anos 1960 incluíram, nas décadas seguintes, as questões urbanas e a justiça social no seio do movimento. O ambientalismo migrava de um campo puramente “natural” e “científico” para abarcar também a arena política das grandes cidades.

A pauta ambiental urbana permeia, há décadas, o ambientalismo, as conferências internacionais e o próprio jornalismo. No entanto, ainda hoje é comum que as pessoas façam uma associação direta entre “temas ambientais” e “temas rurais”, como se distantes da cidade. Uma pequena análise da editoria de Meio Ambiente do portal G1 mostra que, das últimas 30 notícias (ao longo de todo o mês de outubro) nenhuma trouxe uma pauta ambiental urbana. A página é tomada por algumas notícias da maior importância: incêndios no pantanal, seca na Amazônia, garimpo ilegal, marco temporal, emissão de gás metano pela agropecuária etc. Outras são notícias mais soft, dificilmente enquadráveis como “jornalismo ambiental”, e sim como “notícias sobre (ou no) meio ambiente”: o prêmio de fotografia pela foto de um tigre; o resgate de uma loba-guará e a caça de um tatu-galinha pelo caseiro de uma fazenda.

A situação muda um pouco quando analisamos a Folha de SP. Lá a gente “lembra” que cidades também são afetadas, como na invasão de fumaça de incêndios florestais sobre a maior cidade boliviana; e na descoberta, por pescadores, de uma garrafa PET de 25 anos atrás em plena Baía de Guanabara. Obviamente, situações extremas como as inundações em cidades no Sul do país também costumam entrar na conta de notícias — mas persiste a escassez de matérias não impulsionadas por tragédias. A realidade urge que o jornalismo dito “ambiental” cruze, com mais frequência, as vielas e ladeiras das grandes cidades brasileiras, mostrando a face ambiental e cotidiana de nossos históricos — e desiguais — problemas urbanos.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

A falta de crítica da imprensa sobre o mercado de carbono

Imagem: Peter Werkman/Unplash

Por Janaína C. Capeletti

A Comissão de Meio Ambiente do Senado aprovou no início de outubro, o projeto de lei (PL) 412 de 2022, que regulamenta o mercado de carbono no Brasil. Aprovado de forma terminativa, o PL já tramita na Câmara do Deputados.

O texto do PL institui um órgão regulador, denominado de Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), que será o responsável por determinar os setores da economia sujeitos a tetos de emissões e por conceder permissões de emissão às empresas. Cada uma dessas autorizações de emissão, chamadas de Cotas Brasileiras de Emissões (CBE), equivale a uma tonelada de CO2 ou o equivalente em outros gases de efeito estufa.

Ficam sujeitas ao SBCE empresas e pessoas físicas que emitirem acima de 10 mil toneladas de gás carbônico equivalente (tCO2e) por ano, que devem monitorar e informar suas emissões e remoções anuais de gases de efeito estufa. Quem emitir acima de 25 mil toneladas de CO2 ficará sujeito a regras mais rígidas, com previsão de sanções e multas para os casos do descumprimento de metas.

Resumidamente, no mercado de carbono, os setores regulados recebem permissões para emitir uma certa quantidade de gases poluentes. Quem emitir menos que a sua cota pode vender o seu saldo positivo para empresas que excederam os seus limites de poluição.

O valor de cada crédito de carbono depende do mercado onde ele é negociado. No mercado voluntário, o crédito tende a ser mais caro do que o do mercado regulado. Hoje, no Brasil, existe somente o mercado voluntário de carbono, no qual qualquer empresa, pessoa ou governo pode gerar ou comprar créditos de carbono, que são auditados por uma entidade independente, porém, não são contados nas metas de redução de emissões de países no Acordo de Paris. Ou seja, a demanda nos mercados voluntários de carbono não surge a partir de um teto regulatório, mas de empresas e indivíduos que desejam voluntariamente compensar ou neutralizar sua pegada de carbono, e de investidores que exigem que as empresas de seu portfólio se tornarem neutras ou zero carbono.

O mercado de carbono não é novidade. Fala-se nele desde o Protocolo de Quioto, em 1997. No Brasil, contudo é uma expressão que tem aparecido na mídia com mais frequência nos últimos anos, especialmente com o boom do ESG (Environmental, Social and Governance) e dos compromissos empresariais com a sustentabilidade.

A aprovação do PL foi noticiada em grandes veículos, que além de explicarem o conteúdo da proposta do legislativo, destacaram a ausência no texto da regulamentação ao agronegócio. A Frente Parlamentar Agropecuária negociou com a relatora do projeto, a senadora Leila Barros (PDT/DF), para que o agro ficasse de fora. A justificativa é que não existem formas precisas para medir a emissão de carbono de atividades do campo e que os principais mercados de carbono do mundo não incluem a agricultura e nem a pecuária.

Um estudo inédito do Observatório do Clima, lançado na terça-feira (24/10), estima que os sistemas alimentares responderam em 2021 por 73,7% (1,8 bilhão de toneladas) das 2,4 bilhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa lançadas pelo país na atmosfera. Conforme Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, “esse relatório deveria ser lido pelos representantes do agronegócio e pelo governo como um chamado à responsabilidade”.

Assim, voltando à repercussão do PL, os veículos de imprensa cumpriram o seu papel em noticiar o fato, explicar o contexto, como os sites do Globo Rural, da CNN Brasil, do Valor Econômico, do Estadão. Alguns destacaram a falta de inclusão do agro como JOTA e o Money Times. O site O Eco analisa, por meio da opinião de dois especialistas, como ficará a regulamentação sem o agro. O Capital Reset também propõe uma reflexão sobre o tema.

Apesar de ser um tema complexo e de relevância socioambiental para o Brasil, não são percebidas nestas coberturas nenhuma preocupação com os pressupostos do Jornalismo Ambiental. Nota-se que as notícias não propõem um questionamento sobre a real eficácia do mercado de carbono em tempos de emergência climática, ou se é uma solução eficaz para contribuir com a descarbonização do país. Este tipo de cobertura também não prioriza a aproximação com o leitor não especializado. Não há a intenção de engajar e envolver o público para uma tomada de posição ou para uma reflexão sobre o tema.

O assunto ainda é embrionário no Brasil, integra a agenda do atual Governo Federal e do mercado. Assim, mesmo que utópico, se faz necessário insistir para que a imprensa, de modo geral, amplie o olhar para a complexidade do tema e busque abarcar vozes, saberes e alternativas que expandam o debate vigente de forma mais crítica.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.

Queimadas no Amazonas: também cabe ao jornalismo apurar responsabilidades

Imagem: Camila Garce Idesam/Flickr

Por Débora Gallas*

Ciclonesenchentescalor recordeseca… Relatar as causas e consequências desses eventos climáticos extremos na vida da população tem sido desafiador para jornalistas brasileiros. É possível observar que a sobreposição de emergências afeta diretamente a cobertura: a imprensa nacional não tem dado a merecida atenção às queimadas que assolam a região metropolitana de Manaus pelo menos desde setembro.

É verdade que o assunto esteve em pauta em grandes portais como FolhaValor e g1 especialmente entre os dias 11 e 13 de outubro, período em que a qualidade do ar em Manaus se tornou uma das piores do mundo. A cobertura desses veículos inclui fontes da ciência para explicar como os efeitos do fenômeno El Niño e a degradação ambiental contribuem para que a cidade seja tomada por fumaça, vinda sobretudo de focos no município de Autazes e nas adjacências da BR-319, que liga Manaus e Porto Velho. Também são ouvidas fontes oficiais, que explicam onde estão os principais focos de queimadas e quais providências que estão sendo tomadas, como a prisão de suspeitos de atear fogo em áreas de floresta.

As matérias publicadas na última semana carecem, porém, de alguma apuração própria desses veículos no local dos fatos. Diante de outro gravíssimo acontecimento que atinge o estado – a seca histórica de rios amazônicos – e de pautas igualmente urgentes de outras editorias – como a guerra entre Israel e Hamas –, há o risco de as atenções se dividirem e o tema sumir do noticiário assim que a fumaça se dissipar e o problema parecer controlado. É interessante lembrar que, em agosto de 2019, bastou que uma nuvem cinza encobrisse o céu de São Paulo para que as queimadas na Amazônia tomassem o noticiário nacional e a ação apelidada de “dia do fogo”, apurada primeiramente pelo jornal paraense Folha do Progresso, ganhasse repercussão em todo o país.

Leitores de todo o país certamente podem contar com a cobertura qualificada de veículos locais. Ainda em julho, reportagem de Amazônia Real apontava a previsão de cientistas sobre o aumento dos focos de queimadas no maior bioma do Brasil durante o ápice da estação seca – justamente o mês de outubro. Alerta semelhante foi realizado por Vocativo em 8 de setembro, que destacou a possibilidade de piora da fumaça que já tomava Manaus naquele momento. Mais recentemente, Vocativo repercutiu a coletiva de Marina Silva em Manaus no dia 13 de outubro, em que a ministra destacou a origem criminosa dos incêndios. Amazônia Real, por sua vez, está em campo para destacar os prejuízos diretos das queimadas à saúde pública.

Apesar do árduo trabalho dos veículos independentes na abordagem das causas e consequências, urge que, em um evento com essa gravidade, os gestores de veículos que se apresentam como nacionais – e possuem estrutura e financiamento condizentes com tal pretensão – mobilizem ampla base de correspondentes ou repórteres freelancers locais para reforçar a investigação jornalística. A sociedade precisa conhecer os CPFs e CNPJs envolvidos na destruição para lhes atribuir as devidas responsabilidades – e o jornalismo é essencial para que essas e outras informações de interesse público venham à tona. Afinal, como falar de solução para crise ambiental sem haver conhecimento sobre a origem dos problemas?

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).