A invisibilidade da agricultura familiar nas coberturas das cheias

Foto: Pedro H. Tesch/Flickr

Jessica Thais Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**

Um dos papeis sociais do jornalismo é de oportunizar voz e vez. Em tempos de desastres, é necessário compromisso social para ouvir aqueles que são invisibilizados: pessoas da periferia, trabalhadores rurais, comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, entre outros. Por isso é importante expor a realidade de quem vive à margem da atenção midiática, mas sofre mais constantemente com as mudanças climáticas, como é o caso dos agricultores familiares que lidam na terra e muitas vezes ficam sem a produção do próprio alimento em função de desastres socioambientais.

As jornadas de agricultores familiares são intensas. Geralmente, trabalham entre 12 e 16 horas por dia. No campo, não tem final de semana. Não tem feriado. Enquanto muitos na cidade celebram datas como o Natal e o Ano Novo, eles seguem trabalhando para garantir comida na mesa de milhões. Dar voz a essas pessoas por meio dos veículos de comunicação é reconhecer sua importância e romper com a lógica de um jornalismo hegemônico que, muitas vezes, prioriza apenas o agronegócio ou simplesmente não considera os impactos dos desastres para a agricultura familiar. Um exemplo publicado neste Observatório foi o caso das queimadas no Amazonas em 2022, em que não houve menção às perdas dos agricultores.

Da mesma forma, durante as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, o portal UOL pouco abordou a situação da agricultura familiar. Mesmo após o auge da crise, em agosto de 2024, uma das poucas matérias que tangenciam o assunto mencionava, na generalidade, a importância de políticas públicas que promovam a diversificação da produção agrícola (31/08/2024). A abordagem, ainda assim, foi de maneira superficial, com a mesma narrativa de aumento de produtividade e intrigando uma disputa com o agronegócio, ao invés de realçar a realidade dos pequenos agricultores e as formas diferenciadas de uso da terra no contexto da crise climática. A falta de reportagens em 2024 não se justifica, pois haviam dados disponíveis em órgãos como a Emater/RS-AScar, que divulgou ainda em junho de 2024 que mais de 206 mil propriedades rurais foram afetadas pelas enchentes no RS.

Em contraste, Brasil de Fato, veículo de comunicação popular, publicou várias matérias sobre o tema no mesmo período, denunciando as desigualdades no campo, oferecendo uma perspectiva popular e de luta de classes, e dando visibilidade à realidade e necessidade dos agricultores familiares no enfrentamento da calamidade. Entre os destaques estão reportagens como Chuvas no RS destroem lavouras de arroz e hortaliças do MST e provocam prejuízo de R$ 64 milhões (17/05/2024), que revela as deteriorações causadas pelas chuvas em inúmeros assentamentos da reforma agrária, e Enchente no Sul arrasa lavouras de arroz orgânico do MST; prejuízos podem chegar a 10 mil toneladas (09/05/2024), que expõe o impacto direto no que diz respeito à produção agroecológica do país.

Embora seja responsável por grande parte dos alimentos que chegam à nossa mesa, a agricultura familiar quase sempre é esquecida nas coberturas jornalísticas sobre tragédias climáticas. Ou, ao menos, é a última a ser lembrada. Os agricultores perderam tudo com a enchente: a plantação, o sustento, o chão e suas casas. Mas não perderam a esperança e buscam se reerguer, mesmo diante da invisibilidade imposta pelos veículos hegemônicos.

* Graduanda em Jornalismo na UFSM, integrante do PET Educom Clima (UFSM), bolsista do Fundo de Incentivo à Extensão (FIEX), E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

A ponte informacional e o jornalismo independente na resistência do povo Guarani-Kaiowá

Imagem: Pedro Alves/Solidariedade Guarani-Kaiowá

Por Leda Evangelista* e Cláudia Herte de Moraes **

Como forma de valorizar o jornalismo independente e focado nos problemas reais dos povos originários, trazemos o caso das retomadas em Mato Grosso do Sul. As chamadas retomadas, são ações organizadas para garantir a efetivação dos direitos às terras da população indígena brasileira. O Brasil de Fato aponta que, com o agravamento do descumprimento constitucional em demarcar os TI no prazo de cinco anos – contando com a promulgação de 1988 – e o uso da tese do marco temporal – que reinterpreta a Constituição e afirma que os indígenas só teriam direito às terras se houvesse a data de promulgação de 5 de outubro de 1988 – surgiram as retomadas. 

Durante a noite de sábado, 3 de agosto, ao menos 11 Guarani-Kaiowá foram feridos em Douradina (MS), por capangas na retomada Kurupa’yty. O ataque foi denunciado à Força Nacional na segunda-feira, 29 de julho, que ignorou o chamado até o dia 9 de agosto. Acompanhada pelo Intercept Brasil, a retomada da Terra Indígena (TI) Panambi, em Lagoa Rica, teve início em 13 de julho, além da Kurupa’yty, foram realizadas duas ocupações ao longo de julho: Yvy Ajere e Pikyxy’yn.  

Como informa a Agência Pública, a trajetória dos Guarani-Kaiowá pela demarcação da TI Panambi começou em 2011, quando 12,1 mil hectares do território foram identificados e demarcados.  Entretanto, o processo está paralisado no Tribunal Regional Federal da 3° Região, em segunda instância da Justiça Federal. 

Em contramão, a Lei 14.703 e a PEC 40 buscam implementar a tese do marco temporal sobre os Kaiowá desde 2016. No mesmo ano, o juiz federal Moisés Anderson Costa Rodrigues da Silva, da primeira Vara Federal de Dourados, anulou o processo de demarcação da TI Panambi – a pedido de um fazendeiro – com a justificativa apresentada no marco temporal.

Assim, deu-se início à ocupação do TI Panambi em Lagoa Rica, que fica entre dois territórios retomados: Gwa’aroka e Guyra Kambiy. Em nota, o povo Guarani-Kaiowá relata o adoecimento de seu povo “ilhados pela soja, veneno e pela devastação”, a invisibilidade de um futuro às crianças e jovens Kaiowá decorrentes: da fome, de ameaças atravessadas pela milícia e a prisão estatal. 

Durante os meses de julho e agosto de 2024, o jornalista Leandro Barbosa acompanhou a retomada, a denúncia e o ataque em Douradina, e documentou em seu perfil do X (@Barbosa_Leandro) a rotina junto aos Kaiowá.  Em conjunto à sua cobertura, o fotógrafo Gabriel Schlickmann documentou a investida dos pistoleiros, as agressões e os relatos do povo Guarani-Kaiowá. 

Ao se apresentar em um das paisagens do pós-ataque, dia 3 de agosto, Leandro atribuí ao Intercept, que está em colaboração com os profissionais na cobertura, “o único veículo presente numa retomada inidígena que tem sido violentamente atacada”. O período de um mês e meio na Retomada Kurupa’yty trouxe uma reportagem de denúncia. Nomeada Depois do tiro, a fome, o texto do The Intercept Brasil, constrói, justamente, o “após” ao ataque e a permanência da comunidade.

No ataque de sábado, 3, ao menos onze indígenas foram feridos a bala por milicianos ruralistas e seus capangas. “A noite ontem foi pesada, triste e revoltante. Hoje sigo acompanhando os desdobramentos desse ataque previsto aos Kaiowá, porém ignorado pelas forças de segurança estadual e federal…”, tuita Leandro no dia seguinte, 4 de agosto, com registro de Gabriel aos cuidados de um Kaiowá.

As publicações de Leandro no X atingiram quase 500 mil usuários da rede, além dos relatos do jornalista e dos Kaiowá, “A importância de se investir no jornalismo independente tá nisso. A gente consegue trabalhar, produzir e ajudar a pautar temas por vezes invisibilizados”, escreve Leandro. O jornalista também realizou uma vaquinha para compra de alimento ao povo Guarani-Kaiowá, que arrecadou dinheiro suficiente para, pelo menos, três meses de medicação a um Kaiowá que foi vítima de uma bala na cabeça e, aproximadamente, 3 mil em comida e mobilidade.

Outro fato grave é que, segundo o  Conselho Indigenista Missionário – CIMI, os ataques são uma reação provocada por vídeos de desinformação, como reportado por Leandro Barbosa, na Agência Pública em 19 de agosto: as informações falsas correm em grupos de mensagens, e apontam cometimento de crimes sem comprovação pelos indígena, enquanto que os desmentidos não diminuem a violência contra os territórios. Aleḿ disso, a “desinformação alimenta movimentos ideológicos que têm atuado para promover despejos ilegais, como o movimento Invasão Zero, citado com recorrência por produtores rurais e políticos do estado”.

Fazer jornalismo é uma forma de apurar, trazer para o debate público e fomentar o engajamento em causas socioambientais de extrema importância. Podemos entender mais sobre a grande ofensiva que sofrem os povos originários há séculos, neste relato dos jornalistas Leandro Barbosa e Gabriel Schlickmann. Os jornalistas buscam ocupar as redes para fazer chegar as informações apuradas junto aos povos em luta, fatos que são quase sempre sonegados ou trazidos muito rapidamente em veículos de comunicação corporativos. Neste sentido, o Jornalismo Ambiental se faz presente de forma fundamental, em seu compromisso com a escuta de vozes que denunciam a ferocidade do avanço da economia intrusiva, responsável pela ameaça constante às diversidades biológica e sociocultural. 

 *Graduanda em Jornalismo na UFSM, voluntária de Iniciação Científica no Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: leda.evangelista@ufsm.br

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Racismo ambiental: mídia independente traz debate silenciado no jornalismo corporativo

Centro Histórico de Porto Alegre – 13/05/24 / Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Por Thayssa Kruger* e Cláudia Herte de Moraes **

As fortes chuvas que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024 atingiram 474 dos 478 municípios do estado, deixando mais de 380 mil pessoas desalojadas e resultando em 182 óbitos, conforme dados atualizados da defesa civil. Embora o estado como um todo tenha sido afetado, a disparidade socioeconômica faz com que alguns sofram mais que outros. Ao acompanhar os desdobramentos da tragédia, os bairros que mais foram afetados, quem são as pessoas desabrigadas e quais as ocupações mais sofrem com a falta de preparo e responsabilidade do estado? Isso nos remete ao conceito de “justiça climática” e/ou “racismo ambiental”, definições pouco abordadas nos veículos de comunicação tradicionais.

O termo “racismo ambiental” foi criado na década de 1980 pelo Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr., em meio a protestos contra depósitos de resíduos tóxicos no condado de Warren, no estado da Carolina do Norte (EUA), onde a maioria da população era negra. No contexto atual, a expressão é utilizada para denunciar que os impactos das mudanças climáticas recaem de forma injusta sobre a população historicamente marginalizada. Ou seja, pessoas racializadas e empobrecidas sentirão mais as consequências da poluição e degradação ambiental e agora do aquecimento global. 

Mais de 8 milhões de brasileiros estão expostos a esta nova face do racismo ambiental, vivendo em áreas de risco de deslizamento de terra, inundações e enxurradas. No Rio Grande do Sul, foi constatado que quase 85 mil gaúchos residem em zonas de perigo. O relatório do Observatório das Metrópoles, revela que as regiões mais afetadas são habitadas por indivíduos de baixa renda, predominando pessoas pretas ou pardas. É o caso de bairros como Humaitá, Sarandi e Rubem Berta, em Porto Alegre, e de Mathias Velho, em Canoas, entre os mais afetados pelas recentes cheias. A análise dos dados, combinada com as queixas dos moradores sobre a demora na ação do governo e a má comunicação, torna ainda mais urgente a necessidade do debate sobre o racismo ambiental.

Ao pesquisar como o racismo ambiental estava sendo explorado na GZH, jornal de maior relevância no RS, a resposta apesar de entristecer não nos surpreende: o termo não foi título ou pauta de reportagem sequer uma vez no último ano. 

O jornalismo tem o compromisso de informar sobre questões de interesse público e mobilizar politicamente os cidadãos. Em relação às questões ambientais, o jornalismo deve abordar a complexidade e a interseccionalidade envolvidas na emergência climática para engajar a sociedade sobre a urgência do tema. No entanto, o jornalismo tradicional, ao tratar de questões ambientais, carece desse aprofundamento e continua utilizando os antigos enquadramentos que simplificam os problemas decorrentes da crise climática, vilanizando a natureza pelas tragédias ambientais, isentando políticos da responsabilidade e focando apenas no imediato. 

Por mais que a tragédia ocorrida no estado gaúcho tenha colocado a pauta ambiental em destaque nos jornais mais importantes do estado e do país, o assunto ainda não foi explorado no quesito das desigualdades sociais. Após três meses dos fenômenos extremos vivenciados em várias regiões do Estado e na capital Porto Alegre, a reconstrução com justiça ambiental precisaria entrar na pauta. Mesmo que a imprensa atue mais forte nos momentos de crise, para quem foi atingido e perdeu tudo, a crise está longe de acabar.

Decidimos olhar para o jornalismo independente a fim de compreender como as vulnerabilidades sociais são discutidas dentro da pauta ambiental pela mídia independente. Destacamos 5 reportagens que contextualizam os fatos e abordam as questões das injustiças sociais. As reportagens são dos veículos #Colabora, Agência Pública, Alma Preta, ((o))Eco e Matinal Jornalismo publicadas entre abril e julho deste ano.  Foram localizadas pelo buscador google com os termos “justiça climática” e “racismo ambiental”. 

Cada veículo aborda o tema de maneira diferente. A reportagem publicada pelo #Colabora em 4 de abril discute as intensas ondas de calor no Rio de Janeiro e o impacto do aumento da temperatura na vida das pessoas mais pobres, que não têm recursos financeiros para suportar os dias quentes. A matéria da Agência Pública, de 4 de junho, relata o medo dos indígenas de perderem suas terras durante as chuvas que assolaram o estado. A falta de demarcação das terras fez com que muitos relutassem em deixar suas casas à medida que a água avançava. A luta por demarcação é antiga, mas eventos como esse evidenciam ainda mais a necessidade de abordar essa questão.

A reportagem da Alma Preta, publicada em 28 de junho, explora como o racismo ambiental prejudica o desenvolvimento de crianças negras. A matéria inclui uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e o relato de uma mãe e seu filho, revelando como a falta de saneamento básico afeta negativamente o desenvolvimento de crianças negras e periféricas na primeira infância.

Em 2 de julho, o jornal ((o))Eco publicou uma reportagem sobre os efeitos dos eventos extremos e do aumento das temperaturas na saúde de trabalhadores que passam o dia ao ar livre, frequentemente em trabalhos informais, na América Latina. A matéria apresenta dados de diversas pesquisas para enfatizar a necessidade de um debate sobre o tema e ações de adaptação. A reportagem do Matinal Jornalismo, de 17 de julho, complementa a anterior ao tratar dos impactos e perdas sofridos pelos agricultores devido às secas e enchentes. A matéria traz relatos de pessoas que perderam tudo (ou quase tudo) devido às chuvas que começaram na última semana de abril no Rio Grande do Sul, contextualizando como esses eventos extremos afetam sua produção e, consequentemente, suas vidas.

As mídias independentes, na contramão do jornalismo corporativo, têm se engajado socialmente visando o engajamento socioambiental. A análise das reportagens revela o compromisso dessas mídias em destacar as vulnerabilidades sociais dentro da pauta ambiental e climática. Enquanto o jornalismo corporativo se limita a simplificações, factualidades e críticas superficiais, saudamos o trabalho dos jornais independentes por sua abordagem abrangente, que contribuem significativamente para a conscientização e o debate sobre racismo ambiental.

 * Graduanda em Jornalismo na UFSM, voluntária de Iniciação Científica no Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: thayssa.kruger@acad.ufsm.com

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

A luta indígena é dramática e urgente

Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Cláudia Herte de Moraes*

A luta indígena deve ser de todos nós. É um ponto crucial para o enfrentamento dos desafios do Brasil e do mundo, diante da “queda do céu” que se aproxima, nos servindo da metáfora de Davi Kopenawa que, em seu livro, traz a preocupação dos povos originários sobre o possível colapso do sistema que sustenta nossa vida. Na resenha da obra no site Outras Palavras, Álvaro Faleiros descreve nosso contexto: “No velho e requentado discurso neocolonial, o território brasileiro é riscado por fronteiras – “agrícola”, dos “negócios”, do “desenvolvimento”, da “civilização”… Fronteiras ou fronts de uma guerra de conquista que busca incorporar cada novo rincão ao projeto uniformizante do capitalismo extrativista global.”

No domingo de Carnaval, dia 11 de fevereiro de 2024, a Escola Acadêmicos do Salgueiro do Rio de Janeiro fez ecoar seu samba na avenida e trouxe uma reflexão dramática sobre o sofrimento do povo Yanomami, que enfrenta uma emergência humanitária, decretada desde 2023, logo após o início do governo atual do presidente Lula (e foi tema deste Observatório). No samba, a frase “Eu aprendi o português, a língua do opressor/ Pra te provar que meu penar também é sua dor/ Falar de amor enquanto a mata chora/ É luta sem flecha, da boca pra fora” traz a denúncia de que não bastam palavras e postagens em apoio à luta indígena, precisamos partir para a ação. Como trazido pelo Brasil de Fato, foi um desfile histórico na Sapucaí, que reafirma a trajetória de luta dos Yanomami.

Enquanto o samba da Acadêmicos do Salgueiro fez uma grande homenagem ao povo Yanomami, no maior espetáculo da terra, é preciso lembrar que estamos em pleno vigor da Lei 14.701 (antigo PL 2903, da tese do Marco Temporal) que foi aprovada em setembro e na segunda rodada, em dezembro de 2023, o Congresso Nacional derrubou os vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aos pontos mais críticos. Com isso, foram institucionalizadas várias violações constitucionais. A luta segue, em arenas jurídicas e no chão da floresta. O debate sobre o MT também foi abordado aqui no observatório.

Em 7 de fevereiro é celebrado o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. Nesta data, morria o nativo Sepé Tiaraju, no ano de 1756, do povo Guarani, importante liderança indígena pertencente aos Sete Povos das Missões. Este dia pretende trazer visibilidade às pautas dos povos originários brasileiros, infelizmente cada vez mais focada na própria sobrevivência. Em reportagem do G1 Amazônia, destaca como se dá a luta histórica dos indígenas pela defesa dos territórios, ouvindo indígenas, associações e pesquisadores, apontando como o sistema colonialista ainda se materializa na destruição ambiental e na negação dos direitos. 

O tema é recorrente e terrivelmente triste, pois não cessam as mortes de indígenas em todo território brasileiro. Em 21 de janeiro, foi assassinada Maria de Fátima Muniz, a Pajé Nega Pataxó Hã Hã Hã, na Bahia.  As investigações em curso demonstram que há uma combinação nefasta que se articula contra os direitos dos indígenas, incentivada até mesmo por benesses indevidas do Estado brasileiro, como apontado na notícia de 9 de fevereiro, da APIB: “Segundo testemunhas, o ataque teve a participação de integrantes do “Invasão Zero” e colaboração de policiais militares. A perícia comprovou que o tiro fatal partiu do filho de um fazendeiro.”

No entanto, os conflitos são cada vez mais frequentes nos territórios, possivelmente resultado dos últimos anos de um governo que insuflou pessoas e grupos armados contra os mais vulneráveis e protetores de suas terras e florestas. Também pela vigência do Marco Temporal e ligações políticas locais, como traz a reportagem do Nexo Jornal sobre a violação das terras de território Uru-Eu-Wau-Wau em Rondônia. 

O premiado documentário “Somos Guardiões”, recentemente entrou em cartaz no catálogo da Netflix. No destaque da Revista Fórum, Edivan Guajajara é o primeiro cineasta indígena a dirigir um filme no streaming e fala sobre a importância de trazer sua visão e unir forças para frear o problema ambiental e humano na Amazônia. A obra retrata os crimes ambientais e a violência contra os povos indígenas no país, mas especialmente a força daqueles que resistem há mais de 500 anos à invasão e exploração de seus territórios. Após assistir este documentário, fica nítido que precisamos mudar agora! Enquanto os indígenas e seus territórios são dilapidados, não chegaremos a impedir a queda do céu. 

Cada vez mais os jornais e publicações não hegemônicos despontam na cobertura das pautas indígenas, juntando-se à cobertura dos veículos jornalísticos tradicionais – que nem sempre conseguem apontar as ligações e complexidades de fatos históricos e entrelaçados com poderes colonialistas em nossa sociedade. Por isso, para apoiar e entender mais sobre a luta indígena, os espaços da visibilidade indígena nas plataformas digitais são muito relevantes, como a @apiboficial e as organizações regionais de base @apoinme_brasil | @coiabamazonia | @arpinsuloficial | @cons.terena | @atyguasu | @yvyrupa.cgy | @arpinsudestesprj

 * Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Ciclone extratropical repete a pergunta: onde está a prevenção?

Roca Sales depois da chuva / Imagem: Guilherme Hamm/Secom

Por Cláudia Herte de Moraes* e Taís Busanello**

A frequência de grandes ciclones tropicais aumentou nas últimas quatro décadas, segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) (2021). Estudos sobre eventos extremos concluíram que temos alta confiança de que “a mudança do clima causada pelo homem aumenta a precipitação intensa associada a ciclones tropicais”. Neste início de setembro, um ciclone extratropical foi a principal causa de inundações, chuvas intensas, granizo e vendavais que afetaram 98 municípios gaúchos, causando 47 mortes confirmadas em 12 de setembro (ainda há desaparecidos), cerca de 5 mil desabrigados e 20 mil desalojados. Considerada a maior tragédia natural em 40 anos, a destruição e a calamidade saltam aos olhos. Assim como a falta de prevenção.

No jornalismo gaúcho e nacional, vivemos o impacto da super notícia, em que há a proliferação de matérias sobre um fato, destacando especialmente o sofrimento humano e as perdas e danos relacionados. O valor-notícia desta tragédia coletiva exigiu uma ampla cobertura midiática para atender o interesse público. Contudo, exigiria também a apuração de informações em mais camadas para a mobilização do necessário debate público sobre os meios possíveis de tornar as cidades resilientes aos efeitos das mudanças climáticas.

Tendo isso em conta, ao analisar a cobertura da revista Veja sobre as cheias de 2010 no Sul e Sudeste, pesquisadoras afirmam que “a tarefa do jornalismo seria observar e atuar de forma ativa na crítica à realidade”, abordando desastres de grande magnitude com políticas recentes sobre a situação da habilitação das populações vulneráveis. (MORAES, GIRARDI, 2011, p.11).

Desta forma, o destaque deste comentário semanal está no papel do jornalista ambiental frente aos acontecimentos dramáticos no que concerne a explanação das problemáticas e questões ao poder público, considerando o dever jornalístico, principalmente em cobertura de eventos extremos, de ser “política, social e culturalmente engajado” (BUENO, 2007, p. 36).

Trazemos aqui o exemplo do jornalista André Trigueiro (Globo News), com 30 anos de experiência na cobertura de temas ambientais, incluindo os eventos climáticos extremos e os consequentes desastres enfrentados pela sociedade, crescentes em quantidade e potência destrutiva nas duas últimas décadas. É um dos raros profissionais preocupados com a cultura da prevenção, definitivamente esquecida por nossos governantes. No vídeo que viralizou após a reação do governador Eduardo Leite, de acusar o jornalista de ter falta de empatia, Trigueiro apenas exercia a função autorizada pela sociedade aos jornalistas: a de perguntar, inclusive as questões que não vão agradar o poder constituído. Porque é um dever ético do jornalismo checar as informações junto aos órgãos e fontes do poder público, a fim de que esclarecimentos sejam prestados, ainda mais importante considerando-se a perspectiva de prevenção e de redução de danos.

Os alertas sobre as previsões meteorológicas que subsidiam as ações de prevenção foram dadas, inclusive desmentindo outra fala infeliz do governador gaúcho. Tanto que, se houve alguma falta de prevenção governamental diante dos alertas de chuvas extremas no acontecimento do ciclone deste início de mês, o Ministério Público está apurando o papel dos órgãos públicos na fase anterior ao desastre.

A tragédia motiva a reflexão também sobre como os cidadãos devem atuar quanto aos riscos. Com estreia nesta semana, um novo programa do jornal Brasil de Fato RS vai discutir diretamente o tema: Mudanças climáticas e eventos extremos, estamos preparados?. Também é preciso reivindicar das autoridades públicas uma gestão de riscos, ações pré-desastres para além do socorro após o caos se instalar. Enfim, uma visão de médio e longo prazos. O artigo publicado no Brasil de Fato RS traz importante discussão: o que falta para a declaração de emergência climática no estado? Neste sentido, recomendamos acompanhar a audiência pública sobre mudança climática no RS, dia 18 de setembro, proposta pelo deputado estadual Matheus Gomes (PSol).

O jornalismo questiona, mobiliza, esclarece. Aos jornalistas, cabe o incentivo para cobrir os temas ambientais e dos riscos considerando o princípio da precaução, que converge numa perspectiva de prevenção. Por isso, o papel do jornalismo é fiscalizar o cumprimento das ações estabelecidas nos planos de adaptação e de mitigação às mudanças climáticas dos estados, dos municípios e do país como um todo. E mais: a sociedade carece da circulação de informações completas sobre as medidas para conter o aumento da temperatura global muito além da descarbonização dos setores econômico-produtivos maiores responsáveis pela emissão dos gases de efeito estufa. Dessa maneira, é preciso relacionar a cobertura dos desastres aos temas da mitigação e da adaptação como ações preventivas aos efeitos das mudanças climáticas. São necessárias respostas e soluções de e para toda a sociedade. 

 * Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

** Estudante de Jornalismo na UFSM, bolsista de Iniciação Científica.  E-mail: tais.busanello@acad.ufsm.br

Referências

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, p. 33-44, jan./jun. 2007. Editora UFPR.

MORAES, Cláudia Herte de; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. As Cheias de 2010 na Revista Veja: a Narração Jornalística Diante do “Inesperado”. Revista Ação Midiática – Estudos em Comunicação, Sociedade e Cultura Universidade Federal do Paraná Programa de Pós Graduação em Comunicação Vol 1. Nº 2. Ano 2011. Disponível em: < https://revistas.ufpr.br/acaomidiatica/rt/metadata/26422/17636 > Acesso em: 12 set. 2023

Notícias fazem associação das ondas de calor extremo com as mudanças climáticas

Imagem: MetSul

Por Cláudia Herte de Moraes*

Temperaturas muito altas para o período, destacadas por vários veículos de imprensa brasileira nesta terça, 22 de agosto de 2023. Mas será que esses fatos são acompanhados pela preocupação com as mudanças climáticas?  O mundo está cada vez mais quente, o que acelera a crise do clima e, por consequência, se amplifica o risco de eventos climáticos extremos, como as ondas de calor, incêndios naturais e enchentes.

Ao trazer a notícia de que nesta semana teremos uma intensa onda de calor, generalizada, no Brasil, matéria do G1 não fala diretamente da emergência climática, mas deixa linkada uma reportagem do início de agosto, que  trata dos efeitos do aquecimento global, agora rebatizado como “era da fervura global”, pelo secretário-geral da ONU, António Guterres. Também fez ligação com o podcast “O Assunto”, que tratou dos “Recordes de calor e a ameaça à vida humana”, produzido por Natuza Nery. 

O texto do UOL, ao final das informações sobre as altas temperaturas, traz um trecho associando a onda de calor e as mudanças climáticas: “Um novo estudo da Unicamp detalha os efeitos das mudanças climáticas em Campinas, cidade de 1,1 milhão de habitantes no interior do Estado. Entre 1989 e o ano passado, a média das temperaturas máximas locais subiu 1,2ºC. E se não frearmos as emissões de gases de efeito estufa, a alta não deve parar por aí.”

Já a Folha de SP é bastante direta em seu título: Entenda por que mudanças climáticas causam tanto calor e incêndios na Europa” e subtítulo: “Sem redução de gases-estufa, ondas de calor e queimadas serão mais intensas e frequentes, alertam cientistas”.

Na cobertura do tema, as notícias de outros países também figuram nos portais. Como essa, da Agência Reuters publicada no UOL, que fala sobre como os incêndios se espalham na Europa diante da onda de calor, causando mortes e destruição na Grécia, Espanha, Itália e França. Não faz ligação com as mudanças climáticas.

Já no site da Época Negócios, a fonte ouvida MeteoSuisse estabelece a associação: “A mudança climática antropogênica fez com que a altitude da linha de zero grau aumentasse significativamente a cada estação”. Informa ainda que há “um impacto considerável nos habitats de humanos, animais e plantas. Recordes sucessivos para o indicador foram estabelecidos nos últimos 10 anos.”

Com esse rápido recorte do noticiário, podemos perceber que a gravidade dos problemas ambientais está batendo à porta e, com isso, a maior parte das notícias já traz a percepção de que os eventos extremos de calor fazem parte da ebulição global e da emergência climática. Mas ainda é necessário, ao discutir esse tema, trazer o debate sobre o que fazer para mitigar o aquecimento global, com a redução de emissão de gases de efeito estufa. Não há tempo para o conformismo, é preciso agir preventivamente.

As mudanças climáticas são tema frequente neste Observatório. Em julho, as ondas de calor já eram sentidas no Hemisfério Norte, e sobre isso escreveram Michel Misse Filho e de Débora Gallas. Confira ainda a análise do tema em 2022, feita por Carine Massierer.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.