As manchas de petróleo no Nordeste e a demora da imprensa em noticiar o caso nacionalmente

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

Desde o início do mês de setembro, manchas de uma substância que se assemelha a piche estão sendo econtradas no litoral nordestino. Já são 53 municípios atingidos , 112 pontos em oito dos nove estados do Nordeste, sendo o litoral baiano o único não atingido da região. A substância é petróleo cru, que não é produzido no Brasil, conforme a Petrobras.

Nove tartarugas e uma ave bobo-pequeno foram encontradas cobertas com a substância, a ave e sete das tartarugas foram encontradas mortas ou morreram após resgate. Uma tartaruga foi limpa e devolvida ao mar e uma foi encaminhada a um centro de reabilitação. Um dos grandes riscos é que o petróleo atinja reservas ambientais e locais de desova de tartarugas.
A origem do óleo ainda é desconhecida, sendo o descarte ilegal do material por navios uma provável causa. Pesquisadores estão analisando imagens de satélite para tentar localizar uma possível fonte.

Por mais que as primeiras manchas foram descobertas já nos dois primeiros dias de setembro, foi somente essa semana, mais precisamente a partir de quarta-feira, 25, que a imprensa nacional começou noticiar o fato. Foram feitas algumas boas reportagens elucidando os acontecimentos, como esta do G1 , estas duas da Folha (https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/26/manchas-de-oleo-no-nordeste-o-que-se-sabe-sobre-o-problema.ghtml e https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/09/oleo-que-atinge-praias-do-nordeste-e-petroleo-e-nao-e-brasileiro-diz-ibama.shtml e este episódio do podcast Durma com Essa, do Nexo Jornal . Entretanto, essa demora para a cobertura atingir o âmbito nacional me gera desconforto. Foram precisos mais de 20 dias, quase 100 praias atingidas e dez animais afetados para o Brasil ficar sabendo?

Os critérios de noticiabilidade que aprendemos durante a faculdade não dão conta dos riscos ambientais. Podemos apontar diversos elementos que fazem essa ser uma notícia para todo o Brasil, como a chance de o petróleo atingir áreas protegidas e prejudicar a desova de tartarugas bem como o risco de atingir outros ecossistemas, como os manguezais e estuários; os prejuízos econômicos que uma porventura queda no número de turistas pode trazer; o riscos de as pessoas entrarem em contato com a substância possivelmente cancerígena; como e por que um material que nem é produzido no país chega nas nossas praias; o desmonte de órgãos públicos de fiscalização; entre outros tantos.

O Nordeste não deve ser tratado como aquele lugar longe do “centro país” interpretado pelo Sudeste/Sul. Precisamos enxergar o Brasil como um só. O jornalismo precisa saber avaliar que quando desastres ambientais acontecem em uma ponta do país, a outra ponta também pode ser atingida. Ao noticiar os fatos antes, alguns locais afetados poderiam ter se preparado antes mesmo que o óleo os atingisse, e as consequências poderiam ser amenizadas. A população estaria cobrando respostas há mais tempo, e, quem sabe, já as teria. Às vezes o jornalismo precisa esquecer alguns de seus critérios de noticiabilidade para também auxiliar a questão a ser resolvida.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

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