O jornalismo ambiental em Eliane Brum

Imagem: Captura de tela – Divulgação do lançamento virtual do livro Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo realizado por Eliane Brum no dia 4 de novembro de 2021 e disponível no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=keukvEXh9zM )

Roberto Villar Belmonte*

O livro mais recente da jornalista e escritora Eliane Brum é uma experiência arrebatadora e uma leitura desafiadora, como já escreveram, mas também é o relato de uma jornada floresta adentro e, exatamente por isso, é um curso aberto de jornalismo ambiental com aulas (capítulos) que provocam, instigam, impulsionam.

Seus interesses jornalísticos são tão amplos que não cabem dentro do que chamamos de campo do jornalismo ambiental. Acho até que Eliane Brum nunca se autodeclarou jornalista ambiental, pelo menos não recordo de ter lido ou ouvido algo nesse sentido, apesar de ela reportar a destruição do ambiente desde a última década do século passado quando apurava e escrevia no Zero Hora.

Lembro de um texto que ela publicou em meados dos anos 1990 repercutindo denúncia sobre presença de dioxinas nos efluentes líquidos de uma festejada fábrica de celulose instalada há décadas em uma das margens do Guaíba, lago que abastece a capital gaúcha. Duas décadas depois, em 2014, também escrevendo sobre poluição química, já deixava claro em artigo no (recém extinto) El País Brasil denunciando a maldição do amianto (https://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/06/opinion/1389007120_928954.html) que tinha sim assumido um lado na luta ambiental, o lado das vítimas das grandes corporações industriais. 

O cientista Antônio Nobre foi muito feliz no evento virtual de lançamento de Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo quando disse que o “livro passa a ser um clássico instantâneo”. O relato que Eliane Brum faz é uma das mais completas descrições do brutalismo na região, noção proposta na obra mais recente do filósofo e historiador camaronês Achille Mbembe. “A transformação da humanidade em matéria e energia é o projeto final do brutalismo” (Mbembe, 2021, p.19).

O Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), criado pela professora e pesquisadora Ilza Girardi, também responsável por este Observatório, trabalha desde 2008 identificando traços típicos de um jornalismo orientado ecologicamente. Os sete pressupostos já descritos estão presentes no livro mais recente de Eliane Brum: ênfase na contextualização; pluralidade de vozes; assimilação do saber ambiental; interconexão entre as escalas local e global; engajamento e militância; responsabilidade com a mudança de pensamento; e o princípio da precaução. 

O que vivemos, afirma Eliane Brum (p.341), “é uma guerra entre humanes”. De um lado, a minoria de comedores do planeta; do outro, as vidas comidas junto com o planeta. Amazonizar-se, explica a jornalista e escritora, “é, ao mesmo tempo, verbo ativo e reflexivo, que demanda deslocamento de centros geopolíticos, sim, mas demanda também transformação na estrutura de pensamento – transfiguração da linguagem” (Brum, 2021, p.343).

Segundo Brum (p.344-345), “o colapso climático exige radicalidade. Não basta remodelar o capitalismo, como querem alguns, é preciso refundar a pessoa humana”. Ainda de acordo com a autora, “cabe às gerações de humanos que hoje estão vivas a responsabilidade de mudar rapidamente a forma de habitar o planeta. E isso não será feito apenas reciclando lixo, usando carro elétrico ou preparando comida vegana” (p.346).

“Entrelugares é meu lugar de fala. Entrelínguas e entrelinguagens é meu existir. Aos poucos vou me tornando transmundos, translínguas e translinguagens. Estou no movimento do gesto. Aos poucos vou deixando o banzeiro para (r)evolucionar em òkòtó. Rexisto [sic]. Este livro é tudo menos algo definitivo sobre a Amazônia (ou sobre mim). Minha escrita se faz por atravessamentos – de campos de conhecimento, de experiências, de geografias, de gentes, de sensibilidades, de tempos. De corpos. Minha escrita é transcrita. Termino esse livro no meio.” (Brum, 2021, p.377).

Como professor de jornalismo fico imaginando aulas e trabalhos de conclusão de curso com Banzeiro Òkòtó. O envolvimento de Eliane Brum com suas fontes jornalísticas, parceiras no Movimento Amazônia Centro do Mundo, pode ser pensado à luz das reflexões iniciadas pela professora e pesquisadora Fabiana Moraes em outro clássico da literatura jornalística, O nascimento de Joicy: Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem (2015). Outra obra recente que considero fundamental neste diálogo com a imersão de Brum na floresta amazônica é Jornalismo, Conhecimento e Contexto: Pensamento complexo para uma atividade em transformação (2020), da pesquisadora Ana Paula Lückman. 

Os jornalismos precisam se engajar de fato na luta ambiental para enfrentar a emergência climática não como oportunidade de negócios “verdes”, mas pelo que realmente é. É neste contexto que entendo o florestamento de Eliane Brum relatado em livro como um curso aberto. Um “clássico instantâneo” e, portanto, referência bibliográfica obrigatória do jornalismo ambiental brasileiro.

 

  • Referências

BRUM, Eliane. Banzeiro òkòtó: uma viagem à Amazônia Centro do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

LÜCKMAN, Ana Paula. Jornalismo, conhecimento e contexto: pensamento complexo para uma atividade em transformação. Florianópolis: Insular, 2020.

MBEMBE, Achille. Brutalismo. São Paulo: n-1 edições, 2021.

MORAES, Fabiana. O nascimento de Joicy: transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2015. 

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor universitário e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

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