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Por Guilherme Mussane* e Ilza M.Tourinho Girardi**
A tentativa de exportar com aspectos de legalidade ou contrabandear madeira nativa é uma prática que exige constante atenção dos órgãos de estado que atuam para evitar tais espécies de crimes tanto no Brasil como em Moçambique.
No dia 28 de setembro o Jornal Notícia de Moçambique publicou a matéria “Apreendidas mais de nove mil pranchas de madeira ilegal em Mocímboa da Praia”, em Cabo Delgado, numa operação de combate ao comércio ilegal de recursos florestais.
A operação realizada no domingo, 27 de setembro, envolveu a Agência Nacional para o Controlo da Qualidade Ambiental (AQUAA) e a Policia de Proteção de Recursos Naturais e Meio Ambiente (PPRNMA). A madeira foi localizada em sete quintas residenciais no Bairro de Zalala, na Vila da Mocímboa da Praia, norte de Moçambique.
A matéria afirma que,segundo as autoridades, tratam-se de espécies nativas classificadas como preciosas, e há suspeitas de que a madeira armazenada na zona costeira seria posteriormente transportada por via marítima através de barcaças, com destino a Tanzânia.
Conforme ainda informa o texto, o material permanece sob custódia do Governo do Distrito de Mocímboa da Praia com o objetivo de identificar os responsáveis, enquanto decorrem os procedimentos para a apresentação formal do caso ao Ministério Público.
Apesar da gravidade do assunto, o texto fica devendo informações ao leitor sobre qual é a espécie visada, a sua importância para a biodiversidade moçambicana, que outras espécies estão ameaçadas, além de outras ações dos órgãos competentes que devem participar do esforço para acabar com esse tipo de comércio ilegal.
Conforme a notícia as investigações continuam para apurar os nomes das pessoas envolvidas com o crime. No entanto, é possível que texto não tenha se aprofundado no tema e nem apresente o nome do repórter para proteger o autor da matéria, já que a situação de jornalistas ameaçados e mortos não é um privilégio do Brasil.
Assolada pelo terrorismo, a Província de Cabo Delgado tem sido pródiga em graves problemas com os profissionais da comunicação social. O jornalista Ibraimo Abú Mbaruco, locutor da Rádio Comunitária de Palma, desapareceu a 7 de abril de 2020 em Palma e o seu caso foi arquivado pela Procuradoria-Geral da República, em agosto de 2024, por falta de provas.
Mbaruco regressava a casa depois da jornada de trabalho, quando enviou uma mensagem a um colega a informar que estava “cercado por militares”.
O desaparecimento ocorreu numa zona afetada por ataques de grupos armados. Organizações como o MISA-Moçambique indicaram que fontes locais apontavam para uma detenção pelas forças de defesa e segurança, embora o paradeiro nunca tenha sido oficialmente apurado. Entidades como a Anistia Internacional, a Human Rights Wach (HRW) e o MISA exigiram investigações profundas ao longo dos anos.
Organizações de direitos humanos continuam a relembrar o caso e a exigir respostas, associando-o a outras ocorrências recentes de desaparecimentos de figuras ligadas à comunicação social no País.
Conforme manifesto do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (https://jornalismoemeioambiente.com/2026/09/25/defender-o-jornalismo-independente-para-defender-a-democracia/) em solidariedade ao portal independente Tapajós de Fato (https://www.tapajosdefato.com.br/) jornalistas que se dedicam à cobertura ambiental correm risco de morte em certas regiões onde o crime contra o meio ambiente, povos indígenas, comunidades tradicionais e quilombolas ainda é uma realidade. No Brasil, tal situação de jornalistas já foi denunciada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e outras entidades e veículos de jornalismo. Mesmo com os avanços das medidas protetivas a jornalistas o perigo ainda é grande.
Conforme o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa (RSF), Moçambique aparece como um país em que ocorreu um declínio alarmante da liberdade de imprensa o que representa um risco, assim como na região norte do Brasil, para os jornalistas que cobrem o meio ambiente.
* Antropólogo, Doutorando em Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS, membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.
** Jornalista, Professora Titular aposentada atuando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS, líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.
