Por Franchesco de Oliveira Y Castro* e Cláudia Herte de Moraes**
As eleições de 2026 colocam novamente o Rio Grande do Sul diante de uma disputa que ultrapassa a escolha de representantes políticos. Em um estado marcado por eventos climáticos extremos, enchentes, estiagens, deslizamentos e impactos sobre cidades, comunidades e atividades econômicas, cabe perguntar: que rumos a sociedade espera para o enfrentamento da crise climática?
Mais do que uma pauta restrita às políticas ambientais, as mudanças no clima atravessam áreas como planejamento urbano, habitação, agricultura, infraestrutura, saúde, mobilidade, energia e gestão de riscos. A experiência do desastre de 2024, que atingiu grande parte do território gaúcho, tornou ainda mais evidente a necessidade de discutir prevenção, adaptação e preparação para eventos extremos como questões permanentes da administração pública.
Nesse contexto, analisar uma eleição pelo olhar do jornalismo ambiental significa observar não apenas quem recebeu mais votos, mas também quais temas ganharam espaço no debate público, quais problemas ambientais foram incorporados às campanhas e de que maneira os candidatos apresentaram suas propostas para um estado que já vivencia os efeitos drásticos das mudanças climáticas. A questão passa, portanto, pela capacidade da política e do jornalismo de tratar a emergência climática para além da lógica da tragédia anunciada, incorporando a prevenção, o planejamento e a justiça ambiental à discussão sobre o futuro do Rio Grande do Sul.
No Rio Grande do Sul, a eleição de Luciano Zucco (PL) para o governo estadual também coloca a agenda ambiental diante de novos questionamentos. Uma matéria publicada pela Exame em 24 de setembro de 2026 analisou as propostas dos candidatos ao governo do Rio Grande do Sul para a prevenção e o enfrentamento dos eventos climáticos extremos. Em seu plano de governo, o candidato propõe substituir uma “cultura de resposta emergencial” por uma política permanente de prevenção e gestão de riscos, com fortalecimento da Defesa Civil, ampliação das redes de monitoramento, atualização dos mapas de risco, sistemas de alerta e uma carteira de obras voltadas à proteção contra cheias, drenagem e contenção. As propostas dialogam com a realidade de um estado que ainda convive com os impactos das enchentes de 2024 e que voltou a registrar situações de alerta em 2026. Mas, diante da emergência climática, cabe refletir: se a prevenção será pensada apenas a partir do monitoramento, da resposta rápida e da infraestrutura ou também contemplará as causas e as condições socioambientais que tornam determinados territórios mais vulneráveis aos eventos extremos.
A análise publicada pelo ClimaInfo, “Novo Congresso impõe derrota à agenda ambiental enquanto Lula enfrenta difícil segundo turno”, ajuda a ampliar a discussão sobre os efeitos das eleições para a pauta socioambiental. Embora o texto tenha como foco a nova composição do Congresso Nacional, sua análise evidencia que os rumos das políticas ambientais não dependem apenas do Poder Executivo, mas também das forças políticas que ocuparão o Legislativo e das disputas em torno de temas como licenciamento, mudanças climáticas e direitos territoriais. No caso gaúcho, acompanhar como as propostas apresentadas pelo novo governo serão transformadas em políticas públicas será fundamental para compreender quais caminhos serão adotados diante de uma realidade em que os efeitos da crise climática já não podem ser tratados como uma possibilidade futura.
Diante desse cenário, pensar o futuro do Rio Grande do Sul exige acompanhar a política para além do período eleitoral. As propostas apresentadas durante a campanha precisam ser confrontadas com as ações concretas do novo governo, especialmente em um estado no qual a prevenção de desastres, a adaptação às mudanças climáticas e a redução das vulnerabilidades já não podem ser adiadas. Mais do que responder aos eventos extremos depois que eles acontecem, o desafio está em construir políticas permanentes capazes de reduzir riscos e enfrentar as desigualdades que fazem com que os impactos da crise climática sejam sentidos de maneira diferente entre os territórios e as populações.
Para o jornalismo ambiental, esse acompanhamento também representa um compromisso que ultrapassa a cobertura das eleições e das pautas ambientais. Cabe questionar quais interesses orientam as decisões, quem participa da construção das políticas públicas, quais territórios são priorizados e se as medidas anunciadas conseguem enfrentar as causas e as consequências da emergência climática. Em um cenário de extremos cada vez mais presentes, informar sobre o clima não significa apenas noticiar a próxima enchente, estiagem ou onda de calor, mas acompanhar as escolhas políticas que podem determinar a capacidade do estado de prevenir, adaptar-se e proteger sua população.
Assim, a pergunta que permanece depois das urnas não é apenas qual projeto político venceu, mas que projeto de futuro será construído a partir dessa escolha. Para o Rio Grande do Sul, onde os efeitos das mudanças climáticas já fazem parte do presente, acompanhar essa construção é também uma tarefa do jornalismo.
Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.
**Graduando em Jornalismo na UFSM. Integrante do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br.

