Amazônia Legal sob o bolsonarismo: importância e desafios de uma cobertura alinhada aos pressupostos do Jornalismo Ambiental

Terras Indígenas do povo Mura (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Por Bárbara Gonçalves de Lima*

Findado o primeiro turno das eleições no Brasil, pelo menos sete dos nove estados da Amazônia Legal, recorte territorial estabelecido pelo governo brasileiro para orientar políticas públicas, planejamento socioeconômico e incentivos fiscais voltados ao desenvolvimento da região amazônica, serão governados pelo bolsonarismo. Diante desse cenário, este Observatório buscou analisar como a cobertura jornalística relaciona a proteção da floresta ao avanço da extrema direita na região.

Embora a conexão entre os temas ainda tenha recebido pouca atenção da mídia hegemônica e a forma contextualizada seja um desafio – considerando que a situação dos jornalistas da mídia independente é marcada por ameaças, como já foi pontuado por este Observatório com o cancelamento da cobertura das eleições portal Tapajós de Fato, é preciso citar uma cobertura em específico como positiva ao apontar caminhos para uma abordagem mais alinhada aos Pressupostos do Jornalismo Ambiental (JA): a do portal Sumaúma.

Na publicação “Bolsonarismo comandará pelo menos sete dos nove estados da Amazônia”, da jornalista Claudia Antunes, dados e contextualização dos fatos ajudam o leitor a perceber a ligação entre as propostas da extrema-direita para a flexibilização ambiental e o aumento do desmatamento e destruição na Amazônia Legal.

Isso é importante porque apenas mencionar os nomes dos eleitos e seus partidos – ainda mais em tempos de desinformação – não é suficiente para dimensionar o que os resultados eleitorais representam para o meio ambiente nem quais são os projetos do bolsonarismo para a região. Ao relembrar, logo na abertura do texto, que o governo de Jair Bolsonaro foi marcado por um aumento de 59% no desmatamento do bioma, a publicação, portanto, cumpre com o pressuposto do JA de ênfase na contextualização e contribui para uma compreensão crítica do cenário, associando a extrema direita aos impactos da derrubada de milhares de árvores na floresta.

A reportagem também recorre a fontes acadêmicas e de pesquisa para explicar os fatores que impulsionam o avanço da extrema direita na região, como o antipetismo, o voto de eleitores evangélicos e a influência político-eleitoral de dirigentes do agronegócio. Com isso, contribui para a assimilação do saber ambiental, uma vez que não separa as decisões políticas, como a eleição de representantes, das consequências para a maior floresta do mundo, evidenciando que a questão ambiental é complexa.

Além disso, resgata a trajetória dos eleitos e sua atuação contrária à proteção ambiental. No Pará, conforme a publicação, Daniel Santos foi eleito após uma campanha contra a fiscalização ambiental. Outro aspecto relevante é a abordagem da decisão do presidente Lula de pressionar o Ibama a autorizar a perfuração na Bacia da Foz do Amazonas para a exploração de petróleo, iniciativa que não surtiu o efeito esperado de aumentar o apoio ao presidente. A investigação sobre as posições ambientais e as decisões dos políticos contribui para a qualificação da informação.
O texto também aborda projetos de autoria de Flávio Bolsonaro que buscam acabar com a reserva legal, além de mencionar sua assinatura em duas propostas de emendas anti-indígenas e contrárias ao clima. Também trata da omissão à conservação da floresta em seu plano de governo. Ao evidenciar a dimensão das ameaças representadas pelo avanço do bolsonarismo na Amazônia Legal, a cobertura também atende ao princípio da precaução, fundamental para o jornalismo ambiental.

Ainda que materiais deste tipo sejam escassos na mídia e os desafios sejam imensos, este tipo de publicação cumpre um papel crucial: contribuir com a mudança de pensamento da população. Nos próximos quatro anos, o jornalismo terá de se atentar ainda mais às relações entre política e a temática ambiental. Nesse sentido, os temas não poderão ser tratados de forma isolada nem desconectados das decisões e dos projetos da extrema direita. Os pressupostos do Jornalismo Ambiental serão ainda mais relevantes para uma cobertura capaz de informar a população sobre os possíveis efeitos desse avanço político.

Revisão:  Cláudia Moraes, integrante do GPJA.

*Jornalista, mestranda no PPGCOM/UFRGS e Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

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