A crise climática é uma pauta urgente e vem ganhando cada vez mais espaço no noticiário. Mas será que a cobertura jornalística de fato evidencia a complexidade dos cenários identificados pela ciência e de seu impacto em nosso cotidiano?
À época da divulgação do sexto relatório do Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU (IPCC), em agosto deste ano, o texto de Cláudia Herte de Moraes publicado neste Observatório citou a justiça climática como viés incontornável para termos coberturas qualificadas e aprofundadas sobre as consequências do aquecimento do planeta. Por esse entendimento, dar voz às populações afetadas pela desigualdade socioambiental é parte importante para a definição de prioridades no enfrentamento às mudanças climáticas.
Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), que ocorrerá a partir de 31 de outubro, em Glasgow, na Escócia, a cobertura midiática, de forma geral, repercute as reivindicações do setor privado e os posicionamentos de líderes globais sobre as questões climáticas. Ao buscar por “COP26” no Google Notícias, em 14 de outubro, encontramos resultados como a notícia de Canal Rural que relata a exigência de conselho de empresários brasileiros para que o governo federal regule o mercado de carbono no país. Outra notícia com forma e conteúdo de press release, publicada no site EmTempo, do Amazonas, detalha o encontro do Ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, com o embaixador da Noruega no Brasil, em que o mercado de carbono e a bioeconomia também foram pauta.
No entanto, ainda carecem abordagens sobre os problemas e soluções estruturais diante da emergência climática que utilizem a COP26 como mote. Algumas lacunas são supridas através da comunicação produzida pelos próprios grupos vítimas da injustiça climática através das redes sociais. Em sua conta no Instagram, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), por exemplo, noticiou a realização da Oficina de Mudanças Climáticas com lideranças indígenas brasileiras que acompanharão a COP26. Mas é necessário que este seja um compromisso constante do jornalismo.
Como resultados da COP26, esperamos não somente metas mais ambiciosas, mas também planos de ação dos governos que participarão da Conferência para não ultrapassarmos o já inevitável aquecimento do planeta em 1,5ºC. Do jornalismo, esperamos narrativas mais aprofundadas, que sensibilizem e mobilizem a população em torno do tema.
*Jornalista, pós-graduada em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com
Com a média móvel de mortes por covid-19 em queda – mesmo com o Brasil atingindo, nos últimos dias, um patamar aterrador de 600 mil vidas perdidas -, a expectativa de retomar a vida “normalmente” já é uma realidade para diversos setores. No comércio, uma consequência esperada (e até fomentada, como abordaremos a seguir) é chamada de revenge buying, revenge shopping ou, em bom Português, consumo de vingança. O termo, que começa a se popularizar em reportagens no Brasil, traz consigo um apelo às compras derivado do período de restrição. Isso se reflete, claro, em mais pressão no planeta e leva-nos a um espiral perigoso. Mas como o jornalismo tem lidado com o assunto?
Embora o termo não seja novo, a discussão sobre revenge buying ganhou força em meados de 2020, após o confinamento na China, determinado pela pandemia do novo Coronavirus. O fenômeno social de consumo, que foi facilmente percebido pelo mercado de luxo, contou com dois momentos auge naquele país: o primeiro, online, ainda durante a quarentena; e o segundo, em compras no ambiente físico, logo após o período de distanciamento físico.
Em nosso país, no qual o lockdown nunca foi uma política pública e o comércio ficou restrito por um período muito curto de tempo, parece-nos um malabarismo enorme apostar que um possível aumento no consumo decorra das mesmas bases encontradas na China. Apesar disso, não raro localizamos o termo no jornalismo brasileiro.
Em reportagem publicada no último dia 1º deste mês, intitulada “Retorno da noite de São Paulo, abalada pela pandemia, é marcado por ‘consumo de vingança’ e incertezas” , a prática de comprar mais que o habitual (e necessário) é descrita como uma “pequena indulgência” para comemorar o fato de estar vivo (!). Tratando dos hábitos de consumo em bares e restaurantes, a discussão no texto de O Globo não ultrapassa os limites dos tão convencionais “retomada da economia” e “projeção de receita a níveis pré-pandêmicos” e o consumo exacerbado é descrito como “uma farra que não vai durar muito tempo”.
Para além do insulto, considerando a situação econômica do país, em que vísceras e aparas de pescados ou ossos de animais são vendidos para alimentação de uma população cada vez mais pobre, sustentar a discussão de consumo como apenas uma lógica comercial, pela qual se poderia salvar a economia, é ser superficial demais. Ou, no mínimo, mal intencionado.
As consequências ambientais decorrentes de um consumo acima dos limites do planeta colocam a todos em risco. E fazê-lo para festejar a sobrevivência ou para alcançar um sentimento de completude é um contrassenso que nos empurra a passos largos para o colapso.
“Ao consumo são atribuídas uma série de vantagens que ele na verdade não tem, mas o consumismo continua sendo encorajado, já que é o combustível principal do atual sistema econômico.”
Neste sentido, além de discutir as razões para o consumismo e o modo como a publicidade (ou, mais especificamente, os mais de 6000 estímulos publicitários que recebemos diariamente, como dito na reportagem) constrói a ideia de compra como terapia e atividade de lazer, a reportagem reconstitui o surgimento do consumismo como fenômeno próprio de sociedades desiguais.
No subtitulo “Contra os limites do planeta”, El Pais Brasil pontua que consumimos hoje como se tivéssemos à disposição 1,7 planetas Terra, e esse ímpeto está relacionado aos nossos valores, ao que nos emociona. Levando isso em conta, um consumo dito ecológico, sustentável e, porque não, anticapitalista pode, em vez de ser uma forma de se afastar do exagero, tornar-se mais uma opção de compra. O que muda é como estas lógicas se alinham com o que tomamos como correto.
Assim, propiciar um entendimento mais amplo acerca das causas e consequências das nossas ações individuais – nesse caso, do consumo, seja ele por vingança ou pelo desejo de alcançar a felicidade – embora não seja a chave para a resolução dos nossos problemas ambientais, é uma maneira de construir novos valores que repercutirão na nossa tomada de decisão perante um mercado cada vez mais agressivo.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do GPJA. E-mail: eutalita@gmail.com
As fotografias e vídeos da tempestade de poeira que atingiu 25 cidades do nordeste de São Paulo e do Triângulo Mineiro no dia 26 de setembro, com nova ocorrência em 1º de outubro, varreram as mídias sociais. O “haboob” – nome dado pelos meteorologistas para as tempestades de areia nas regiões mais áridas do planeta – pautou os veículos de comunicação, com destaque para a reportagem da BBC News Brasil assinada pelo jornalista João Fellet e intitulada “Desmatamento e modelo agrícola aumentam risco de ‘tempestade de poeira’”. A notícia, em https://bbc.in/3zVYvIc, aborda a relação do fenômeno com a existência de grandes porções de solo seco e sem cobertura vegetal na região, onde há forte presença do agronegócio.
A notícia traz quatro imagens de satélite, cinco fotos e um mapa dos remanescentes de vegetação natural em São Paulo em 2008/2009 revelando que a concentração do que restou está no litoral do estado. Três fontes – o coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas, o presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo e o diretor técnico da Unica, principal associação que representa o setor de cana-de-açúcar no Brasil – desenvolvem o argumento. O repórter consultou ainda o Relatório de Qualidade Ambiental 2020 feito anualmente pela Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do governo de São Paulo e o Censo Agropecuário de 2017.
Um destaque da notícia é a menção ao Dust Bowl, como foi chamada a série de tempestades de poeira que atingiram o sul dos Estados Unidos nos anos 1930, quando milhões de hectares de terras antes consideradas férteis se tornaram inaptas para a agricultura. A notícia não imerge no espaço geográfico onde ocorreu o “haboob” à brasileira, mas, ao se apresentar como aprendiz de agrofloresteiro e meliponicultor em sua conta no Twitter, o repórter João Fellet – @joaofellet – faria bonito ao desenvolver a pauta in loco e de lá trazer uma baita história.
Com relação ao tema cabe mencionar também o trabalho feito pela AFP no “Checamos”. A agência verificou sete imagens de tempestades de poeira compartilhadas mais de 40 mil vezes nas redes sociais de 26 a 28 de setembro vinculadas ao fenômeno e constatou que ao menos três eram anteriores ao fato e algumas sequer haviam sido feitas no Brasil – em https://bit.ly/3omIOrr. Uma das mais compartilhadas era de uma tempestade ocorrida em Phoenix, no estado do Arizona (Estados Unidos), em 2 de agosto de 2018 e creditada ao fotógrafo Jerry Ferguson. Essa foto foi usada até para montagem do conhecido meme do cão caramelo, em https://bit.ly/3oqhM2r. Os comentários nesta postagem, parte deles de moradores da região atingida no dia 26 de setembro, revelam a preocupação com o fenômeno, suas causas e consequências, apontando caminhos para mais pautas aprofundadas sobre o fato que, neste domingo (3), também foi abordado nos programas “Fantástico” e “Cidades e Soluções”, da Rede Globo, com pauta alinhada à da notícia da BBC News Brasil.
*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo. E-mail: misabreu@yahoo.com.br
Na última terça-feira, dia 21 de setembro, durante discurso na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), mais uma vez, tivemos uma autoridade pública à serviço da disseminação de informações descontextualizadas e manipuladas para endossar sua própria realidade. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, exagerou, tirou do contexto e pronunciou inverdades a respeito do meio ambiente, conforme checado pelo Fakebook.eco, uma iniciativa de checagem dos fatos do Observatório do Clima.
A produção de conteúdos descontextualizados ou criados com a intenção de enganar e gerar confusão no público não afeta apenas a área ambiental, mas se expande por todos os setores da nossa sociedade. Tal fenômeno foi chamado pela Organização Mundial da Saúde (2020) de infodemia, já que gera dificuldade na distinção entre as informações verdadeiras e as falsas, e deixa dúvidas sobre em quem devemos realmente confiar.
As distorções sobre o desmatamento e as queimadas na Amazônia, apresentadas nos discursos do presidente na ONU, integram a lista das mais de 30 violações de direitos humanos e retrocessos propagadas nos mil dias pelo governo de Jair Bolsonaro, divulgada nessa sexta-feira, dia 24, pela Anistia Internacional. Não há mais lugar ou contexto que restrinja a circulação de palavras enganosas – ao contrário, parece que, se pronunciadas em espaços respeitáveis, ganharão, automaticamente, estatuto de confiáveis. Afinal, quem ousaria, publicamente, mentir para o mundo todo?
Diante de tal problema, que se intensificou com a postura do governo de descredibilizar o trabalho da imprensa e de tentar reduzir a questão ambiental a um aspecto ideológico, o que o jornalismo pode fazer? Já não são apenas por mensagens via aplicativos e redes sociais que nos chegam as mentiras, mas elas são propagadas pelos próprios meios de comunicação, ao dar espaço para as fontes emissoras de desinformação. Até que ponto reproduzir os discursos dos responsáveis pela infodemia é serviço público? Como não normalizar o problema e, ao mesmo tempo, reduzir a visibilidade desses propagadores?
Profissionais da área estão aprendendo a combater a enxurrada de distorções com agências, editorias e matérias baseadas na verificação dos fatos (ou fact-checking). A ênfase sobre a repercussão negativa das mentiras ditas pelo presidente apareceu em grande parte dos veículos, como IstoÉ, G1, Estadão, Folha de S. Paulo, Veja – só para citar alguns, e também rendeu manchetes internacionais que em nada beneficiam nosso País. Porém, ainda é difícil saber se essa abordagem contribui para a redução da circulação ou interfere na credibilidade do que já foi falado.
Mais do que os veículos jornalísticos enfatizarem a checagem das informações, seria preciso que a infodemia fosse vista como um problema social, que fosse enfrentado por todos, inclusive com políticas públicas. Fomentar um olhar crítico sobre os conteúdos, que muitas vezes reproduzem o formato dos produtos jornalísticos, é algo que se mostra urgente e necessário para que as evidências científicas não sejam contestadas e para que possamos avançar no debate sobre as crises que ameaçam o futuro da humanidade.
* Jornalista, doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Imagem: Captura de tela – Versão digital da sexta e última parte do especial escrito por João Moreira Salles publicada na edição de abril de 2021 da revista piauí
Por Roberto Villar Belmonte*
O especial Arrabalde foi publicado em seis edições da revista piauí como um dossiê, formato de texto jornalístico do gênero interpretativo. Os artigos – “resultado de dois anos de pesquisa e cinco meses de apuração diretamente na região Norte” – de autoria de João Moreira Salles, editor fundador da publicação, poderiam também ser classificados como grande reportagem seriada, ensaio jornalístico, reportagensaio ou reportagens atravessadas, como diria Eduardo Geraque (2006).
Juntando as seis partes publicadas nas edições mensais da versão impressa da piauí, de novembro de 2020 até abril de 2021, o especial ocupa 77 páginas: 49,5 delas com texto, 7 com ilustrações e 20,5 com anúncios da Natura, da Vale, do Itaú e da Agropalma. Moreira Salles destrincha relatos históricos, pesquisas econômicas e estudos ecológicos sobre a floresta amazônica e mobiliza uma quantidade surpreendente de fontes (mais de 70 entrevistados), com destaque para personagens do Pará.
O principal objetivo da apuração de fôlego empreendida por Moreira Salles é mostrar que o modelo de desenvolvimento para o bioma, que ocupa metade do território nacional, precisa levar em conta uma economia florestal baseada em produtos nativos. “As forças que avançaram sobre a floresta nunca tentaram compreender a real vocação da mata, aquilo de que ela é capaz. O processo de ocupação da Amazônia pode ser entendido como um grande fracasso epistêmico.” Resgatando relatos históricos sobre a região, o autor identifica três estratégias narrativas: um adjetivismo apoteótico, um panteísmo mágico e um derrotismo fatalista. Ele busca um outro caminho para tecer seus artigos, o da bioeconomia como oportunidade de negócio sustentável.
A ocupação da Região Norte lembra a conquista do oeste dos Estados Unidos, com uma grande diferença, observa Moreira Salles, aqui “não desenvolvemos uma épica amazônica para compartilhar entre nós”. Faltou construir, ressalta, uma Amazônia simbólica. “Exercermos uma espécie de colonialismo indiferente, ocupamos sem querer conhecer.” O Brasil optou por destruir muito em troca de pouco e a um custo imenso, denuncia entre relatos sobre a importância da diversidade biológica para a sobrevivência dos ecossistemas. A imagem que o repórter presenciou subindo a BR 163 de sete bois em linha para resistir ao calor na sombra de um tronco solitário de árvore sintetiza o modelo predatório que já devastou pelo menos 1/5 da floresta.
A entrevista que fez com Robert Schneider, economista aposentado do Banco Mundial, é um ponto alto da série de artigos, pois Moreira Salles esmiuça com ele o relatório Governo e Economia na Fronteira Amazônica que publicou em 1995 mudando a maneira de compreender a destruição do bioma. “‘Mineração de nutrientes’ foi a expressão criada por Schneider para nomear a extração não sustentável de nutrientes do solo florestal mediante corte e queima da vegetação, com o objetivo de abrir espaço para a lavoura e a pecuária extensiva.” O engenheiro agrônomo e pesquisador Adalberto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), participou da conversa, e aparece em outras partes do dossiê.
“A cultura do boi produz uma estética, um gosto, define hábitos, uma identidade, formas de enxergar a realidade. Em regiões como Paragominas, o agronegócio é muito mais que uma atividade econômica. É um modo de estar no mundo que une jovens e velhos, modernos e arcaicos, liberais e conservadores, além, é claro, de reacionários. É a cultura hegemônica que os vitoriosos impuseram à Amazônia. São as cabines duplas, os adereços taurinos nos para-choques das picapes com tração nas quatro rodas, os rodeios, a música sertaneja, a glorificação do cavalo e a submissão do boi, as feiras agropecuárias, a brasa e o churrasco. Em suma: o contrário da selva, a sua negação.”
Entrevistando Ester Ymeriki Kaxuyana com ajuda da filha Vaneusa, de 20 anos, Moreira Salles conta a saga do povo Kaxuyana desterrado por causa de epidemias e ações missionárias. Depois apresenta os Sakaguchi, imigrantes japoneses de Tomé-Açu, município localizado no nordeste do Pará, que adotaram o sistema agroflorestal como uma forma de fazer a agricultura trabalhar com a floresta, não contra ela. “É outro modo de fazer as coisas, ou outro modo de estar no mundo. A mecanização é difícil, por exemplo. A diversidade de espécies exige não apenas uma competência, como as monoculturas, mas várias, tantas quanto forem as plantas ali presentes. É uma agricultura para artesãos, não para industriais.”
A narrativa em prol da bioeconomia é apoteótica no final. “Levada adiante, a ideia de um Brasil que retira do seu patrimônio natural, e da Amazônia em particular, o fundamento de sua identidade e de seu destino, que transforma o arrabalde em nossa casa, por assim dizer, impõe ao país uma tarefa magnífica. No limite, a de desenvolver em terras brasileiras o Vale do Silício da biodiversidade.” Moreira Salles percebe seu tom utópico e termina assim o dossiê: “Pouco importa se o objetivo é fantasioso e difícil de alcançar. O que importa é o rumo. Para um país que sempre sonhou baixo, é uma linda ambição, apta a evitar que, no futuro, uma criança olhe para um mogno e aprenda que está diante de uma pilha de tábuas de compensado”.
Assim como o documentário No Intenso Agora, de 2018, considero o dossiê da revista piauí chamado Arrabalde (2020/2021) uma obra de referência do cineasta, editor e (agora também) repórter João Moreira Salles. Um jornalismo ambiental de profundidade sobre futuros possíveis para a nação brasileira.
Referência:
GERAQUE, Eduardo Augusto. Reportagens atravessadas: um mergulho, via Teoria Geral dos Sistemas, na cobertura da poluição atmosférica feita por jornais brasileiros e mexicanos. Tese (doutorado). 2006. 243 f. Programa de Pós-Graduação em Integração na América Latina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.
*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
No dia 9 de agosto de 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) emitiu um dos mais completos e conclusivos relatórios sobre a grave crise ecológica e planetária que enfrentamos. O documento tem mais de 3 mil páginas que foram escritas por aproximadamente 200 cientistas oriundos de 60 países diferentes a partir de anos de pesquisa sobre o tema, citando mais de 14 mil estudos que dão base às conclusões feitas.
Após apenas um mês de emissão do relatório, o jornal Zero Hora (ZH) publicou um infeliz artigo de opinião de Flávio Juarez Feijó chamado “Aquecimento Natural”. Apesar de ser geólogo e ser mestre em geociências, Flávio foi abraçado pelo jornal da capital gaúcha por suas opiniões descabidas que não possuem nenhum embasamento científico.
Nesse artigo aprovado por ZH, ele ousou em dizer que o relatório do IPCC é alarmista e que tem como meta o impedimento do crescimento de países subdesenvolvidos como o Brasil. Como supostos argumentos científicos, afirma que as mudanças climáticas atuais fazem parte de um ciclo natural da terra e que não é necessário reduzir nenhuma emissão de gases de efeito estufa. Ainda, opina que as metas de carbono zero fariam a sociedade voltar a andar a cavalo e que a agricultura do nosso país voltaria a ser movida por arados a boi.
Em letras miúdas quase imperceptíveis ao(à) leitor(a), o jornal ZH escreve no rodapé da página do artigo: “Os textos não representam a opinião do Grupo RBS”. Contudo, essa não é a primeira vez que ZH abraça as opiniões de Flávio, já que publicou outro texto do geólogo em 2018 chamado “descarbonizar não é preciso”. Neste texto, sem nenhuma referência científica, diz que o derretimento das geleiras não acrescentaria uma “gota no oceano”, que o gelo da Antártica está protegido e que o nível do mar não irá subir. Ainda assim, não se contém e diz que, caso várias áreas do planeta derretam devido ao “aquecimento natural”, deve-se aproveitar as “benesses” do contexto e criar novas rotas de navegação e vastas áreas de agricultura (!).
Não é preciso dizer mais nada para afirmar que escolhas editoriais como essa são perigosas e devem ser apontadas como tal. Pequenas notas em rodapé não devem justificar a falta de responsabilidade de veículos de comunicação para com a pauta do colapso climático. É importante dizer que essas escolhas estão sendo feitas por muitos jornais brasileiros, como Folha de São Paulo, que publicou um péssimo texto de Leandro Narloch chamado “Negacionistas e aceitacionistas se equivalem na reação histérica contra quem questiona seus dogmas”. A publicação foi feita apenas 8 dias depois da emissão do relatório do IPCC e apenas 3 dias após manifestação do ombudsman da Folhacontra o mesmo colunista.
Esse pronunciamento do ombudsman só ocorreu devido à grande polêmica que os diversos textos negacionistas de Narloch causaram na opinião pública através das redes sociais. Por isso, devemos nos manter alerta às decisões editoriais como as de Zero Hora e nos manifestarmos criticamente para que o jornalismo brasileiro não aja como se o colapso climático fosse questão de opinião.
*Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade.
Em dois meses, estaremos na metade da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-26 (entre 1º e 12/11/2021), na Escócia. O acontecimento vai exigir dos países a apresentação de metas de redução das emissões dos gases de efeito estufa que sejam coerentes com o contexto do Antropoceno. Neste percurso, as notícias jornalísticas de meios de referência (como a Folha, o Estadão e o Valor Econômico) já persuadem leitores a respeito da produção de hidrogênio verde (H2V) com fontes renováveis (usinas eólicas e solares, mas também nucleares).
Essa persuasão, basicamente, se nutre de duas justificativas. A primeira é possibilitar a descarbonização global dos setores produtivos que mais poluem: siderurgia e mineração; indústria química; transporte aéreo e rodoviário (especialmente o de cargas pesadas); geração de eletricidade; produção de amônia e fertilizantes para agricultura. A segunda é atender às demandas de consumo dos países desenvolvidos, como Alemanha e França, entre outros europeus, e os Estados Unidos, ou seja, de importar H2V de modo a manter suas economias ativas. Os links, nas palavras em destaque neste texto, conduzem às notícias que basearam a nossa análise.
Segundo as notícias, o Ceará, através do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, está mais avançado nos acordos com megaempresas transnacionais: a Enegix e a White Martins e, recentemente, com a EDP. Na sequência, o Rio de Janeiro tem memorando assinado com a Fortescue pelo Porto do Açu. Soubemos por outros meios, que Minas Gerais e Rio Grande do Sul também estão na disputa pela atração de investidores aos nominados hub’s de hidrogênio. Tanto os executivos como as megaempresas seguem os princípios da ESG (Environmental, Social e Corporate Governance) através das chamadas boas práticas ambientais, sociais e de governança corporativa. Contudo, não deixam claro como essas práticas vão frear a devastação da natureza e os consequentes efeitos da mudança do clima, já que a exploração capitalista vai continuar voraz sobre os territórios. Esta problematização tampouco é feita pela Folha e pelo Valor Econômico, que reportam em espaços específicos essas iniciativas no âmbito da ESG, como o hidrogênio verde, além da cobertura nas editorias convencionais. Age igualmente o jornal O Estado, que nomeou o espaço como Retomada Verde.
Se considerarmos o jornalismo como mais uma forma de conhecimento, assim como os teóricos Robert Park (1864-1944), Adelmo Genro Filho (1951-1988) e Eduardo Medistch, a reprodução das informações obtidas através das fontes oficiais não adere ao princípio do jornalismo de atendimento ao interesse público. Não por ter faltado o contraditório nas notícias, mas sim, pela restrita abordagem economicista/crematística, como se essa visão de mundo (particular) fosse universal no nosso país, um dos mais megabiodiversos (tanto em termos ecológicos como socioantropológicos). Um exemplo disso, a dramática questão da água no país reportada como “oportunidade de investimento em meio à crise hídrica e perspectiva de escassez no futuro” por O Estado.
De modo semelhante, notícia da Folha destacou o que seria uma boa prática ambiental pela Embraer através do “primeiro voo com um avião elétrico produzido pela fabricante no Brasil”. O detalhe é que o modelo Ipanema é “usado para pulverizar lavouras com pesticidas”. Até aqui, as notícias indicaram a proposta do norte global de descarbonizar os oligopólios econômicos como a licença que vai possibilitar o neoextrativismo no sul. O presidente da Siemens Energy na América Latina, Tim Holt, disse: “Todos os países [da América Latina] estão em ótima posição [para o hidrogênio verde], pela abundância de recursos renováveis, hídrico, solar e vento. Na Europa, não temos recursos naturais para produzi-lo em quantidade suficiente para todo o consumo. Então, temos a política de apoiar ativamente outros países, como Chile e Colômbia, para criar oportunidades de produção e exportação”.
Em 7 de setembro de 2020, O Estado exaltava “o potencial” e “a vocação” do Brasil para produzir hidrogênio verde enquanto explicava o processo de eletrólise da água. Que nesta semana da pátria possamos considerar tudo o que está em jogo nessa produção e na exportação do hidrogênio verde pelo Brasil. Só encontramos um texto [ainda que não jornalístico] contemplando os interesses das comunidades locais e populações dos países do nosso continente. Segundo Maximiliano PROAÑO, como a produção de H2V depende de eletricidade e água (sendo este o bem comum essencial à vida), o risco de escassez hídrica e seca nos territórios precisa ser avaliado. Além disso, alerta que utilizar água dessalinizada como alternativa à doce vai interferir na temperatura da água do mar, reduzindo o oxigênio e provocando graves danos à vida aquática. Esse é um relevante apontamento em meio à crise hídrica e energética que vivemos no Brasil, visto que há previsão de apagões no fornecimento de água e eletricidade dentro de um ano se não forem tomadas medidas adequadas.
Por tudo isso, acreditamos na prática jornalística como forma de conhecimento (produtora e reprodutora) sob princípios da ética cidadã diante dos bens comuns. No caso do H2V, cuja tecnologia está em desenvolvimento, incorporar o princípio da precaução pode fazer a diferença na interpretação sobre os fatos e os respectivos discursos. Recente artigo do nosso Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental concluiu que a “aplicação da ideia de precaução está ainda distante da discussão jornalística na academia e nas redações, apesar de todos os sinais de que estamos vivendo uma crise ambiental sem precedentes”.
*Eliege Fante é jornalista e pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação. Integra o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e é associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS). E-mail: gippcom@gmail.com.
Imagem: Projeção em prédio de Brasília na semana da mobilização indígena contra o Marco Temporal. Do perfil no Instagram @projetemos.
Por Reges Schwaab
Foi adiado para esta semana o que é considerado o julgamento mais importante dos últimos trinta anos para os povos indígenas. A tese do “marco temporal” prevê que os povos indígenas só teriam direito à terra se estivessem sobre sua posse no dia cinco de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Ou precisariam comprovar uma disputa judicial ou um conflito pela área na mesma data.
O marco temporal e sua defesa expõem uma perspectiva perversa, achatada, contrária à alteridade. São cortadas dela a racionalidade ambiental, a consciência histórica e a centralidade do outro como balizadores da vida em comum. O fator ambiental desconsiderado pelos seus defensores também extingue as possibilidades de diálogo compreensivo e a necessidade de reparação histórica aos povos originários. No lugar, como vimos acontecer tantas vezes, vêm as sementes modificadas pela lógica da terra como propriedade, um objeto a ser explorado. Por séculos, os indígenas foram massacrados e expulsos de seus espaços. Só esse grave fator já invalida a defesa do marco temporal. Mas temos outros elementos. É notório que a permanência dos indígenas em seus territórios é garantia de preservação e conservação ambiental. Além disso, a cultura desses povos é desenvolvida a partir de um conhecimento que interliga profundamente seu modo de vida ao ambiente, uma inteligência autônoma e radical, uma das raras chaves para a autêntica ação diante do cenário de crise ambiental que vivemos. Preferimos devastá-los em lugar de compreendê-los, entretanto.
Quando o jornalismo insiste em faltar, é preciso dar a manchete na rua, como na projeção flagrada na imagem acima. Termos seis mil indígenas mobilizados em Brasília já é um acontecimento digno de acompanhamento jornalístico qualificado. Requer trabalho de reportagem e exploração das distintas compreensões sobre o tema. Em vez disso, lemos novamente um jornalismo calado diante do complexo, e guiado pelo patrocínio do agronegócio em seu interesse pela posse de todos os terrenos possíveis.
Em páginas duplas no primeiro caderno da edição de 22 de agosto, O Estado de S. Paulo mostra o tom: Julgamento do STF pode afetar propriedades de todo o Brasil. Nele, assim como em outros meios de referência, durante a semana em que o julgamento deveria começar, indígenas nunca foram protagonistas da sua própria questão e nem vozes para contar como sua própria história poderia ser acolhida. A violência contra os povos originários se capilariza de muitas formas no Brasil, e emerge forte no discurso, especialmente porque ainda está nos jornais uma capacidade de circulação desses dizeres. No centro da construção de sentidos sobre o ambiental, para o avanço do capital na colonização do imaginário, temos visto que não há limites. As parcerias pagas em jornais e canais informativos se ampliam, em que pese o fato de que toda cobertura já é, há tempos, acentuada pelo modelo de agronegócio como único caminho, não importa a temática. Como este mesmo Observatório já comentou tantas vezes, patrocínio, pagamento por conteúdo, falta de pluralidade de fontes estão entre os fatores que contaminam a produção jornalística, desconfiguram sua narrativa, fazendo emergir um simulacro de produção informativa, sem contrapontos e sem debate.
Além da negativa de espaço a uma narrativa mais completa, temos de evidenciar a ausência de um gesto anterior ao fazer jornalístico. Seis mil indígenas estiveram em Brasília, mas o jornalismo, em geral, não quis falar com eles, não teve tempo para escutá-los em sua temporalidade e, por isso, não considera o conhecimento originário, a visão de mundo desses povos, nem seus direitos. Ver as falhas no diálogo entre as distintas vozes permite um olhar crítico ao que o jornalismo oferece em acontecimentos históricos cruciais. Além disso, permite recordar de um apagamento histórico de muitos sujeitos, da desconsideração do outro e do meio ambiente, dois dos elementos de sustentação das sociedades democráticas e sustentáveis.
O próprio julgamento do STF, que deve ser estendido por várias sessões, tem uma temporalidade distinta da temporalidade indígena, ou de uma temporalidade humana, da urgência da vida. Há, inclusive, apostas na demora como modo de esvaziar a mobilização. A temporalidade jornalística é, igualmente, distinta de ambas, especialmente a dos povos originários. A história, a cultura e a cosmovisão desses povos não cabem em nossas páginas tão apressadas. O jornalismo adianta a resposta e prefere logo fechar questão no que considera o ideal.
O desrespeito e a negativa em abrir-se a uma compreensão dos indígenas deve seguir sendo criticada. É preciso lembrar que só pela alteridade podemos estabelecer o espaço comum, conviver e avançar de modo igualitário. É o que a filosofia nomeará como o gesto do reconhecimento. O outro como o compromisso primeiro para a comunicação e o jornalismo, tendo a alteridade como projeto para a produção do conhecimento, é inegociável, não parece haver outro caminho para trabalhar as crises do nosso tempo. Que história cada um desses seis mil indígenas poderia reportar? Que encontro seus relatos poderiam nos proporcionar se não fosse oferecida apenas a cobertura protocolar? E se pudéssemos, a partir do gesto do reconhecimento, escutá-los e aprender a dizer com eles?
O rosto do outro me afirma e torna minha própria existência humana ao solicitar-me uma escuta e, ao mesmo tempo, uma palavra. Sob esse aspecto, o dizer estabelece uma relação entre duas liberdades, afirmando a identidade dos interlocutores. Nos reconhecemos quando interpelados pelo rosto do outro: não se trata de submissão, mas de um comando ou apelo feito de uma identidade à outra. O rosto, o humano, abre uma fresta na casca do ser, tornando-o refém do outro, do estrangeiro que bate à nossa porta. A exposição ao outro define as identidades e faz com que o outro se torne importante, vital para a existência do eu (MARTINO; MARQUES, 2019, p. 35).
Referência:
MARTINO, Luís Mauro Sá; MARQUES, Angela Cristina Salgueiro. A comunicação como ética da alteridade: pensando o conceito com Lévinas. Intercom (SÃO PAULO. ONLINE), v. 42, p. 21-40, 2019.
Nesta segunda-feira (23), completam-se exatos dois meses da demissão de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Nos dois anos e meio em que ficou à frente da pasta, Salles se comportou exatamente de forma oposta ao que se espera de um ministro da área. Durante sua gestão, o Brasil bateu recordes de desmatamento e de áreas destruídas por queimadas na Amazônia e no Pantanal. Sua saída foi vista como um alívio não apenas pelos ambientalistas, mas por todos que se preocupam minimamente com a questão ambiental. Em seu lugar assumiu o pouco conhecido Joaquim Alvaro Pereira Leite e, como sempre, a mídia se apressou em apresentar o perfil do recém-empossado, inclusive informando que sua família está envolvida em disputa de terras indígenas em São Paulo. Desde então, o MMA e, principalmente, o novo titular da pasta deixaram praticamente de ser notícia, como se a exoneração de Salles tivesse resolvido todos os problemas. Uma busca personalizada no Google já é reveladora. Nos dois primeiros meses no ministério, Salles foi citado em 2.037 notícias (1.310 em janeiro e 727 em fevereiro de 2019). Já Leite tem apenas 816 (600 entre junho e julho e 116 entre julho e agosto deste ano), a maioria pautada por sua nomeação em 23 de junho e pela apresentação de seu currículo pela imprensa. Estratégico, Leite não busca a polêmica e evita dar entrevistas. O oposto de seu antecessor, que chegou ao absurdo de ser fotografado em frente a dezenas de toras de árvores quando foi ao Pará, com o surreal objetivo de devolver aos madeireiros a carga ilegal apreendida pela Polícia Federal. Leite quase busca o anonimato. No site do Ministério do Meio Ambiente, ele foi citado em notícias apenas 11 vezes em dois meses, uma média de um texto a cada seis dias. Uma forma de acompanhar seus passos é consultar sua agenda oficial, também disponível no site da MMA. Assim é possível verificar que o ministro já esteve reunido com diversas entidades empresariais, como Federação das Indústrias do Estado de São Paulo/Fiesp, Confederação Nacional da Indústria/CNI, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil/CNA, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos/Apex, Associação Brasileira dos Produtores de Algodão/Abrapa, e com representantes de empresas como Vale, Shell, Klabin (a maior exportadora de papéis para embalagens do Brasil) e Cidade Matarazzo (empreendimento imobiliário paulista), em audiências individuais. Sua agenda aponta apenas um horário com entidades ambientais, no dia 17 de julho, registrado como “Reunião com ONGs”. O encontro, de apenas uma hora, foi com integrantes da Conservation International Brasil, The Nature Conservancy Brasil, Tropical Forest Alliance e Save Cerrado, entre outras. O tema na agenda eletrônica identifica a reunião como “Processo de Escuta Pré COP26”. Ou seja: uma reunião de preparação para a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acorrerá em Glasgow, na Escócia, em novembro deste ano. Por sinal, o novo ministro viajou para Londres, em julho, para participar de encontro preparatório para a COP26. Curiosamente, o site do MMA não traz postagens sobre seu compromisso no Reino Unido. Os jornais tradicionais brasileiros também, praticamente, ignoraram a viagem. Outro dado indicador de seu estilo registrado em sua agenda é que reservou horário apenas uma vez para conceder entrevista até agora, três dias após a posse, para uma equipe do Valor Econômico. Numa análise sobre os sites de notícias G1, Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo, é possível verificar que o estilo discreto de Joaquim Leite contaminou a pauta dos três veículos. No portal da Globo, o atual ministro aparece como destaque apenas em uma oportunidade após a sua posse, quando de uma visita à base militar do Pará. A Folha segue o mesmo compasso. Destaque apenas para um elogio do vice-presidente Hamilton Mourão ao novo titular da MMA. O jornal paulista, no entanto, merece menção pelo editorial de 7 de julho (“Circo amazônico”), que cobra do vice-presidente e de Leite solução para o desmonte na fiscalização no Norte do país. O Estadão, por sua vez, é ainda mais econômico ao abordar o assunto, e os poucos registros se resumem a algumas colunas de opinião e com enfoque favorável ao governo, como as constantes viagens à Amazônia e uma suposta cobrança do ministro em reunião com o presidente da COP26 para “reconhecimento de esforços de países subdesenvolvidos”. Não resta dúvida que Joaquim Leite quer seguir a política predadora de Salles e Jair Bolsonaro bem longe dos jornalistas. Estamos entrando no período crítico das queimadas nas regiões Norte e Centro-Oeste. No ano passado, tivemos recordes de destruição. A imprensa precisa cumprir seu papel de fiscalizador e buscar formas de contornar a estratégia furtiva do novo ministro. Caso contrário, corremos o risco de deixar a boiada passar novamente. E no maior silêncio.
O mundo já escutou – ou deveria – que agora estamos em uma nova fase do aquecimento global. Em 2019, cientistas declararam a “emergência climática”. Em alguns casos a expressão crise climática, caos climático e colapso climático têm substituído o termo ainda mais usado – mudanças climáticas – exemplo do The Guardian. A divulgação do VI Relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU), na segunda-feira 9 de agosto, trouxe o tema da emergência climática global novamente às manchetes. Os chamados “recados da ciência” são cada vez mais claros e assertivos: estudos mapeados por centenas de cientistas representando 195 países, indicam que se tornou praticamente impossível a limitação de até 1,5°C acima da temperatura de parâmetro – da era pré-industrial, colocada como horizonte no cenário do Acordo de Paris (2015). Desta forma, também as consequências das mudanças climáticas já estão sendo sentidas por milhões ao redor do mundo.
Não se pode mais esconder a crise climática. Ela é considerada “inequívoca”, assim como a participação humana para o aquecimento global, pela primeira vez quantificada: cerca 98%, destacando-se o aumento mais rápido da temperatura do planeta de 1970 em diante do que em qualquer outro período. Ou seja, é resultado de um tipo de progresso ou desenvolvimento hegemônico que degradou ao extremo as condições ambientais no planeta, notadamente colaborando com as duas principais causas para o aquecimento global: o desmatamento e a queima excessiva de combustíveis fósseis.
O aviso é de um grande perigo iminente, pois a alteração em sistemas de suporte, que regulam o clima na terra, se torna cada vez mais desastrosa em seus efeitos: dificuldades extras na produção de alimentos, alteração em ciclo de chuvas, ciclones, incêndios generalizados,impactos na saúde humana e animal, além do risco à sobrevivência de grandes populações ao redor do mundo, afetadas diretamente pelo aumento do nível do mar.
Neste 2021, o último recorde das medições de temperatura ocorreu em julho, o mês mais quente registrado desde 1880. A cada dia temos variadas notícias de consequências do aquecimento global: ondas de calor extremo no Hemisfério Norte, chuvas torrenciais na China e Alemanha, temporadas de ventos e furacões mais agressivos em vários locais no planeta. No Brasil, a crise hídrica e o inverno mais seco afetam a colheita em várias partes do país. Com análise dos dados do IPCC, a produção de alimentos será afetada no Brasil.
A frase do secretário geral da ONU, António Guterres, de que o IPCC-AR6 é um alerta vermelho para a humanidade, foi amplificada pela imprensa brasileira, a exemplo da BBC News Brasil. Muito frequente foi a menção ao consenso científico sobre a crise indicando que os efeitos do aquecimento global estão por toda parte, cada vez mais visíveis. O facebook.eco em conjunto com a Lupa fez uma comparação com os alertas anteriores do IPCC e constatou a formação deste discurso.
Um dos aspectos observados está na relação temporal das análises. Agora, os eventos já estão sendo sentidos pela geração atual – e não se trata mais de situações apenas para “nossos netos”. Além disso, a cobertura jornalística trouxe a percepção de que a política e os governos precisam agir o quanto antes. Visualizamos comentários sobre decisões locais contrárias à ação climática – de governos negacionistas – como sendo não apenas crimes contra as populações locais, mas também percalços para a humanidade, como destacou o UOL.
Para ilustrar e exemplificar neste Observatório de Jornalismo Ambiental, fizemos uma busca exploratória no Google, com os termos “Relatório IPCC”, na data de 14 de agosto. Foram excluídos artigos e análises, e observado resultados por relevância, ou seja, os links que mais circularam na internet envolvendo notícias em português (Brasil). Observamos que os cinco veículos mais acessados foram os portais de notícias G1 e UOL, bem como os jornais Estadão, Folha de São Paulo e a CNN. Podemos observar que neste tema em específico – divulgação de relatórios da ONU – a chamada imprensa tradicional tem um maior espaço e ganha maior projeção. Os sites mais alternativos não retornaram como os primeiros em relevância, entre esses figurando apenas o Facebook.Eco (publicado por Piauí FSP) e uma reportagem da Mongabay publicado no UOL .
Na tônica da cobertura da imprensa tradicional há seriedade nas considerações dos aspectos científicos bem como destaque à comunicação mais objetiva e clara dos resultados pelo IPCC. Chama a atenção que ainda é tímida a abordagem do tema da injustiça climática. Precisamos refinar a busca para encontrar destaques sobre os efeitos em populações vulneráveis e desigualdades socioambientais. Não constavam nas primeiras páginas, mas conseguimos localizar nesta repercussão do relatório sobre o impacto da crise em relação aos direitos humanos.
Que as repercussões sobre o relatório sejam aprofundadas e cheguem com força até a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 26) marcada para novembro em Glasgow (Escócia). Os cientistas indicam o caminho para a limitação das emissões imediatamente, na perspectiva de emissão líquida zero até 2050. Assim, esta conferência será decisiva, pois já está passando da hora de ações concretas pelos formuladores de políticas para um enfrentamento urgente à mudança global, não se furtando de incluir o impacto destes cenários para os mais pobres e vulneráveis
* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E Mail: claudia.moraes@ufsm.br