Observatório de Jornalismo Ambiental

Defronte mitos e farsas do negacionismo climático, o jornalismo

Imagem: Captura de tela de notícia da BBC Brasil.

Por Mathias Lengert*

Apesar do aquecimento global ser um consenso científico, campanhas de desinformação disseminam desconfiança e conteúdos imprecisos com êxito. É o que aponta uma sondagem realizada durante a COP26 pelo Institute for Strategic Dialogue (ISD). O monitoramento do think thank britânico verificou que páginas negacionistas do clima no Facebook obtiveram engajamento 12 vezes superior ao de fontes especializadas, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Além disso, perfis negacionistas foram significativamente mais atuantes na rede social durante o evento. Anteriormente, este observatório já discutiu a responsabilidade editorial de veículos de comunicação ao acolherem, sem constrangimento, colunistas que minimizavam as conclusões do relatório do IPCC. Agora, nos questionamos como o jornalismo pode lidar com episódios de desinformação climática.

Trata-se de um fenômeno mobilizado por diversos atores sociais que operam ativamente, entre outras formas, em duas frentes: nas mídias sociais digitais, realizando disparos de notícias falsas, e a partir do lobby de instituições, financiadoras de um número ínfimo de pesquisadores que defendem a hipótese que nega o impacto antrópico no clima.

A checagem de fatos, em contrapartida à primeira frente, é um procedimento que ratifica a veracidade das informações e adverte suas eventuais inconsistências. Na ocasião da conferência do clima, o Estadão alertou para postagens em redes sociais que disseminavam dúvidas sobre a intervenção humana no aquecimento do planeta e ataques à ativistas ambientais. Ainda que seja uma prática imprescindível, a checagem de fatos é uma medida pontual que deve ser correlata a uma cobertura jornalística contínua e engajada, capaz de promover conexões entre o aquecimento global e o contexto local do público.

Em paralelo às notícias falsas, o lobby de determinados segmentos da sociedade busca descredibilizar as evidências científicas sobre o fenômeno. É o caso de alguns setores do agronegócio e da ala militar reacionária. Esse é um dos destaques da investigação jornalística da BBC Brasil, que noticiou que esses grupos financiaram palestras de dois conhecidos pesquisadores negacionistas, Ricardo Felício e Luiz Carlos Molion, que afirmam, entre outras frases sem embasamento científico, que “o aquecimento global é uma farsa, é um mito” e que a redução de emissões é “inútil”. Esses mesmos adjetivos, coincidentemente, foram amplamente usados por perfis negacionistas do Facebook para descredibilizar a COP26, conforme a sondagem do ISD. O movimento, portanto, repete tais chavões como estratégia de minar os esforços de combate ao aquecimento global e semear dúvidas na sociedade.

O jornalismo, como bem exemplifica a reportagem da BBC, deve desvelar o negacionismo, apurar as fontes de custeio e estimular um debate amplo e crítico quanto aos interesses econômicos destes segmentos ao minimizarem ações de enfrentamento ao fenômeno. Embora a desinformação climática exija uma responsabilidade que excede o jornalismo, cabe registrar que este tema perpassa um esforço cotidiano dos profissionais do campo. Aprimorar o caráter educativo jornalismo, em especial, é fundamental para qualificar a pauta e conscientizar o público contra o negacionismo climático.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O desmatamento em números, sem causas e consequências

Imagem: Captura de tela de notícia do dia 18.11.21 publicada na Folha de S. Paulo

Por Patrícia Kolling*

Na última semana a pauta foi, novamente, o aumento da taxa de desmatamento na Amazônia, que cresceu 22% em um ano, com a devastação de 13.235 km2 entre agosto de 2020 e julho de 2021. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e mostram o maior desmatamento dos últimos 15 anos. O novo levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) confirmou o aumento no desmatamento, com dados de janeiro a outubro de 2021, chegando a uma área de 9.742 km2, o equivalente a mais de 6 vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

Sobre o tema, repercutiram na imprensa também as declarações de autoridades brasileiras contradizendo ou justificando os dados divulgados. O presidente Jair Bolsonaro afirmou na segunda-feira, dia 15, durante evento com investidores em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, que “os ataques que o Brasil sofre em relação à Amazônia não são justos”, que a floresta “tem mais de 90% de área preservada” e que está “exatamente igual a como era em 1500”. Na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), o presidente havia ressaltado que tem protegido a Amazônia e o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, anunciou que o Brasil deverá zerar o desmatamento ilegal em 2028.


O ministro do Meio Ambiente também sustentou na semana passada que os números do INPE “não refletem a ação do Governo nos últimos meses” com o destacamento dos integrantes da Guarda Nacional. Para completar o vice-presidente, Hamilton Mourão, disse que o crescimento do desmatamento na Amazônia está associado ao avanço da população na região.


Ainda ganhou destaque na imprensa o fato de que o documento do INPE com os dados oficiais ter a data de 27 de outubro, mas ser divulgado apenas em 18 de novembro, depois de ser encerrada a COP 26, em Glasgow.

Números, declarações oficiais, questões políticas vieram à tona com o relatório do INPE. Mas, e o desmatamento: quais as causas, quem são os responsáveis, quais os prejuízos sociais, ambientais e econômicos, qual a importância da floresta em pé para a manutenção do clima brasileiro e mundial, quais as relações do desmatamento com a agropecuária, quais os riscos que o Brasil corre ao desmatar a Amazônia? Infelizmente, nenhuma das matérias jornalísticas, acessadas, respondiam essas questões.

A causa ambiental é urgente, e independente da política editorial de cada veículo e da busca pela imparcialidade, já não é mais possível deparar-se com textos que trazem números e declarações contraditórias e, muitas vezes, falsas, como já abordadas neste observatório, e que confundem o leitor que busca informação. Já que a imprensa brasileira se alimenta do factual, precisa aproveitar esses momentos, no caso, a divulgação dos dados do INPE, para tratar em profundidade e com informações contextualizadas as questões ambientais. A informação é a chave para a educação e as ações na preservação do meio ambiente e a imprensa um dos principais canais de difusão.


Deveria estar no manual de redação de todas as organizações jornalísticas, a obrigatoriedade de que todas as notícias ambientais, que são factuais e sintéticas, viessem acompanhadas por reportagens que tratassem a temática em profundidade, abordando causas e consequências.

*Patrícia Kolling é jornalista, professora da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Universitário do Araguaia e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

COP26: resultados insuficientes e “journalismwhashing”

Imagem: Captura de tela. Eric Terena diz que jornalismo precisa de outras referências e fontes

Por Cláudia Herte de Moraes e Eliege Fante*

As COPs costumam ser frustrantes, pelo menos em termos de efetividade em relação aos compromissos assumidos como soluções pelos acordos entre governos e corporações. Entre 31 de outubro e 12 de novembro, estivemos atentas a Glasgow (Escócia), acompanhando as notícias sobre a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26). Vários analistas indicam que as negociações globais em torno do clima estão entregando resultados pífios, não obstante venham sendo construídos ao longo de décadas. Especialmente levando em conta a urgência para implantar as ações que nos desviem do caos climático que se avizinha, devido à ultrapassagem da marca de aumento da temperatura global em 1,5oC. Do contrário, não teríamos o alerta definitivo quanto à necessidade de conter o aquecimento global, por parte do VI Relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU), divulgado em agosto de 2021, às vésperas desta conferência. O órgão traz a análise de cientistas do mundo todo e informa sobre o caos que já se instalou em todos os sistemas que sustentam a vida na Terra.

A hora é de agir, segundo cientistas que dizem já terem feito o seu trabalho, e agora cabe à comunicação fazer o seu. Enquanto os jovens vão às ruas pelo clima e pelo próprio futuro, os governos continuam negociando metas com os mercados como uma razão meramente contábil – através da precificação da natureza, como se fosse possível trazer de volta o equilíbrio vital desperdiçado dos ecossistemas com simples trocas financeiras. Nessa teia complexa, olhamos para o jornalismo e pensamos em como qualificar o debate público sobre estes temas. 

O Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) faz análises amplas, sistemáticas, específicas ou focadas em temas sobre a cobertura de meio ambiente por diferentes veículos de comunicação. Na pauta climática, publicações recentes no Observatório de Jornalismo Ambiental apontam a necessidade de que o debate seja mais constante e aprofundado que apenas pontual, principalmente quando temos as conferências do clima.

Quando houve a divulgação do relatório do IPCC em agosto de 2021, observamos que “neste tema específico […] a chamada imprensa tradicional tem um maior espaço e ganha maior projeção. Os sites mais alternativos não retornaram como os primeiros em relevância”. No entanto, poucos deram enfoque ao tema da justiça climática, que emerge como fundamental para a definição nítida de acordos entre governos e grandes empresas para um caminho de real transformação social.

A crítica se dá também ao conteúdo da cobertura que, mesmo usando a COP26 como mote, em geral, carece de “[…] abordagens sobre os problemas e soluções estruturais diante da emergência climática”. Por outro lado, “algumas lacunas são supridas através da comunicação produzida pelos próprios grupos vítimas da injustiça climática, através das redes sociais.”

A equipe produz debates e conhecimentos disponíveis em artigos científicos, teses, dissertações e e-books, considerando maneiras em que o jornalismo possa ser um aliado à transição justa em nossa sociedade. Vale consultar a bibliografia no site do grupo, com destaque à publicação recente do “Minimanual para a cobertura jornalística das mudanças climáticas”.

Na observação mais detida da cobertura jornalística, de forma geral, podemos tecer três críticas quanto à forma e conteúdo. Em primeiro lugar, é preciso pensar que o Jornalismo, ao privilegiar apenas a temporalidade presente (e não futura, impedindo se pensar em futuros coletivamente), associando-se à repercussão de fatos, pouco se atém a problemáticas de continuidade, o que certamente é o caso da superexploração dos bens naturais – e da emergência climática como um todo.

Em segundo, na escolha das fontes, quando predominam as oficiais e, entre elas, os cargos do topo, e somente dos grupos sociais político, econômico e científico. No caso dos governos, isso é significativamente preocupante, porque com frequência os cargos técnicos que detém maior constância no setor público, possuem informações mais verdadeiras. Por exemplo, o pré-candidato à presidência, Eduardo Leite (PSDB), teve o seu discurso para a COP26 festejado pela imprensa em geral e, somente um blog divulgou o desmentido graças aos servidores do estado do Rio Grande do Sul, desmascarando a conversa fiada do governador gaúcho.

Em terceiro, a angulação das reportagens que se propõem a trazer os questionamentos desde outros saberes, o faz de forma minorizada e parcial. Justamente o oposto do discurso da imparcialidade, como apontou o jornalista Eric Terena em live recente: “Não se fala sobre população indígena, sobre os problemas, sobre o cotidiano, na imprensa tradicional, só lembram da cultura, do comportamento. Vejo que a imprensa quer ser imparcial sendo parcial. Tenho que falar hoje sobre as leis que afetam diretamente os nossos territórios e quem vai falar é quem assume a pauta e o compromisso, ou seja, são os povos indígenas, são os povos quilombolas.”

Finalmente, não é que a imprensa em geral não se dê conta, como José Henrique Mariante mostrou a opção da Folha de São Paulo, ao privilegiar um espaço cinco vezes maior à ESG do que à cobertura da COP26. E, em resposta à pergunta título do colunista, “Se a ameaça ao planeta é real, por que os jornais não compram a briga?”, parodiamos a definição dele quanto à maquiagem verde sobre os anúncios do governo brasileiro, porque entendemos que jornais da imprensa corporativa fazem um “journalismwhashing”, tipo uma maquiagem de jornalismo. Enquanto exercem a sua parcialidade em favor das corporações e grandes empresas alinhadas aos setores que mais emitem gases de efeito estufa, como o agronegócio associado ao desmatamento, apresentam-se como jornalismo, porém sem praticar uma escuta ativa, aberta à pluralidade de fontes outras. Neste sentido, trazem apenas uma falsa aparência de jornalismo porque não contemplam os interesses de todos os povos, especialmente quanto à emergência climática.

*Integrantes do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental – UFRGS/CNPq.

Cobertura da COP26 revela novas pautas e vozes

Imagem: Captura de tela de publicação da Deutsche Welle.

Por Ângela Camana*            

O encerramento oficial da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26), adiada pela crise sanitária em 2020, foi na última sexta-feira, dia 12 de novembro. Realizada em Glasgow, na Escócia, as expectativas globais eram altas: a COP26 prometia delimitar como poderão ser cumpridas as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris. Quanto aos pactos estabelecidos, ainda é cedo para afirmar se poderão exceder o “blá-blá-blá” das principais lideranças mundiais, como provocou a ativista sueca Greta Thumberg. Encerrada a quinzena do evento, ainda que o texto final do evento não tenha sido – até o momento da redação deste comentário – publicado, já é possível ponderar sobre o tom adotado na cobertura da imprensa sobre a conferência e sobre as mudanças climáticas.           

Lembro que entre 2009 e 2012 este grupo de pesquisa desenvolveu uma ampla pesquisa sobre a cobertura das COP15 e16, avaliando publicações na imprensa de referência brasileira e portuguesa. Naquela ocasião, identificamos que o jornalismo não era capaz de exceder o discurso ecotecnocrático, privilegiando fontes oriundas dos campos políticos e econômico. Conclusões semelhantes foram delimitadas por pesquisas de mestrado e doutorado defendidas por membros de nossa equipe. Nossas investigações avaliam que as coberturas das cúpulas sobre mudanças climáticas sempre foram marcadas por um otimismo tecnológico, com reportagens que exaltam iniciativas da indústria e do mercado – como os créditos de carbono, por exemplo – como soluções para as transformações globais. Nesse sentido, esta pauta amplamente financeirizada ocupava-se de escutar chefes de Estado, grandes empresários e, quando muito, cientistas.

Passados dez anos, uma análise preliminar indica que ainda prevalecem abordagens da ordem da política institucional, mas é inegável que outros tópicos e outras fontes vêm transformando a pauta neste período. Vozes dissonantes, como as de ativistas climáticas e de povos originários, não são mais restritas a curtas notas (em muito exotizantes), mas ocupam capas de grandes portais. “Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar nos centros das decisões que acontecem aqui”, disse Txai Suruí, brasileira que discursou na abertura oficial da COP26. A imprensa nacional não apenas repercutiu a fala, mas utilizou o gancho para abordar temas como justiça climática e racismo ambiental.

Imagem: Captura de tela do podcast da Folha de S. Paulo.

Há uma década, este tipo de debate só seria acessado por meio de canais alternativos e de comunicadores independentes – que, aliás, seguem fazendo um trabalho de qualidade, como é o caso de Sabrina Fernandes e da Mídia Ninja. A cobertura da imprensa de referência sobre a COP6 parece estar experimentando um momento de virada: o tom predominante já não é de fascínio tecnológico, nem guiado unicamente por soluções financeiras. Do contrário: esta é justamente acrítica que fez o podcast Café da Manhã, produzido pela Folha de S. Paulo, no dia 12 de novembro, fez às discussões travadas na cúpula. O título do episódio é sugestivo: “COP26: a força da grana nas questões do clima”. Isto me parecia impossível há uma década.  Talvez eu esteja sendo demasiada otimista, é verdade. Mas quero acreditar que a inclusão de novas pautas, fontes e temáticas não são apenas reflexo de mudanças editoriais pontuais, mas um sinal de que jornalistas e veículos, alertas à urgência climática, estão assumindo seu papel diante do interesse público. Convido os leitores e as leitoras a fazerem o mesmo. 

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Vidas indígenas importam na imprensa e para o mundo

Imagem: Reprodução da edição de 3 de novembro de 2021 da CNN Brasil.

Por Carine Massierer*

A importância do ser humano e da espécie humana em seu habitat nunca esteve tão em xeque. Na semana passada, o artista indígena Jaider Esbell foi encontrado morto em seu apartamento, em São Paulo, e a notícia foi repercutida em publicações impressas, em rádios, nas emissoras televisivas e na internet. A causa da morte segue desconhecida. O artista plástico, que pertencia à etnia makuxi, assentada na reserva indígena Raposa Serra do Sol, também se destacava como escritor, ativista e educador.

Natural de Roraima, Esbell foi reconhecido lá fora, no exterior, a ponto de o Centre Pompidou adquirir duas obras suas recentemente, como contou sua marchande Socorro de Andrade Lima, da galeria Millan, que representava o artista, ao Correio Braziliense.

Até final de outubro, sua instalação “Entidades” (que apresentava duas cobras infláveis gigantes) esteve no Parque Redenção, integrando a programação do 28° Porto Alegre em Cena. Suas obras também estão na mostra coletiva “Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), durante a 34ª Bienal de São Paulo que vai até final de novembro.

A matéria da CNN sobre tal acontecimento nos traz uma reflexão. Assim como outras publicações, essa também apresentou apenas o fato, a notícia do falecimento de um indígena que ganhou expressividade e reconhecimento público. E, independentemente da causa, trata-se da morte de mais um indígena e do enfraquecimento das lideranças e dos representantes sociais dos povos tradicionais. A imprensa tem feito seu papel noticiando, mas é preciso ir além, como fez a Agência Pública, em final de outubro, ao publicar uma entrevista da antropóloga Lúcia Helena Rangel, que coordenou o relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

Imagem: Reprodução da publicação de 28 de outubro de 2021 da Agência Pública.

Com base no acompanhamento contínuo feito por missionários espalhados em todo o Brasil e em uma série de dados oficiais, o CIMI detectou que, desde 2015, não havia tantos registros de violência contra indivíduos e territórios indígenas. Em 2020 foram pelo menos 182 vítimas conhecidas, número recorde em 25 anos. Ao todo, os homicídios de indígenas tiveram um aumento de mais de 60% na comparação com o ano anterior, 2019.

Com este levantamento é possível perceber que as vidas indígenas importam e que os povos tradicionais estão desprotegidos. O jornalismo, enquanto parte de um sistema de informação pública, deveria, ao menos, dar mais expressão à cultura indígena e seus representantes não só em momentos onde o factual impera, como no caso da morte de Esbell, mas ampliar e diversificar a cobertura para que a população entenda que eles estão sendo historicamente dizimados.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Da COP26 às matérias cotidianas: agendas complementares para comunicar a emergência climática

Imagens: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

O assunto não poderia ser outro: teve início, neste domingo (31), a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26), adiada por conta da pandemia, e que visa atualizar as metas de redução de emissão de CO2, tornando-as mais ambiciosas para conter a emergência climática em curso. O objetivo final, como firmado desde o Acordo de Paris em 2015, é limitar o aumento de temperatura do planeta para no máximo 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais — esta marca, já considerada inviável por muitos, poderia ser flexibilizada para 2 ºC num cenário ainda otimista para o atual estágio de emissões, embora incerto em suas consequências. Nas palavras de Patrícia Espinosa, chefe da Convenção do Clima, “é muito mais do que meio ambiente, trata-se de paz”, noticiou o jornal O Globo.

Os resultados da conferência serão avaliados nos próximos dias, bem como a cobertura da imprensa. Já nos preparativos para o encontro, destacamos a atuação d’O Globo, que promoveu um “Especial COP-26”. Foi também o único jornal que destacou a conferência na capa da versão impressa de domingo, e ratificada no editorial — Folha de SP e Estadão, embora tenham publicado matérias nos últimos dias, foram mais tímidos no destaque. A matéria de capa introduz os desafios e especificidades da COP26 (por exemplo, a primeira revisão das Contribuições Nacionalmente Determinadas, NDCs), com foco na situação de EUA e China, os dois principais poluentes. Acompanha, na mesma edição, esta reportagem que apresenta, em gráficos, o histórico de emissões, de aumento na temperatura etc., evidenciando a necessidade de maior ambição — e ação efetiva, por óbvio — dos países.

Um dia antes do início da conferência, o jornal havia publicado uma matéria visando elucidar, para o público, as expressões e jargões utilizadas no debate ambiental.  A iniciativa de apresentação dos termos é importante por si só, mas também parece sintoma de um problema maior: o “descolamento” do público com o debate climático de uma maneira geral, permeado de “juridiquês” e “numerês” ambiental, que cumpre apenas parcialmente a função informativa do jornalismo diante do maior desafio do século. Aliado a estes problemas, há o infeliz diagnóstico de que o gancho das conferências da ONU permanece em boa medida sendo condição necessária para o destaque, em primeira página, do jornalismo ambiental.

Não se trata de criticar as boas matérias que elucidam, cientificamente e politicamente, as preocupações e o cenário envolto às grandes conferências. O ponto é requisitar, de forma complementar, que outras reportagens no dia a dia tragam o tema à tona, e numa perspectiva mais próxima ao cidadão. Segue o exemplo desta matéria, também d’O Globo, abordando a ameaça que paira sobre o litoral brasileiro por conta das mudanças climáticas e da histórica ocupação urbana.  O gancho é o aumento de obras em orlas de cidades como Balneário Camboriú e Fortaleza, como o alargamento da faixa de areia, e alguns dos impactos imprevistos das intervenções; a matéria ainda aborda a publicação do MapBiomas, semana passada, que o país perdeu 15% de sua área costeira desde 1985. Se o “numerês” e o “juridiquês” da grande pauta climática é importante, a pauta localizada — desde que atenta às mudanças climáticas —, passa a ser o seu complemento imprescindível para comunicar a emergência climática em curso. 

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Bots, automação de dados e o jornalismo no encalço do garimpo

Por Mathias Lengert*

Imagem: InfoAmazônia. Bot do Amazônia Minada mapeia requerimentos minerários em áreas protegidas.

Nas redes sociais, especialmente no Twitter, robôs estão se tornando ferramentas ágeis para que jornalistas atualizem os leitores – e a si próprios – sobre informações de interesse público, sendo especialmente relevantes na cobertura de questões ambientais. Essas contas automatizadas, também chamadas de bots, são programadas com o auxílio de algoritmos para monitorar acontecimentos, decisões judiciais e colaborar com a transparência de dados.

A automação de dados favorece o rápido acesso a informações brutas e possibilita uma atuação jornalística aprofundada, que dispõe de mais tempo para investigar os dados levantados. Entre diversas iniciativas, três projetos estão vinculados à proposições ambientais, o bot do Amazônia Sufocada, que emite alertas sobre focos de queimadas nesse bioma, e o bot do Amazônia Minada, responsável por monitorar requerimentos de mineração em terras indígenas e unidades de conservação da Amazônia, ambos gerenciados pelo InfoAmazônia com apoio do Rainforest Journalism Found e do Pulitzer Center; e o Robotox, um projeto da Agência Pública e da Repórter Brasil, que informa sobre os agrotóxicos liberados pelo governo federal.

Embora essas ferramentas estejam alinhadas com um interesse por informações instantâneas, sem tratamento, elas não dispensam a responsabilidade do jornalista em contextualizar em seus textos os dados coletados pelos bots. Ao promover interrelações de um acontecimento com as suas circunstâncias, o jornalismo explora o contexto de dados e informações, até então fragmentados, e apresenta distintas realidades aos leitores. 

As pautas ambientais, como o avanço sórdido do garimpo em terras indígenas, por exemplo, demandam atenção para sua complexidade e urgência. A partir do bot Amazônia Minada, o InfoAmazônia organiza os dados e direciona as suas reportagens para essas necessidades. Ao investigar os recorrentes ataques de garimpeiros aos Yanomami, os dados do projeto indicaram que ao menos um terço de seu território estava sendo requerido para mineração na Agência Nacional de Mineração (ANM), uma área equivalente ao tamanho da Bélgica. Em reportagem recente, o veículo denuncia os pedidos de uma cooperativa de mineração para explorar uma série de territórios indígenas. Para isso, o InfoAmazônia mapeou os dados disponibilizados pelo Sistema de Informação Geográfica da Mineração, da ANM, além de questionar autoridades.

Enquanto os retrocessos da especulação e invasões em terras indígenas possuem o apoio de integrantes do governo de Jair Bolsonaro, o jornalismo do InfoAmazônia, por sua vez, realiza um significativo trabalho de monitoramento da destruição da floresta, seja a partir de dados ou da escuta de indivíduos impactados, e assim, contextualiza os impasses da exploração de minérios no ambiente amazônico. A automação de dados, por sua vez, é uma aliada produtiva ao jornalismo, permitindo que as investigações se estruturem a partir dos fatos mais alarmantes, sem deixar de promover interlocuções com o público.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

COP26 é mote para cobertura climática, mas busca ativa por pautas deve ser constante

Débora Gallas Steigleder*

A crise climática é uma pauta urgente e vem ganhando cada vez mais espaço no noticiário. Mas será que a cobertura jornalística de fato evidencia a complexidade dos cenários identificados pela ciência e de seu impacto em nosso cotidiano?

À época da divulgação do sexto relatório do Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU (IPCC), em agosto deste ano, o texto de Cláudia Herte de Moraes publicado neste Observatório citou a justiça climática como viés incontornável para termos coberturas qualificadas e aprofundadas sobre as consequências do aquecimento do planeta. Por esse entendimento, dar voz às populações afetadas pela desigualdade socioambiental é parte importante para a definição de prioridades no enfrentamento às mudanças climáticas.

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), que ocorrerá a partir de 31 de outubro, em Glasgow, na Escócia, a cobertura midiática, de forma geral, repercute as reivindicações do setor privado e os posicionamentos de líderes globais sobre as questões climáticas. Ao buscar por “COP26” no Google Notícias, em 14 de outubro, encontramos resultados como a notícia de Canal Rural que relata a exigência de conselho de empresários brasileiros para que o governo federal regule o mercado de carbono no país. Outra notícia com forma e conteúdo de press release, publicada no site EmTempo, do Amazonas, detalha o encontro do Ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, com o embaixador da Noruega no Brasil, em que o mercado de carbono e a bioeconomia também foram pauta.

No entanto, ainda carecem abordagens sobre os problemas e soluções estruturais diante da emergência climática que utilizem a COP26 como mote. Algumas lacunas são supridas através da comunicação produzida pelos próprios grupos vítimas da injustiça climática através das redes sociais. Em sua conta no Instagram, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), por exemplo, noticiou a realização da Oficina de Mudanças Climáticas com lideranças indígenas brasileiras que acompanharão a COP26. Mas é necessário que este seja um compromisso constante do jornalismo.

Como resultados da COP26, esperamos não somente metas mais ambiciosas, mas também planos de ação dos governos que participarão da Conferência para não ultrapassarmos o já inevitável aquecimento do planeta em 1,5ºC. Do jornalismo, esperamos narrativas mais aprofundadas, que sensibilizem e mobilizem a população em torno do tema.

*Jornalista, pós-graduada em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com

Consumo pós-pandemia: temos algo a comemorar?

Imagem: Captura de tela do site de O Globo

Por Eutalita Bezerra


Com a média móvel de mortes por covid-19 em queda – mesmo com o Brasil atingindo, nos últimos dias, um patamar aterrador de 600 mil vidas perdidas -, a expectativa de retomar a vida “normalmente” já é uma realidade para diversos setores. No comércio, uma consequência esperada (e até fomentada, como abordaremos a seguir) é chamada de revenge buying, revenge shopping ou, em bom Português, consumo de vingança. O termo, que começa a se popularizar em reportagens no Brasil, traz consigo um apelo às compras derivado do período de restrição. Isso se reflete, claro, em mais pressão no planeta e leva-nos a um espiral perigoso. Mas como o jornalismo tem lidado com o assunto?

Embora o termo não seja novo, a discussão sobre revenge buying ganhou força em meados de 2020, após o confinamento na China, determinado pela pandemia do novo Coronavirus. O fenômeno social de consumo, que foi facilmente percebido pelo mercado de luxo, contou com dois momentos auge naquele país: o primeiro, online, ainda durante a quarentena; e o segundo, em compras no ambiente físico, logo após o período de distanciamento físico.

Em nosso país, no qual o lockdown nunca foi uma política pública e o comércio ficou restrito por um período muito curto de tempo, parece-nos um malabarismo enorme apostar que um possível aumento no consumo decorra das mesmas bases encontradas na China. Apesar disso, não raro localizamos o termo no jornalismo brasileiro.

Em reportagem publicada no último dia 1º deste mês, intitulada “Retorno da noite de São Paulo, abalada pela pandemia, é marcado por ‘consumo de vingança’ e incertezas” , a prática de comprar mais que o habitual (e necessário) é descrita como uma “pequena indulgência” para comemorar o fato de estar vivo (!). Tratando dos hábitos de consumo em bares e restaurantes, a discussão no texto de O Globo não ultrapassa os limites dos tão convencionais “retomada da economia” e “projeção de receita a níveis pré-pandêmicos” e o consumo exacerbado é descrito como “uma farra que não vai durar muito tempo”.

Para além do insulto, considerando a situação econômica do país, em que vísceras e aparas de pescados ou ossos de animais são vendidos para alimentação de uma população cada vez mais pobre,   sustentar a discussão de consumo como apenas uma lógica comercial, pela qual se poderia salvar a economia, é ser superficial demais. Ou, no mínimo, mal intencionado.

As consequências ambientais decorrentes de um consumo acima dos limites do planeta colocam a todos em risco. E fazê-lo para festejar a sobrevivência ou para alcançar um sentimento de completude é um contrassenso que nos empurra a passos largos para o colapso. 

O consumismo como passaporte para o bem-estar, aliás, é assunto que El Pais Brasil, explorou nos últimos dias, com uma reportagem intitulada ” Consumir procurando uma felicidade que nunca chega, como compramos para construir nossa identidade“. Nesta, destacamos:

“Ao consumo são atribuídas uma série de vantagens que ele na verdade não tem, mas o consumismo continua sendo encorajado, já que é o combustível principal do atual sistema econômico.”


Neste sentido, além de discutir as razões para o consumismo e o modo como a publicidade (ou, mais especificamente, os mais de 6000 estímulos publicitários que recebemos diariamente, como dito na reportagem) constrói a ideia de compra como terapia e atividade de lazer, a reportagem reconstitui o surgimento do consumismo como fenômeno próprio de sociedades desiguais.


No subtitulo “Contra os limites do planeta”, El Pais Brasil pontua que consumimos hoje como se tivéssemos à disposição 1,7 planetas Terra, e esse ímpeto está relacionado aos nossos valores, ao que nos emociona. Levando isso em conta, um consumo dito ecológico, sustentável e, porque não, anticapitalista pode, em vez de ser uma forma de se afastar do exagero, tornar-se mais uma opção de compra. O que muda é como estas lógicas se alinham com o que tomamos como correto. 

Assim, propiciar um entendimento mais amplo acerca das causas e consequências das nossas ações individuais – nesse caso, do consumo, seja ele por vingança ou pelo desejo de alcançar a felicidade – embora não seja a chave para a resolução dos nossos problemas ambientais, é uma maneira de construir novos valores que repercutirão na nossa tomada de decisão perante um mercado cada vez mais agressivo.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do GPJA. E-mail: eutalita@gmail.com

Jornalismo e o “haboob” à brasileira

Imagem: Captura de tela de site da BBC Brasil

Por Míriam Santini de Abreu*

As fotografias e vídeos da tempestade de poeira que atingiu 25 cidades do nordeste de São Paulo e do Triângulo Mineiro no dia 26 de setembro, com nova ocorrência em 1º de outubro, varreram as mídias sociais. O “haboob” – nome dado pelos meteorologistas para as tempestades de areia nas regiões mais áridas do planeta – pautou os veículos de comunicação, com destaque para a reportagem da BBC News Brasil assinada pelo jornalista João Fellet e intitulada “Desmatamento e modelo agrícola aumentam risco de ‘tempestade de poeira’”. A notícia, em https://bbc.in/3zVYvIc, aborda a relação do fenômeno com a existência de grandes porções de solo seco e sem cobertura vegetal na região, onde há forte presença do agronegócio.

A notícia traz quatro imagens de satélite, cinco fotos e um mapa dos remanescentes de vegetação natural em São Paulo em 2008/2009 revelando que a concentração do que restou está no litoral do estado. Três fontes – o coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas, o presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo e o diretor técnico da Unica, principal associação que representa o setor de cana-de-açúcar no Brasil – desenvolvem o argumento. O repórter consultou ainda o Relatório de Qualidade Ambiental 2020 feito anualmente pela Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do governo de São Paulo e o Censo Agropecuário de 2017.

Um destaque da notícia é a menção ao Dust Bowl, como foi chamada a série de tempestades de poeira que atingiram o sul dos Estados Unidos nos anos 1930, quando milhões de hectares de terras antes consideradas férteis se tornaram inaptas para a agricultura. A notícia não imerge no espaço geográfico onde ocorreu o “haboob” à brasileira, mas, ao se apresentar como aprendiz de agrofloresteiro e meliponicultor em sua conta no Twitter, o repórter João Fellet – @joaofellet – faria bonito ao desenvolver a pauta in loco e de lá trazer uma baita história.

Com relação ao tema cabe mencionar também o trabalho feito pela AFP no “Checamos”. A agência verificou sete imagens de tempestades de poeira compartilhadas mais de 40 mil vezes nas redes sociais de 26 a 28 de setembro vinculadas ao fenômeno e constatou que ao menos três eram anteriores ao fato e algumas sequer haviam sido feitas no Brasil – em https://bit.ly/3omIOrr. Uma das mais compartilhadas era de uma tempestade ocorrida em Phoenix, no estado do Arizona (Estados Unidos), em 2 de agosto de 2018 e creditada ao fotógrafo Jerry Ferguson. Essa foto foi usada até para montagem do conhecido meme do cão caramelo, em https://bit.ly/3oqhM2r. Os comentários nesta postagem, parte deles de moradores da região atingida no dia 26 de setembro, revelam a preocupação com o fenômeno, suas causas e consequências, apontando caminhos para mais pautas aprofundadas sobre o fato que, neste domingo (3), também foi abordado nos programas “Fantástico” e “Cidades e Soluções”, da Rede Globo, com pauta alinhada à da notícia da BBC News Brasil.

*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo. E-mail: misabreu@yahoo.com.br