A cobertura sobre meio ambiente entre o desenrolar de tragédias e o bom exemplo localizado

Observatório de JA - fotos

Imagens: Capturas de tela das reportagens citadas

 

Por Michel Misse Filho*

Os grandes veículos de mídia brasileiros têm dado especial enfoque noticioso, nas últimas semanas, a dois temas ambientais: a discussão em torno da floresta amazônica –e o que ela desencadeia em termos de política externa para o Brasil, concomitantemente à realização da Assembleia Geral da ONU – e, mais recentemente e com menos ênfase, o aparecimento de petróleo cru em mais de cem praias do Nordeste.

O primeiro tema, após sucessivas reportagens e a criação de uma crise internacional para o governo, passa agora pela atuação militar nas missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Em meio às empreitadas, reportagem d’O Globo mostra que fiscais do IBAMA acusam o exército de negar apoio às ações de combate aos garimpos ilegais e focar apenas nas de incêndio – ações notadamente de maior visibilidade, afirmam funcionários do órgão ambiental. O descompasso entre as duas instituições ocorreria em função da possibilidade de destruição de equipamentos para mineração ilegal, e é fundamental levarmos em conta a desautorização pública que o governo fez, em abril, da destruição de maquinário em Rondônia – esta semana, o presidente também sustentou que o interesse na Amazônia é na mineração. Já as notícias do crime ambiental que mancha as praias do litoral nordestino passam, agora, pela investigação do rastro de origem da substância, em que a Venezuela desponta como principal suspeito, em matéria da revista Época.

O que as duas matérias têm em comum é a ascensão de um caráter cada vez mais investigativo e menos ambiental, mesmo que essas duas instâncias não sejam contraditórias entre si – muito pelo contrário, se completam. O objetivo aqui não é o de criticar a construção dessas matérias, mas notar uma trajetória aparentemente frequente na pauta ambiental: surge inicialmente com uma tragédia e, como tal, necessita de uma investigação que, ao desenrolar a história, parece ganhar autonomia jornalística frente ao próprio fato ambiental em si.

O jornalismo diário também apresenta abordagens que vão ao extremo oposto das tragédias. Deparei-me quarta-feira (02/10) com a seção “Dias melhores”, da Folha de São Paulo, que noticiou a conquista de um prêmio de sustentabilidade pela cidade sergipana de São Cristóvão, devido à sua política hídrica, com água tratada em quase 100% das casas. A pequena matéria é bonita, importante e inspiradora para outras cidades, mas também se restringe à pequena localidade.

Chama a atenção, ademais, a já conhecida dificuldade de sair da polarização “tragédia” e “bom exemplo localizado”, em que pese a necessidade de trazer complexidade aos fatos noticiados. Comumente perdem-se oportunidades de ir além do factual, podendo abarcar uma visão sistêmica, construtora de um jornalismo ambiental que fosse mais do que simples notícias sobre meio ambiente, como já foi observado e reiterado diversas vezes por pesquisadores deste Observatório.

*Jornalista, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

As manchas de petróleo no Nordeste e a demora da imprensa em noticiar o caso nacionalmente

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

Desde o início do mês de setembro, manchas de uma substância que se assemelha a piche estão sendo econtradas no litoral nordestino. Já são 53 municípios atingidos , 112 pontos em oito dos nove estados do Nordeste, sendo o litoral baiano o único não atingido da região. A substância é petróleo cru, que não é produzido no Brasil, conforme a Petrobras.

Nove tartarugas e uma ave bobo-pequeno foram encontradas cobertas com a substância, a ave e sete das tartarugas foram encontradas mortas ou morreram após resgate. Uma tartaruga foi limpa e devolvida ao mar e uma foi encaminhada a um centro de reabilitação. Um dos grandes riscos é que o petróleo atinja reservas ambientais e locais de desova de tartarugas.
A origem do óleo ainda é desconhecida, sendo o descarte ilegal do material por navios uma provável causa. Pesquisadores estão analisando imagens de satélite para tentar localizar uma possível fonte.

Por mais que as primeiras manchas foram descobertas já nos dois primeiros dias de setembro, foi somente essa semana, mais precisamente a partir de quarta-feira, 25, que a imprensa nacional começou noticiar o fato. Foram feitas algumas boas reportagens elucidando os acontecimentos, como esta do G1 , estas duas da Folha (https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/26/manchas-de-oleo-no-nordeste-o-que-se-sabe-sobre-o-problema.ghtml e https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/09/oleo-que-atinge-praias-do-nordeste-e-petroleo-e-nao-e-brasileiro-diz-ibama.shtml e este episódio do podcast Durma com Essa, do Nexo Jornal . Entretanto, essa demora para a cobertura atingir o âmbito nacional me gera desconforto. Foram precisos mais de 20 dias, quase 100 praias atingidas e dez animais afetados para o Brasil ficar sabendo?

Os critérios de noticiabilidade que aprendemos durante a faculdade não dão conta dos riscos ambientais. Podemos apontar diversos elementos que fazem essa ser uma notícia para todo o Brasil, como a chance de o petróleo atingir áreas protegidas e prejudicar a desova de tartarugas bem como o risco de atingir outros ecossistemas, como os manguezais e estuários; os prejuízos econômicos que uma porventura queda no número de turistas pode trazer; o riscos de as pessoas entrarem em contato com a substância possivelmente cancerígena; como e por que um material que nem é produzido no país chega nas nossas praias; o desmonte de órgãos públicos de fiscalização; entre outros tantos.

O Nordeste não deve ser tratado como aquele lugar longe do “centro país” interpretado pelo Sudeste/Sul. Precisamos enxergar o Brasil como um só. O jornalismo precisa saber avaliar que quando desastres ambientais acontecem em uma ponta do país, a outra ponta também pode ser atingida. Ao noticiar os fatos antes, alguns locais afetados poderiam ter se preparado antes mesmo que o óleo os atingisse, e as consequências poderiam ser amenizadas. A população estaria cobrando respostas há mais tempo, e, quem sabe, já as teria. Às vezes o jornalismo precisa esquecer alguns de seus critérios de noticiabilidade para também auxiliar a questão a ser resolvida.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A materialização das queimadas na economia: o jornalismo diante do boicote aos produtos brasileiros

Imagem – Captura de tela do Google
Por Eutalita Bezerra*

Nos últimos dias, desde os importadores de carne, couro e soja até gigantes fundos de investimento passaram a ter o Brasil como um país a não se investir, a menos que o governo tupiniquim apresente medidas para a proteção da Amazônia. Com o país como vilão do meio ambiente, o jornalismo tem se apoiado na sua principal muleta para tratar do meio ambiente, a Economia, para descrever o cenário. Nesse contexto, para o jornalismo, os boicotes surgem como a materialização do desmonte da economia brasileira frente ao mundo. E tais abstenções têm sido exploradas diariamente, com bastante fôlego, inclusive.

Uma breve busca por “boicote” nos leva a afirmar que cada passo que afasta o Brasil das grandes economias tem sido destacado pela imprensa nacional. O tom passa pelo já habitual catastrofismo, como o alerta lançado por El País ou aquele repercutido por O Globo passando pela negação do problema, conforme Correio Braziliense.

Seja como for, o fato de tornar palpável o problema, demonstrando de que maneira o Brasil é visto pela comunidade internacional quando abre mão de proteger a maior floresta tropical do mundo – e para a qual várias das grandes economias não negam ter seus olhos voltados – parece ser um caminho possível para acordar o Brasil para a necessidade de pressionar o seu governo. Ao que parece, a imprensa hegemônica, que durante anos esteve deitada em berço esplêndido, inclusive nos últimos governos -, os quais, não se pode negar, que pouco agiram para a proteção ambiental da Amazônia – começa a abraçar o discurso internacional sob pena de perda de dividendos ou mesmo de soberania.

As reportagens, muitas das quais extensas e devidamente complexas, fornecem informações importantes para a compreensão do tema. Falemos, por exemplo, da já citada incursão de El País sobre o assunto, intitulada “Boicote por crise dos incêndios na Amazônia chega ao mercado financeiro e acende alerta”. Apresentando o banco norueguês Nordea, que suspendeu a compra de títulos brasileiros após incêndios, a matéria traz um especialista da Fundação Getúlio Vargas atestando a importância da instituição financeira estrangeira, cujo nome não é, de fato, habitual nos noticiários brasileiros.

Também se preocupa em esclarecer que a responsabilidade ambiental, social e de governança tem sido uma questão importante para diversos fundos de investimento, o que pode indicar ao leitor que o boicote pode aumentar e chegar a outros investidores, estes ainda mais impactantes para o nosso país. Além disso, traz ainda multinacionais do setor agropecuário que já sinalizaram a abstenção ou a revisão da compra de produto brasileiro. E, por fim, mostra o presidente do Brasil dando as costas aos apelos mundiais dizendo que “a Europa não tem nada a nos ensinar”.

É deste tipo de incursão que falamos ao discutir complexidade. É tornar o assunto próximo do leitor, permitir que ele entenda o porquê de uma queimada cuja fumaça se dissipa longe dos seus olhos pode impactar a economia de todo o país, inclusive afetando a sua mesa e o seu bolso. É o jornalismo que desdobra as questões que são de interesse público e do público de que falamos. É ele que tem muito a nos ensinar.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A notícia por trás da notícia

The Intercept

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site The Intercept Brasil

 

Por Ursula Schilling*

É notória a repercussão que os temas ambientais têm tido na mídia, especialmente nos últimos meses. Infelizmente, isso não se dá pelos melhores motivos, visto que, pelo aumento do desmonte das políticas ambientais e da sistemática degradação da natureza – tamanha, que não está podendo ser ignorada – há matérias, no impresso e no online, em profusão.

Se, no início do trabalho deste Observatório, o desafio era encontrar notícias com a temática, agora, é selecionar objetos de análise em meio a muita oferta de material. Veja-se o copo meio cheio: assuntos como mudanças climáticas, desmatamento e uso de agrotóxicos, saíram das coxias informativas para as capas dos jornais.

Feito esse preâmbulo, proponho um rápido olhar sobre duas matérias publicadas nos sites The Intercept Brasil e BBC Brasil. A primeira, de 24 de agosto, intitulada “Lobistas do Partido Republicano ajudam o Brasil a recrutar empresas dos EUA para explorar a Amazônia”, traz informações sobre a possível relação da destruição da Floresta Amazônica com o movimento lobista americano, interessado em explorar os recursos naturais brasileiros. A segunda reportagem, publicação mais recente, de 14 de setembro, “O que as queimadas na Amazônia têm a ver com a economia e por que as eras Dilma e Bolsonaro fogem à regra”, traça uma linha de tempo das queimadas, estabelecendo um vínculo com questões políticas e econômicas ao longo de diferentes gestões do Governo Federal.

Um dos valores notícia é a atualidade. O aqui e o agora importam. Mas se isso é verdade, também é verdade que um acontecimento, visualizado numa linha de tempo, é constituído de passado, presente e futuro, ou seja, o que acontece hoje tem causas e terá consequências. Desde o início de agosto, quando houve uma espécie de marco zero da noticiabilidade das queimadas na Amazônia, com “o dia do fogo”, a pauta teve seu valor notícia aumentado. Mas, para além do assunto “principal”, o que há por trás das queimadas? O que é publicado nos ajuda a compreender o que acontece, por que acontece e os impactos subsequentes? Qual nossa parcela de responsabilidade nesse contexto?

Estará o jornalismo atento a essas questões? Com base nas análises recentes publicadas neste Observatório, entende-se que sim. Diversos veículos têm feio um esforço para elucidar o que acontece nos bastidores da crise ambiental sem precedentes pela qual passa o país. Mas a prática ainda se mostra esparsa.

Por isso trago os exemplos citados acima. Cada um por um viés, levanta informações para além de uma questão pontual. Abordagens como essas são importantes, para que construamos repertório e, por consequência, uma visão mais crítica. É o que se espera.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1
Por Carine Massierer*

A matéria publicada em 12 de setembro no site do G1 chama a atenção, pois o tema das queimadas na Amazônia e em outras regiões do Brasil anda tomando conta dos noticiários tanto em impressos, quanto na internet, rádio e televisão. E são muitas as opiniões da população com relação ao tema. Porém, em muitas publicações a notícia apenas consegue exprimir o relato do fato em si e não dá conta de explicar que esta pauta tem muitos fatores intercorrentes como causadores das queimadas e suas consequências para todos os seres.

Ao Jornalismo Ambiental interessa muito a evidência do tema, que sempre deveria estar presente na mídia em função dos riscos para a preservação de todas as espécies e a manutenção do meio ambiente. Mas a forma como o tema é abordado é preocupante, pois normalmente o leitor não consegue ter um retrato do quanto as interferências humanas estão modificando as condições naturais. Nós precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo.

No caso da matéria mostrada acima e encontrada no link https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/12/pantanal-registra-334percent-mais-focos-de-incendio-em-2019-ano-com-menos-chuvas-e-intensa-onda-de-calor-na-regiao.ghtml , o que se percebe é uma preocupação do veículo e do jornalista em mostrar o aumento dos focos de queimadas considerando os mesmos períodos em 2018 e 2019, a partir de dados apresentados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No texto são explicadas ainda as causas deste aumento por meio de informações repassadas por Institutos de Pesquisas, como menor incidência de chuvas, mais calor e a ação humana intencional ou não associada a ventos fortes. Além disto, são citadas as ações de governo para conter o problema e como este bioma está sendo afetado se comparado a outros brasileiros. “Ao todo, 49,6% dos focos do período foram registrados na Amazônia. Em segundo lugar vem o Cerrado, com 33%; seguido por Mata Atlântica, com 9,7%; Pantanal, com 4,1%; Caatinga, com 2,8%; e Pampa, com 0,9%”, cita a matéria. Porém há uma ressalva nesta matéria de que desde início de setembro o Cerrado vem apresentando mais queimadas.

A matéria não é longa, mas dá uma dimensão do problema bem realista e com uma boa abrangência dos riscos ambientais e humanos. Isto mostra que o Jornalismo Ambiental pode contribuir para o enfrentamento e compreensão dos riscos inerentes à sociedade contemporânea, pois a notícia apresentada é bem contextualizada, calcada em várias fontes e comprometida com o interesse público. Mas não nos esqueçamos de ir além, precisamos aproveitar que o tema está aquecendo o Jornalismo para promovermos também o debate público.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Noticiabilidade: o que os jornais valorizam mais? 

Imagem: Reprodução de parte do documento do MPF
Por Eliege Fante*

Recentemente o Ministério Público Federal (MPF) emitiu um documento de 21 páginas, bem justificado a partir da legislação vigente e documentado com notas públicas de servidores e notícias publicadas pela imprensa, recomendando ao Ministério de Meio Ambiente (MMA) que tome 13 ações emergenciais, em um prazo de 30 dias, para “frear os danos ambientais em curso no país”.

O jornalismo tem como premissa publicar as informações de interesse público. Mas, um dia após a emissão do documento (5 set. 2019), a constatação é de que apenas o jornal O Estado de SP noticiou a pauta sobre as recomendações que tentam reestabelecer o papel do MMA. A pesquisa através dos buscadores nos sites dos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Globo e Folha de SP não indicou nenhuma abordagem noticiosa. Será que estes meios de comunicação não perceberam o valor notícia de ruptura* nesta cobertura ambiental? A mudança no fluxo dos eventos, até porque o MMA tem 30 dias para responder oficialmente às recomendações do MPF, não é credível para o jornalismo privado? Estariam enxergando mais valor-notícia na continuidade da publicação dos atos do Ministro Ricardo Salles?

A leitura das recomendações feitas pelo MPF mostra a sua validade em se tratando do MMA, um poder público com compromissos nacionais e internacionais a corresponder e a cumprir, sejam no âmbito da Constituição Federal ou da ética. As recomendações listam ações esperadas por parte deste Ministério, tais como retirar e apreender o gado criado em áreas de desmatamento ilegal, obviamente em conjunto com o Ibama e o ICMBio; fiscalizar empresas frigoríficas que não possuem compromissos públicos de controle da origem de matéria-prima, também em conjunto com o Ibama; lavrar autos de infração e embargar áreas desmatadas ilegalmente “de maneira automatizada pelo Ibama e ICMBio, independente de vistoria de campo, quando os sistemas de monitoramento eletrônico apontarem a abertura e o responsável não apresentar a devida autorização”.

Outra recomendação ao MMA é quanto à falácia, amplamente difundida pelos meios de comunicação, sobre o trabalho do INPE e resultados do desmatamento na Amazônia. O MPF pede que sejam apresentadas, “de maneira objetiva, dados técnicos que comprovem cientificamente que as informações produzidas pelo INPE não seriam suficientes para uma estratégia de atuação e fiscalização em campo satisfatória, em conjunto com uso de outros sistemas como os alertas promovidos pelo CENSIPAM e a experiência de outros setores da administração pública, como nas Secretarias de Meio Ambiente Estaduais e Municipais”. Ainda neste sentido, o MPF pede que não contrate empresa de monitoramento (em substituição ao INPE) já que até o momento “não se revela tal necessidade, sob pena de violação aos princípios da economicidade e da razoabilidade”.

Estas duas recomendações, em especial, poderão vir a esclarecer o público que por ventura tenha se sentido confuso, sem saber no que acreditar: se nas palavras do governo que chama de fakenews o que não corresponde ao seu interesse ou nas palavras do órgão público de pesquisa científica, reconhecido mundialmente e com atuação premiada há décadas.

Destacamos ainda a recomendação para o estabelecimento de “uma política de comunicação pública adequada que permita aos servidores públicos […] cumprir o dever legal e constitucional de prestar contas à sociedade das ações específicas e necessárias adotadas diariamente para o cumprimento da legislação ambiental”. Ah, a comunicação pública! Ansiamos que o próximo documento a ser emitido pelo MPF contemple o reestabelecimento da instituição comunicação pública brasileira, vítima de desmonte pelo Governo Bolsonaro. Pois, a dita “reestruturação da Empresa Brasileira de Comunicação” consistiu na fusão da TV Brasil (comunicação pública) com a NBR (comunicação estatal). O resultado é a produção de uma comunicação estatal, de governo, e, portanto, alinhada às cores partidárias do mandato atual. O que fere o preceito constitucional de complementaridade entre os serviços: público, estatal e privado.

Incentivamos fortemente a leitura completa do documento aqui.

*ruptura e mudança no fluxo dos eventos, dimensões das qualidades da noticiabilidade. Franciscato em Silva, Silva e Fernandes. Critérios de noticiabilidade. 2014. p. 102-103.

*Eliege Fante é jornalista, mestra e doutoranda em Comunicação e Informação pelo PPGCOM UFRGS. É também integrante do GPJA

Crise internacional aumenta valor notícia da Amazônia

Capa Época

Imagem: captura de tela – Capa da revista Época da primeira semana de setembro

 

Roberto Villar Belmonte*

Em poucos meses, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu uma façanha: catapultou o valor notícia da floresta amazônica a patamares raramente vistos na imprensa brasileira pelo menos nas últimas três décadas. Essa avalancha de histórias terá um efeito de longo prazo na consciência ambiental do brasileiro que ainda não pode ser analisado. Por isso seguimos escrutinando com lupa o noticiário e passamos, a partir de hoje, a publicar nossas observações duas vezes por semana: segundas e quintas.

Reveladora é a reportagem de capa da revista Época dessa semana escrita por Sérgio Roxo, enviado especial a uma das áreas mais devastadas pelo fogo no Sul do Pará, publicada com a cartola ‘Crise Internacional’. O jornalista lá esteve no final de agosto e apurou como atua a gangue das queimadas na região e por que esses incendiários não estão presos.

“O mecanismo do desmatamento não é segredo para ninguém naquele ponto do Pará — e não há histórico de crimes ambientais cometidos por organizações não governamentais voltadas para a preservação da floresta. Nessa região, as árvores desaparecem e dão lugar a pasto”, escreveu na primeira das seis páginas de texto.

O repórter reconstrói com depoimentos uma batida realizada por policiais e fiscais do Ibama na Fazenda Ouro Verde, onde três tratores foram apreendidos e retomados à força pelo suposto proprietário incendiário, identificado como Geraldinho Palmeira, por falta de escolta armada durante o transporte dos veículos apreendidos.

Além de funcionários de fazendas vizinhas e policiais, fontes ligadas ao Ministério Público Federal e ao Instituto Socioambiental ajudaram o repórter a descrever os furos legais e a falta de política que incentivam a destruição da floresta. Ele também ouviu um fazendeiro que abandonou a prática de derrubar a mata.

Na mesma época, Fabiano Maisonnave e Lalo de Almeida, do jornal Folha de S.Paulo, também estiveram na região, na Terra Indígena Trincheira Bacajá, no município de São Félix do Xingu (PA). Na aldeia, eles acompanharam a chegada dos índios xikrin após retomarem área de grileiros e publicaram a história com exclusividade no dia 26 de agosto.

Nessa segunda-feira (02/09), Maisonanave publicou texto em primeira pessoa descrevendo a aventura. O título do texto deveria virar máxima do jornalismo ambiental: “Jornalismo é caminhar por horas na floresta para cobrir disputa por terra”. Oxalá fosse sempre assim.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A humanidade consome demais e o jornalismo questiona muito pouco

G1

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no G1
Por Eloisa Beling Loose*

Hoje, dia 29 de julho, muitos veículos de comunicação estão reportando a sobrecarga da Terra, limite máximo de uso dos recursos naturais que podem ser renovados sem gerar problemas ao meio ambiente (e, por consequência, à vida dos homens neste planeta). Em 2019, essa data-limite veio três dias antes que no ano de 2018.

O G1 apresenta como manchete: Planeta atinge esgotamento de recursos naturais mais cedo em toda a série histórica e o Uol aponta que: Humanidade já esgotou recursos do planeta para este ano, diz ONG. Os dois sites de notícias mais acessados do Brasil lembram que estamos consumindo 1,75 planeta por ano, sendo que nosso déficit com a natureza data da década de 1970.

O alerta, contudo, não é recorrente na prática jornalística, que tende a naturalizar o pensamento dominante de que é preciso crescer para se desenvolver. Embora o jornalismo tenha compromisso com os interesses sociais, na lógica hegemônica, na qual está inscrito, consumir é status e até solução para os problemas econômicos, políticos e sociais.

Se observarmos as editorias de Economia, por exemplo, a ênfase está no mercado e não em uma forma cooperativa e/ou equilibrada de gerir conjuntamente as necessidades da sociedade com aquelas do meio ambiente. A finitude dos recursos não é debatida, criando a falsa impressão de que nosso padrão atual é viável. O consumismo quase nunca é pauta, pois foi incorporado ao estilo de vida moderna e à própria sustentação econômica das empresas jornalísticas, dependentes por muitos anos das verbas publicitárias. As diferenças abissais de consumo entre os países também tendem a ser ocultadas e o contrário – o incentivo a um modo de vida com mais supérfluos e propenso a mais exageros – parece ser visibilizado de forma acrítica.

Apesar de as notícias de hoje sinalizarem para os custos desse excesso, advertindo para a extrapolação que estamos fazendo ano a ano e sugerindo que os indivíduos calculem sua pegada ecológica, o jornalismo não consegue avançar nessa discussão mesmo tendo uma data como gancho. Os impactos ambientais são decorrentes de políticas, de negócios, de acordos internacionais que favorecem a extração da natureza a baixo custo e a subjugação da força de trabalho da maioria dos países do mundo em detrimento de outros poucos. Cada um pode e deve fazer a sua parte, porém isso inclui as instituições e os governos. Questionar o sistema também é papel dos jornalistas.

Os silenciamentos da imprensa quanto às lógicas que conduzem a nossa realidade social produzem lacunas de entendimento e a falta de caminhos para enfrentar as situações postas pode gerar apatia – ou, o que é pior, a sensação de que não há alternativa. O que as notícias do G1 e do Uol não mencionam é que há estudos que mostram que ainda podemos reverter o quadro. De acordo com a Global Footprint Network, é possível que a Terra consiga recuperar seu equilíbrio antes de 2050, caso a gente consiga adiar o Dia de Sobrecarga de apenas cinco dias todos os anos. Para tanto, uma campanha chamada Steps to #MoveTheDate lista uma série de ações concretas para alterarmos esse cenário.

Para além de expor as problemáticas, as soluções devem aparecer e ultrapassar os comportamentos individuais. É importante refletir e investigar sobre o que mantém o consumo exacerbado da sociedade mesmo diante da informação de que isso não é uma realidade possível para todos – e nem mesmo para uma minoria a longo prazo.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O que é o observatório?

O Observatório de Jornalismo Ambiental é um projeto de extensão ligado ao Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), coordenado pela professora Dra. Ilza Maria Tourinho Girardi, que busca dar visibilidade às produções jornalísticas centradas em aspectos do meio ambiente, assim como levantar discussões pertinentes à área. Após mais de 10 anos de experiência em pesquisas sobre Jornalismo Ambiental, a proposta do Grupo agora é popularizar as reflexões e conhecimentos adquiridos, de modo a contribuir com a formação de um pensamento mais crítico acerca das pautas ambientais e sensibilizar jornalistas e consumidores de informação para um olhar mais atento à cobertura de meio ambiente. Em razão dos ainda limitados espaços para a cobertura de meio ambiente no Brasil somados à necessidade e urgência de evitarmos o agravamento da crise ambiental já em curso, este observatório propõe-se a ampliar o debate do Jornalismo Ambiental. O projeto conta com a colaboração permanente de integrantes do Grupo de Pesquisa e tem como objetivos estabelecer um diálogo aberto sobre a cobertura ambiental no País, fomentar a qualificação do trabalho jornalístico nesta área, além de formar e cultivar um público crítico em relação à produção jornalística voltada para o meio ambiente.

Dia Mundial do Meio Ambiente: por pautas menos catastrofistas

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site da Revista Galileu
*Eloisa Beling Loose

Dentre as muitas efemérides que servem de gancho para a produção jornalística, no dia 5 de junho temos uma dedicada ao meio ambiente. O Dia Mundial do Meio Ambiente foi criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1972, e busca chamar a atenção para a importância da sustentabilidade da vida de todas as espécies – inclusive a nossa – no planeta.

O assunto está mais presente na pauta em razão do volume de problemas ambientais que nos cercam (poluição de ar e água, desmatamento, contaminação por agrotóxicos, rompimento de barragens de rejeitos de mineração, flexibilização das políticas ambientais, extinção de espécies, etc.) e seu tratamento jornalístico costuma ser desolador. O destaque em aspectos negativos tende a gerar uma percepção de que não há mais saídas.

Na última semana, a data foi lembrada por muitos veículos jornalísticos e a “fórmula do choque”, tentando despertar as pessoas sobre o cenário pessimista no qual nos encontramos, foi repetida inúmeras vezes. A matéria publicada no site da Revista Galileu, Mudanças climáticas podem acabar com a civilização até 2050, diz estudo, por exemplo, celebra o dia 5 de junho lembrando que estamos a caminho da extinção da espécie humana. A partir de um relatório do Centro Nacional de Descoberta do Clima da Austrália, o texto indica que as mudanças climáticas podem colapsar a nossa civilização até 2050, tornando o mundo um caos, em razão das condições cada vez mais adversas decorrentes das consequências climáticas.

A notícia da Galileu aponta também o que deveria ser feito. Segundo o documento que é sua única fonte: é necessário alterar a matriz produtiva mundial para que ela seja de zero carbono e pensar mais no planejamento para lidar com cenários extremos. É claro que isso envolve um alto investimento de recursos e um empenho coletivo dos países em priorizar a vida (e não só daqueles que podem pagar por isso). Esse esforço, até hoje, apesar das muitas evidências, não tem sido realmente efetivo, porém a matéria da Galileu não oferece ao leitor uma discussão das tentativas e explicações do porquê isso ainda acontece.

O Acordo de Paris, compromisso negociado por 195 países, em 2015, e que entrará em vigor somente no próximo ano, pretende manter o aumento da temperatura média global em menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais. Os esforços, porém, são para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. A grande questão é que, como explicita o texto, os piores cenários tendem a ser subestimados. E qual a razão de se achar que não há urgência em uma mudança radical nos nossos modos de vida?

Ainda que os relatos jornalísticos sejam sempre recortes da realidade, percebe-se uma recorrência de notícias com fonte única e quase nenhuma contextualização. Além disso, a ênfase nos aspectos mais catastrofistas inibe o foco para a ação, para aquilo que devemos fazer hoje. Soluções de escala global são bem-vindas, mas o enfrentamento deve ocorrer em todas as esferas. Considerando todos os efeitos que já sentimos na pele e as previsões dos cientistas, adotar comportamentos e práticas diárias associadas às baixas emissões de gases de efeito estufa é um imperativo.

Quando a imprensa trata do futuro como algo que, em breve, deixará de existir, está sendo contraproducente, pois repercute a ideia de que não há muita coisa a ser feita. Ao entender o jornalismo como uma prática profissional comprometida com o interesse público, seu papel é justamente dar visibilidade às ações e projetos que estão trabalhando em prol de caminhos que garantam o cuidado com o meio ambiente, indispensável para nossa sobrevivência. Que o Dia Mundial do Meio Ambiente possa ser comemorado com enfrentamento e que, em breve, não seja preciso ter uma data para nos lembrar o óbvio: não podemos destruir o ambiente do qual dependemos para viver.

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).