Observatório de Jornalismo Ambiental

Além da capivara: um apanhado dos (sérios) assuntos ambientais dos últimos dias

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

Um assunto por demais específico dominou a internet nos últimos dias, alcançando proporções bizarras: a polêmica em torno da posse de uma capivara silvestre, cuidada por um influencer, e vetor de uma campanha política contra órgãos da estatura do Ibama. Disfarçados de defensores dos animais, militantes bolsonaristas invocam um tipo de “petzação” do mundo para desviar o foco de questões ambientais realmente sérias e descredibilizar órgãos importantes de fiscalização. O tema é bem tratado na coluna de Rosana Hermann e o objetivo deste texto não é dar mais palco a uma cortina de fumaça: em contraposição, destacaremos uma cobertura grande de assuntos ambientais efetivamente relevantes na última semana. 

Nosso foco é a Folha de São Paulo, que tem uma editoria própria para meio ambiente, com recorrente atualização de matérias próprias e de parceiros — O Globo também tem, mas circunscrita à editoria de Brasil. Um elogio pode ser feito à variedade dos assuntos, que envolvem pesquisas e soluções científicas; política nacional e internacional; mudanças climáticas; terras indígenas; desmatamento; extrativismo etc. Por exemplo, nos últimos dias foram publicadas duas reportagens de pesquisas financiadas pela FAPESP: esta, na prestigiosa Nature, projeta uma emissão de 96 milhões de toneladas de CO² entre 2013 e 2022 decorrente do desmatamento em terras indígenas, intensificada a partir de 2019. A outra pesquisa explora a recorrência e projeção de cada vez mais chuvas extremas no país, com municípios mais vulneráveis.

No rol de matérias publicadas pelo jornal, há muitas que são traduzidas de veículos internacionais. É comum que aquelas sobre mudanças climáticas venham de jornais como a BBC News, que alertou para o acelerado aquecimento dos oceanos, superando as expectativas de cientistas. A reportagem tem o ponto positivo de ser didática: explica possíveis causas do fenômeno, aborda as consequências e introduz a preocupação com o impacto do El Niño nas temperaturas. Já o jornal Financial Times publicou uma interessante reportagem sobre a contagem regressiva para o início da extração de minérios do fundo do mar, sob a controversa justificativa, por parte de empresas, de que isso aceleraria a transição para uma energia verde.

Por fim, o jornalismo produzido pela própria Folha. É patente, de um modo geral, a dificuldade de produção de reportagens ambientais profundas, investigativas — e por vezes as redações acabam presas apenas ao jornalismo factual, ou pior, às pautas trazidas por redes sociais (como o caso da capivara). Ainda assim, boas matérias seguem sendo publicadas, como esta, de Ana Carolina Amaral e Pedro Ladeira, sobre os desafios de contenção à exploração da Amazônia na região do Baixo Tapajós, no Pará. Os repórteres exploram o tripé antiambiental bolsonarista que deixou marcas na região: perseguição aos ativistas, apoio político e desregulamentação de normas.

Diante de pautas viralizadas pseudoambientais como a dos últimos dias, só o bom jornalismo pode ajudar. Por vezes, pautas ambientais parecem ainda excessivamente distantes do público, mas pegar carona na produção de veículos internacionais ajuda, com  a publicação de temas diversificados. Ainda que não seja condição suficiente, uma editoria só para o tema, como faz a Folha, é condição necessária. Outros jornais deveriam fazer o mesmo.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

A repercussão do prêmio Goldman para liderança indígena do Tapajós

Imagem: Reprodução da notícia no jornal Folha de S. Paulo.

Por Ângela Camana*

Nesta semana, os principais jornais do Brasil e do mundo estamparam em suas páginas a foto de Alessandra Korap Munduruku: na terça-feira (dia 25) a liderança do Tapajós recebeu, em São Francisco, nos Estados Unidos, o prêmio Goldman, conhecido como o “Nobel do Ambientalismo”. A imprensa brasileira narra a conquista como um reconhecimento da luta de Alessandra Munduruku e destaca as articulações que recentemente impediram as atividades da mineradora Anglo American no território Munduruku.

À Folha de S. Paulo, Alessandra argumentou: “dizem que ganhamos uma batalha contra uma poderosa mineradora. Mas não achamos ela poderosa. O que é poderoso para nós são os nossos rios, nossas terras, nossos espíritos”. É impactante perceber como as declarações da premiada convocam os grandes portais a reconhecerem outros entes e escalas de importância no mundo, algo ainda raro nestes espaços. Além disso, em suas entrevistas, Alessandra destaca o caráter coletivo deste prêmio e sempre remete aos esforços de seu povo e daqueles que a antecederam na defesa do território na Amazônia – algo que, no mínimo, desestabiliza um jornalismo acostumado a perfis laudatórios centrados em uma única personagem quando de grandes vitórias.

Passados 100 dias do início do Governo Lula, como este Observatório já repercutiu, o Prêmio Goldman tem se mostrado um excelente gancho para a retomada da pauta das demarcações de terras indígenas – ainda mais no momento em que ocorre a 19ª. Edição Acampamento Terra Livre em Brasília. A expectativa é que, ainda nesta semana, haja a homologação de novas áreas.

Bem que seja um momento de celebrar mais este reconhecimento da trajetória de Alessandra Korap Munduruku e das lutas dos povos do Tapajós por seus territórios, vale mencionar que a liderança também é frequente nas páginas policiais, visto que sofre ameaças constantes. Fica a expectativa de que o bom jornalismo não se exima na cobertura das reivindicações dos povos indígenas – e não restrinja tais pautas aos momentos de premiações ou, pior, violências.

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.


Cem dias depois, o que diz o jornalismo sobre a política ambiental do governo Lula

Alto Alegre (RR), 10/02/2023 – Áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami vistas em sobrevoo ao longo do rio Mucajaí. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

Por Débora Gallas Steigleder*

Após o desmonte da política ambiental representado pelo governo de Jair Bolsonaro, é hora de colocar a casa em ordem. Porém, elementos como a autoproclamada boa vontade do presidente Lula para incluir o enfrentamento às mudanças climáticas na pauta do governo e a capacidade técnica da equipe que tem Marina Silva no comando podem não ser suficientes para produzir resultados rápidos, conforme o jornalismo brasileiro vem reportando.

A edição desta segunda-feira, 17 de abril, do podcast O Assunto, do G1, ressalta o cenário de terra arrasada na Amazônia. Apesar do trabalho de reconstrução do Fundo Amazônia e da ação contra o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, por exemplo, a capacidade de fiscalização do governo ainda está aquém do necessário, descreve a repórter do jornal Valor Econômico Daniela Chiaretti, que faz um apanhado dos primeiros meses da nova gestão federal.

A análise da jornalista também dá pistas sobre o tom da cobertura a respeito da política ambiental dos próximos quatro anos: o jornalismo deve abrir cada vez mais debate sobre soluções eficazes para os problemas que já estão na ordem do dia, como desmatamento e emissões de gases de efeito estufa, mas passando longe do otimismo e de considerar as intenções dos gestores como garantia de missão cumprida.

A persistente devastação dos biomas brasileiros e as ameaças aos modos de vida de seus povos segue em pauta na mídia independente passados os cem primeiros dias do atual governo. Reportagem do site Amazônia Real publicada na quarta passada, 12 de abril, e assinada por Nicoly Ambrosio sublinha que o governo Lula ainda não demarcou terras indígenas na Amazônia – atualmente, são 31 TIs no bioma aguardando a retomada do processo de demarcação, que foi completamente paralisado na gestão anterior.

Reportagem da jornalista Elizabeth Oliveira publicada em O Eco também no dia 12 avalia os cem primeiros dias e destaca os desafios que vêm pela frente, sobretudo no combate ao crime ambiental e na transversalização da pauta climática. Calcado nas falas de especialistas de diversas instituições e coletivos, o material também alerta para possíveis retrocessos na Amazônia, como o asfaltamento da BR-319, entre Manaus e Porto Velho e a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas. Que o jornalismo siga de olho.

* Jornalista, Doutora em Comunicação e Informação e integrante do GPJA/UFRGS

Eólicas: a distância da cobertura em relação aos sentimentos dos habitantes locais

Por Eliege Fante*

A descarbonização está na ordem do dia e na pauta político-econômica dos jornais. Os projetos em andamento em todo o litoral brasileiro (cobertura em epbr.com.br/) provenientes de empresas do Norte global, especialmente da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Espanha, têm muito em comum: implantação de usinas eólicas para geração de energia renovável e limpa. Limpa, considerando-se a menor emissão de gases de efeito estufa, diferença favorável em comparação com a geração de energia termoelétrica a partir de combustíveis fósseis como o carvão. Entretanto, assim como ocorreu há alguns anos a respeito das hidrelétricas, a ciência e os movimentos sociais acumulam descrições, fatos e relatos dos impactos sobre o ambiente e as comunidades tradicionais e povos originários afetados.

Recentemente foram lançados dois documentários sobre os impactos na região Nordeste: Ventos do Delta, dirigido por Gelson Catatau e Ester Farache (assistir) sobre o Piauí  e, Vento Agreste, dirigido por João do Vale (assistir) sobre Pernambuco. Nesses estados, de modo semelhante ao que pode ocorrer no Rio Grande do Sul na região da Lagoa dos Patos, as áreas impactadas são remanescentes de biodiversidade e de modos de vida distintos como a pesca artesanal gaúcha (conferir parecer técnico). Portanto, riscos imensos pairam sobre o que ainda não foi devastado sob o paradigma econômico, e tem fundamental relevância para a conservação da fauna, da flora e para a sobrevivência de milhares de pessoas.

O governo gaúcho tem divulgado a participação em inúmeros eventos, como o recente em Rio Grande, onde poderia ter visitado uma comunidade de pescadores e escutado as diversas demandas ou minimamente esclarecido suas dúvidas. Há uma agenda para o mês de abril em Porto Alegre, porém sem a presença dos representantes locais dessas comunidades. Um estudo de viabilidade econômica parece ser o único feito pelo governo estadual, produzido pela Consultoria McKinsey Brasil e que foi citado neste evento do governo, porém o documento não foi disponibilizado para acesso público em PDF na página do Pró-clima 2050 que reúne as informações sobre os projetos de descarbonização. 

Uma rápida busca nos sites de alguns meios de comunicação jornalísticos no estado com a palavra-chave “eólicas” evidencia a distância da cobertura em relação aos sentimentos dos habitantes locais.  Exceto as cinco notícias deste ano publicadas pelo Brasil de Fato que informam também segundo a visão das fontes das comunidades. A mais recente do Correio do Povo repete o discurso do desenvolvimento social da região com esse tipo de energia renovável, exatamente o que as comunidades contestam. Essa repetição ocorre em Zero Hora e em O Sul. Chamou a atenção o grande uso de notícias provenientes de agências internacionais e ao menos uma de agência nacional em quase todos os sites.

SitesNotícias em 2023 arroladas pelo buscador
Brasil de Fato5
Correio do Povo3
Jornal do Comércio1
Matinal0
O Sul5
Sul210
Zero Hora5

De modo geral, a imprensa (não somente a gaúcha) tem repetido o discurso da descarbonização e do desenvolvimento sustentável do governo e das grandes empresas. Uma escuta ativa e daria-se conta de que descarbonizar a economia foi somente uma das recomendações do Painel Intergovernamental das Nações Unidas, o IPCC. As possibilidades para a mitigação e a adaptação aos efeitos das mudanças climáticas bem como a tentativa emergencial de deter o aumento da temperatura média da atmosfera dependem do diálogo entre todos os setores econômicos e grupos sociais. Sim, existem técnicas e tecnologias sociais locais aguardando a vez para brilhar no céu dos investimentos públicos. E, a pesca artesanal, por exemplo, representa uma significativa fonte de receita nos municípios de origem dos trabalhadores, o que permite afirmar que nem a cobertura econômica tem sido completa para uma leitura elucidativa do público diante de todas as implicações dos projetos em andamento para a dita descarbonização. 

Por fim, a estreita ideia de fontes jornalísticas em prática tem viabilizado a escuta predominantemente de fontes oficiais vinculadas ao poder hegemônico, obstaculizando a circulação de informações imprescindíveis a toda a sociedade. É o que ocorre com o silêncio diante das denúncias provenientes das próprias comunidades, movimentos sociais e de pesquisadores de universidades, quanto ao não cumprimento de acordos internacionais e regulações, principalmente da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT, que estabelece a consulta livre, prévia e informada aos povos originários e às comunidades tradicionais.

* Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação, membra do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq, editora da EcoAgência e Assessora de Comunicação da Rede Campos Sulinos.

A desigualdade agravada pelos desastres

São Sebastião (SP) em 22/02/2023. Casas destruídas em deslizamentos na Barra do Sahy após tempestades no litoral norte de São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Por Eloisa Beling Loose*


A imprensa brasileira, de modo geral, tem ampliado e evidenciado as conexões entre a emergência climática e a eclosão, cada vez mais intensa e frequente, de desastres. Mesmo assim, essa cobertura mais analítica, que trata das causas estruturais ao invés de simplesmente culpabilizar as fortes chuvas, segue sendo menos volumosa do que aquela focada na situação imediata.


Essa reação é similar à atenção dada pelo Sistema de Proteção e Defesa Civil na hora da resposta e recuperação, onde há mais disponibilização de recursos financeiros, se comparada com as fases de prevenção, mitigação e preparação (antes do desastre). Segundo dados do Tribunal de Contas da União (TCU), publicado na coluna de Carlos Madeiro, no UOL, nos últimos 10 anos, o governo federal gastou 69% dos recursos de defesa civil com ações de recuperação e resposta às tragédias – para prevenção foram destinados apenas 31% dos recursos.


Nesse Carnaval, a região de São Sebastião, no litoral de São Paulo, foi atingida por chuvas torrenciais. O desastre foi amplamente divulgado e destacou que a população mais atingida foi aquela que vivia em áreas de risco. Mais de 60 pessoas morreram, cerca de mil pessoas ficaram desabrigadas e inúmeros prejuízos, de diferentes ordens, se somam às consequências de uma situação fruto de grilagem de terra, especulação imobiliária e racismo ambiental.


A reportagem “De risco ou de rico”, escrita por Rodrigo Bertolotto com as fotografias de Keiny Andrade para o TAB UOL, traz nesta semana os relatos de caiçaras que foram pressionados a vender suas terras e migrar para áreas mais baratas, próximas aos morros e sujeitas às tragédias. Uma das razões apresentadas pela reportagem é que o imposto predial e territorial urbano (IPTU) pago pelas comunidades tradicionais é o mesmo das casas de alto padrão dos veranistas abastados, por apenas considerar o valor dos terrenos à beira-mar.


Além disso, o aumento do custo de vida na região obrigou essa comunidade tradicional a se tornar mão de obra a serviço do bem-estar de uma elite. “Antes donos da terra, os caiçaras se transformaram em um exército de funcionários para garantir o conforto alheio, como vigias, jardineiros e pedreiros. Espalhada do sul fluminense até o litoral do Paraná, a população caiçara se formou desde a época colonial em praias isoladas, a partir da mistura de indígenas, quilombolas e migrantes europeus”, afirma a reportagem, assinalando que essa não é uma questão isolada.


Esse afastamento das populações tradicionais (e de outras empobrecidas) decorre de uma base colonialista que depende da exploração de muitos para o conforto de poucos. A expressão “colonialismo climático” é mobilizada para se referir como países desenvolvidos vivem às custas dos países chamados “em desenvolvimento”, deixando o ônus ecológico distante espacial e temporalmente de sua localização. Contudo, o colonialismo interno também é uma realidade: as classes mais abastadas ditam as regras de quem e de que forma os recursos devem ser utilizados. No caso de São Sebastião, o prefeito chegou a declarar que moradores ricos impediram a construção de casas populares, para realocação daqueles que estavam em áreas de risco, em 2020.


Nesta semana ainda a TV Folha em parceria com a produtora FICs divulgou o documentário “E o Morro desceu no Carnaval” sobre o desastre do litoral Norte de São Paulo. Nele a tragédia é narrada pelos moradores das regiões atingidas, que reforçam o abismo social existente entre aqueles que moram na parte bem estruturada da cidade e a população que foi empurrada para os terrenos próximos às encostas dos morros, suscetíveis aos riscos.


A crise ambiental sublinha as injustiças e preconceitos, afinal são sempre aqueles mais vulnerabilizados que mais perdem e têm mais dificuldade para se adaptar após um desastre. O jornalismo deve atuar para reportar o agravamento das desigualdades e discutir as razões que sustentam esse modelo de ocupação. Os processos lentos e contínuos, que conformam os riscos, não podem ser naturalizados pela sociedade. Afinal, para pensarmos em soluções e atuarmos na prevenção de riscos, é preciso visibilizar o que desencadeia o processo de vulnerabilização frente aos fenômenos climáticos.

* Jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Quando há vontade política, há mitigação ambiental

Por Carine Massierer*

A vontade política pode não conseguir, sozinha, recuperar a destruição do meio ambiente ocasionada pelas mãos humanas, mas, com certeza, pode contribuir para a mitigação de danos ambientais. A decisão de editar um decreto para reconhecer estado de emergência climática em mais de mil municípios mapeados como mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas foi anunciada pela ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, ao visitar áreas atingidas por alagamentos em Manaus no dia 26 de março. Na capital do Amazonas, conforme registrado pela imprensa, as fortes chuvas fizeram com que 172 famílias ficassem sem acesso às suas casas. A postura da ministra gerou grande repercussão na imprensa, ao manifestar que o governo federal debate internamente decretar estado de emergência climática em cerca de 1.038 municípios mapeados como mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.

Imagem: Captura de tela do site do Jornal do Brasilem 29 de março de 2023. Governo estuda decretar emergência climática permanente em mil cidades (jb.com.br)

A matéria foi publicada em periódicos impressos e online como o Jornal do Brasil, Gazeta do Povo, Correio Braziliense, Bem Paraná, assim como em empresas televisivas como o Canal Rural. O site de jornalismo independente, Headline, também destaca o anúncio da ministra, mas com um novo olhar (Quase 20% das cidades brasileiras podem entrar em estado de emergência permanente devido ao clima | HEADLINE), propondo uma ampliação da pauta e dando destaque ao decreto de estado de emergência permanente devido ao clima. O veículo aponta que não estão apenas sendo pensadas ações paliativas às consequências das mudanças climáticas, como tem acontecido em relação às estiagens em estados do Sul do país e às excessivas chuvas no Mato Grosso, Acre, Ceará e outros.

Na matéria do Headline, consta que o objetivo da medida seria permitir obras preventivas nos 1.038 municípios e que os projetos seriam de prevenção para médio e longo prazo.

Assim, vemos, na prática, que a repercussão na mídia mostra a importância da ação política com vistas à mitigação climática. Através de enfoques mais amplos e elaborados, a exemplo do Headline, identificamos que a pauta pode indicar, ainda, que não basta mitigar efeitos. Nesta linha, percebe-se que comunicação e jornalismo de qualidade podem contribuir para a clareza de que as mudanças climáticas estão aí e exigem a tomadas de atitudes urgentes e eficazes dos seres humanos.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Greenwashing na indústria madeireira: jornalismo é essencial para denúncia

Imagem: Captura de tela do Internacional Consortium of Investigative Journalists

Por Mathias Lengert*

Organizações responsáveis por certificar a origem sustentável da madeira, na prática, validam produtos provenientes de desmatamento. Essa é uma das graves denúncias reveladas pelo Deforestation Inc., uma investigação primorosa liderada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) em colaboração com 39 organizações jornalísticas de diversos países, três delas brasileiras: Poder 360, Revista Piauí, e Agência Pública.

A apuração revela que, apenas no Brasil, pelo menos 62 empresas certificadas pelo Forest Stewardship Council (FSC) concentradas na Amazônia Legal foram autuadas pelo Ibama. Os selos de auditores ambientais, como o FSC, agregam valor ao produto e possibilitam a exportação para mercados exigentes, como os europeus. No entanto, conforme a investigação, ao todo 48 organizações de certificação ambiental falharam em reconhecer crimes durante a averiguação das práticas socioambientais responsáveis.

Com a certificação em mãos, empresas com histórico de infrações ambientais em todo o mundo denominam-se sustentáveis, quando, na verdade, atuam sem comprometimento com a causa ambiental, configurando um caso exemplar de greenwashing (lavagem verde, em tradução livre).

A investigação publicada pelo ICIJ mostra que o jornalismo tem a responsabilidade de identificar e denunciar ocorrências de greenwashing. Isso implica em investimentos jornalísticos de fôlego, exigência de maior transparência de dados e informações das empresas e alfabetização ecológica do público, aproximando o leitor do conceito e auxiliando-o a identificar práticas enganosas.

Durante nove meses de apuração, os repórteres trabalharam em diversas frentes, analisando processos judiciais, dados de inspeção e registros de violação ambiental. A atuação colaborativa suscita reportagens com olhares mais abrangentes, capazes de promover conexões de problemas ambientais globais com os impactos locais. O consórcio é uma ferramenta potente por partilhar um senso colaborativo de fazer jornalismo, amparado na troca de conhecimentos e na verificação cruzada das informações.

Resta a necessidade de esforços exaustivos de contextualização desses dados para o público. O greenwashing é um fenômeno de disfarce da degradação ambiental e de construção de uma imagem pública falsamente positiva, que nem sempre é identificado pelo jornalismo, especialmente ao dar destaque para empresas em notícias sobre meio ambiente sem verificar se seus processos produtivos são, de fato, responsáveis. Em síntese, é essencial que o jornalismo desempenhe um papel crítico e posicionado na sociedade, questionando os impactos de empresas infratoras e a atuação dos órgãos de regulação, e educando o público sobre a relevância do tema.

* Mathias Lengert é jornalista, mestre em Comunicação e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

A última casinha de madeira na Avenida Atlântica de Balneário Camboriú no jornalismo catarinense

Imagem: captura de tela do Diarinho

Por Míriam Santini de Abreu*

O diário multiplataforma catarinense Diarinho, que cobre Itajaí, Balneário Camboriú e região, publicou em 19 de janeiro notícia de dois parágrafos intitulada “Última casinha da avenida Atlântica vai virar prédio”. Trata-se da casa de madeira remanescente na mais badalada avenida do balneário que teve o metro quadrado mais caro do país, ao custo de R$ 11.635,00, em fevereiro, de acordo com o índice FipeZAP+ . Segundo a matéria, a casinha, construída em 1956 e em 1973 comprada pela família atualmente proprietária, será demolida e poderá dar lugar a um prédio de 12 andares.

Nos dias seguintes, outros veículos repercutiram a informação, como o site Camboriú Notícias, que acrescentou informações sobre os atuais proprietários, e o Balanço Geral Itajaí e o SC no Ar, do Grupo ND, retransmissor da Record. Nos dois últimos, os apresentadores citam o fato e a repercussão negativa nas redes, mas afirmam que se trata de propriedade particular e não tombada pelo município, o que permitiria a demolição. No Balanço Geral Itajaí, o apresentador minimiza a reação dos críticos e afirma que “o olho cresce, é natural” diante de valores implicados em negociações deste tipo. No SC no Ar, a repórter mostra o skyline da cidade, tomado por arranha-céus, e a apresentadora comenta: “Mas é linda Balneário Camboriú, né, é uma cidade linda, faz parte do progresso, da evolução, tá dentro da lei, tá tudo certo, então é isso aí”.

O “então é isso aí” de algum modo sinaliza o limite do jornalismo dominante hoje em Santa Catarina. Ao longo do mês de janeiro, Balneário Camboriú foi notícia por ficar semanas seguidas com a Praia Central – que passou por uma polêmica megaobra de alargamento para evitar a sombra projetada pelos arranha-céus na areia – totalmente imprópria para banho, de acordo com análise feita pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA). No mesmo período, a capital, Florianópolis, enfrentava uma epidemia de diarreia que foi notícia no Brasil e no exterior.

No livro “O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo”, o teórico do jornalismo Adelmo Genro Filho mostra que a notícia não caminha do mais para o menos importante, máxima de manuais de redação vendidos por empresas jornalísticas, e sim do singular – matéria-prima do jornalismo – para o particular, sem descuidar do universal, pois essas três categorias filosóficas então ligadas. Ou seja, o jornalismo deve irradiar o singular, o irrepetível, o único, a forma originária do novo – deixando antever a transformação social – a partir da relação com as outras duas dimensões, evitando assim que a totalidade seja vista com uma mera soma de partes, e a realidade como um “(…) agregado de fenômenos destituídos de nexos históricos e dialéticos” (GENRO FILHO, 1989, p. 156).

A iminente derrubada da última casinha de madeira na mais badalada avenida de Balneário Camboriú é o fato singular, único, irrepetível. A relação com o particular se explica pela necessária conexão com a realidade deste município que exalta os prédios gigantescos, os moradores famosos e tenta tapar ou ignorar a ruína das praias e da paisagem, realidade compartilhada por inúmeras cidades no litoral brasileiro, entre elas Torres e Florianópolis, onde as disputadas paisagens provocam pressão para mudanças nos planos diretores atualmente em discussão. É importante mencionar que o citado índice FipeZAP+ lista, além de Balneário Camboriú, Itapema, Florianópolis e Itajaí, todas em Santa Catarina, entre os 10 primeiros lugares no ranking do metro quadrado mais caro do Brasil.

O universal, o “é isso aí” com o qual a apresentadora do SC no Ar conclui o comentário da matéria, está no “olho gordo” mencionado pelo apresentador do Balanço Geral Itajaí, que ele naturaliza: é o lucro com a renda da terra em um sistema em que as sobras da natureza são vendidas como parte dos negócios. É, portanto, um jornalismo que legitima a propriedade privada e o lucro acima do bem comum e limita ao mero discurso a preocupação ambiental, naturalizando os fenômenos sociais e suas consequências.

A última casinha de madeira da Avenida Atlântica ficou à espera de um jornalismo de fato para contá-la.

  • REFERÊNCIA:

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo, Porto Alegre: Tchê, 1989.

* Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo

Jornalismo começou 2023 em busca de contextualização da grave crise Yanomami

Cláudia Herte de Moraes *

Garimpo na Amazônia/ Foto: Felipe Werneck – Ibama

A esperança na eleição do novo governo Lula (2023-2026) ainda alimenta mentes, corações e militâncias em março de 2023. Em poucos meses de governo, os indicadores são ruins para os territórios indígenas, porém em relação à situação do povo Yanomami todo um esforço de contenção de danos tem sido realizado. Em janeiro, a crise humanitária Yanomami teve atenção do governo federal e com isso houve ampla cobertura da imprensa em todos os meios e formatos. As manchetes trouxeram os números que chocaram: mais de 500 crianças mortas por causas evitáveis em quatro anos, estupros, violência, adolescentes grávidas. Fome, falta de condições de saúde. Eram denúncias antigas que finalmente tiveram destaque na mídia como um todo.

O caso pode ser considerado um exemplo de um tema que teve tratamento abrangente na imprensa, trazendo as conexões entre a exploração ambiental – por meio do garimpo ilegal –  à contaminação por mercúrio da água em Terras Indígenas, que deveriam estar protegidas. É o que propomos quando falamos da necessidade de  contextualização dos temas ambientais pelo jornalismo, conduzindo o leitor às condições de entender fatos, causas e consequências dos problemas enfrentados. 

Quando focamos nas consequências, temos farto material. A palavra genocídio apareceu novamente na imprensa durante o período da cobertura desta crise, que foi contextualizada por entrevistas e artigos sobre direitos humanos, antropologia, saúde, com autoridades, militantes e especialistas. Em 20 de janeiro, a reportagem de Samantha Rufino e Valéria Oliveira, de Roraima para o Portal G1 trouxe elementos básicos para o entendimento da situação dos povos, indicando a questão alimentar como fundamental para o quadro triste de mortes de mais de 500 crianças e outras tantas em desnutrição crônica. No dia 24 de janeiro, Laís Seguin escreve para o Portal UOL e faz um histórico da tragédia com foco nas questões da saúde da população indígena.

Em fevereiro, algumas reportagens aprofundaram a questão mostrando porque políticas públicas e fiscalização do governo são essenciais para a região, como neste caso do texto de João Fellet e Leandro Prazeres na BBC. “O número de mortes por desnutrição de indígenas da etnia yanomami aumentou 331% nos quatro anos do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em comparação com os quatro anos anteriores”. No G1, a ênfase às práticas econômicas prevaleceu na análise sobre os fatos, em reportagem de Arthur Stabile e Poliana Casemiro: “Dados do Inpe mostram crescimento da mineração ilegal em áreas de reservas protegidas e especialista vê projeto de exploração econômica da Amazônia como fator determinante para a prática.”

De forma geral, para uma observação mais crítica, podemos pensar em causas que ficaram de fora da maioria dos relatos. Como por exemplo, para além da contaminação por mercúrio, a forte pressão de violência que impedia os indígenas de caminhar, coletar, plantar, usufruir do território, e como isso faz impacto direto na situação de fome e insegurança alimentar. 

Lembramos, ainda, que há o olhar do jornalismo local que trouxe mais elementos para entender o contexto. Entre esses, destacamos o material da agência de jornalismo independente e investigativo Amazônia Real. Vale conferir a reportagem do IJNET que discute a cobertura, incluindo a percepção de jornalistas indígenas. Também por conta da explosão da pauta, outros veículos locais recuperaram denúncias de outros povos, como os Kaingangs no Rio Grande do Sul, como nesta notícia de Luis Gomes no Sul 21.

A repercussão da crise também incluiu apontar que o desmatamento nas terras Yanomami cresceram 25% somente em 2022, com dados do INPE, como publicado por Diego Gimenes na revista Veja. As notícias sobre desmatamento e garimpo ilegal ainda vão persistir, pela complexidade das ações necessárias, que envolvem imediata desintrusão das terras, demarcação e homologação de processos dos territórios, para o bem dos povos originários e do planeta. Ao jornalismo cabe manter-se firme no acompanhamento da pauta, uma das mais importantes desta década.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

O que (não) dizem as fontes oficiais sobre o desmatamento da Amazônia

Imagem: captura de tela do Jornal Nacional – Edição de 30 de novembro de 2022 disponível na plataforma Globoplay

Por Débora Gallas Steigleder*

Na última quarta-feira, dia 30 de novembro, foram divulgados os números do programa Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), referentes ao desmatamento da Amazônia entre agosto de 2021 e julho de 2022. O monitoramento é anual e realizado através de satélites. Apesar da diminuição em relação ao ano anterior, a supressão da vegetação nativa no maior bioma do país segue acima de 10 mil km², conforme destacou reportagem da Folha de S. Paulo, e o índice deste ano é o segundo pior em 14 anos, como lembrou William Bonner no Jornal Nacional. A matéria de Vladimir Netto explicouque os 11.568 km² devastados equivalem a duas vezes o território do Distrito Federal.

Além do desafio de contextualizar números para evidenciar ao público a grande dimensão dos impactos registrados, o jornalismo precisa explicar por que os índices de eliminação da floresta se mantêm altos, sobretudo no estado do Amazonas – onde o desmatamento cresceu desde 2021. Isto não foi difícil para Jornal Nacional, Folha de S. Paulo e outros veículos nacionais que repercutiram o tema, como g1. Afinal, desde o início da gestão de Jair Bolsonaro, o crescimento desses números foi uma constante.

As principais fontes consultadas para repercutir o tema são os próprios cientistas do INPE, responsável pelo levantamento, e especialistas da academia e do terceiro setor que têm alertado para a política de destruição da natureza levada a cabo pelo governo federal, como Observatório do Clima e MapBiomas. Já é evidente para o público que o sucateamento de estruturas como a de fiscalização de infrações contribui diretamente para esses números. As derrubadas de floresta com fins especulativos na área conhecida como AMACRO – que engloba os estados do Amazonas, Acre e Rondônia e contém a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho – são consequência direta dessa política.

Chama atenção, portanto, a ausência de vozes do governo nessas reportagens para comentar os índices e trazer alguma explicação. O Ministério do Meio Ambiente nada quis declarar à reportagem da Folha de S. Paulo. Um breve contraponto do Ministério da Justiça foi lido por Bonner ao fim da reportagem de Jornal Nacional, no formato de nota pelada. Já o g1 não detalha se procurou o governo para comentar o assunto.

Nós, pesquisadores em Jornalismo Ambiental, sempre frisamos a importância da diversidade de vozes nas coberturas ambientais para ir além do factual e do discurso padrão das fontes oficiais. Porém, o que fazer quando a fonte oficial precisa dar explicações à sociedade e se exime de suas reponsabilidades? Vemos que, principalmente após a fala do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva na COP27, a pauta climática já é direcionada à equipe de transição. Mas Jair Bolsonaro ainda é presidente e Joaquim Leite, seu Ministro do Meio Ambiente. Cabe ao jornalismo não desistir de cobrar as justificativas que eles nos devem.

*Jornalista, doutora em Comunicação, pesquisadora do GPJA