A boa notícia foi confirmada na última semana: Belém do Pará foi oficializada como a sede de realização da Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas de 2025, a COP30. Pela primeira vez a Amazônia receberá uma conferência internacional deste porte sobre o clima, permitindo um contato “direto” da comunidade internacional com o principal agente climático brasileiro, que é a floresta mantida em pé (assim como os demais ecossistemas da rica biodiversidade brasileira quando são conservados). Espera-se a visita de cerca de 50 mil pessoas na cidade durante os dias do evento, divulgou a Agência Brasil, nesta que será a COP que marca os 10 anos de assinatura do Acordo de Paris.
O anúncio da sede foi acompanhado da assinatura das primeiras obras na cidade e da divulgação do montante a ser financiado pelo BNDES: cerca de R$ 5 bilhões em projetos de infraestrutura, cuja ênfase será na criação de uma Belém carbono neutro, nas palavras do presidente do banco, Aloizio Mercadante, conforme noticiou o Portal UOL. O projeto do governo paraense abarca a agenda de mobilidade urbana, com corredores de ônibus elétricos ou à gás, para redução da emissão de carbono; saneamento básico — neste caso, vale notar, o objetivo é fazer a concessão à iniciativa privada; da rede hoteleira. Por fim, preveem ainda a reforma e criação de novas áreas de lazer: além da reestruturação do histórico mercado Ver-o-Peso, a primeira obra já foi assinada pelo governo federal, e trata-se da obra de um enorme parque verde na bacia do Una, no canal de São Joaquim, com construção de áreas de lazer e investimento em saneamento da região.
Ainda é cedo para exigir análises e reportagens profundas da mídia sobre os empreendimentos, mas experiências brasileiras passadas devem nortear o caso. Não é a primeira vez que um megaevento internacional ambiental numa cidade brasileira traz, a reboque, financiamentos para obras “ambientais” na sede. O caso exemplar foi a realização da imponente Eco-92, no Rio de Janeiro, quando anunciaram as bases de financiamento do grandioso Programa de Despoluição da Baía de Guanabara. Também na ordem dos bilhões, as estações de tratamento de esgoto construídas seguem, décadas depois, operando muito abaixo de suas capacidades — e a baía está longe de ser despoluída, mesmo com uma Olimpíada em 2016 e novas promessas no caminho.
Que o exemplo do Rio de Janeiro em 1992 (e em 2016, na Olimpíada) sirva para Belém em 2025: o financiamento de obras de infraestrutura e com cunho ambiental pode partir de eventos internacionais como impulso, mas as obras devem ser finalizadas e efetivamente servir à população. A atuação do jornalismo, seja local ou nacional, que se propõe ambiental, não pode se limitar à cobertura da conferência em si e de seus bastidores: é preciso estar atento e cobrar a revitalização, para o povo, de uma das capitais mais importantes do Brasil.
* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.
Para você, cidadão, os planos de enfrentamento às mudanças climáticas pode ser um assunto que você não sabe do que se trata, não busca informações ou talvez nem queira saber. Mas se eventos antes considerados extremos, como furacões, enxurradas e excessos de chuvas atingirem a sua casa e acabarem como seu lar, como as coisas ficam?
É chegada a hora de estarmos todos, os cidadãos e os políticos, preocupados com as mudanças climáticas e os estudos e os planos para minimizar e enfrentar tragédias. Pois nesta semana a Agência Pública trouxe uma reportagem que traz a preocupação que todos os cidadãos deveriam ter: “Maioria das capitais brasileiras não tem plano de enfrentamento às mudanças climáticas”.
A reportagem foi motivada pelas chuvas intensas registradas em maio, em duas capitais que ficam em pontos extremos do mapa: Porto Alegre e Aracaju. Segundo apuração da Agência Pública, Aracaju e Porto Alegre ilustram o despreparo das capitais brasileiras para responder aos desafios postos pela emergência climática. Elas estão entre as 17 das 27 capitais (incluindo o Distrito Federal) que não possuem planos municipais de mudanças climáticas.
A reportagem acessou estudos do Serviço Geológico Brasileiro e acionou as 27 prefeituras para inquerir quais delas tinham planos de enfrentamento às mudanças climáticas.
Os planos de mudanças climáticas são parte de um longo processo de resposta dos municípios. Em geral, este processo se inicia com a realização de dois estudos que fazem uma espécie de diagnóstico da cidade: o inventário de emissões de gases de efeito estufa e o estudo de vulnerabilidade e riscos às mudanças climáticas. A partir desses, o plano de mudanças climáticas define ações a serem tomadas pelos municípios com os objetivos de reduzir e até neutralizar as emissões de gases de efeito estufa, e reduzir os riscos e impactos sobre as mudanças climáticas.
Sobre alguns planos a reportagem se debruçou e conseguiu apontar, com a corroboração de entrevistas, que muitos são frágeis, pois não incluem metas de adaptação e outros nem sequer saíram do papel. Isto se deve ao fato lembrado pelo porta-voz da Campanha Clima e Justiça do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, e que é fonte na matéria, de que existe uma cultura de que é preciso esperar a catástrofe acontecer.
Assim como estamos estão a esperar as catástrofes acontecerem, continuamos sem planos de mitigação e enfrentamento às mudanças climáticas. A imprensa, que é motivada pelos fatos e eventos para se pautar, também está “esperando as catástrofes acontecerem” e sabe por quê? Porque este tema super relevante não foi explorado por nenhum outro veículo de comunicação. A reportagem, de excelente qualidade feita pela Pública, nem sequer foi reproduzida. Assim seguimos, esperando que os outro façam o que é papel de cada um.
*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima foi o foco das notícias publicadas pelos grandes portais, na celebração do Dia Mundial do Meio Ambiente, no último dia 5 de junho. O motivo são os recentes acontecimentos, como a medida provisória que organiza os ministérios do governo, aprovada pelo Congresso Nacional, que retirou a gerência da Agência Nacional de Águas (ANA) e o Cadastro Ambiental Rural (CAR) da pasta do Meio Ambiente. Além da objeção de Marina Silva ao projeto da Petrobras de exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, no estado do Amapá, que causou conflitos dentro do próprio governo.
Em cerimônia realizada no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra apresentaram a quinta fase do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) que prevê a ampliação do cerco jurídico e institucional contra desmatadores e incentivos econômicos a quem desenvolver agricultura sustentável. Marina Silva também fez um pronunciamento em rede nacional pela data, que da mesma forma que o evento no Planalto, foi amplamente divulgado, com alguns veículos publicando o discurso na íntegra.
Ao analisar os títulos das matérias, percebe-se que parte das notícias especulam sobre o poder político da ministra e alguns chegam a se aproximar da “fofoca”, ao estilo sensacionalista.
Os títulos têm grande poder de persuasão, pois é por meio deles que o leitor seleciona o que vale a pena ou não ler e, muitas vezes, compartilhar com outros leitores. Burnett (1991, p. 43) considera o título o elemento mais importante da notícia porque “[…] sem um título atraente o leitor não chega sequer ao lead”, o parágrafo de abertura que traz as principais informações para contextualizar o acontecimento. Na internet, essa importância se afirma com peso ainda maior, porque o leitor só chega ao lead e, consequentemente, à notícia, se clicar no título. Como a mídia detém o poder de agendamento, de silenciamento e de enquadramentos dos fatos, é importante que se verifique os efeitos de sentido produzidos por esses processos discursivos jornalísticos, dada sua influência na formação da opinião pública.
Nota-se que o objetivo desta breve análise é de avaliar apenas os títulos das matérias, não o conteúdo das notícias. Pelos títulos coletados percebe-se uma tendência da grande mídia a enfraquecer e/ou questionar o papel da ministra na condução das políticas públicas de proteção ambiental. Em um momento crucial na reconstrução do desmonte realizado pelo governo passado, as pressões sofridas por Marina Silva são uma prova de fogo para a pauta ambiental brasileira.
*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.
Referências:
BURNETT, Lago. A língua envergonhada. Rio: Nova Fronteira, 1991.
As mais recentes movimentações políticas relacionadas ao meio ambiente brasileiro têm sido tema de intensos debates e alcançado grande interesse da população. De acordo com dados do Google Trends, a pesquisa por “Marco temporal das terras indígenas” subiu mais de 850% somente nesta semana, momento em que Congresso e o Governo Federal estão em lados opostos. Discutiremos, neste texto, a abordagem do assunto por parte do portal Metrópoles, um dos sites mais visitados do país atualmente.
Considerando publicações feitas desde a aprovação no Congresso do regime de urgência para votação do marco temporal, em 24 de maio, até o dia 30, às vésperas da votação, o portal publicou cinco vezes sobre o assunto, sendo uma delas um extenso texto patrocinado. Este indica que a revisão do marco “pode prejudicar o país” e se ancora na ideia de que haverá um “risco de crise agrária sem precedentes”, além de um “impacto negativo bilionário para o agronegócio”. A publicação é patrocinada pela Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja), Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e a Associação Mato-Grossense dos Produtores de Algodão (Ampa).
Além do conteúdo pago, o assunto também foi exposto no Blog do Noblat, hospedado no Metrópoles. Na publicação intitulada “Bancada ruralista desenterra PL do marco temporal para driblar STF”, se faz um breve histórico do assunto e destaca-se que a movimentação do referido projeto de lei é patrocinada pela bancada ruralista. Embora seja um espaço opinativo, o texto é objetivo e não traz uma análise dos fatos.
Outras três publicações foram feitas no mesmo período. Em “Marco temporal e desmonte de ministérios: Congresso esvazia meio ambiente“, os jornalistas exploram as perdas políticas da gestão da Ministra Marina Silva. Neste são citadas entidades contrárias ao marco temporal, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o Greenpeace Brasil e o Instituto Socioambiental (Isa), e são ouvidos apenas pessoas que estão ao lado da causa indígena: a Ministra Sonia Guajajara; a presidente do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann e a Deputada Federal Célia Xakriabá.
Outra publicação feita no mesmo período tem como principal fonte a presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Joênia Wapichana. O texto intitulado “Marco Temporal viola direitos indígenas, afirma presidente da Funai” ouve exclusivamente Joênia, destacando a inconstitucionalidade da pauta proposta pela bancada ruralista, bem como os motivos pelos quais, para as entidades representativas dos povos originários, a manutenção do marco temporal representaria uma violação aos direitos indígenas.
Por fim, em “Mark Ruffalo pede que Lula impeça marco temporal das Terras Indígenas“, o Portal Metrópoles explora a publicação feita pelo intérprete de Hulk em suas redes sociais. Conhecido pelo ativismo ambiental, Ruffalo se manifestou sobre o assunto, compartilhando uma publicação da deputada Celia Xakriabá e convidou outros artistas a fazerem o mesmo. A publicação também não ouviu a bancada do agro, que trouxe o assunto novamente à tona.
Embora as mídias tradicionais habitualmente ofereçam maior espaço ao peso econômico das pautas ambientais, no caso do Metrópoles este ponto de vista foi levantado apenas na publicação paga. O Metrópoles discutiu, nessa semana, sobre direitos indígenas ouvindo principalmente os próprios indígenas, dando espaço às entidades que os representam e localizando o leitor sobre o assunto — que ainda é desconhecido para muitos, dada a exploração superficial que vem recebendo. Apesar da publicação paga, o Portal não perdeu a oportunidade de se diferenciar dos demais. Parece que é um caminho.
* Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do grupo de pesquisa Jornalismo Ambiental. Email: eutalita@gmail.com.
No discurso de celebração dos cem dias de governo, realizado no Palácio do Planalto, em 10 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que, em sua gestão, a Petrobras iria investir em energias renováveis para acelerar a transição energética no país. O enfrentamento da crise climática assumido pelo governo Lula é um dos pontos-chave para a reconstrução da imagem do Brasil no cenário internacional.
Acontece que, um mês depois, Lula se contradiz ao se posicionar em defesa do projeto apresentado pela estatal que pretende explorar petróleo na foz do rio Amazonas, na costa do Amapá. A postura do presidente desagradou ambientalistas, ONGs e também a sua ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, gerando uma série de desdobramentos a respeito dos riscos decorrentes da atividade para o ecossistema e para a população local da região.
O assunto ganhou visibilidade quando começaram a circular as primeiras notícias sobre a negativa do Ibama ao pedido feito pela Petrobras para realizar a perfuração de um poço exploratório a cerca de 160 km da costa do Oiapoque (AP) e a 500 km da foz do rio Amazonas. Alguns dos motivos que justificam o veto do Ibama são a ausência de garantia à proteção da fauna em casos de derramamento do óleo e as inconsistências quanto à previsão de impactos da atividade em três terras indígenas localizadas no entorno.
Partindo do entendimento do jornalismo como formador de opinião pública e potencial transformador da consciência ambiental da sociedade, analisamos a cobertura realizada pelo jornal de maior circulação do país, O Globo, sobre a exploração de petróleo na foz do Amazonas. O objetivo foi verificar se o veículo forneceu informação correta e contextualizada acerca das especificidades socioambientais e das disputas que permeiam a pauta: houve um equilíbrio na apresentação das perspectivas ou serviu a interesses específicos?
O filtro de matérias foi realizado na edição on-line do O Globo, utilizando a ferramenta de busca disponível no próprio site por meio das seguintes palavras-chave “foz do Amazonas” e “petróleo”. Também foram incluídas as publicações relacionadas em hiperlinks dentro das matérias filtradas, mas que não apareceram na página de busca do site.
No total, foram analisadas 15 notícias e cinco textos escritos por colunistas, no período de 14 a 23 de maio de 2023. O enquadramento predominante escolhido pelo jornal para apresentar esse debate foi o econômico, o que fica evidente pela identificação das editorias ou seções: cinco estão distribuídas em “Economia” e as outras dez em “Economia/Negócios”. Ainda que seja uma pauta transversal às áreas de meio ambiente, política e economia, é o foco nos possíveis lucros que se sobrepõe.
Em relação às fontes consultadas, é perceptível o predomínio daquelas ditas oficiais, como políticos e executivos ligados à indústria petrolífera. Na matéria intitulada “Novos investimentos no setor de petróleo podem ser afetados por negativa do Ibama para exploração na Foz do Amazonas”, por exemplo, O Globo ouviu dois especialistas: o diretor da área de Exploração & Produção da consultoria Wood Mackenzie, Marcelo de Assis, e a ex-diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Magda Chambriard. Ambos favoráveis ao projeto da Petrobras. As fontes ouvidas em off na matéria também pertencem ao setor e não contribuem com contrapontos.
Em “O que é a Margem Equatorial e como a decisão do Ibama pode afetar os planos da Petrobras”, embora mencione que a foz do Amazonas “abriga unidades de conservação, grande biodiversidade marinha e estar diante de terras indígenas”, não cita sequer um risco real e concreto para a região e trata o impacto ambiental como uma “dificuldade” para a Petrobras. Nesta matéria nenhuma fonte foi consultada, no entanto, se valeu do chamado “jornalismo declaratório” ao trazer os posicionamentos favoráveis ao projeto do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), e do líder do governo no Congresso, o senador Randolfe Rodrigues (AP – hoje sem partido). A matéria cita que a ministra do Meio Ambiente “vê com ressalvas a exploração na região”, mas não explicita de fato quais são essas ressalvas.
No geral, a maioria dos textos analisados adota uma abordagem que atende aos interesses corporativos, trazendo aspectos positivos da extração do petróleo e a sua influência no crescimento econômico do Brasil. O petróleo é visto unicamente como um recurso ou riqueza que precisa ser explorado para gerar desenvolvimento e até permitir que a Petrobras consiga, a partir de tais lucros, promover uma “transição energética justa e sustentável”, como se não existissem outras maneiras mais coerentes de transformar a matriz energética que não dependesse dos fósseis…
Não há nesse período nenhuma abertura para apontar o quanto o petróleo, enquanto combustível fóssil, é um agravante para a crise climática já em curso. A emergência climática é apagada do debate, enquanto há visibilidade para o recente “boom econômico” da Guiana, país que aumentou o PIB em razão da liberação para exploração graças a uma política ambiental mais frouxa, com mecanismos de autorregulação, fiscalização e controle.
Dentre os textos analisados há apenas uma matéria que se destaca por ouvir vozes contrárias ao projeto. Em “Ameaça a biodiversidade e crise diplomática: por que ambientalistas defendem veto do Ibama na Foz do Amazonas”, O Globo ouviu três especialistas da área ambiental: a analista de políticas públicas do WWF-Brasil, Daniela Jerez, o porta-voz de Oceanos do Greenpeace Brasil, Marcelo Laterman, e a especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo. Logo na linha de apoio já é possível perceber uma preocupação em contextualizar para o leitor as agressões causadas pela extração do combustível fóssil à biodiversidade marinha, os impactos na vida das populações que vivem na região e até mesmo a possibilidade de conflitos diplomáticos.
A matéria disponibiliza um mapa da foz do rio Amazonas para que o leitor consiga melhor compreender o local onde seria instalada a plataforma da Petrobras e a sua proximidade com as terras indígenas Uaçá, Juminã e Galibi. A abordagem desta matéria se diferencia por apresentar informações deixadas de fora nas anteriores, como o aumento no fluxo de embarcações que provocaria mudanças na rotina dos peixes e que, consequentemente, impactaria negativamente na atividade pesqueira da região, e o cenário de um eventual vazamento de petróleo. Mesmo assim, a crise climática não é citada – em seu lugar se menciona uma crise diplomática, pois, caso ocorra algum vazamento de petróleo, o óleo chegaria ao país vizinho em menos de dez horas.
Nossa breve análise destaca que a repercussão do tema n’O Globo enfatizou a visão pró-exploração e até o embate entre os políticos da base do governo, sobretudo as diferenças entre Lula e Marina, mas pouco contribuiu para explicar para o leitor o valor da biodiversidade e a urgência de nos afastarmos dos combustíveis fósseis. Ainda que os textos apresentassem a razão dos ambientalistas se preocuparem com a possível exploração, entendemos que não houve aprofundamento sobre o papel da proteção da biodiversidade.
O que significa dizer que “a Bacia da foz do Amazonas é considerada uma região de extrema sensibilidade socioambiental por abrigar unidades de conservação, grande biodiversidade marinha e estar diante de terras indígenas”? As pautas ambientais são transversais e não podem ser reduzidas ao enfoque econômico. Quantos dias de cobertura serão necessários para evidenciar posicionamentos alternativos à exploração?
*Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.
**Jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.
Sim, Salles é o relator, esse mesmo que fez parte do ministério de Jair Bolsonaro. O ministro do Meio Ambiente que queria passar a boiada e se orgulhava de devolver aos criminosos do Pará centenas de árvores cortadas irregularmente apreendidas pela Polícia Federal. O mesmo que trabalhou com afinco para atingir a maior destruição da Amazônia nos últimos 15 anos, o equivalente a 35.193 quilômetros quadrados de área desmatada (maior que os estados de Sergipe e Alagoas).
Na reunião de instalação da CPI, a deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) questionou a escolha por Salles, já que o regimento interno da casa impede parlamentares de relatar matéria quando há interesses pessoais envolvidos. Ela lembrou que o deputado paulista tem entre seus financiadores de campanha usineiros e madeireiros, conhecidos inimigos dos sem-terra.
“Quando foi candidato a deputado federal em 2018, Salles fez campanha baseada na criminalização do MST. Na época, ele foi investigado porque dizia abertamente que iria fuzilar os militantes do movimento”, alegou Sâmia Bonfim. Seu questionamento, no entanto, foi rejeitado pelo presidente do colegiado, o deputado Tenente Coronel Zucco (Republicanos-RS), outro fiel apoiador de Bolsonaro. A declaração da deputada do Psol, no entanto, não aparece em todos as notícias sobre o assunto.
Salles, em sua defesa, prometeu agir com o “máximo de abertura para o diálogo”. Disse ainda que “espera poder contar com a ajuda daqueles que representam uma visão favorável aos movimentos e à reforma agrária”. Difícil acreditar conhecendo a biografia do deputado.
Apesar das críticas, o relator da CPI sabe que poderá contar com pelo menos um importante aliado: a imprensa hegemônica brasileira. A mídia nacional trabalha há anos para desqualificar e criminalizar o MST. O relator, com certeza, tentará fornecer material para abastecer os veículos de comunicação.
Alexandre Conceição, uma das lideranças dos sem-terra em Pernambuco, observa que o tratamento noticioso sobre o movimento é sempre no sentido de difamar, mesmo que a notícia seja verdadeira. Ele usa um exemplo comum, como a derrubada de uma cerca pelo MST. “Não se diz que aquela cerca que foi quebrada existe um latifúndio improdutivo, existe toda uma história por trás. A relação é muito de dizer, de tentar dizer a meia verdade, escondendo a verdade dos fatos” (MELO, 2008, p.67).
Os motivos que levam a grande imprensa a agir assim são muitos, vão desde ideológicos, como ser contra a reforma agrária, a econômicos, pela parceria com os grandes conglomerados rurais, ou mesmo pessoais, já que muitos empresários da mídia são eles próprios proprietários de latifúndios.
Outra liderança do movimento, Jaime Amorim, acrescenta que a imprensa busca construir uma imagem ligada à violência. Ele lembra da cobertura jornalística do assassinato de dois integrantes do MST, em 2004, em Passira (Pernambuco). “Antes do fazer o sepultamento, acabaram reocupando a sede da fazenda, a imprensa toda lá, aí no outro dia compararam o assassinato dos dois com uma das vacas que os trabalhadores mataram na sede da fazenda. (…)A manchete era ‘Trabalhadores revoltados mataram uma vaca que estava para ter neném’ e mostraram a forma como os trabalhadores carnearam a vaca.” (MELO, 2008, p.152).
Hanna Ayoub alerta, ao analisar conteúdo editorial do jornal Folha de S.Paulo, que “o MST tem sido vítima de manipulação por parte da imprensa, que tem feito isso rotineiramente ao longo dos últimos vinte anos. E tem feito com conhecimento de causa, com objetivos claros de defesa da classe dominante, da qual os proprietários dos meios de comunicação fazem parte. Com base nos seus próprios interesses de classe, a grande imprensa produz um processo de manipulação que resulta na construção de uma ‘realidade’ artificial” (2006, p.92)
E quando é impossível encontrar um enfoque negativo, a orientação é ignorar. Durante a pandemia da Covid-19, por exemplo, os sem-terra promoveram pelo país diversas doações de alimentos para ajudar quem ficou sem renda durante os períodos de maior disseminação da doença. O gesto, no entanto, foi ignorado pelos principais veículos de comunicação. Para a imprensa só existe um MST, o das “invasões” e da “destruição”. E nunca o da produção de orgânicos, o da agricultura familiar, o da lavoura sem pesticida e da solidariedade.
*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente
Referências
AYOUB, Ayoub Hanna. Mídia e Movimentos Sociais: a satanização do MST na Folha de S. Paulo. 2006. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) — Universidade Estadual de Londrina, Londrina, PR, 2006.
MELO, Paula Reis. Tensões entre Fonte e Campo Jornalístico: um estudo sobre o agendamento mediático do MST. 2008. Tese (Doutorado) – Ciências da Comunicação, Unisinos, São Leopoldo/RS, 2008.
A Primavera parece realmente inspirar reflexões ecológicas. No dia 23 de setembro de 1971, o extinto jornal Folha da Manhã1, em sua edição nº 563 (Ano II), publicou uma coluna assinada pelo jornalista Jefferson Barros, que convidava o leitor a participar do “jôgo da Ecologia” (grafia original). Barros ressaltava que a data marcava a entrada de um equinócio, e o jogo serviria “para festejar a chegada da primavera” brincando, pois a data era, “antes de tudo, uma estação de jogos, brinquedos e divertimento”. Ainda que em um estágio bastante inicial, ao menos no Brasil2, é possível perceber ali o nascimento de uma cultura jornalística que ensaiava as primeiras linhas textuais de um até então incipiente – ou mesmo insipiente, neste caso específico – jornalismo ambiental. Você pode ajudar a definir melhor aquele momento quando ler, mais abaixo, a reprodução de parte do “Jôgo Ecológico”, conforme Barros intitulou sua coluna.
Cabe contextualizar antes, aqui, que o ano de 1971 é icônico também para o ambientalismo brasileiro e internacional, pois em abril era fundada, em Porto Alegre – mesma cidade do Folha da Manhã –, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambienta Natural (Agapan), entidade ambientalista ativa e atuante até hoje. Em setembro, surgia no Canadá o Greenpeace, aproximadamente uma semana antes do texto de Barros estampar a página quatro do jornal. Já a Primavera, celebrada atualmente como a estação das flores, também serviu de inspiração para, anos antes, a bióloga norte-americana Rachel Carson denunciar, através do livro Primavera Silenciosa (Silent Spring, no título original), publicado em 1962, os impactos dos pesticidas (biocidas) – em especial o DDT3– na natureza.
O interessante do jogo proposto pelo jornalista, além das inusitadas contraposições que ele sugere entre vários assuntos, coisas, pessoas e personagens para dizer o que é “ecológico” e o que é “não ecológico”, é a forma como busca, no texto, envolver e entusiasmar os leitores a refletirem sobre “o que é poluição, desequilíbrio ambiental e coisa e tal”. No alerta “Preste a atenção.”, ele explica que em “algumas linhas fica um espaço em branco”, com pontilhados no lugar de palavras, onde “você pode completar como quiser ou souber”. Barros justifica os espaços não preenchidos, sempre na coluna “não ecológico”, pela existência de “muitos candidatos”. Vale ressaltar que, do total de 59, apenas três espaços ficaram sem preenchimento. Antes de você entrar para o jogo e tentar completar as lacunas, 51 anos após elas serem abertas, rindo ou chorando, vamos conhecer alguns confrontos “Ecológico/Não Ecológico” propostos por Jefferson Barros na coluna:
ECOLÓGICO
NÃOECOLÓGICO
14 Bis
Concorde
Skol em latas
Chope mal tirado
Woodstock
A Convenção de chicago
Hot-dog
Hot-dog no Zé do Passaporte
Uma garrafa aberta de J&B
Uma garrafa lacrada de J&B
Caetano Veloso
Vilson Simonal
Heidegger hoje
Heidegger em 1939
Millor Fernandes
Nélson Rodrigues
O Estado de São Paulo
O Globo
Bem, vamos parar nesses nove exemplos, pois já dá para ter uma ideia do estilo do “jôgo”. Não sei se isso fez algum sentido para você, mesmo tendo em mente que foi uma forma de expressão impressa há cinco décadas, época na qual, aqui no Rio Grande do Sul, recentemente a pauta ecológica havia sido trazida, de forma mais enfática e sistemática, por alguns precursores do movimento ambientalista como os gaúchos Balduíno Rambo, Henrique Luís Roessler e José Lutzenberger, que também utilizavam os espaços conquistados na imprensa gaúcha para alertar sobre o que já previam que viria a ser a crise climática que enfrentamos atualmente.
Vamos agora à parte que o jornalista deixou para a imaginação dos leitores. Provavelmente, os leitores de 1971 pensariam, se motivados, em respostas pertinentes ao contexto da época. Nós, agora em 2023, podemos duplicar o desafio e buscar duas respostas para cada lacuna (são só três), uma pensando como seria há cinco décadas e outra como pensamos que é hoje. Como diz o autor, “Se você pensar bem, vai acabar sabendo…”. Será?
ECOLÓGICO
NÃO ECOLÓGICO
Ruy Carlos Ostermann4
………………..
Jean Luc Godard
………………..
Jesus Cristo
………………..
Para ser sincero, não consigo me motivar a arriscar respostas. Talvez você também não. E tudo bem se for o caso, pois não é bem isso o que importa, a meu ver. Levando em conta que até hoje, 2023, o jornalismo, de forma geral, ainda não está totalmente convencido da importância e necessidade de uma cobertura adequadamente crítica da pauta ambiental, e isso é verificável na cobertura jornalística atual, a tentativa do jornalista da Folha da Manhã feita em 1971 teve o mérito, a seu modo, de carregar para as páginas do jornal uma reflexão posta de forma lúdica, que chegou aos leitores. Isso é digno de reverência para quem acredita na relevância da atuação jornalística diante das mudanças climáticas, não só para noticiá-las, mas também para alertar, a tempo, sobre os problemas que podem ser evitados.
Concordo que jornalista não é vidente, mas também não é apenas uma inteligência artificial que reproduz recortes de informações digitais, reorganizando-as com certo sentido meramente aceitável. Nesta linha, a atenção à Ciência, aos saberes diversos e às informações difusas que muitos segmentos sociais compartilham, reorganizando-as em conjunto e traduzindo-as para o grande público, com linguagem acessível e atraente, pode ser considerada – ainda hoje e já em 1971 – um avanço significativo na forma de atuar do jornalismo ambiental, em especial o jornalismo contemporâneo das escolas da objetividade e da advocacy (BELMONTE, 2017).
* Jornalista e especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: heverton1234@gmail.com.
** Este texto se diferencia do padrão de publicações do site Jornalismo e Meio Ambiente no que diz respeito à atualidade do conteúdo jornalístico analisado, mas mantém os “objetivos [de] estabelecer um diálogo aberto sobre a cobertura ambiental no País, fomentar a qualificação do trabalho jornalístico nesta área, além de formar e cultivar um público crítico em relação à produção jornalística voltada para o meio ambiente”. Na mesma linha, a publicação pretende oferecer “informações úteis para pesquisadores interessados na temática”, visto que aborda a produção textual de um jornalista publicada em um jornal de 1971. (Referências das seções “O que é o observatório?” e “Sobre” do site https://jornalismoemeioambiente.com).
1 Jornal diário da Companhia Jornalística Caldas Júnior, de Porto Alegre, RS, publicado de 1969 a 1980. A edição utilizada para análise foi recuperada de um descarte por Geraldo Gemerasca de Oliveira, associado da Agapan que atualmente atende na banca que a entidade mantém na Feira de Agricultores Ecologistas, em Porto Alegre, RS, com funcionamento aos sábados pela manhã.
2 “No Brasil, o ambientalismo ganhou visibilidade pública a partir dos anos 1970” (BELMONTE, 2017).
3 DDT é sigla conhecida do inseticida diclorodifeniltricloroetano ou dichlorodiphenyltrichloroethan.
Um assunto por demais específico dominou a internet nos últimos dias, alcançando proporções bizarras: a polêmica em torno da posse de uma capivara silvestre, cuidada por um influencer, e vetor de uma campanha política contra órgãos da estatura do Ibama. Disfarçados de defensores dos animais, militantes bolsonaristas invocam um tipo de “petzação” do mundo para desviar o foco de questões ambientais realmente sérias e descredibilizar órgãos importantes de fiscalização. O tema é bem tratado na coluna de Rosana Hermann e o objetivo deste texto não é dar mais palco a uma cortina de fumaça: em contraposição, destacaremos uma cobertura grande de assuntos ambientais efetivamente relevantes na última semana.
Nosso foco é a Folha de São Paulo, que tem uma editoria própria para meio ambiente, com recorrente atualização de matérias próprias e de parceiros — O Globo também tem, mas circunscrita à editoria de Brasil. Um elogio pode ser feito à variedade dos assuntos, que envolvem pesquisas e soluções científicas; política nacional e internacional; mudanças climáticas; terras indígenas; desmatamento; extrativismo etc. Por exemplo, nos últimos dias foram publicadas duas reportagens de pesquisas financiadas pela FAPESP: esta, na prestigiosa Nature, projeta uma emissão de 96 milhões de toneladas de CO² entre 2013 e 2022 decorrente do desmatamento em terras indígenas, intensificada a partir de 2019. A outra pesquisa explora a recorrência e projeção de cada vez mais chuvas extremas no país, com municípios mais vulneráveis.
No rol de matérias publicadas pelo jornal, há muitas que são traduzidas de veículos internacionais. É comum que aquelas sobre mudanças climáticas venham de jornais como a BBC News, que alertou para o acelerado aquecimento dos oceanos, superando as expectativas de cientistas. A reportagem tem o ponto positivo de ser didática: explica possíveis causas do fenômeno, aborda as consequências e introduz a preocupação com o impacto do El Niño nas temperaturas. Já o jornal Financial Times publicou uma interessante reportagem sobre a contagem regressiva para o início da extração de minérios do fundo do mar, sob a controversa justificativa, por parte de empresas, de que isso aceleraria a transição para uma energia verde.
Por fim, o jornalismo produzido pela própria Folha. É patente, de um modo geral, a dificuldade de produção de reportagens ambientais profundas, investigativas — e por vezes as redações acabam presas apenas ao jornalismo factual, ou pior, às pautas trazidas por redes sociais (como o caso da capivara). Ainda assim, boas matérias seguem sendo publicadas, como esta, de Ana Carolina Amaral e Pedro Ladeira, sobre os desafios de contenção à exploração da Amazônia na região do Baixo Tapajós, no Pará. Os repórteres exploram o tripé antiambiental bolsonarista que deixou marcas na região: perseguição aos ativistas, apoio político e desregulamentação de normas.
Diante de pautas viralizadas pseudoambientais como a dos últimos dias, só o bom jornalismo pode ajudar. Por vezes, pautas ambientais parecem ainda excessivamente distantes do público, mas pegar carona na produção de veículos internacionais ajuda, com a publicação de temas diversificados. Ainda que não seja condição suficiente, uma editoria só para o tema, como faz a Folha, é condição necessária. Outros jornais deveriam fazer o mesmo.
* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.
Imagem: Reprodução da notícia no jornal Folha de S. Paulo.
Por Ângela Camana*
Nesta semana, os principais jornais do Brasil e do mundo estamparam em suas páginas a foto de Alessandra Korap Munduruku: na terça-feira (dia 25) a liderança do Tapajós recebeu, em São Francisco, nos Estados Unidos, o prêmio Goldman, conhecido como o “Nobel do Ambientalismo”. A imprensa brasileira narra a conquista como um reconhecimento da luta de Alessandra Munduruku e destaca as articulações que recentemente impediram as atividades da mineradora Anglo American no território Munduruku.
Bem que seja um momento de celebrar mais este reconhecimento da trajetória de Alessandra Korap Munduruku e das lutas dos povos do Tapajós por seus territórios, vale mencionar que a liderança também é frequente nas páginas policiais, visto que sofre ameaças constantes. Fica a expectativa de que o bom jornalismo não se exima na cobertura das reivindicações dos povos indígenas – e não restrinja tais pautas aos momentos de premiações ou, pior, violências.
* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.
Alto Alegre (RR), 10/02/2023 – Áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami vistas em sobrevoo ao longo do rio Mucajaí. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.
Por Débora Gallas Steigleder*
Após o desmonte da política ambiental representado pelo governo de Jair Bolsonaro, é hora de colocar a casa em ordem. Porém, elementos como a autoproclamada boa vontade do presidente Lula para incluir o enfrentamento às mudanças climáticas na pauta do governo e a capacidade técnica da equipe que tem Marina Silva no comando podem não ser suficientes para produzir resultados rápidos, conforme o jornalismo brasileiro vem reportando.
A edição desta segunda-feira, 17 de abril, do podcast O Assunto, do G1, ressalta o cenário de terra arrasada na Amazônia. Apesar do trabalho de reconstrução do Fundo Amazônia e da ação contra o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, por exemplo, a capacidade de fiscalização do governo ainda está aquém do necessário, descreve a repórter do jornal Valor Econômico Daniela Chiaretti, que faz um apanhado dos primeiros meses da nova gestão federal.
A análise da jornalista também dá pistas sobre o tom da cobertura a respeito da política ambiental dos próximos quatro anos: o jornalismo deve abrir cada vez mais debate sobre soluções eficazes para os problemas que já estão na ordem do dia, como desmatamento e emissões de gases de efeito estufa, mas passando longe do otimismo e de considerar as intenções dos gestores como garantia de missão cumprida.
A persistente devastação dos biomas brasileiros e as ameaças aos modos de vida de seus povos segue em pauta na mídia independente passados os cem primeiros dias do atual governo. Reportagem do site Amazônia Realpublicada na quarta passada, 12 de abril, e assinada por Nicoly Ambrosio sublinha que o governo Lula ainda não demarcou terras indígenas na Amazônia – atualmente, são 31 TIs no bioma aguardando a retomada do processo de demarcação, que foi completamente paralisado na gestão anterior.
Reportagem da jornalista Elizabeth Oliveira publicada em O Ecotambém no dia 12 avalia os cem primeiros dias e destaca os desafios que vêm pela frente, sobretudo no combate ao crime ambiental e na transversalização da pauta climática. Calcado nas falas de especialistas de diversas instituições e coletivos, o material também alerta para possíveis retrocessos na Amazônia, como o asfaltamento da BR-319, entre Manaus e Porto Velho e a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas. Que o jornalismo siga de olho.
* Jornalista, Doutora em Comunicação e Informação e integrante do GPJA/UFRGS