Imagem – Captura de tela do Google para a Semana do Meio Ambiente em notícias (semana do meio ambiente 2021 – Pesquisa Google )
Por Carine Massierer*
Porque a pauta ambiental não pode ser permanente? Será que já não é hora de fazer com que a invisível pauta ambiental se torne tema permanente de debates e publicações na imprensa, pois o caos é iminente, as mudanças ambientais e seus reflexos assim como da destruição da natureza já são sentidos por todos os seres humanos?
Todas essas perguntas vêm à mente ainda mais quando se aproxima mais uma Semana do Meio Ambiente. O Dia Mundial do Meio Ambiente – 5 de junho – foi criado em 1972 e tem por objetivo conscientizar a respeito da importância de preservar os recursos naturais, no entanto, apesar de ser uma grande conquista, esta preocupação deveria estar permanentemente em pauta nas ações dos cidadãos, nas prioridades políticas, na gestão das cidades e na imprensa.
O que se percebe na Semana do Meio Ambiente é uma enxurrada de notícias e de eventos, comemorações ou atividades institucionais e empresariais sendo divulgadas como “produtos”. Fica evidente um esforço coletivo em “marcar a data” e a consequente inundação, na internet, de matérias sobre isso.
A proposta requerida pelo Grupo de Pesquisas em Jornalismo Ambiental, há anos, e defendida por pesquisadores e jornalistas ambientais é que a temática se torne permanente e que não tenha posição secundária na agenda diária ou seja relegada a movimentos sazonais, situações de desastres e catástrofes ou a periódicos segmentados.
Acreditamos que o papel do jornalismo ambiental deva ser o defendido por Loose (2010) de ajudar a melhorar a vida pública e promover a ação dos cidadãos em benefício da coletividade. “A questão ambiental é global, é pública e também cidadã, por isso se aproxima tanto do jornalismo cívico” (LOOSE, 2010, p. 34).
E por isso é preciso ir além de uma cobertura factual ou programada, como ressalta Girardi e outros (2012) e que incorpore um novo fazer jornalístico que tenha ênfase na contextualização, na pluralidade de vozes, na incorporação do saber ambiental, que leve em conta e se aproxime da realidade do leitor, que seja comprometido com a qualificação da informação e que tenha responsabilidade com a mudança de pensamento, além da incorporação do princípio da precaução (GIRARDI e LOOSE, 2017).
Referências:
LOOSE, Eloisa Beling. Jornalismo ambiental em revista: Das estratégias aos sentidos. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Informação) – Programa de Pós Graduação em Comunicação e Informação – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.
GIRARDI I. M. T.; SCHWAAB R.; MASSIERER C.; LOOSE E. B. Caminhos e descaminhos do jornalismo ambiental. Comunicação e Sociedade, v.34, n.1, p. 131-152, 2012.
GIRARDI, I. M. T.; LOOSE, E. B. O Jornalismo Ambiental sob a ótica dos riscos climáticos. Interin. Curitiba, v. 22, n.2, p. 154-172, jul./dez., 2017.
*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
As obras que realizaram a canalização e a retificação do arroio são um problema para a cidade até hoje, tanto em relação às questões ambientais referentes às águas urbanas quanto em relação à impossibilidade de aproximação e uso do arroio devido à estrutura urbanística criada. Não é trivial que esse projeto tenha surgido e que esteja sendo noticiado em 2021 – afinal, as obras de revitalização da orla do Guaíba seguem o seu curso após as polêmicas causadas, e o Dilúvio deságua justamente em uma parte do trecho três da reforma urbanística. Desde o ano passado, existem equipes que estão realizando um projeto de limpeza e revitalização em uma parte do arroio de aproximadamente dois quilômetros.
Neste ano, idealiza-se uma intervenção em um trecho pequeno que fica no cruzamento da avenida Ipiranga e da avenida Cristiano Fischer – o que também não é trivial, posto que essa localização está próxima do complexo institucional da PUCRS. Um dos proponentes deste projeto é Fernando Dornelles, professor adjunto do IPH. O pesquisador docente expôs ao Zero Hora que esse projeto vislumbra uma paisagem urbana que tenha exposições de arte, espaços para apresentações, cafeterias flutuantes, aluguel de caiaque e outras formas de revitalização. Contudo, expôs também que esse seria um projeto urbanístico piloto que poderia limpar apenas uma pequena parte do Arroio Dilúvio, já que a complexidade da limpeza total desse curso d’água envolve questões muito mais complexas como a resolução dos problemas de saneamento básico da população – um problema clássico em Porto Alegre.
Como não se cogita um projeto mais complexo que realizaria de fato a despoluição do dilúvio, o Zero Hora relata que os pesquisadores estão avaliando a construção de uma galeria nas laterais para desviar parte do fluxo d’água que “não seria possível tratar”. Almeja-se instalar ecobarreiras e wetlands em várias partes do curso do arroio, mas a finalidade principal é revitalizar esse trecho que fica próximo à PUCRS para que as águas sejam desfrutadas por moradores urbanos que possuem um estilo de vida muito específico. O próprio jornal escreve alguns pequenos parágrafos sobre a duração desse problema ambiental na nossa cidade, mostrando como outras gestões municipais tentaram realizar projetos mais complexos do que esse.
Em 2012, professores da UFRGS e da PUCRS lançaram um plano de ação que listava 171 ações consideradas necessárias para realmente recuperar a bacia e despoluir toda água. Entre essas inúmeras ações, o próprio Zero Hora destaca que essa equipe propusera a criação de políticas públicas para saneamento básico, regularização fundiária, educação ambiental, trânsito (entre outras) para que fosse possível uma real recuperação do Arroio Dilúvio. Importante lembrar também que, poucos anos antes dessa proposta, foram feitas pesquisas antropológicas na UFRGS acerca da memória desse curso d’água relacionado aos problemas socioambientais de Porto Alegre, o que culminou no documentário chamado Habitantes do Arroio.
Essas informações são fundamentais para realizar uma genealogia deste conflito na nossa cidade e para recuperar a memória dos espaços urbanos, já que um arroio de 17,6 quilômetros de extensão é um espaço muito grande para ser reduzido à uma área urbana de classe média/alta como as redondezas da PUCRS. Por isso, acredita-se que o Zero Hora poderia ser mais crítica e propor um “jornalismo de soluções” que esteja unido aos princípios básicos do jornalismo ambiental desenvolvido pela UFRGS. Afinal, uma das bases desse tipo de jornalismo é o pensamento crítico e sistêmico, o que pode envolver a recuperação da memória de certos conflitos socioambientais para que seja possível propor soluções que realmente aprofundem os problemas citadinos que temos. Falta uma cobertura jornalística por parte de Zero Hora que tenha uma pluralidade de vozes maiores.
* Cientista Social com ênfase em antropologia e atual mestrando do programa de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com bolsa Capes.
Imagem: Captura de tela – Assuntos em destaque na capa do movimento editorial Um Só Planeta, do Grupo Globo, no dia 22 de maio de 2021
Roberto Villar Belmonte*
O Grupo Globo lançou em 2021 um movimento editorial para enfrentar a crise climática chamado Um Só Planeta. Formada por 19 veículos, entre eles os jornais O Globo, Valor Econômico e a rádio CBN, a iniciativa tem desde o início quatro patrocinadores: Ambipar Group, Braskem, Engie e Natura.
Manifesto publicado no final de março explica que o objetivo é produzir um jornalismo que combate a indiferença, encoraja e gera a faísca que inspira: “Estamos aqui para, ao seu lado, provocar uma real e transformadora mudança de padrões mentais e comportamentais em relação ao lugar que moramos”.
O portal do movimento tem cinco editorias: clima, energia, finanças, sociedade e biodiversidade. Há também 22 colunas e blogs de especialistas, entre eles Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, e Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável.
Angelina Jolie posa coberta de abelhas e pede mais conservação era uma das cinco notícias mais lidas no sábado passado, 22 de maio, assim como o primeiro sequenciamento genético de uma serpente brasileira — a jararaca e o plano de Joe Biden para tornar as casas e edifícios americanos “mais verdes”.
Inaugurado em 2015, o local resgata animais que passaram a vida em circos e zoológicos. Ainda segundo a notícia, a presença dos elefantes, atualmente quatro animais vivem por lá, ajudaria na regeneração da antiga fazenda de gado localizada no cerrado mato-grossense.
Apesar de não ter relação com a crise climática, a iniciativa foi divulgada pelo movimento editorial que pretende “provocar uma real e transformadora mudança de padrões mentais”. Histórias interessantes rendem pauta neste tipo de jornalismo de soluções, desde que sem conflito, sem denúncia e sem investigação.
Já o cerco ao ainda ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, principal pauta ambiental dos últimos dias, tem tudo a ver com enfrentar a crise climática. Mas esse não é considerado um tema para o Um Só Planeta. Para esse movimento editorial patrocinado, só importam as soluções econômicas e tecnológicas.
Por que a política de desmonte e o agora cerco ao ministro que incentiva a destruição da floresta amazônica são pautas frequentes no jornal O Globo e são ignoradas no portal construído pelo mesmo grupo para praticar um jornalismo que combate a indiferença, encoraja e gera a faísca que inspira para enfrentar a crise climática?
O que está em disputa no campo do jornalismo brasileiro desde os anos 1990, quando o setor empresarial entrou no debate ambiental, é o que pode e deve ser dito sobre o meio ambiente. Os consultores de marketing batem insistentemente na tecla da comunicação de boas histórias, consideradas, essas sim, inspiradoras e dignas de atenção.
E o jornalismo que combate os poluidores? Desmobiliza, assusta e afasta os consumidores da causa ambiental, dizem. É por isso que quando o Grupo Globo cria um portal patrocinado para “enfrentar a crise climática” o que aparece é um conteúdo de comunicação ambiental em sintonia com o mercado (“verde”).
A mistura entre jornalismo e comunicação é uma das características da atual fase da profissão consolidada no último quarto do século passado. Segundo Charron e De Bonville (2016, p.30), nesse jornalismo de comunicação “o tom e o estilo do discurso promocional impregnam o discurso da imprensa”.
Tal confusão parece ser menos latente em empreendimentos jornalísticos que surgiram no país nas últimas duas décadas, entre eles revista piauí, O Eco, Repórter Brasil, Infoamazônia, Agência Pública, The Intercept Brasil e Amazônia Real. Jornalismo ambiental sem combate é (só) comunicação.
Obviamente que a comunicação ambiental, praticada por todo tipo de profissional e em qualquer mídia, é necessária e fundamental no enfrentamento da crise climática. No entanto, jornalistas não deveriam, em nome da mobilização da sociedade para um novo mercado, abrir mão da função crítica que define a profissão.
Referência:
CHARRON, Jean; DE BONVILLE, Jean. Natureza e transformação do jornalismo. Florianópolis/Brasília: Insular/FAC Livros, 2016.
*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Imagem: Reprodução da reportagem publicada na Folha de São Paulo
Patrícia Kolling*
Com o objetivo de escrever para este observatório, fui em busca de textos jornalísticos que tratassem da pauta da semana: o projeto de lei com novas regras para o licenciamento ambiental e sua aprovação na Câmara dos Deputados. Numa busca rápida encontrei no G1, a matéria Nova lei do licenciamento ambiental: entenda os próximos passos e o que está em jogo que, de forma didática e interessante, tornou o tema compreensível em sete pontos: o que é licenciamento ambiental, o que diz o novo projeto aprovado na Câmara, os argumentos dos dois lados (a favor ou contra), os próximos passos, o que está em jogo, o que dizem as organizações ligadas ao meio ambiente e o que diz o relator do projeto. O tema é técnico e, ao ser instrumento de uma lei, torna-se ainda mais complexo, sendo necessário que o texto jornalístico o decodifique para uma linguagem acessível à população. A jornalista Carolina Dantas faz isso, ao explicar e exemplificar termos, como “licenciamento simplificado” ou “bifásico”, “de fase única” e “por adesão e compromisso”, propondo um comparativo com a lei em vigor. O texto traz um especialista em direito ambiental para detalhar o ponto mais criticado da nova lei, a Licença por Adesão de Compromisso (LAC) que exige apenas uma autodeclaração do empreendedor. Mostra os argumentos de quem é a favor do Projeto de Lei: “acelerar o processo e reduzir a burocracia e dos contrários novos empreendimentos” e de quem é contrário: “aumentar a destruição dos biomas brasileiros, colocar em risco populações tradicionais e piorar ainda mais a imagem do Brasil no exterior”. O texto também mostra o que aconteceria na prática hoje, se o projeto fosse aprovado no Senado e sancionado pelo presidente: estradas como a BR-163, que corta a Amazônia e faz o transporte de grãos entre Pará e Mato Grosso, e a BR-319, que liga Porto Velho a Manaus, poderiam ser asfaltadas sem a necessidade de um licenciamento ambiental.
A matéria jornalística, porém, não nos permite compreender, como um projeto de lei tão criticado por dezenas de organizações, ambientalistas, políticos e pesquisadores e que deve piorar ainda mais a imagem internacional do Brasil frente as questões ambientais, consegue ser aprovado na Câmara dos Deputados por 300 votos. Ou seja, os meandros políticos e econômicos do cenário de aprovação deste projeto de lei não são apresentados pela jornalista do G1.
Na Folha de São Paulo, dois textos trazem à tona alguns destes aspectos. A repórter Danielle Brant, na matéria Câmara conclui votação de projeto que flexibiliza licenciamento ambiental, citando o deputado Camilo Capiberibe (PSB-AP), destaca que com a aprovação deste projeto de lei o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, entrega ao presidente da República o que foi combinado quando ele foi apoiado à presidência da Câmara e que este é sonho do presidente: ocupar a Amazônia, sem nenhum tipo de restrição, como na época da ditadura militar.
Uma análise de Ana Carolina Amaral, Licenciamento de exceção traz risco ao ambiente e também ao empreendedor, também na Folha de São Paulo, traz os argumentos das organizações ambientais para o perigo do projeto de lei, que pode criar uma insegurança jurídica, pois dá aos estados e municípios o poder de definir as atividades ou empreendimentos que necessitam de licenciamento. Além de abordar a necessidade de debate público do projeto, o que não foi realizado até o momento. Os textos da Folha nos dão indícios de que a aprovação em regime de urgência desse projeto, em um momento de tensão na CPI da covid, e sem debate público, foi uma estratégia dos deputados ligados ao agronegócio, ao centrão e à base do governo. Porém, não aprofundam os interesses econômicos do projeto, que são levantados nos comentários de um leitor da Folha, ao reclamar do jornalismo produzido: “nenhuma palavra sobre: ao se transferir a responsabilidade do licenciamento a estados e municípios, estimular-se um afrouxamento dos patamares mínimos de restrições no sentido de atraírem-se investimentos; o autor do projeto ser um produtor rural já condenado; as diversas modalidades de exploração que, injustificadamente, tornaram-se isentas de fiscalização”. Ele ainda questiona o fato de nenhum ambientalista ou ONG ter sido fonte da matéria. “Mais parece propaganda da lei”, encerra do leitor.
*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.
Imagem: Reprodução de JornalJá/ Deriva Jornalismo.
Por Eliege Fante*
Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, foi construída pelos imigrantes europeus sobre um território de encontro entre os biomas Mata Atlântica e Pampa, ou seja, um florestal, outro campestre. A transformação dos hábitats das outras espécies da flora e da fauna nas estruturas que sustentam o desenvolvimento econômico inspira os demais municípios do estado. No entanto, a qualidade da água e do ar estão precárias, apesar do cumprimento dos padrões legais, com o agravante de a conservação dos ecossistemas não ser uma prioridade na gestão deste território. Por exemplo, através da atualização da lista das espécies ameaçadas da flora de POA, tão reivindicada pelo movimento ambientalista. Documento elaborado pelo Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Ingá) em 2016, e entregue ao Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam) e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM), explicava: “Sem as informações do estado de conservação de nossa flora e fauna e da capacidade de suporte de atividades de impactos negativos e potencialmente sinérgicos, estaremos licenciando empreendimentos no ‘escuro’. Ou seja, sem a base de dados necessária para predizermos as consequências futuras de tais atividades, em geral progressivamente degradadoras, em um contexto local de expansão urbana quase sem limites”.
Enquanto a pauta da conservação, para o próprio desenvolvimento, segue sob disputa de sentidos entre os grupos sociais, com representação no Comam e na Secretaria, informações circulantes denunciam o avanço da especulação imobiliária sobre o que resta de áreas naturais em Porto Alegre. E, com o agravante de constituir uma ameaça às vidas humanas, e suas culturas, que estão no Território Indígena (TI) Pindó Poty, no bairro Lami, Zona Sul. A maior parte das informações tem sido divulgada pelas próprias fontes – que poderiam ser entrevistadas pela imprensa-, através dos seus sites e páginas de redes sociais, a respeito de invasões na área, que ainda não teve concluído o processo de regularização fundiária pela União e a Fundação Nacional do Índio (Funai). A mobilização da comunidade Mbya Guarani e de diversas entidades apoiadoras, entre elas, muitas não-indígenas, segue intensa: denunciando, cobrando a responsabilidade dos órgãos, realizando eventos públicos e atividades no território, como o plantio e replantio de mudas frutíferas. No entanto, a qualidade da cobertura dessa pauta imprescindível, pela imprensa porto-alegrense, está precária. É o que sugere o resultado de uma busca, realizada em oito de maio último, em oito sites de jornalismo com palavras-chaves “Indígenas”, “Índios”, “Lami”.
Nos quatro sites da imprensa hegemônica, apenas no Correio do Povo, a busca resultou em uma notícia com a palavra-chave Índios e com Lami (a mesma), publicada em 22 de abril de 2021: “Ato reivindica demarcação de terra indígena, em Porto Alegre”. Reportou a mobilização em prol da demarcação do Território Indígena (TI) com as seguintes fontes citadas: o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), José Otávio Catafesto de Souza, que confirmou que o processo não está andando e as informações sobre motivações dos invasores se referirem a especulação imobiliária; nota do Ministério Público Federal sobre ação ajuizada em 2019 determinando a finalização dos procedimentos administrativos de identificação e delimitação das áreas de ocupação tradicional indígena pela União e Funai e, ainda que, em julho de 2020, soube de um casebre irregular situado na TI; e a Funai, que apenas repetiu que o processo está em andamento. Impossível não deixar aqui para refletirmos: por que nenhum membro da comunidade Mbya foi entrevistado? Caso chegue alguma resposta, poderemos publicar neste espaço.
Abaixo, um quadro apresenta as palavras-chaves e os links cuja busca atribuiu os resultados. E, ao clicar no nome do jornal, o link conduz à apresentação que a empresa de comunicação faz de si.
Fonte: Elaboração própria.
Imprensa não hegemônica: correlação invertida
Já nos quatro sites da imprensa não-hegemônica, a busca com as palavras-chaves que, não trouxe nenhum resultado relativo à pauta em questão aqui, ocorreu em apenas num deles. É o que mostra o site do Extra Classe clicando em Indígenas, Índios ou Lami. Neste caso, assim como nos casos das outras três buscas (nos jornais hegemônicos) que não resultaram em notícias como era esperado, vale ressalvar que a falta de ordem na data pode ter impedido a sua identificação. A seguir, veremos um pouco de cada uma das únicas notícias publicadas pelos outros três sites.
O Jornal Já publicou reportagem do jornalismo independente “Deriva”, que está acompanhando no local a sucessão de acontecimentos, intitulada “Invasores montam barracos e desmatam território indígena no Lami, em Porto Alegre”. A pesquisa no site do Já apontou a notícia, de 20 de abril de 2021, através das palavras “indígenas” e “Lami” (não foi possível copiar o link). Além de trazer as informações dos órgãos públicos responsáveis, disponibilizou uma entrevista no YouTube com o cacique da TI, informações sobre os estragos causados pelos invasores e o contexto histórico: “A Aldeia Pindó Poty está em um território ancestral. Compõe junto com as aldeias do Cantagalo, Itapuã, Ponta do Arado, Lomba do Pinheiro uma grande área de circulação e de ocupação deste povo originário nas matas da Zona Sul da cidade de Porto Alegre.” Fotos grandes e de qualidade ilustram ricamente o encontro presencial do jornalista com as fontes principais.
Também ilustrada com imagens, o Matinal publicou, em 22 de abril, “Por omissão da Funai, guaranis de todo o Estado vêm a Porto Alegre blindar território de invasores”. A reportagem foi a mais completa, na diversificação das fontes, em comparação com as outras deste grupo. Foi localizada a partir das palavras-chaves Índios e Lami.
Ligada à palavra-chave “Lami”, o Sul21 trouxe informações importantes a partir de entrevista com uma fonte vinculada a entidade indigenista, em 20 de abril, sob o título “Mbya Guarani denunciam invasão de terra indígena no Lami para construção de loteamentos irregulares”. Parece que nenhum membro da comunidade Mbya Guarani foi entrevistado: “De acordo com o Cimi, a comunidade já notificou o Ministério Público Federal (MPF) e a Fundação Nacional do Índio (Funai) cobrando medidas para evitar as invasões. Os indígenas, segundo o Cimi, temem ser expulsos de suas casas pelos invasores.”
Em comum, nos oito sites selecionados para este exercício de observação, foi marcante a insistência dessa imprensa porto-alegrense, em seguir repetindo (das fontes), reproduzindo, e assim, produzindo, o conceito equivocado de “índio”. Daniel Munduruku tem explicado com generosidade o que nos cabe aprender como o Nonada, entre outros, já fizeram.
Já entre os quatro sites que publicaram a pauta, marcou, também, a coincidência entre a data da publicação e a convencional comemoração do “Dia do Índio”. Como as Retomadas Indígenas estão bastante ativas, a cobertura sobre o estado de conservação das últimas áreas remanescentes dos dois biomas nos municípios gaúchos, especialmente em Porto Alegre, deve se ampliar significativamente, ainda mais podendo-se ouvir as fontes “guardiãs da biodiversidade” conforme a ONU classificou os povos indígenas recentemente.
Não obstante seja conhecido o conjunto de dificuldades enfrentadas nas redações jornalísticas em geral, as crescentes demissões e a consequente sobretensão naqueles profissionais mantidos, além da sobreposição da pauta da covid-19, as pautas não mudam os status, como o de imprescindíveis. A qualidade das informações que os habitantes dos municípios necessitam para exercer a cidadania, também aparece na iniciativa Atlas da Notícia, que visa mostrar onde se encontram os chamados “desertos de notícias”, ou seja, aqueles que não possuem meios jornalísticos. Porto Alegre que possui os sites mencionados, e muitos outros, certamente não é um deserto, entretanto, a precária e limitada cobertura coloca esta população sob o risco de viver em um deserto de pautas imprescindíveis.
*Eliege Fante é jornalista e pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação. Integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e é associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS). E-mail: gippcom@gmail.com.
Tendência entre grandes grupos de jornalismo, os estúdios de conteúdo – que se ancoram em elementos do fazer jornalístico, mas oferecem conteúdo sob encomenda -, começam a ter nas temáticas ambientais um filão de mercado. O fenômeno também pode ser lido no contexto de uma discussão sobre os rumos da economia no pós-pandemia e da própria crise do jornalismo (ou das empresas de mídia).
Um exemplo recente é o Estadão Blue Studio, do jornal O Estado de S. Paulo, que nos últimos dias entregou diversos conteúdos relacionados ao ambiental sob o guarda-chuva do projeto Retomada Verde, lançado no ano passado. O argumento central do Retomada é, justamente, dar conta de um “movimento global” que estaria ganhando espaço no Brasil, “com empresários, economistas e personalidades endossando a necessidade de fortalecimento da bioeconomia, de cidades mais sustentáveis e de um novo modo de vida e consumo”.
Tais projetos editoriais evidenciam o ambiental como eixo central do contemporâneo, e um “verde” tomado como objeto pelo próprio jornalismo. O extinto Movimento Planeta Sustentável, da editora Abril, revistas com edições verdes ou guias de sustentabilidade, o movimento Um só Planeta, do Grupo Globo, bem como o exemplo aqui assinalado, traduzem também uma tentativa de apaziguamento da natureza complexa e plural de um tema multifacetado.
Essas proposições estão ancoradas na parceria com atores econômicos selecionados, bastante cientes da importância de estarem colados a um discurso de referência. Os próprios causadores da degradação ambiental se apropriam da crítica à sua atuação para usá-la a seu favor, como argumenta André Soares em “A natureza e a cultura do eu” (Ed. Univali, 2003). Os jornais, por sua vez, utilizam seu valor simbólico e a imagem que usufruem na comunidade discursiva que alimentam como seus grandes produtos. Uma perspectiva crítica não deve ser perdida, uma vez que o viés jornalístico nem sempre é o preponderante, os horizontes editorial e empresarial têm sempre mais força nessas iniciativas. Fosse somente pelo interesse jornalístico, as editorias de meio ambiente seriam permanentes e alvo de real investimento.
Imagem: Captura de tela do Estadão
Neste exemplo, temos um texto bem escrito, com a utilização de fonte de alta credibilidade e reconhecida competência no tema. Ao navegar pela página do Retomada, os conteúdos que têm origem em ações com empresas, sob encomenda, recebem uma tarja de conteúdo patrocinado. Todavia, ao termos o tema assumido como projeto editorial e empresarial do próprio grupo de mídia, sempre caberá perguntar quem define a agenda. As pautas emergem naturalmente da observação apurada da realidade cotidiana? Ou elas estão determinadas por um contrato? Todas ou somente algumas? E se, eventualmente, algum dos patrocinadores estiver no centro de um acontecimento negativo, como isso se processará jornalisticamente? E mais: em um país assolado por ondas sucessivas de informação fraudulenta (fake news), em que a estética da notícia é usada para gerar identificação com conteúdos falsos como se fossem verdadeiros, haverá, no exercício da leitura e visualização desses conteúdos, o real entendimento e separação do que é genuinamente jornalístico do que atende a interesses acordados previamente? Com o andar da carroça, as abóboras não estarão tão acomodadas a ponto de não mais haver diferença de tom ou enquadramento entre os dois tipos de conteúdo?
Talvez estejamos observando, nesse caso, movimentos da busca por sobrevivência das empresas jornalísticas. Se for, que resultados trarão para a pauta ambiental nos jornais e revistas? Tudo isso merece ser debatido também a partir do estatuto do jornalismo, questionando se ele ainda pode ser preservado. Pensando nas premissas da liberdade, da pluralidade e da independência, a produção de conteúdo sob demanda pode ser classificada como produto jornalístico, pode figurar no mesmo espaço do jornal/site? E quando tudo está no mesmo espaço, seguindo o mesmo formato e linguagem, a tarja de conteúdo patrocinado é suficiente? Vale lembrar que lavouras de milho transgênico interferem e modificam as variedades tradicionais plantadas nas lavouras vizinhas.
Em se tratando de jornalismo, o interesse privado, que é igualmente central na economia verde, jamais trará resultados de matiz coletivo, ou seja, no sentido de amplificar a compreensão do social e ajudar a produzir o bem comum de forma equânime. Considerando a necessidade de um debate público realmente abrangente, e diante do cenário de desmonte das políticas ambientais no Brasil, a fragilidade do jornalismo enfraquece ainda mais a compreensão macro do ambiental, e sempre acaba por esvaziar a dimensão política do tema. Certamente a tecnologia tem seu papel no desenho de soluções, há muito que se discutir. Como adverte o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, no entanto, o caminho não está em transformar problemas éticos em problemas técnicos apenas.
* Jornalista, doutor em Comunicação e Informação, professor na UFSM e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil
*Por Ursula Schilling
Em tempos de #ForaSalles e de Cúpula do Clima, pode parecer difícil disputar espaço para outras abordagens sobre a pauta ambiental, mas é necessário e, felizmente, há exemplos de que é possível. Chamo a atenção para a reportagem publicada no site The Intercept Brasil, “Syngenta sabia dos riscos de agrotóxico que matou 100 mil pessoas, mas preferiu lucrar”, sobre a omissão da referida empresa no manejo do herbicida “paraquate”, um dos seus produtos mais vendidos. O químico, que é extremamente tóxico para humanos, segundo a matéria, também “perturba as membranas celulares das plantas e interfere no processo de fotossíntese, de modo que os efeitos podem ser vistos dentro de algumas horas. Por funcionar com tanta rapidez, o paraquate foi celebrado como um avanço significativo quando foi introduzido nos anos 1960”.
A longa reportagem levou em consideração 400 documentos, e o esforço de investigação resultou numa história bem apurada e com uma série de elementos. Se levar informações qualificadas ao leitor/espectador é a premissa básica do profissional de imprensa, o bom jornalismo também é, como diz o jargão, a arte de contar histórias — ainda que sejam más histórias. O desenvolvimento adequado, rítmico e consistente da narrativa envolve o leitor e, assim, ajuda a promover o engajamento no tema, em especial numa área que, como pontuado neste Observatório, necessita de ativa militância para que seja cotidianamente pautado pela opinião pública.
Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil
Considerando a necessidade de uma perspectiva sistêmica para a cobertura midiática ambiental e não isolada das pautas cotidianas, o tema em questão — agrotóxicos — parece ainda pouco explorado, sobretudo nos meios de comunicação de massa. No caso de um portal como o The Intercept, a pauta recebeu um espaço grande o suficiente para atestar a importância do assunto. O tom é de denúncia, e o primeiro acerto se dá logo no título: sem meias palavras, destaca-se a importante informação — por vezes silenciada ou naturalizada nas coberturas-padrão — de que agrotóxicos, literalmente, matam.
Ao aprofundar o tema, no entanto, há um foco excessivo na questão da ingestão deliberada do paraquate (em suicídios), não trazendo um elemento central para a denúncia: estes produtos são usados em larga escala em lavouras de todo tipo, e os alimentos produzidos a partir da agricultura tradicional, que se vale de tais recursos para ganhar produtividade, vão para os nossos pratos. Haveria, certamente, espaço para uma melhor amarração, para uma abordagem que não desse a impressão de que o problema está em tomar deliberadamente uma dose do veneno. De qualquer forma, são importantes os fatos e dados trazidos pela matéria, mostrando a lógica da empresa e os efeitos funestos dela decorrentes.
Cabe reiterar ainda que, para o tipo de jornalismo que vai na contramão do desmonte das redações e da sobrecarga dos seus profissionais, é preciso uma porção de recursos fundamentais: humanos (jornalistas com condições dignas de trabalho e capacitados), materiais (para pesquisa, deslocamentos e tudo o mais necessário para uma boa apuração) e imateriais (tempo, coragem e retaguarda para fazer frente à oposição de gigantes da indústria de sementes e agroquímicos, por exemplo). Não é fácil fazer jornalismo de qualidade, mas torna-se cada vez mais imprescindível.
*Jornalista e membro do Núcleo de Ecojornalistas do RS e do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Jair Bolsonaro participa da Cúpula do Clima em 22 de abril de 2021 Foto: Marcos Corrêa/PR – Agência Brasil
Por Débora Gallas Steigleder*
Por muito tempo, os estudos sobre jornalismo no Brasil destacaram a pouca recorrência das pautas ambientais no universo das hard news – aquelas notícias que ganham as manchetes e destacam os acontecimentos de grande impacto na atualidade. Na última semana, porém, a repercussão sobre a postura do governo Bolsonaro na Cúpula do Clima promovida pelos Estados Unidos evidenciou que os tempos são outros. O evento, que teve início em 22 de abril, ofuscou pautas de efemérides que normalmente seriam encontradas sobre a data festejada na ocasião: o Dia da Terra. Em algum passado não tão distante, a data renderia apenas uma lista de fatos curiosos.
O enfrentamento às mudanças climáticas é a ordem do dia nas discussões diplomáticas, e o jornalismo começa a reverberar a urgência percebida pela comunidade científica e pelas comunidades afetadas. A movimentação da cobertura foi ainda anterior ao pronunciamento dos líderes mundiais, na tentativa de compreender o contexto político e econômico que moldaria a estratégia discursiva a ser adotada por Jair Bolsonaro para o encontro. Podcasts como Café da Manhã (Folha de S. Paulo/Spotify) e O Assunto (Globo), por exemplo, tiveram episódios dedicados às expectativas da participação brasileira na Cúpula do Clima, já prevendo que o presidente brasileiro precisaria esconder sua orientação negacionista para não espantar investimentos no país.
Os programas ressaltaram que a maior parte das emissões de gases de efeito estufa no Brasil tem origem no desmatamento e recordaram a denúncia de cientistas e de organizações não-governamentais sobre a omissão do governo federal em relação aos crimes ambientais, especialmente no âmbito do Ministério do Meio Ambiente. Também ressaltaram que tal desmonte atinge sobretudo os povos indígenas, enfim reconhecidos como importantes atores no debate sobre clima pelo jornalismo hegemônico. De fato, a cobertura jornalística parece compreender a transversalidade da pauta ao abordar a relação conflituosa entre sociedade e natureza. No Portal G1, por exemplo, os desdobramentos do discurso de Bolsonaro foram manchete em diversas editorias ao longo do dia, como Mundo, Política e Natureza .
Porém, o destaque da cobertura foram as possíveis sanções econômicas que o governo estadunidense pode impor ao Brasil caso o país não apresente resultados que indiquem comprometimento com a meta de neutralizar as emissões de carbono até 2050, uma vez que a gestão de Joe Biden busca reposicionar o país como liderança nas articulações geopolíticas internacionais a partir da pauta climática. É necessário, portanto, que a cobertura jornalística siga atenta aos desdobramentos das negociações que envolvem as políticas ambientais – do âmbito local aos encontros de líderes globais.
* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.
Poucos dias após conquistarem uma liminar na Justiça Federal, produtores de orgânicos da pequena Nova Santa Rita (RS) ficaram surpresos ao avistarem uma aeronave sobrevoando as suas casas. Afinal, o recurso judicial justamente impedia a aplicação aérea de agrotóxicos em propriedades vizinhas devido à contaminação de seus cultivos pela chamada deriva (quando a aplicação de herbicida é levada pelo vento para fora do local desejado e atinge outras áreas). O mais surpreendente foi que o bimotor começou a dar rasantes sobre o assentamento Santa Rita de Cássia II do MST, pulverizando plantações, moradias, estufas e pessoas. O caso, ocorrido no dia 16 de março, resultou em um boletim de ocorrência na Polícia Civil e em diversos atendimentos em uma unidade básica de saúde próxima. Produtores e familiares relataram que sentiram sintomas como náuseas, irritação nas vias respiratórias e dores de cabeça após terem inalado o produto liberado do avião. Além do prejuízo financeiro com o despejo de veneno sobre as plantações de orgânicos. Na semana passada, a informação era que a Polícia Federal, a partir de um pedido do Ministério Público Federal, deve investigar a denúncia, que se confirmada revelará, na verdade, não apenas um crime, mas também uma estratégia revoltante nesta guerra entre grandes produtores e pequenos agricultores de orgânicos: o uso deliberado de pesticida como arma química sobre vidas humanas. A notícia de Nova Santa Rita, divulgada dois dias depois do ocorrido no site do MST, não teve o mesmo interesse por parte da imprensa gaúcha, apesar de envolver a aplicação de veneno diretamente sobre as casas do assentamento e pelos casos de intoxicação, cujas consequências à saúde poderiam ser mais graves. O jornal Correio do Povo, por exemplo, ignorou a denúncia em suas versões impressa e digital. Zero Hora, o jornal de maior repercussão no Estado, também não deu espaços para a notícia em sua versão on-line. Já em sua edição impressa, publicou na coluna de agronegócio um tópico na edição conjunta de 20 e 21 de março, cinco dias após o ocorrido e com o título genérico “Pulverização em área de orgânicos”. A nota apresenta como fonte o advogado das famílias de assentados e deixa a entender apenas que houve o descumprimento da liminar deferida pela Justiça Federal. Na edição seguinte, no entanto, ZH abriu espaço idêntico para a manifestação dos acusados. O texto “Pulverização em Nova Santa Rita” traz a versão apresentada pelo advogado dos grandes produtores. Em sua defesa, eles alegam que o bimotor era usado somente para treinamento e negam a aplicações de pesticidas diretamente sobre o Santa Rita de Cássia II. O jornal Diário de Canoas, que cobre o município de Nova Santa Rita, publicou em seu site uma notícia mais aprofundada no dia 22: “PC investiga avião que pulverizou agrotóxicos de forma irregular”. As fontes citadas eram a prefeita do município, um delegado de Polícia e um diretor do sindicato que representa as empresas de aviação agrícola. Nenhum agricultor do assentamento foi ouvido. Dois dias depois, o mesmo DC abriu página de sua versão impressa com o título “Não existem provas de pulverização irregular”, novamente sem citar declarações das vítimas e dando amplo espaço para o advogado dos acusados e o sindicato das empresas de aviação. A mesma notícia também foi postada no site do DC no mesmo dia.
Imagem: Captura de tela do site Diário de Canoas
O melhor exemplo de cobertura por parte da imprensa foi do site do jornal Extra Classe, ligado ao Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) e de circulação restrita. Dois dias após o ataque, o portal já denunciava o caso, ouvindo os agricultores e seu advogado e trazendo o seguinte título: “Aeronave clandestina pulveriza veneno sobre assentamento do MST em Nova Santa Rita”. Os grandes veículos de imprensa em geral reservam sua cobertura rural para o modelo do chamado agribussines, desviando de temas considerados polêmicos e abrindo generosos espaços somente após tragédias de grande repercussão. Lamentável, no entanto, é terem desconsiderado o risco às vidas humanas envolvidas neste caso de Nova Santa Rita e não buscarem uma cobertura menos superficial e mais próxima da verdade.
Jornalista, mestrando em Comunicação e Informação. E-mail: spimprensa@gmail.com
Imagem: casa construída com garrafas de vidro. Fonte: Reprodução G1 / Globo Repórter
Por Míriam Santini de Abreu*
Pululam sem parar notícias e reportagens que buscam mostrar as alternativas dos brasileiros empobrecidos para sobreviver. O desespero – como usar lenha na falta de gás para cozinhar – vira “resiliência” e capacidade “empreendedora”. A reportagem do Globo Repórter intitulada “Ameaçadas de despejo, mãe e filha erguem casa com mais de 4 mil garrafas tiradas do lixo”, disponível em https://glo.bo/2PqUURa, enquadra-se nessa abordagem (1). Mas, tal como o vidro, na reportagem insinuam-se facetas que deixam a luz passar.
“Foi um trabalho de formiguinha e de muita consciência ambiental”, define a reportagem, ao se referir às incontáveis vezes que as duas mulheres recolheram garrafas jogadas no manguezal de uma praia de Itamaracá, em Pernambuco, para construir a moradia, aprendendo inclusive técnicas de construção.
Está-se diante da práxis inventiva, da prática criadora de que fala o sociólogo francês H. Lefebvre. O fazer humano de duas mulheres excepcionais para restaurar no cotidiano, sozinhas, o direito de morar. Mas a reportagem, ainda evocando o pensamento de Lefebvre, não tira a máscara das coisas para revelar as relações sociais. Nos quase 10 minutos não há menção a qualquer instância do poder público que possa dar sentido ao trabalho imposto à mãe e filha, abordando a dificuldade de pagar aluguel e/ou comprar moradia no mercado imobiliário, principalmente com os recursos públicos cada vez mais escassos e o fim dos grandes programas habitacionais.
Mesmo a ideia do reuso de materiais não se potencializa por não implicar a indústria no compromisso com o que produz. Fica apenas a menção genérica ao “descarte sem respeito à natureza”. Uma abordagem socioambiental, ainda que breve, não faria a reportagem resvalar para o discurso tão em voga de que “enfrentar desafios e vencer” – como anuncia o programa – depende unicamente da capacidade de resiliência dos indivíduos.
Mas há brechas notáveis na reportagem, como dar o conhecer o cotidiano de mãe e filha, as dificuldades pelas quais passaram, a amorosa trama que as une no cotidiano, e, em especial, a fala das duas sobre a dureza da existência, agravada por serem negras em um país que se ergueu sob os ombros de escravizados. A repórter entra na casa – algo raro, antes ou agora, na pandemia, iniciativa ligada ao fato de a casa ser ela própria uma personagem. Lá dentro estão as delicadezas do morar, a colcha de fuxico, as almofadas coloridas, os quadros, os objetos da cozinha. “A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz”, escreveu o filósofo G. Bachelard. A repórter mostra rotinas como o preparo dos alimentos e o trabalho da filha, que estuda moda – tendo que gastar seis horas por dia para ir à faculdade – e cuida de um pequeno brechó nos fundos do terreno, divulgando nas redes sociais as peças vestidas por modelos negros.
Ao final da reportagem, a abertura da imagem aérea mostra a casa e, progressivamente, o seu entorno, o litoral recortado e habitado, a lembrar que cabe ao jornalismo desvendar por inteiro a experiência vivida no espaço, um produto social sobre qual a pequena casa de vidro tem, potencialmente, muito a contar.
1 – A reportagem foi exibida em 26 de março passado como parte de um programa intitulado “Conheça histórias de brasileiros que são exemplos de resiliência com o Globo Repórter” que continha, entre outras, a história de mãe e filha.
Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo. E-mail: misabreu@yahoo.com.br