Observatório de Jornalismo Ambiental

InfoAmazonia investiga os gargalos da bioeconomia

Imagem: captura de tela – Primeira reportagem da série sobre gargalos da bioconomia publicada no dia 29 de novembro

Roberto Villar Belmonte*

O InfoAmazonia, projeto de jornalismo ambiental liderado por Gustavo Faleiros, começou a publicar no dia 29 de novembro uma série de reportagens sobre os gargalos da bioeconomia. Produzida por Eduardo Geraque, a primeira parte do especial trata da produção de castanha-do-Pará, conhecida no mercado internacional como castanha-do- Brasil (Sem articulação, produção de castanha da Amazônia esta travada | InfoAmazonia).

Com dados do mercado, a primeira reportagem da série mostra como a cadeia produtiva desse tradicional produto da floresta está desarticulada no Brasil. Duas fontes ligadas aos produtores locais do Amazonas e do Mato Grosso explicam as dificuldades de garantir um bom preço durante todo o ano.

Duas fontes de universidades públicas ajudam a compreender os desafios do setor, uma pesquisadora da Universidade Federal de Rondônia e um pesquisador da Universidade Federal Rural da Amazônia. A reportagem também utiliza dados do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais.

A apuração foi feita a distância, sem imersão da reportagem na realidade dos produtores locais. Mesmo assim a proposta desta série é uma importante iniciativa de jornalismo ambiental de perspectiva econômica do InfoAmazonia, portal jornalístico que vem se destacando pelo uso do jornalismo guiado por dados nas pautas ambientais.

Com apoio internacional, o InfoAmazonia desenvolve no Brasil uma espécie de geojornalismo, termo criado pelo próprio Faleiros, a utilização de mapas georreferenciados que fornecem uma interpretação em camadas da região amazônica.
O projeto passou a receber também contribuições de outras fontes de informação para ampliar o conhecimento jornalístico sobre o maior bioma do país.

Discutir a bioeconomia no Brasil é importante para que a sociedade perceba que a política de desmonte ambiental do governo de extrema direita vai além do afrouxamento das normas e regulamentos, passa também pela ausência de políticas públicas que viabilizem ganhos econômicos com a floresta em pé.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Onde estão os vaga-lumes?Meio ambiente, nosso modus vivendi e realidades pouco abordadas pelo jornalismo

Fonte: Pixabay

*Por Ursula Schilling

Dia desses, assistindo, com minha filha de 2 anos e meio, a um canal infantil só sobre animais, apareceu, não me lembro em que contexto, o desenho de um vaga-lume. Minha pequena companheira fitou a tela admirada. Até aquele dia, não vira ou ouvira falar da criatura. Ao que ela me olhou, curiosa, tentei explicar: “é um vaga-lume, filha, um inseto que brilha no escuro… não se vê muitos por aí”.

Dei-me conta, então, de que eu mesma não os vejo desde a infância. Até os meus 10 anos de idade (isso faz bastante tempo), mais ou menos, ainda era comum assistir, nos fundos da minha casa, de onde se avistava um imenso terreno verde, ao espetáculo luminoso de centenas desses pequenos animais piscantes.

Mas onde estão, afinal, os vaga-lumes? Por que não ouço ninguém falar do seu sumiço? Segundo matéria publicada no site da revista Superinteressante, em fevereiro deste ano, esses insetos estão sob risco de extinção. Entre as causas apontadas: uso de agroquímicos, que podem exterminá-los do ambiente ainda em estágio larval; perda de habitat em função da ocupação humana e consequente destruição ambiental; poluição luminosa, visto que as luzes artificiais afetam o ritmo de diversos animais, inclusive o nosso.

Fonte: Captura de tela do site da revista Superinteressante

O desaparecimento de espécies, sejam elas grandes ou pequenas, não parece receber destaque das manchetes. E, se não está nos jornais, compreendidos aqui quaisquer canais de mídia, é como se não fizesse parte de nossa realidade, como se não nos afetasse ou fosse algo muito distante.

Há diversos autores e teorias que explicam porque isso ocorre. Ainda que não seja o único elemento a sere considerado na construção social da realidade, o jornalismo tem papel significativo nessa construção, seja ela objetiva ou subjetiva. O jornalista interpreta os acontecimentos na sua produção discursiva e, por meio das notícias, o indivíduo poderá interpretar o mundo que o cerca e será afetado em maior ou menor grau pelas notícias. É uma forma de conhecer e conhecer-se no mundo. Com isso, podemos ter a falsa impressão de que aquilo que não nos é contado (ou que não faz parte de nossa realidade imediata) não existe. E, se não existe, como refletir a respeito?

Em se tratando da pauta ambiental, sabemos que catástrofes como queimadas, eventos climáticos dramáticos e rompimento de barragens, por exemplo, ainda são grandes ganchos para a cobertura do tema. A importância de tais tópicos é inquestionável, mas e os reflexos do nosso dia a dia no meio ambiente? Aquilo que não é catastrófico no curto prazo ou não grita aos nossos olhos, mas que tem resultados igualmente desastrosos, merece e deve ser agendado jornalisticamente.

Precisamos exercer e demandar um jornalismo que questione nosso modus vivendi, que traga discussões incômodas mas necessárias. Do contrário, não são só os animais que desaparecerão. Não é um processo simples, são muitos vieses e caminhos possíveis.

Por ora, terei de mostrar as luzes de natal à minha filha e dizer: “assim brilham os vaga-lumes”, desejando que ela tenha a oportunidade de conhecê-los ao vivo, e não somente pela televisão.

*Jornalista, mãe, membro do Núcleo de Ecojornalistas do RS.

O racismo ambiental e o jornalismo míope

Imagem: Captura de tela do site Periferia em Movimento

Por Mathias Lengert*

Mariana, Minas Gerais, novembro de 2015. Um mar de lama contamina a bacia do Rio Doce, vitima 19 pessoas e arruína povoados e distritos próximos. Mais de 80% da população atingida é negra. A tragédia, que agora completa 5 anos (ainda sem todas as indenizações pagas), ilustra um recorrente processo de marginalização, empobrecimento e desigualdade étnica e racial em torno de direitos socioambientais.


Em resumo, trata-se do racismo ambiental. A definição ainda carece de visibilidade social, política e jornalística para evidenciar a maneira desproporcional que problemas ambientais impactam os grupos mais vulneráveis. As demandas por justiça ambiental são reivindicações das populações negras e indígenas, sobretudo no Brasil. O Dia da Consciência Negra, na última sexta-feira (20), reacende a reflexão sobre o racismo estrutural e suas implicações na mídia.


O assunto aparece timidamente nas coberturas, por ora, ainda restrito aos esforços do jornalismo alternativo em sondar os impactos da degradação ambiental na vida da população marginalizada, agravada nesse momento em razão da pandemia do Covid-19. Reportando a situação de vítimas afetadas pelo derramamento de óleo no litoral da Bahia, o site de notícias Brasil de Fato denuncia o descaso governamental com a formulação de políticas públicas para as comunidades negras. A fala da militante e pescadora quilombola Marizelia Lopes na reportagem exemplifica a vulnerabilidade: é uma “cegueira intencional”.


Além de estar presente no Estado, a invisibilidade do racismo ambiental é exercida nos jornais tradicionais, que não voltam suas coberturas ao tema e suas soluções possíveis. O jornalismo deve exercitar um olhar consciente que a defesa da vida exige responsabilidade com a mobilização coletiva por justiça ambiental. Ante a cegueira que se faz proposital, é preciso, tal como propõe o jornalismo ambiental, enxergar novos referenciais de igualdade na relação da humanidade com a natureza.


Noticiando a exposição de crianças à degradação ambiental urbana, o site de notícias paulistano Periferia em Movimento relatou a frustração de moradores de favela com a ausência de saneamento básico e indicou dados desses impactos na saúde infantil. O destaque coube aos pesquisadores e ONGs, sem uma ênfase categórica na opinião da população periférica.


A ausência de realce da imprensa em perspectivas que atentem às circunstâncias sensíveis às vivências e às discriminações raciais sofridas reflete um despreparo em apurar os fatos de maneira crítica, investigando as estruturas sociais que perpetuam práticas racistas. A projeção da injustiça ambiental nos debates sociais exige que o jornalismo priorize uma agenda voltada ao âmbito local, e pautada na resolução dos problemas no dia a dia das pessoas vulneráveis.


Para que essa mudança ocorra, além de relatar os casos de racismo ambiental, o jornalismo deve apostar em uma abordagem que compreenda também as dimensões econômica, cultural e política da questão, bem como, que ecoe as reivindicações da população negra marginalizada.

  • Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: mathias.lengert@gmail.com

Nas eleições municipais no Brasil, o meio ambiente está na pauta?

Por Carine Massierer*

Fonte: Captura de tela do site da Câmara dos Deputados

A Amazônia, e o meio ambiente como um todo, esteve em pauta na eleição dos EUA e o presidente eleito, Joe Biden, prometeu dedicar atenção à preservação da floresta que extrapola as divisas brasileiras. E no Brasil, em meio a pandemia e disputas não menos acirradas de candidatos à prefeituras e às câmaras de vereadores, existem políticos preocupados com mudanças climáticas e a preservação ambiental?

Segundo texto jornalístico produzido pela assessoria da Câmara dos Deputados, de 10 de novembro, desmatamentos, devastação de biomas, secas e inundações alternadas, poluição atmosférica, crimes socioambientais, aquecimento global e mudanças climáticas são problemas atuais que dão prioridade à temática na agenda política dos municípios de todo o país. No entanto, na grande imprensa as pautas ambientais não tiveram destaque e nos estados e municípios poucos veículos exploraram a temática de maneira expressiva na publicação de intenções dos candidatos.

Isto que neste ano a Frente Parlamentar Ambientalista da Câmara dos Deputados criou uma plataforma municipal que contempla princípios e ferramentas que a gestão local deve adotar para priorizar políticas públicas fundamentais. Lançada em setembro, a plataforma também explica o papel que os cidadãos/eleitores podem/devem desempenhar nas eleições municipais e sugere pontos que servem para avaliar os candidatos em relação ao meio ambiente.

No dia 11 de novembro, a Frente Parlamentar promoveu um debate para reforçar as ações e propostas da plataforma. Mas, novamente a plataforma e a temática ambiental não reverberaram na mídia nacional. A agência Money Times foi umas poucas que publicou matéria sobre o tema , no dia 14/11/20, destacando a importância da agenda ambiental para os gestores nas eleições municipais e ressaltando que a plataforma também quer estimular os cidadãos a escolherem candidatos comprometidos com o meio ambiente.

Assim como a Plataforma Ambiental Municipal, a ferramenta criada pela Agência Pública para consulta dos nomes dos candidatos com multas ambientais em todo o país, disponível aqui, também teve pouca expressão na mídia comercial. Esta iniciativa foi apresentada em uma ampla reportagem da Agência, veiculada em 11/11/20, que trouxe um levantamento que revela que 152 candidatos a prefeito, 71 a vice e 529 a vereador acumulam 1.017 multas ambientais por infrações como desmatamento, comércio ilegal de madeira ou por provocarem queimadas em áreas protegidas. Os valores dessas multas, somados, ultrapassam R$ 175 milhões.

Fonte: Captura de tela da Agência Pública

Com iniciativas políticas como a da Frente Parlamentar Ambientalista e da Agência Pública nós tivemos a oportunidade, neste pleito de 2020, de testar novas ferramentas e estar a par não só do discurso, mas também do compromisso dos políticos com o meio ambiente. O que falta ainda é a imprensa dar mais repercussão a estas propostas e não ser uma mera copiadora de conteúdos de agências.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Nas eleições dos EUA, a pauta é amazônica

Por Ângela Camana

Fonte: Captura de tela do site da Veja

Na última semana o mundo acompanhou atento o desenlace das eleições norte-americanas, cuja vitória do candidato democrata à presidência, Joe Biden, foi conhecida no sábado, dia 7. Enquanto os votos eram apurados, no Brasil observamos a declaração de apoio de Bolsonaro à reeleição de Donald Trump, um gesto inédito na política externa nacional, tradicionalmente neutra quanto aos pleitos das nações estrangeiras. Todo este cenário já tenso adquire outros matizes em função do papel que a Amazônia teve na disputa, já que Biden afirmou que estará atento à preservação da floresta, o que foi amplamente repercutido pela imprensa. 

Em entrevista concedida em março, mas reverberada fortemente nesta primeira semana de novembro, Biden afirmou sua disposição para articular um grupo de países a fim de pressionar o governo Bolsonaro pela conservação da Amazônia, prevendo aportes financeiros massivos e mesmo sanções econômicas caso isso não ocorra. O presidente brasileiro respondeu, reforçando o apoio a Trump e argumentando que os dizeres do candidato democrata são uma afronta à soberania nacional. No último dia 3, o vice-presidente Hamilton Mourão, que dirige o Conselho Nacional da Amazônia, também declarou seu incômodo com a postura do norte-americano

Os maiores veículos de imprensa brasileira publicizaram todo este debate no âmbito da extensa cobertura dedicada às eleições norte-americanas. No entanto, há que se considerar que não conseguiram escapar do jornalismo declaratório, isto é, da mera reprodução de falas das personalidades em questão. Uma pena, já que a pauta ambiental envolve controvérsias e disputas que merecem ser melhor exploradas, sobretudo na semana na qual os próprios EUA abandonaram o Acordo de Paris. Tudo indica que a agenda ambiental no contexto das relações Brasil-EUA voltará a ter força nos próximos meses: passada a corrida presidencial, espera-se que os veículos brasileiros possam abordar a questão para além da editoria de política investindo em novas fontes e análises.

Por fim, neste pleito acirrado e marcado por acusações, é importante destacar também a ação inédita das três principais emissoras de televisão norte-americanas ao interromperem a transmissão ao vivo do discurso do atual presidente Donald Trump, em função de seu conteúdo falso. Qual o limite do espaço a ser dado a fontes que propagam fake news? Como o compromisso ético do jornalismo com a verdade vem sendo tensionado ano após ano por atores que difundem desinformação deliberadamente, veja-se o caso dos negacionistas das mudanças climáticas, a atitude emblemática da imprensa norte-americana vem em boa hora. Que sirva de exemplo a outros veículos mundo afora. 

* Jornalista e socióloga. Membro do GPJA e do TEMAS (Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade). E-mail: angela.camana@hotmail.com

Sofrimento animal ou destruição do solo: foodtechs trazem a comida do futuro?

Por Eutalita Bezerra

Fonte: Ilustração de Vitor Amirabile para GQ (2020)

Em tempos de “agro é tech”, a comida tem sido tratada como “negócio tecnológico, bilionário e para todos”, é o que diz texto publicado no último dia 1 de novembro – não por acaso, o dia mundial do Veganismo – na versão digital da GQ. Descrita como “a revista para o homem moderno, com reportagens e entrevistas sobre moda, cultura, mulheres, tecnologia, saúde, viagem, gastronomia, carros, motos e muito mais”, em seu discurso GQ converte o movimento vegano em celeiro de inovações e espaço para explosões em vendas de produtos que emulam carne animal, as chamadas proteínas alternativas.  Nesse cenário, buscamos entender: do ponto de vista ambiental, no que implica admitir a comida, insumo tão básico para a nossa sobrevivência, como mercadoria de foodtechs?

Embora mencione o movimento vegano desde o título da reportagem – “Veganismo ganha mercado com inovações e adeptos nada radicais” – GQ parece desconsiderar a verdadeira etimologia do termo, criado em 1944 pela Vegan Society, instituição mais antiga do mundo nesse nicho. Trata-se de uma“doutrina pela qual as pessoas devem viver sem explorar animais”, não sendo, portanto, uma dieta, mas um “conjunto de ações em todos os aspectos da vida que demonstra recusa ao sofrimento dos animais”, conforme publicação do Portal Vista-se, referência em veganismo no País. Aliás cabe dizer que o texto está publicado numa cartola de Gastronomia – repetimos, veganismo não é dieta! – mas pouco ou nada tem com esta, podendo, fatalmente, estar numa editoria de economia e/ou de tecnologia, sem prejuízo.

Em relação aos dizeres acerca da produção animal para consumo humano, é sabido, e GQ reforça, que existe um forte impacto da pecuária extensiva no meio ambiente e é neste ponto que a publicação se coloca ao lado dos veganos, afirmando que as empresas de produção tecnológica das tais proteínas alternativas estão “movidas pelos dados do impacto da pecuária no meio ambiente e pelo malefício que o excesso de carne animal provoca no bem-estar pessoal.” Embora baste uma leitura um pouco mais atenta e logo se saberá que esta preocupação é contestável.

O texto ao qual analisamos, que se assemelha a uma colagem de informações colhidas internet afora, se esmera em explicar de que maneira a diminuição no consumo de proteína animal degrada o solo, consome água, além de emitir gases prejudiciais ao meio. O que não está claro e nem problematizado é de onde vem a produção vegetal utilizada na constituição da aclamada “comida do futuro” e, embora cite uma das empresas como “a versão mais saudável possível de carnes vegetais: nada de soja, glúten, açúcar e ingredientes transgênicos”, não torna claro para o consumidor os problemas do consumo desses componentes, além de permitir a inferência de que as demais empresas admitidas como opções mais saudáveis para os humanos e o planeta não estão muito preocupadas com os impactos das monoculturas ou dos organismos geneticamente modificados.

Ademais, a publicação ainda apresenta uma categorização no mínimo curiosa dos possíveis consumidores das foodtechs: além dos onívoros, ovolactovegetarianos e os vegetarianos propriamente ditos (os quais eles descrevem como “a tribo que só come planta, os veganos”, num movimento de claro desconhecimento da questão já levantada), os “flexitarianos” ou “reducetarianos”, que se diz de quem opta por não comer proteína animal em algumas refeições ou dias da semana. Estes recebem da GQ o emblema de “conscientes, mas não radicais” e é admitido que suas escolhas trariam “um ganho imenso ao planeta”, segundo o ex-Beatle Paul McCartney, criador do movimento #segundasemcarne, descrito pela revista.

Não acreditamos que o ganho imenso seja realmente sentido pelo planeta, mas estamos certos de que, aos bolsos dos criadores destas empresas de fake food, isso é uma realidade. Ao que parece, além de se utilizar de um suposto discurso vegano, superficial e desconectado da realidade, apenas como chamariz para a venda, a responsabilidade dessas empresas perante o meio ambiente e a saúde humana não são realmente tão relevantes quanto quis desenhar a publicação. Para nós, a partir do texto analisado, o discurso da comida do futuro é mais do mesmo. Mas pincelado de verde.

* Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do GPJA. E-mail: eutalita@gmail.com

Imprensa foge ao debate sobre os malefícios da mineração no RS

Fonte: Captura de tela parcial do site Sul21

Por Cláudia Herte de Moraes *

O Rio Grande do Sul está sob ameaça. Estamos falando da possibilidade de instalação de mais de 150 projetos de mineração em várias regiões do estado. A mineração definitivamente não é sustentável. Além disso, a gestão irresponsável do setor, em vários momentos, coloca em risco ambientes e populações. Merecem registro os recentes acontecimentos que marcaram as grandes tragédias de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), ainda sem recuperação ou compensação ambiental possível, diante das perdas humanas, de biodiversidade e de modos de vida dos atingidos.

Os desafios da luta ambiental são constantes e o mesmo sistema capitalista, responsável pela crise climática, não dá sinais de renúncia à ganância que lhe é peculiar. As ameaças da mineração estão na pauta da sociedadee os grupos organizados pela luta ambiental estão na ativa. Na última semana, acompanhando o movimento contra a mineração, o webjornal Sul21 foi o único a publicar a Carta do Rio Camaquã, manifestação de mais de 90 entidades ambientalistas, sindicatos, representações estudantis e acadêmicas. No documento são trazidas informações importantes para o esclarecimento público, contendo a denúncia de que, além da mineração, está em curso projeto para instalação de uma hidrelétrica no Rio Camaquã, por Acordo de Cooperação Técnica entre a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (SEMA). O Sul21 fez reportagem chamando a atenção da população gaúcha frente às ameaças de perdas na área socioambiental. O webjornal é uma exceção entre veículos da imprensa gaúcha, pois dá espaço aos movimentos e trata a mineração como um problema, ou seja, pontuando os malefícios, para além do discurso produtivista. Em 2019, texto de Carine Massierer neste Observatório, já indicava essa situação preocupante, para a qual o restante dos veículos não buscam dar atenção.

Por outro lado, podemos observar que os movimentos sociais procuram manter suas vozes ativas no debate, especialmente quanto a conflitos ambientais, nos quais o destino das comunidades está em jogo. Neste sentido, analisamos as postagens na rede social Facebook do grupo de moradores, em ação pelo midiativismo ambiental, sobre o projeto de mineração no Rio Camaquã (RS). Refletindo sobre as postagens de resistência na sua interconexão com a luta pelo direito ao ambiente saudável, examinamos tanto a página Rio Camaquã – União Pela Preservação, como notícias governamentais e de um jornal de referência. A observação foi de um período de cinco anos e concluímos que há uma atenção muito limitada ao conflito, ou seja, o debate público sobre a mineração não ocorre de forma ampla no jornalismo gaúcho, além do que estes projetos são geralmente justificados pelos “ganhos econômicos do empreendimento”. O artigo publicado no início de 2020, foi feito em coautoria com Eliege Fante.

Também atuando em prol do debate público, está o Núcleo de Ecojornalistas do RS (NEJ-RS), entidade que reúne jornalistas engajados e especializados na pauta ambiental. O NEJ-RS realiza o evento Terça Ecológica abordando “O mapa da megamineração no RS: Riscos e estratégias de enfrentamento”, com Eduardo Raguse Quadros, engenheiro ambiental e integrante da coordenação do Comitê de Combate à Megamineração no Rio Grande do Sul (CCMRS) neste 27 de outubro. Os projetos em debate, caso aprovados, farão do RS o terceiro estado minerador do país, resultando em prováveis impactos negativos ao ambiente e às populações atingidas. O evento é apoiado pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (GPJA) CNPq/UFRGS.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: claudia.moraes@ufsm.br

A destruição das florestas: sem conhecimento, valorização e respeito

*Patrícia Kolling

Fonte: Captura de tela do site El Pais Brasil

“Mas para os povos indígenas uma coisa é clara: quanto menos você sabe sobre algo, menos valor isso tem para você ― e, portanto, mais fácil será de destruir”. 

Esta frase da líder ambiental da comunidade waorani, Nemonte Nenquimo, é um dos apelos por ela escritos na Carta da Amazônia, uma mensagem direcionada aos nove presidentes de países amazônicos, publicada no jornal El Pais, em 12 de outubro, (Vale a pena a leitura na integra). Trata-se de uma carta escrita com conhecimento e sentimento, que clama respeito à floresta e aos povos indígenas. Nemonte Nenquimo destaca os milhares de anos que os povos indígenas levaram para conhecer a floresta Amazônica. “Entender suas formas, seus segredos, aprender a sobreviver e a prosperar com ela”, explica. 

O que Nemonte Nenquino diz se torna ainda mais potente diante das falas dos nossos governantes sobre esse assunto.  Na última terça-feira, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu o aumento de cabeças de gado no Pantanal para que comam o mato que serve de combustível e agrava as queimadas. A exemplo da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, ele defendeu a tese do “boi bombeiro” e a expansão da pecuária na região para conter incêndios. Na matéria citada, no entanto, especialistas criticam essa visão, apontando que a criação de gado aumentou no Pantanal nos últimos anos, ao invés de diminuir, rebatendo a ideia de que os bois seriam fundamentais para impedir incêndios. Além disso, um dos focos de incêndio que devastou recentemente uma área de conservação no Pantanal teve início, segundo perícia, justamente numa fazenda de criação de gado nas redondezas.

A leitura destes dois textos nos instiga a refletir sobre a necessidade do jornalismo valorizar a pluralidade de enfoques e vozes. O primeiro deles é uma carta escrita por um povo que vive próximo à terra e, como diz Nemonte, “são os primeiros a escutar seu choro”. Os waorani têm na floresta a sua principal professora: “esta floresta nos ensinou a caminhar com rapidez, e, como a escutamos, como aprendemos com ela e a defendemos, ela nos deu tudo: água, ar limpo, alimentos, remédios, felicidade, espiritualidade”, destaca o documento.  O segundo texto, escrito por um jornalista, reproduz falas de políticos que precisam mostrar preocupação com o desmatamento e as queimadas, diante da ameaça internacional de boicote aos negócios com o Brasil. A pressão para que o governo brasileiro tome medidas para reduzir o desmatamento na Amazônia e o receio de que a imagem de vilão ambiental possa prejudicar a ratificação do acordo Mercosul-União Europeia fazem com que o governo negue o problema e reproduza informações sem bases científica ou estatística, ignorando também conhecimentos tradicionais. O esforço jornalístico está justamente em recusar tais declarações, trazendo à pauta também a perspectiva científica.

Entra aqui a reflexão sobre o papel dos jornalistas e educadores na confrontação de informações. Há necessidade da diversidade de fontes, das fontes cidadãs (ou seja, as não oficiais), das fontes especialistas, das fontes políticas – tal, como fez o jornalista ao confrontar com especialistas as falas do Ministro do Meio Ambiente. É preciso informações contextualizadas, é preciso pesquisa; como na matéria, em que pesquisadores explicam detalhadamente os danos do desmatamento e da degradação, assim como nas citadas pelo colega Matheus Cervo neste Observatório da semana passada. Pois, como diz Nemonte, para valorizar e respeitar é preciso conhecer, saber sobre o tema, vivenciar.

*Patrícia é jornalista, doutoranda da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora da Universidade Federal de Mato Grosso.

Comunicações criativas na transmissão de informações sobre as queimadas

Por Matheus Cervo*

 Infelizmente, pode-se dizer que não é novidade que vários veículos de comunicação têm noticiado as catástrofes ambientais que acontecem no Brasil e na América Latina. Nesta última semana, Antônio Nobre, sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), manifestou-se ao Uol para afirmar que estamos chegando a um ponto de não retorno em relação à recuperação dos nossos principais biomas. Estamos vivendo um cenário catastrófico que se expressa de forma drástica nas queimadas, no recorde de temperatura para setembro em 2020 e na própria pandemia do Covid-19.

    Para pessoas que possuem um estilo de vida urbano, as queimadas parecem um fenômeno distante, mas não são. Uma breve pesquisa nas notícias que focam a cidade de Porto Alegre, urbe onde reside o Observatório de Jornalismo Ambiental, mostra como os fenômenos locais estão intimamente ligados aos nacionais e globais devido às mudanças climáticas em curso. Tanto a Zero Hora quando o G1 noticiaram as grandes cenas de fumaça que puderam ser vistas pelos que vivem na nossa cidade. Diferentes meios noticiam a questão de saúde que se agrava à população urbana por causa das chuvas pretas que caem no sul do Brasil e pelas fumaças que pioram problemas respiratórios.

É possível perceber que algumas formas de noticiar as mudanças climáticas em curso tentam estabelecer as conexões entre os diferentes espaços do globo terrestre de forma criativa. El País fez uma matéria interessante chamada “O tamanho da área queimada na Amazônia e no Pantanal, comparada com sua cidade”, onde foram criados infográficos feitos a partir de imagens de satélite. Com dados provenientes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que monitora o desmatamento no Brasil, foi possível perceber que se perdeu cerca de 20.000 hectares, ou 200 quilômetros quadrados, de vegetação devido às queimadas. Em cima das imagens de satélite de diferentes cidades, foi criado um círculo vermelho que representa a área em tamanho real para percebermos como seria o impacto caso o fenômeno tivesse ocorrido nos espaços urbanos.

Pode-se compreender que, hoje, há uma dificuldade de comunicar os fenômenos climáticos devido à complexidade do momento histórico em que vivemos. Mesmo as matérias que mostram as grandes fumaças ou as chuvas pretas afetando as grandes cidades não parecem o suficiente para criar uma sensibilidade na recepção dos citadinos que recebem as comunicações provenientes do jornalismo que enfoca as questões climáticas. 

Os recursos digitais relacionados ao design da informação permitem criar sínteses que comunicam os fenômenos de forma diferente do que permite o meio textual ou mesmo o fotográfico. Talvez essa seja mais uma forma de auxiliar na sensibilização do público urbano frente aos impactos ambientais que assolam nossa existência neste século.

* Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade. Acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/8290548520385605.

A grande questão comum aos biomas brasileiros

Fonte: Captura de tela parcial da capa da publicação Campo Nativo e Pastagens

Por Eliege Fante*

Uma busca no Google com as palavras-chaves “Amazônia; Pampa” resulta em dezenas de páginas com notícias, e textos acadêmicos e/ou de órgãos de governos e instituições para estudo ou conhecimento sobre ambos biomas. A questão das queimadas, comum aos biomas brasileiros, apareceu como nesta notícia ao mostrar a incidência do fogo. Em geral, a abordagem inclui o combate, a fiscalização, as multas e punições previstas, a eficácia das leis. 

Apareceu também a questão comum da perda por supressão como nesta notícia do IBGE e republicada, em que somos informados do resultado da conversão de áreas, ainda que não trate das motivações: “‘O Pantanal tem como atividade tradicional o pasto nativo, mas ele vem sendo substituído pela pastagem por manejo, por meio da substituição por forrageiras exóticas, ou seja, gramíneas que não são originais do Pantanal’, observou.” O destaque na fala é nosso para provocar a reflexão sobre as motivações desse maior valor investido no que é exótico e na contramão da experiência e do conhecimento científico e técnico local sobre a biodiversidade nativa. 

As queimadas na Amazônia, e demais biomas onde os índices têm dado saltos em relação a anos atrás, são criminosas e têm a finalidade de suprimir a biodiversidade para transformar as áreas em campo, seja para pecuária em pastagem plantada ou para monocultura de soja (ou qualquer outra monocultura exótica que o mercado internacional de commodities ditar, como de eucalipto). Diante disso, a grande questão comum aos biomas brasileiros e a ser feita aos decisores das políticas públicas e privadas, por toda a sociedade, muito além do Jornalismo e das empresas dos meios de comunicação (que não estão fazendo) é: Por que investir em pecuária no bioma Amazônico, o centro do debate mundial sobre degradação e que é florestal, ou seja, possibilita outras atividades econômico-produtivas, quando seria possível incentivar a pecuária que conserva a biodiversidade nos campos do Sul do país? 

Em acordo com a Rede de Pesquisa Campos Sulinos, que reúne grupos e pesquisadores de diversas universidades e centros de pesquisas do Brasil: “não parece lógico que no Brasil se desmate floresta na Amazônia para lá ampliar as áreas de pecuária, baseada em pastagens plantadas, e se eliminem milhares de hectares de campos nativos no Sul do Brasil para produzir grãos para exportação ou plantar árvores exóticas”. Este alerta de 2015 é fundamentado por trabalhos que acumulam dados e experimentos e pode ser conferido na publicação Os Campos  do Sul, entre outras. 

Os números recentes sobre o estado de conservação do bioma Pampa podem ser conferidos nesta live do MapBiomas. Já as questões sobre as atividades econômico-produtivas coerentes com as características dos ecossistemas campestres são respondidas pelo professor e pesquisador Valério de Patta Pillar, coordenador da Rede Campos Sulinos, nesta live realizada pelo Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul.   

É de julho de 2020 a publicação “Revista Campo Nativo & Pastagens” que traz a opinião do professor e pesquisador Carlos Nabinger: “a pesquisa demonstra que é possível aumentar em cerca de 300% a produtividade animal em campo nativo apenas com adequado ajuste da carga animal e do diferimento estratégico de potreiros, e ainda melhorando os serviços ecossistêmicos. Isso significa passar da média estadual (no Rio Grande do Sul) atual de 70 Kg de peso vivo produzidos por hectare/ano para mais de 200 Kg sem qualquer custo adicional e ainda produzindo produtos com qualidades superiores para a nutrição e saúde humana.”

Portanto, o que está em jogo são as políticas públicas e privadas que homogeneízam os territórios. Delas decorre a exclusão da diversidade para a concentração de riquezas e o silenciamento da pesquisa e da ciência. À imprensa, talvez não seja tão urgente seguir nessa busca por sensibilização do grande público, a partir das imagens dolorosas e de morte dos seres pelo fogo, na mesma medida em que é urgente questionar, provocar reflexões, gerar esclarecimentos para uma mudança de paradigma.  

Continuar lendo “A grande questão comum aos biomas brasileiros”