Observatório de Jornalismo Ambiental

Jornalismo ambiental e a arte de contar boas histórias, mesmo que sejam más

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil

*Por Ursula Schilling

Em tempos de #ForaSalles e de Cúpula do Clima, pode parecer difícil disputar espaço para outras abordagens sobre a pauta ambiental, mas é necessário e, felizmente, há exemplos de que é possível. Chamo a atenção para a reportagem publicada no site The Intercept Brasil, “Syngenta sabia dos riscos de agrotóxico que matou 100 mil pessoas, mas preferiu lucrar”, sobre a omissão da referida empresa no manejo do herbicida “paraquate”, um dos seus produtos mais vendidos. O químico, que é extremamente tóxico para humanos, segundo a matéria, também “perturba as membranas celulares das plantas e interfere no processo de fotossíntese, de modo que os efeitos podem ser vistos dentro de algumas horas. Por funcionar com tanta rapidez, o paraquate foi celebrado como um avanço significativo quando foi introduzido nos anos 1960”.

A longa reportagem levou em consideração 400 documentos, e o esforço de investigação resultou numa história bem apurada e com uma série de elementos. Se levar informações qualificadas ao leitor/espectador é a premissa básica do profissional de imprensa, o bom jornalismo também é, como diz o jargão, a arte de contar histórias — ainda que sejam más histórias. O desenvolvimento adequado, rítmico e consistente da narrativa envolve o leitor e, assim, ajuda a promover o engajamento no tema, em especial numa área que, como pontuado neste Observatório, necessita de ativa militância para que seja cotidianamente pautado pela opinião pública.

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil

Considerando a necessidade de uma perspectiva sistêmica para a cobertura midiática ambiental e não isolada das pautas cotidianas, o tema em questão — agrotóxicos — parece ainda pouco explorado, sobretudo nos meios de comunicação de massa. No caso de um portal como o The Intercept, a pauta recebeu um espaço grande o suficiente para atestar a importância do assunto. O tom é de denúncia, e o primeiro acerto se dá logo no título: sem meias palavras, destaca-se a importante informação — por vezes silenciada ou naturalizada nas coberturas-padrão — de que agrotóxicos, literalmente, matam.

Ao aprofundar o tema, no entanto, há um foco excessivo na questão da ingestão deliberada do paraquate (em suicídios), não trazendo um elemento central para a denúncia: estes produtos são usados em larga escala em lavouras de todo tipo, e os alimentos produzidos a partir da agricultura tradicional, que se vale de tais recursos para ganhar produtividade, vão para os nossos pratos. Haveria, certamente, espaço para uma melhor amarração, para uma abordagem que não desse a impressão de que o problema está em tomar deliberadamente uma dose do veneno. De qualquer forma, são importantes os fatos e dados trazidos pela matéria, mostrando a lógica da empresa e os efeitos funestos dela decorrentes.

Cabe reiterar ainda que, para o tipo de jornalismo que vai na contramão do desmonte das redações e da sobrecarga dos seus profissionais, é preciso uma porção de recursos fundamentais: humanos (jornalistas com condições dignas de trabalho e capacitados), materiais (para pesquisa, deslocamentos e tudo o mais necessário para uma boa apuração) e imateriais (tempo, coragem e retaguarda para fazer frente à oposição de gigantes da indústria de sementes e agroquímicos, por exemplo). Não é fácil fazer jornalismo de qualidade, mas torna-se cada vez mais imprescindível.

*Jornalista e membro do Núcleo de Ecojornalistas do RS e do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O ambiente é ponto central da geopolítica – e do jornalismo

Por Débora Gallas Steigleder*

Por muito tempo, os estudos sobre jornalismo no Brasil destacaram a pouca recorrência das pautas ambientais no universo das hard news – aquelas notícias que ganham as manchetes e destacam os acontecimentos de grande impacto na atualidade. Na última semana, porém, a repercussão sobre a postura do governo Bolsonaro na Cúpula do Clima promovida pelos Estados Unidos evidenciou que os tempos são outros. O evento, que teve início em 22 de abril, ofuscou pautas de efemérides que normalmente seriam encontradas sobre a data festejada na ocasião: o Dia da Terra.  Em algum passado não tão distante, a data renderia apenas uma lista de fatos curiosos.

O enfrentamento às mudanças climáticas é a ordem do dia nas discussões diplomáticas, e o jornalismo começa a reverberar a urgência percebida pela comunidade científica e pelas comunidades afetadas. A movimentação da cobertura foi ainda anterior ao pronunciamento dos líderes mundiais, na tentativa de compreender o contexto político e econômico que moldaria a estratégia discursiva a ser adotada por Jair Bolsonaro para o encontro. Podcasts como Café da Manhã (Folha de S. Paulo/Spotify) e O Assunto (Globo), por exemplo, tiveram episódios dedicados às expectativas da participação brasileira na Cúpula do Clima, já prevendo que o presidente brasileiro precisaria esconder sua orientação negacionista para não espantar investimentos no país.     

Os programas ressaltaram que a maior parte das emissões de gases de efeito estufa no Brasil tem origem no desmatamento e recordaram a denúncia de cientistas e de organizações não-governamentais      sobre a omissão do governo federal em relação aos crimes ambientais, especialmente no âmbito do Ministério do Meio Ambiente. Também ressaltaram que tal desmonte atinge sobretudo os povos indígenas, enfim reconhecidos como importantes atores no debate sobre clima pelo jornalismo hegemônico. De fato, a cobertura jornalística parece compreender a transversalidade da pauta ao abordar a relação conflituosa entre sociedade e natureza. No Portal G1, por exemplo, os desdobramentos do discurso de Bolsonaro foram manchete em diversas editorias ao longo do dia, como Mundo, Política e Natureza     .

Porém, o destaque da cobertura foram as possíveis sanções econômicas que o governo estadunidense pode impor ao Brasil caso o país não apresente resultados que indiquem comprometimento com a meta de neutralizar as emissões de carbono até 2050, uma vez que a gestão de Joe Biden busca reposicionar o país como liderança nas articulações geopolíticas internacionais a partir da pauta climática. É necessário, portanto, que a cobertura jornalística siga atenta aos desdobramentos das negociações que envolvem as políticas ambientais – do âmbito local aos encontros de líderes globais.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

Voo químico sobre vidas humanas em Nova Santa Rita

Por Sérgio Pereira*

Poucos dias após conquistarem uma liminar na Justiça Federal, produtores de orgânicos da pequena Nova Santa Rita (RS) ficaram surpresos ao avistarem uma aeronave sobrevoando as suas casas. Afinal, o recurso judicial justamente impedia a aplicação aérea de agrotóxicos em propriedades vizinhas devido à contaminação de seus cultivos pela chamada deriva (quando a aplicação de herbicida é levada pelo vento para fora do local desejado e atinge outras áreas). O mais surpreendente foi que o bimotor começou a dar rasantes sobre o assentamento Santa Rita de Cássia II do MST, pulverizando plantações, moradias, estufas e pessoas.
O caso, ocorrido no dia 16 de março, resultou em um boletim de ocorrência na Polícia Civil e em diversos atendimentos em uma unidade básica de saúde próxima. Produtores e familiares relataram que sentiram sintomas como náuseas, irritação nas vias respiratórias e dores de cabeça após terem inalado o produto liberado do avião. Além do prejuízo financeiro com o despejo de veneno sobre as plantações de orgânicos.
Na semana passada, a informação era que a Polícia Federal, a partir de um pedido do Ministério Público Federal, deve investigar a denúncia, que se confirmada revelará, na verdade, não apenas um crime, mas também uma estratégia revoltante nesta guerra entre grandes produtores e pequenos agricultores de orgânicos: o uso deliberado de pesticida como arma química sobre vidas humanas.
A notícia de Nova Santa Rita, divulgada dois dias depois do ocorrido no site do MST, não teve o mesmo interesse por parte da imprensa gaúcha, apesar de envolver a aplicação de veneno diretamente sobre as casas do assentamento e pelos casos de intoxicação, cujas consequências à saúde poderiam ser mais graves. O jornal Correio do Povo, por exemplo, ignorou a denúncia em suas versões impressa e digital.
Zero Hora, o jornal de maior repercussão no Estado, também não deu espaços para a notícia em sua versão on-line. Já em sua edição impressa, publicou na coluna de agronegócio um tópico na edição conjunta de 20 e 21 de março, cinco dias após o ocorrido e com o título genérico “Pulverização em área de orgânicos”. A nota apresenta como fonte o advogado das famílias de assentados e deixa a entender apenas que houve o descumprimento da liminar deferida pela Justiça Federal.
Na edição seguinte, no entanto, ZH abriu espaço idêntico para a manifestação dos acusados. O texto “Pulverização em Nova Santa Rita” traz a versão apresentada pelo advogado dos grandes produtores. Em sua defesa, eles alegam que o bimotor era usado somente para treinamento e negam a aplicações de pesticidas diretamente sobre o Santa Rita de Cássia II.
O jornal Diário de Canoas, que cobre o município de Nova Santa Rita, publicou em seu site uma notícia mais aprofundada no dia 22: “PC investiga avião que pulverizou agrotóxicos de forma irregular”. As fontes citadas eram a prefeita do município, um delegado de Polícia e um diretor do sindicato que representa as empresas de aviação agrícola. Nenhum agricultor do assentamento foi ouvido. Dois dias depois, o mesmo DC abriu página de sua versão impressa com o título “Não existem provas de pulverização irregular”, novamente sem citar declarações das vítimas e dando amplo espaço para o advogado dos acusados e o sindicato das empresas de aviação. A mesma notícia também foi postada no site do DC no mesmo dia.


O melhor exemplo de cobertura por parte da imprensa foi do site do jornal Extra Classe, ligado ao Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) e de circulação restrita. Dois dias após o ataque, o portal já denunciava o caso, ouvindo os agricultores e seu advogado e trazendo o seguinte título: “Aeronave clandestina pulveriza veneno sobre assentamento do MST em Nova Santa Rita”.
Os grandes veículos de imprensa em geral reservam sua cobertura rural para o modelo do chamado agribussines, desviando de temas considerados polêmicos e abrindo generosos espaços somente após tragédias de grande repercussão. Lamentável, no entanto, é terem desconsiderado o risco às vidas humanas envolvidas neste caso de Nova Santa Rita e não buscarem uma cobertura menos superficial e mais próxima da verdade.

  • Jornalista, mestrando em Comunicação e Informação. E-mail: spimprensa@gmail.com

Jornalismo da casa de garrafa de vidro

Por Míriam Santini de Abreu*

Pululam sem parar notícias e reportagens que buscam mostrar as alternativas dos brasileiros empobrecidos para sobreviver. O desespero – como usar lenha na falta de gás para cozinhar – vira “resiliência” e capacidade “empreendedora”. A reportagem do Globo Repórter intitulada “Ameaçadas de despejo, mãe e filha erguem casa com mais de 4 mil garrafas tiradas do lixo”, disponível em https://glo.bo/2PqUURa, enquadra-se nessa abordagem (1). Mas, tal como o vidro, na reportagem insinuam-se facetas que deixam a luz passar.

“Foi um trabalho de formiguinha e de muita consciência ambiental”, define a reportagem, ao se referir às incontáveis vezes que as duas mulheres recolheram garrafas jogadas no manguezal de uma praia de Itamaracá, em Pernambuco, para construir a moradia, aprendendo inclusive técnicas de construção.

Está-se diante da práxis inventiva, da prática criadora de que fala o sociólogo francês H. Lefebvre. O fazer humano de duas mulheres excepcionais para restaurar no cotidiano, sozinhas, o direito de morar. Mas a reportagem, ainda evocando o pensamento de Lefebvre, não tira a máscara das coisas para revelar as relações sociais. Nos quase 10 minutos não há menção a qualquer instância do poder público que possa dar sentido ao trabalho imposto à mãe e filha, abordando a dificuldade de pagar aluguel e/ou comprar moradia no mercado imobiliário, principalmente com os recursos públicos cada vez mais escassos e o fim dos grandes programas habitacionais.

Mesmo a ideia do reuso de materiais não se potencializa por não implicar a indústria no compromisso com o que produz. Fica apenas a menção genérica ao “descarte sem respeito à natureza”. Uma abordagem socioambiental, ainda que breve, não faria a reportagem resvalar para o discurso tão em voga de que “enfrentar desafios e vencer” – como anuncia o programa – depende unicamente da capacidade de resiliência dos indivíduos.

Mas há brechas notáveis na reportagem, como dar o conhecer o cotidiano de mãe e filha, as dificuldades pelas quais passaram, a amorosa trama que as une no cotidiano, e, em especial, a fala das duas sobre a dureza da existência, agravada por serem negras em um país que se ergueu sob os ombros de escravizados. A repórter entra na casa – algo raro, antes ou agora, na pandemia, iniciativa ligada ao fato de a casa ser ela própria uma personagem. Lá dentro estão as delicadezas do morar, a colcha de fuxico, as almofadas coloridas, os quadros, os objetos da cozinha. “A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz”, escreveu o filósofo G. Bachelard. A repórter mostra rotinas como o preparo dos alimentos e o trabalho da filha, que estuda moda – tendo que gastar seis horas por dia para ir à faculdade – e cuida de um pequeno brechó nos fundos do terreno, divulgando nas redes sociais as peças vestidas por modelos negros.

Ao final da reportagem, a abertura da imagem aérea mostra a casa e, progressivamente, o seu entorno, o litoral recortado e habitado, a lembrar que cabe ao jornalismo desvendar por inteiro a experiência vivida no espaço, um produto social sobre qual a pequena casa de vidro tem, potencialmente, muito a contar.

1 – A reportagem foi exibida em 26 de março passado como parte de um programa intitulado “Conheça histórias de brasileiros que são exemplos de resiliência com o Globo Repórter” que continha, entre outras, a história de mãe e filha.

  • Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo. E-mail: misabreu@yahoo.com.br

Mesmo com o trabalho da imprensa, a boiada segue passando

Por Eloisa Beling Loose*

Na semana passada, o podcast Mamilos destacou em “A boiada passou – e agora?” os vários problemas ambientais que estão sendo agravados desde que a estratégia de desmonte das políticas públicas ambientais começou a ser executada pelo governo federal. O programa aponta que, “desde o início da gestão Bolsonaro, foram assinados 57 atos legislativos que enfraqueceram as regulamentações ambientais. Quase metade deles foram assinados durante os primeiros 7 meses da pandemia de coronavírus”. A ampla repercussão que teve a reunião do dia 22 de abril de 2020, quando o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles disse que a pandemia poderia ser entendida como uma oportunidade para o governo “passar a boiada” sobre a área ambiental, já que o foco do debate público ficaria na crise sanitária, completa quase um ano, e os prejuízos, ainda que publicizados, só crescem – como fica evidente em críticas internacionais direcionadas ao Brasil.

Além do enfraquecimento da fiscalização e das políticas em prol da conservação do ambiente, o negacionismo climático e o discurso de que o desenvolvimento econômico depende da exploração dos recursos naturais sustentam medidas que colocam em risco aqueles que defendem a natureza e lutam pelo interesse coletivo. No mês passado, Michelle Bachelet, alta comissária da Organização das Nações Unidas para Direitos Humanos, criticou as ações brasileiras em relação à falta de combate ao desmatamento na Amazônia e no Pantanal – algo que já se tornou frequente no âmbito internacional – e denunciou os ataques sofridos por jornalistas e ativistas. Já que os jornalistas “fazem questão” de cobrir a destruição ambiental, torna-se necessário menosprezá-los, intimidá-los e aumentar a circulação de informações falsas, afinal, uma das maneiras de gerar dúvidas sobre o que realmente está acontecendo é desacreditar os mensageiros.

De acordo com a coluna de Jamil Chade, no Uol, Bachelet afirmou nessa ocasião que “No Brasil e outros países da Amazônia e do Pantanal, a redução da aplicação das leis ambientais durante a pandemia levou a um aumento da mineração ilegal e do corte ilegal de madeira, com impacto particularmente prejudicial sobre os povos indígenas”.  Tais protestos estão relatados em uma série de acontecimentos, que periodicamente são apresentadas por diferentes veículos de imprensa, mas que não estão sendo suficientes para reverter esse quadro. Somente nos últimos dias,  identificamos notícias a respeito de ataque a terras indígenas, como o incêndio que ocorreu no território do povo Tremembé, e de crimes socioambientais, como o transbordamento de uma lagoa administrada por uma mineradora de ouro, que poderia ter contaminado as água do Rio Tromaí (a empresa negou que houve rompimento de barragem ou que as águas pudessem causar algum dano), a explosão do garimpo ilegal em território ianomâmi e a ampliação da exploração ilegal no estado do Mato Grosso.

Apesar de os estudos científicos apontarem que os indígenas são os melhores guardiões das florestas e, portanto, fundamentais para a mitigação da crise climática, como revelou relatório produzido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) nesta semana, a facilitação do avanço da boiada sobre os bens coletivos só mira o crescimento econômico. A repercussão da Agência Pública ressalta que o relatório coloca em xeque o posicionamento do presidente Bolsonaro, mas, mesmo assim, a suposta objetividade de alguns meios não deixou evidente para o público o nexo causa-consequência existente entre as políticas do governo e o desastre anunciado que segue seu curso. 

Ainda que a cobertura ambiental tenha se expandido, com um volume maior de notícias sobre a temática, como esses fatos estão sendo reportados? O trabalho da imprensa pode ser diferente? Quais são as abordagens necessárias para interromper a passagem da boiada? Para que possamos refletir!

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Amazônia à venda e outras circunstâncias de um retrocesso

Por Mathias Lengert*

O Brasil, um país com meio milênio de apropriação de terras, vê seu legado obscuro avançar com a grilagem na Amazônia. Tal como nos tempos ditatoriais, a floresta – cuja destruição conta com a simpatia do sistema político – é considerada um obstáculo para o desenvolvimento. A eleição de Carla Zambelli (PSL-SP) para a presidência da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados testemunha esse desinteresse com uma ferida aberta que tarda a ser tratada. “Foi uma circunstância”, afirmou a deputada ao minimizar a responsabilidade do Governo no aumento de focos de incêndio na Amazônia nos últimos dois anos. Em entrevista, concedida ao Estadão após a sua nomeação, Zambelli culpou as narrativas da oposição pela imagem negativa que o país possui na gestão ambiental.

Entre disputas políticas que lançam o debate público a uma espiral de desinformação e retrocesso, esperamos do jornalismo um alento. Que ele seja capaz de questionar deputados negacionistas sobre o desmatamento ilegal que insiste em ser escondido, com uma posição de escuta às vozes que a grilagem e o garimpo ameaçam calar, mobilizando, assim, leituras críticas do mundo. Observa-se, no entanto, que o Estadão assumiu uma postura de frágil contestação na entrevista, sem questionar o alinhamento dos membros da Comissão de Meio Ambiente com as agendas de Ricardo Salles e da bancada ruralista.

Em contrapartida, o fôlego da investigação jornalística do documentário da BBC Brasil sobre a negociação de pedaços da floresta amazônica no Facebook consolidou em si um espaço de denúncia. Muitas das áreas à venda pertenciam a unidades de conservação ou terras indígenas – especialmente da tribo Uru Eu Wau Wau. Os lotes oferecidos não possuíam títulos públicos. Três dias depois da publicação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, determinou a investigação deste mercado ilegal.

A produção revela ainda que o esquema de grilagem de terras tem a anuência de políticos. Entre os citados, a investigação evidencia um nome que ressoa entre os recentes acontecimentos da Câmara. Trata-se do Coronel Chrisóstomo (PSL-RO), apontado por grileiros como um aliado em Brasília. No dia 12 de março, duas semanas após a publicação do documentário, o deputado federal foi eleito vice de Zambelli na Comissão de Meio Ambiente. Alguns dos parlamentares não parecem se constranger em nomear políticos que são a antítese dos cargos que irão ocupar.

O exercício investigativo da BBC, por sua vez, é um reduto de resistência às narrativas daqueles que compartilham das posições de Zambelli e Chrisóstomo, sinalizando não apenas a ocorrência dos crimes, como também promovendo as reivindicações de povos indígenas. O jornalismo ambiental é constituído desse ato da escuta do outro, assumindo um posicionamento sensível e crítico. E, para tanto, é necessário indicar as interconexões de questões socioambientais complexas, sem se abster de referenciar projetos políticos ecocidas.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Silenciados: quem fala pelo Brasil como “empecilho” ao acordo Mercosul-UE?

Imagem: captura de tela do site Ele Pais Brasil

Eutalita Bezerra*

Na última semana, questões envolvendo o tratado de comércio entre a União Europeia(UE) e o Mercosul foram intensamente divulgadas no Brasil, especialmente, porque a aplicação do acordo, assinado em junho de 2019, tem esbarrado na questão ambiental e no posicionamento do presidente brasileiro acerca das questões ambientais.

Na última quinta (11), uma reunião com representantes dos 27 países signatários buscava um caminho para ratificar o acordo. Dentre os contrários à implantação do tratado de comércio nas atuais condições estão nações, lideradas pela Áustria e a França, que acreditam que o pacto contraria os objetivos climáticos da União Europeia.


No jornalismo de El Pais Brasil, porém, a celeuma não passa de um caso de política externa de outros países, o que não nos inclui. Em seu site, o jornal abordou o assunto em publicação no último dia 12. Falou em “maior acordo comercial jamais alcançado”, se desdobrou para apresentar os motivos alegados por esse grupo de países para negar o acordo, dentre os quais de que poderia acelerar o processo de desmatamento na Amazônia. E, por fim, contrabalanceou estes mesmos posicionamentos, sugerindo que a bandeira ambientalista pode estar sendo erguida apenas para disfarçar o protecionismo.


Ocorre, porém, que a discussão sobre a pressão que o acordo poderia fazer sobre a Amazônia, bem como aquela em relação ao que significa o aumento da exportação de carne pelo Brasil – somente para apontar um dos pontos nevrálgicos desse acordo – ficou apenas no campo político. Embora tenha tentado aprofundar os lugares assumidos pela Áustria, Países Baixos, Irlanda e Bélgica, El Pais não abordou em qualquer outro momento o que, de fato, isso significa para o nosso país do ponto de vista ambiental, nem nesta e nem em outras publicações sobre o assunto, como podemos ver adiante.


Linkada ao texto que citamos, encontra-se, por exemplo uma matéria publicada na assinatura do pacto na qual o meio ambiente sequer é citado. Se fizermos uma busca mais aprofundada sobre o assunto no site, encontraremos um texto sobre denúncia do Greenpeace em relação à falta de cláusulas vinculantes de proteção ambiental, publicado no ano passado, e uma entrevista com o comissário de Comércio da UE, Valdis Dombrovskis, esta unicamente focada na questão político-econômica. Houve ainda, uma publicação que apresenta o posicionamento francês diante do assunto.


O El Pais, que é, muitas vezes, um sopro de coragem diante de várias pautas, dentre as quais a ambiental, em nenhuma das situações, porém, deu espaço para ouvir os principais afetados pelo tratado: povos indígenas, trabalhadores possivelmente precarizados pelo acordo e instituições brasileiras de proteção ao meio ambiente que não sejam pautadas pelo mesmo capital que dizem lutar contra. Aliás, é possível dizer que nenhuma das publicações contou sequer com fontes brasileiras, além de um tweet do presidente e um comunicado do governo, que em nada ajudam a compreender a complexidade desse tratado se aplicado nos termos atuais.


Embora seja o Brasil o centro da discussão, o jornalismo de El Pais Brasil nos mantém coadjuvantes. Tão calados quanto nos obriga o chefe do executivo federal, que vergonhosamente coloca o nosso país na posição de ameaça ao meio ambiente. Tão silenciados que seguimos aguardando que outros decidam por nós o nosso futuro.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Ambiente. eutalita@gmail.com

A luta das mulheres que fortaleceram o Jornalismo Ambiental


Por Carine Massierer*

Se vocês me dão licença, hoje vou tomar conta deste espaço para recuperar a trajetória de luta de algumas mulheres jornalistas pelas causas ambientais. Neste Dia Internacional da Mulher, apresento um pouco de história e de lembranças das nossas desbravadoras com o objetivo também de homenageá-las.

É importante ressaltar que as mulheres jornalistas, ao longo da história, têm contribuído para a formação de núcleos de ecojornalismo pelo Brasil (como é o caso do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul – NEJ-RS), para a criação da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA), em 1998, e da Rede de Comunicação Ambiental da América Latina e do Caribe, em 2000. No entanto, antes mesmo destes movimentos e, em paralelo a eles, tivemos uma série de jornalistas que foram pioneiras em dar repercussão para a temática ambiental.

Este é o caso da paranaense Teresa Urban, que se formou em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná em 1967. Considerada uma combatente do regime militar, Teresa foi presa, exilou-se no Chile e depois voltou ao Brasil onde passou a atuar no jornal A Voz do Paraná no final da década de 1970. Teve participações nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, e na revista Veja, entre outros, consolidando-se como uma pioneira no jornalismo ambiental. Teve a oportunidade de escrever diversas obras, contando com 21 títulos. Aderiu aos projetos das ONGs SOS Mata Atlântica e Mater Natura. Contribuiu para o mapeamento dos remanescentes da floresta de araucária no estado do Paraná e ajudou a desenvolver a Rede Verde de Informações Ambientais, além de atuar também no Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). É uma das criadoras da Rede Verde, que transmite pelo rádio informações ambientais para todo o Paraná. Teresa Urban faleceu em 2013.

Mara Régia Di Perna é carioca, radicada em Brasília e tem uma história de mais de quatro décadas ligada ao radiojornalismo ambiental brasileiro e à Amazônia. A jornalista é profissional da Rádio Nacional, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde dirige o programa Viva Maria (40 anos) e Natureza Viva (26 anos). Já recebeu o Prêmio Chico Mendes de Meio Ambiente e teve grande visibilidade com a reportagem sobre o desaparecimento de abelhas e outros polinizadores no oeste do Pará. A grande reportagem ‘A morte dos polinizadores’ contém 17 páginas e pode ser lida no portal Amazônia Latitude e também ouvida nas plataformas digitais.

A gaúcha Ilza Maria Tourinho Girardi começou a se envolver com a questão ambiental há mais de 40 anos, quando se tornou sócia da Cooperativa Ecológica Colméia (1979). Ela esteve presente na criação do NEJ-RS em 1990 (único núcleo ainda ativo no país), criou a primeira disciplina de Jornalismo Ambiental no Brasil em 2004, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental, em 2008, sendo mobilizada sempre pela qualificação da informação ambiental. Em 2015, Ilza recebeu o prêmio Pioneiras da Ecologia por seu ativismo ecológico e trabalho acadêmico na área, contribuindo para a formação de jornalistas conscientes, críticos e engajados em prol de um mundo sustentável. Até é hoje ela foi a única jornalista mulher premiada.

A ideia que resultou na formação, em 1998, da RBJA também surgiu de uma mulher: Liana John. A jornalista especializada em ciência e em meio ambiente sugeriu que deveríamos “[…] nacionalizar alguns temas que sejam locais e que mereçam uma cobertura mais global de toda a imprensa” (BELMONTE, 2020). Ela recomendou, na época, a formação de clubes que, na verdade, se tornam núcleos. Destaca-se que muitas jornalistas faziam parte das listas de debates ambientais que existiam na década de 1990. Estas listas, conforme Belmonte, reuniam integrantes de todo o país, como Regina Scharf, do jornal Gazeta Mercantil, e Maria Zulmira, do Repórter Eco, da TV Cultura. Patrícia Palumbo, da Rádio Eldorado, também foi pioneira na época abordando temas ambientais no radiojornalismo de São Paulo, assim como Lúcia Chayb, da Revista Eco 21.

Muitas outras jornalistas foram fundamentais para ampliar a visibilidade que a pauta ambiental tem hoje no Brasil e merecem nosso reconhecimento. Junto à homenagem, registro a lacuna existente na literatura na área sobre o papel das mulheres na construção do Jornalismo Ambiental. Que possamos resgatar esse legado e preservar a memória dessas mulheres, que nos inspiram até hoje.

Referência:
BELMONTE, Roberto Villar. Uma breve história do jornalismo ambiental brasileiro. Revista Brasileira de História da Mídia, vol. 6, nº 2, 110-125.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A morte de Aruká Juma e o Jornalismo Ambiental posicionado

Reprodução de imagem: Gabriel Uchida, Kanindé – Amazônia Real.

Por Matheus Cervo*

É com muita tristeza que o Brasil amanheceu no dia 17 de fevereiro com a notícia da morte de Aruká Juma, o último homem da etnia Juma existente. Após a sua partida devido às complicações da infecção pelo novo coronavírus, suas três filhas chamadas Borehá, Maitá e Mandeí são as últimas sobreviventes dos Juma, ainda que elas tenham tido filhos com indígenas Uru-Eu-Wau-Wau que tiveram contato com a tradição de seu povo. É com essas informações que podemos perceber que a morte de Aruká está longe de ser um fenômeno isolado, já que muitas práticas genocidas foram ocorrendo na governança bolsonarista e nas últimas décadas.

A agência de jornalismo independente Amazônia Real solicitou os boletins médicos sobre o período de internação nos meses de janeiro e fevereiro, recebendo informações de uma profissional da Casa de Atendimento de Saúde Indígena (Casai) de Humaitá (AM), órgão do Ministério da Saúde. Segundo ela, Aruká Juma foi medicado no Hospital Sentinela com azitromicina, ivermectina, nitazoxanida e sulfato de zinco. Esses remédios fazem parte do coquetel de “tratamento precoce” que foi promovido pela necropolítica de Jair Bolsonaro que não é reconhecida para tratamento dos infectados pela covid-19 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Essa notícia que expõe o “tratamento precoce” que Aruká Juma recebeu não hesita em aderir ao que foi dito nas notas de pesares da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib). Nessas notas – que foram expostas inteiras no final da reportagem da Amazônia Real -, as organizações afirmam veemente que a morte de Aruká foi resultado de políticas públicas omissas e incompetentes do governo Bolsonaro que vão além da divulgação intensiva de tratamentos ineficazes e perigosos. 

Por já estarem sujeitos à vulnerabilidade e risco de desaparecimento, o povo Juma era considerado como de recente contato e constava como um dos povos a serem protegidos por Barreiras Sanitárias para evitar o seu contágio durante a pandemia. O pedido da instalação foi feito por essas organizações e foi deferido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em julho de 2020. Contudo, o ministro Luís Roberto Barroso deu o prazo de até setembro para que as barreiras fossem instaladas, mas o governo não cumpriu o seu dever e decidiu instalar, em dezembro, apenas um posto de controle de acesso na BR 230 – Rodovia Transamazônica – sem comprovar sua eficácia.

Além do que foi aqui brevemente mencionado, a reportagem citada na Amazônia Real realizou uma gênese do conflito de terras que o povo Juma enfrenta, de forma mais intensa, desde a década de 1960, guerra que foi, paulatinamente, gerando o desaparecimento desses indígenas. Essa perspectiva histórica foi publicada na íntegra em 2015, mas foi recuperada na matéria que anunciou a morte do último indígena Juma junto com detalhes trazidos pelas notas de pesares. Por isso, o Jornalismo Ambiental feito pela Amazônia Real acerta ao noticiar a dura realidade da morte de Aruká Juma com uma posição crítica e não neutra, expondo práticas genocidas que possuem uma profundidade que excede em muito a sua morte pelo coronavírus. E, para finalizar, é como antropólogo que acredito que o jornal acerta também ao permitir que uma jornalista indígena como Luciene Kaxinawá cubra um tema tão importante ao invés de falar sobre a morte de Aruká pela mediação de algum especialista.

* Cientista Social com ênfase em antropologia e atual mestrando do programa de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com bolsa Capes.

A política da mudança do clima: do internacional ao local

Imagens: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Enquanto é discutida a viabilidade de se realizar os Jogos Olímpicos de Tóquio em meio à maior crise sanitária desde o último século, outro “comitê” esportivo nos chamou a atenção recentemente aos efeitos do aquecimento global. Trata-se da candidatura simbólica para a Olimpíada de verão de 2032, no lugarejo de Salla, que conta com 3.400 moradores no Ártico finlandês. A ideia, exposta nesta matéria da Folha de São Paulo, é denunciar a emergência climática e seus efeitos em uma cidade com modo de vida ligado ao frio e à neve, daí o motivo de ser “possível” a realização do evento com modalidades tipicamente de verão.

Se o exemplo desta iniciativa cumpre um importante papel elucidativo através da alegoria, causa apreensão, em todas as sociedades, o descompasso de atividades simbólicas, acordos e promessas políticas em relação às efetivas atuações, no mundo real, para a redução das emissões. Ao mesmo tempo, uma notícia do início de fevereiro informa que o Tribunal de Paris declarou a responsabilidade do governo da França pela inércia no combate às mudanças climáticas. Conforme explica a Revista Época, a ação foi movida por ONGs que reuniram mais de dois milhões de assinaturas. E Jorge Abraão enfatizou, em sua coluna na Folha de São Paulo, a relevância e o pioneirismo do resultado ao criar jurisprudência e referência, além de encorajar ações contra governos que não cumprem os compromissos assumidos. 

Já no Brasil, sabemos que o melhor caminho para alcançarmos nosso compromisso é pela redução e eliminação do desmatamento ilegal na Amazônia. Desafio necessário e viável, torna-se, no entanto, mais difícil de ser realizado à medida que o governo federal move mundos (e poucos fundos), desde 2019, para impedir a devida repressão a este crime ambiental. Como um agravante, a política local também é, em geral, grande aliada dos inimigos da floresta. A “desamazonização da Amazônia”, coluna de Fabiano Maisonnave na Folha, aborda a hegemonia do discurso antiambientalista na região, caracterizado pelo ínfimo contrapeso de políticos amazonenses de perfil socioambiental. Cabe questionarmos aí, além da forma de atuação da mídia local, também o papel que cumpre a abordagem da grande mídia nacional sobre aquela região, por vezes tratada como exótica e distante — a Amazônia vista com o olhar do Sudeste do Brasil.

A ação da mídia é fundamental para além das denúncias de crimes ambientais, mas mobilizando uma ampla e complexa visão socioambiental da região. Deve envolver, ainda, o estímulo às políticas de criação de maior valor agregado em atividades econômicas sustentáveis, que não deixem a população economicamente à mercê de um discurso ecologicamente suicida. A composição deste dilatado cenário de combate à emergência climática é complexa, mas certamente abrange mais que a atuação de organismos globais e das esferas federais. Tendo em vista o emaranhado de interesses em conflito na região amazônica, o cerne da questão parece mesmo requerer uma atuação direta em nível local.

* Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.