Há uma dissonância entre os desastres ambientais decorrentes das mudanças climáticas e a forma como o jornalismo vêm noticiando estes acontecimentos. Enquanto o mundo pega fogo, literalmente, os principais veículos de comunicação do Brasil e do Mundo publicam matérias rasas que dão conta de apenas relatar os eventos climáticos e o número de pessoas foram afetadas. Mesmo que um jornalismo sistêmico e baseado na pluralidade de vozes ainda esteja distante, é necessário, no mínimo, o compromisso de garantir a informação e ser instrumento de transformação social.
Tivemos um JULHO DE EXTREMOS no hemisfério norte com ondas após ondas de calor com recordes, incêndios florestais e inundações ao mesmo tempo e isto está retratado nas matérias que são indexadas. As principais notícias da semana evidenciam o aquecimento global e seus impactos na vida de milhões de pessoas no mundo, e é inegável a ampliação de matérias sobre o tema nos últimos tempos.
Das matérias que mais se destacam está a que trata de Mudanças climáticas e da possibilidade de extinção humana, produzida e publicada pela BBC Brasileira. Ela foi replicada em vários outros espaços de comunicação como os sites G1, Uol, Yahoo, dentre outros tantos que copiaram o conteúdo.
Imagem: Captura de tela do site BBC em 06 de agosto de 2022.
A matéria traz os possíveis resultados catastróficos das mudanças climáticas, mas o novo estudo, que já é citado no primeiro parágrafo, não tem nem o nome colocado na publicação e não é esclarecido onde ele foi publicado, com qual o objetivo e os autores. Somente na última linha consta “O estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences”. Ou seja, vemos a reprodução de um conteúdo que tem muitas falhas e que as demais empresas de comunicação se limitam a copiar. Já no site Olhar Digital (Informação é a melhor arma contra a crise climática, diz relatório (olhardigital.com.br), o relatório é mencionado logo ao início, reforçando a necessidade de consideração dos piores cenários e elaboração de um esquema tático efetivo sobre o que fazer se — ou quando — o nosso modo de vida atual desmoronar.
Tendo em conta a importância da comunicação e do jornalismo para a tomada de decisões assertivas, mudanças de atitudes e apoio à ação climática, é preciso que sejam aprofundados os usos e explicitação quanto à mitigação e à adaptação climáticas nas matérias jornalísticas para que reverberem na tomada de atitude dos seres humanos. Há ainda um descompasso entre a realidade de um mundo que está pegando fogo e as preocupações em pauta nas empresas de comunicação que ainda estão tratando os incêndios de forma localizada e não ampliando e qualificando com mais informações os conteúdos publicados. Isto tudo decorre do foco do campo comunicacional,ainda centrado nos efeitos da crise climática mais do que em possíveis soluções para seu enfrentamento.
*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
O assunto que desde o início de 2022 vem mobilizando Florianópolis é a revisão do Plano Diretor. No primeiro semestre, a cobertura jornalística não acompanhava a complexidade dos debates que dominavam as redes sociais e os aplicativos de mensagens dos grupos organizados em torno das diferentes concepções para o crescimento da capital catarinense. Isso mudou no final de junho, quando a Prefeitura iniciou a série de 13 Audiências Públicas exigidas em Termo de Ajustamento de Conduta junto ao Ministério Público de Santa Catarina. Entre junho e julho, o mais expressivo produto jornalístico a abordar o tema foi o “Relatório ND: Plano Diretor”, conjunto de cinco cadernos cujos conteúdos circularam no jornal impresso ND, no portal ND+ e no Balanço Geral da NDTV, todos do Grupo ND, afiliado local do Grupo Record, que domina o setor no estado com o Grupo NSCComunicação, ex-RBS, retransmissor da Globo.
A análise a seguir se restringe ao conteúdo dos cinco relatórios que circularam no jornal impresso ND, em https://bit.ly/3PNmRfS. Cabe destacar que os movimentos populares de Florianópolis manifestam publicamente críticas à cobertura jornalística do Grupo ND, alinhado explicitamente aos interesses do governo de Jair Bolsonaro e reduto de colunistas tidos como porta-vozes dos interesses dos grupos dominantes locais. Por isso, foi recebida com desconfiança a iniciativa de produção de reportagens sobre o Plano Diretor.
Somados, os cinco cadernos (um para cada região da capital), encartados nas edições de 28 e 30 de junho e 9, 16, e 21 de julho, têm 88 páginas, número expressivo considerando o encolhimento sistemático dos jornais impressos. Segundo o grupo, 15 jornalistas se envolveram no projeto, com investimento de R$ 320 mil feitos pelo Núcleo de Dados e Investigação. No portal ND+, as reportagens contam com formato imersivo e animações e, no Balanço Geral da NDTV, foi usada a tecnologia de Realidade Aumentada para explicar aspectos da proposta. A contagem de fontes, nos cinco cadernos, chegou a 57 (algumas delas aparecem em diferentes cadernos), e os jornalistas recorreram a pelo menos 10 documentos. Além das fontes citadas nas reportagens, há duas enquetes com representantes de 15 entidades.
A infografia é um dos destaques dos relatórios, assim como as ilustrações, fotografias e os glossários de temas e siglas que aparecem na lei do Plano Diretor. Detalha-se como funciona o Conselho da Cidade, porém sem entrar na polêmica local sobre a forma de escolha de seus membros, e são expostas, em três relatórios, as opiniões dos e das vereadoras sobre a proposta do Executivo, registrando o nome dos seis que não deram respostas aos questionamentos. As páginas centrais trazem um breve perfil dos bairros de cada uma das cinco regiões, assim como as principais reivindicações da população, com o título geral “O que está em debate?”. Outro destaque é a reportagem do jornalista Paulo Clóvis Schmitz que conta a história dos planos diretores de Florianópolis a partir de análise do historiador Reinaldo Lohn. Entre as fontes, dá-se espaço para pesquisadores e lideranças comunitáriascríticas à proposta da Prefeitura.
A ausência mais surpreendente é justamente a do prefeito, Topázio Silveira Neto, agora no lugar de Gean Loureiro, que renunciou ao cargo para concorrer na eleição de outubro. A voz da Prefeitura em praticamente todos os cinco cadernos é a do secretário municipal de Mobilidade e Planejamento Urbano, Michel Mittmann. Um box no segundo relatório explica que a reportagem buscou fontes na Prefeitura e os contatos foram direcionados e centralizados no secretário, que tem sido criticado nas Audiências Públicas pelo discurso genérico, a falta de estudos fundamentais na proposta e as comparações que faz entre Florianópolis e cidades como Barcelona, na Espanha, para justificar medidas mal explicadas.
Apesar de ouvir representantes de diversas entidades e associações de moradores e apresentar posições em confronto, o conjunto de relatórios deixa a desejar no que tenho definido como a necessária irrupção, na cobertura jornalística, da experiência vivida no espaço geográfico. O segundo caderno, sobre a região Norte de Florianópolis, onde estão balneários disputados como Ingleses e Canasvieiras, traz uma discussão importante sobre a falta de política de habitação social na capital, com avaliação de pesquisadores na área. Mas seria fundamental que os jornalistas trouxessem à reportagem a vivência das populações nas ocupações urbanas, que ocorrem, entre outros motivos, pelo crescente aumento do valor do aluguel em Florianópolis. Na discussão sobre a mobilidade urbana, que aparece no quarto caderno, um diferencial seria a equipe de reportagem usar o criticado transporte coletivo local para fazer o percurso de cerca de 50 quilômetros entre o município vizinho de Palhoça até o Norte da Ilha, realidade de muitos trabalhadores que custa horas valiosas do cotidiano.
O diferencial de cobertura caberia também à imprensa independente/alternativa local, que padece da falta de profissionais e de recursos e não tem acompanhado os debates. De todo o modo, cabe registrar, em um grupo hegemônico tão criticado quanto o ND e faltando uma semana para a Audiência Pública Final, dia 8 de agosto, uma fumaça do bom jornalismo.
* Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo
Bois e queimadas: quase um quarto da devastação se concentra no estado do Pará – João Laet/AFP Fonte: Foto e legenda publicadas em Brasil de Fato
Por Cláudia Herte de Moraes*
O título mais sombrio tem razão de ser. Os alertas quanto às mudanças climáticas são contundentes e cada vez mais sabemos que não é alarmismo da mídia ou de cientistas divulgadores. O que estamos vivendo já demonstra claramente o “novo normal” que se coloca como desafio. Na última semana vimos ondas de calor sem precedentes na Europa serem tratadas ainda como oportunidade para tomar sol ou tomar sorvete, bem como medidas pontuais quanto à ação climática por parte do governo norte-americano de Joe Biden, e divulgação de mais dados sobre o crescente desmatamento no Brasil – tema sobre o qual este texto se debruça.
Ano passado, em junho, fiz uma análise neste Observatório tratando do desmatamento crescente nos biomas brasileiros, aproveitando a repercussão do lançamento do MapBiomas Alerta. Nesta semana, a contar de 18 de julho de 2022, voltamos a buscar as mesmas informações, novamente acompanhando o relatório que traz então as informações a respeito do desmatamento monitorado em 2021. O MapBiomas Alerta é uma iniciativa do consórcio MapBiomas constituído por mais de 20 instituições, entre ONGs, universidades e startups de tecnologia. Aberto ao público, pode ser consultado no site.
Em 2022, a equipe do MapBiomas concluiu que o desmatamento cresceu 20% em todos os biomas, tendo grande contribuição de atividades ilegais. O mesmo que concluiu nos anos anteriores do levantamento, ou seja, o problema só cresce! A minha questão é pensar como tratamos os preceitos da proteção ambiental no Brasil, tendo em vista a riqueza da nossa diversidade biológica nos diferentes biomas do território. A informação factual dos relatórios é relevante, porém precisa ser cada vez mais tratada pelo jornalismo como a ponta de um fio, que deve ser tecido com cruzamento de dados, apuração constante do tema, trazendo sempre contextualização quanto a causas e efeitos, perdas e danos da política do desmatamento brasileiro. Para observar a cobertura do lançamento de 2022, procurei ver em que medida esta contextualização está presente nas notícias, ressalvando que a repercussão do relatório pode – e deve – ser realizada nas próximas semanas.
No grandes portais UOL e G1, houve destaque ao resultado apontado pelo estudo que indicou, pela primeira vez, os setores responsáveis pelo desmatamento: a agropecuária com percentuais acima de 97%, citando também outros setores como garimpo, mineração, expansão urbana e outras causas minoritárias. O UOL também salientou que os órgãos de controle conseguiram atuar em menos de 3% do desmatamento ilegal identificado, ou seja, falta capacidade do Estado e do governo para atacar o problema.
No site especializado ((o))eco, houve realce para a fala do coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo, que afirma a necessidade de se atacar a impunidade, visto ser ela um incentivo ao problema da ilegalidade cometida sem a devida punição.
Como jornalismo contra-hegemônico, indico o exemplo da notícia do Brasil de Fato, no trecho que deu destaque à responsabilidade da ganância econômica, com a biodiversidade sendo transformada “em pasto, commodities agrícolas e especulação fundiária”. Na rede Mídia Ninja, a ênfase foi para o menor índice de perdas nas terras indígenas, embora se apresente a violência crescente contra seus povos e ativistas. Os povos indígenas conseguiram melhor preservar a cobertura vegetal mesmo diante da destruição que avança nas matas, lutando contra o PL 490/2007 (“Marco Temporal”) e o Projeto de Lei 191/20, de autoria de Bolsonaro, que permite exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em reservas indígenas. A contextualização na MN se dá pela responsabilização da política: “No período da gestão de Jair Bolsonaro à frente da presidência da República, entre 2019 e 2021, apenas 0,9% dos imóveis rurais concentram 77% da área desmatada no país em 2021, o que representa poucos atores somando gigantescas áreas de desmatamento”.
Tratar das conexões com outras questões ambientais e climáticas, tais como avanço do agronegócio, garimpos, mineração sobre as matas, descaso com fiscalização, impactos em relação à mudança climática, relação com áreas protegidas e terras indígenas, entre outros, é bastante positivo. Apontar e cobrar as responsabilidades públicas, ainda mais. É assim que cada cidadão poderá entender a dinâmica do que está em disputa – a nossa sobrevivência enquanto humanos – e poderá também agir, especialmente pela pressão aos poderes. Afinal, é necessário construir soluções para o nosso hoje e atuar democraticamente na defesa dos biomas. Diante deste desafio, o jornalismo tem plenas condições de atuar, pois pode trazer o debate sobre a política e sobre quem nos representa, que sejam aliados do ambiente ou, caso contrário, seguiremos a chorar mortes e perdas, ano após ano.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br
A perspectiva do Jornalismo Ambiental não se contenta apenas com a denúncia, com a exposição dos fatos. A informação deve ser bem apurada e devidamente checada, mas também permitir que os públicos compreendam a questão, avançando para uma abordagem que colabore com a educação e a promoção de uma postura cidadã. Logo, o fato de a destruição do Pampa seguir seu curso, ano após ano, precisa ser noticiado, porém não somente quando os números revelarem uma perda expressiva.
Tudo aquilo que se manifesta de forma lenta e contínua tende a ser naturalizado pela sociedade – e o jornalismo, baseado em critérios factuais e que supervalorizam aquilo que rompe com a normalidade, contribui para não discutirmos os processos insustentáveis que nos cercam. Uma alternativa, bem-vinda, é esperar algum dado novo para aprofundar a temática, como Daniela Chiaretti, do jornal Valor Econômico, fez na notícia “Pampa perde o equivalente a 2,5 vezes a área de Porto Alegre ao ano”. Ao dar alcance nacional à carta da Coalizão do Pampa, que traz ações para usos sustentável e conservação do bioma, a jornalista também ampliou o contexto de devastação, derivado, principalmente, do avanço da soja, eucalipto e pastagens plantadas, e trouxe a defesa do fortalecimento da pecuária familiar como uma das respostas à situação.
O lançamento da “Carta aberta à sociedade gaúcha pela proteção do Pampa” foi feito no dia 1º de julho, mas a repercussão na imprensa foi bastante pontual. Identificamos cobertura pela EcoAgência de Notícias Ambientais e pelo O Eco, por exemplo, porém os meios de comunicação tradicionais do Rio Grande do Sul não colaboraram para o debate público do bioma, que ocupa mais da metade do seu território – GZH publicou uma pequena nota sobre a divulgação da carta.
O jornalismo tem potencial de circular informações que possam melhor explicar nossa realidade e gerar subsídios para atitudes mais coerentes com o enfrentamento da crise ambiental já instalada. Aprofundamento da pauta, recorrência na cobertura e questionamentos para desnaturalizarmos as perdas (em todos os âmbitos) são possibilidades para que os públicos conheçam a dimensão das problemáticas ambientais e aprendam sobre o cuidado que devemos ter com o lugar no qual vivemos.
*Jornalista, doutora em Comunicação e em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Pesquisadora e vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eloisa.beling@gmail.com.
Correio Braziliense, G1 e Folha de S. Paulo noticiaram no final da semana passada o retorno à pauta do Congresso Nacional do projeto de lei que altera a legislação de controle dos agrotóxicos no Brasil. O PL do Veneno já havia sido notícia em fevereiro deste ano por conta da aprovação do texto na Câmara dos Deputados. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), aproveitou o plenário vazio na última quinta-feira, 7 de julho, para fazer o projeto tramitar antes do recesso parlamentar. A votação pode acontecer nesta semana sem que o texto passe pela Comissão de Meio Ambiente da Casa.
O projeto passa para o Ministério da Agricultura responsabilidades relativas ao registro e à fiscalização que hoje estão com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Também substitui o termo “agrotóxicos” da legislação vigente por “pesticidas”.
A escolha de um discurso que atenua os efeitos dessas substâncias é estratégica para os setores representados pela bancada ruralista. Embora se refiram ao mesmo produto, falar de agrotóxicos significa ressaltar os riscos ao ambiente e às populações em contato com seus componentes. Já o termo pesticida se restringe ao efeito pretendido pelo produto – o controle de organismos que “atrapalham” a produção agrícola convencional -, ignorando, portanto, os reais impactos dessa aplicação nos organismos, no solo e na água.
Por sua vez, o jornalismo fica menos acanhado e passa a se referir ao projeto de lei pelo apelido de PL do Veneno, como no caso da matéria de Folha de S. Paulo. Isto é positivo para o interesse público, pois significa que o jornalismo opta por dar destaque aos riscos que envolvem a proposta.
Quando o discurso jornalístico assume a nomenclatura que demonstra os perigos da substância, aproxima-se de um dos pressupostos do jornalismo ambiental: o princípio da precaução. O jornalista ambiental não deve se pretender neutro e deve assumir seu posicionamento em defesa das vidas humanas e não-humanas. Um dos mecanismos para isto é adotar um olhar mais cauteloso diante do desconhecimento sobre os danos permanentes que ações de impacto ambiental, como o uso de agrotóxicos, podem gerar ao planeta.
Por fim, vale destacar que algumas das matérias citadas, como a da Folha de S. Paulo e do G1, escolheram noticiar o PL do Veneno com o avanço de outro projeto de lei no Senado, este sobre a alteração do Código Florestal. Isso evidencia o modo de operação dos detentores do poder: passar a boiada sem que dê tempo da população discutir e entender os riscos que essas decisões representam para a sua vida cotidiana. Resta ao jornalismo contar às pessoas.
Imagem: reprodução site do jornal Folha de S.Paulo
Por Ângela Camana*
Na última semana foi divulgado o Anuário Brasileiro da Segurança Pública, relatório que reúne dados acerca da violência e suas diversas expressões em todos os estados da federação. A publicação é fruto de um esforço de pesquisa coordenado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e traz informações fornecidas por órgãos oficiais – como forças policiais e secretarias – referentes a 2021. A imprensa em geral celebrou a diminuição no número de mortes violentas no país, que caiu ao menor patamar em uma década. Ainda que os dados apresentados indiquem uma tendência de queda da violência, uma ressalva chama atenção: os homicídios aumentaram na Amazônia.
No mês em que o jornalismo deixou-se afetar pelas mortes brutais de Bruno Pereira e Dom Phillips, tema já abordado neste Observatório, a imprensa não teve a mesma sensibilidade para a interpretação dos dados do Anuário. O próprio relatório dedica um capítulo ao entrelaçamento das pautas da violência e ambiental, indicando a necessidade de interpretarmos os dados de homicídios face ao “desmatamento, o garimpo ilegal, a corrupção, a criminalidade e a intensa presença de milícias e facções do crime organizado”. No entanto, poucos foram os veículos que se dedicaram a isto. Exceção à regra, a Folha enfatizou as disputas desiguais por terra no norte do país, bem como a especificidade das regiões rurais.
Imagem: reprodução do jornal Folha de S.Paulo
A repercussão na imprensa do Anuário até aqui tem se mostrado uma oportunidade perdida para a necessária complexificação da pauta da violência. Na semana em que foram publicizadas imagens que indicam um massacre de indígenas Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, o debate público acerca da relação entre território, ambiente e violência é ainda mais urgente. Se o jornalismo não o fizer, corremos o risco de que as mortes de Dom, de Bruno e de tantos outros e outras sejam apenas mais um dado para a estatística do anuário do ano que vem.
*Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.
Imagem: captura da tela do artigo no jornal Brasil de Fato
Por Míriam Santini de Abreu*
Artigo publicado no Brasil de Fato de autoria da juíza federal Cláudia Maria Dadico, integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) e da Associação Juízes para a Democracia (AJD), traz um tema relevante para a pauta do jornalismo ambiental: o Assédio Institucional. No artigo, em https://bit.ly/39ON9yR, a juíza aborda o assassinato do jornalista Dom Phillips e do servidor licenciado da Funai Bruno Pereira detalhando o processo que levou o servidor a realizar o trabalho na Vale do Javari sem uma estrutura de segurança e proteção institucionais pelo Estado.
O artigo cita a publicação “Assédio Institucional no Brasil: avanço do autoritarismo e desconstrução do Estado”, da Associação dos Funcionários do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Afipea) e da Universidade Estadual da Paraíba, em https://bit.ly/3NnJDcb, com 806 páginas, que aborda como se dá o processo de desconstrução do Estado nacional, suas organizações, institucionalidades, políticas e servidores públicos. Um dos artigos, assinado por Marcelo Mourão Motta Grossi e Rodrigo Augusto Lima de Medeiros, trata do Assédio Institucional e cerceamento no Ministério do Meio Ambiente no período entre 2019 e 2022. O problema que eles trazem é o seguinte: quais são os limites de atuação dos agentes públicos legitimados nas eleições de 2018 quanto às possibilidades de imposição de uma agenda política antiambiental dentro do órgão ambiental? Os autores mencionam que foram relatados 64 casos de assédio moral nos órgãos ambientais federais a partir de janeiro de 2019.
O tema tem relação direta com a chamada Reforma Administrativa prevista na Proposta de Emenda Constitucional 32, de 2020, cuja tramitação foi barrada pela mobilização do movimento sindical, mas pode a qualquer tempo ser apreciada na Câmara dos Deputados. Entre outras medidas, a proposta, se aprovada, irá ampliar as privatizações e terceirizações no serviço público, acabando com a estabilidade hoje garantida aos concursados.
A Folha de S. Paulo, em 8 de junho, publicou notícia intitulada “Número de servidores ambientais temporários explode sob Bolsonaro”, em https://bit.ly/3NBASM1, que aborda a precarização com dados: houve um salto de 564% no total de temporários nas autarquias ambientais (Ibama, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e Jardim Botânico do Rio de Janeiro). O jornal informa que tentou contato com o Ministério do Meio Ambiente sobre o assunto, mas não obteve resposta, o que tem sido a prática comum na gestão de Jair Bolsonaro.
O desvendamento da relação entre Assédio Institucional e Reforma Administrativa nos órgãos ambientais das instâncias estaduais e municipais é uma pauta relevante para veículos e jornalistas dedicados à cobertura sobre meio ambiente. Para viabilizá-la, pode haver uma articulação combinada de veículos de diferentes estados. Parafraseando a juíza federal Cláudia Maria Dadico no final de seu artigo, é uma tarefa onerosa, mas não impossível.
*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo
Imagem: Reprodução do site do jornal britânico The Guardian
Por Sérgio Pereira*
A semana foi marcada pela confirmação dos assassinatos de Bruno Pereira e de Dom Phillips. A notícia virou manchete dos principais jornais do País e teve imediata repercussão internacional, principalmente pela morte do jornalista britânico, que escrevia para o The Guardian e já tinha colaborado com Washington Post, The New York Times e Financial Times. Ambos eram conhecidos pela dedicação na preservação da floresta amazônica e na defesa das causas indígenas. E por isso foram mortos.
Os órgãos de segurança conseguiram elucidar o desaparecimento das vítimas, até o momento já prenderam três acusados (dois admitiram o crime e um deles ajudou a encontrar os corpos) e apontam que mais prisões poderão ocorrer. Espera-se que muitas dúvidas sobre o duplo homicídio ainda sejam respondidas na investigação, inclusive o motivo, ponto ainda não esclarecido oficialmente, mas que está relacionado ao envolvimento dos dois na defesa das áreas indígenas do Vale do Javari.
O foco de nossa reflexão aqui, no entanto, não se fixa no trabalho policial, mas sim sobre a cobertura dedicada ao caso pela imprensa nacional. Caberá aos jornalistas, por exemplo, tentar elucidar um ponto importante que ainda está nebuloso e que não será respondido nas páginas do inquérito criminal: a razão da dispensa de Bruno Pereira da função de coordenador-geral do setor de Índios Isolados e de Recente Contato da Fundação Nacional do Índio (Funai).
O servidor concursado da Funai foi tirado da função que ocupava no Vale do Javari em outubro de 2019 e depois removido para Brasília após comandar operações bem-sucedidas contra a pesca e o garimpo ilegais. Calcula-se que essas ações resultaram na destruição de mais de 50 balsas usadas por garimpeiros em terras indígenas. Como disse o repórter André Trigueiro em matéria do Jornal Nacional do dia 16 de junho, “o sucesso no combate aos criminosos, em vez de render uma promoção, lhe custou o cargo”.
Funcionários da Funai afirmaram à revista Carta Capital, em 9 de junho, que o desaparecimento do indigenista (quando ainda havia esperança de encontrar os dois com vida) poderia ter sido evitado se ele estivesse trabalhando com o apoio do aparato estatal. Os dois estavam sem seguranças quando foram mortos.
Sérgio Moro, ministro da Justiça na época, lavou as mãos e já disse não ter nada a ver com a exoneração. O ex-ministro da Justiça substituto Luiz Pontel de Souza precisa ser ouvido pela imprensa. É dele a assinatura na portaria que retirou o indigenista da função de coordenador-geral do setor de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai. Ele precisa dizer de quem foi a ordem para o afastamento de Pereira do cargo que ocupava na Funai do Vale do Javari.
O jornalista Carlos Madero, do portal UOL, revelou em postagem do dia 15 de junho que o indigenista foi exonerado 15 dias após uma megaoperação contra o garimpo ilegal no sudoeste do Amazonas. Conforme Madero, três dias após a operação, representantes dos garimpeiros foram recebidos em Brasília por integrantes do governo Bolsonaro, inclusive pelos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. O conteúdo da reunião não foi divulgado.
O Jornalismo Ambiental nos ensina que é preciso dar “ênfase na contextualização na tentativa de expor as relações entre causas e consequências, assim como das articulações dos diferentes campos sociais”, além de assumir o “comprometimento com a qualificação da informação, ou seja, preocupação em construir notícias que desvelem as conexões entre economia, política, cultura, ambiente, etc., que nem sempre são visíveis, e indiquem soluções, saídas” (GIRARDI; LOOSE; SILVA, 2018). Neste caso específico, não se trata apenas das mortes de Pereira e Phillips, mas toda uma política de desmonte dos órgãos de fiscalização na Amazônia e, por consequência, de endosso à destruição da floresta e à perseguição aos povos indígenas. Isso não pode ser esquecido em nenhum momento durante essa cobertura.
Outros dois pontos também merecem reflexão por parte dos principais veículos brasileiros. A primeira, é sobre como está sendo definida a pauta ambiental nas regiões mais distantes do País. A grande imprensa precisa ampliar suas frentes de reportagem, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste[1][2] . É preciso sair da mera repetição sobre o aumento de hectares devastados e voltar a atenção sobre essas zonas de conflito, sobre quem patrocina e apoia essas invasões em áreas protegidas e como o Estado tem atuado para resolver o problema. A mídia hegemônica precisa fazer da luta de Pereira e Phillips a sua luta. Essa será a melhor homenagem que os jornalistas podem prestar não somente aos dois, mas a todas as vítimas dessa guerra deflagrada quase sempre longe dos olhos dos veículos de comunicação.
Vale também lembrar a iniciativa do Rainforest Jornalism Fund, que possibilitou a ida de repórteres da Agência Pública até a região. Como também a cobertura de veículos como Amazônia Real e Mídia Índia, que contribuíram para esclarecer vários pontos, inclusive o episódio constrangedor protagonizado pela embaixada brasileira.
Por fim, um elogio para as capas de dois impressos brasileiros, Correio Braziliense e O Estado de Minas, por suas edições do dia 16 de junho. Os jornais fugiram do corriqueiro e buscaram atrair a atenção dos seus leitores para a importância da notícia nas suas primeiras páginas. Uma das finalidades do jornalismo é justamente essa, como nos lembra Reginato (2019): “Ajudar o leitor a entender seu tempo, orientando-o sobre como viver no mundo contemporâneo e como dar sentido ao tempo presente”. Tarefa que, por sinal, não será fácil no futuro: explicar para as próximas gerações esse período específico do Brasil.
Imagem: Reprodução parcial das capas de O Estado de Minas e Correio Braziliense
*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente
Referência
GIRARDI, Ilza Maria Tourinho et al. Jornalismo ambiental: teoria e prática (livro eletrônico) – Dados eletrônicos. Porto Alegre: Metamorfose, 2018.
REGINATO, Gisele Dotto. As finalidades do jornalismo. Série Jornalismo a Rigor. Florianópolis: Insular, 2019.
Imagem: Captura de tela – Repórter Giovana Girardi visitou o local do maior acidente em mina de carvão ocorrido no Brasil em 1984. Imagens gravadas no local estão disponíveis no site do podcast Tempo Quente: https://www.radionovelo.com.br/tempoquente/.
Roberto Villar Belmonte*
Quem ganha com a mudança do clima no Brasil? Esta é a pergunta que a repórter de ciência e meio ambiente Giovana Girardi começou a responder semana passada com Tempo Quente, novo podcast da Rádio Novelo composto por oito episódios que serão publicados semanalmente até 26 de julho. No primeiro, ela explica em quase uma hora de programa como o carvão mineral ainda queima por aqui.
Girardi, ex-Estadão, segue o rastro do dinheiro sujo, regra de ouro do jornalismo investigativo. O raciocínio é simples. As políticas que visam a transição do modelo de desenvolvimento predador para outro que leve em consideração as riquezas ambientais do Brasil não avançam porque a economia fóssil e do desmatamento dá dinheiro. Trocando em miúdos: tem gente que lucra com a mudança do clima.
Apesar de ser uma obviedade, o jornalismo patrocinado por grandes corporações empresariais nunca enfrenta o tema de frente. Essa parece ser a grande contribuição de Tempo Quente, um podcast jornalístico – realizado com recursos do Instituto Clima e Sociedade e Samambaia Filantropias – que deixa à mostra a raiz do problema exposta pela técnica do “siga o dinheiro”.
Alerta vermelho
Intrigada com o Programa para Uso Sustentável do Carvão Mineral lançado pelo Ministério de Minas e Energia em agosto do ano passado, Giovana Girardi destrincha no primeiro episódio de Tempo Quente o poderoso lobby do carvão instalado em Santa Catarina e com trânsito fácil em Brasília. A repórter entrevista fontes do setor, contextualizando e interpretando as informações para os ouvintes.
Nesta interpretação, Giovana Girardi se posiciona e assume seu lado. Segundo ela, imparcialidade jornalística não pode ser confundida com dar pesos iguais a coisas que não são iguais. “Se eu tenho uma pessoa dizendo que está chovendo e outra que diz que não está chovendo, o papel do jornalista não é dizer que essa história tem dois lados. O papel dele é abrir a janela e ver se está chovendo ou não.”
E foi o que ela fez, abriu a janela para mostrar aos ouvintes a indústria do carvão. Para isso foi até Santa Catarina conferir de perto uma mina considerada modelo em Treviso, no entorno de Criciúma; o Complexo Termoelétrico Jorge Lacerda em Capivari de Baixo; e as ruínas da mina Santana no município de Urussanga que explodiu em 1984 deixando 31 mineiros mortos e um rio amarelo de tanta contaminação.
Novo paradigma
A Rádio Novelo faz parte de um ecossistema midiático emergente que revigora a prática do jornalismo narrativo em áudio no país. Não seria exagero dizer que esta produtora criada em 2019 no Rio de Janeiro está ajudando a consolidar um novo paradigma com suas produções próprias e em parceria. Considero Praia dos Ossos a principal referência. Tempo Quente de Giovana Girardi inspira-se na mesma estética.
Estes podcasts narrativos têm roteiros em primeira pessoa, narrador posicionado e presente no local dos acontecimentos gravando inclusive os bastidores da produção, o que ajuda o ouvinte a imaginar a cena descrita. Outra característica importante é a qualidade da edição de áudio. Chama a atenção no expediente destas produções a enorme equipe envolvida nos projetos, de técnicos a consultores.
Tempo Quente teve a consultoria de Cristina Amorim e Claudio Angelo, dois experientes jornalistas ambientais brasileiros, assim como a própria Giovana Girardi responsável pela reportagem e apresentação do novo podcast da Rádio Novelo. Ela também assina o roteiro em parceria com Paula Scarpin e apoio de Bárbara Rubira, Flora Thomson-DeVeaux e Arnaldo Branco.
Amazônia invisível
Uma nova produção ambiental de jornalismo em áudio da Eder Content foi anunciada na semana passada. “Depois de 18 meses de trabalho, 86 entrevistas e 4 mil quilômetros rodados no sudoeste do Pará, a série de podcasts ‘Amazônia Invisível – Uma história real’ começa a ser transmitida no próximo dia 23 de junho pela plataforma da Storytel”, informou o jornalista Flávio Ilha, um dos integrantes da equipe. A conferir.
*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor universitário e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Print de mapa apresentado no telejornal local da TV Globo Nordeste em 25 de maio de 2022
Por Eloisa Beling Loose*
Desde a última semana estamos acompanhando a cobertura diária de meios de comunicação sobre as inundações e deslizamentos de terra que atingiram o Nordeste brasileiro, sobretudo a região metropolitana do Recife. A Folha de Pernambucofez uma retrospectiva dos eventos trágicos e informou que esta foi a maior tragédia do século no estado. Mais de 120 vidas foram perdidas, a maioria delas vivia em áreas de risco e em situação de vulnerabilidade. Os impactos econômicos ainda estão sendo contabilizados, mas um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) revela que, nos últimos seis meses, as cidades nordestinas afetadas por inundações e deslizamentos somaram mais de R$ 3,1 bilhões de prejuízos – e essa última semana de chuvas ainda não está na conta.
Já questionamos aqui neste Observatório o quanto é preciso que o jornalismo ultrapasse a cobertura factual e avance para o debate do contexto – e não apenas a partir das tragédias. Prevenção, de fato, deveria ser pauta antes dos avisos de um possível evento meteorológico ou hidrológico. Quando os fenômenos são iminentes, o tempo de ação é escasso e as mudanças estruturais já não são possíveis. Trabalha-se com o que é possível: a redução de danos.
O que verificamos, ano após ano, é que a prevenção é lembrada quase sempre no anúncio do desastre. Nesse ínterim, os alertas de chuvas fortes e de seus riscos costumam ser noticiados, sobretudos nos veículos locais. Há um chamamento para que a população saia das áreas mais afetadas para preservar a vida. Mas, isso é preparação antecipada ou somente uma estratégia paliativa para evitar os piores cenários?
É um equívoco entender que a prevenção de desastres se resume à emissão de alertas um pouco antes dos acontecimentos. O G1 destacou a fala de um especialista, que foi enfático: “Não adianta receber o alerta e não saber o que fazer”. Então, surge a reflexão: quem se comunica com essa população periodicamente? E de que forma? Quando ela é realmente ouvida? Qual é o espaço que o jornalismo dá para questionar planejamento urbano? E as políticas públicas de moradia? Quais são as condições reais para a defesa civil trabalhar no âmbito da prevenção?
Outro ponto a ser destacado nessa cobertura é a existência da associação do desastre com as mudanças climáticas. Repete-se que com o aumento médio das temperaturas eventos climáticos extremos como esse podem ser mais frequentes e mais intensos – o que reforçaria, em teoria, a aceleração de implementação de medidas de adaptação. Recife é a capital mais vulnerável às mudanças climáticas no Brasil e a 16ª cidade do mundo, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, o que foi noticiado no UOL, n’O Globo e em outros veículos. Mesmo assim, o enfrentamento aos riscos climáticos segue muito aquém do esperado.
Em matéria publicada no Observatório do Clima, assinala-se a vanguarda de Recife, já que, em 2019, ela se tornou a primeira capital brasileira a reconhecer o estado de emergência climática global e realizar um amplo diagnóstico dos riscos visando formas de adaptação. Então, os gestores públicos possuíam conhecimento sobre o que deveria ser feito, mas interesses de curto prazo, como as reeleições, acabam por ser priorizados em detrimento de projetos mais complexos, como a retirada de pessoas de áreas irregulares e sem a infraestrutura adequada.
Cabe ao jornalismo fiscalizar o poder público e permitir que a audiência conheça de que maneira nossos representantes estão compreendendo (ou não) a emergência climática e atuando para mitigar suas consequências. A prevenção deve ser uma pauta periódica, de modo que a colaborar com um novo entendimento de como devemos agir em tempos de intensificação de riscos e desastres.
Ainda sobre esse o papel do jornalismo em casos de desastres, destacamos o papel pedagógico da imprensa quando há questionamento do público sobre medidas de precaução. Na segunda quinzena de maio, a mídia noticiou a chegada da Tempestade Yakecan no Rio Grande do Sul, alertando seus riscos e informando sobre medidas preventivas, como a antecipação do fim de expediente ou cancelamento de atividades. Felizmente, as piores previsões não se concretizaram, o que gerou uma (falsa) impressão da população que houve um alarde desnecessário. A jornalista Juliana Bublitz, de GZH, no dia seguinte, lembrou aos leitores que precisamos reconhecer a atuação dos gestores diante dessas previsões e aprender mais sobre a prevenção.
*Jornalista, doutora em Comunicação e em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eloisa.beling@gmail.com.