A vontade política pode não conseguir, sozinha, recuperar a destruição do meio ambiente ocasionada pelas mãos humanas, mas, com certeza, pode contribuir para a mitigação de danos ambientais. A decisão de editar um decreto para reconhecer estado de emergência climática em mais de mil municípios mapeados como mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas foi anunciada pela ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, ao visitar áreas atingidas por alagamentos em Manaus no dia 26 de março. Na capital do Amazonas, conforme registrado pela imprensa, as fortes chuvas fizeram com que 172 famílias ficassem sem acesso às suas casas. A postura da ministra gerou grande repercussão na imprensa, ao manifestar que o governo federal debate internamente decretar estado de emergência climática em cerca de 1.038 municípios mapeados como mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.
A matéria foi publicada em periódicos impressos e online como o Jornal do Brasil, Gazeta do Povo, Correio Braziliense, Bem Paraná, assim como em empresas televisivas como o Canal Rural. O site de jornalismo independente, Headline, também destaca o anúncio da ministra, mas com um novo olhar (Quase 20% das cidades brasileiras podem entrar em estado de emergência permanente devido ao clima | HEADLINE), propondo uma ampliação da pauta e dando destaque ao decreto de estado de emergência permanente devido ao clima. O veículo aponta que não estão apenas sendo pensadas ações paliativas às consequências das mudanças climáticas, como tem acontecido em relação às estiagens em estados do Sul do país e às excessivas chuvas no Mato Grosso, Acre, Ceará e outros.
Na matéria do Headline, consta que o objetivo da medida seria permitir obras preventivas nos 1.038 municípios e que os projetos seriam de prevenção para médio e longo prazo.
Assim, vemos, na prática, que a repercussão na mídia mostra a importância da ação política com vistas à mitigação climática. Através de enfoques mais amplos e elaborados, a exemplo do Headline, identificamos que a pauta pode indicar, ainda, que não basta mitigar efeitos. Nesta linha, percebe-se que comunicação e jornalismo de qualidade podem contribuir para a clareza de que as mudanças climáticas estão aí e exigem a tomadas de atitudes urgentes e eficazes dos seres humanos.
*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Imagem: Captura de tela do Internacional Consortium of Investigative Journalists
Por Mathias Lengert*
Organizações responsáveis por certificar a origem sustentável da madeira, na prática, validam produtos provenientes de desmatamento. Essa é uma das graves denúncias reveladas pelo Deforestation Inc., uma investigação primorosa liderada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) em colaboração com 39 organizações jornalísticas de diversos países, três delas brasileiras: Poder 360, Revista Piauí, e Agência Pública.
A apuração revela que, apenas no Brasil, pelo menos 62 empresas certificadas pelo Forest Stewardship Council (FSC) concentradas na Amazônia Legal foram autuadas pelo Ibama. Os selos de auditores ambientais, como o FSC, agregam valor ao produto e possibilitam a exportação para mercados exigentes, como os europeus. No entanto, conforme a investigação, ao todo 48 organizações de certificação ambiental falharam em reconhecer crimes durante a averiguação das práticas socioambientais responsáveis.
Com a certificação em mãos, empresas com histórico de infrações ambientais em todo o mundo denominam-se sustentáveis, quando, na verdade, atuam sem comprometimento com a causa ambiental, configurando um caso exemplar de greenwashing (lavagem verde, em tradução livre).
A investigação publicada pelo ICIJ mostra que o jornalismo tem a responsabilidade de identificar e denunciar ocorrências de greenwashing. Isso implica em investimentos jornalísticos de fôlego, exigência de maior transparência de dados e informações das empresas e alfabetização ecológica do público, aproximando o leitor do conceito e auxiliando-o a identificar práticas enganosas.
Durante nove meses de apuração, os repórteres trabalharam em diversas frentes, analisando processos judiciais, dados de inspeção e registros de violação ambiental. A atuação colaborativa suscita reportagens com olhares mais abrangentes, capazes de promover conexões de problemas ambientais globais com os impactos locais. O consórcio é uma ferramenta potente por partilhar um senso colaborativo de fazer jornalismo, amparado na troca de conhecimentos e na verificação cruzada das informações.
Resta a necessidade de esforços exaustivos de contextualização desses dados para o público. O greenwashing é um fenômeno de disfarce da degradação ambiental e de construção de uma imagem pública falsamente positiva, que nem sempre é identificado pelo jornalismo, especialmente ao dar destaque para empresas em notícias sobre meio ambiente sem verificar se seus processos produtivos são, de fato, responsáveis. Em síntese, é essencial que o jornalismo desempenhe um papel crítico e posicionado na sociedade, questionando os impactos de empresas infratoras e a atuação dos órgãos de regulação, e educando o público sobre a relevância do tema.
* Mathias Lengert é jornalista, mestre em Comunicação e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
O diário multiplataforma catarinense Diarinho, que cobre Itajaí, Balneário Camboriú e região, publicou em 19 de janeiro notícia de dois parágrafos intitulada “Última casinha da avenida Atlântica vai virar prédio”. Trata-se da casa de madeira remanescente na mais badalada avenida do balneário que teve o metro quadrado mais caro do país, ao custo de R$ 11.635,00, em fevereiro, de acordo com o índice FipeZAP+ . Segundo a matéria, a casinha, construída em 1956 e em 1973 comprada pela família atualmente proprietária, será demolida e poderá dar lugar a um prédio de 12 andares.
Nos dias seguintes, outros veículos repercutiram a informação, como o site Camboriú Notícias, que acrescentou informações sobre os atuais proprietários, e o Balanço Geral Itajaí e o SC no Ar, do Grupo ND, retransmissor da Record. Nos dois últimos, os apresentadores citam o fato e a repercussão negativa nas redes, mas afirmam que se trata de propriedade particular e não tombada pelo município, o que permitiria a demolição. No Balanço Geral Itajaí, o apresentador minimiza a reação dos críticos e afirma que “o olho cresce, é natural” diante de valores implicados em negociações deste tipo. No SC no Ar, a repórter mostra o skyline da cidade, tomado por arranha-céus, e a apresentadora comenta: “Mas é linda Balneário Camboriú, né, é uma cidade linda, faz parte do progresso, da evolução, tá dentro da lei, tá tudo certo, então é isso aí”.
O “então é isso aí” de algum modo sinaliza o limite do jornalismo dominante hoje em Santa Catarina. Ao longo do mês de janeiro, Balneário Camboriú foi notícia por ficar semanas seguidas com a Praia Central – que passou por uma polêmica megaobra de alargamento para evitar a sombra projetada pelos arranha-céus na areia – totalmente imprópria para banho, de acordo com análise feita pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA). No mesmo período, a capital, Florianópolis, enfrentava uma epidemia de diarreia que foi notícia no Brasil e no exterior.
No livro “O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo”, o teórico do jornalismo Adelmo Genro Filho mostra que a notícia não caminha do mais para o menos importante, máxima de manuais de redação vendidos por empresas jornalísticas, e sim do singular – matéria-prima do jornalismo – para o particular, sem descuidar do universal, pois essas três categorias filosóficas então ligadas. Ou seja, o jornalismo deve irradiar o singular, o irrepetível, o único, a forma originária do novo – deixando antever a transformação social – a partir da relação com as outras duas dimensões, evitando assim que a totalidade seja vista com uma mera soma de partes, e a realidade como um “(…) agregado de fenômenos destituídos de nexos históricos e dialéticos” (GENRO FILHO, 1989, p. 156).
A iminente derrubada da última casinha de madeira na mais badalada avenida de Balneário Camboriú é o fato singular, único, irrepetível. A relação com o particular se explica pela necessária conexão com a realidade deste município que exalta os prédios gigantescos, os moradores famosos e tenta tapar ou ignorar a ruína das praias e da paisagem, realidade compartilhada por inúmeras cidades no litoral brasileiro, entre elas Torres e Florianópolis, onde as disputadas paisagens provocam pressão para mudanças nos planos diretores atualmente em discussão. É importante mencionar que o citado índice FipeZAP+ lista, além de Balneário Camboriú, Itapema, Florianópolis e Itajaí, todas em Santa Catarina, entre os 10 primeiros lugares no ranking do metro quadrado mais caro do Brasil.
O universal, o “é isso aí” com o qual a apresentadora do SC no Ar conclui o comentário da matéria, está no “olho gordo” mencionado pelo apresentador do Balanço Geral Itajaí, que ele naturaliza: é o lucro com a renda da terra em um sistema em que as sobras da natureza são vendidas como parte dos negócios. É, portanto, um jornalismo que legitima a propriedade privada e o lucro acima do bem comum e limita ao mero discurso a preocupação ambiental, naturalizando os fenômenos sociais e suas consequências.
A última casinha de madeira da Avenida Atlântica ficou à espera de um jornalismo de fato para contá-la.
REFERÊNCIA:
GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo, Porto Alegre: Tchê, 1989.
* Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo
A esperança na eleição do novo governo Lula (2023-2026) ainda alimenta mentes, corações e militâncias em março de 2023. Em poucos meses de governo, os indicadores são ruins para os territórios indígenas, porém em relação à situação do povo Yanomami todo um esforço de contenção de danos tem sido realizado. Em janeiro, a crise humanitária Yanomami teve atenção do governo federal e com isso houve ampla cobertura da imprensa em todos os meios e formatos. As manchetes trouxeram os números que chocaram: mais de 500 crianças mortas por causas evitáveis em quatro anos, estupros, violência, adolescentes grávidas. Fome, falta de condições de saúde. Eram denúncias antigas que finalmente tiveram destaque na mídia como um todo.
O caso pode ser considerado um exemplo de um tema que teve tratamento abrangente na imprensa, trazendo as conexões entre a exploração ambiental – por meio do garimpo ilegal – à contaminação por mercúrio da água em Terras Indígenas, que deveriam estar protegidas. É o que propomos quando falamos da necessidade de contextualização dos temas ambientais pelo jornalismo, conduzindo o leitor às condições de entender fatos, causas e consequências dos problemas enfrentados.
Quando focamos nas consequências, temos farto material. A palavra genocídio apareceu novamente na imprensa durante o período da cobertura desta crise, que foi contextualizada por entrevistas e artigos sobre direitos humanos, antropologia, saúde, com autoridades, militantes e especialistas. Em 20 de janeiro, a reportagem de Samantha Rufino e Valéria Oliveira, de Roraima para o Portal G1 trouxe elementos básicos para o entendimento da situação dos povos, indicando a questão alimentar como fundamental para o quadro triste de mortes de mais de 500 crianças e outras tantas em desnutrição crônica. No dia 24 de janeiro, Laís Seguin escreve para o Portal UOL e faz um histórico da tragédia com foco nas questões da saúde da população indígena.
Em fevereiro, algumas reportagens aprofundaram a questão mostrando porque políticas públicas e fiscalização do governo são essenciais para a região, como neste caso do texto de João Fellet e Leandro Prazeres na BBC. “O número de mortes por desnutrição de indígenas da etnia yanomami aumentou 331% nos quatro anos do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em comparação com os quatro anos anteriores”. No G1, a ênfase às práticas econômicas prevaleceu na análise sobre os fatos, em reportagem de Arthur Stabile e Poliana Casemiro: “Dados do Inpe mostram crescimento da mineração ilegal em áreas de reservas protegidas e especialista vê projeto de exploração econômica da Amazônia como fator determinante para a prática.”
De forma geral, para uma observação mais crítica, podemos pensar em causas que ficaram de fora da maioria dos relatos. Como por exemplo, para além da contaminação por mercúrio, a forte pressão de violência que impedia os indígenas de caminhar, coletar, plantar, usufruir do território, e como isso faz impacto direto na situação de fome e insegurança alimentar.
Lembramos, ainda, que há o olhar do jornalismo local que trouxe mais elementos para entender o contexto. Entre esses, destacamos o material da agência de jornalismo independente e investigativo Amazônia Real. Vale conferir a reportagem do IJNET que discute a cobertura, incluindo a percepção de jornalistas indígenas. Também por conta da explosão da pauta, outros veículos locais recuperaram denúncias de outros povos, como os Kaingangs no Rio Grande do Sul, como nesta notícia de Luis Gomes noSul 21.
A repercussão da crise também incluiu apontar que o desmatamento nas terras Yanomami cresceram 25% somente em 2022, com dados do INPE, como publicado por Diego Gimenes na revista Veja. As notícias sobre desmatamento e garimpo ilegal ainda vão persistir, pela complexidade das ações necessárias, que envolvem imediata desintrusão das terras, demarcação e homologação de processos dos territórios, para o bem dos povos originários e do planeta. Ao jornalismo cabe manter-se firme no acompanhamento da pauta, uma das mais importantes desta década.
* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br
Imagem: captura de tela do Jornal Nacional – Edição de 30 de novembro de 2022 disponível na plataforma Globoplay
Por Débora Gallas Steigleder*
Na última quarta-feira, dia 30 de novembro, foram divulgados os números do programa Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), referentes ao desmatamento da Amazônia entre agosto de 2021 e julho de 2022. O monitoramento é anual e realizado através de satélites. Apesar da diminuição em relação ao ano anterior, a supressão da vegetação nativa no maior bioma do país segue acima de 10 mil km², conforme destacou reportagem da Folha de S. Paulo, e o índice deste ano é o segundo pior em 14 anos, como lembrou William Bonner no Jornal Nacional. A matéria de Vladimir Netto explicouque os 11.568 km² devastados equivalem a duas vezes o território do Distrito Federal.
Além do desafio de contextualizar números para evidenciar ao público a grande dimensão dos impactos registrados, o jornalismo precisa explicar por que os índices de eliminação da floresta se mantêm altos, sobretudo no estado do Amazonas – onde o desmatamento cresceu desde 2021. Isto não foi difícil para Jornal Nacional, Folha de S. Paulo e outros veículos nacionais que repercutiram o tema, como g1. Afinal, desde o início da gestão de Jair Bolsonaro, o crescimento desses números foi uma constante.
As principais fontes consultadas para repercutir o tema são os próprios cientistas do INPE, responsável pelo levantamento, e especialistas da academia e do terceiro setor que têm alertado para a política de destruição da natureza levada a cabo pelo governo federal, como Observatório do Clima e MapBiomas. Já é evidente para o público que o sucateamento de estruturas como a de fiscalização de infrações contribui diretamente para esses números. As derrubadas de floresta com fins especulativos na área conhecida como AMACRO – que engloba os estados do Amazonas, Acre e Rondônia e contém a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho – são consequência direta dessa política.
Chama atenção, portanto, a ausência de vozes do governo nessas reportagens para comentar os índices e trazer alguma explicação. O Ministério do Meio Ambiente nada quis declarar à reportagem da Folha de S. Paulo. Um breve contraponto do Ministério da Justiça foi lido por Bonner ao fim da reportagem de Jornal Nacional, no formato de nota pelada. Já o g1 não detalha se procurou o governo para comentar o assunto.
Nós, pesquisadores em Jornalismo Ambiental, sempre frisamos a importância da diversidade de vozes nas coberturas ambientais para ir além do factual e do discurso padrão das fontes oficiais. Porém, o que fazer quando a fonte oficial precisa dar explicações à sociedade e se exime de suas reponsabilidades? Vemos que, principalmente após a fala do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva na COP27, a pauta climática já é direcionada à equipe de transição. Mas Jair Bolsonaro ainda é presidente e Joaquim Leite, seu Ministro do Meio Ambiente. Cabe ao jornalismo não desistir de cobrar as justificativas que eles nos devem.
*Jornalista, doutora em Comunicação, pesquisadora do GPJA
Recentemente o site lunetas (lunetas.com.br) — um portal de jornalismo para famílias interessadas na temática da infância, mantido pelo Instituto Alana — publicou uma matéria que traz 13 projetos feitos por alunos para preservar a natureza e garantir um futuro mais sustentável. Os projetos foram desenvolvidos por crianças de escolas públicas brasileiras e selecionados na premiação do Desafio Criativo da Escola.
“Treze projetos sobre meio ambiente criados por crianças e jovens” (https://lunetas.com.br/projetos-meio-ambiente-criancas-jovens/), integra o especial “Emergência climática e as infâncias: por um futuro no presente”, proposta lançada pelo Lunetas em setembro de 2021 e que se estendeu ao longo de 2022. Durante todo o ano foram publicadas reportagens com conteúdos aprofundados por jornalistas e especialistas, que mostram os diferentes impactos da emergência climática às crianças brasileiras, além de reflexões, inspirações, caminhos e soluções para combater a crise.
Esta iniciativa maravilhosa, que mostra ações de formiguinhas com as novas gerações para enfrentamento da crise climática e de mobilização pela não destruição do planeta, nos mostra o quanto é importante a ação humana e o acesso a informações seguras e confiáveis, o que nem sempre tem ocorrido nos espaços de imprensa tradicionais.
Por isso, cada vez mais espaços de informação e de jornalismo de qualidade estão surgindo, mostrando que o acesso à informação é possível e que existem sim jornalistas preocupados com a ação humana, com a comunicação cidadã e que contribuem para um futuro melhor. Mudanças de atitudes e apoio à ação climática passam pela apresentação de iniciativas que contribuem para a mitigação e à adaptação climática.
Nosso desejo é que o tema ambiental esteja no dia a dia de nossos pensamentos e ações, no jornalismo feito por iniciativas privadas nas redes sociais e na internet, mas, sobretudo, na grande imprensa.
*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Imagem: Site do Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa
Em 2019, neste observatório, Carine Massierer abordou a nova fronteira da mineração no Rio Grande do Sul. De lá até aqui, muitos passos foram dados em relação aos projetos citados em sua análise. O Mina Guaíba, de extração de carvão, foi arquivado em março deste ano. Também arquivou-se o Projeto Caçapava do Sul, que propunha a implantação de uma mina de Chumbo, Zinco e Cobre às margens do rio Camaquã. O projeto Retiro, de extração de Titânio, ainda está em discussão. Atualmente, mais de 150 plantas de mineração manifestam interesse de se instalar no estado. Dentre estes, o Projeto Fosfato Três Estradas, em Lavras do Sul, que teve suas Licenças de Instalação (LI) liberadas pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) e Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), no início deste mês.
O projeto que prevê a extração, beneficiamento e comercialização de minério de fosfato destinado à elaboração de fertilizantes para a agricultura, em Lavras do Sul, já havia sido trancado anteriormente por constarem vícios no processo de licenciamento, causando prejuízos ao meio ambiente e às comunidades e povos tradicionais do Pampa. Para esta análise, tomamos notícias publicadas sobre o assunto no momento da liberação da LI, a fim de entender como o contraponto à posição da empresa interessada, a Águia Fertilizantes, foi apresentado.
Em 1º de novembro, o Diário de Santa Maria divulgou online e, também, em sua edição impressa, que “Lavras do Sul terá a primeira mina de fosfato da região sul do Brasil”. O texto foi uma reformulação de release enviado pela prefeitura de Lavras do Sul, também publicado pelo jornal Minuano, de Bagé, maior cidade da Campanha Gaúcha, região na qual Lavras está inscrita. Neste, com o título “Águia Fertilizantes obtém licença de instalação de mina de fosfato em Lavras do Sul”, o texto descreve os participantes do evento, do que consta o empreendimento e quanto material será extraído, além da geração de empregos e vida útil da mina. Destaque para a perspectiva de dobrar a produção inicial entre oito a dez meses. Nada sobre os perigos dessa extração para o meio ambiente foi citado. A liberação foi destaque na capa do referido jornal.
Até o momento, no mês de novembro, apenas duas publicações foram feitas no Jornal Minuano sobre o assunto. Além da matéria já citada, mais uma inserção sobre o Projeto Fosfato Três Estradas foi feita pelo Minuano na edição de 5,6 e 7 de novembro, sob o chapéu “Política”, também em sua capa. No texto intitulado “BRDE firma termo para financiar mina de fosfato”, são destacados os R$15 milhões de aporte para as obras. Novamente, trata-se de texto exclusivo sob a perspectiva da empresa, sendo o CEO da Águia Fertilizantes a única fonte a se pronunciar.
Ainda em 1º de novembro, o Correio do Povo publicou “Licença para minerar fosfato em Lavras”, texto que mescla as mesmas informações do release da prefeitura de Lavras com fala do secretário da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, Domingos Velho Lopes, para quem “[…]esse empreendimento não se afasta um centímetro do ambientalmente correto”. O texto aponta, ainda, que o estudo recebeu atenção de um grupo técnico multidisciplinar da Fepam e do Departamento de Recursos Hídricos da Sema. Nenhuma menção é feita aos povos tradicionais do Pampa ou mesmo aos perigos da exploração de fosfato.
A Zero Hora publicou sobre o assunto em 8 de novembro apostando na proposta de que a exploração de fosfato no estado ajude a reduzir a dependência nacional de importação de fertilizantes, com a expectativa de que o projeto de Lavras impulsione a produção noutras regiões. Do mesmo modo, o jornal não ofereceu uma linha para tratar das ameaças da exploração para o meio ambiente e para os povos tradicionais.
Com tantas plantas de mineração buscando instalação no estado e a falta de interesse do jornalismo em abordar quaisquer outras perspectivas da questão que ultrapassem a economia, o Bioma Pampa, bem como os povos tradicionais, seguem em perigo. Do lado de cá, propomos criar espaços em que se possa ouvir e multiplicar as perspectivas dissidentes, de modo que a pressão popular traga efeitos, como os vistos na Mina Guaíba e no Projeto Caçapava do Sul. A Licença de Operação para o Projeto Fosfato Três Estradas ainda não foi concedida. Pode haver tempo.
Este texto tem como base de reflexão material escrito por Nathália Gameiro, em 10 de outubro de 2022, em alusão ao Dia Mundial da Alimentação: não deixar ninguém para trás, do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura (Palin) da Fiocruz Brasília. Na data em que se comemorou o Dia Mundial da Alimentação no dia 16 de outubro, a reflexão deveria também ser sobre como a Amazônia, uma região rica em variedade e diversidade de espécies vegetais e animais pode contribuir para a erradicação da fome do planeta. A data está ancorada em quatro pilares: melhor nutrição, melhor produção, melhor ambiente e melhor qualidade de vida e foi escolhida para lembrar a criação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 1945. A partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o Dia Mundial da Alimentação de 2022 traz o desafio da redução das desigualdades, incluindo a segurança alimentar e nutricional do mundo. O consumo de produtos oriundos da floresta amazônica ainda se apresenta de uma forma bastante restrita aos moradores tradicionais da região e, na atualidade não chega nem mesmo a representar um fator positivo para a sustentabilidade da segurança alimentar para os nativos. E esses produtos estão distribuídos de forma bastante variada nos reinos animal e vegetal em toda a vasta extensão territorial que engloba o bioma amazônico. A exuberância da floresta com seus rios caudalosos, sempre apresentou para as populações exóticas uma impressão de fartura inesgotável, ledo engano. Na floresta tanto animais como vegetais possuem seus ciclos naturais de produção e reprodução, assim como locais apropriados para sua existência. O aumento da exploração e exportação dos recursos naturais utilizados como alimento fora da região colocou em risco a própria segurança alimentar da população regional, pois toneladas de pescado são exportados a cada ano para as demais regiões do Brasil, sendo que essa captura além do fato da retirada do produto ainda possui como efeito paralelo o desperdício de pescado não comercializável que é descartado, não permitindo a recuperação natural dos cardumes; as carnes de caça de animais silvestres já há algum tempo entraram no rol dos produtos proibidos pois a captura foi tão intensa e descontrolada que praticamente dizimou as populações de espécies comestíveis. A floresta amazônica não tem a capacidade de alimentar de maneira satisfatória a população humana que hoje se abriga em seu território. Contudo, essa floresta tem a capacidade de contribuir com uma variedade de produtos de origem vegetal e animal que dela tem origem. Finalizo minha breve reflexão aproveitando artigo sobre a utilização da semente do cupuaçu como um produto alternativo a amêndoa do cacau, encontrado no site do G1. Isso representa uma iniciativa inovadora tanto no campo alimentar como na produção de renda para a população regional, pois o cupuaçu até recentemente tinha como aproveitamento apenas sua polpa de sabor inconfundível para a produção de sucos e sorvetes. Suas amêndoas que correspondem a metade do seu peso eram descartadas no processo de produção da polpa. Da região amazônica apenas a polpa do açaí ganhou destaque de consumo fora da região em razão de sua popularização junto ao público praticante das academias de fitness, outras frutas regionais que oferecem sucos deliciosos como a bacaba, patauá, buruti, taperebá, têm seu consumo restrito a região e a população de mais idade. O jornalismo ambiental portanto, vai muito além das matérias oportunistas, educação e sensibilização devem ser sempre o foco de sua orientação.
*Doutorando pelo PPGCOM, DINTER UFRGS/UFAM. E-mail: ferreiraalberto2009@gmail.com
Referências
Nathália Gameiro, em 10 de outubro de 2022, em alusão ao Dia Mundial da Alimentação: não deixar ninguém para trás, do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura (Palin) da Fiocruz Brasília Cupulate: o desafio do ‘primo’ do chocolate que pode ajudar Amazônia, segundo pesquisadores. Por BBC em 09/10/2022 15h52 texto originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62665457
Imagem: o candidato Lula em campanha com indígenas em Belém (PA) – Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert
Por Sérgio Pereira*
É impossível determinar o quanto o tema “meio ambiente” influenciou na escolha por Luiz Inácio Lula da Silva, presidente eleito por mais de 60 milhões de brasileiros. Afinal, o voto é secreto. Há algumas elementos, no entanto, que podem ajudar a mensurar quais foram os principais interesses do eleitor neste pleito de 2022.
Uma dessas ferramentas é uma pesquisa divulgada pelo Datafolha no início de setembro sobre as questões mais importantes para o eleitorado na hora de se definir entre os postulantes à Presidência. O formulário do levantamento, no entanto, relaciona apenas seis assuntos e não questiona os entrevistados sobre meio ambiente, conforme dados disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral.
Aqui, permita-me um parêntese: o instituto de pesquisa poderia ter definido apenas temas genéricos no questionário aplicado, como educação, saúde, transporte, segurança ou meio ambiente. Ao contrário, colocou no levantamento três pautas gerais e outras três que faziam parte da campanha do candidato da extrema direita: defesa dos valores da família; combate à corrupção; e combate à violência. Já plataformas defendidas pelos candidatos da esquerda, como combate à fome, inclusão social ou defesa da Amazônia, por exemplo, foram ignoradas.
Nesta pesquisa, os entrevistados elencaram como suas principais preocupações eleitorais a saúde, com 34%; educação, com 24%; e emprego e renda, com 17%. O combate à corrupção aparece em quarto lugar, com apenas 10% de interesse; seguido da defesa dos valores da família, com 7%; e combate à violência, com 6%.
Outra pesquisa foi elaborada no início de setembro, quando o PoderData entrevistou 3.000 pessoas sobre a importância da Amazônia para o desenvolvimento da economia brasileira, sendo que 74% responderam afirmativamente. O levantamento encomendado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), no entanto, fixou-se apenas no Bioma Amazônico, com um viés econômico e sem perguntar até que ponto esse item influenciaria na hora do voto, não sendo possível, portanto, utilizá-lo como indicador nesta breve pesquisa.
Um novo instrumento que nos auxilia a medir o interesse sobre determinados temas, mesmo que seja de uso restrito, é o Google Trends (GT). Para quem não se aventurou ainda a usar, o GT é “uma ferramenta de avaliação de dados que permite que os usuários personalizem as pesquisas por termos e frases relevantes e monitorem as tendências de SEO (Search Engine Optimization ou otimização de mecanismos de busca) em qualquer período definido”, conforme definição da própria plataforma.
Em outubro, o GT disponibilizou um levantamento sobre os principais assuntos pesquisados envolvendo os dois candidatos do segundo turno. Importante destacar que a aba ainda está ativa e continua sendo atualizada.
Os internautas, quando pesquisaram sobre Lula nos últimos 90 dias, procuraram respostas para questões como o boné usado pelo candidato em determinado dia da campanha com as letras “CPX” (que significam “complexo do Alemão”, mas que foi usado como fake News por parte do adversário como sendo de uma facção criminosa) ou sobre a participação do ex-presidente em entrevistas, como no Programa do Ratinho ou no podcast Flow.
Já sobre Jair Bolsonaro, no mesmo período, as 25 principais consultas envolveram pontos com “pintou um clima” ou “pedófilo” (sobre um comentário feito sobre um momento de campanha em que encontrou meninas venezuelanas entre 14 e 15 anos), “canibal” (outra declaração mais antiga sobre episódio em que se mostrou interessado em comer um indígena), além de participações suas em programas de entrevistas.
Nos dois casos, nada envolvendo assuntos da esfera ambiental, o que já é revelador sobre o desinteresse do eleitor pelo assunto.
Um dos objetivos da imprensa é despertar a sociedade sobre assuntos que são relevantes. Em rápida análise sobre o principal jornal do RS, é possível constatar que Zero Hora divulgou pelo menos sete matérias envolvendo “eleições e meio ambiente” em outubro, durante a campanha do segundo turno. Entre elas, um texto tratando do desmatamento na Amazônia no governo atual e em outra comparando propostas dos dois candidatos sobre diversos temas e entre eles foi incluído o meio ambiente. Ou seja, não houve omissão por parte de ZH, mas o jornal poderia ter explorado mais o assunto por sua importância não apenas para os brasileiros, mas para todo o mundo.
Pode-se afirmar que a vitória de Lula passa por uma série de fatores. Pautas como combate à fome, mais empregos e defesa da democracia foram fundamentais neste processo eleitoral. Mas a estratégia equivocada de Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19, sua total inabilidade para tratar os principais problemas nacionais e seu estilo insultuoso também pesaram na decisão do eleitor. Não há indícios, porém, para afirmar que os temas ambientais foram decisivos para a grande maioria do eleitorado brasileiro, infelizmente. Mesmo assim, os 60 milhões de brasileiros que miraram em outros interesses acabaram por dar um basta à política devastadora de Bolsonaro. Mais quatro anos poderiam ser irreversíveis e, por isso, o mundo agradece.
*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente
A eleição de 2022, definidora do futuro da democracia brasileira, colocou em cena também, entre tantos outros temas, a pauta socioambiental e a beira de um possível abismo. Se o futuro brasileiro aos votos pertence e o novo governo tem as credenciais para o tema, um recorte temporal apenas sobre as matérias da última semana indica o presente devastador em que estamos inseridos.
Na quinta-feira, 27/10, foi publicado o relatório anual de lacunas de emissões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), e o diagnóstico é de um ínfimo avanço no sentido de redução das emissões até 2030, desde a COP26, de Glasgow em 2021. O relatório aponta que as novas metas climáticas submetidas pelos países permanecem insuficientes para preencher a lacuna de emissões, caso desejemos limitar o aquecimento do planeta aos 2ºC acordados em Paris, em 2015.
Se números, acordos e metas de emissão por vezes soam abstratos, as consequências são das mais concretas. Na quarta-feira, 26/10, um relatório da premiada revista The Lancet apontou um aumento de 68% na mortalidade relacionada ao calor, para pessoas acima de 65 anos. Além disso, o documento expõe o aumento de 29% em áreas do planeta afetadas por secas extremas, entre outras consequências da emergência climática que podem ser verificadas nesta matéria publicada pela Folha de São Paulo. Ainda sobre os efeitos do calor, no mesmo dia a UNICEF publicou o prognóstico de que, até 2050, todas as crianças devem estar expostas à alta frequência de ondas de calor. Outros detalhes sobre este relatório foram publicados também pela Folha, evidenciando um papel importante do jornal na informação da pauta climática.
O mundo assiste, preocupado, aos efeitos da crise climática e a inépcia de governantes, ao mesmo tempo em que observa, de longe e aflito, os desdobramentos das eleições brasileiras. A pauta do desmatamento é central, e ninguém menos que o New York Times publicou que a eleição brasileira irá determinar o futuro do planeta. Por fim, e fechando este sobrevoo pelas matérias da semana que passou, o STF formou maioria para determinar a reativação do Fundo Amazônia pelo governo federal em até 60 dias. A notícia é boa, mas mais importante são as escolhas que o governo eleito fará para gerir este e tantos outros recursos.
* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.