Com o início das campanhas eleitorais no Brasil em 16 de agosto, o jornalismo começou a cobrir mais ativamente as mensagens que vêm sendo transmitidas pelas campanhas dos presidenciáveis. Não é inesperado que muitos veículos de comunicação se voltem para as possíveis propostas de governo direcionadas à questão ambiental, após quatro anos de notícias sobre os enormes impactos ambientais negativos devidos à atuação do atual governo federal. Como memória disso e de acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), lembramos que houve um aumento de 56,6% da média de desmatamento anual da Amazônia de 2019 à 2022 em comparação com o período anterior (2016 à 2018).
Contudo, mesmo com a realidade dos últimos quatro anos e com a quantidade enorme de dados científicos sobre a questão, a cobertura sobre as propostas dos presidenciáveis tem se dado através de um debate raso e meramente declaratório em muitos veículos. Como exemplo disso, podemos ver a matéria do Uol acerca da declaração de Bolsonaro sobre as áreas indígenas protegidas fazerem o mapa do Brasil parecer com um “corpo com catapora” – um país pintado com áreas protegidas que “afetariam o agronegócio e o homem do campo”. Essa matéria, publicada no dia 26 de agosto, não faz nada além de declarar o que foi dito pelo candidato à reeleição, apenas aumentando ainda mais o alcance da falácia sobre um assunto complexo, que poderia ter sido debatido com pesquisas sérias na área e importantes vozes que atualmente abordam esse tema. O mesmo é feito pelo PortalTerra que, apesar de fazer um compilado de falas dos principais quatro presidenciáveis sobre a questão do marco temporal às terras indígenas, não se posiciona sobre o tema com dados e pesquisas, tratando o debate como meras opiniões equivalentes a serem consideradas.
Essa falta de profundidade afeta várias questões ambientais dentro do jornalismo que pauta as eleições, como as matérias que cobrem as propostas em relação ao agronegócio e as possibilidade de reforma agrária no Brasil. O jornal Correio do Estado publicou uma matéria no dia nove de setembro sobre as declarações de Ciro Gomes, candidato do PDT, sobre a temática. O tom novamente foi meramente declaratório, expandindo as falas do presidenciável sobre a força do agronegócio como o setor econômico “que leva o Brasil nas costas”. Além disso, a matéria apenas reescreve as falas do candidato sobre o “problema econômico do agronegócio” relacionado com o consumo de fertilizantes externos da Rússia e da Ucrânia, o que o faz pensar em medidas para criar autonomia brasileira na produção de fertilizantes. Essa tonalidade neutra do Correio do Estado faz com que não haja nenhuma discussão real e científica sobre as propostas – como faz o projeto O Joio e O Trigo que mostra que a investigação sobre os impactos do uso de agrotóxicos ocasiona perseguições e mortes no nosso país.
Por isso, qual deve ser o papel da cobertura das propostas dos presidenciáveis ao meio ambiente dentro do jornalismo ambiental? Sem dúvida, não deve ser um jornalismo que se pretende neutro e, para isso, opera simplesmente através da declaração do que está sendo dito por diferentes candidatos. Ao contrário, deve tomar posição através da memória do que temos vivido nos últimos quatro anos e deve retomar a fala de inúmeros pesquisadores na área para que tenhamos um entendimento melhor de quais são as propostas mais adequadas que juntam pensamento político e pensamento acadêmico/científico.
* Cientista Social/Antropólogo. Mestre em Comunicação. Atual doutorando em Comunicação pelo PPGCOM/UFRGS.
Como medir a preocupação da população com questões ambientais — mais especificamente, as mudanças climáticas? Não é uma questão trivial, mas uma pesquisa da Ipsos Global Advisor realizada em 27 países, em junho de 2022, buscou responder. São duas as informações principais e que mais chamam a atenção: o Brasil está em penúltimo lugar entre os países cuja população trata o tema como prioridade, apenas à frente da Argentina; por outro lado, 77% dos brasileiros externalizaram preocupação com os impactos da emergência climática no país.
Num olhar raso, o resultado pareceria contraditório. Não é. Acontece que a pesquisa mede — e a matéria publicada n’O Globo corretamente contextualiza isto —, num primeiro momento, a proporção de pessoas que trata as mudanças climáticas como assunto prioritário. Não surpreendentemente, os países que figuram no ranking dos mais desenvolvidos do mundo ficaram nas primeiras posições, com exceção da Índia, variando entre 20% e 31% dos entrevistados; o Brasil soma 4%, enquanto a média global foi de 16%. Embora numa análise mais especulativa do que assertiva, o que podemos interpretar do outro questionamento da pesquisa (em que três quartos dos brasileiros estão preocupados) é que a liderança de países do Norte Global não se trata apenas de uma questão “educacional”. A prioridade de preocupação com as mudanças climáticas é, por certo, relacional: países devassados pela alta da inflação, fome, crise econômica, violência etc. colocam a crise climática num segundo escalão — o que não significa, necessariamente, que a desprezem.
De qualquer forma, ainda que a ampla maioria dos brasileiros pareça preocupada com o tema, é preciso cada vez mais apresentar para a população a relação intrínseca entre as questões ambientais e os outros fatores, sociais, urbanos e econômicos, que afligem a população. A atuação contra as mudanças climáticas é, necessariamente, socioeconômica, e com impactos proporcionalmente maiores para os países e populações mais pobres. É aí que entra o papel da imprensa, como reiteradamente pontuamos neste Observatório, de não estar limitado à exposição factual dos acontecimentos e desastres ambientais, ou das longínquas reuniões políticas sobre o clima: é necessário que a conexão entre meio ambiente e a vida real das pessoas perpasse, inexoravelmente, a produção do jornalismo ambiental.
* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.
Michael Frome, um dos pioneiros do jornalismo ambiental nos Estados Unidos, participou de um evento em Curitiba, em 2004, e fez questão de circular pela capital paranaense com um botão da campanha de John Kerry no peito. O jornalista queria mostrar aos brasileiros que George Bush, que acabou reeleito naquele ano, não tinha o apoio de todo povo norte-americano. Perguntado se exibir uma preferência tão ostensiva não atentaria contra a isenção jornalística, o experiente repórter respondeu:
– Não caio nessa conversa. Pensando bem, nunca fui imparcial. Para mim, o jornalista não pode ser imparcial porque tem que ser um advogado das boas causas. Precisa defender a liberdade de expressão, o direito à verdade, atacar a corrupção, tirar a roupa do rei diante da opinião pública. Como fazer isso sendo imparcial?
Esta história foi contada por Marcos Sá Corrêa em um de seus textos publicados no primeiro ano de O Eco, site especializado em jornalismo ambiental criado por ele em 2004 em parceria com Kiko Brito e Sérgio Abranches. Filho do jornalista político Villas Boas Corrêa, Marcos trabalhou na revista Veja, no Jornal do Brasil, no jornal O Dia e na revista Época. No início do século XXI, migrou para o jornalismo online e independente, lançando o site No. (lê-se No Ponto), que se tornou o embrião do No mínimo e ajudou João Moreira Salles a criar a revista Piauí.
Em seis anos de atuação no site O Eco, ele produziu cerca de 300 textos. Parou de publicar após um acidente doméstico ocorrido em fevereiro de 2011. Para comemorar o aniversário de 18 anos, o site O Eco lançou no mês passado o livro Olhar Perto, Enxergar Longe: Crônicas ambientais atemporais, com 98 colunas de Marcos Sá Corrêa. O livro é organizado em 10 capítulos: Naturalistas e outras feras; Mirantes para o futuro; A arte de andar no mato; Desenhando arcas; Ecos de uma cidade; Notícias do fim do mundo; Jornalismo com causa; Quem barra Barra Grande?; Foco na última chance; Moradas do Iguaçu. Várias crônicas receberam ao final um rodapé chamado Em Tempo com atualizações apuradas especialmente para o livro.
No texto de abertura do capítulo Jornalismo com causa, Sá Corrêa defende que a primeira reportagem ambiental publicada no Brasil foi Os Sertões, de Euclydes da Cunha. Ainda nesta seção do livro, logo após o relato do seu encontro com Michael Frome que aconteceu em Curitiba em 2004, está a crônica “Agora em português, a voz do velho radical” apresentando o livro Green Ink: uma introdução ao jornalismo ambiental lançado nos Estados Unidos em 1996 e publicado em português em 2008.
– A receita de Frome cabe em poucas palavras. “Alfabetize-se, e corra riscos”, ele disse anos atrás a um estudante que lhe pedira conselhos. Pôs tudo nessa frase. Sem alfabetizar-se, o aprendiz de jornalista não terá palavras para publicar o que as pessoas, em geral, preferem não ouvir. E sem correr riscos, não deixará o aconchego das fontes oficiais e das versões confortáveis, para recolher as histórias que, por incômodas, não têm porta-voz.
Não por acaso, logo depois do capítulo Jornalismo com Causa há uma compilação de colunas de Sá Corrêa sobre o escândalo de Barra Grande, relatando a luta da ambientalista Miriam Prochnow, da ONG Apremavi, contra a construção de uma hidrelétrica que devastaria florestas primárias em Santa Catarina. O Em Tempo do capítulo atualiza o caso, que entrou para a história do ambientalismo brasileiro e chegou a mudar a legislação de crimes ambientais:
– A hidrelétrica de Barra Grande alagou 4 mil hectares de floresta com Araucárias, e a espécie de bromélia Dyckia distachia foi extinta da natureza. As compensações ambientais não saíram do papel: apesar de um estudo multidisciplinar recomendar a criação do Refúgio de Vida Silvestre do Rio Pelotas, a proposta segue engavetada, assim como os R$ 22 milhões que deveriam ter sido investidos em ações de conservação. A luta contra a barragem, porém, mudou a lei de crimes ambientais, que passou a incluir o “artigo Barra Grande”, responsabilizando criminalmente técnicos que assinarem laudos falsos: pelo artigo 69-A da lei 9.605/1998, quem “elaborar ou apresentar, no licenciamento, concessão florestal ou qualquer outro procedimento administrativo, estudo, laudo ou relatório ambiental total ou parcialmente falso ou enganoso, inclusive por omissão” está sujeito a pena de 3 a 6 anos de reclusão, além de multa. A repercussão do caso também foi decisiva para que, até agora, permaneça arquivado o projeto da hidrelétrica Pai Querê, que inundaria mais de 100 km ao longo das margens do rio Pelotas. Miriam Prochnow e a Apremavi continuam denunciando agressões ao meio ambiente e promovendo ações de educação ambiental, conservação da biodiversidade e restauração florestal. Em 2023, a Apremavi completa 35 anos.
Dar voz a bichos e plantas, através daqueles que se interessam em protegê-los, é um dos valores éticos do site O Eco, criado por Marcos Sá Corrêa. Quando a identidade do novo veículo especializado estava sendo definida aconteceu um diálogo entre seus fundadores (https://oeco.org.br/noticias/15310-oeco_9963/) que é uma verdadeira aula de jornalismo ambiental. Lá pelas tantas, Marcos Sá Corrêa explica sua concepção de jornalismo com causa:
– (…) a tal declaração de que cobriremos qualquer assunto, mas sem perder de vista que estamos aqui tratando de conservação da natureza, foi posta ali para nos servir de lembrança que, se bobearmos, cairemos num dos excessos que a meu ver espremem o noticiário ambiental na imprensa. De um lado, ele é apertado pela suposição de que tudo vem antes dele – política, economia, esporte, cinema. Se não há um desastre qualquer, tipo vazamento de óleo na Baía de Guanabara, meio ambiente é um assunto que mais ou menos se esconde lá no fundo dos jornais, na companhia de achados arqueológicos e outros bichos. Ou melhor, outra falta de bichos. Do outro lado, quem já se converteu ao ambientalismo acha que todas as linhas, toda beirada de espaço que puder pegar nos meios de comunicação é para fazer denúncia e catequese. Resultado: uma pauta “ambiental”, que trata a conservação da natureza como uma cruzada evangélica. Temos que nos lembrar o tempo todo que o site aposta todas as fichas na suposição – será fantasia? – de que o ambientalismo já está ficando grande demais para continuar restrito aos ambientalistas. Nós queremos ir atrás de um grande assunto que todo mundo está perdendo. Bem, pelo menos era isso que eu quis dizer.
O livro Olhar Perto, Enxergar Longe, recém lançado, mostra como Marcos Sá Côrrea transformou a conservação da natureza em um grande assunto jornalístico. A obra é mais uma importante contribuição do site O Eco para a qualificação do jornalismo ambiental brasileiro.
FROME, Michael. Green Ink: uma introdução ao Jornalismo Ambiental. Curitiba: Editora UFPR, 2008.
*Roberto Villar Belmonte é professor de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
O jornalismo ambiental compartilha procedimentos e técnicas também recorrentes no jornalismo tradicional. Porém, busca sua independência em relação ao formato hegemônico e aos ditames que o mercado impõe ao jornalismo tradicional com foco na economia e na promoção do consumo. O jornalismo ambiental não é uma exclusividade das editorias especializadas dos meios de comunicação, das revistas especializadas mas, pode ser fruto da ação de comunicação de povos isolados, como os indígenas da floresta amazônica. Ao se deixar envolver pelo saber ambiental, que deve constituir sua fonte primária, o jornalismo ambiental pode ser praticado pelos pajés, pelo agricultor familiar, pelo cidadão que se sente responsável pela vida de sua comunidade.
O jornalismo ambiental se tornou fundamental para uma sociedade que sabidamente já excedeu sua capacidade de consumo em relação aos recursos do planeta. Sua presença se tornou necessária, contudo sua ausência pode significar uma omissão imperdoável para a vida do planeta. Não importa o meio utilizado para sua realização: é necessário que o cidadão, seja ele leitor, internauta, telespectador, radiouvinte, possa ter acesso a mensagem comprometida e militante, conforme Wilson da Costa Bueno, citado por Roberto Villar Belmonte.
O jornalismo ambiental se alimenta da vida que pulsa no seio do planeta. No meio da selva amazônica, na aldeia dopovo Sateré Mawé, na região do rio Andirá, município de Barreirinha-AM, uma experiência de rádio comunitária indígena está acontecendo a partir de uma iniciativa dos missionários do PIME (Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras) que sob a coordenação do missionário Henrique Uggé desde a década de 1970 atua junto aqueles povos. A rádio comunitária ‘Sateré Ty FM 87.9’ foi instalada nas dependências da Escola Indígena São Pedro (EISP), no rio Andirá.
O jornalismo ambiental ganha com o funcionamento da rádio um aliado dentro de uma realidade alvo das maiores redes de comunicação do planeta, a floresta amazônica.Por estar diretamente integrada a vida de um povo indígena que tem dificuldades de comunicação até mesmo entre suas comunidades espalhadas em meio a floresta e nas beiras dos rios, a rádio comunitária indígena, como falou seu diretor, José de Oliveira, será fundamental para divulgar os fatos e feitos relacionados com o cotidiano dos Sateré Mawé, a cultura desse povo será transmitida diretamente em sua língua nativa e no português para o planeta.
O rádio, que em sua maturidade se tornou um senhor vigoroso e elegante, apesar do avanço da tecnologia dos meios de comunicação, continua a exercer o seu papel de companheiro fiel (FERRARETO, 2007) das populações residentes em lugares em que os modernos meios de comunicação se tornam inoperantes. Alguns programas serão totalmente em língua materna, para isso, padre Uggé prepara locutores e apresentadores da própria área indígena. Segundo o missionário, a intenção é “fazer um trabalho de informação e de formação” e “dar oportunidades no campo da educação, da saúde, do social, etc. enfim, serão eles mesmos que farão este serviço”, disse.
A Área Indígena Sateré Mawé (AISM) compreende um perímetro de aproximadamente 450 km, composta de mais de 60 aldeias e comunidades. Da primeira até a última são quase 5h de viagem pelas curvas do Rio Andirá em período de cheia. Elas estão distantes umas das outras e “às vezes tem que ir de voadeira ou de rabeta – pequena canoa de madeira empurrada por motor na popa – paracomunicar, para avisar, para se encontrar. Com um meio desse que fala o idioma local é mais fácil esta interligação”, salientou padre Henrique.
O povo Sateré Mawé por estar localizado relativamente próximo da cidade de Parintins-AM, onde anualmente acontece um festival folclórico com a temática voltada na atualidade para os povos indígenas e a sustentabilidade do planeta, tem sido alvo constante da mídia para a divulgação de suas danças e rituais. Até mesmo pelo desconhecimento da língua daquele povo tudo que é apresentado mundo afora apenas tem a aparência do exótico, do fantástico e nada mais. Após a coleta de imagens e áudios nada mais resta do contato, os curumins e cunhantãs continuam suas vidas em meio a floresta e tomando banho nas negras águas do rio. Como a cultura indígena é transmitida apenas verbalmente e inscrita em utensílios de madeira ou barro, adornos produzidos com sementes, penas e outros materiais perecíveis, o “des-envolvimento sustentável” pode com o tempo envolver toda sabedoria ancestral nascida da floresta.
A presença de um veículo de comunicação comunitária no formato de rádio, com conteúdo de programação produzido pela própria comunidade, pode dar voz à um povo que se tornou conhecido mundo afora apenas pela narrativa midiática. O formato técnico e a linguagempodem estar muito distante do aspecto encantatório apresentado pelos mass media, contudo apresenta o que pode ser essencial para o jornalismo ambiental: a realidade histórica dos fatos e, principalmente apresentar o princípio da precaução, muito caro na prevenção de problemas ambientais futuros.
BELMONTE, Roberto Vilar. Uma breve história do jornalismo ambiental brasileiro. Revista Brasileira da História da Mídia, vol. 6, n0 2, jul./dez.2017.
FERRARETO, Luiz Artur. Estruturação da mercadoria das emissoras comerciais sob a convergência: apontamentos para uma economia política da indústria radiofônica. Revista FAMECOS mídia, cultura e tecnologia. Porto alegre, vol. 21, n. 3, p. 943 – 965, setembro-dezembro 2014.
Rádio Alvorada de Parintins-AM, 26/08/2021 – A rádio comunitária ‘Sateré Ty FM 87.9” foi instalada nas dependências da Escola Indígena São Pedro (EISP), no Rio Andirá. https://alvoradaparintins.com.br. Acesso às 15:50.
Permitam-me fugir um pouco à clipagem analítica semanal para tentar responder a uma questão já não tão recente e que, eventualmente, ainda surge, muitas vezes em tom inquisitório, aos jornalistas ambientais: por que devemos evitar o termo “desenvolvimento sustentável” (DS)? Pergunta que, muitas vezes, vem acompanhada da justificativa, quase um bordão, “mas todo mundo usa”.
“Desenvolvimento sustentável” já era utilizado desde a década de 1970, mas em 1988 recebeu a chancela das Nações Unidas quando foi conceituado no Relatório Brundtland, elaborado a partir da World Commission on Environment and Development (WCED). No documento, o termo é definido como “aquele que atende às necessidades das gerações presentes sem comprometer as necessidades das gerações futuras”. A crítica que se faz ao relatório é o fato de não ter se preocupado em detalhar as ações necessárias para se atingir esse objetivo. A partir de Brundtland, porém, a expressão se espraiou pelos confins midiáticos.
No jornalismo, há uma recomendação centenária para se evitar o lugar-comum, o chavão, o clichê. Da teoria à prática, porém, há muito mais ciladas do que se possa prever. Prova disso é que, hoje, é raro encontrar um texto sobre meio ambiente na imprensa sem estar associado a “desenvolvimento sustentável”. O conceito, com certa aparência de politicamente correto, na verdade é uma “armadilha” na visão de Leonardo Boff, teólogo, filósofo, escritor e membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.
Autor de “Sustentabilidade: o que é – o que não é”, Boff faz uma crítica ao uso de DS, que define como “antropocêntrico, contraditório e equivocado” em artigo no seu blog. Antropocêntrico por se focar apenas na humanidade, ignorando flora, fauna e demais organismos vivos, todos dependentes da biosfera. Contraditório porque os termos se opõem. Desenvolvimento implica a exploração da natureza e “privilegia a acumulação privada”. Sustentabilidade, por sua vez, está ligada à ecologia e às ciências da vida. E equivocado porque aponta a pobreza como causador da depredação ambiental. Para Boff, “as causas reais da pobreza e da degradação da natureza, vê-se que resultam, não exclusiva, mas principalmente, do tipo de desenvolvimento praticado. É ele que produz degradação, pois delapida a natureza, paga baixos salários e gera assim pobreza”.
Carlos Walter Porto Gonçalves critica a ideia de desenvolvimento, que na “sociedade moderno-colonial, pressupõe a dominação da natureza”. Aprofundando a reflexão ele nos diz que “desenvolver é tirar o envolvimento (a autonomia) que cada cultura e cada povo mantém com seu espaço, com seu território; é submeter o modo como cada povo mantém suas próprias relações de homens (e mulheres) entre si e destes com a natureza; é não só separar os homens (e mulheres) da natureza como, também, separá-los entre si, individualizando-os”. Essa separação abre o caminho para a dominação e para êxito da sociedade capitalista, o que nos leva a concluir que desenvolvimento não é sustentável.
Já para Ricardo Garcia, o problema é justamente a complexidade do termo, nem sempre devidamente delineado nos textos. O autor usa “faca de dois gumes” para se referir a DS. “É um conceito genérico, que se presta a muitas teorias e que, tratado de forma abstrata numa reportagem, pode levar o leitor imediatamente ao sono profundo. Fica bem em editorias e artigos de opinião sobre o ambiente. Soa grave e importante dizer, por exemplo, que um governo não faz nada pelo desenvolvimento sustentável: ninguém entende exatamente o que isto quer dizer, mas aquele Governo certamente não vai bem”, brinca Garcia.
O professor Wilson da Costa Bueno também alerta para os riscos do que ele chama de “conceito cosmético”. Para Bueno, o conceito de DS já está “contaminado (…) com a perspectiva econômico-financeira e é visto especialmente como um problema de gestão empresarial”. O professor argumenta que “o desenvolvimento sustentável para o jornalismo ambiental tem a ver com a qualidade de vida dos cidadãos e extrapola a vertente meramente econômica. Tem a ver inclusive com o monopólio dos meios de comunicação, que impede o livre debate das ideias e se sustenta pelo incentivo ao consumo exacerbado, quase sempre danoso ao meio ambiente”.
O tema, com certeza, não se esgota nessas breves considerações. Há vários autores, outros pontos de vista, que mereceriam ser analisados. O objetivo aqui era apenas levantar pontos que tragam alguma contribuição na reflexão sobre esse conceito que se tornou viral, buscando assim lançar algumas ponderações sobre o subjetivismo da prática jornalística.
*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental
Referências
BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é – o que não é. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente. São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.
GARCIA, Ricardo. Sobre a terra: um guia para quem lê e escreve sobre ambiente. Lisboa: Público, 2006.
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
Há uma dissonância entre os desastres ambientais decorrentes das mudanças climáticas e a forma como o jornalismo vêm noticiando estes acontecimentos. Enquanto o mundo pega fogo, literalmente, os principais veículos de comunicação do Brasil e do Mundo publicam matérias rasas que dão conta de apenas relatar os eventos climáticos e o número de pessoas foram afetadas. Mesmo que um jornalismo sistêmico e baseado na pluralidade de vozes ainda esteja distante, é necessário, no mínimo, o compromisso de garantir a informação e ser instrumento de transformação social.
Tivemos um JULHO DE EXTREMOS no hemisfério norte com ondas após ondas de calor com recordes, incêndios florestais e inundações ao mesmo tempo e isto está retratado nas matérias que são indexadas. As principais notícias da semana evidenciam o aquecimento global e seus impactos na vida de milhões de pessoas no mundo, e é inegável a ampliação de matérias sobre o tema nos últimos tempos.
Das matérias que mais se destacam está a que trata de Mudanças climáticas e da possibilidade de extinção humana, produzida e publicada pela BBC Brasileira. Ela foi replicada em vários outros espaços de comunicação como os sites G1, Uol, Yahoo, dentre outros tantos que copiaram o conteúdo.
Imagem: Captura de tela do site BBC em 06 de agosto de 2022.
A matéria traz os possíveis resultados catastróficos das mudanças climáticas, mas o novo estudo, que já é citado no primeiro parágrafo, não tem nem o nome colocado na publicação e não é esclarecido onde ele foi publicado, com qual o objetivo e os autores. Somente na última linha consta “O estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences”. Ou seja, vemos a reprodução de um conteúdo que tem muitas falhas e que as demais empresas de comunicação se limitam a copiar. Já no site Olhar Digital (Informação é a melhor arma contra a crise climática, diz relatório (olhardigital.com.br), o relatório é mencionado logo ao início, reforçando a necessidade de consideração dos piores cenários e elaboração de um esquema tático efetivo sobre o que fazer se — ou quando — o nosso modo de vida atual desmoronar.
Tendo em conta a importância da comunicação e do jornalismo para a tomada de decisões assertivas, mudanças de atitudes e apoio à ação climática, é preciso que sejam aprofundados os usos e explicitação quanto à mitigação e à adaptação climáticas nas matérias jornalísticas para que reverberem na tomada de atitude dos seres humanos. Há ainda um descompasso entre a realidade de um mundo que está pegando fogo e as preocupações em pauta nas empresas de comunicação que ainda estão tratando os incêndios de forma localizada e não ampliando e qualificando com mais informações os conteúdos publicados. Isto tudo decorre do foco do campo comunicacional,ainda centrado nos efeitos da crise climática mais do que em possíveis soluções para seu enfrentamento.
*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
O assunto que desde o início de 2022 vem mobilizando Florianópolis é a revisão do Plano Diretor. No primeiro semestre, a cobertura jornalística não acompanhava a complexidade dos debates que dominavam as redes sociais e os aplicativos de mensagens dos grupos organizados em torno das diferentes concepções para o crescimento da capital catarinense. Isso mudou no final de junho, quando a Prefeitura iniciou a série de 13 Audiências Públicas exigidas em Termo de Ajustamento de Conduta junto ao Ministério Público de Santa Catarina. Entre junho e julho, o mais expressivo produto jornalístico a abordar o tema foi o “Relatório ND: Plano Diretor”, conjunto de cinco cadernos cujos conteúdos circularam no jornal impresso ND, no portal ND+ e no Balanço Geral da NDTV, todos do Grupo ND, afiliado local do Grupo Record, que domina o setor no estado com o Grupo NSCComunicação, ex-RBS, retransmissor da Globo.
A análise a seguir se restringe ao conteúdo dos cinco relatórios que circularam no jornal impresso ND, em https://bit.ly/3PNmRfS. Cabe destacar que os movimentos populares de Florianópolis manifestam publicamente críticas à cobertura jornalística do Grupo ND, alinhado explicitamente aos interesses do governo de Jair Bolsonaro e reduto de colunistas tidos como porta-vozes dos interesses dos grupos dominantes locais. Por isso, foi recebida com desconfiança a iniciativa de produção de reportagens sobre o Plano Diretor.
Somados, os cinco cadernos (um para cada região da capital), encartados nas edições de 28 e 30 de junho e 9, 16, e 21 de julho, têm 88 páginas, número expressivo considerando o encolhimento sistemático dos jornais impressos. Segundo o grupo, 15 jornalistas se envolveram no projeto, com investimento de R$ 320 mil feitos pelo Núcleo de Dados e Investigação. No portal ND+, as reportagens contam com formato imersivo e animações e, no Balanço Geral da NDTV, foi usada a tecnologia de Realidade Aumentada para explicar aspectos da proposta. A contagem de fontes, nos cinco cadernos, chegou a 57 (algumas delas aparecem em diferentes cadernos), e os jornalistas recorreram a pelo menos 10 documentos. Além das fontes citadas nas reportagens, há duas enquetes com representantes de 15 entidades.
A infografia é um dos destaques dos relatórios, assim como as ilustrações, fotografias e os glossários de temas e siglas que aparecem na lei do Plano Diretor. Detalha-se como funciona o Conselho da Cidade, porém sem entrar na polêmica local sobre a forma de escolha de seus membros, e são expostas, em três relatórios, as opiniões dos e das vereadoras sobre a proposta do Executivo, registrando o nome dos seis que não deram respostas aos questionamentos. As páginas centrais trazem um breve perfil dos bairros de cada uma das cinco regiões, assim como as principais reivindicações da população, com o título geral “O que está em debate?”. Outro destaque é a reportagem do jornalista Paulo Clóvis Schmitz que conta a história dos planos diretores de Florianópolis a partir de análise do historiador Reinaldo Lohn. Entre as fontes, dá-se espaço para pesquisadores e lideranças comunitáriascríticas à proposta da Prefeitura.
A ausência mais surpreendente é justamente a do prefeito, Topázio Silveira Neto, agora no lugar de Gean Loureiro, que renunciou ao cargo para concorrer na eleição de outubro. A voz da Prefeitura em praticamente todos os cinco cadernos é a do secretário municipal de Mobilidade e Planejamento Urbano, Michel Mittmann. Um box no segundo relatório explica que a reportagem buscou fontes na Prefeitura e os contatos foram direcionados e centralizados no secretário, que tem sido criticado nas Audiências Públicas pelo discurso genérico, a falta de estudos fundamentais na proposta e as comparações que faz entre Florianópolis e cidades como Barcelona, na Espanha, para justificar medidas mal explicadas.
Apesar de ouvir representantes de diversas entidades e associações de moradores e apresentar posições em confronto, o conjunto de relatórios deixa a desejar no que tenho definido como a necessária irrupção, na cobertura jornalística, da experiência vivida no espaço geográfico. O segundo caderno, sobre a região Norte de Florianópolis, onde estão balneários disputados como Ingleses e Canasvieiras, traz uma discussão importante sobre a falta de política de habitação social na capital, com avaliação de pesquisadores na área. Mas seria fundamental que os jornalistas trouxessem à reportagem a vivência das populações nas ocupações urbanas, que ocorrem, entre outros motivos, pelo crescente aumento do valor do aluguel em Florianópolis. Na discussão sobre a mobilidade urbana, que aparece no quarto caderno, um diferencial seria a equipe de reportagem usar o criticado transporte coletivo local para fazer o percurso de cerca de 50 quilômetros entre o município vizinho de Palhoça até o Norte da Ilha, realidade de muitos trabalhadores que custa horas valiosas do cotidiano.
O diferencial de cobertura caberia também à imprensa independente/alternativa local, que padece da falta de profissionais e de recursos e não tem acompanhado os debates. De todo o modo, cabe registrar, em um grupo hegemônico tão criticado quanto o ND e faltando uma semana para a Audiência Pública Final, dia 8 de agosto, uma fumaça do bom jornalismo.
* Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo
Bois e queimadas: quase um quarto da devastação se concentra no estado do Pará – João Laet/AFP Fonte: Foto e legenda publicadas em Brasil de Fato
Por Cláudia Herte de Moraes*
O título mais sombrio tem razão de ser. Os alertas quanto às mudanças climáticas são contundentes e cada vez mais sabemos que não é alarmismo da mídia ou de cientistas divulgadores. O que estamos vivendo já demonstra claramente o “novo normal” que se coloca como desafio. Na última semana vimos ondas de calor sem precedentes na Europa serem tratadas ainda como oportunidade para tomar sol ou tomar sorvete, bem como medidas pontuais quanto à ação climática por parte do governo norte-americano de Joe Biden, e divulgação de mais dados sobre o crescente desmatamento no Brasil – tema sobre o qual este texto se debruça.
Ano passado, em junho, fiz uma análise neste Observatório tratando do desmatamento crescente nos biomas brasileiros, aproveitando a repercussão do lançamento do MapBiomas Alerta. Nesta semana, a contar de 18 de julho de 2022, voltamos a buscar as mesmas informações, novamente acompanhando o relatório que traz então as informações a respeito do desmatamento monitorado em 2021. O MapBiomas Alerta é uma iniciativa do consórcio MapBiomas constituído por mais de 20 instituições, entre ONGs, universidades e startups de tecnologia. Aberto ao público, pode ser consultado no site.
Em 2022, a equipe do MapBiomas concluiu que o desmatamento cresceu 20% em todos os biomas, tendo grande contribuição de atividades ilegais. O mesmo que concluiu nos anos anteriores do levantamento, ou seja, o problema só cresce! A minha questão é pensar como tratamos os preceitos da proteção ambiental no Brasil, tendo em vista a riqueza da nossa diversidade biológica nos diferentes biomas do território. A informação factual dos relatórios é relevante, porém precisa ser cada vez mais tratada pelo jornalismo como a ponta de um fio, que deve ser tecido com cruzamento de dados, apuração constante do tema, trazendo sempre contextualização quanto a causas e efeitos, perdas e danos da política do desmatamento brasileiro. Para observar a cobertura do lançamento de 2022, procurei ver em que medida esta contextualização está presente nas notícias, ressalvando que a repercussão do relatório pode – e deve – ser realizada nas próximas semanas.
No grandes portais UOL e G1, houve destaque ao resultado apontado pelo estudo que indicou, pela primeira vez, os setores responsáveis pelo desmatamento: a agropecuária com percentuais acima de 97%, citando também outros setores como garimpo, mineração, expansão urbana e outras causas minoritárias. O UOL também salientou que os órgãos de controle conseguiram atuar em menos de 3% do desmatamento ilegal identificado, ou seja, falta capacidade do Estado e do governo para atacar o problema.
No site especializado ((o))eco, houve realce para a fala do coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo, que afirma a necessidade de se atacar a impunidade, visto ser ela um incentivo ao problema da ilegalidade cometida sem a devida punição.
Como jornalismo contra-hegemônico, indico o exemplo da notícia do Brasil de Fato, no trecho que deu destaque à responsabilidade da ganância econômica, com a biodiversidade sendo transformada “em pasto, commodities agrícolas e especulação fundiária”. Na rede Mídia Ninja, a ênfase foi para o menor índice de perdas nas terras indígenas, embora se apresente a violência crescente contra seus povos e ativistas. Os povos indígenas conseguiram melhor preservar a cobertura vegetal mesmo diante da destruição que avança nas matas, lutando contra o PL 490/2007 (“Marco Temporal”) e o Projeto de Lei 191/20, de autoria de Bolsonaro, que permite exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em reservas indígenas. A contextualização na MN se dá pela responsabilização da política: “No período da gestão de Jair Bolsonaro à frente da presidência da República, entre 2019 e 2021, apenas 0,9% dos imóveis rurais concentram 77% da área desmatada no país em 2021, o que representa poucos atores somando gigantescas áreas de desmatamento”.
Tratar das conexões com outras questões ambientais e climáticas, tais como avanço do agronegócio, garimpos, mineração sobre as matas, descaso com fiscalização, impactos em relação à mudança climática, relação com áreas protegidas e terras indígenas, entre outros, é bastante positivo. Apontar e cobrar as responsabilidades públicas, ainda mais. É assim que cada cidadão poderá entender a dinâmica do que está em disputa – a nossa sobrevivência enquanto humanos – e poderá também agir, especialmente pela pressão aos poderes. Afinal, é necessário construir soluções para o nosso hoje e atuar democraticamente na defesa dos biomas. Diante deste desafio, o jornalismo tem plenas condições de atuar, pois pode trazer o debate sobre a política e sobre quem nos representa, que sejam aliados do ambiente ou, caso contrário, seguiremos a chorar mortes e perdas, ano após ano.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br
A perspectiva do Jornalismo Ambiental não se contenta apenas com a denúncia, com a exposição dos fatos. A informação deve ser bem apurada e devidamente checada, mas também permitir que os públicos compreendam a questão, avançando para uma abordagem que colabore com a educação e a promoção de uma postura cidadã. Logo, o fato de a destruição do Pampa seguir seu curso, ano após ano, precisa ser noticiado, porém não somente quando os números revelarem uma perda expressiva.
Tudo aquilo que se manifesta de forma lenta e contínua tende a ser naturalizado pela sociedade – e o jornalismo, baseado em critérios factuais e que supervalorizam aquilo que rompe com a normalidade, contribui para não discutirmos os processos insustentáveis que nos cercam. Uma alternativa, bem-vinda, é esperar algum dado novo para aprofundar a temática, como Daniela Chiaretti, do jornal Valor Econômico, fez na notícia “Pampa perde o equivalente a 2,5 vezes a área de Porto Alegre ao ano”. Ao dar alcance nacional à carta da Coalizão do Pampa, que traz ações para usos sustentável e conservação do bioma, a jornalista também ampliou o contexto de devastação, derivado, principalmente, do avanço da soja, eucalipto e pastagens plantadas, e trouxe a defesa do fortalecimento da pecuária familiar como uma das respostas à situação.
O lançamento da “Carta aberta à sociedade gaúcha pela proteção do Pampa” foi feito no dia 1º de julho, mas a repercussão na imprensa foi bastante pontual. Identificamos cobertura pela EcoAgência de Notícias Ambientais e pelo O Eco, por exemplo, porém os meios de comunicação tradicionais do Rio Grande do Sul não colaboraram para o debate público do bioma, que ocupa mais da metade do seu território – GZH publicou uma pequena nota sobre a divulgação da carta.
O jornalismo tem potencial de circular informações que possam melhor explicar nossa realidade e gerar subsídios para atitudes mais coerentes com o enfrentamento da crise ambiental já instalada. Aprofundamento da pauta, recorrência na cobertura e questionamentos para desnaturalizarmos as perdas (em todos os âmbitos) são possibilidades para que os públicos conheçam a dimensão das problemáticas ambientais e aprendam sobre o cuidado que devemos ter com o lugar no qual vivemos.
*Jornalista, doutora em Comunicação e em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Pesquisadora e vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eloisa.beling@gmail.com.
Correio Braziliense, G1 e Folha de S. Paulo noticiaram no final da semana passada o retorno à pauta do Congresso Nacional do projeto de lei que altera a legislação de controle dos agrotóxicos no Brasil. O PL do Veneno já havia sido notícia em fevereiro deste ano por conta da aprovação do texto na Câmara dos Deputados. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), aproveitou o plenário vazio na última quinta-feira, 7 de julho, para fazer o projeto tramitar antes do recesso parlamentar. A votação pode acontecer nesta semana sem que o texto passe pela Comissão de Meio Ambiente da Casa.
O projeto passa para o Ministério da Agricultura responsabilidades relativas ao registro e à fiscalização que hoje estão com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Também substitui o termo “agrotóxicos” da legislação vigente por “pesticidas”.
A escolha de um discurso que atenua os efeitos dessas substâncias é estratégica para os setores representados pela bancada ruralista. Embora se refiram ao mesmo produto, falar de agrotóxicos significa ressaltar os riscos ao ambiente e às populações em contato com seus componentes. Já o termo pesticida se restringe ao efeito pretendido pelo produto – o controle de organismos que “atrapalham” a produção agrícola convencional -, ignorando, portanto, os reais impactos dessa aplicação nos organismos, no solo e na água.
Por sua vez, o jornalismo fica menos acanhado e passa a se referir ao projeto de lei pelo apelido de PL do Veneno, como no caso da matéria de Folha de S. Paulo. Isto é positivo para o interesse público, pois significa que o jornalismo opta por dar destaque aos riscos que envolvem a proposta.
Quando o discurso jornalístico assume a nomenclatura que demonstra os perigos da substância, aproxima-se de um dos pressupostos do jornalismo ambiental: o princípio da precaução. O jornalista ambiental não deve se pretender neutro e deve assumir seu posicionamento em defesa das vidas humanas e não-humanas. Um dos mecanismos para isto é adotar um olhar mais cauteloso diante do desconhecimento sobre os danos permanentes que ações de impacto ambiental, como o uso de agrotóxicos, podem gerar ao planeta.
Por fim, vale destacar que algumas das matérias citadas, como a da Folha de S. Paulo e do G1, escolheram noticiar o PL do Veneno com o avanço de outro projeto de lei no Senado, este sobre a alteração do Código Florestal. Isso evidencia o modo de operação dos detentores do poder: passar a boiada sem que dê tempo da população discutir e entender os riscos que essas decisões representam para a sua vida cotidiana. Resta ao jornalismo contar às pessoas.